Simpósios – Propostas Temáticas com Integrantes
LARISSA PICINATO MAZUCHELLI (COORD.)
ISABELLA DE CÁSSIA NETTO MOUTINHO (COORD.)
[NEUROLINGUÍSTICA]
Integrantes:
1.
LARISSA PICINATO MAZUCHELLI
2.
ISABELLA DE CÁSSIA NETTO MOUTINHO
3.
MARCUS VINICIUS BORGES OLIVEIRA
4.
ARNALDO RODRIGUES DE LIMA
ROSANA DO CARMO NOVAES PINTO
5.
LUANA CRISTINA FELISBERTO ZACARIAS
7.
VALQUIRIA MIQUELINO DE OLIVEIRA
GABRIEL FABIANO RODRIGUES
9.
FERNANDA MUSSALIM GUIMARÃES LEMOS SILVEIRA
11.
TAYNÁ POVIA DE OLIVEIRA BERGAMASCHI
LUCIANE DE PAULA (COORD.)
[FILOSOFIA DA LINGUAGEM]
Integrantes:
1.
LUCIANE DE PAULA
PRISCILA DA COSTA SILVA
5.
ISABELLA LOURENCI KOJIMA
LUCIANE DE PAULA
7.
LILIANE PEREIRA DA SILVA COSTA
ROSÂNGELA NOGARINI HILÁRIO (COORD.)
[AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM]
Integrantes:
1.
ROSÂNGELA NOGARINI HILÁRIO
3.
JÉSSICA GABRIELLI DE GODOY
5.
SUELEN SILVA DE OLIVEIRA
IVANI FUSELLIER-SOUZA
ALESSANDRA DEL RÉ
8.
LINA CLARISSA ROCHA TRINIDAD
ALESSANDRA DEL RÉ
ANA CRISTINA BIONDO SALOMÃO (COORD.)
[LINGUÍSTICA APLICADA]
Integrantes:
1.
ANA CRISTINA BIONDO SALOMÃO
4.
IZABELLA LARISSA DOS SANTOS SANTIAGO
YAN MASETTO NICOLAI (COORD.)
[SEMÂNTICA]
Integrantes:
2.
THIAGO OLIVEIRA DA MOTTA SAMPAIO
FLAVIA BEZERRA DE MENEZES HIRATA VALE (COORD.)
[GRAMÁTICA FUNCIONAL]
Integrantes:
1.
FLAVIA BEZERRA DE MENEZES HIRATA VALE
BRUNO BOHOMOLETZ DE ABREU DALLARI (COORD.)
[HISTORIOGRAFIA LINGUÍSTICA]
Integrantes:
1.
BRUNO BOHOMOLETZ DE ABREU DALLARI
2.
ALESSANDRO JOCELITO BECCARI
4.
PEDRO HENRIQUE CAMARGO FREIRE
ALEXANDRE MARCELO BUENO (COORD.)
[SEMIÓTICA]
Integrantes:
1.
ALEXANDRE MARCELO BUENO
AMANDA LUIZA RIZZO DA SILVA
3.
KATI ELIANA CAETANO
ANUSCHKA REICHMANN LEMOS
4.
JOSÉ MANUEL PÉREZ ADÁRRAGA
CRISTINA DOS SANTOS CARVALHO (COORD.)
IRENILZA OLIVEIRA E OLIVEIRA (COORD.)
[LINGUÍSTICA E INTERFACES]
Integrantes:
1.
CRISTINA DOS SANTOS CARVALHO
2.
LAVINIA RODRIGUES DE JESUS
3.
WELLINGTON SANTOS DA SILVA
4.
IRENILZA OLIVEIRA E OLIVEIRA
JULIANA BERTUCCI BARBOSA (COORD.)
[ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA/SEGUNDA LÍNGUA]
Integrantes:
1.
JULIANA BERTUCCI BARBOSA
NATÁLIA FONTE BOA ROMUALDO
2.
MAIRA SUECO MAEGAVA CORDULA
3.
FABIANA DE FREITAS BATISTA
5.
THAINÁ CRISTINA DA SILVA FERREIRA
7.
LINA CLARISSA ROCHA TRINIDAD
MARINA CÉLIA MENDONÇA (COORD.)
[ANÁLISE DO DISCURSO]
Integrantes:
3.
MARINA TOTINA DE ALMEIDA LARA
5.
ANA LUCIA FURQUIM CAMPOS TOSCANO
7.
THIAGO HENRIQUE NASCIMENTO VERGARA
GLADIS MASSINI-CAGLIARI (COORD.)
[FONÉTICA E FONOLOGIA]
Integrantes:
1.
SABRINA EVELYN CRUZ OLIVEIRA
3.
CARLOS ELISIO NASCIMENTO DA SILVA
6.
JAYANE CAROLINE QUEIROZ SAMPAIO
Materialidade sonora e ordenação fônica: o eixo da Compositio como fundamento da Oratio Numerosa em D. Joan Garcia de Guilhade
7.
LISÂNGELA APARECIDA GUIRALDELLI
JUAN PRETE TOJEIRA RAMOS
MARIA DO ROSARIO GREGOLIN (COORD.)
[ANÁLISE DO DISCURSO]
Integrantes:
1.
MARIA DO ROSARIO GREGOLIN
2.
RAFAEL MARCURIO DA COL
“Nós vamos sorrir. Sorriam!”: um estudo discursivo foucaultiano da resistência no cinema sobre a ditadura civil-militar brasileira
5.
AGNES EDUARDA DA SILVA BRITO
6.
ROBERT LEANDRO SILVA FREITAS
8.
JULIANA APARECIDA BARBOSA DA SILVA
9.
MYLLENA ARAÚJO DO NASCIMENTO
CARLOS PIOVEZANI
12.
OFELIA REGINA BRAVIN MOREIRA
SEBASTIAN DRUDE (COORD.)
[LEXICOLOGIA E LEXICOGRAFIA]
Integrantes:
1.
SEBASTIAN DRUDE
Transformações tecnológicas em curso na lexicografia das línguas indígenas e o padrão CLDF (Cross-Linguistic Data Formats) como núcleo articulador de diferentes usos dos dados lexicais
3.
MAGDA PUCCI
MARLUI NÓBREGA MIRANDA
CRISTINA MARTINS FARGETTI
4.
ANTÔNIA FERNANDA DE SOUZA NOGUEIRA
FLÁVIO HENRIQUE FERREIRA PINHEIRO
PÂMELA DA SILVA ROSIN (COORD.)
[ANÁLISE DO DISCURSO]
Integrantes:
1.
PÂMELA DA SILVA ROSIN
LUZMARA CURCINO FERREIRA PIOVEZANI
Práticas de leitura e escrita em notas: uma análise discursiva da técnica de seleção e citação de frases de intelectuais brasileiro 2. PAUL FERNAND DA CUNHA LEITE “Poesia era coisa de mulher”: vergonha e gênero em discursos sobre a leitura
5.
ALINE MARIA PACÍFICO MANFRIM
8.
ADRIANA CICERA AMARAL FANCIO
ANNA CHRISTINA BENTES DA SILVA (COORD.)
[Sociolinguística e dialetologia]
Integrantes:
1.
ANNA CHRISTINA BENTES DA SILVA
INÊS ETULAIN
2.
CARLA REGINA MARTINS PAZA
4.
MARIA AMÉLIA SOUZA MOREIRA
ANTÔNIO SUÁREZ ABREU (COORD.)
[LINGUÍSTICA COGNITIVA]
Integrantes:
1.
ANA CAROLINA SPERANÇA CRISCUOLO
ANTÔNIO SUÁREZ ABREU
3.
ALEXANDRE BUENO SANTA MARIA
4.
MARIANA MOREIRA NUNES SANTA MARIA
7.
BEATRIZ QUIRINO ARRUDA DONÁ
A metonímia na anamnese: linguagem multimodal e construção do raciocínio clínico na relação médico-paciente
8.
PATRICIA ORMASTRONI IAGALLO
ANDRÉ NOGUEIRA XAVIER (COORD.)
MARCELO PORTO (COORD.)
[LÍNGUAS DE SINAIS]
Integrantes:
1.
ANDRÉ NOGUEIRA XAVIER
MARCELO PORTO
2.
RAFAEL CAVICHIOLLI TEIXEIRA
3.
RONALDY PAVÃO HEITKOETTER
5.
PRISCILA MARA SIMÕES
ANDRÉ NOGUEIRA XAVIER
7.
ANDERSON ALMEIDA DA SILVA
8.
RAFAELA DE MEDEIROS ALVES KOROSSY
MARIANA LUZ PESSOA DE BARROS (COORD.)
THIAGO MOREIRA CORREA (COORD.)
[SEMIÓTICA]
Integrantes:
1.
MARIANA LUZ PESSOA DE BARROS
3.
BÁRBARA ZEQUINI SILVESTRE
6.
PAULA CRISTINA CORREA CAPELOZZA
7.
ANA PAULA FERREIRA DE MENDONÇA
JEAN CARLOS DA SILVA GOMES (COORD.)
[PSICOLINGUÍSTICA]
Integrantes:
1.
JEAN CARLOS DA SILVA GOMES
5.
PEDRO HENRIQUE SOUSA DOS SANTOS
6.
PATRICIA SILVA DE CAMARGO
7.
MARIA EUGÊNIA ARANTES GONÇALVES
8.
FERNANDO LUIS ANTUNES SABATINI
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK (COORD.)
CAROLINE CARNIELLI BIAZOLLI (COORD.)
[LINGUÍSTICA HISTÓRICA]
Integrantes:
1.
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK
CAROLINE CARNIELLI BIAZOLLI
4.
SANDERLEIA ROBERTA LONGHIN
MARIA LUIZA BARROS DA CUNHA
6.
MILENA APARECIDA DE ALMEIDA
7.
EMANUELA RODRIGUES DA SILVA
8.
DÉBORA APARECIDA DOS REIS JUSTO BARRETO
FILIPO PIRES FIGUEIRA (COORD.)
[ANÁLISE DO DISCURSO]
Integrantes:
4.
BRENO RAFAEL MARTINS PARREIRA RODRIGUES REZENDE
ANDERSON CARNIN (COORD.)
MIRELLA DE OLIVEIRA FREITAS (COORD.)
[ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUA MATERNA]
Integrantes:
3.
WILLIAM PINHEIRO DA SILVA
4.
GABRIELA ANDREOLLA LOCATELLI
7.
MIRELLA DE OLIVEIRA FREITAS
EMERSON DE PIETRI (COORD.)
[LETRAMENTO(S)]
Integrantes:
2.
MANOEL LUIZ GONÇALVES CORRÊA
3.
ELISANGELA PEREIRA DA SILVA
5.
VANESSA DOS SANTOS ARAUJO
6.
TRICIANE RABELO DOS SANTOS DE ALMADA
7.
REINALDO RODRIGUES MONÇÃO JUNIOR
8.
BRUNA MARIA ATALLA PEREIRA
9.
JULIANA ALVES ASSIS
FABIANA CRISTINA KOMESU
10.
MARLUZA TEREZINHA DA ROSA
11.
LÚCIA REGIANE LOPES-DAMASIO
12.
RENATA PALUMBO
JÚLIO BIZIGATO PORTES
ANA CÉLIA RIBEIRO BIZIGATO PORTES
CRISTIAN HENRIQUE IMBRUNIZ (COORD.)
[LINGUÍSTICA APLICADA]
Integrantes:
1.
CRISTIAN HENRIQUE IMBRUNIZ
2.
RITA DE FATIMA RODRIGUES GUIMARÃES
ARYANE SANTOS NOGUEIRA
INÊS SIGNORINI
4.
RACHEL FERREIRA OLIVEIRA SANTOS
ARYANE SANTOS NOGUEIRA
RONALD BELINE MENDES (COORD.)
[SOCIOLINGUÍSTICA E DIALETOLOGIA]
Integrantes:
1.
MARCUS GARCIA DE SENE
RONALD BELINE MENDES
2.
ALINE BEZERRA FALCÃO DE OLIVEIRA
3.
AMANDA TRUBANO DA SILVA
LIVIA OUSHIRO
4.
HIGOR ALVES SENA
RONALD BELINE MENDES
JULIA LOURENÇO COSTA (COORD.)
JEAN CRISTTUS PORTELA (COORD.)
[SEMIÓTICA]
Integrantes:
1.
JULIA LOURENÇO COSTA
PATRICIA VERONICA MOREIRA
5.
THIAGO EVERTON AYABE FERRARESSO DE SIQUEIRA
6.
POLIANA MAGALHÃES OLIVEIRA
7.
WENDELL LOPES DE AZEVEDO BRAULIO
8.
CAROLINA PASQUOTE VIEIRA
MARIANA LUZ PESSOA DE BARROS
10.
VINÍCIUS DOS SANTOS RIBEIRO
11.
KELLY PRAXEDES PEREIRA DA CRUZ
SUZI MARQUES SPATTI CAVALARI (COORD.)
[LINGUÍSTICA APLICADA]
Integrantes:
1.
SUZI MARQUES SPATTI CAVALARI
SOLANGE ARANHA
2.
ROSÂNGELA APARECIDA DANTAS DE OLIVEIRA
4.
MARIA DO PERPÉTUO SOCORRO DE OLIVEIRA SANTOS
INARA RAISSA MALDONADO OLIVEIRA
PROPOSTA TEMÁTICA
LARISSA PICINATO MAZUCHELLI
[Área temática: Neurolinguística]
A Linguagem na fala, na leitura e na escrita em contextos normais e patológicos
Este simpósio objetiva reunir trabalhos de pesquisadores de diferentes instituições de ensino superior, inscritos na Neurolinguística Discursiva, que contribuem para a teorização linguística, o trabalho clínico e o enfrentamento de processos de patologização. No contexto da educação, as apresentações exploram: i) as maneiras pelas quais intervenções clínicas reduzem a leitura à fluência, excluindo os processos de construção de sentido; ii) o caso de uma criança cujo processo normal de apropriação da leitura e da escrita foi patologizado; iii) como se organizam as interações envolvendo um estudante com TEA em contexto de ensino e aprendizagem de inglês como língua adicional; iv) as adaptações/flexibilizações das atividades escolares e as intervenções do professor especialista nas produções textuais de alunos regularmente matriculados no Ensino Médio Regular; v) como determinadas práticas terapêuticas e educacionais orientadas por perspectivas biomédico-comportamentais deslocam para o campo do déficit processos singulares de significação; e vi) a ascensão de jogos em ambientes digitais voltados ao trabalho educacional e clínico-terapêutico com a linguagem. No contexto do envelhecimento, os trabalhos abordam: vii) como a racionalidade biomédica e a cultura do desempenho atualizam práticas de medicalização do envelhecimento por meio da educação; viii) o caráter intergeracional das atividades promovidas pelo projeto de extensão interinstitucional "Observatório do Idadismo”; e ix) como os sentidos atribuídos à menopausa no âmbito da saúde pública contribuem para a manutenção ou deslocamento de sentidos patologizantes do envelhecimento da mulher. Finalmente, três trabalhos tratam de questões teórico-metodológicas fundamentais aos estudos do campo: x) a hipótese de que o agramatismo seria o protótipo da afasia de combinação; xi) a contribuição da mobilização dos conceitos de cena enunciativa, cenografia e cognição distribuída para a análise de dados e das interações produzidas no Centro de Convivência de Afásicos (IEL/Unicamp); e xi) uma teoria neurológica que revê os papéis e a relação entre o hemisfério direito e o hemisfério esquerdo na fala e na escrita. As investigações, que envolvem a análise discursiva de dados de naturezas variadas, exploram, portanto, a complexidade da relação normal-patológico no contexto dos estudos sobre envelhecimento, das afasias, do Transtorno do Espectro Autista, da aquisição de linguagem, da alfabetização e do trabalho com a leitura e a escrita. Buscam contribuir, assim, com um fazer científico para o qual os processos singulares de significação dos quais os sujeitos lançam mão orientam não somente a teorização neurolinguística, mas uma práxis clínica e educacional ética e responsável.
Palavras-chave: práticas com a linguagem;; relação normal-patológico; fala leitura e escrita;
PROPOSTA TEMÁTICA
LUCIANE DE PAULA
[Área temática: Filosofia da Linguagem]
A verbivocovisualidade em perspectiva dialógica: produção material e compreensão cognoscível
O termo verbivocovisualidade (vvv) não se encontra nas obras bakhtinianas. Entretanto, a concepção discursiva de linguagem proposta pelo Círculo considera produção e compreensão de modo tridimensional. A chave se encontra na cognoscência (a concepção filosófica de sujeito cognoscente e cognoscível), assumida como sígnica e o signo, tomado como social-ideológico. Ao tratar da compreensão interna cognoscível, Volóchinov, em vários de seus textos, assim como Medviédev, Bakhtin, Sollertinsky e Yudina, esclarece que não há produção externa sem compreensão. Ao se voltar à construção do enunciado e do gênero discursivo, Bakhtin (e outros pensadores do Círculo de Nevel e Vitébski) trata da intrinsecabilidade existente entre conteúdo temático, forma composicional e estilo autoral e genérico como características arquitetônicas do projeto de dizer discursivo do sujeito. O gênero, em sua relativa estabilidade, por um lado, demanda explicitação de determinado trabalho de linguagem e, por outro, encontra-se aberto para a criação ética-estética do autor-criador para a expressão material de seu projeto de dizer. Nesse movimento processual dialético-dialógico, o discurso interno-externo é produzido cognoscivelmente e a concretização material enunciativa ocorre com códigos únicos ou em interação explícita, mas sempre considerados pelo e no processo de compreensão em síncrese tridimensional verbivocovisual. Neste simpósio, o objetivo é estudar, por meio dos fundamentos da filosofia da linguagem bakhtiniana, como a verbivocovisualidade da linguagem interna (cognoscível) se expressa material e concretamente em enunciados de gêneros variados, ilustrados por delimitações metodológicas de cada estudo realizado, em suas singularidades e como elos discursivos. Para isso, oito (8) apresentações orbitam em torno dessa temática central. As duas primeiras analisam construções bitonais/bivocais focadas na entonação expressiva como elemento que liga exterior e interior cognoscível, contribuindo para a construção da visualidade e da produção de sentidos do discurso. A terceira e a quarta tomam enunciados do campo do audiovisual para compreender a construção explícita da vvv em transposições entre gêneros em forma de saga seriada. A quinta, a partir do romance, preocupa-se com a construção do estilo autoral como expressão subjetivo-social. A sexta e a sétima versam sobre a pertinência e a relevância dos multiletramentos digitais verbivocovisuais na educação. A oitava, por fim, trata da produção-compreensão verbivocovisual ao estabelecer um diálogo entre o pensamento bakhtiniano e a psicanálise freudiana. Como resultado, espera-se abrir possibilidades para outras abordagens investigativas focadas na estudo da verbivocovisualidade em perspectiva dialógica.
Palavras-chave: Estudos bakhtinianos; verbivocovisualidade; discurso
PROPOSTA TEMÁTICA
ELIANE SOARES DE LIMA
[Área temática: Semiótica]
Afetos, paixões, práticas e formas de vida: análises semióticas
A consideração do domínio sensível na configuração do sentido, a partir da obra Semiótica das paixões: dos estados de coisas aos estados de alma, de Greimas e Fontanille (1993 [1991]), marcou uma mudança nos rumos da proposta teórico-metodológica da Semiótica de linha francesa, o que ficou conhecido como a sua "virada fenomenológica". Noções como percepção, corpo-próprio, presença ou campo de presença, modulações tensivas, contágio, etc, passaram a fazer parte das investigações dos semioticistas e, por conseguinte, dos desenvolvimentos posteriores da teoria em suas diferentes vertentes. Seja no interesse pelo estudo dos diferentes regimes de interação e das condições de emergência da significação em cada um deles, seja na ampliação dos níveis da análise semiótica, que agora se estendem aos objetos-suportes, às práticas e estratégias semióticas, chegando às formas de vida, o universo passional tem sempre o seu lugar. Assim, mais do que o estudo discursivo das paixões em si, tem sido a configuração de uma dimensão passional dos enunciados, quaisquer que sejam eles, verbais ou não-verbais — bem como a experiência sensível do sentido, as condições de emergência da afetividade que daí advém (a experiência estésica e estética) —, o que tem se consolidado como interesse de análise no campo da Semiótica Discursiva, trazendo à cena a possibilidade de refinamento das análises na perspectiva do discurso em ato, das dinâmicas sensíveis da enunciação. Dessa forma, são justamente as circunstâncias perceptivas desse sentido sentido (experimentado, vivido) pelo sujeito nas interações com o entorno, que faz sentir para então fazer crer, seja a partir de textos, interações ou práticas sociais distintas, o que será explorado pelas discussões a serem apresentadas no âmbito deste simpósio. Interessa fazer dialogar os desdobramentos contemporâneos das vertentes da Semiótica Discursiva com os modelos já consolidados desde o início de sua oferta metodológica, verificando a atuação do componente sensível e afetivo no processo de construção do sentido em manifestações significantes diversas, de um texto clássico latino à música de concerto, de interações patêmicas nas redes sociais às linguagens híbridas ou poéticas. O intuito, por fim, é que os trabalhos apresentados possam pôr à prova a produtividade e a atualidade do estudo da dimensão passional em textos bastante diversos: artísticos ou prosaicos, clássicos ou midiáticos, etc, para, assim, animar o debate sobre tal problemática e sobre questões de análise que possam então se impor.
Palavras-chave: paixões; tensividade; práticas e formas de vida;
PROPOSTA TEMÁTICA
ROSÂNGELA NOGARINI HILÁRIO
[Área temática: Aquisição de Linguagem]
Aquisição da Linguagem: saberes em interfaces
O simpósio "Aquisição da Linguagem: saberes em interface" tem como objetivo promover a integração e o diálogo entre pesquisadores de diferentes regiões do Brasil, com ou sem parcerias internacionais. A proposta busca consolidar um espaço acadêmico plural e interdisciplinar, voltado à discussão de pesquisas que investigam fenômenos linguísticos relacionados ao discurso, à interação dialógica e às dimensões multimodais da linguagem, considerando diferentes línguas e contextos de uso. Nessa perspectiva, o simpósio contempla estudos que abordam temas diversos e complementares, como bilinguismo, a produção de humor e de narrativas, a entrada na argumentação, o papel da multimodalidade na aquisição da linguagem, além de processos que atravessam e ancoram a produção linguageira da criança, como a andaimagem e a (co)construção de sentidos em situações interativas. Ao reunir essas temáticas, pretende-se fomentar reflexões teóricas e metodológicas, ampliar o debate científico e fortalecer redes de colaboração entre pesquisadores, contribuindo para a difusão do conhecimento produzido na área de Aquisição da Linguagem. A proposta é apresentada pelo Grupo de Estudos em Aquisição da Linguagem (GEALlin), um grupo interinstitucional que congrega estudantes de graduação e pós-graduação, além de mestres e doutores, engajados na investigação de fenômenos linguísticos sob uma perspectiva dialógico-discursiva e multimodal. O grupo desenvolve projetos de pesquisa e extensão em âmbito nacional e internacional, destacando-se as colaborações com as universidades Sorbonne Nouvelle e Paris 8, o que reforça seu compromisso com a internacionalização e a circulação do conhecimento. O simpósio destina-se a discentes da pós-graduação, mestres e doutores cujas pesquisas se concentrem na aquisição de línguas faladas e/ou sinalizadas, em contextos típicos ou atípicos, envolvendo sujeitos monolíngues ou bilíngues, ancoradas em abordagens interacionistas, discursivas, enunciativas e/ou multimodais. Serão acolhidos trabalhos derivados de dissertações e teses, em andamento ou concluídas, bem como pesquisas desenvolvidas por docentes de instituições de ensino superior, consolidando o simpósio como um espaço de circulação e valorização da produção acadêmica na área.
Palavras-chave: Aquisição da Linguagem; Linguagem da criança; Abordagem dialógico-discursiva;
PROPOSTA TEMÁTICA
ANA CRISTINA BIONDO SALOMÃO
[Área temática: Linguística Aplicada]
As interseções entre Internacionalização, Linguística e Ensino
A crescente consolidação da Internacionalização em Casa (IeC) e do intercâmbio virtual (Virtual Exchange – VE) no ensino superior tem provocado transformações significativas nas formas de compreender a internacionalização e seus impactos sobre os estudos da linguagem, a formação docente e o ensino e aprendizagem de línguas. Tradicionalmente associada à mobilidade acadêmica presencial, a internacionalização passa a incorporar práticas mediadas por tecnologias digitais que promovem interação intercultural em ambientes institucionais locais e transnacionais. Nesse cenário, a linguagem assume papel central, não apenas como meio de comunicação internacional, mas como dimensão constitutiva dos próprios processos de internacionalização. Este simpósio propõe discutir as interseções entre internacionalização, Linguística e ensino, focalizando práticas interacionais desenvolvidas em contextos de aprendizagem virtual e colaboração internacional online. Os trabalhos reunidos articulam diferentes perspectivas teóricas e metodológicas da Linguística e da Linguística Aplicada, incluindo estudos sobre formação de professores, pragmática, conversação, interculturalidade e mediação pedagógica em ambientes digitais. O eixo comum das pesquisas é a análise de experiências de Internacionalização em Casa desenvolvidas em contextos educacionais mediados por tecnologias digitais, especialmente por meio de práticas de intercâmbio virtual e telecolaboração. As investigações discutem questões relacionadas a práticas discursivas em ambientes virtuais colaborativos, negociação intercultural, construção de identidades, multimodalidade, mediação linguística e pedagógica, além das dinâmicas de interação em contextos transnacionais de ensino e aprendizagem. Os estudos também problematizam os impactos dessas experiências para a formação docente, para o desenvolvimento de competências interculturais e para a construção de práticas pedagógicas mais críticas e inclusivas. Ao deslocar o foco da internacionalização da mobilidade física para práticas sociais, discursivas e colaborativas situadas, os trabalhos evidenciam a centralidade da linguagem na constituição da experiência internacional contemporânea. Nessa perspectiva, a internacionalização deixa de ser compreendida apenas como mobilidade ou estratégia de circulação acadêmica e passa a ser entendida como prática social e epistemológica mediada pela interação, pela negociação de sentidos e pela circulação de saberes em ambientes digitais. O simpósio busca, assim, contribuir para o fortalecimento de agendas de pesquisa que articulem internacionalização, tecnologias digitais e estudos da linguagem, enfatizando perspectivas mais inclusivas e equitativas de educação internacional.
Palavras-chave: Internacionalização em Casa; Intercâmbio virtual; tecnologias digitais;
PROPOSTA TEMÁTICA
YAN MASETTO NICOLAI
[Área temática: Semântica]
Coerção, coerções: interfaces entre Psicolinguística experimental, Semântica formal e Pragmática
Duas coerções bastante estudadas na linguística em geral são a coerção de tipo (ou coerção de complemento, ou type shift) e a coerção aspectual. Pesquisas sobre esses temas se consolidaram na década de 80 e 90 na semântica formal com trabalhos como os de Marc Moens e de Mark Steedman. Já na década de 90, o tema passa a ser objeto de estudos experimentais com trabalhos como os de do psicolinguista Matthew Traxler. Este simpósio propõe uma discussão aprofundada sobre os fenômenos de coerção de tipo e de coerção aspectual, sob uma perspectiva multidimensional que integra a Semântica e Pragmática Formais e a Psicolinguística Experimental. Podemos dizer que a coerção ocorre quando há uma atualização entre o falante e o ouvinte, em que aquele promove a atualização de seus afazeres a partir dos desejos pessoais (Speaker Wishlist para Addressee’s To-Do-List, seguindo a proposta mais atual de Masetto, que se deriva da teoria da Propriedade de Portner). Para a Semântica de cunho formal, a coerção é tratada junto aos imperativos, e o que na Pragmática se chamará força diretiva, já que um elemento linguístico, por via costumeiramente de uma sentença, fará com que o ouvinte desta realize uma ação no mundo após seu proferimento. Deste modo, sob a ótica Formal, discutiremos os mecanismos lógicos e as operações de tipo que permitem essa atualização - o engajamento - através do elemento linguístico, dentre eles a sentença imperativa é o grande exemplo. No campo da Psicolinguística, o foco recai sobre os custos de processamento cognitivo em tempo real (online) e as operações mentais necessárias para reconfigurar essas estruturas. No que se refere à coerção de tipo, tal reconfiguração seria a de transformar um complemento nominal em eventivo. No caso da coerção aspectual, o quanto um evento pontual pode se encaixar em um contexto durativo sem sequer nos darmos conta de que existe uma diferença aspectual que torna o evento iterativo. Tais processos mentais são mensurados através de técnicas experimentais como rastreamento ocular, leitura automonitorada e neuroimagem. A partir desse panorama, o objetivo deste simpósio é, portanto, promover um diálogo entre a elegância dos modelos formais e a robustez dos dados experimentais, mapeando como o sistema linguístico resolve tensões entre o léxico e a estrutura para gerar significados complexos.
Palavras-chave: Coerção; Psicolinguística Experimental; Interface Semântico-Pragmática;
PROPOSTA TEMÁTICA
FLAVIA BEZERRA DE MENEZES HIRATA VALE
[Área temática: Gramática Funcional]
Construções em foco: uso, função e mudança no português
Este simpósio reúne resultados de quatro investigações que, a partir de diferentes perspectivas teóricas, convergem para a análise de construções linguísticas no português, com ênfase na interface entre forma, significado, uso e mudança. Em conjunto, os estudos abordam: (i) o funcionamento da construção “dizer que” na variedade angolana do português; (ii) as construções condicionais-concessivas insubordinadas com "nem que" no português brasileiro; (iii) a diacronia de conectores de finalidade sob uma perspectiva construcional; e (iv) construções insubordinadas, semi-insubordinadas e explicativo-causais à luz da Gramática Discursivo-Funcional (GDF). No que se refere à variedade angolana, a análise da construção “dizer que” evidencia sua multifuncionalidade, abrangendo usos reportativos, evidenciais e avaliativos, o que revela processos de gramaticalização e especialização pragmática condicionados por fatores discursivos e sociolinguísticos. Já o estudo sobre "nem que" focaliza construções insubordinadas condicionais-concessivas, demonstrando que, embora formalmente subordinadas, essas estruturas são empregadas de modo independente, desempenhando funções pragmáticas (inter)subjetivas, como expressão de desejo, avaliação e réplica, organizadas em um continuum de composicionalidade e convencionalização. Sob uma perspectiva diacrônica, a investigação dos conectores de finalidade (a fim de, no intuito de, com o objetivo de) evidencia que essas microconstruções emergem em diferentes momentos da história do português por meio de processos de construcionalização. Os resultados apontam para mudanças graduais que envolvem perda de composicionalidade e aumento de produtividade e esquematicidade, contribuindo para o fortalecimento do subesquema de finalidade na rede construcional da língua. Por fim, a análise das construções introduzidas por “que” no português brasileiro, com base na GDF, demonstra que insubordinadas, semi-insubordinadas e explicativo-causais devem ser descritas a partir de sua função no nível interpessoal, como Atos Discursivos independentes ou parcialmente dependentes, e Comentários. Os resultados demonstram que a validade da análise via GDF reside na capacidade de delimitar as fronteiras dessas construções a partir de sua independência ou dependência pragmática. A proposta reforça a importância de considerar a extra-oracionalidade para uma descrição gramatical que capture a realidade dos usos linguísticos no português brasileiro. Em conjunto, os estudos reforçam a relevância de abordagens baseadas no uso e na integração entre níveis de análise, evidenciando que fenômenos tradicionalmente marginalizados podem ser sistematicamente descritos quando considerados em sua dimensão funcional, cognitiva e histórica.
Palavras-chave: construções complexas; gramática de construções; Gramática Discursivo-Funcional;
PROPOSTA TEMÁTICA
BRUNO BOHOMOLETZ DE ABREU DALLARI
[Área temática: Historiografia Linguística]
Das concepções de língua às políticas linguísticas - pesquisas contemporâneas em Historiografia Linguística
Concepções de língua são parte dos saberes tácitos dos falantes, do conhecimento latente independente de aprendizagem explícita, subjacente às suas práticas, atitudes e posicionamentos quotidianos espontâneos. Esses entendimentos podem se originar do uso da língua estabelecido na comunidade a que pertencem ou podem ter como fonte gramáticas ou outras formas de metalinguagem expressamente concebidas para configurar a expressão linguística. Historicamente, a reflexão gramatical elaborou e proveu grande parte das formulações que deram origem a essas concepções que se disseminaram como entendimentos do senso comum sobre a linguagem. Com o advento do Estado moderno, elas foram integradas ao arcabouço de políticas linguísticas deliberadamente concebidas para constituir as comunidades nacionais. Partindo de uma origem filosófica em que a reflexão metalinguística era entendida sobretudo como contribuição à elaboração do pensamento, novos contextos históricos e políticos fizeram com que essas concepções passassem a ser objeto de disputa, não só acadêmica, mas concernente a diretrizes educacionais e práticas pedagógicas, no contexto da institucionalização das línguas nacionais. Este simpósio apresenta pesquisas contemporâneas sobre essa temática, realizadas em torno de atividades promovidas pelo CEDOCH (Centro de Documentação em Historiografia da Linguística, baseado na USP, mas congregando pesquisadores em Historiografia Linguística de várias partes do Brasil). A Historiografia Linguística é uma abordagem consolidada internacionalmente, estabelecida a partir das formulações programáticas de Konrad Koerner e Pierre Swiggers, ancoradas, por sua vez, na proposta de releitura da história da ciência colocada por Thomas Kuhn (1962). No Brasil, ela foi implementada e vem sendo desenvolvida a partir do trabalho da Profa.Cristina Altman (USP). Todas as comunicações apresentadas neste simpósio se inscrevem nesta linha de pesquisa. Conforme aponta Altman (2012), a historiografia linguística não é uma meta-disciplina paralela à Linguística, mas uma área que integra e dialoga intensa e diretamente com a produção contemporânea da disciplina. Longe de ser mera crônica dos fatos passados, a historiografia linguística é uma área crítica e interpretativa de todo o fazer científico da Linguística.
Palavras-chave: historiografia linguística; política de língua; gramática
PROPOSTA TEMÁTICA
ALEXANDRE MARCELO BUENO
[Área temática: Semiótica]
Discursos sobre/da alteridade: imigração e semiótica
O tema da imigração mobiliza uma série de discursos, desde preconceitos e intolerâncias até valorizações da diversidade produzida pela alteridade. Em um cenário internacional marcado pela intensificação dos deslocamentos humanos, por crises humanitárias, por políticas de controle de fronteiras e pela reconfiguração das identidades culturais e sociais, o presente simpósio tem por objetivo reunir propostas teóricas e analíticas sobre questões ligadas à imigração e ao refúgio no Brasil e no mundo, tendo como ponto teórico em comum a semiótica discursiva. Por meio da teoria, é possível examinar como sujeitos imigrantes e refugiados são representados e valorados em diferentes textos e esferas de circulação, como a mídia, os discursos políticos, os documentos institucionais, as redes sociais, as produções artísticas, os espaços urbanos, entre outras. Interessa, nesse quadro teórico, compreender de que modo se organizam percursos narrativos de exclusão e/ou de acolhimento, bem como as articulações axiológicas, passionais e figurativas que sustentam práticas e formas de vida contrárias ou favoráveis à imigração e ao refúgio. Além disso, é de interesse deste simpósio acolher trabalhos ligados à análise dos discursos produzidos pelos próprios imigrantes ou refugiados como um modo de compreender o ponto de vista da alteridade em relação à sociedade de acolhimento, seus valores, temas, práticas e formas de vida. A perspectiva fundada pela semiótica possibilita apreender os mecanismos pelos quais se elaboram tanto discursos de rejeição, medo e ameaça quanto discursos de solidariedade, reconhecimento e esperança sobre o/do outro. O simpósio, portanto, propõe-se a discutir não apenas os modos de representação da imigração e do refúgio, mas também as práticas de significação que configuram experiências de mobilidade, pertencimento, vulnerabilidade e resistência, entre outras possibilidades. O simpósio busca, em seu limite, consolidar um campo de investigação a respeito das dimensões culturais, sociais e políticas dos deslocamentos contemporâneos por meio de seus discursos. Desse modo, pretende-se contribuir para o avanço dos estudos sobre imigração e refúgio nos estudos discursivos, evidenciando a capacidade heurística da semiótica por meio da análise de discursos e práticas em que as sociedades constroem, negociam e transformam os sentidos da alteridade em um campo marcado por encontros e desencontros que produzem conformações e tensões entre a identidade e a alteridade.
Palavras-chave: semiótica discursiva; imigração e refúgio; interações;
PROPOSTA TEMÁTICA
CRISTINA DOS SANTOS CARVALHO, IRENILZA OLIVEIRA
[Área temática: Linguística e interfaces]
Diálogos África-Brasil: o português afro-brasileiro, variedades africanas do português e línguas africanas na diáspora
Do ponto de vista linguístico, o Brasil e os chamados Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial – partilham, entre outros aspectos, além de uma realidade multilíngue, o fato de terem tido uma língua europeia (o português) transplantada para os seus territórios. Nessa perspectiva, o domínio colonial português ultrapassou questões políticas, tendo fortes impactos linguísticos nas áreas colonizadas. A esse respeito, Nascimento (2019, p. 44) afirma que “[...] o sistema perverso de colonialidade que produziu [...] séculos de escravidão negreira e dizimação dos povos originários de cada lugar onde se colonizava, não se deu fora, mas dentro dos sistemas linguísticos”. O violento processo de colonização dos territórios invadidos ainda ocasionou, através de tráficos humanos, a diáspora de africanos(as) escravizados(as) para diversos locais, motivando o contato entre as línguas empregadas por esses(as) africanos(as) e as línguas utilizadas nesses locais. No caso do Brasil, as tradições relativas às línguas-linguagens de povos originários do continente africano emergem nas interações cotidianas, a partir da permanência de vocábulos próprios de línguas como quimbundo, quicongo, yorubá, ewe-fon; nas comunidades de terreiros; e em outros contextos interacionais em que são valorizadas as línguas-culturas africanas. Nesse caso, o português é recombinado com línguas-linguagens deixadas pelos ancestrais africanos e reconfigurado em padrões interacionais num formato afrodiaspórico. Assim, o contexto de plurilinguismo e fatores sócio-históricos relacionados à colonização portuguesa e à diáspora africana possibilitaram a emergência de novas variedades linguísticas do português e a utilização de línguas africanas em contextos afrodiaspóricos. Nesse viés, reunimos, neste simpósio, pesquisadores(as) de distintas vertentes da Linguística e de orientação epistemológica decolonial que desenvolvem trabalhos com ênfase na descrição de fenômenos linguísticos: (i) no português afro-brasileiro; (ii) em uma ou mais variedades africanas da língua portuguesa (cotejando-as ou não com o português brasileiro); (iii) em um ou mais contextos afrodiaspóricos. Com a proposição deste simpósio, esperamos que as discussões teóricas e/ou metodológicas e os resultados empíricos (a serem) apresentados possam contribuir para a realização e, por conseguinte, a ampliação de pesquisas mais afrocentradas sobre os contextos de África e Brasil no cenário dos estudos linguísticos.
Palavras-chave: Variedades africanas do português; Línguas africanas na diáspora; Português afro-brasileiro
PROPOSTA TEMÁTICA
JULIANA BERTUCCI BARBOSA
[Área temática: Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Ensino de português em contextos plurais: PLE/PLA, variação linguística, acolhimento e abordagens decoloniais
Este simpósio reúne oito trabalhos que articulam o ensino de Português como Língua Estrangeira/Adicional (PLE/PLA), a variação linguística e/ou as práticas pedagógicas em contextos contemporâneos, com ênfase na problematização de ideologias linguísticas e na superação de abordagens normativas excludentes. Ao integrar diferentes perspectivas teóricas — especialmente da Sociolinguística Variacionista, da Sociolinguística Educacional e de abordagens críticas e decoloniais —, o simpósio se configura como um espaço de reflexão sobre o ensino do português em sua diversidade constitutiva. Os estudos investigam como diferentes variedades do português são mobilizadas, avaliadas e ensinadas em contextos formais e não formais, tanto no Brasil quanto em cenários internacionais, como os vinculados ao Programa PEC-PLE. Os trabalhos contemplam análises de materiais didáticos, práticas de sala de aula, formação de professores e percepções/atitudes linguísticas de aprendizes, evidenciando tensões entre norma(s), uso(s), contato e diversidade. Destaca-se, nesse conjunto, a discussão sobre processos de descolonização do ensino de línguas, que propõem deslocar o foco de modelos centrados em variedades hegemônicas para abordagens mais plurais, sensíveis às práticas reais de linguagem e às identidades dos sujeitos. Nessa perspectiva, o ensino de PLE/PLA é compreendido como espaço de negociação cultural, no qual se articulam língua, poder e pertencimento. Além disso, o simpósio incorpora reflexões sobre políticas linguísticas, internacionalização e ensino reflexivo, considerando o papel do PLE/PLA na circulação global do português e na construção de práticas pedagógicas mais inclusivas e socialmente responsáveis. Ao reunir oito trabalhos que dialogam entre si, o simpósio evidencia a relevância de pensar o ensino de português em uma perspectiva plural, alinhada às demandas de contextos plurilíngues e multiculturais. Espera-se, com este simpósio, contribuir para o avanço das discussões na área, promovendo o diálogo entre pesquisadores e professores e incentivando práticas pedagógicas que reconheçam a heterogeneidade linguística como princípio constitutivo da língua e como recurso central no processo de ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: normas; PLE/`PLA; ensino-aprendizagem
PROPOSTA TEMÁTICA
MARINA CÉLIA MENDONÇA
[Área temática: Análise do Discurso]
Enunciado concreto como uma totalidade de sentido e alteridade: questões em torno da análise dialógica de discursos em diferentes contextos
Este simpósio tem como base o quadro teórico-metodológico da Análise Dialógica do Discurso, que toma como suporte escritos de Mikhail Bakhtin e autores do Círculo, como Valentin Volochínov e Pavel Medviédev, e reúne pesquisas desenvolvidas por membros do Slovo-Grupo de Estudos do Discurso (CNPq). O objetivo é apresentar trabalhos que enfoquem a temática das relações do sujeito com a alteridade, seja em práticas enunciativas que envolvem sujeitos com vulnerabilidade social, seja em situações que abordam uso de plataformas de Inteligência Artificial (IA) e/ou ensino/aprendizagem. Assim, são apresentadas, por um lado, questões que envolvem práticas discursivas de/sobre grupos socialmente vulneráveis, entre elas as relações alteritárias que se produzem: na Poetry Slam; no gênero discursivo manual de linguagem inclusiva; na Parada do Orgulho LGBT+; em manifestações da Cultura Ballroom no meio digital. Por outro lado, o simpósio contempla as relações de alteridade e valorativas presentes em diferentes contextos de uso de mídias e/ou de ensino/aprendizagem: na abordagem da produção escrita em ambiente digital, com uso de IA, e na discussão de aspectos ideológicos presentes nessa produção; na discussão de atividades de multiletramentos para a formação de licenciandos da área de Letras; na reflexão sobre a aprendizagem de teorias sobre o discurso em situação de letramento acadêmico. A base teórico-metodológica das pesquisas centra-se nas relações dialógicas entre enunciados e sujeitos. Destaque-se ainda que, nos trabalhos em tela, o enunciado concreto, objeto de análise na perspectiva da Análise Dialógica do Discurso, se constitui como uma totalidade de sentido na interação social, sendo pertinentes para sua compreensão não somente as relações do eu com os outros, mas também os gêneros do discurso em que se constitui, as diferentes linguagens em que se materializa, os valores sociais aos quais responde, em atitude ativo-responsiva do sujeito. Esse enunciado concreto, ao mesmo tempo que se constitui como um elo que coloca em diálogo discursos de diversos tempos e espaços, tem necessariamente um sujeito-enunciador e aponta para os outros. Dessa maneira, no processo responsivo que constitui o enunciado concreto, importam, para a atividade analítico-compreensiva, tanto as relações discursivas e subjetivas, posto que enunciado e sujeito compõem uma única totalidade indissociável, quanto questões valorativas que o constituem. Enfim, o simpósio pretende contribuir teoricamente com a Análise Dialógica do Discurso na apresentação de diferentes abordagens da temática da alteridade em torno da noção de enunciado concreto como uma totalidade de sentido.
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; Alteridade; Enunciado concreto;
PROPOSTA TEMÁTICA
GLADIS MASSINI-CAGLIARI
[Área temática: Fonética e Fonologia]
Estudos de Fonologia do Português de ontem e de hoje: interfaces
A proposta do simpósio é congregar estudos de Fonologia do Português, em desenvolvimento no Grupo de Pesquisa Fonologia do Português: Arcaico & Brasileiro, que tem como objetivo a descrição de aspectos fonológicos da Língua Portuguesa em dois períodos: período arcaico, trovadoresco (séculos XIII-XIV); português do Brasil (séculos XX-XXI). A relevância da pesquisa reside na descrição, ao lado de fenômenos fonológicos segmentais, de fenômenos prosódicos de um período passado da língua, do ponto de vista de teorias fonológicas atuais. O grupo dedica-se também à pesquisa acústica da fala brasileira atual, com objetivos de descrição fonológica, e à ortografia, dentro da perspectiva dos sistemas de escrita e do ensino. Este simpósio apresenta oito pesquisas em andamento atualmente no Grupo, que dão conta de todas as vertentes de pesquisa exploradas, em interface com áreas como a música, o ensino de língua materna, a retórica, a Fonética acústica, a Inteligência Artificial e a Sociolinguística. Entre as pesquisas a serem apresentadas no simpósio, uma apresenta a perspectiva histórica, em um diálogo da Fonologia com a Retórica, examinando o funcionamento da oratio numerosa no corpus lírico de D. Joan Garcia de Guilhade, focalizando o sistema rítmico-estilístico. Enfocando a relação entre música e fala, considerando a prosódia como “a música da fala”, duas pesquisas investigam as contribuições da dimensão musical para a compreensão do ritmo linguístico do rap, concentrando-se no uso das pausas e em seu papel na organização das proeminências rítmicas e musicais em batalhas de rima. O diálogo com a Sociolinguística se dá em duas dimensões: a partir da análise das vogais do Português de Angola, sustentada em uma análise fonética quântica; e a partir de uma investigação sobre o apagamento do -R em posição final de infinitivos verbais no português brasileiro, sob a perspectiva da interface prosódia e escrita, considerando um corpus composto por redações de estudantes do Ensino Básico de Porto Velho. O diálogo com o ensino também está presente em duas contribuições: a primeira apresenta o Projeto O Pulo do Sapo, um método para alfabetização; a segunda considera o diálogo com a IA, apresentando um método de ensino de redação para o Ensino Médio público que integra gamificação, linguística textual e avaliação formativa. A última contribuição tem como objetivo geral discutir a representatividade sociolinguística da variação entoacional do português brasileiro (PB) no desenvolvimento de sistemas de síntese de fala.
Palavras-chave: fonologia; fonética; interfaces
PROPOSTA TEMÁTICA
MARIA DO ROSARIO GREGOLIN
[Área temática: Análise do Discurso]
Estudos Discursivos Foucaultianos: discursividades híbridas, subjetividades e colonialidades
Este Simpósio Temático reúne trabalhos que objetivam problematizar formas híbridas de discursivização e processos de subjetivação na sociedade contemporânea. Nossos trabalhos se inserem no campo da Análise do Discurso e se fundamentam nas propostas de Michel Foucault. Nosso pressuposto de base considera que o discurso é um conceito fundante que atravessa toda a obra foucaultiana, tanto na arqueologia do saber quanto em seus prolongamentos na genealogia do poder e, finalmente, na história crítica da subjetividade. Durante esse percurso epistemológico, Foucault desenvolve três orientações teórico-metodológicas: a) o exame das transformações históricas e das práticas sociais; b) a aplicação do método de análise de discursos e c) a crítica à teoria do sujeito. Esses três eixos de investigação permitem desenvolver uma história crítica da subjetividade e, ao mesmo tempo, examinar práticas de governamentalidade que produzem formas de conduta e constituem verdades. Alguns pontos são essenciais para pensarmos os Estudos Discursivos Foucaultianos: a) o método arqueológico, centrado nas noções de enunciado, discurso e formações discursivas, é produtivo para a análise das discursividades contemporâneas; b) a natureza semiológica do conceito de enunciado permite explicar as formas híbridas das discursividades contemporâneas e suas múltiplas materialidades; c) a análise dos dispositivos de saber e poder e das formas de produção e circulação de discursos na atualidade, permite pensar as transformações de diferentes modalidades discursivas, como os políticos e os midiáticos; d) os estudos arqueogenealógicos desenvolvidos por Foucault oferecem ferramentas conceituais para a análise das inter-relações entre práticas discursivas, processos de subjetivação e produção de verdades. No interior desse quadro teórico, por meio da análise do governamento da língua (como, por exemplo, na argumentação de discursos políticos e no ciberativismo) e do corpo (com, por exemplo, na constituição material dos embates sobre os gêneros), observamos os processos discursivos como formas históricas de produção de subjetividades profundamente articuladas às materialidades dos projetos de colonialidade. Assim, os trabalhos deste Simpósio Temático buscam desenvolver estudos em torno de objetos de nossa contemporaneidade para estimular reflexões acerca das transformações de uma teoria face às exigências históricas.
Palavras-chave: Discurso; Subjetividade; Materialidades
PROPOSTA TEMÁTICA
SEBASTIAN DRUDE
[Área temática: Lexicologia e Lexicografia]
Estudos do Léxico de Línguas Indígenas
Nas últimas três décadas, os estudos linguísticos sobre línguas indígenas no Brasil avançaram consideravelmente, com ênfase na documentação e na descrição. Nesse cenário, os estudos do léxico e a lexicografia das línguas indígenas têm recebido comparativamente menos atenção, embora o campo apresente dinamismo crescente: o site LexicografiaIndigena.com.br registra ao menos 700 trabalhos lexicográficos publicados neste século, número superior à soma de toda a produção das sete décadas anteriores (1930 a 2000). Esse conjunto inclui desde listas de palavras e pequenos vocabulários até dicionários mais abrangentes (estes últimos ainda raros). Este simpósio propõe discutir o panorama atual e as perspectivas futuras dos estudos e da descrição do léxico de línguas indígenas no Brasil — com foco central na lexicografia, mas aberto a outras abordagens, como estudos terminológicos e terminográficos, estudos de vocabulário especializado e outros tipos de investigação lexical. O objetivo principal é promover um espaço de reflexão e diálogo sobre questões teóricas, metodológicas e práticas que atravessam o estudo do léxico e a produção lexicográfica e terminográfica voltada a essas línguas. O simpósio quer também refletir transformações estruturais no campo: o protagonismo crescente de pesquisadores e outros membros de grupos indígenas, e as mudanças impulsionadas por tecnologias digitais. Essas transformações colocam novos desafios tanto teóricos quanto práticos para os estudos e a descrição do léxico de línguas indígenas no Brasil. Assim, os trabalhos abordarão tópicos como: - a apresentação de projetos lexicográficos, terminográficos e de estudos do léxico recentes; - a discussão de conceitos teóricos e práticos (como micro e macroestruturas de dicionários e de bancos de dados); - as relações entre pesquisadores indígenas e não indígenas (tanto na produção quanto no uso dos materiais); - as tecnologias para levantamento, processamento e publicação de dados lexicais; - as tecnologias sociais, como aplicativos e plataformas digitais voltadas à documentação e difusão de léxicos indígenas; - as potencialidades e os desafios da inclusão de recursos multimídia; e - as interfaces com outras áreas, como o uso de dados lexicais digitais na linguística comparativa.
Palavras-chave: lexicografia; terminologia; tecnologias sociais;
PROPOSTA TEMÁTICA
PÂMELA DA SILVA ROSIN
[Área temática: Análise do Discurso]
Leitura em discurso: práticas e representações de leitores de ontem e de hoje
Neste simpósio visamos – em consonância com as pesquisas realizadas pelos integrantes do Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE/CNPq-UFSCar) – abordar criticamente diferenças e similitudes nas formas de representação de leitores brasileiros inscritas em textos com temas, objetivos, públicos e origens diversos (notícias, entrevistas, posts, memes, por exemplo) materializados em distintos formatos e suportes (impresso, manuscrito, digital, livros, telas, quadros etc.), de diferentes origens institucionais (jornais de circulação nacional, documentos oficiais, redes sociais, entre outros), do passado e do presente. Nosso objetivo é congregar pesquisadores que tenham em comum o interesse pela análise de discursos sobre a leitura e pelas representações de leitores e dos usos, modos e formas de apropriação dos textos, reconhecidos ou não em sua legitimidade social e cultural. Partimos do pressuposto de que os discursos, as representações e as formas de apropriação adotadas pelos leitores podem ser depreendidos daquilo que é dito de forma direta sobre essa prática e sobre os sujeitos em sua relação com a leitura. Eles também são depreensíveis indiretamente, a partir dos modos de materialização e circulação dos textos. Considerando que a forma dos textos inscreve certos modos de sua apropriação e que toda e qualquer produção de textos, assim como a sua apropriação, obedecem a injunções coletivas, de caráter sócio-histórico e cultural, esperamos, neste simpósio, compartilhar análises e reflexões sobre essas injunções materiais que se impõem sob a forma dos textos e também em declarações espontâneas relativas à leitura, como as disponíveis em redes sociais virtuais, ou motivadas por entrevistas e questionários sobre o tema. Enfim, esperamos que este simpósio seja ocasião para o debate de trabalhos e pesquisas dedicados aos discursos sobre as práticas de leitura e seus impactos em nossa sociedade, para o encontro de pesquisadores que, de diferentes perspectivas dos estudos discursivos, se dediquem ao que sabemos e dizemos sobre essa prática, como sujeitos que a exercem ou não, e se legitimam ou não em função de seu exercício.
Palavras-chave: Discurso; Leitura; Representação;
PROPOSTA TEMÁTICA
ANNA CHRISTINA BENTES DA SILVA
[Área temática: Sociolinguística e Dialetologia]
Linguagem, gênero e estilo: perspectivas teóricas e aplicadas
Este simpósio pretende reunir pesquisas que investigam as relações entre linguagem, gênero social e estilo em diferentes contextos. Interessa-nos discutir como práticas linguageiras, escolhas estilísticas e/ou dinâmicas interacionais participam da construção das identidades sociais e da produção de sentidos, considerando também suas articulações com outros marcadores sociais como classe, raça e geração. Serão acolhidos trabalhos de distintas perspectivas teóricas e metodológicas (incluindo abordagens etnográficas, interacionais, variacionistas e discursivas, dentre outras) que analisem práticas de linguagem presenciais ou mediadas por tecnologias, bem como processos de circulação discursiva e disputas simbólicas relativas à intersecção entre gênero social e linguagem no cenário contemporâneo. Nossa expectativa é a de que o trabalho sobre a linguagem evidencie performances, projeções e identidades de gênero por meio da análise de determinadas dimensões da produção discursiva, como por exemplo, por meio da busca por uma estilização da linguagem que busque produzir determinados efeitos em seus interlocutores/audiência/público. Também as performances de gênero social podem ser percebidas pelo trabalho com determinados conteúdos temáticos, articulados no interior de gêneros do discurso específicos, considerando que um dos aspectos do conceito de gênero é justamente o fato de que "quando dominamos um gênero textual, não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais particulares. (MARCUSCHI, 2008, p. 154) Sendo assim, os gêneros do discurso operam, em certos contextos, como formas de legitimação discursiva das práticas de linguagem dos diversos atores sociais, já que "se situam numa relação sócio-histórica com fontes de produção que lhes dão sustentação e que vão além da justificativa individual para a sua produção”. (MARCUSCHI, 2008, p. 154). Por fim, considerando as disputas em torno do próprio conceito de gênero social, Piscitelli (2000) afirma que se faz necessário reconhecer a sua validade, dado que essa categoria se configurou como um instrumento para a luta política feminista, promovendo uma "dessencialização" das práticas políticas, identitárias e de linguagem. É dentro desse quadro teórico-metodológico que pretendemos desenvolver nossas reflexões ao longo deste simpósio.
Palavras-chave: Linguagem; Gênero; Estilo;
PROPOSTA TEMÁTICA
ANTÔNIO SUÁREZ ABREU
[Área temática: Linguística Cognitiva]
Linguística cognitiva e teoria da complexidade na descrição e ensino de língua.
Tem este simpósio o objetivo de utilizar a linguística cognitiva e a teoria da complexidade, para descrever a linguagem articulada, com foco no português do Brasil. O ponto de partida é a afirmação de Bybee (2010), de que a linguagem humana é um sistema adaptativo complexo. Segundo Meadows (2008), um sistema é um conjunto de elementos interconectados, de modo a produzir alguma coisa. Um automóvel é um sistema, portanto, porque tem elementos interconectados como motor, chassis, rodas, volante e outros comandos. O produto é o movimento. Uma laranjeira também é um sistema, porque tem elementos interconectados como raízes, tronco, folhas e flores. O produto são laranjas. Há, contudo, uma diferença entre esses dois sistemas. O automóvel não se abastece sozinho, não se liga sozinho. Precisa de um agente externo. Já uma laranjeira cumpre sua função espontaneamente. Não precisa de ninguém que ligue sua fotossíntese ou que transforme suas flores em laranjas. É isso que define um sistema complexo: autonomia. Todos os seres vivos, portanto, são sistemas complexos e, no caso do ser humano, isso inclui, também, a linguagem articulada. Os sistemas complexos possuem agentes internos para atuar espontaneamente. No caso da laranjeira, as raízes, fixando a planta no solo, as folhas, fazendo fotossíntese, e as flores, tranformando-se em laranjas. Esses agentes internos são chamados atratores. Os atratores da linguagem humana são: clareza, economia, iconicidade, blending e sociabilidade. Para trabalhar com eles, utilizamos a chamada categorização vertical, que tem por objetivo substitir regras específicas por padrões gerais. Os produtos decorrentes de um sistema têm um propósito. O propósito de um automóvel é transportar pessoas. O propósito de uma língua é comunicar informações e emoções a uma segunda pessoa, de uma maneira eficaz e econômica. É nesse nível, portanto – o da enunciação – que é mais produtivo estudar esses padrões gerais. Em vez de apenas nomear eventos gramaticais de uma maneira taxonômica, podemos verificar, por exemplo, que casos como elipse ou zeugma – em uma frase como Maria comprou dois sabonetes e sua irmã, três. – obedecem ao mesmo padrão do atrator economia que opera para reduzir palavras, quando dizemos celular, em vez de telefone celular e para construir siglas e acrônimos como USP e IPVA. Cada um dos membros deste simpósio tratará de um aspecto desse tema.
Palavras-chave: cognição; complexidade; adaptação
PROPOSTA TEMÁTICA
ANDRÉ NOGUEIRA XAVIER
[Área temática: Línguas de Sinais]
Línguas de sinais e gestualidade
O objetivo principal deste simpósio é reunir pesquisadores nacionais e internacionais que vêm se dedicando ao estudo de línguas de sinais, bem como ao estudo dos gestos que co-ocorrem com a fala em interações face a face. Pretendemos criar um espaço rico e produtivo não apenas para o compartilhamento de resultados de pesquisas recentes nessas duas grandes áreas de investigação, mas, sobretudo, para fomentar o diálogo interdisciplinar e teórico-metodológico entre elas.Reconhecendo a importância da acessibilidade linguística e da inclusão, o simpósio será integralmente conduzido em Libras (Língua Brasileira de Sinais). Para garantir a plena participação de todos, contaremos com a presença de tradutores-intérpretes profissionais de Libras/Português, assegurando que pesquisadores surdos e ouvintes possam interagir de forma equitativa e fluida durante todas as atividades.Dessa forma, incentivamos vivamente a submissão de trabalhos por parte de pesquisadores surdos, ouvintes sinalizantes e não sinalizantes que desenvolvam estudos nas seguintes temáticas: Libras e outras línguas de sinais nacionais ou de diferentes países; gestos que co-ocorrem com o português falado; gestos utilizados por pessoas surdas em contextos de sinalização; análises multimodais da comunicação humana; interfaces entre língua de sinais e gestos; aspectos linguísticos, cognitivos, sociais e culturais relacionados a essas modalidades comunicativas; e demais temas que articulem o campo das línguas de sinais com o estudo dos gestos.Os trabalhos submetidos poderão ser apresentados tanto em Libras quanto em português oral, respeitando a preferência linguística de cada pesquisador. Acreditamos que esse evento representará uma oportunidade única de fortalecer a integração entre diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, promovendo avanços significativos no entendimento da comunicação humana em suas múltiplas formas e modalidades. Pretendemos reunir pesquisadores de diferentes universidades. Inicialmente, contamos com participantes da Universidade Federal do Paraná, UFPR, Universidade Estadual de São Paulo, UNESP, Universidade de São Paulo, USP, Universidade Federal de Pernambuco, UFPE e Universidade Federal de São Carlos, UFSCar. Pesquisadores de outras universidades paulistas e de outros estados são bem-vindos. https://youtube.com/shorts/JE0swLwEJFc
Palavras-chave: Libras; gestualidade; multimodalidade
PROPOSTA TEMÁTICA
MARIANA LUZ PESSOA DE BARROS
[Área temática: Semiótica]
Materialidade, linguagens e produção de sentido: perspectivas sobre o objeto-suporte
Este simpósio reúne trabalhos que investigam o papel do objeto-suporte na produção de sentido, uma vez que ele se configura como elemento constitutivo de práticas discursivas, principalmente contemporâneas. Em um contexto marcado pelo sincretismo de linguagens e pela ampliação dos modos de circulação textual, o suporte funciona não apenas como meio material, mas assume função decisiva na organização formal e na construção dos efeitos de sentido dos textos. Assim, sob diferentes perspectivas teóricas e analíticas, as comunicações do simpósio abordam a relação entre suporte e textualidade, bem como a articulação entre linguagens — verbal, visual, musical, audiovisual, entre outras —, no âmbito das práticas pedagógicas, literárias, editoriais, artísticas, midiáticas ou urbanas. A proposta justifica-se diante da centralidade que o suporte assume nas práticas de linguagem contemporâneas, uma vez que as transformações técnicas, midiáticas e culturais reconfiguram os modos de produção e circulação dos textos e as formas de leitura, interpretação e ensino. Em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (2018), que enfatiza o trabalho com múltiplas linguagens e a produção de sentidos em diferentes semioses, torna-se necessário considerar a materialidade e as condições de inscrição dos textos como dimensões fundamentais para a compreensão das práticas discursivas, sobretudo quando mobilizadas multilateralmente na escola. Tal perspectiva permite, por um lado, aprofundar a análise das articulações entre linguagens e, por outro, problematizar os desafios postos à formação docente e à organização das práticas pedagógicas. Desse modo, vinculam-se à proposta investigações que tratam das relações entre suporte e construção do sentido em diferentes áreas, tais como: literatura e experimentação formal; práticas editoriais e materialidade do livro; cultura digital e plataformas de circulação; artes visuais e intermidialidade; inscrições urbanas e usos do espaço público; práticas de leitura e mediação cultural; bem como ensino de língua portuguesa e formação docente orientados pela multimodalidade. Ao articular essas diferentes abordagens, o simpósio busca consolidar um espaço de interlocução entre pesquisas que, embora diversas em seus objetos, convergem na atenção ao papel do suporte na significação.
Palavras-chave: Semiótica discursiva; objeto-suporte; práticas semióticas;
PROPOSTA TEMÁTICA
JEAN CARLOS DA SILVA GOMES
[Área temática: Psicolinguística]
Métodos em linguística experimental e suas aplicações
A Linguística Experimental permite a investigação da linguagem por meio de métodos empíricos que possibilitam a verificação de hipóteses sobre estruturas linguísticas e mecanismos mentais que subsidiam o funcionamento da linguagem. Os experimentos são definidos como "uma porção da pesquisa em que variáveis são manipuladas e são observados os efeitos causados em outras variáveis" (Campbell; Stanley, 1963, p. 1). Além disso, eles podem ser divididos em métodos fisiológicos ou comportamentais e em métodos on-line ou off-line. Entre os campos de investigação da linguagem que muito se beneficiam dos pressupostos da Linguística Experimental destacam-se a Psicolinguística e a Neurolinguística/Neurociência da Linguagem (Sá; Oliveira, 2022; Kazanina; Tavano, 2023). Esta proposta de simpósio busca apresentar a composição e o funcionamento de diferentes métodos experimentais relevantes nessas subáreas, bem como destacar inovações recentes nas formas de utilização e ilustrar suas aplicações em estudos linguísticos reais. Considerando as contribuições desses métodos para a pesquisa na área, bem como as intersecções, limitações, relações de complementaridade e outros diálogos possíveis entre diferentes tecnologias e abordagens metodológicas, este simpósio propõe um espaço para exposição e discussão, no âmbito dos estudos linguísticos, da adoção de técnicas como a Ressonância Magnética Funcional (fMRI), a Magnetoencefalografia (MEG), o Eletroencefalograma (EEG), Eletrocorticografia (ECoG), Estimulação Transcraniana e o Rastreamento Ocular. Uma implicação dessa diversidade metodológica é a também diversa natureza dos dados gerados. Por isso, as apresentações incluem ainda na discussão análises de tempo de resposta, acurácia, Potencial Relacionado a Evento (ERP), oscilações neurais, movimento ocular, entre outros. Além disso, propomos discutir como esses métodos podem ser aplicados tanto em estudos linguísticos teóricos quanto em investigações sobre processamento de sentenças, aquisição da linguagem em bebês e alterações decorrentes de patologias que afetam a linguagem. As apresentações introduzem esses métodos experimentais, destacam eventuais usos inovadores que vêm ganhando espaço nos estudos da linguagem e situam a utilização em pesquisas reais, concluídas ou em andamento, desenvolvidas por cada participante no Brasil ou no exterior. CAMPBELL, D.; STANLEY, J. Experimental and quasi-experimental designs for research. Chicago: Rand McNally & Company, 1963. KAZANINA, N.; TAVANO, A. What neural oscillations can and cannot do for syntactic structure building. Nature Reviews Neuroscience, v. 24, p.113-128, 2023. SÁ, T.; OLIVEIRA, C. Métodos experimentais em psicolinguística: uma introdução. In: OLIVEIRA, C.; SÁ, T. (Org.). Métodos experimentais em psicolinguística. São Paulo: Pá de Palavra, 2022.
Palavras-chave: Linguística Experimental; Psicolinguística; Neurolinguística
PROPOSTA TEMÁTICA
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK
[Área temática: Linguística Histórica]
O linguístico e o social nos estudos históricos do português: desafios, propostas e caminhos
A proposta deste Simpósio é reunir pesquisadoras(es) que têm se dedicado ao estudo da história do português, sob diversos enfoques teórico-metodológicos, abordando fenômenos de vários níveis (fonético-fonológico, sintático, semântico, pragmático e textual-discursivo). Seguindo uma tradição já bem estabelecida nos estudos históricos do português, reunimos oito trabalhos que, a partir de uma forte base empírica, desvelam o funcionamento de subsistemas da língua, construções e processos, contribuindo para a grande tarefa de descrição e interpretação da nossa história linguística. No que se refere aos objetos de estudo, o conjunto inclui desde análises de aspectos fonológicos (segmentais e suprassegmentais) da fase arcaica do português a fenômenos variáveis morfossintáticos (expressão de sujeito pronominal), sintáticos e semântico-pragmáticos (estratégias de relativização, processos de junção de orações e gramaticalização de juntores) e textual-discursivos (atuação de marcadores discursivos em processos de construção textual). Quanto à perspectiva adotada, observa-se tanto o recorte sincrônico (sincronia no passado) quanto a dimensão diacrônica, com destaque para os períodos constitutivos da história do português brasileiro. Considerando o vínculo necessário e inescapável entre dado e teoria, e entre língua e sociedade, esses estudos alimentam a discussão (i) sobre algumas das grandes questões da Sociolinguística Histórica e/ou da Linguística História, tais como o(s) processo(s) de diversificação do português (a constituição de suas variedades), o papel do contato linguístico nesses processos, o embate entre a norma prescritiva vigente e os usos linguísticos (a norma da comunidade), a avaliação social de formas variantes, a natureza da mudança linguística, entre outras, e/ou (ii) sobre os desafios metodológicos da pesquisa histórica, como aqueles voltados à construção de corpora representativos das sociedades pretéritas, no que se refere aos gêneros textuais-discursivos que ali circulavam, na busca de reconstruir estados e dinâmicas sociolinguísticas passadas, sem cair na armadilha do anacronismo ideacional (Bergs, 2012), isto é, evitando projetar sobre épocas anteriores categorias analíticas, valores sociais e concepções linguísticas próprias do presente, o que demanda rigor no trato documental e permanente reflexão epistemológica por parte das(os) pesquisadoras(es) dedicadas(os) à reconstrução histórica. Apresentam-se trabalhos que tentam “ouvir o inaudível” e “fazer o melhor uso de maus dados”, como tão bem disseram Lass (1997) e Labov (1982).
Palavras-chave: Variação e mudança linguística; História do português; Linguística Histórica;
PROPOSTA TEMÁTICA
FILIPO PIRES FIGUEIRA
[Área temática: Análise do Discurso]
Problemas em enunciação e discurso: autoria, gênero e cenografia
Nas primeiras décadas de sua formulação, a Análise do Discurso dedicou-se a investigar quase exclusivamente os aspectos da “produção discursiva”, privilegiando a análise das condições históricas de produção do discurso, das posições discursivas que sustentavam a produção dos efeitos de sentido (as formações discursivas) e do modo como os processos discursivos reproduziam as estruturas ideológicas de determinada sociedade. Esta atenção inicial acabou por negligenciar o papel da enunciação, relegada à mera função seletiva do que pertence ou não a determinada formação discursiva (Pêcheux; Fuchs, 2010). Nesse sentido, a abordagem enunciativo-pragmática, inicialmente proposta por Dominique Maingueneau, foi central para que se abrisse, para a Análise do Discurso, o campo de questões pertinentes à enunciação, isto é, relativas à circulação do discurso, ao modo como é posto em prática, aos papéis desempenhados pelos coenunciadores, à ritualidade dos gêneros discursivos, à encenação enunciativa etc. (cf. Maingueneau, 1997, 2008, 2013, 2016). Com isso em vista, este simpósio busca explorar, a partir da abordagem enunciativo-pragmática, diversos aspectos da relação entre enunciação e discurso, em particular: (a) o problema do “autor” e da “autoria”, seja em sua relação historicamente complexa com a “pessoa biográfica” no campo literário, seja nos processos discursivos das redes sociais, em que os discursos parecem cada vez mais ser enunciados por “sujeitos extraordinários”; (b) similarmente, a relação entre a cena da enunciação e os gêneros do discurso, na medida em que a circulação discursiva contemporânea tensiona a definição clássica dos gêneros em direção a uma atenção cada vez mais significativa às características cênicas da enunciação; (c) por fim, o papel fundamental da “cenografia”, aspecto cênico responsável pela construção da legitimidade enunciativa dos enunciados de um discurso na medida em que opera a captura e o entrelaçamento dos coenunciadores, o que será analisado em diversos campos discursivos, como nas mídias sociais, no discurso jornalístico e no campo político. Com as apresentações deste simpósio, espera-se continuar chamando atenção à centralidade da enunciação na atividade discursiva em geral e, mais particularmente, nos problemas discursivos contemporâneos.
Palavras-chave: discurso; enunciação; autoria; cenografia; gênero do discurso;
PROPOSTA TEMÁTICA
ANDERSON CARNIN, MIRELLA DE OLIVEIRA FREITAS
[Área temática: Ensino-aprendizagem de língua materna]
Produção textual na escola/na universidade em tempos de inteligência artificial generativa: questões em debate
Este simpósio se propõe a congregar pesquisadores/as do campo aplicado dos estudos da linguagem que se interessem pelo trabalho com produção textual escrita em contextos escolares ou universitários, seja na dimensão de seu ensino, seja de sua aprendizagem, em tempos de massificação do uso de sistemas de inteligência artificial generativa (IA Gen). Nos últimos anos, a rápida disseminação de plataformas conversacionais baseadas nessa tecnologia tem desafiado concepções consolidadas acerca de autoria, mediação docente, avaliação da escrita, bem como acerca das próprias práticas escolares de produção textual. Nesse cenário, emergem novos desafios para professores/as e pesquisadores/as que se dedicam ao ensino da escrita, especialmente no que diz respeito à compreensão das formas pelas quais tais tecnologias passam a integrar ou a reconfigurar práticas de letramentos já instituídas no espaço escolar/universitário. Nesse sentido, este simpósio busca reunir trabalhos que problematizem e investiguem o uso de sistemas de IA Gen em atividades de produção textual na escola ou na universidade, contemplando diferentes perspectivas teórico-metodológicas que tratam desse tema ou com ele fazem intersecções. Serão acolhidas pesquisas que abordem, mas não necessariamente se limitem a: (i) implicações pedagógicas do uso de inteligência artificial generativa no ensino da escrita; (ii) práticas de mediação docente diante do uso de sistemas de inteligência artificial generativa; (iii) processos de autoria, colaboração e coescrita envolvendo sistemas de inteligência artificial generativa; (iv) modos de avaliação da produção textual em contextos mediados por inteligência artificial generativa; (v) impactos dessas tecnologias nas práticas de letramento escolar ou de letramentos acadêmicos; além de outros temas afins. Ao colocar em diálogo diferentes investigações em curso, o simpósio busca fortalecer uma agenda de pesquisas em Linguística Aplicada, comprometida com as implicações da IA Gen no campo da produção textual em contextos de ensino-aprendizagem. A expectativa é de que os diferentes trabalhos possam, ainda, contribuir para o registro de pesquisas realizadas em instituições paulistas.
Palavras-chave: ensino-aprendizagem de língua materna; produção textual; inteligência artificial generativa;
PROPOSTA TEMÁTICA
EMERSON DE PIETRI
[Área temática: Letramento(s)]
Práticas de letramento acadêmico-científico e modos de fazer ciência na formação de pesquisadores e de professores
Neste simpósio se reúnem pesquisas voltadas à investigação das práticas de letramento acadêmico-científico associadas à formação de professores e pesquisadores. Desenvolvidos em quatro universidades, três paulistas e uma mineira, os trabalhos se aproximam em sua busca por articular a análise pragmático-discursiva de textos produzidos por sujeitos em formação à observação das estratégias didático-pedagógicas e das intervenções de professores formadores, focalizando o papel das atividades metalinguísticas e metaenunciativas no envolvimento com a escrita acadêmica. Concebido como prática social institucionalizada, o letramento acadêmico-científico é examinado em sua relação com a inserção na cultura universitária, com a produção e a apropriação de conhecimentos, e com a reflexão crítica sobre práticas de produção científica. O simpósio propõe ainda discussões em torno das representações sobre o espaço acadêmico, das tensões entre diferentes modos de fazer ciência e dos efeitos dessas dinâmicas na formação e atuação profissional. Organizadas em três sessões, as apresentações se distribuem em torno das relações entre a análise linguística, os processos enunciativos e os pragmático-discursivos, em seus efeitos para: i) a produção e circulação social do conhecimento, considerando-se suas possibilidades para o desenvolvimento de recursos formativos para o ensino superior e a escola básica; ii) o trabalho com a memória discursiva em bases materiais diversas e seus efeitos para a formação de pesquisadores; e iii) a reflexão metaenunciativa sobre as bases conceituais e as práticas pedagógicas como um recurso para a formação de professores. O trabalho com a escrita constitui a base material das pesquisas que se reúnem no simpósio operando como um espaço de inscrição dos sujeitos no interdiscurso, de negociação com a heterogeneidade discursiva na formação do sujeito pesquisador, de diálogo com a memória sobre o fazer docente na formação de professores. Espera-se que os resultados apresentados e as discussões que se produzam a partir deles contribuam para a ampliação da compreensão crítica sobre as práticas acadêmicas e para a elaboração de subsídios linguístico-discursivos e didático-pedagógicos no campo da educação linguística e da formação de professores e pesquisadores. (Apoio: FAPESP 2022/05908?0)
Palavras-chave: Letramento acadêmico-científico; produção e circulação de conhecimento; formação de pesquisadores e de professores
PROPOSTA TEMÁTICA
CRISTIAN HENRIQUE IMBRUNIZ
[Área temática: Linguística Aplicada]
Práticas de letramento e tecnologias digitais: aproximações e distanciamentos na formação de professores e pesquisadores
Ensino e tecnologia constituem um par marcado por tensões em práticas de letramento inscritas em contextos escolares e universitários, envolvendo leitura, escrita, oralidade e multimodalidade. Por um lado, as possibilidades tecnológicas e as demandas do ensino produzem soluções, por vezes benéficas, para os envolvidos no processo educativo. São inegáveis, por exemplo, as vantagens e possibilidades oferecidas por ferramentas digitais e colaborativas para a produção, análise e circulação de textos orais, escritos e multimodais. Por outro lado, as rápidas mudanças tecnológicas, incompatíveis com o tempo do ensino e de sua regulamentação, levam à desconfiança, por vezes justificada, dos atores educacionais. São inegáveis, por exemplo, os desafios impostos pelos usos, com ou sem supervisão docente, de inteligências artificiais generativas (IAGen) para a leitura e para a produção de textos na escola ou na universidade. O objetivo deste simpósio é, portanto, reunir trabalhos que se proponham a discutir potenciais aproximações e distanciamentos entre tecnologias digitais e práticas de letramento. Pretende-se que essas discussões, ancoradas na perspectiva do aluno ou do professor, considerem as tensões que caracterizam esse par. Para tanto, serão contempladas discussões sobre: (i) usos de softwares de automação para o ensino de escrita e apoio à análise linguística, particularmente como auxílio ao trabalho do professor; (ii) análise linguística de produções textuais de alunos com apoio de softwares de análise qualitativa e inteligência artificial generativa, considerando possibilidades e limites da automação; (iii) presença de tecnologias digitais em documentos de ensino, sobretudo no ensino superior; e (iv) uso de podcasts e outras mídias multimodais para o ensino de escrita e oralidade. Essas discussões se orientarão por abordagens linguísticas, discursivas, etnográficas, recorrendo aos diferentes regimes de interdisciplinariedade que caracterizam a linguística aplicada. Espera-se que os debates fomentados pelas apresentações, dedicadas a aproximações e distanciamentos entre práticas de letramento e tecnologias digitais em diferentes contextos institucionais, promova uma reflexão matizada sobre o impacto dessas tecnologias no cotidiano de alunos, professores e gestores, ampliando o espaço para estratégias de ensino inscritas nos desafios do presente e reduzindo o campo para soluções fáceis.
Palavras-chave: Letramentos; Tecnologias digitais; Multimodalidade
PROPOSTA TEMÁTICA
RONALD BELINE MENDES
[Área temática: Sociolinguística e Dialetologia]
Questões no acesso experimental a significados sociais da variação linguística
O interesse central deste simpósio é discutir questões teóricas ou metodológicas envolvidas no trabalho de acessar significados sociais de formas linguísticas, por meio de experimentos de percepção sociolinguística. Entende-se por "percepção" justamente a potencial associação de múltiplos significados sociais a uma mesma forma linguística. Tal associação constitui a indicialidade de formas linguísticas (Eckert 2008) que, por sua vez, é caracterizada pelas seguintes propriedades: (i) implicitude – os significados sociais das formas linguísticas são implícitos e, assim, negáveis; raramente, a associação entre significados sociais e formas linguísticas se estabelece de maneira explícita; (ii) subespecificação – não há significados sociais específicos para formas linguísticas específicas, de modo que uma forma linguística pode veicular múltiplos significados sociais (inclusive antagônicos entre si) e um mesmo significado social pode ser associado a diferentes formas linguísticas; (iii) combinatoriedade – significados sociais são associados a conjuntos de variantes de múltiplas variáveis linguísticas e não a variantes isoladas. Essas três propriedades, pressupostas pela teoria da indicialidade, impõem desafios para o encaminhamento de experimentos de percepção (que, por exemplo, metodologicamente isolam variáveis linguísticas e suas variantes), bem como para a interpretação de seus resultados (se significados sociais são potenciais e negáveis, aqueles que acessamos experimentalmente devem ser tomados como tal: como potenciais, não como significados "dados", estabelecidos ou necessariamente estáveis). Além disso, em conjunto, essas três propriedades apontam para uma noção crucial à indicialidade: significados sociais não são essenciais a formas linguísticas, ainda que, em certos casos, devido ao registramento da relação indicial (Agha 2007), possamos tender a assumir identidade entre forma linguística e significado social (por exemplo, pitch médio mais alto > voz mais aguda = voz menos masculina). Assim, um exemplo de questão teórica que interessa a este simpósio é: se há correlação entre classe socioeconômica e os empregos das variantes de certa variável (produção), devemos esperar tal correlação também no que toca à percepção sociolinguística, em dados obtidos experimentalmente? Já no âmbito metodológico, um exemplo de questão de interesse é: como podemos levar diferentes ouvintes, que se voluntariam a participar dos experimentos que propomos, a nos dar pistas dos caminhos associativos que eles trilham entre diferentes significados sociais e, destes, a uma certa forma linguística?
Palavras-chave: indicialidade; percepção sociolinguística; significados sociais;
PROPOSTA TEMÁTICA
JULIA LOURENÇO COSTA
[Área temática: Semiótica]
Semiótica, práticas e vida social
O simpósio “Semiótica, práticas e vida social” reúne pesquisas ancoradas na tradição greimasiana e em seus desdobramentos contemporâneos, partindo de um pressuposto fundamental: a significação é abordada em perspectiva ampliada, como processo que se realiza em práticas semióticas nas quais se articulam sujeitos, materialidades, suportes, valores e modos de fazer e de dizer. Nesse quadro teórico, os trabalhos investigam práticas discursivas que circulam em distintas esferas da vida social, como a comunicação institucional, a mídia e a cultura, considerando também suas interfaces híbridas e mutáveis. Longe de se constituírem como domínios empíricos isolados, os objetos analisados são compreendidos como configurações dinâmicas de práticas semióticas socialmente reguladas, isto é, organizadas por estratégias discursivas e por regimes de interação. Ao considerar a semiose como processo, as análises evidenciam o papel ativo da enunciação e das dimensões sensíveis da linguagem na construção do sentido, destacando afetos, percepções e corporalidades. Além disso, permitem descrever os modos pelos quais se instauram processos de normatização, regulação e hierarquização na vida social, evidenciando disputas simbólicas e relações de poder. Por fim, o simpósio propõe um espaço qualificado de interlocução dedicado a pesquisas atuais que empregam a semiótica discursiva como possibilidade teórico-metodológica para a análise das práticas sociais, promovendo diálogo entre pesquisadores e perspectivas diversas. Reafirma-se, portanto, a produtividade dessa abordagem para a compreensão crítica das dinâmicas culturais contemporâneas, bem como sua capacidade de refletir e analisar as transformações emergentes e desafios analíticos do presente, contribuindo para o avanço do campo e para a formação de novas(os) pesquisadoras(es) comprometidas(os) com a investigação rigorosa da significação em sociedade. Para tanto, incentiva abordagens interdisciplinares e o diálogo com áreas afins, ampliando horizontes analíticos e metodológicos, sem perder de vista a consistência conceitual que sustenta a tradição semiótica, fortalecendo redes acadêmicas e práticas colaborativas de pesquisa e difusão do conhecimento produzido no âmbito do simpósio.
Palavras-chave: Semiótica; Práticas; Vida social
PROPOSTA TEMÁTICA
SUZI MARQUES SPATTI CAVALARI
[Área temática: Linguística Aplicada]
Uma proposta processual e multidimensional de autonomia em contexto telecolaborativo de aprendizagem de línguas
Autonomia é uma área temática amplamente investigada no campo da Linguística Aplicada e, em estudos que enfocam contextos de ensino-aprendizagem de línguas, o conceito é geralmente definido como uma habilidade ou competência que pode ser desenvolvida e que envolve aprender a controlar o próprio processo de aprendizagem (Holec, 1981). Tradicionalmente, esse conceito tem sido abordado a partir de sua dimensão metacognitiva, a qual implica o papel ativo do aprendiz na definição de objetivos, na seleção de recursos e estratégias, bem como na monitoração e avaliação de seu percurso de aprendizagem (Rivers, 2002). Ao longo do tempo, vários estudos (Paiva, 2005; Tassinari, 2012) ampliaram essa perspectiva ao revelar que o processo de autonomização abrange outras dimensões, tais como a social (Little, 2007; Luz, 2009), a emocional (Garcia; O’Connor; Cappellini, 2017; Beseghi, 2018) e a política (Benson, 2022). Investigações sobre a dimensão social da autonomia evidenciam a importância da colaboração, destacando o papel das interações com outros agentes envolvidos no processo de aprendizagem. Do ponto de vista emocional, os estudos enfocam a capacidade do aprendiz de reconhecer, interpretar e regular suas emoções, aspecto fundamental para a manutenção do engajamento no processo de aprendizagem. Já do ponto de vista político, enfatiza-se a atuação do aprendiz na transformação do contexto em que está inserido. Nesse cenário, o objetivo deste simpósio é apresentar e discutir resultados de pesquisas que abordam diferentes dimensões da autonomia em um contexto de aprendizagem de línguas estrangeiras denominado teletandem institucional integrado (Aranha; Cavalari, 2014). Esse contexto envolve o trabalho telecolaborativo entre pares de estudantes oriundos de países distintos, falantes de línguas diferentes, engajados em interações síncronas por videoconferência, com o objetivo de desenvolver tarefas pedagógicas integradas a seus cursos regulares. Por meio da apresentação de estudos empíricos, busca-se: (i) aprofundar a compreensão do conceito de autonomia como um processo multidimensional e complexo; (ii) discutir a proposição de um referencial teórico-metodológico específico para a investigação integrada de suas diferentes dimensões; e (iii) promover o debate sobre suas implicações pedagógicas para o ensino e a aprendizagem de línguas, especialmente em contextos telecolaborativos. CAPES-COFECUB: Project REASONING - Autonomization: the role of Reflection and mEtAcognition to Support fOreign laNguage learnING within virtual exchange (grant number 88881.879034/2023-01) .
Palavras-chave: autonomia/autonomização; aprendizagem de línguas; telecolaboração;
LARISSA PICINATO MAZUCHELLI
[Neurolinguística]
Desempenhar o bom envelhecer: práticas medicalizadoras e o contradiscurso da
Neurolinguística Enunciativo-Discursiva Esta apresentação integra uma pesquisa mais ampla, vinculada aos estudos da Neurolinguística Enunciativo-Discursiva (Coudry, 2001[1986]; Novaes-Pinto, 1999, 2025), sobre construções discursivas relacionadas a processos de transformação da linguagem e da cognição no desenvolvimento humano. Aqui, objetiva-se discutir como a racionalidade biomédica (Averkina, 2019; Pesotskaya et al., 2021), no âmbito da cultura do desempenho e aperfeiçoamento humano (Ball, 2013; Elliot, 2001), atualiza práticas de medicalização do envelhecimento por meio da educação. Para isso, analisa-se o fenômeno recente de incentivo ao acesso à graduação presente em nove instituições de ensino superior brasileiras. O corpus analisado é composto por notícias veiculadas nos sites dessas instituições, documentos oficiais, cartilhas e materiais informativos sobre tais programas. Conforme discutido em comunicação anterior (Mazuchelli, 2026), enquanto o ingresso no ensino superior para grupos geracionais mais jovens envolve argumentos de maior empregabilidade, salários mais elevados e melhores projeções de futuro econômico, os programas voltados à população idosa enfatizam, por um lado, a realização de sonhos e, por outro, os supostos benefícios relativos à saúde derivados da socialização e da atividade cognitiva promovidas pelo ensino superior. Para esta apresentação, argumento que a atenuação dos problemas históricos de acesso à universidade (barreiras financeiras, desafios de permanência, desigualdades regionais, desigualdades na educação básica, necessidade laboral etc.) por parte do que hoje é a população idosa brasileira, observada nas proposições de realização de sonhos, contribui para que o acesso ao ensino superior se descaracterize como movimento de reparação histórica. Associado a isso, a ênfase aos benefícios à saúde atualizam discursos de prevenção a doenças vinculadas ao envelhecimento - nesse caso, especialmente, retoma discursos de combate aos baixos níveis de escolaridade associados aos processos demenciais. Em diálogo, tais posicionamentos axiológicos transformam o acesso à educação em braço político de organização e qualificação da longevidade e de gerações mais jovens para aquilo que será compreendido socialmente como um bom envelhecimento (livre de doenças, autogerido, em constante aperfeiçoamento), aos moldes da cultura do desempenho (Ball, 2013; Elliot, 2001). Espera-se, com esta discussão, contribuir para a construção de contradiscursos aos processos medicalizadores que produzem sofrimento ético-político (Sawaia, 1990), aqui entendido como aquele que emerge da dialética entre necessidades humanas de reconhecimento e autonomia e as condições concretas de opressão, exclusão e normatização.
Palavras-chave: envelhecimento; ensino superior; medicalização
ISABELLA DE CÁSSIA NETTO MOUTINHO
[Neurolinguística]
Intervenções na leitura em contexto clínico: para além do treino, ainda.
Este trabalho, fundamentado nos princípios teóricos e metodológicos da Neurolinguística de orientação discursiva (ND), tem como objetivo problematizar intervenções clínicas voltadas à leitura realizada tanto com crianças que apresentam dificuldades escolares, quanto crianças atravessadas por alguma patologia. Os estudos discursivos conduzidos na ND têm destacado a complexidade do ensino de leitura e escrita, marcado sobretudo pelo estabelecimento dos sentidos de ler e escrever (Gontijo, 2014) - força motriz (Vigotski 1934) da aprendizagem, pela alteridade (Bakhtin, 1997) e pela a formação do leitor norteada pela singularidade dos processos de apropriação da leitura. A ND, assim, dá relevo ao trabalho linguístico-cognitivo diante do texto, às relações discursivas que se apresentam e à interlocução entre leitor e autor mediada pelo texto (Geraldi 1995), como fundamentos para o processo de leitura, entendido, portanto, de maneira a transcender a mera associação entre grafemas e fones em um ritmo entendido como fluente. Partindo desta perspectiva, este trabalho buscou investigar, lançando mão da categorização pela Análise de Conteúdo (Bardin, 2016) os materiais padronizados de intervenção clínica voltados à psicopedagogos, neuropsicopedagogos e fonoaudiólogos. As categorias analisadas nas atividades e nos textos introdutórios dos materiais são: os sentidos da leitura (Gontijo, 2014); a alteridade (Bakhtin, 1997); o conceito de fluência leitora (Kleiman, 1997) a formação do leitor (Geraldi, 1995) e o tipo de texto disponibilizado para que as crianças leiam. Os resultados apontam que a leitura tem sido entendida como mera associação entre grafemas e fones, de modo a privilegiar o que se entende por treino motor de fluência, apartado dos sentidos (tanto do texto quanto do prórpio ato de ler). Para tal, são utilizadas frases curtas atreladas à imagens, apartadas de um texto, escritas com o objetivo de reunir palavras cujas letras iniciais sejam as mesmas, reforçando o caráter de treino pela repetição. Este trabalho alerta, portanto, para o fato de que estas atividades conduzidas na clínica colaboram para o que Soares (1988) e Massini-Cagliari (2004) chamam de desaprendizagem da leitura e da escrita, processo de frustração infantil no período da alfabetização em que a criança percebe que não irá ler e escrever textos que efetivamente comprem um papel social, mas sim o que Paulo Freire entendia por palavreria ou blá-blá-blá (1977), obstáculo na formação do leitor que estabeleça interlocuções a partir da leitura.
Palavras-chave: leitura; alfabetização; neurolinguística
MARCUS VINICIUS BORGES OLIVEIRA
[Neurolinguística]
O Observatório do Idadismo e a responsabilidade intergeracional: um relato de experiência.
Introdução: Presente nas relações interpessoais, no âmbito institucional e também de forma autodirigida, o idadismo consiste em um conjunto de práticas e representações que envolvem discriminação, violência e estereótipos baseados na idade, incidindo especialmente sobre as pessoas idosas. Embora o fenômeno ainda seja pouco investigado, sua primeira referência remonta à década de 1960, nos Estados Unidos, a partir dos trabalhos de Robert N. Butler. No Brasil, o idadismo também é conhecido como ageísmo ou etarismo e se articula a outros marcadores sociais, como o racismo, o sexismo e a transfobia, potencializando diversas formas de violência. Objetivo: Este trabalho tem como objetivo refletir sobre o caráter intergeracional das atividades promovidas pelo projeto de extensão Observatório do Idadismo, que tem como mote enfrentar o preconceito etário, principalmente contra a pessoa idosa. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência realizado a partir da retomada da experiência vivida e da utilização de registros fotográficos, bem como de publicações em rede social. Para tanto, este relato contará com uma descrição detalhada da experiência de coordenação compartilhada do projeto de extensão e com uma reflexão enunciativo-discursiva sobre os efeitos e desafios inerentes ao que foi vivenciado. Quadro teórico: Este trabalho se baseia em pressupostos dialógicos bakhtinianos, principalmente nos conceitos de alteridade e responsabilidade presentes na filosofia do ato responsável, bem como na reflexão proposta por Motta sobre a ideia de sobre geração. O conjunto dessas ideias está na base do conceito de Responsabilidade Intergeracional (Oliveira e Mazuchelli, 2021), que consiste no principal eixo de análise deste relato. Discussão: Considerando que se trata de uma atividade de extensão, é importante enfatizar o papel formativo das ações antidadistas, que são eminentemente planejadas de forma dialógica, ou seja, que se contrapõe a uma pedagogia verticalizada em que o saber acadêmico é soberano. Considerando que o Observatório do Idadismo também se apresenta no campo da saúde, as ações ultrapassam o modelo preventivo e se constituem como promotoras, uma vez que tensionam as relações entre o normal e o patológico no envelhecimento. Conclusão: Espera-se que este relato possa traduzir, ou, ao menos, indicar o peso das experiências dialógicas intergeracionais, ético-responsáveis, vivenciadas na formação humanística voltada ao enfrentamento do idadismo.
Palavras-chave: idadismo; Intergeracionalidade; linguagem
ARNALDO RODRIGUES DE LIMA
[Neurolinguística]
Agramatismo: uma categoria que se sustenta?
O agramatismo é uma das categorias clínicas mais estudadas no âmbito da Neurolinguística e está associada às afasias não fluentes. Esse item semiológico sugere que se trata da ‘perda de gramática’ ou de alguns de seus subcomponentes, principalmente aqueles relacionados às classes gramaticais ‘fechadas’: morfemas livres (preposições, artigos e cópulas) e os morfemas presos (derivacionais e flexionais). A produção do sujeito com esse tipo de afasia é caracterizada como ‘telegráfica’, sendo sintaticamente mais curta, laboriosa e hesitativa. A maioria dos neurolinguistas diverge sobre a natureza das dificuldades subjacentes. Como aponta Novaes-Pinto (2020), diferentes hipóteses que variam do fonológico ao discursivo foram postuladas para explicar o agramatismo. Jakobson ([1954]1981) - primeiro linguista a se interessar pelas afasias - propõe que o fenômeno seja o resultado das dificuldades dos sujeitos com as operações de combinação, no eixo sintagmático. Entretanto, nos parece bastante robusta a hipótese de que haja, primeiramente, uma dificuldade de seleção lexical que impacta consequentemente a produção dos enunciados de estilo telegráfico (Novaes-Pinto, 1997, 1999, 2020; Novaes-Pinto e Lima, 2021; Lima, 2020, 2023). Este trabalho, fundamentado nos princípios teórico-metodológicos da Neurolinguística Enunciativo-Discursiva (Coudry, [1986]1988; Novaes-Pinto, 1999) tem como o principal objetivo discutir a hipótese de que o agramatismo seria o protótipo da afasia de combinação. A discussão é desenvolvida a partir da análise longitudinal dos enunciados de Pedro, um jovem com afasia tipicamente não fluente, participante do Centro de Convivência de Afásicos (CCA, IEL/UNICAMP). As análises demonstram que, embora a literatura sugira que o agramatismo seja consequência de um déficit sintático, as dificuldades de Pedro se relacionam primordialmente com as operações de seleção de morfemas gramaticais. Na falta da palavra geralmente ocorre uma tradução intersemiótica que visa preencher as lacunas com outros elementos verbais e não-verbais, o que, por sua vez, impacta o fluxo discursivo. Pedro, ao longo dos processos interativos, mobiliza a gramática da língua para alcançar seu intuito comunicativo e para ser compreendido por seus interlocutores. Esses recursos são sempre orientados pragmática e discursivamente. Os processos de seleção e de combinação, característicos da produção não patológica, são operações linguístico-cognitivas interdependentes que continuam orientando a produção do enunciado nas afasias (mesmo nos casos não fluentes) e contribuem também para explicar a grande variação interindividual e as variações intraindividuais que põem em xeque os modelos componenciais que prevalecem nos estudos neuropsicológicos.
Palavras-chave: Agramatismo; Neurolinguística Discursiva; Fala
LUANA CRISTINA FELISBERTO ZACARIAS
[Neurolinguística]
Entre o diagnóstico e a linguagem: um estudo de caso à luz da
Neurolinguística Discursiva A Neurolinguística Discursiva (ND), fundamentada no arcabouço teórico da neuropsicologia soviética (como Luria, Leontiev e Vigotski), problematiza a patologização de crianças cujas características de leitura e escrita são precocemente rotuladas como “dificuldades” durante a alfabetização. Do ponto de vista da ND, falta, nas formações de professores e profissionais da área clínica, conhecimento básico de linguística, um dos fatores que geram tal patologização. Diante desse contexto, esta pesquisa tem como objetivo principal investigar como a abordagem da ND auxilia o processo de alfabetização, examinando o impacto de atividades discursivamente orientadas e contextualizadas na progressão escolar e linguística da criança. Para tanto, são considerados os seguintes objetivos específicos: produzir dados de escrita e fala de uma criança em período de alfabetização, que foi alvo de uma hipótese diagnóstica; analisar os dados obtidos e problematizar a patologização das particularidades relacionadas ao aprendizado de leitura e escrita dessa criança. O estudo configura-se como uma escrita de caso (COUDRY, 2018) de uma criança em acompanhamento longitudinal, no qual são analisadas atividades de leitura e escrita que fazem parte de seu processo de alfabetização escolar. Essa criança é M, aluno do 3º ano do ensino fundamental de uma escola pública, cuja hipótese diagnóstica de que ele teria dificuldades de aprendizagem de origem biológica foi levantada pela docente que lecionava em sua turma no ano anterior. As análises dos dados indicam que M não corresponde aos sintomas relacionados a tal diagnóstico, mas que apresenta processos intermediários (COUDRY, 1987) de aprendizado de leitura e de escrita. As conclusões apontam que a prática proposta pela ND favorece a progressão escolar, discursivamente orientada, de uma criança, indicando que ela não tem distúrbios de aprendizagem, mas sim apresenta características iniciais de sua escrita e fala, bem como que o caso M é representativo de um processo maior de patologização, que atinge muitas crianças em idade escolar.
Palavras-chave: alfabetização; patologização; neurolinguística
DOUGLAS VIDAL SANTIAGO
[Neurolinguística]
Interações multimodais no ensino de inglês com estudante com TEA: cenas enunciativas à luz da
Neurolinguística Discursiva O Transtorno do Espectro Autista (TEA), conforme o DSM-5-TR (APA, 2022) e a CID-11 (OMS, 2022/2024), é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na comunicação e na interação social, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Inserida no campo da Neurolinguística Discursiva (Coudry, 1986; Novaes-Pinto, 1999), esta comunicação oral tem como objetivo geral analisar como se organizam as interações envolvendo um estudante com TEA em contexto de ensino e aprendizagem de inglês como língua adicional. Especificamente, busca-se descrever a construção conjunta de sentidos em cenas enunciativas (Maingueneau, 2006), considerando a articulação entre diferentes recursos semióticos e a dinâmica interacional entre os participantes. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, orientada pela perspectiva do dado-achado, com análise de excertos de interações pedagógicas naturalísticas produzidas em ambiente online. O corpus contempla situações de díade (professor–estudante com TEA) e de tríade (com a participação da irmã neurotípica, de 10 anos), possibilitando comparar diferentes configurações interacionais. A análise privilegia episódios que evidenciam ações colaborativas, construção conjunta da atenção e momentos de instabilidade e negociação, considerando a mobilização de recursos verbais, gestuais e corporais na organização das ações. Os resultados indicam que o funcionamento linguístico do estudante não pode ser reduzido a uma lógica deficitária, evidenciando formas singulares e produtivas de significação que emergem na e pela interação. Observa-se que a mediação do interlocutor e os recursos multimodais desempenham papel central na construção de sentidos, assim como a configuração triádica, que amplia as possibilidades de circulação da palavra e de engajamento do sujeito. Episódios de silêncio, pausas e reformulações são compreendidos como constitutivos do processo interacional, e não como falhas. Em diálogo com estudos da área (Morato, 2012; Padilha, 2018; Bordin, 2006; Sellin, 2025), bem como com a noção de neurodivergência (Ortega, 2008) e a perspectiva histórico-cultural (Vygotsky, [1983], 1997), a comunicação contribui para a teorização linguística no âmbito da Neurolinguística Discursiva e para o enfrentamento de abordagens medicalizantes, ao dar visibilidade à singularidade e à alteridade nos modos de estar na linguagem, com implicações para práticas pedagógicas inclusivas.
Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; cenas enunciativas;
VALQUIRIA MIQUELINO DE OLIVEIRA
[Neurolinguística]
Jogos e trabalho com a linguagem na internet em análise pela
Neurolinguística Discursiva A criação dos ambientes digitais tem colaborado para o surgimento de grupos, perfis e plataformas voltadas para determinados campos e práticas que neles ocorrem. Nesse cenário, algumas empresas, profissionais da área clínica e da educação têm se dedicado a compartilhar conteúdos em seus blogs, canais do Youtube e redes sociais, dentre os quais se destacam jogos para “desenvolver”, “incentivar” e/ou “estimular” a linguagem em crianças. Este trabalho, ainda em desenvolvimento, tem como objetivo analisar, com base nos princípios teóricos e metodológicos da Neurolinguística Discursiva (ND), as propostas de jogos divulgados voltados ao trabalho com a linguagem, bem como sugerir possibilidades de (re)adaptação de suas abordagens. Para a análise, foram selecionadas propostas de jogos compartilhadas em perfis com alta popularidade e que são exibidos como primeiros resultados no Google, Youtube e Tik Tok: a) 2 jogos em um blog, b) 2 jogos em canal do Youtube, c) 2 jogos em um perfil do TikTok. Partindo da ND, este trabalho está fundamentado no conceito de linguagem como atividade constitutiva (Franchi, [1977]/1992). Assim, a linguagem não é concebida estritamente como um sistema de formas ou transmissão de conteúdos, mas como uma sistematização aberta de recursos expressivos (Geraldi, 1990), que assume a sua concretude significativa na singularidade da interação com o outro (Benveniste, 1976). Concomitantemente também se considera a potencialidade de tais jogos para possibilitar, através da linguagem, um processo de assimilação (Leontiev, 1986) e de favorecimento da experiência incompleta que os sujeitos falantes de uma língua tem na e pela linguagem (Coudry e Novaes-Pinto, 2023). Os dados preliminares indicam que, em uma abordagem contrária a da ND, as propostas com os jogos utilizados se restringem ao favorecimento de propostas metalinguísticas, nas quais a repetição, a nomeação e a conceituação ocupam um espaço central em detrimento do uso da linguagem. Espera-se que este trabalho contribua para os campos clínico e educacional ao promover um olhar discursivo sobre o uso de jogos como recurso no trabalho com a linguagem, inspirando novas práticas e possibilidades dialógicas entre os sujeitos.
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Jogos; Linguagem;
FERNANDA MUSSALIM GUIMARÃES LEMOS SILVEIRA
[Neurolinguística]
Uma abordagem da relação linguagem-cognição a partir dos conceitos de cena da enunciação e cognição distribuída
Analisando dados do Banco de Dados em Neurolinguística (BDN), referentes às sessões do Centro de Convivência de Afásicos (CCA), espaço criado, em 1989, por Maria Irma Hadler Coudry, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-UNICAMP), me proponho, neste trabalho, a demonstrar a viabilidade de assumir o conceito de cena de enunciação, tal como postulado por Dominique Maingueneau, como locus teórico-metodológico que permite delinear uma entrada observacional, operacional e analítica para a relação entre linguagem e cognição, que possa ser válida não apenas para a abordagem do fenômeno da afasia, mas para quaisquer pesquisas cujo objeto teórico de interesse seja esse espaço de relação linguagem-cognição. A partir da análise de alguns dados do BDN, busco ainda demonstrar que a cenografia – uma das instâncias da cena de enunciação – se constitui como uma embreagem discursivo-cognitiva, isto é, como um espaço de alçamento da relação linguagem-cognição. Como parte da fundamentação teórica do trabalho, mobilizo também a abordagem da cognição distribuída desenvolvida por Edwin Hutchins na década de 1990 (tal como ressignificada em trabalhos anteriores que desenvolvi, a partir da noção de dispositivo comunicacional postulada por Dominique Maingueneau), bem como parte da rede conceitual e metodológica que embasa as pesquisas e os trabalhos realizados no CCA, a partir da Neurolinguística Discursiva fundada por Maria Irma Hadler Coudry na década de 1980. O intuito com a pesquisa, da qual apresento parte dos resultados nesta comunicação, é descrever e analisar o trabalho realizado no CCA, a fim de delinear uma entrada teórico-metodológica de natureza discursiva que possa vir a produzir um impacto científico significativo, na medida em que se apresenta como um recurso interessante para sistematizações de metodologias de intervenção não apenas para situações em que se atua na reorganização de processos cognitivos e/ou linguísticos, mas também para contextos de aprendizagem, como o escolar. Em função disso, o impacto sociocultural que a pesquisa pode vir a produzir é também significativo, na medida em que poderá contribuir com a qualidade de vida e saúde daqueles beneficiados direta e indiretamente com seu desenvolvimento, seja em contextos reconhecidos como terapêuticos (e aqui se pode perceber a possível relação deste trabalho com setores da saúde e, nesse sentido, seu alcance interdisciplinar), seja em contextos educacionais (e aqui se percebe a possível relação da pesquisa com setores da educação, com destaque para a sua aplicabilidade numa escala multiplicadora e amplamente geradora de qualidade de vida social).
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Cena de enunciação;
TASSIANE CORRÊA FONTOURA
[Neurolinguística]
A intervenção do professor diante das condições impostas pelo laudo
As legislações brasileiras atuais, como o Estatuto da Pessoa com Deficiência (LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015) e a Lei de Diretrizes e Bases (Lei nº 9.394/1996), dispõem acerca do dever do Estado, da sociedade e da família garantirem educação de qualidade para a pessoa com deficiência. Um dever que será garantido, dentre outros recursos, mediante o atendimento educacional especializado na rede regular de ensino. No âmbito do estado do Paraná, a Instrução Normativa N.º 001/2016 – SEED/SUED afirma que os professores devem ser instruídos da necessidade de adaptações/flexibilizações curriculares necessárias que oportunizem ao estudante o acesso à aprendizagem. Dessa forma, Professor (Pedagogo ou Especialista, conforme a etapa escolar) e Professor de Apoio Educacional Especializado (PAEE) são responsáveis pela condução das atividades escolares e pela avaliação do aprendizado formal dos alunos laudados. Isto é, dos alunos que atestam essa necessidade funcional a partir da apresentação de um laudo psiquiátrico ou neurológico. O objetivo desse trabalho, portanto, é analisar as adaptações/flexibilizações das atividades escolares e as intervenções do professor especialista nas produções textuais de alunos regularmente matriculados no Ensino Médio Regular que apresentam laudos médicos como Transtorno de Aprendizagem, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Deficiência Intelectual (DI). Considerando, nessa análise, como parte da fundamentação teórica, o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) (Vygotsky, 1986), os pressupostos teórico-metodológicos da Neurolinguística Discursiva (ND) (Coudry, 1988), os critérios para a constituição de situações comunicativas reais na produção escolar (Geraldi, 1990) e as tensões entre o atípico, o natural e o patológico (Canguilhem, 1966). Compreendemos, assim, a ZPD como aquilo que interlocutor leva o sujeito a fazer e, consequentemente, tomamos a figura do professor como um interlocutor/mediador que pode constituir-se como um outro que intervém e promove mudanças na escrita (desenvolvimento/aprendizado) de seus alunos, desafiando as condições impostas não só pela neurodiversidade, mas, sobretudo, pela identidade que o laudo impõe. Isto é, espera-se por fim problematizar como a adaptação/flexibilização das atividades e a intervenção docente podem convocar o sujeito da linguagem e promover mudanças na escolarização formal e no desenvolvimento, sem reduzir o sujeito-aluno a um resto patológico de sua própria história.
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Zona Proximal de
TAYNÁ POVIA DE OLIVEIRA BERGAMASCHI
[Neurolinguística]
A linguagem para além do comportamento: normalização, significação e sujeito na Neurolinguística Discursiva
O presente trabalho propõe uma reflexão sobre práticas com a linguagem na fala, na leitura e na escrita em contextos considerados normais e patológicos, tomando como eixo de discussão a relação entre linguagem, diagnóstico e constituição do sujeito. Ancorada no campo da Neurolinguística Discursiva, desenvolvida por Maria Irma Hadler Coudry na Universidade Estadual de Campinas, a discussão busca problematizar o modo como determinadas práticas terapêuticas e educacionais, sobretudo aquelas orientadas por perspectivas biomédico-comportamentais, tendem a reduzir a linguagem ao comportamento observável, deslocando para o campo do déficit processos singulares de significação. A reflexão retoma questões desenvolvidas em minha dissertação de mestrado, especialmente no que se refere aos efeitos de normalização produzidos quando a linguagem passa a ser concebida prioritariamente em termos de adequação e desempenho. Mobilizam-se contribuições de Lev Vygotsky, Alexander Luria, Carlos Franchi, Michel Foucault, Byung-Chul Han e Georges Canguilhem para pensar: a partir de que concepção de sujeito determinadas dificuldades passam a ser definidas? O que é tomado como erro? O que é considerado desenvolvimento adequado? Em que medida práticas centradas na correção e na adaptação contínua podem transformar hipóteses de significação em comportamentos inadequados a serem eliminados? Metodologicamente, o trabalho se apoia no conceito de dado-achado, compreendido não como evidência estatística, mas como operador teórico capaz de iluminar o funcionamento da linguagem em situação interlocutiva. A análise toma como dado um episódio em que uma criança interpreta literalmente a palavra “meia” em um ingresso de cinema, compreendendo que teria assistido apenas “metade” do filme. O episódio evidencia operação semântica coerente e um percurso interpretativo singular, cuja ampliação depende da interlocução e da partilha cultural. O que se revela ali é déficit linguístico ou fidelidade ao sentido literal? Rigidez cognitiva ou um processo de significação ainda em construção? Defende-se, assim, a necessidade de deslocar o olhar do déficit para o processo, recolocando a linguagem como espaço de constituição do sujeito. Em contraposição a perspectivas centradas exclusivamente na adequação comportamental, a Neurolinguística Discursiva permite compreender o erro como movimento constitutivo da significação. Se a linguagem é constitutiva do sujeito, reduzi-la ao desempenho não significaria também reduzir as possibilidades de existência?
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Autismo; Dispositivo;
LUYZA TOMAZ FERNANDES
[Neurolinguística]
Perimenopausa, Menopausa e Pós-menopausa: considerações iniciais sobre processos discursivos do envelhecimento da mulher
Esta comunicação apresenta uma discussão inicial de uma pesquisa de mestrado em andamento que investiga o envelhecimento da mulher a partir da fundamentação teórico-metodológica da Neurolinguística Discursiva (Coudry, 2001[1986]; Novaes-Pinto, 1999). Neste trabalho, objetiva-se explorar de que maneira os sentidos atribuídos à menopausa contribuem para a manutenção ou o deslocamento de práticas patologizantes, uma vez que a menopausa configura-se como um processo que acompanha mudanças nos modos de compreender o corpo e a saúde da mulher. Para tanto, analisa-se a versão preliminar do Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa (Brasil, 2025), o primeiro a propor a substituição do termo "climatério” (cujas primeiras abordagens foram incorporadas à polícia pública no início do século XX) por “transição para a menopausa”, “perimenopausa”, “menopausa” e “pós-menopausa”. Segundo o documento, a proposta alinha a “linguagem às diretrizes internacionais, evitando ambiguidades e permitindo uma abordagem mais personalizada do cuidado” (Brasil, 2025, p. 17). Ao inscrever-se na Neurolinguística Discursiva (Coudry, 1986; Novaes-Pinto, 1999), o estudo compreende que os fenômenos linguístico-cognitivos estabelecem uma relação indissociável com dimensões históricas, sociais e biológicas. Nessa perspectiva, a linguagem não é tomada como mero instrumento de representação, mas como lugar de constituição de sentidos e do próprio sujeito. Tal filiação permite analisar o fenômeno da menopausa para além de sua dimensão biológica, considerando, assim, os processos de significação que a atravessam e que também constituem o envelhecimento. De maneira geral, observa-se que a busca por uma maneira supostamente mais adequada de nomear e tratar a menopausa, como proposto pelo documento analisado, não indica apenas um movimento de redução de ambiguidades, necessidade de classificação, de descrição e de orientação clínica de um processo que marca o ‘início do envelhecimento da mulher’, como observado na história da medicina e da saúde pública. Revela, na realidade, uma disputa pelo processo de caracterização e consequente normatização da saúde da mulher, o que, por sua vez, indicia processos de medicalização e patologização do envelhecimento. Dessa maneira, considerar a menopausa não apenas como fenômeno biológico, mas como um processo sócio-histórico e culturalmente constituído, permite compreender a complexidade dessa experiência. Espera-se, com esta reflexão, contribuir para as discussões acerca do normal e do patológico no campo dos estudos do envelhecimento e da Neurolinguística Discursiva.
Palavras-chave: Envelhecimento; Menopausa; Neurolinguística Discursiva
LUCIANE DE PAULA
[Filosofia da Linguagem]
A verbivocovisualidade de “Índios”, da Legião Urbana: embate bitonal/bivocal expressivo
Ao assumir a linguagem como processo interno cognoscível, como o afirma Volóchinov, no “Marxismo e Filosofia da Linguagem” que se explicita de modo sincrético ou não, sem deixar de expressar sua tridimensionalidade, este trabalho compreende como a verbivocovisualidade da linguagem pode se encontrar marcada pela figurativização linguística e pela entonação discursiva. A concepção de bitonalidade, que abarca a bivocalidade, trabalhada por Bakhtin (a primeira, especialmente, no livro em que Bakhtin escreve sobre Rabelais; e a segunda, em “O discurso no romance”), evidencia-se de modo privilegiado na oralidade. A bitonalidade, em música, é uma variação da politonalidade e esta germina a polifonia barroca (típica dos cantos), enquanto a bivocalidade ritmiza, de maneiras variadas, a arena discursiva, em que a luta de classes aparece de modo vivo. Este estudo parte de uma exemplificação delimitada, a canção “Índios”, da Legião Urbana, para demonstrar como contrários-contraditórios podem habitar o mesmo ser de linguagem, como o mítico Jano Bifronte. O estudo da modulação bitonal-bivocal objetiva compreender e demonstrar o funcionamento verbivocovisual da linguagem, com seus embates valorativos constitutivos. Em movimento metodológico dialético-dialógico, a análise da canção da Legião ilustra, de modo singular, em tom de ladainha ascendente, pela escala melódica típica de uma “escada Santos Dumont”, como a sobreposição valorativa é revelada pela ambiguidade, grafada entre aspas no título, atribuída aos outros-“Índios”, seja em processo histórico de colonização, seja pela mentalidade e pelo comportamento, já catequizado, flagrado pela repetição do canto estrófico do cantor-compositor, no cotidiano, em suas interações internas e externas, em embate, ora de orientação única, ora de orientação vária. Os resultados revelam o quanto a modulação bitonal/bivocal transforma a criticidade aguda em passividade (quase dócil) diante da selvageria da exploração humana em escala valorativa ascendente (do grave ao agudo) e constante. A instrumentalização, leve e como pano de fundo, desvela as violências pela sonoridade do teclado sintetizado. O anúncio do prelúdio barroco (de inspiração bachiana), (des)velado pela bitonalidade/bivocalidade polêmica, finalizada em cadência plagal, reflete e refrata uma mentalidade verbivocovisual “robótica”/”zumbi”, calcada em valores religiosos, políticos, econômicos e culturais do outro-explorador, incorporada pelo sujeito-eu da canção em sua denúncia reflexiva (a-passiva-da).
Palavras-chave: Estudos bakhtinianos; verbivocovisualidade;
MÔNICA NUBIATO
[Filosofia da Linguagem]
As tensões bivocais no signo ideológico “soberania”: um estudo dialético-dialógico verbivocovisual
Este trabalho investiga a bivocalidade a partir de uma perspectiva ampliada da análise dialógica do discurso, ao assumir a linguagem como verbivocovisual. Parte-se da premissa de que o signo ideológico constitui um espaço de disputa no qual valores sociais se tensionam e se reorganizam continuamente, não apenas em sua materialidade externa, mas também como processo interno cognoscente. O estudo tem como objetivo analisar como diferentes orientações de sentido são produzidas em um mesmo signo ideológico, deslocado do foco das oposições para as tensões dialético-dialógicas. A hipótese que orienta a pesquisa é que a entonação expressiva, compreendida como dimensão constitutiva da materialidade verbivocovisual do signo, funciona como índice privilegiado de observação dessas tensões, ao evidenciar o sentido constituído pela e na articulação entre dimensões verbais, vocais e visuais. O corpus analisado é composto por dois discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, proferidos em 2024: (i) o pronunciamento oficial de lançamento da campanha “Brasil Soberano”, realizado em contexto nacional, e (ii) o discurso de abertura da 79ª Assembleia Geral da ONU, em contexto diplomático internacional. Ambos mobilizam o signo ideológico “soberania”, o que permite observar sua reconfiguração em diferentes condições de produção em um mesmo campo, o político. Metodologicamente, desenvolve-se uma análise qualitativa de recortes discursivos e frames visuais, ao considerar o signo ideológico soberania, bem como marcas entonacionais inferidas, gestualidade, enquadramento e elementos simbólicos dos sujeitos no ato de enunciação discursiva. Busca-se identificar como a materialidade verbivocovisual orienta a produção de sentido. Como resultado inicial, identifica-se que, no pronunciamento nacional, a soberania é construída como valor afetivo, político e mobilizador, articulado à defesa do povo, da economia e da ordem jurídica, com maior variação entonacional e expressividade gestual. No contexto da ONU, a soberania assume caráter mais normativo e jurídico, associada à capacidade estatal e à ordem internacional, com entonação mais controlada e gestualidade contida. Tais diferenças evidenciam que o mesmo signo ideológico se reconfigura no ato discursivo, o que torna perceptíveis tensões valorativas que envolvem o público/auditório a quem/ao qual o sujeito-presidente se dirige e os interesses em questão. Conclui-se que a bivocalidade se constitui na unidade verbivocovisual do enunciado, sendo a entonação um ponto privilegiado de observação das orientações valorativas da produção de sentidos.
Palavras-chave: Bivocalidade; soberania; verbivocovisualidade
ANA CAROLINA SIANI LOPES
[Filosofia da Linguagem]
Uma reflexão dialógica verbivocovisual da visão (mágica) de mundo da saga "Harry Potter"
Esta proposta está baseada em um percurso de pesquisas em níveis de doutorado e pós-doutorado que têm como objetivo analisar o modo pelo qual relações de raça, gênero e classe são materializadas no mundo mágico de Harry Potter (HP), tanto na literatura quanto no cinema. A partir do pensamento teórico-metodológico do Círculo de Bakhtin e de suas considerações filosóficas sobre o diálogo entre vida e arte, entre as formas de linguagem e o solo sócio-histórico-cultural, no doutorado, uma pesquisa se focou no nó patriarcado-racismo-capitalismo na construção da intersecção gênero-raça-classe, nos sete volumes da série literária de HP e, no pós-doutorado, a pesquisa atual, desdobramento do doutorado, volta-se ao modo pelo qual essas relações são semiotizadas na saga cinematográfica. Ancorada nesse percurso, esta comunicação apresenta algumas reflexões resultantes do estágio de pesquisa no exterior (BEPE-FAPESP), no qual foram aprofundadas as especificidades do gênero fantástico, tal como é concretizado na esfera do cinema, uma vez que a hipótese pós-doutoral é a de que, em HP, a relação “eu-outro” organiza a forma/conteúdo do enunciado, a partir de dado acabamento ético-estético do “outro” (visto como “diferente”), característica singular do universo da fantasia enquanto discurso materializado por um enunciado que se mostra por meio de uma visão “mágica” de mundo ao refletir e refratar questões sociais de identidade e diferença. Assim, analisa-se como os sentidos se expressam no enunciado fílmico, ou seja, como os conflitos entre identidade e diferença ganham uma encarnação audiovisual, à luz de uma concepção verbivocovisual de linguagem, perspectiva prevista na amplitude do pensamento do Círculo. Os resultados apontam para as potencialidades valorativas da linguagem cinematográfica na composição do projeto de dizer do enunciado, uma vez que a interrelação entre elementos verbais, vocais (sonoros/musicais) e visuais operam materialmente juntos na constituição do sentido, internos (em termos de compreensão cognoscente ativa) e externos (como elementos próprios do audiovisual, composto pela síncrese da linguagem). Construção que também é potencializada pelo gênero fantástico e suas especificidades. O fantástico no cinema retrata a ordem social mágica por meio de sua linguagem específica, na esteira de dado acabamento estético, a partir do qual a filmografia de HP reflete e refrata a relação “eu-outro” por meio de determinadas construções verbivocovisuais do “diferente”. “Diferente” assumido como “estranho” e “peculiar”, caracterizado por elementos próprios de uma construção artística crítica e, ao mesmo tempo, aparentemente distante da vida social corrente.
Palavras-chave: Fantasia; Verbivocovisualidade; Círculo de Bakhtin
ALLINE DUARTE RUFO
[Análise do Discurso]
Númenor em “Os Anéis de Poder”: a verbivocovisualidade e o legendarium de J. R. R. Tolkien
Esta proposta investiga a construção verbivocovisual da Segunda Era do legendarium, de J. R. R. Tolkien, na adaptação audiovisual da primeira temporada de “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder”, da Amazon Prime. O objetivo é analisar como os elementos verbais, vocais e visuais se articulam explicitamente na construção de uma unidade de sentidos na reinterpretação do mundo ficcional, considerando as limitações impostas pelos direitos autorais, que restringem o acesso a determinados textos tolkienianos. O recorte metodológico centra-se na ilha de Númenor, na primeira temporada da série, em cotejo com as obras de J. R. R. Tolkien, sobretudo O Silmarillion. Adota-se uma perspectiva teórico-metodológica do chamado Círculo bakhtiniano, com uma abordagem tridimensional da linguagem, em que o enunciado é assumido como unidade indissociável de aspectos cognoscíveis internos e, no audiovisual, explicitamente materializados nas dimensões verbal, vocal e visual. Ademais, a partir do conceito de dialogismo, observa-se que a adaptação audiovisual é concebida como um processo dialógico, central e constitutivo da perspectiva bakhtiniana, para a qual o enunciado presente estabelece relações de convergências e tensões com aqueles expressos antes dele, assim como antecipa respostas de enunciados futuros. No caso, a série responde dialogicamente à obra literária e constitui um processo singular de worldbuilding (Mark J. P. Wolf). Parte-se, assim, do mapeamento e da análise de cenas da primeira temporada ambientadas exclusivamente em Númenor, selecionadas por sua relevância na construção da Segunda Era, com foco em sua construção explicitamente verbivocovisual para identificar como esses elementos convergem para produzir sentidos com a finalidade de tornar verossímil a construção de Númenor como mundo possível. Nesse sentido, diante das restrições de acesso a materiais do legendarium e do caráter fragmentário das fontes sobre Númenor, a série elabora uma, possível, proposta singular, na qual a invenção, para além da criação de Tolkien, é legitimada por uma coerência estética discursiva que busca suprir lacunas narrativas e traduzir as tensões sociais dentro do mundo ficcional em um prenúncio da Queda de Númenor. Os resultados demonstram a pertinência e relevância da assunção da verbivocovisualidade da linguagem como modo de visualizar as camadas de sentido que transcendem a narrativa na construção discursiva arquitetônica de determinado projeto de dizer. Com a reflexão empreendida, a pesquisa contribui com os estudos de adaptação, e de enunciados audiovisuais, ao evidenciar como a obra audiovisual constrói um mundo ficcional em diálogo com o canon tolkieniano.
Palavras-chave: Adaptação audiovisual; Verbivocovisualidade; J. R. R
ISABELLA LOURENCI KOJIMA
[Filosofia da Linguagem]
O amor na palavra romanesca de Carla Madeira: uma análise dialógica da relação afetivo-amorosa de
Dalva e Venâncio, de “Tudo é rio” . Um fio condutor atravessa a poética de Carla Madeira em seus três romances: a complexidade das relações humanas. Em?Tudo é rio (2014), o amor se manifesta como corrente, pelo ciúme. Com a relação dos protagonistas Dalva e Venâncio, a autora-criadora instiga a reflexão sobre como os afetos marcam a existência e sobre como o discurso literário, com seu acabamento estético, reflete e refrata embates sociais da vida. Por meio de um movimento metodológico dialético-dialógico, esse corpus foi delimitado tendo em vista uma construção de concepção e relação afetivo-amorosa específica nesse objeto de pesquisa. Nesta comunicação, a proposta se volta à representação de “amor” como elemento constitutivo das personagens Dalva e Venâncio, de Tudo é rio (2014), tendo em vista a interação entre eles, calcada na especificidade da sexualidade enquanto o desejo e prazer de degustar a liberdade, em embate com o “amor” romântico interrelacionado com a dor e o silenciamento feminino, marcado pela posse e pelo ciúme. Para esta apresentação, o objetivo é analisar, fundamentado na amorosidade bakhtiniana, como a relação entre os personagens-protagonistas (Dalva e Venâncio) de Tudo é rio explicitam um embate entre a liberdade e o aprisionamento da obrigatoriedade romantizada pela fantasia, em contrapartida à compulsoriedade cotidiana da relação afetivo-amorosa contratada e consolidada a longo prazo. Os resultados iniciais revelam perfis de gênero (de homem e mulher), que refletem e refratam valores sociais específicos, respectivamente, de superioridade (masculina) e submissão (feminina), conforme os estudos de Beauvoir, Saffioti, Studart, hooks e Davis. As considerações finais confirmam a hipótese inicial de que o enunciado, como reflexo e refração de práticas sócio-histórico-culturais (Volóchinov, 2017), de modo ético-estético (Bakhtin, 2010), reacentua as relações afetivo-amorosas ao enfocá-las de modo plurissignificativo, pois a partir de pontos de vista de personagens de gêneros distintos que viabilizam o prazer pela e com a presença de um terceiro sujeito, o que subverte o cânone ao “desromantizar” o amor como contrato social e de posse do outro.
Palavras-chave: Estudos bakhtinianos; Vozes sociais; Ética-Estética
INGRID LILIAM DA SILVA
[Filosofia da Linguagem]
Leitura e escrita na escola: um estudo dialético-dialógico verbivocovisual
O presente trabalho insere-se no campo da análise dialógica do discurso e busca refletir sobre práticas de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa no Ensino Médio, considerando os desafios contemporâneos da cultura digital. O objetivo central é apresentar uma proposta de protótipo de ensino voltado à leitura e produção de gêneros jornalísticos na escola, em especial a notícia, como forma de estimular a criticidade e desenvolver a identidade autoral dos estudantes. Fundamentada nos pressupostos bakhtinianos, a pesquisa parte da concepção de linguagem como prática social, em que os enunciados refletem e refratam o solo histórico e cultural de sua produção. Nesse sentido, o estilo autoral é compreendido como assinatura identitária do sujeito que enuncia, essencial para a formação de vozes críticas e criativas na escola. Metodologicamente, a proposta caracteriza-se como pesquisa-ação de cunho interventivo analítico-interpretativo, com foco na construção, por parte dos estudantes, de um Jornal Digital voltado à elaboração de gêneros da esfera jornalística. A ênfase recai sobre a verbivocovisualidade, conceito que remete à integração de elementos verbais, vocais e visuais nos enunciados, a partir dos estudos de Bakhtin e o Círculo. Tal perspectiva permite compreender os enunciados jornalísticos (digitais) como unidades explicitamente sincréticas, constituídas pelo entrelaçamento verbivocovisual na e para a produção de sentidos. A exploração dos letramentos jornalísticos, acadêmico e digital amplia a criticidade dos estudantes diante da circulação de notícias, especialmente em tempos de fake news e de uso intensivo de inteligências artificiais. O quadro teórico-metodológico articula os estudos bakhtinianos sobre gêneros do discurso e estilo autoral com as contribuições de autores contemporâneos que discutem multiletramentos e práticas pedagógicas dialógicas. A proposta busca demonstrar, na prática escolar, como o trabalho com notícias e outros gêneros jornalísticos pode favorecer o despertar do questionamento, da reflexão, da criticidade e estimular o processo de construção da autoria criadora, como parte do processo educativo comprometido com a participação cidadã. Ao final, espera-se que o protótipo de ensino elaborado em conjunto com um grupo de estudantes contribua para a construção de uma educação democrática. Ademais, almeja-se estimular o trabalho com a pesquisa-ação na área da educação linguístico-discursiva, em especial no que tange à prática da leitura e da escrita na escola.
Palavras-chave: Analise dialógica; discurso; verbivocovisualidade
LILIANE PEREIRA DA SILVA COSTA
[Filosofia da Linguagem]
Leitura de fruição e verbivocovisualidade: reflexões bakhtinianas nos multiletramentos escolares
Este estudo exploratório propõe uma reflexão crítico-analítica sobre a leitura de fruição nos anos finais do Ensino Fundamental, articulando gêneros textuais, multiletramentos e a filosofia da linguagem bakhtiniana. O objetivo é compreender como a experiência estética e responsiva dos estudantes pode ser potencializada quando se considera a complexidade dos textos contemporâneos, que se estruturam em múltiplas linguagens e demandam uma abordagem ampliada de leitura. A noção de verbivocovisualidade, desenvolvida a partir dos pressupostos do Círculo de Bakhtin, constitui o eixo central desta investigação. Essa categoria permite compreender os enunciados como arquiteturas híbridas em que palavra, voz e imagem se entrelaçam de forma indissociável, instaurando sentidos que não podem ser reduzidos a uma única dimensão semiótica. A leitura de fruição, nesse contexto, ultrapassa a mera decodificação verbal e se transforma em experiência dialógica, na qual o leitor é convidado a interagir com os diferentes planos expressivos que compõem o texto. A filosofia da linguagem bakhtiniana amplia essa discussão ao enfatizar que todo ato de leitura é também um ato de posicionamento ético e discursivo. O sujeito leitor não apenas apreende signos, mas responde a eles, produzindo réplicas que se inscrevem em uma cadeia comunicativa mais ampla. Assim, a fruição literária e multimodal não se limita ao prazer estético, mas envolve também a consciência crítica diante das vozes sociais que atravessam os textos. No cenário da cultura digital e da diversidade de gêneros textuais — como narrativas ilustradas, quadrinhos, videoclipes, memes e produções digitais — torna-se imprescindível reconhecer que os estudantes já estão imersos em práticas de leitura multimodais. Refletir sobre essas práticas a partir da verbivocovisualidade significa valorizar a literatura infantojuvenil contemporânea e os gêneros híbridos como espaços de formação integral. Expandir o conceito de letramento em direção à arquitetônica verbivocovisual bakhtiniana é fundamental para que a escola promova práticas que desenvolvam habilidades de leitura para formar leitores críticos, autônomos e sensíveis, capazes de atuar de forma ética e consciente na sociedade contemporânea.
Palavras-chave: Verbivocovisualidade; Filosofia da linguagem;
ROSINEIDE DE MELO
[Filosofia da Linguagem]
Diálogos inconclusos entre Bakhtin e Freud
Propomos essa contribuição para os estudos da linguagem/do discurso e da psicanálise ao estabelecer diálogo (não inédito, uma vez que o próprio Bakhtin já o fizera, 2001) entre dois ícones do pensamento moderno do século passado: Bakhtin e seu Círculo (Volóchinov, 2017; Bakhtin, 2001; 2016) e Freud (2013). Esta reflexão tem por objetivo revisitar alguns pressupostos fundantes da Teoria/análise dialógica do discurso e estabelecer relações com concepções também basilares da Psicanálise, apontando articulações possíveis entre elas, teórica e aplicadamente a partir de vinhetas clínicas. Para isso, emprestamos também dos estudos linguísticos a metodologia dialético-dialógica (Paula, Figueiredo e Paula S, 2011) por considerá-la adequada ao tipo de percurso aqui escolhido. De Bakhtin e seu Círculo recortamos a concepção dialógica do discurso, o signo ideológico e a noção de enunciado, presumidamente invocando outros tantos conceitos constitutivos. Ressaltamos que para este diálogo não incluiremos a conceituação de significante na psicanálise introduzida por Jacques Lacan. Em relação à Psicanálise, destacamos o fato de Freud desenvolver a técnica terapêutica a partir do diálogo para tratar os pacientes, abandonando a hipnose até então método empregado. Nesse sentido, a sessão de psicanálise – como um gênero discursivo – privilegia enunciado verbal, no conjunto com a expressão corporal, facial e o gestual (visual) e ainda a entoação (vocal), além de considerar outros atos semiotizados, como o divã. Os aspectos linguístico-discursivos são inerentes, constitutivos e essenciais para que haja atividade humana e a clínica psicanalítica. O objeto da Psicanálise, enquanto prática e pesquisa – o inconsciente – revela-se na linguagem, seja pelos lapsos, pelos chistes e/ou pelos silêncios. Os sintomas também são manifestações semióticas além de somáticas. Em outras palavras, na materialidade linguístico-discursiva é que o inconsciente deixa seus rastros em situação de análise. Esta proposta coloca em inacabamentos alguns textos de Bakhtin e seu Círculo e de Freud, sem estabelecimento de síntese como fechamento epistemológico. Nesse sentido, a vinheta clínica, como estratégia de coleta empírica, ilustra as leituras interpretativas apresentadas à luz da Análise Dialógica do Discurso (ADD) e da Psicanálise. O estudo revela a inegável potência nas imbricações entre essas duas áreas do conhecimento.
Palavras-chave: Teoria/análise dialógica do discurso; psicanálise
GIOVANNA LONGO
[Semiótica]
A construção do espaço passional nas Heroides: mito, retórica e tensividade
Este trabalho integra as reflexões desenvolvidas no projeto “A dinâmica do Sensível na construção da persuasão: um estudo retórico-semiótico das Heroides de Ovídio”, cujo objetivo é investigar os mecanismos de construção dos afetos na obra ovidiana a partir da articulação entre Semiótica, Retórica e Poética. Com base sobretudo na semiótica tensiva, busca-se compreender como a dimensão sensível do discurso participa da produção de efeitos de sentido e da construção da persuasão nas Heroides, conjunto de 21 cartas elegíacas compostas por Ovídio entre aproximadamente 20 e 8 AEC. Na obra, personagens femininas da tradição mítica greco-latina escrevem a seus amantes ausentes, deslocando-se da posição secundária que ocupavam em epopeias e tragédias para assumirem o papel de narradoras de suas próprias experiências passionais. Partindo da concepção greimasiana de mito como sistema semântico gerador de narrativas, o estudo considera que as Heroides instauram um espaço enunciativo singular no interior do contínuo narrativo mítico. Ovídio introduz um episódio ficcional – a escrita das cartas – sem alterar o desfecho conhecido das narrativas tradicionais, mas reconfigurando profundamente o perfil das heroínas. Por meio da debreagem actancial, essas personagens tornam-se narradoras-personagens que reinterpretam os acontecimentos a partir de sua vivência afetiva, marcada pela ausência, abandono, traição e espera amorosa. A análise proposta focaliza a suspensão do programa narrativo mítico em favor da dilatação do espaço passional. Nas cartas, o fazer é momentaneamente interrompido para que se intensifique o sentir. Tal suspensão produz um “zoom” sobre a relação juntiva, permitindo observar as modalizações afetivas, tensões e aspectualizações que constituem os estados de alma das narradoras. Nesse contexto, a carta deixa de ser mero artifício retórico ou monólogo repetitivo, como sugeriu parte da crítica tradicional, e passa a configurar-se como território discursivo de figurativização da paixão. À luz da semiótica tensiva de Zilberberg e dos desenvolvimentos de Bertrand, Fiorin e Fontanille, investiga-se como recursos argumentativos, tropológicos, sintáticos e figurativos modulam a intensidade do discurso e orientam a adesão do enunciatário. Busca-se demonstrar que a dinâmica persuasiva das Heroides decorre precisamente do jogo tensivo entre inteligível e sensível, entre convencimento e comoção. Assim, a obra de Ovídio não apenas reelabora a tradição mítica, mas inaugura novas possibilidades de representação da subjetividade feminina e da experiência passional, revelando a força estética e persuasiva da linguagem poética.
Palavras-chave: Semiótica tensiva; Paixões; Heroides
BEATRIZ ARAUJO MORANDINI
[Semiótica]
A dimensão política dos afetos: um estudo semiótico da carta "Dido a
Eneias" (Ovídio, Heroides, VII) Há duas leituras concorrentes da carta “Dido a Eneias”: uma mais recorrente que concebe a despedida amorosa de dois amantes, comentada por classicistas; outra, como um testemunho que transforma a morte de Dido numa atitude também de influência política. O amor funesto torna-se arena de combate na qual os amantes ocupam posições de rivais, aludindo às Guerras Púnicas entre Roma e Cartago. Este trabalho desenvolverá a segunda possibilidade de leitura, em complemento à primeira, considerando que o simulacro de subjetividade feminina instaurado no texto se desdobra em um perfil político, isto é, a partir do papel temático de rainha, e em um perfil amoroso, caro ao papel temático de amante. O objetivo principal é identificar e articular os elementos na carta que permitam configurar uma isotopia política no discurso predominantemente amoroso da carta. Na ausência de Eneias, que abandona Dido e o reino de Cartago para cumprir com sua missão de herói pio, a carta adquire a função de relatar o sofrimento de Dido uma vez que, para que Eneias se compadeça, é preciso que ele testemunhe de alguma maneira o dano causado por sua partida. Para essa discussão, recorre-se a Semiótica Discursiva, visando reconhecer os efeitos de sentido decorrentes da narração do passado de Dido (v. 111-128) e a contribuição destes para a argumentação da heroína que, para além da morte que será causada por Eneias, elenca duas outras mortes alternativas por meio de figuras de poder político importantes: Pigmalião, seu irmão; e Jarbas, um dos pretendentes recusado dos reinos vizinhos. Além disso, a catálise desse trecho será examinada em sua tensividade, recorrendo a Semiótica Tensiva. Nesse sentido, com um estudo dos afetos e da dimensão sensível da carta elegíaca, espera-se atingir as condições de emergência da afetividade que advém da experiência sensível do sentido, isto é, o sofrimento manifestado pela heroína. A proposta é, com a aplicação ao texto da teoria semiótica, lançar luz às particularidades do poeta Ovídio que, ao subverter as categorias elegíacas, promove outros efeitos com o lamento amoroso na voz feminina. (Apoio: FAPESP - Processo 2025/03487-5).
Palavras-chave: Semiótica; Ovídio; Persuasão
JULIANA DI FIORI PONDIAN
[Semiótica]
A paixão da angústia na poesia inicial de Augusto de Campos
Este trabalho busca investigar a configuração da paixão da angústia nos primeiros poemas de Augusto de Campos, desde a coletânea O rei menos o reino (1949-1951), em que ela se apresenta como tema recorrente, até a série poetamenos (1953), à luz dos pressupostos da semiótica discursiva e de seus desdobramentos na semiótica das paixões e na teoria tensiva. Pretende-se analisar de que maneira a angústia se manifesta não apenas como tema ou conteúdo representado, mas também como efeito de sentido produzido pelas relações entre plano de expressão e plano de conteúdo dos textos. Partindo da compreensão de que a dimensão passional dos enunciados se constrói tanto em manifestações verbais quanto não verbais, e de que a experiência sensível do sentido participa da emergência dos efeitos de afetividade e estesia, busca-se observar como os poemas produzem modos de sentir inscritos nas dinâmicas sensíveis da enunciação. Tomando como corpus poemas publicados entre 1949 e 1953, podemos verificar como essa temática é abordada na passagem da poesia inicial de Augusto de Campos, ainda organizada em versos, para a sintaxe gráfico-espacial da poesia concreta, inaugurada com a série poetamenos. A análise parte da hipótese de que a angústia se organiza segundo uma configuração tensiva marcada pelo fechamento, pela concentração e pela descontinuidade. Tal hipótese encontra respaldo tanto na etimologia de angusta — associada às ideias de estreitamento, brevidade e clausura — quanto nas próprias definições dicionarizadas da paixão, frequentemente vinculadas à redução do espaço e do tempo. Assim, pretende-se observar como a angústia projeta, no campo de presença do sujeito, uma percepção circunscrita e saturada, caracterizada por ritmos sincopados, interrupções, acelerações e estados de falta. Nessa perspectiva, a paixão pode ser compreendida menos como relação objetiva entre sujeito e objeto do que como modulação perceptiva e estésica do próprio campo sensível, na qual o sujeito experimenta um “aperto” simultaneamente corporal, espacial e temporal. Desse modo, o trabalho propõe, de um lado, compreender as articulações discursivas da paixão da angústia por meio de correlações fórico-modais e tensivas; de outro, observar como essas articulações passionais se manifestam em textos poéticos, inclusive materialmente, na organização visual, sonora e verbal dos poemas, a fim de compreender as condições de emergência da afetividade enquanto experiência estética e estésica.
Palavras-chave: Semiótica das paixões; Angústia; Poesia concreta
RENATA CIAMPONE MANCINI
[Semiótica]
Processos sincréticos e linguagens híbridas: o contato entre literatura e quadrinhos na obra de
Lourenço Mutarelli Os processos de criação artística e midiática parecem responder, de maneira cada vez mais evidente, ao contato entre linguagens distintas, seja ele mais intenso e explícito, seja mais difuso e sutil. Mais do que simples justaposições, os objetos de interface mobilizam modos complexos de articulação entre linguagens, instaurando zonas de contato nas quais as fronteiras antes relativamente estáveis tendem a se tornar fluidas e porosas. Justamente por emergirem em um contexto marcado pela intensificação de trocas intermidiáticas, os objetos híbridos frequentemente ocultam uma complexidade estrutural de base, cuja apreensão exige uma reflexão mais cuidadosa sobre os modos de organização, integração e transformação das linguagens em jogo. A acepção de linguagem com a qual trabalharemos neste caso é a de que a prática semiótica, enquanto gesto enunciativo, quando reiterada em uma práxis coletiva, estabiliza e cristaliza um modo prototípico de dispor expressão e conteúdo, que se sedimenta numa “linguagem” ou numa forma de vida (Fontanille, 2015). Daí falarmos em linguagem cinematográfica, linguagem teatral, linguagem literária, linguagem dos quadrinhos, para citar apenas alguns exemplos. Trazendo o modus operandi da enunciação sincrética para agora pensar o processo de hibridização de linguagens, diremos que uma forma geral tensiva da expressão subjuga diferentes linguagens (e não mais apenas substâncias e formas específicas distintas da expressão, como no texto sincrético). Ou seja, no caso da formação do híbrido, o processo de sincretização se mantém, mas o que muda é onde ele incide. Nessa linha, propomos analisar três obras que tensionam a relação entre quadrinhos e literatura, todas do autor Lourenço Mutarelli: a HQ “Mundo pet”, o livro-quadrinho “A caixa de areia” e o romance “O cheiro do ralo”, no qual a prática de quadrinista do autor do romance leva para a escrita literária uma lógica de composição dos quadrinhos. Com essas três obras, procuraremos mostrar que a dinâmica de interpenetrações e ajustamentos entre linguagens engendra processos de rarefação e adensamento dos traços que as caracterizam no objeto híbrido, instaurando um jogo de presenças e ausências das linguagens envolvidas.
Palavras-chave: Linguagens híbridas; Sincretização; Lourenço Mutarelli;
ELIANE SOARES DE LIMA
[Semiótica]
Entre o ódio e a cólera: as duas faces dos discursos de ódio no
Instagram Uma das primeiras discretizações necessárias quando se tenta estudar de forma sistemática o fenômeno dos discursos de ódio (hate speech) é aquela entre o ódio, como paixão vivida, experimentada pelo sujeito, e a sua resolução emocional por meio de uma manifestação discursiva violenta e agressiva dirigida a um outro, tomado este como representante de determinado grupo social. Ainda que estejam intimamente relacionadas, essas duas etapas, a paixão em si e a sua discursivização verbal, não se confundem, uma vez que nem todo ódio, sentido como assomo de um estado de alma, adota como desdobramento esse tipo de resolução patêmica — entre outros traços que os diferenciam. A primeira, referente ao ódio como estado de alma, parece remeter às condições de produção do sentimento, enquanto a segunda, aos discursos de ódio propriamente ditos, que a partir desse estado passional se configuram e alimentam. Dentro desse contexto, parece essencial examinar as semelhanças e, sobretudo, as diferenças entre duas paixões vizinhas, o ódio e a cólera, que costumam se imbricar nas manifestações discursivas odiosas as quais, por vezes, circulam nas redes sociais digitais, como o Instagram. Interessa, portanto, a este estudo, partir da distinção entre a paixão do ódio ela mesma e a sua manifestação verbal contra um outro para, então, depreender as condições de emergência das paixões do ódio e da cólera, bem como o modo como se manifestam no discurso apaixonado do odiador. Assim, depois de caracterizá-las, verificaremos, primeiro, o grau de presença de cada uma dessas duas paixões em postagens típicas do discurso de ódio raivoso, para, na sequência, examinar o seu modo de articulação e a possibilidade de hierarquização entre tais disposições afetivas. Isso será feito por meio dos princípios teóricos e metodológicos da Semiótica Discursiva, com especial atenção aos desdobramentos da semiótica das paixões e da semiótica tensiva. O intuito é justamente o de contribuir para o estabelecimento de uma maior inteligibilização da dinâmica de funcionamento que subjaz aos discursos de ódio, permitindo o seu efetivo reconhecimento e a consequente responsabilização das práticas interativas violentas no domínio das plataformas digitais de redes sociais. Ademais, acreditamos que essa compreensão sistematizada do fenômeno é bastante útil para que se possa pensar e propor ações efetivas de prevenção e combate à proliferação dos discursos de ódio dentro e fora do universo digital.
Palavras-chave: discursos de ódio; redes sociais; paixões
REGINA SOUZA GOMES
[Semiótica]
As interações patêmicas de comentários sobre as manifestações contra a
PEC da Blindagem nas redes sociais O objetivo da comunicação é discutir e compreender os modos de construção do sentido de discursos polêmicos que circulam nas redes sociais, caracterizados, principalmente, pelas altercações políticas, pelas polarizações e pelos excessos patêmicos nas relações enunciativas (Barros, 2014; 2015; 2016), sob a perspectiva teórica da Semiótica Discursiva. As posições ideológicas arraigadas e apaixonadas desses enunciados acabam por dificultar o diálogo e reafirmar os discursos intolerantes e preconceituosos, levando aos discursos de ódio e a consequências pragmáticas imprevisíveis na sociedade. Esses discursos são modulados por diferentes graus de intensidade (Zilberberg, 2011), a depender das formas de adoção de posições ideológicas e dos papéis temáticos assumidos pelo enunciador, o que buscamos caracterizar. Analisamos, para tanto, comentários de postagens e matérias que circularam nas diversas redes sociais (Facebook, Youtube, Instagram) sobre as manifestações do dia 21 de setembro do ano passado (2025), em várias cidades do país, contra a aprovação, pela Câmera dos Deputados em Brasília, da PEC da Blindagem, que modificaria o art. 53 da Constituição Federal. Levamos em conta, para a análise, principalmente, as relações patêmicas que caracterizam as redes sociais, observando as várias formas de modulação dos afetos e da intensidade (Zilberberg, 2012), geralmente relacionadas às posições ideológicas assumidas pelo enunciador do comentário, e o grau de permeabilidade ou impermeabilidade nas contendas. A análise aponta para convergências entre os iguais e divergências apaixonadas, com diferentes graduações de andamento e intensidade, a depender do espectro político assumido. O emprego de recursos como a ironia e o sarcasmo encaminham as interações mais para a derrisão e a provocação que para a manifestação de discordância clara ou diálogo polêmico, como já é esperado, além da presença marcante, de um lado, das paixões benevolentes da admiração e o engajamento ético, estésico e estético e, de outro, as paixões malevolentes da vergonha, do desprezo e do desdém, reafirmando hiperbolicamente cada posição ideológica assumida.
Palavras-chave: semiótica; paixões; redes sociais;
CLARA BONTEMPO
[Semiótica]
Construção semiótica da Tradwife: a tensão entre o discurso da esposa tradicional e as práticas da influenciadora digital
Este trabalho investiga a construção semiótica da tradwife, considerando como objeto de análise as publicações da influenciadora Luiza Maciel na rede social Instagram. Tomaremos como base metodológica a semiótica discursiva, em especial as categorias do percurso gerativo de sentido, proposto por A. J. Greimas, alguns conceitos da abordagem tensiva, desenvolvida por Claude Zilberberg e a proposta mais recente de Jacques Fontanille sobre o percurso gerativo do plano da expressão, que compreende figura-signo, texto-enunciado, objeto, prática semiótica e forma de vida. Buscaremos demonstrar como a tradwife se constitui a partir de uma relação concessiva entre dois papéis temáticos em tensão: o da esposa tradicional e o da influenciadora digital. Para este trabalho, analisaremos 10 publicações que representam as principais questões abordadas pela influenciadora - casamento, maternidade, feminilidade, beleza, moda modesta e cuidado doméstico. Essas 10 postagens também são representativas no que diz respeito aos formatos midiáticos utilizados, tais como vídeos com fundo musical e texto escrito, vídeos narrados, sequência de fotos com legenda complementar e, entre eles, conteúdo publicitário. Por fim, discutiremos a relação conflituosa entre os papéis temáticos da esposa e da influenciadora na relação que se estabelece entre o texto enunciado e a prática semiótica de Luiza Maciel no Instagram. Pelo ponto de vista do texto enunciado, ela se apresenta como esposa submissa e mãe zelosa, que tem como objeto-valor de seu programa de base a harmonia do lar e o bem-estar da família. Ao mesmo tempo, o sujeito da prática é uma influencer característica que tem como objeto-valor de seu programa de base a viralização e a monetização de seus conteúdos. Nesse embate, procuraremos mostrar que, embora Luiza Maciel dissemine valores conservadores, sobretudo no que diz respeito a papéis de gênero, seu papel na prática semiótica de influenciadora digital é, de fato, o de uma empreendedora que visa lucro e presença marcante nas redes sociais. A questão de interesse é entender como a tradwife se constitui como uma figura coesa a partir do tensionamento entre dois papéis aparentemente antagônicos.
Palavras-chave: Tradwife; práticas semióticas; influenciadora digital
MARIA ALICE FANUELE RIBEIRO
[Semiótica]
Juventude marginal e ideologia em Persona 5
Jogos digitais e videogames se tornaram extremamente comuns na atualidade, com uma infinidade de narrativas, gêneros e possibilidades para os jogadores. Dentre as produções atuais, nos interessa analisar como estes produtos, reconhecidos e relegados há muito como entretenimento banal, passaram a integrar a sociedade com discursos sobre gênero, raça, saúde mental e vêm, ao longo do tempo, ganhando estatuto social de arte e se tornando objeto de estudo de teóricos do campo das linguagens. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo analisar Persona 5, o quinto título da série japonesa de jogos Persona, da Atlus, que retrata a rotina escolar de um garoto que, após ser acusado e punido por um crime que não cometeu, busca justiça e vingança. No jogo, o jogador vivencia a rotina de um adolescente que precisa manter a aparência comum de estudante, vivendo “a honest student life” (Atlus, 2017), enquanto utiliza poderes sobrenaturais para enfrentar o que considera injustiças e expor crimes daqueles que não são punidos em razão de suas posições sociais privilegiadas. Nesse percurso, outros jovens passam a integrar o núcleo de personagens principais, trazendo à cena novas situações em que a moral e julgamento sobre justiça diverge em relação à sociedade e à sua declarada distorção. É a partir desse ponto que propomos, sob a perspectiva da semiótica discursiva, a análise das estratégias e cenas práticas do jogo Persona 5, a fim de identificar como o encadeamento de práticas cotidianas como a vivência escolar, familiar, o trabalho e as dinâmicas hierárquicas sociais, constantemente tensionadas faz emergir o sentimento de não pertencimento em um grupo de sujeitos marginalizados que confrontam, subjugam e questionam o funcionamento da sociedade, mostrando-se inconformados e insatisfeitos. Essa perspectiva é o que, no jogo, constrói a crítica social e justifica a necessidade de revolução e vingança, acentuando as tensões entre o sistema estabelecido e os modos de ser marginais que dele emergem.
Palavras-chave: Persona 5; Semiótica; Jogos Digitais
ROSÂNGELA NOGARINI HILÁRIO
[Aquisição de Linguagem]
A aquisição da linguagem em perspectiva dialógico-discursiva: fonologia, morfologia e funcionamento discursivo na aquisição do plural em PB e em PE
Esta pesquisa teve como objetivo analisar as produções de duas crianças adquirindo o português do Brasil (PB) e duas adquirindo o português europeu (PE), com foco na interface entre fonologia e morfologia na produção da fricativa /s/ em coda. As análises voltaram-se para sintagmas nominais (SN) com marca de plural na fala dessas crianças, especialmente aqueles em que o morfema é realizado no elemento mais à direita (como “o meninos” ou “a casas”), bem como para ocorrências de não produção da fricativa /s/ em coda medial lexical (como em “e(s)cola”). Isso porque, no português, o morfema de plural é, na maioria dos casos, fonologicamente realizado como /s/ em coda (por exemplo, casas, meninos), o que se complexifica na produção de SN plurais, uma vez que o determinante também pode apresentar essa realização em coda medial (por exemplo, as casas, os meninos). Desse modo, limitações na produção da fricativa em coda medial podem impactar diretamente a marcação do plural e, com isso, a (co)construção de referentes para esses SN. Por este motivo, a análise contempla, também, a negociação dos sentidos (co)construídos nos SN singulares e plurais, na relação entre a fala da criança e a de seu interlocutor adulto. Para isso, fundamentamo-nos em uma perspectiva dialógico-discursiva, que considera, para a análise da fala da criança, a aquisição dos aspectos formais (fonológicos e morfossintáticos) em relação às funções e aos usos da linguagem. Os dados analisados estão disponíveis no Banco de Dados NALíngua-CNPq (A., 1;11–2;07, e M., 2;02–2;11) e na base CHILDES (I. e T., 1;10–2;09). Nesses dados, em cada ocorrência prevista de /s/ em coda, observou-se sua presença, ausência ou modificação na produção de cada criança, distinguindo-se contextos morfológicos (plural) e lexicais (sem valor morfológico). Os resultados apontam uma relação entre a omissão da fricativa em coda medial e a ausência de marca de plural nos elementos mais à esquerda do SN, como em estruturas do tipo D(eterminante)singular+N(ome)plural. Essa relação sugere uma influência direta da fonologia na realização morfológica, embora sem gerar problemas relevantes de compreensão. A comparação entre o PB e o PE indica, ainda, que a variação na concordância de plural no PB pode resultar em maior heterogeneidade nas construções produzidas pelas crianças brasileiras, em contraste com o percurso de aquisição observado no PE.
Palavras-chave: Plural nominal; perspectiva dialógico-discursiva;
ANA LUÍSA COLETTI RICCI
[Aquisição de Linguagem]
A NEGAÇÃO NOS DADOS DE ARGUMENTAÇÃO DE DUAS CRIANÇAS A PARTIR DA
ABORDAGEM DIALÓGICO-DISCURSIVA: ANÁLISE DE ALGUMAS ESTRATÉGIAS ARGUMENTATIVAS Este trabalho traz um recorte dos resultados de nossa pesquisa de doutorado (RICCI, 2025, no prelo), propondo, a partir da Abordagem Dialógica-discursiva (Volóchinov, 2017; Bakhtin, 2016), tratar da negação no discurso argumentativo de duas crianças, A. (francesa) e S. (brasileira), em período de aquisição e desenvolvimento da linguagem (Del Ré et al. 2014a, 2014b), focalizando, neste momento, como a realidade sócio-histórica e cultural dos sujeitos, ou seja, sua Microcultura (Salazar, 2023; Nelson, 1981, 2007; Rogoff et al., 2018; Sueb, Haranti, Susanti, 2023), influencia suas escolhas linguístico-discursivas e as estratégias utilizadas para argumentar. Buscamos observar de que modo o marcador de posicionamento da negação (Beaupoil-Hourdel, 2015; Vasconcelos, Scarpa, Dodane, 2019; Bolinger, 1983; Balog, Brentari, 2008; Ducrot, 1972, 1973, 1980, 1984; Nølke, 2017) se faz presente nos enunciados argumentativos (Leitão, 1999, 2003, 2007a, 2007b; Leitão, Banks-Leite, 2006; Leitão, Ferreira, 2006; Leitão, Vieira, 2017, 2018) de A. e S., em que está explícita a oposição de pontos de vista. Os dados foram coletados em contextos naturais de interação, registrados em vídeo e transcritos no programa CLAN, segundo as normas do CHAT (Mac Whinney, 2000). Esta ferramenta possibilitou detalhamento dos enunciados das crianças, assim como sua descrição e análise multimodal, de elementos verbais (lexical, sintático e esquemas - estilísticos - de construção), gestuais, accionais, vocais e entoacionais, sobretudo o acento de focalização (Ono & Thompson, 1995; Thompson, Couper-Kuhlen, 2005; Fried & Östman, 2004; Gonçalvez, 1999; Ferré, 2003; Nowakowska et al., 2021; Martel et al., 2023; Dodane et al., 2021; Cavalcante, 1994, 2018; Cavalcante, Brandão, 2012; De Almeida, Cavalcante, 2017; McNeill, 2002; Cosnier, 2000; Boutet, 2018) e formatos (Bruner, 1982, 1985, 2007) que foram mobilizados pelos sujeitos para construção de seus enunciados, com sentido argumentativos, em que a negação se faz presente. Lançamos mão de categorias de análise - algumas de pesquisas anteriores (Leitão, 2007; Vieira, 2011; Vasconcelos, 2017; Beaupoil-Horudel, 2017; Ricci, 2020) - para observarmos os discursos argumentativos das crianças. Neste estudo, chegamos à conclusão que a criança argumenta desde muito cedo, antesdos 2 anos, e que a negação comparece de diferentes formas nos enunciados argumentativos, por meio de elementos prototípicos (ex.: advérbios de negação e gestos emblemáticos) ou de maneira menos marcada, através de elementos não-prototípicos (ex.: ações, entonação, construções sintáticas e discursivas). O sujeito utiliza seus conhecimentos de mundo, discursivos e linguísticos, que vão se desenvolvendo ao longo dos meses, havendo diversificação e complexificação dos elementos multimodais e recursos estilísticos.
Palavras-chave: Argumentação; Negação; Multimodalidade
JÉSSICA GABRIELLI DE GODOY
[Aquisição de Linguagem]
Argumentação Infantil na Escola: um olhar dialógico-discursivo para os dados de uma criança
Este trabalho busca analisar como se dá a participação de um menino brasileiro monolíngue (H., 4;7 a 4;11 anos) na unidade triádica do discurso argumentativo (argumento, contra-argumento e resposta) proposta por Selma Leitão (2006, 2007(a), 2007(b), 2008), em contexto escolar. O estudo parte de uma abordagem dialógico-discursiva de base bakhtiniana (Bakhtin, 2016; Volóchinov, 2017, 2019), que considera os pressupostos de Vygotsky (2005) e Bruner (2007) no que tange à importância da interação entre a criança e o outro para o desenvolvimento da linguagem, e serve de base para os trabalhos de Aquisição da Linguagem (Salazar Orvig, 2003; Salazar Orvig et al., 2005; Salazar Orvig; De Weck; Hassan, 2020; François, 1994, 2006; Del Ré; Hilário, 2014; Del Ré; Hilário; Vieira, 2020; Del Ré; Salazar Orvig, 2020; entre outros). Essa perspectiva entende a linguagem como um fenômeno de ordem social que se desenvolve a partir das interações entre os sujeitos. Este trabalho compartilha do aporte teórico incorporado a pesquisas referentes à argumentação infantil em contextos naturalísticos (Leitão, 2007a; Leitão, 2007b; Vieira, 2011; 2015; Vasconcelos, 2017; Ricci, 2020, 2025, no prelo; Gianesella-Ferreira et al., 2024; Gianesella-Ferreira, 2025), mas desloca o foco, agora, para a argumentação infantil em contexto escolar, utilizando a Metodologia de Inferência de Predição (Almeida, 2009; Vasconcelos; Barbosa, 2020; Vasconcelos et al., 2020), que busca sugerir possíveis desdobramentos discursivos das narrativas das crianças, a partir da compreensão textual e dos indícios já apresentados, objetivando favorecer a negociação de ideias - e a argumentação - entre os participantes. Esta pesquisa, de caráter longitudinal, qualitativo e experimental, utiliza dados coletados em uma intervenção realizada com uma turma da quarta etapa da Educação Infantil (4 a 5 anos) de uma Escola Pública Municipal de Araraquara-SP, durante 15 sessões mediadas por pesquisadoras-interventoras, voltada para leitura de histórias e inferências direcionadas a partir dela. O corpus foi delimitado considerando as situações argumentativas das quais H. participa, visando analisar os movimentos argumentativos entre H. e os demais sujeitos da intervenção, já que olhar para uma criança específica possibilita maior gerência de como aquele contexto propiciou o desenvolvimento da (sua) argumentação, e H. possui uma produção robusta, sobressaindo-se como um interlocutor ativo de muitos processos argumentativos durante as sessões, o que nos garante um corpus consistente. Os resultados iniciais apontam para uma produção diversificada de H., composta por argumentos, contra-argumentos, respostas, com ou sem justificativas, a partir de elementos linguístico-discursivos e multimodais, possibilitando um estudo produtivo.(Apoio: Capes/PROEX-Processo 88887.182271/2025).
Palavras-chave: Aquisição da Linguagem; Argumentação; Contexto escolar
REBECA CRESPO MASSON
[Aquisição de Linguagem]
AQUISIÇÃO/APRENDIZAGEM DE LÍNGUA INGLESA em contexto escolar: reflexões sobre o papel da argumentação na produção de crianças entre 5 e 6 anos
Partindo da concepção de Grosjean (2017) sobre o sujeito bilíngue, como aquele que utiliza duas ou mais línguas diariamente, independente do contexto social e da fluência, este estudo busca observar a relação entre a argumentação e a aquisição/aprendizagem do inglês dentro de um contexto escolar bilíngue (português/inglês). Tomamos como base, para isto, os movimentos discursivos argumentativos de argumento – contra-argumento – resposta (Leitão, 2006, 2007a, 2007b, 2008), entendendo a argumentação como um discurso privilegiado no processo de formação cognitiva-social da criança, já que permite uma reflexão e revisão acerca de um determinado assunto, a partir de um posicionamento. Este trabalho parte de uma perspectiva dialógico-discursiva e multimodal (Bakhtin, 2016; Bruner, 1983; Del ré et al. 2006, 2014a, 2014b, 2016, 2021; Voloshinov, 2018; Vygotsky, 2005) e dá continuidade a diversos estudos que dialogam com os temas (Vieira, 2011; Falasca, 2017; Grecco, 2017; Ricci, 2020; entre outros). Os dados a serem analisados foram coletados numa escola bilíngue no interior de SP, em uma turma de crianças entre 5 e 6 anos de idade. A coleta está estruturada a partir da metodologia “Inferência de Predição”, proposta por Almeida, 2009; Vasconcelos; Barbosa, 2020 e Vasconcelos et al., 2020, a partir das reflexões de Leitão (2006, 2007a, 2007b, 2008, 2011, 2012). Essa metodologia utiliza a literatura infantil como base para a fomentação de ideias no discurso infantil acerca de um tema específico, possibilitando, aos sujeitos participantes da pesquisa, a contraposição de ideias. Trata-se, então, de um estudo de caráter longitudinal e qualitativo, cujo corpus integrará o banco de dados do grupo NALíngua (Del ré et al., 2016, Hilário et al., 2024). Os dados foram transcritos nas normas CHAT, do programa CLAN, fornecido gratuitamente pela base de dados CHILDES (Macwhinney, 2000), a partir de manual traduzido e adaptado (Del Ré, Hilário e Mogno, 2012) e serão analisados considerando as seguintes categorias: produção da tríade argumentativa, produção da criança na língua inglesa, intersecção entre argumentação e produção do inglês. Com isso, busca-se contribuir para discussões acerca da argumentação (infantil), dentro de uma perspectiva dialógico-discursiva e multimodal, assim como para as reflexões a respeito do bilinguismo e educação bilíngue no Brasil, sendo o último uma área ainda pouco estudada do ponto de vista da Aquisição da Linguagem.
Palavras-chave: Aquisição da Linguagem; Argumentação; Bilinguismo;
SUELEN SILVA DE OLIVEIRA
[Aquisição de Linguagem]
Aquisição da Libras por crianças surdas: humor e narrativa
A presente proposta de trabalho deriva de uma tese de doutorado em andamento que investiga aspectos linguístico-discursivos envolvidos na emergência do humor em narrativas de crianças surdas em processo de aquisição da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Inserida no campo da aquisição da linguagem, a pesquisa fundamenta-se na perspectiva dialógico-discursiva (Bakhtin, 1997; Bruner, 1983; Del Ré et al., 2011, 2021, 2022; Goldfeld, 2002) e busca compreender como a (co)construção do discurso, em interações familiares mediadas pela língua de sinais, contribui para a emergência do humor em narrativas de crianças surdas. A pesquisa caracteriza-se como um estudo longitudinal, uma vez que acompanha registros do desenvolvimento linguístico de duas crianças surdas, filhas de pais surdos, em contexto familiar. Os vídeos analisados documentam um longo período da infância de ambas as crianças, possibilitando observar, ao longo do tempo, aspectos do desenvolvimento discursivo e linguístico relacionados à construção narrativa e à emergência do humor em Libras. O corpus é composto por vídeos públicos disponíveis na internet que registram interações em Libras em ambiente familiar, caracterizando um contexto de aquisição linguística natural. Serão considerados para análise dados que apresentem narrativas com e sem elementos de humor, permitindo contrastar mecanismos discursivos mobilizados em ambas as produções. Os dados serão transcritos com o auxílio do software ELAN, possibilitando a anotação integrada de aspectos linguísticos, discursivos e multimodais da Libras. Posteriormente, os elementos identificados serão organizados em uma grade analítica elaborada no Microsoft Excel, visando à sistematização e quantificação de ocorrências relacionadas à construção do humor. De natureza exploratória e abordagem quali-quantitativa, o estudo focaliza a descrição de mecanismos linguístico-discursivos e multimodais envolvidos na construção do humor, como atenção conjunta, saber partilhado e incongruência. Ao considerar narrativas com e sem elementos humorísticos, busca-se compreender como a (co)construção de narrativas contribuem para a emergência de cenas com elemento de humor. A análise longitudinal permitirá observar as mudanças linguísticas das crianças surdas perante a Libras, destacando o percurso da criança ao desenvolver a compreensão e a produção de narrativas com e sem elemento de humor. Espera-se que os resultados ampliem a compreensão acerca do desenvolvimento narrativo e humorístico de crianças surdas adquirindo Libras, contribuindo para os estudos sobre aquisição da linguagem de diferentes modalidades (oral-auditiva e visoespacial) e oferecendo subsídios para a linguística e a educação de surdos.
Palavras-chave: Aquisição; Libras; Humor;
RENAN BRISOLA DA SILVA
[Aquisição de Linguagem]
Educação bilíngue de crianças pequenas: mapeamento de conceitos a partir do discurso de professores recém-formados
Nos últimos anos, tem crescido a demanda por modalidades de educação bilíngue desde a Educação Infantil, o que implica um alto fluxo de professores de língua adicional ingressando nesse campo de atuação. Nesse contexto, porém, é possível questionar se os professores recém formados estão sendo preparados para lidar com essa nova realidade linguística no ambiente escolar. Pensando nisso, urge a necessidade de investigação dos conceitos tangentes ao bilinguismo e à subjetividade do sujeito bilíngue que constituem o discurso de professores recém egressos dos cursos de licenciatura em Letras e atuantes em escolas bilíngues de Educação Infantil, visto que não existem leis brasileiras que definem a oferta de formação específica no ensino superior que debata esses temas, indispensáveis a esse campo de estudo e de atuação, o que, supõe-se, pode gerar uma multiplicidade de interpretações sobre o que se entende por cada termo. Nessa investigação, pretende-se mapear conceitos, tais como “bilinguismo”, “sujeito bilíngue”, “identidade”, “subjetividade”, “língua materna” e “língua adicional”, “ensino e aprendizagem de língua adicional”, entre outros, que circulam nos discursos desses professores, a fim de compará-los entre si e, também, com o que os textos científicos dizem sobre o tema, como forma de verificar se há semelhança entre essas diferentes esferas de circulação de enunciados. Aqui, serão investigados professores de escolas bilíngues de educação infantil formados em letras no período pós-pandêmico (2022 até 2025), considerando o ingresso num mercado de trabalho concomitante à retomada ao ritmo regular da expansão das escolas bilíngues. Num primeiro momento, pretende-se agrupar por volta de 20 respostas em formulários on-line a serem preenchidos por esses professores, formados em universidades do estado de São Paulo, com perguntas amplas sobre o tema. Em seguida, a partir das respostas obtidas, almeja-se selecionar aleatoriamente alguns professores do formulário para que possam fazer entrevistas mais aprofundadas sobre o assunto. Na perspectiva dialógica-discursiva bakhtiniana e sociointeracionista da linguagem adotada pelo GEALin (UNESP Araraquara), o discurso dos professores bilíngues sobre sua prática pedagógica enquanto profissionais em contexto bilíngue pode revelar concepções teóricas linguísticas que fundamentam esses enunciados e práticas discursivas. Desse modo, tem-se como objetivo identificar como essas concepções refletem e refratam enunciados assimilados em sua subjetividade ao passo que regem o trabalho com aprendizagem/aquisição de língua em contexto bilíngue.
Palavras-chave: Bilinguismo; Educação Bilíngue;
LETICIA LORENA GONÇALVES
[Aquisição de Linguagem]
A representação do humor na escrita: um estudo qualitativo em contexto escolar
O trabalho propõe uma investigação entre a relação humor e oralidade na linguagem infantil, com foco em crianças entre 10 e 11 anos de idade que estejam em fase de leitura e escrita fluente. A pesquisa pretende compreender de que maneira recursos humorísticos utilizados na fala são reinterpretados na escrita, com foco na ruptura como um dos elementos fundamentais para esta produção. O estudo parte da compreensão de que o humor é um fenômeno social e linguístico que estimula o pensamento crítico, a criatividade e o engajamento nas práticas de leitura e escrita. Sendo assim, entre os principais aspectos que serão trabalhados, destacam-se os mecanismos de humor presentes na oralidade e na escrita, como ironia, exagero, ambiguidade, hipérbole, incongruência, trocadilhos e paródias. O projeto parte da compreensão de que o humor está hodiernamente presente no ensino de Língua Portuguesa, e irá considerar os gêneros textuais como tirinhas, memes, piadas e histórias em quadrinhos, além de sua relação com as competências previstas pela BNCC. Os objetivos da pesquisa concentram-se, portanto, em identificar quais mecanismos humorísticos permanecem ou se transformam na passagem da fala para a escrita, visto que as crianças utilizam estratégias discursivas para produzir efeitos cômicos e construir textos mais criativos. A metodologia adotada será qualitativa, baseada na análise de interações orais espontâneas e produções escritas de crianças dessa faixa etária. As falas serão gravadas, transcritas e analisadas, enquanto os textos escritos serão examinados para identificar elementos humorísticos. O estudo realizará um mapeamento detalhado de recursos linguísticos e discursivos presentes tanto na fala quanto na escrita, observando como esses elementos são adaptados no processo de retextualização. A presente pesquisa pretende ampliar os estudos sobre linguagem infantil e humor, evidenciando como este pode atuar como estratégia discursiva no desenvolvimento da oralidade e do letramento, com foco na produção escrita. Espera-se também oferecer contribuições pedagógicas para o ensino de Língua Portuguesa, propondo práticas que integrem humor, leitura e escrita de maneira significativa e motivadora no contexto escolar.
Palavras-chave: Humor; Escrita; Criança
LINA CLARISSA ROCHA TRINIDAD
[Aquisição de Linguagem]
Aquisição de línguas próximas em sujeito bilíngue: enfocando a emoção
O bilinguismo no processo de aquisição de linguagem é um tema que tem despertado maior interesse da área nos últimos anos, considerando-se o avanço dos estudos e os diversos contextos de bilinguismo. Neste sentido, esta apresentação nasce da inquietação sobre o papel da emoção no processo de aquisição de um sujeito bilíngue de Português Brasileiro (PB) e Espanhol Argentino, na constituição da sua subjetividade. Ao investigar sobre as emoções do sujeito bilíngue em seu processo de aquisição, como estas emoções estão presentes no processo de aquisição e questões sobre subjetividade (Del Ré et al., 2012), constatamos a existência de estudos sobre o espanhol e o euskera, o holandês, e outros (na Espanha), e poucas investigações sobre o sujeito bilíngue e sua interface com línguas próximas. Assim, aqui focalizaremos o português brasileiro e espanhol argentino dentro da perspectiva dialógico-discursiva (Bakhtin, 2016; Bruner, 1983; Del Ré et al., 2021; Volóchinov, 2018; Vygotsky, 2005) e multimodal (Cavalcante, 2018). O objetivo desta apresentação é analisar/demonstrar brevemente a manifestação da(s) emoção(ões) no discurso de um sujeito bilíngue no processo de aquisição de português e de espanhol, a partir das relações de interação que permeiam tal aquisição e que constituem a subjetividade desse sujeito. Metodologicamente, os dados fazem parte do banco de dados do grupo NALingua (Hilário et al, 2024) e foram coletados por meio de situações “não-naturalísticas”. Os dados coletados serão transcritos pelo programa CLAN e ELAN. Desse modo, esta pesquisa dá continuidade aos estudos desenvolvidos pelo grupo GEALin-UNESP (Bueno, 2017; Moreira, 2024; etc) na área de aquisição da linguagem. Antecipadamente, os resultados desta pesquisa podem trazer à luz uma compreensão mais ampla e articulada à emoção sobre o processo de aquisição de sujeitos bilíngues, em especial, na manifestação das emoções discursivizadas e como estas podem influenciar ou não o processo de aquisição de linguagem(ns) de uma criança bilíngue. Espera-se que esta pesquisa de Mestrado traga relevantes reflexões sobre a constituição da subjetividade na linguagem do sujeito bilíngue focalizando suas emoções, ou como se dá a escolha linguística usada por este sujeito, e, portanto, contribuindo e enriquecendo futuras discussões que versem sobre esta temática.
Palavras-chave: Aquisição de Linguagem; Bilinguismo; Espanhol
ANA CRISTINA BIONDO SALOMÃO
[Linguística Aplicada]
Além do inglês: práticas translíngues e internacionalização crítica em contextos de intercâmbio virtual
Nas últimas décadas, as políticas e práticas de internacionalização do ensino superior vêm sendo progressivamente reconfiguradas pela expansão de experiências digitais colaborativas e por modelos de internacionalização que ultrapassam a lógica tradicional da mobilidade acadêmica presencial. Nesse cenário, iniciativas de Internacionalização em Casa (IeC) e intercâmbio virtual (IV) têm ampliado as possibilidades de interação transnacional ao promover encontros interculturais, colaboração acadêmica e circulação de saberes em ambientes digitais e institucionalmente situados. Essas transformações deslocam a compreensão da internacionalização de uma perspectiva centrada no deslocamento físico de estudantes e docentes para uma abordagem que enfatiza práticas sociais, discursivas e multimodais mediadas pela linguagem. Este trabalho discute práticas translíngues em contextos de IV, a partir de uma abordagem qualitativa, examinando experiências de estudantes brasileiros participantes do programa BRaVE (Brazilian Virtual Exchange), em interações realizadas com parceiros da Espanha, Colômbia, México e Estados Unidos. Ancorado em referenciais da Linguística Aplicada crítica, da translinguagem e da internacionalização crítica, o trabalho problematiza a centralidade do inglês como língua hegemônica nos processos de internacionalização e discute como práticas comunicativas multilíngues podem contribuir para formas mais inclusivas e equitativas de colaboração acadêmica internacional. Os dados analisados mostram que, embora o inglês tenha sido inicialmente proposto como língua principal das interações, os participantes recorreram frequentemente ao português, ao espanhol, ao “portunhol”, a estratégias de intercompreensão e a diferentes recursos multimodais, como gestos, expressões faciais, chat, tradutores automáticos e compartilhamento de imagens, para negociar sentidos e construir inteligibilidade mútua. Essas práticas revelam que a comunicação em IV é construída de forma dinâmica, multimodal e colaborativa, desafiando ideologias monolíngues frequentemente presentes em iniciativas de internacionalização. O trabalho discute ainda como experiências de intercâmbio virtual desenvolvidas no Sul Global podem contribuir para a construção de formas mais críticas de internacionalização ao valorizarem repertórios linguísticos diversos, relações mais horizontais de colaboração e processos de mediação intercultural baseados na reciprocidade e na negociação de sentidos. Nesse contexto, argumenta-se que práticas translíngues e transmodais não devem ser compreendidas como desvios em relação a modelos monolíngues idealizados, mas como recursos legítimos de construção de conhecimento e participação acadêmica internacional.
Palavras-chave: internacionalização em casa; intercâmbio virtual;
LAURA BRAGHINI ZAMPIERI
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Um olhar pragmático-relacional para relações interculturais em contexto de intercâmbio virtual
Tendo em vista a crescente demanda por estratégias de Internacionalização em Casa (IeC), os intercâmbios virtuais (IV) têm ganhado cada vez mais relevância no que concerne à ampliação do acesso a experiências internacionais e interculturais sem mobilidade física no ensino superior, bem como ao desenvolvimento de competências globais por parte dos participantes envolvidos. Nesse sentido, torna-se essencial refletir sobre questões linguísticas emergentes desse ambiente interacional mediado por tecnologias digitais, o qual reúne falantes de diferentes línguas e culturas. A partir de uma abordagem pragmática, o presente trabalho busca investigar a trajetória das interações interculturais on-line no contexto de um intercâmbio virtual, com foco para a construção e o gerenciamento do rapport. Esse conceito tem sido amplamente utilizado em diferentes áreas do conhecimento como forma de descrever a relação harmônica estabelecida entre pessoas de um mesmo contexto interacional. À luz de concepções linguísticas contemporâneas, as quais acompanham as transformações nas concepções sobre o uso e significado da linguagem, o termo é compreendido como um fenômeno pragmático-relacional, isto é, emergente e (co)construído nas interações sociais (Spencer-Oatey, 2008; Thomas, 1995; Watts, 2003). Nessa perspectiva, a investigação do rapport implica na análise de múltiplos domínios, tais como o ilocucionário, o discursivo, o participativo, o estilístico e o não verbal. Para tanto, foram analisadas interações entre estudantes universitárias participantes de uma colaboração feita entre uma Instituição de Ensino Superior localizada no interior do estado de São Paulo e outra situada na costa oeste do México, as quais integravam um programa de IeC intitulado BRaVE (Brazilian Virtual Exchange) (Salomão, 2020). O corpus foi gerado por meio de questionários (inicial e final), textos introdutórios e, principalmente, gravações de áudio e vídeo. Os resultados indicam que a construção e o gerenciamento de relações interpessoais colaborativas estão diretamente associados ao estabelecimento de um rapport positivo, contribuindo para a formação de comunidades de aprendizagem voltadas à empatia e à equidade.
Palavras-chave: Intercâmbio virtual; Pragmática; Rapport
LÍVIA DE MATTOS JULIANI
[Linguística Aplicada]
Internacionalização em casa e formação docente: uma experiência em CLIL e EMI na pós-graduação
A fim de promover a internacionalização das instituições de ensino superior, a oferta de disciplinas em língua estrangeira se torna uma possibilidade, em especial tendo em vista que, para alguns pesquisadores, o Ensino Superior sempre foi entendido como internacional (De Wit; Altbach, 2021). Contudo, tomando como base as demandas e dificuldades de docentes da pós-graduação, observa-se que esse processo não depende apenas da adoção do inglês como meio de instrução, mas também de uma formação que articule aspectos linguísticos, pedagógicos, metodológicos e institucionais. Nesse sentido, esta pesquisa toma como base a pesquisa de iniciação científica desenvolvida entre 2021 e 2022, que investigou as dificuldades enfrentadas por docentes do Ensino Superior para que oferecessem disciplinas em inglês e, consequentemente, pudessem promover a internacionalização de suas disciplinas, ao notar, naquele momento, que um dos maiores desafios para os professores era o conhecimento de estratégias, meios e fundamentos que os auxiliassem no processo de preparação e ministração das aulas. Disto, surgem duas possíveis abordagens teórico-metodológicas para a oferta de disciplinas neste contexto: Content and Language Integrated Learning (CLIL) e English as a Medium of Instruction (EMI). O presente estudo leva em consideração os dados coletados anteriormente, em que os docentes demonstraram reconhecer os benefícios acadêmicos do ensino em inglês, mas também argumentaram não se sentirem preparados para ensinar em outro idioma além de sua língua materna, o português. Por este motivo, esta pesquisa, de caráter qualitativo e interpretativista, buscou selecionar, aplicar e preparar um curso que contemplasse não apenas as abordagens CLIL e EMI, mas também didática, tecnologia e internacionalização, levando em consideração as lacunas apontadas pelos docentes, com o intuito de que o curso suprisse as necessidades específicas deste grupo. Após o curso, foram analisados questionários, materiais produzidos pelos participantes e gravações das aulas online, e foi possível identificar que os desafios enfrentados pelos docentes da instituição analisada não se resumem apenas ao conhecimento de abordagens teórico-metodológicas que os auxiliem na oferta de disciplinas em outro idioma, mas também à falta de confiança e sensação de falta de proficiência no idioma estrangeiro.
Palavras-chave: CLIL; EMI; Internacionalização do Ensino Superior
IZABELLA LARISSA DOS SANTOS SANTIAGO
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O papel do intercâmbio virtual no desenvolvimento da competência conversacional na formação de futuros professores de espanhol
Este trabalho apresenta um estudo sobre o desenvolvimento da competência conversacional em espanhol de aprendizes brasileiros em formação docente, a partir de um projeto de telecolaboração realizado em contexto acadêmico. A pesquisa se insere nas interseções entre linguística aplicada, formação de professores e análise da conversação. Parte-se da compreensão da conversa como um tipo específico de interação e, também, como objeto de ensino e aprendizagem em línguas estrangeiras, contrapondo-se à tendência de reduzi-la a um espaço de prática oral voltado à mobilização de outros conteúdos linguísticos. Nesse sentido, o estudo analisa como a participação em projetos telecolaborativos pode contribuir para o desenvolvimento da competência conversacional. A proposta envolveu a participação de 20 estudantes: 10 graduandos brasileiros do curso de Letras da Unesp e 10 estudantes espanhóis de mestrado em ensino de espanhol na Universidade de Valladolid. Metodologicamente, foram oferecidos aos participantes encontros de telecolaboração, estruturados a partir das características que compõem os intercâmbios virtuais (Rampazzo; Moore, 2024) e da abordagem mista de ensino de conversação (Cestero, 2012). As conversações ocorreram por meio de videoconferências síncronas, em duplas formadas por um participante brasileiro e um espanhol. Os dados incluem tanto as interações gravadas (encontros de conversação, mediação e grupo de discussão final) quanto as percepções dos participantes, obtidas por meio de questionários. Os resultados preliminares indicam que o intercâmbio virtual favorece a participação dos aprendizes, na medida em que possibilita a articulação entre a formação linguística e a formação docente. Por um lado, a telecolaboração cria condições para que os participantes mobilizem, em práticas espontâneas de uso linguístico, conhecimentos trabalhados previamente em sala de aula. Por outro lado, por se tratar de uma interação tecnologicamente mediada, observou-se que algumas barreiras emocionais frequentemente associadas à participação oral foram atenuadas, favorecendo maior envolvimento dos estudantes na atividade conversacional. Além disso, os dados revelam processos de autorreflexão sobre as dificuldades enfrentadas durante a interação, o que permite aos futuros professores reconhecer obstáculos que também poderão emergir nas experiências de aprendizagem de seus próprios alunos.
Palavras-chave: telecolaboração; competência conversacional; formação
YAN MASETTO NICOLAI
[Semântica]
Do Desejo à Ação: O Processo de Atualização da Propriedade e o
Engajamento do Interlocutor em Atos de Fala Imperativos A presente investigação aborda a interface entre Semântica e Pragmática no domínio da diretividade, com foco específico na natureza dos enunciados imperativos e no mecanismo de engajamento do interlocutor (Ad). O objetivo central é analisar como a força diretiva transcende a decodificação lexical, operando como um atualizador dinâmico do contexto interacional. Partindo da revisão crítica das teorias da performatividade e modal, o trabalho sustenta que tais abordagens falham ao não explicar fenômenos como o consentimento ou a compatibilidade de imperativos com expressões de descomprometimento da consequência. Propõe-se, em conformidade com os trabalhos de Masetto, um modelo de análise fundamentado na Teoria da Propriedade, no qual o imperativo é definido não por um valor de verdade, mas pela denotação de uma propriedade que visa modificar o estado atual do mundo. O núcleo da proposta reside no processo de atualização que ocorre entre dois módulos contextuais distintos: o 'Speaker Wishlist' (SWL), que armazena as proposições desejadas pelo falante, e a 'Addressee’s To-Do-List' (AdTDL), que organiza o conjunto de afazeres do ouvinte. Demonstra-se que a diretividade bem-sucedida consiste na transferência de uma proposição 'p' do SWL para a AdTDL, transformando um desejo do emissor em uma tarefa de execução obrigatória para o destinatário.Nesse processo, o engajamento de Ad é condicionado pela Contingência de Engajamento Contextual (CEC) e pelo traço de CONTROLE (CTRL). O CTRL atua como um sintonizador da força ilocucionária, permitindo que a mesma estrutura linguística transite entre a ordem e o conselho, dependendo da autoridade e da hierarquia social validada no 'Common Ground'. Exemplos como 'Sai daqui' ou 'Estuda mais' ilustram como o engajamento depende da agentividade atribuída a Ad e do traço de futuridade aproximativa, denominado 'As-Soon-As-Possible' (ASAP). Conclui-se que o sucesso do imperativo, sob a ótica dos trabalhos de Masetto, não reside necessariamente na execução física da ação, mas no reconhecimento linguístico e pragmático da propriedade que vincula o ouvinte à tarefa, consolidando o 'shift' pragmático essencial para a interação diretiva.
Palavras-chave: Semântica; Pragmática; Diretividade;
THIAGO OLIVEIRA DA MOTTA SAMPAIO
[Psicolinguística]
Coerção Aspectual na Psicolinguística Experimental
Até onde alcança o meu conhecimento, todas as propostas de coerção aspectual tem como base uma classificação de eventos, independente de sua natureza ser mais semântica, pragmática, ou original da filosofia da linguagem. A partir dessas classificações, a maioria dos autores destacam o aspecto lexical (aktionsart / modo de ação) dos verbos como o principal responsável pela coerção. Tomando como base a classificação de Vendler (1967) e adicionando os semelfactivos de Smith (1991), a coerção aspectual pode ser explicada ao se levantar a pontualidade/duratividade do verbo e do contexto. Caso o verbo seja pontual (ex. piscar) e o contexto durativo (ex. por alguns minutos), estaríamos diante de uma incompatibilidade aspectual que demandaria de ajustes. Esse ajuste não seria possível em caso de verbos resultativos (ex. quebrar o vaso por alguns minutos), mas seria no caso de verbos não-resultativos (ex. piscar por alguns minutos). Um ponto importante a se levantar é que existem dezenas de classificações de eventos no mercado (cf. Sampaio e França, 2010), inclusive aquelas como a de Dölling (2014) em que são elencados diferentes tipos de coerção aspectual de natureza pragmática, resultantes não da incompatibilidade de traços aspectuais, mas sim da simples mudança de tipo de evento. Devemos, então, tomar partido de uma classificação de eventos em especial? Em caso positivo, quais características tornam uma mais adequada que as demais em termos descritivos? Somamos a essa dúvida o fato de que diferentes experimentos psicolinguísticos trazem resultados positivos (ex. Piñango et al. 1999) utilizando verbos que não se encaixam perfeitamente nas definições de um evento pontual podem nos fazer duvidar que o fenômeno se trate de uma coerção, ou mesmo de sua natureza ser, de fato, aspectual. Essa apresentação tem o objetivo de levantar esses questionamentos e trazer uma proposta de explicação dos resultados experimentais mais consistente com as discussões correntes na psicologia cognitiva, aproximando o fenômeno da percepção do tempo.
Palavras-chave: coerção aspectual; psicolinguística; classificação de
ALICE FERNANDES HENRIQUE
[Psicolinguística]
Coerção de Tipo na Psicolinguística Experimental
O objetivo do trabalho aqui proposto é o de discutir a composicionalidade semântica, com foco no fenômeno da Coerção de Complemento (ou Coerção de Tipo / Type Shift), e seus desdobramentos no processamento cognitivo. Segundo o modelo de Ray Jackendoff (2002), podemos contrastar as estruturas das chamadas Composições Simples (Simple Composition), onde o sentido da sentença é uma função direta de suas partes, daquelas das Composições Enriquecidas (Enriched Composition), que demanda um acesso diferente à estrutura conceitual (LCS) de modo a selecionar e atribuir sentido à sentença através de inferências e conhecimento de mundo. O fenômeno da coerção é uma composição enriquecida, acontecendo quando combinamos verbos que exigem complementos eventivos com complementos que se referem a entidades nominais, como no clássico exemplo "João começou o livro". Nesse contexto, o sistema linguístico precisa buscar por um sentido não informado para interpretar a ação subjacente (e.g., começar a ler ou começar a escrever). Por volta dos anos 1990, a psicolinguística passou a se interessar pelo assunto e diferentes experimentos utilizando diferentes métodos e formas de medidas passaram a investigar as coerções. A literatura em processamento de sentenças aponta que a coerção exige mais do que uma simples alteração de sentido. Assim, o fenômeno é considerado uma operação cognitiva adicional, implicando em maior custo de processamento. Esta apresentação se propõe a apresentar uma revisão de literatura com o objetivo de trazer evidências de experimentos comportamentais e neurofisiológicos da diferença de processamento entre composições simples e suas contrapartes com coerção de complemento. Para obter estas evidências, a literatura se utilizou de medidas como testes comportamentais cronometrados (ex. leitura automonitorada), rastreamento ocular (Eye Tracker) e Magneto/Eletroencefalografia (M/EEG). Os estudos revisados apresentam maiores tempos de leitura e de fixação ocular em regiões seguintes às regiões de interesse das frases (i.e. efeito tardio / spillover), bem como diferenças eletromagnéticas (Anterior Midline Field) durante o processamento da coerção em comparação com o processamento de sentenças em composição simples.
Palavras-chave: Coerção de tipo; Coerção de complemento;
LAÍS BRUSAMARELLO
[Psicolinguística]
Coerção Aspectual e Percepção do tempo no processamento linguístico
A ideia desta proposta é revisar tanto o trabalho de Sampaio (2015), como a monografia da autora defendida em 2025. Minha pergunta inicial é: a coerção aspectual é, de fato, aspectual? Na literatura, a coerção aspectual é descrita como um mecanismo de reinterpretação disparado por uma incompatibilidade formal entre o aspecto lexical do verbo pontual (ex. espirrar) e o aspecto de um modificador durativo (ex. por alguns minutos) que dispararia, via coerção, uma interpretação de repetição (ex. vários espirros ao longo de alguns minutos). No entanto, Sampaio (2015) aplicou experimentos de leitura automonitorada no Brasil e na França e identificou um efeito em sentenças com verbos durativos (ex. cantar) em diferentes contextos durativos mais ou menos compatíveis com a duração média do evento (ex. por alguns segundos / minutos / horas). O efeito foi descrito como um "susto semântico" e é bastante semelhante ao encontrado em experimentos sobre coerção aspectual (ex. espirrar por alguns minutos), o que o levou a discutir a natureza do fenômeno. A alternativa do autor foi a de se utilizar do Internal Clock Model, um modelo psicofísico de processamento de informação, como explicação para o fenômeno. Essa solução, além de ter poder explicativo sobre o “susto semântico” em seus estímulos [durativo+durativo], também teria poder explicativo sobre os resultados sobre coerção aspectual [pontual+durativo]. Nossa mente mantém uma média da duração dos eventos que experienciamos na vida. Assim, sempre que experienciamos ou somos expostos a sentenças que desafiam essa média, isso causaria um “susto semântico” por experienciar um evento com características novas. Assim, o autor passa a fazer uma integração entre modelos de percepção do tempo na psicologia com os de aquisição e processamento de linguagem na psicolinguística. Minha monografia, teve o objetivo de reproduzir os experimentos de Sampaio com pequenas adequações, além de aplicar os experimentos tanto em contexto de laboratório quanto em contexto remoto. A metodologia consistiu em quatro experimentos de leitura automonitorada (n=205), que manipularam a duração dos eventos e variáveis de controle metodológico (modalidade remota vs. presencial; tarefa de interpretação ou de memória). Os experimentos falharam em reproduzir o efeito reportado em Sampaio (2015). De todo modo, a ausência dos efeitos em sentenças [durativo + durativo] pode reabrir a discussão, visto que os efeitos da coerção aspectual – exceto pelo modelo de coerção aspectual via pragmática de Johannes Dölling (2014) –, só poderia ser encontrados em sentenças [pontual+durativo].
Palavras-chave: Coerção Aspectual; Psicolinguística Experimental;
FLAVIA BEZERRA DE MENEZES HIRATA VALE
[Gramática Funcional]
Uma análise de construções insubordinadas, semi-insubordinadas e explicativo-causais sob a ótica da Gramática Discursivo-Funcional (GDF)
Este trabalho analisa as propriedades formais e funcionais de três tipos de construções introduzidas pelo "que" no português brasileiro (PB): insubordinadas, semi-insubordinadas e explicativo-causais. O objetivo central é descrever como essas estruturas operam em interações reais, superando o "desafio da irregularidade" imposto pela gramática tradicional, que muitas vezes marginaliza tais formas como anomalias por não atenderem aos critérios de completude da sintaxe escrita. A pesquisa fundamenta-se na Gramática Discursivo-Funcional (GDF) (Hengeveld e Mackenzie, 2008), modelo ideal para esta análise por não tomar a oração como unidade básica, mas sim o Ato Discursivo. A arquitetura em camadas da GDF permite integrar distinções formais e pragmáticas, tratando constituintes extra-oracionais a partir de sua função específica na interação. A metodologia baseia-se em dados de corpora como o Corpus do Português, IBORUNA e C-Oral Brasil. As construções insubordinadas (ex: "Que ninguém se engane") são definidas como orações que, embora pareçam formalmente subordinadas, são utilizadas de modo Independentes. Na GDF. Podem ser descritas como Atos Discursivos. No PB, essas estruturas manifestam atitudes (inter)subjetivas do falante, como desejos, pedidos ou ordens,funcionando com Ilocuções Abstratas como Optativa ou Hortativa. Formalmente, são marcadas pelo uso do modo subjuntivo e autonomia prosódica. As explicativo-causais (ex: "Silêncio, que a gente tá gravando!") são construções em que a oração introduzida por "que" fornece a justificativa para um conteúdo disponível no contexto situacional ou para um ato de fala anterior. Compreendem dois Atos de Discurso: um Nuclear e um Subsidiário. A oração com "que" exerce a função retórica de Motivação no Nível Interpessoal. Diferentemente das orações causais, apresentam uma relação lógica mais frouxa e separação entoacional. As semi-insubordinadas (ex: "Claro que as tarifas...") caracterizam-se pelo uso da partícula "que" precedida por um único elemento matriz (advérbio, adjetivo ou substantivo) sem a presença de um verbo de ligação. Este elemento inicial veicula a avaliação atitudinal ou epistêmica do falante sobre o conteúdo proposicional. Sob a ótica da GDF, elas funcionam como um Comentário com características formulaicas, construções téticas, em que matrizes originais se condensam em marcadores de posicionamento (stance). Os resultados demonstram que a validade da análise via GDF reside na capacidade de delimitar as fronteiras dessas construções a partir de sua independência ou dependência pragmática. A proposta reforça a importância de considerar a extra-oracionalidade para uma descrição gramatical que capture a realidade dos usos linguísticos no português brasileiro.
Palavras-chave: construções (semi)insubordinadas e explicativas-ca;
FÁBIO DE LIMA MOREIRA
[Gramática Funcional]
DIACRONIA DE CONECTORES DE FINALIDADE SOB UMA PERSPECTIVA CONSTRUCIONAL
Neste trabalho, buscamos analisar o percurso diacrônico de três conectores complexos de finalidade (a saber: a fim de, no intuito de e com o objetivo de) com base nos pressupostos teórico-metodológicos da abordagem construcional da gramática e da mudança linguística (Croft, 2001; Goldberg, 2006; Langacker, 2008, Traugott; Trousdale, 2021, entre outros). Partindo do pressuposto central de qualquer modelo construcionista, entendemos que as estruturas linguísticas são construções (pareamentos de forma e de significado), que se organizam em redes construcionais por meio de elos multidirecionais. Nesse contexto, defendemos que os conectores a fim de, no intuito de e com o objetivo de são microconstruções ligadas ao subesquema [prep (det) N de]finalidade, que, por sua vez, é uma instância do esquema geral [Xde]conect, proposto por Rosário (2022). A partir de dados extraídos de textos dos séculos XIII ao XX, nosso objetivo central é responder ao quando e ao como as microconstruções conectoras de finalidade surgiram no português e entender como a emergência dessas construções favoreceram a fixação do subesquema [prep (det) N de]finalidade na língua. Para isso, ancoramo-nos no modelo de mudanças construcionais (alterações de forma ou de significado) e construcionalização (alteração de forma e de significado, o que leva ao surgimento de uma nova construção) elaborado por Traugott e Trousdale (2021 [2013]). Um ponto central desse modelo é o entendimento de que as mudanças linguísticas por que uma construção pode passar envolvem transformações graduais nos graus de composicionalidade, esquematicidade e produtividade da construção. Em última instância, essas mudanças podem fazer com que a construção se consolide ou desapareça da rede construcional, processos graduais conhecidos como fortalecimento ou enfraquecimento da construção na rede. Os resultados revelaram que as três microconstruções aqui analisadas surgiram em momentos diferentes da história do português via construcionalização gramatical. Enquanto as primeiras ocorrências de a fim de datam do século XV, as ocorrências de no intuito de e com o objetivo de são mais tardias, remontando, respectivamente, aos séculos XVIII e XX. Além disso, esses conectores passaram por uma série de mudanças das propriedades de forma e de significado, que resultaram em perda de composicionalidade e aumento de produtividade e de esquematicidade, alterações que se estenderam ao nível do subesquema. Por fim, os resultados ainda revelaram que as microconstruções e o subesquema de finalidade foram sendo gradativamente fortalecidos na rede construcional de que fazem parte.
Palavras-chave: conectores de finalidade; abordagem construcional
ZEFERINO RAÚL DUARTE
[Gramática Funcional]
Funcionamento das construções [dizer que], [lembrar que] e [realçar que] na variedade angolana do português
Apresento neste trabalho construções de base verbal dicendi que, por não se ajustarem a funções apreendidas na relação argumental entre oração matriz e subordinada (Gonçalves, 2024), ainda que se trate de recursos sintácticos de marcação de relevo (Travaglia, 2015), têm sido rotuladas como “modismos” ou “muletas linguísticas” na tradição gramatical portuguesa. Sob a hipótese de que elas desempenham a função de marcadores discursivos (MD) textuais-interactivos (Risso, 2015) e se consubstanciam na construção abstracta [[Vinf]elocução]impessoal + [que]], o objectivo aqui é apresentar propriedades formais e funcionais que confirmem a função dessa construção do ponto de vista dos traços definidores dos MDs. Embasam esta pesquisa os “Modelos Baseados no Uso” (Langacker, 1987; 2008; Goldberg, 2003; Croft, 2001; 2007; Bybee, 2001; 2016; Traugott; Trousdale, 2021; Rosário; Lopes, 2019; 2023) para os quais a unidade básica de análise é a construção — um pareamento de forma-função — e da Gramática Textual-interactiva (Risso et. al., 2015; Jubran, 2015), que se abstém do carácter de exclusão ou inclusão do paradigma formal de língua como competência linguística e entende a linguagem como um acto de interacção ou uma acção verbal. Tendo como objecto de estudo um recorte de textos recolhidos de jornais angolanos, entre 2018 e 2026, os procedimentos são feitos com base na análise sistemática, a fim de atestar as propriedades formais e funcionais das construções (Croft, 2001), e na análise das funções textuais-interactivas, através da análise tópica do discurso, pois que a segmentação tópica permite operacionalizar os traços de relevância, concernência e pontualização, que caracterizam a centração, no recorte textual (Jubran, 2015). Os resultados mostram que há um novo pareamento de forma e função que advém de uma reinterpretação dos usuários da língua. Significa que há uma inovação no estágio actual da língua portuguesa, repetida e convencionalizada. Essa dedução é feita com base na interpretação dos dados investigados de Santos (2024) tendo como critério aplicação a abordagem contextual de Diewald (2002, 2006) adaptada aos factores de construcionalidade (Rosário; Lopes, 2019; 2023).
Palavras-chave: construção; MD; construcionalidade;
AMANDA DE LIRA SANTOS
[Gramática Funcional]
Aspectos semântico - pragmáticos de construções insubordinadas condicionais - concessivas com ‘nem que’ no português brasileiro
O presente trabalho investiga as construções condicionais-concessivas insubordinadas introduzidas pelo conectivo nem que no português brasileiro contemporâneo. De acordo com Haspelmath e König (1998), as orações condicionais-concessivas são subdivididas em três categorias, a depender do tipo de conectivo que as introduz e da relação estabelecida entre a prótase e a apódose: as orações do subtipo escalar, foco deste trabalho, são prefaciadas por uma conjunção formada por uma partícula escalar e implicam o recrutamento de uma escala argumentativa na qual o argumento presente na prótase corresponde sempre ao valor mais extremo. Embora as descrições encontradas na literatura a respeito dessas construções estejam concentradas na investigação de orações que integram um período complexo, tradicionalmente subordinado, trabalhos recentes (Albeda e Gras, 2010; Martínez Caro e Alba-Juez, 2021; Lira e Hirata-Vale, 2025; Lira e Souza, 2025; Lira, em preparação) têm demonstrado que o uso independente de orações condicionais-concessivas com nem que é produtivo no português e no espanhol e está frequentemente associado à expressão de funções pragmáticas (inter)subjetivas, como réplica, avaliação negativa e atos de fala expressivos. Para Evans (2007), as orações insubordinadas, embora possuam uma marca formal de subordinação, não estabelecem vínculo sintático com uma cláusula nuclear e seguem uma trajetória de independentização na qual o último estágio seria composto por orações totalmente independentes sintaticamente e semântico-pragmaticamente especializadas. A fim de expandir esses resultados, e baseado nos pressupostos da Gramática de Construções (Goldberg, 1995; 2006; Traugott e Trousdale, 2013), este trabalho busca descrever as propriedades formais e funcionais das construções condicionais-concessivas insubordinadas com nem que no português brasileiro. A partir da coleta de ocorrências no Corpus do Português (subcorpus NOW), os dados são analisados quali-quantitativamente (Cunha Lacerda, 2016) segundo critérios morfossintáticos, semânticos e pragmáticos, tais como tempo e modo verbal, tipo semântico do verbos, parâmetros de condicionalidade e funções pragmáticas. Os resultados demonstram que as construções condicionais-concessivas insubordinadas com nem que apresentam padrões formais relativamente regulares, com predominância do presente e pretérito imperfeito do subjuntivo e, no polo funcional, uma tendência ao uso de verbos eventivos e relacionados à expressão de desejos e necessidades. Verifica-se, ainda, que as construções com nem que apresentam graus distintos de composicionalidade e de independentização, que se alinham à proposta de continuum de Hirata-Vale (2015), uma vez que coexistem usos de forma e função mais livres e espontâneas, até construções formal e funcionalmente mais convencionalizadas e formulaicas. (Apoio: FAPESP – Processo 2025/08219-6).
Palavras-chave: Insubordinação; Gramática de construções;
BRUNO BOHOMOLETZ DE ABREU DALLARI
[Historiografia Linguística]
Saussure e o advento da linguística das línguas
Na história da Linguística, o momento da constituição da linguística moderna costuma ser identificado com a transição entre paradigmas da linguística histórica para a linguística estrutural, estabelecida em bases científicas. Nessa narrativa, o papel de Saussure teria sido prover os fundamentos da segunda, conforme colocados no CLG (Curso de Linguística Geral). Essa caracterização, por si mesma problemática como descrição do desenvolvimento da disciplina, aloca no processo interno de elaboração teórica a criação e o estabelecimento de seu arcabouço fundamental. Essa perspectiva desconsidera inteiramente uma série de acontecimentos do contexto externo decisivos para a constituição da linguística moderna que tiveram tanta ou mais importância que o desenvolvimento teórico interno para gerar esse resultado. Esta apresentação visa expor esses elementos externos e mostrar como eles convergiram com a evolução interna da disciplina para gerar a nova abordagem. A partir da segunda metade do século XIX, os estados passaram a se definir como “nacionais”. A instituição de uma língua definida como nacional e oficial era o componente fundamental da operação necessária para legitimar e estabelecer as bases de funcionamento do Estado (Hobsbawm, 1990). A configuração da língua nacional se consolidava na elaboração de dicionários e gramáticas oficiais, a serem usados como referência em todas as atividades do Estado e na educação pública, que tinha por missão unificar a língua como base para o estabelecimento de uma comunidade nacional (Anderson, 2008). A configuração das línguas nacionais a partir das línguas efetivamente faladas em certos territórios, tomando como referência a versão culta delas, requeria um aparato conceitual e metodológico qualificado para sua descrição e reconfiguração. Ela demandava, como arcabouço, uma linguística geral das línguas vernaculares que não correspondia ao que se praticava sob o nome de Linguística até aquele momento. A investigação dos fenômenos da linguagem e a realização de tarefas aplicadas sobre ela aconteciam num quadro disciplinar muito disperso que não prefigurava a constituição de uma ciência unificada. As perspectivas, bastante avançadas sob alguns aspectos, de precursores como Gabelentz, Whitney, Jespersen e Sapir, não chegavam à cobertura requerida. É nesse contexto que a linguística geral exposta no CLG aparece como um arcabouço consistente e compreensivo em condições de suprir essa demanda, na medida em que se propunha a cobrir, pioneiramente, “todas as manifestações da linguagem humana, quer se trate de povos selvagens ou nações civilizadas (...) não só a linguagem correta e a ‘bela linguagem’, mas todas as formas de expressão” (Saussure, 2018 [1916]).
Palavras-chave: Saussure; linguística das línguas; políticas
ALESSANDRO JOCELITO BECCARI
[Historiografia Linguística]
A concepção de gramática do modista Boécio da Dácia
Esta comunicação tem como objetivo apresentar a concepção de gramática que emana das primeiras 28 questões (ou capítulos) do tratado gramatical Questões sobre os modos de significar, de Boécio da Dácia, uma das primeiras e mais representativas discussões sobre os modos de significar, ou gramáticas especulativas. Boécio da Dácia (c. 1235-1280) foi autor polêmico: visto como cético do equilíbrio entre fé e razão, para quem a filosofia era o único meio de acesso seguro ao conhecimento e à suprema realização intelectual e humana. Não sabemos muito sobre sua biografia, apenas que provinha do país hoje conhecido como Dinamarca, que atuou como mestre na Faculdade de Artes da Universidade de Paris entre 1269 e 1280, que possivelmente deixou a França após ter sido citado nas condenações de 1277 pelo bispo Étienne Tempier. Sabemos que terminou seus dias provavelmente como frade dominicano, em lugar ignoto, talvez a Dinamarca natal (Ebbesen, 2020). Um polímata, Boécio da Dácia escreveu sobre ética, retórica, metafísica, lógica, filosofia natural, e um tratado seminal de gramática especulativa, cuja primeira parte são as questões de que se deriva nosso objeto de pesquisa: uma concepção de gramática. As Questões sobre os modos de significar (Pinborg; Roos; Jensen, 1969) foram escritas provavelmente entre 1269 e 1272. O texto discute o Prisciano maior, que é a parte mais extensa da obra conhecida como Institutiones grammaticae ou Ars Prisciani, escrita por Prisciano Cesariense em Constantinopla por volta do ano 525 d.C., cerca de 50 anos depois da queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.). Esta comunicação resulta de um trabalho de pesquisa de iniciação científica (2025), em que o proponente e seu orientando, Mauro Max – graduado em Letras na Unesp de Assis – traduziram, interpretaram e analisaram as 28 questões. Em nosso estudo, guiamo-nos pelos pressupostos teóricos e metodológicos da Historiografia Linguística, entendida como disciplina voltada à abordagem crítica do contexto, imanência e apresentação adequada e não anacrônica de narrativas linguísticas do passado (Koerner, 2014). Ademais, entendemos que nossa pesquisa é de natureza epi-historiográfica (Swiggers, 2010), já que se baseia em um texto metalinguístico, produzido por agentes do passado, escrito em latim, texto este de que selecionamos e traduzimos 28 capítulos, permitindo que sua concepção de gramática fosse analisada e compreendida.
Palavras-chave: Gramaticografia; Gramática Especulativa; Boécio da
LUIGI PARRINI
[Historiografia Linguística]
Sugestões para uma política da língua e Uma política do idioma: visões de Antonio Houaiss e Celso Cunha sobre políticas para a língua portuguesa
A partir da consideração da hipótese de que Sugestões para uma política da língua, de Antônio Houaiss (1960), e Uma política do idioma, de Celso Cunha (1975 [1964]), foram obras precursoras de uma reflexão voltada à construção de políticas linguísticas no Brasil (Castilho, 2022; Lagares, 2024; Sousa, Ponte, Sousa-Bernini, 2019), busca-se, neste trabalho, detectar continuidades e descontinuidades desses trabalhos com os estudos posteriormente estabelecidos no que se convencionou chamar Política Linguística nas ciências da linguagem nacionais, especialmente a partir dos anos 1980, com a publicação do livro Política Lingüística na América Latina (Orlandi (org.), 1988). Esta pesquisa se vincula à Historiografia Linguística (Swiggers, 2010) e procura constituir um aparato analítico consistente com propostas teóricas e metodológicas em circulação na área. Podem-se observar na obra supracitada de Houaiss (1915-1999) pontos de convergência com os trabalhos da fase inicial do planejamento linguístico (Cooper, 1989), por meio da noção do estabelecimento de uma língua comum de comunicação como fator de construção nacional; o “problema linguístico brasileiro”, calcado na ideologia monolíngue do português como idioma nacional, foi abordado pelo autor a partir da detecção da necessidade de aprofundamento de uma unificação linguística em todo o território. Já o livro de Cunha (1917-1989), espécie de manifesto de cerca de 30 páginas, priorizou críticas contundentes ao ensino de português à época e, em suas cinco páginas finais, apresentou uma proposta de política de idioma, na qual enxergou a possibilidade de congregação da língua portuguesa em uma “unidade superior” como “fator interno de unidade nacional do Brasil e de Portugal e [...] o elo mais forte da comunidade luso-brasileira” (1975 [1964], pp. 42-3). Apesar de evocar essa noção de “unidade superior”, o filólogo apresentou um teor menos homogeneizador e mais propositor da diversidade dos falares nacionais, em algum grau de antecipação às teorias críticas de Políticas Linguísticas (Oliveira, 2007) e ao estabelecimento institucional da Sociolinguística no país, enquanto Houaiss, mesmo que tenha proposto um aprofundamento dos estudos em dialetologia e etnografia, defendeu que o falar brasileiro é um “dos menos diferenciados do mundo do ponto de vista lingüístico” (1960, p. 40) e que a variedade fluminense seria a mais adequada para uma padronização na comunicação brasileira.
Palavras-chave: historiografia linguística; política de língua; política
PEDRO HENRIQUE CAMARGO FREIRE
[Historiografia Linguística]
Uma análise historiográfica sobre o ensino de linguística no ensino superior: os manuais de introdução como material de formação científica
O uso de manuais para a formação científica é recorrente nos anos iniciais do ingresso nas Instituições de Ensino Superior (IES). Essa prática, apesar de comum, acarreta problemas na interpretação do fazer científico pelos estudantes que, no inicio da sua formação, tomam muitas vezes aquele conteúdo como verdadeiro, apesar de serem, de maneira geral, bem reduzidos no escopo do que é considerado como ciência. Na visão de Kuhn (1968), os manuais de introdução à ciência frequentemente apresentam apenas os últimos avanços e reconstroem sem veracidade a história do desenvolvimento da área, produzindo uma historiografia cumulativa do conhecimento e apagamentos históricos. Com o objetivo de analisar se as proposições de Kuhn aplicam-se à área de linguística no Brasil, principalmente no momento de institucionalização da disciplina (1960-1970), examinamos os primeiros manuais de introdução geral à linguística publicados nessa época. Para realizar tal exercício, ancoramos nossa metodologia e arcabouço-teórico na área da Historiografia Linguística, seguindo os parâmetros gerais de Swiggers (2012), Koener (2014), Altman (2004) e Coelho (2024) e a análise do caráter social dos grupos científicos, conforme argumentado por Murray (1994). Nesse sentido, verificamos a circulação desses livros nos ementários dos quatro cursos de linguística do Brasil (Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Federal de Goiás e Universidade Federal de São Carlos, seguindo as proposições da construção de um material epi-historiográfico como corpus para análise historiográfica e identificamos o modo como esses materiais construíram a narrativa a respeito da história de sua disciplina. Para isso, as quatro categorias definidas por Koener (2014) sobre as narrativas historiográficas foram basilares para a interpretação desses textos. Como resultado, constatamos que há certa coerência entre os apontamos de Kuhn (1968) e que, além da função de transmitir conhecimentos da área, esses manuais também exerceram uma função social de corroborar para a sedimentação de agendas de pesquisa específicas da ciência da linguagem no Brasil.
Palavras-chave: Ensino de Linguística; Ensino Superior; Historiogr;
ALEXANDRE MARCELO BUENO
[Semiótica]
#(ME)Moria: presença e ausência em um dispositivo de refugiados
A crise de refugiados é um dos principais problemas humanitários existentes nos dias atuais. A vida de pessoas que são obrigadas a deixarem seus locais de origem, por causa de perseguições políticas, religiosas, econômicas, raciais, sexuais, entre outras, representa uma grande ruptura em suas narrativas cotidianas, com a transformação radical e inesperada de valores, perspectivas e visão de mundo. Nessa mudança radical entre um papel temático rotineiro para o papel de refugiado, se torna necessária uma reelaboração de suas narrativas para a adaptação que tal acontecimento provoca nas vidas desses novos sujeitos. Dentre essas narrativas, os discursos dos meios de comunicação são os mais frequentes para representar a situação de refúgio na atualidade. Contudo, a arte se apresenta como uma outra forma possível de compreensão sobre os novos significados que a condição de refúgio impõe aos sujeitos. O objetivo deste trabalho é, assim, analisar um espaço produzido por refugiados na ilha de Lesbos, no mediterrâneo grego, no qual frases e pinturas se misturam em uma linguagem sincrética nas paredes de uma casa abandonada, que foi espontaneamente transformada em um museu, para presentificar a ausência das pessoas que por lá passaram e deixaram seus “rastros discursivos”. Para examinar o espaço, registrado visualmente em uma visita ao local, será utilizada a semiótica discursiva, com destaque para a dimensão sincrética da construção do espaço como dispositivo de presentificação e de construção de narrativas em torno do tema do refúgio. Desse modo, será possível observar os discursos produzidos a partir da perspectiva dos refugiados e não um olhar exterior à sua condição, como, em geral, ocorre, por exemplo, nos meios de comunicação. Almeja-se, com este trabalho, apresentar uma abordagem distinta para as tensões envolvidas na produção dos sentidos em relação à figura das pessoas em situação de refúgio e, assim, apresentar outras perspectivas de memória e resistência a respeito de tais sujeitos.
Palavras-chave: presença; semiótica; refúgio
GUSTAVO BONIN
[Semiótica]
Práticas conectoras nos fluxos migratórios: a oficina-ateliê-templo de
Walter Smetak Walter Smetak, violoncelista de formação, nasceu na Suíça em 1913 e emigrou para o Brasil em 1937. Viveu na Bahia entre 1958 e 1987, período em que atuou como professor de música e, sobretudo, se consolidou como luthier experimental ao criar inusitadas esculturas-instrumentos musicais, cuja execução sonora se dava de maneiras bastante singulares. Seus instrumentos eram utilizados em performances ligadas às práticas de música contemporânea da cena brasileira da segunda metade do século XX e, muitas vezes, chegavam mesmo a perder sua função musical para assumir uma atuação totalmente imagética no universo das práticas expositivas das artes visuais. Propomos mostrar que, em um primeiro momento de sua trajetória, a prática (Fontanille, 2008) de construção dessas esculturas sonoras em sua oficina de luthieria (ofício que aprendera na Suíça) funciona como um conector (Greimas & Courtés, 2008) entre a forma de vida (Fontanille, 2015) musical e a das artes visuais, tendo em vista que sua oficina ganha também o caráter de um ateliê e ele passa atuar como um escultor. Em um segundo momento, o papel de conector dessa prática se amplia ao tornar permeáveis o universo das Artes e o horizonte mítico-profético do pensamento teosófico e eubiótico, no qual o artista passa a conceber sua produção estética como instrumento de transformação espiritual e de reintegração do homem ao cosmos. Inspirado pelas concepções da Eubiose do brasileiro Henrique José de Souza, Smetak projeta em suas Plásticas Sonoras — nome dado às suas esculturas-instrumentos — a busca por uma nova humanidade fundada na intuição e na experiência coletiva e ritualística. Seu ateliê-oficina passa, assim, a assumir uma função próxima à de um templo, na medida em que o artista promovia encontros nos quais se refletia sobre os princípios da Eubiose e se realizavam sessões de improvisação musical a partir de suas esculturas sonoras: Smetak chegou a dizer que o instrumentista se tornava uma espécie de sacerdote que fazia a mediação do antigo homem com o novo homem. Buscaremos refletir sobre como o papel semiótico de conector desempenhado por certas práticas — entendidas como cenas predicativas mais ou menos indiferenciadas e amplamente compartilhadas entre comunidades humanas, como as práticas de alimentação, transporte, guerra ou transmissão de conhecimento — pode explicitar confluências e conflitos nos fluxos migratórios, interculturais e nos diferentes modos de contato entre formas de vida.
Palavras-chave: práticas conectoras; fluxos migratórios; Walter Smetak
KATI ELIANA CAETANO
[Semiótica]
Imigração em projetos fotográficos: negociações de presença em articulações verbais e visuais
Nosso objeto de estudo compreende três projetos fotográficos sobre imigrantes, examinados a partir de suas articulações verbovisuais consideradas como escolhas políticas de mostração do olhar próprio sobre o outro. Como projetos que se dão a ver, seja por circulação impressa ou digital, implicam práticas de editoria justificadas, encarnadas em vozes, modos de olhar, de figurativizar e de enunciar, condicionadas às injunções e relações entre verbal e visual em distintas negociações de presença e dominância. Os projetos, de três momentos distintos – 2001, 2017 e 2023 – apresentam formas de existirem ao lado, juntos ou a partir de textos verbais. O primeiro, de Jodie Bieber, ‘Going home: Ilegallity and repatriation’, apresentado em plataformas digitais, traz imagens de imigrantes moçambicanos na África do Sul, desde suas detenções até o retorno à Moçambique. O segundo compreende o trabalho ‘Rékomanse’, de Brunno Covello, em sua convivência com imigrantes haitianos em Curitiba, imergindo tanto no contexto local quanto no cenário de origem no Haiti. Já o terceiro, intitulado ‘Exhibit-AI’, evoca a imagem, a partir do verbal com o intuito de agregar ao valor informativo o efeito de fazer sentir. As imagens são geradas, por meio de tecnologias de IA, a partir de depoimentos de imigrantes das ilhas de detenção na Austrália. Como ponto de partida, retomamos duas questões propostas por Jacques Rancière para examinar o que ele designa como frase-imagem, na obra A linguagem e os danos, e que em termos semióticos seria a relação entre discursos verbais e visuais: o que acontece quando “a linguagem invoca imagens, desdobrando sua capacidade mágica de convocar o invisível” e “quando a linguagem se cala, porque a imagem saturou o sentido, nos deixando atônitos”? Tais indagações nos colocam diretamente face aos projetos da África e da Austrália, que delineiam um eixo no qual o projeto brasileiro assume uma posição mediana nas relações discursivas. Este último leva-nos à noção de dissenso, também de Rancière, para quem a subjetivação política interrompe o jogo das identidades pré-fixadas em função de uma nova partilha do sensível. Entre palavras contidas e imagens saturadas, ou partindo de eloquentes testemunhos verbais que precisam ser traduzidos em imagens de pretensa suficiência sensível, os projetos permitem inferir os gestos políticos subjacentes a cada escolha estética. Vinculado a esse debate, o fato de mobilizar fotografias de base química ou acionar a inteligência artificial na produção de imagens demonstram relevância nas posturas adotadas pelos sujeitos do ato criativo.
Palavras-chave: textos verbovisuais; imigração
JOSÉ MANUEL PÉREZ ADÁRRAGA
[Semiótica]
Dinâmica identidade-alteridade da migração colombiana no Brasil: uma abordagem semiótica
Historicamente, o Brasil tem consolidado uma autoimagem de país aberto e receptivo à imigração, ao receber, durante os últimos dois séculos, um grande número de migrantes internacionais de diferentes origens e nacionalidades, como europeus, asiáticos, africanos e latino-americanos. Dentre esses grupos, destacam-se os colombianos, cuja presença no país, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, tem crescido significativamente nas últimas décadas (Baeninger; Fernandes, 2018; Baeninger et al, 2020). Neste estudo, buscamos descrever, à luz da semiótica francesa, a dinâmica identidade–alteridade entre migrantes colombianos e a sociedade receptora no Brasil, considerando como essas relações se constroem discursivamente. A pesquisa baseia-se na análise de relatos de imigrantes e refugiados colombianos residentes na Região Metropolitana de São Paulo, a partir dos quais assumimos a constituição do Outro como a sociedade de acolhida, na figura do “brasileiro”. Analisa-se, assim, a discursivização tanto da identidade do imigrante colombiano quanto das representações de sua alteridade nas experiências migratórias. Para tanto, mobilizamos dois eixos teóricos complementares: de um lado, a semiótica narrativa, de inspiração greimasiana (Greimas; Courtés, 2021; Barros, 2002, 2005; Fiorin, 2009; 2018), que orienta o mapeamento dos programas narrativos que estruturam as trajetórias migratórias e a identificação das figuras envolvidas. De outro lado, a sociossemiótica, especialmente a partir de Landowski (1992, 2012) e Bueno (2006, 2011), que permite refletir sobre os regimes de interação e a construção de simulacros do Outro. Os resultados indicam que a dinâmica entre identidade e alteridade é predominantemente regida por uma lógica de “admissão”, na qual se articulam o desejo de inserção do imigrante colombiano e a disposição da sociedade receptora em admiti-lo. Tal configuração favorece relações de aproximação e afinidade cultural. Contudo, emergem também marcas, ainda que sutis, de xenofobia, preconceito e intolerância, que tensionam essa lógica em direção a processos de segregação e exclusão. Nesse contexto, a figura do brasileiro revela-se ambígua, oscilando entre práticas de hospitalidade e práticas de exclusão, evidenciando a complexidade das relações nas experiências migratórias contemporâneas.
Palavras-chave: Migração colombiana; Identidade-alteridade; Semiótica
CRISTINA DOS SANTOS CARVALHO
[Linguística e interfaces]
Fenômenos de mudança linguística no português angolano e moçambicano: algumas pesquisas na
UNEB No Brasil, em relação aos estudos linguísticos, houve uma preocupação inicial, sob diferentes orientações teóricas, de descrever o português brasileiro (PB) e apenas compará-lo ao português europeu (PE), a variedade linguística do colonizador. Mais tarde, a atenção do(a) linguista brasileiro(a) passou a se voltar também para realidades linguísticas de outros países que também tiveram o português imposto em seus territórios, tais como os países africanos de língua oficial portuguesa. Essa postura teórico-metodológica contribuiu para evidenciar a importância de não se fazer apenas uma linguística de viés eurocêntrico. Deslocou-se, por exemplo, o olhar para o comportamento de fenômenos de variação e mudança linguísticas em variedades africanas do português. Ademais, buscou-se situar o PB para além do contexto de dicotomia PB x PE (Petter, 2009), ampliando-se o escopo de comparação para abranger outras variedades da língua portuguesa. Na presente comunicação, pretendemos traçar um panorama de pesquisas desenvolvidas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) sobre alguns fenômenos de mudança linguística com base em dados do português angolano e moçambicano. Na discussão, valemo-nos de resultados empíricos de pesquisas qualiquantitativas dos Campi I e XIV da UNEB. Quanto à linha teórica, centramos nossa atenção em trabalhos fundamentados no funcionalismo norte-americano, sob os enfoques da abordagem da gramaticalização ou da Linguística Funcional Centrada no Uso. Quanto à temática, tais trabalhos têm analisado os seguintes objetos linguísticos: a construção quer dizer (Almeida, 2022); usos dos verbos entender (Lima, 2025) e tomar (Carvalho; Jesus, 2025); pronomes locativos pós SN (Jesus; Carvalho, 2025, 2026); construções parentéticas epistêmicas (Carvalho; Carneiro; Magalhães, 2020,2021; Pinto; Carneiro; Carvalho, 2025); construções com verbos perceptivos (Carneiro, 2021, 2024) e cognitivos (saber) (Carvalho, 2025). Quanto aos resultados, algumas dessas pesquisas têm evidenciado usos linguísticos próprios das variedades examinadas e características comuns ao PB. Tais resultados podem constituir indícios empíricos de aproximações entre variedades africanas do português e o PB, desmitificando a ideia de que as variedades africanas apenas refletem a norma europeia da língua portuguesa. Em uma dimensão mais política, as pesquisas desenvolvidas na UNEB, orientadas por uma perspectiva decolonial de fazer ciência linguística (Nascimento, 2019; Tamba; Timbane, 2024), têm contribuído para dar mais visibilidade às variedades africanas em estudo a partir do mapeamento de fenômenos linguísticos. Nesse sentido, podemos dizer que também colaboram com o combate ao epistemicídio negro africano ao promover, no cenário dos estudos da linguagem, reflexões teórico-metodológicas sobre essas variedades, rompendo com o viés eurocêntrico.
Palavras-chave: Mudança linguística; Funcionalismo linguístico;
LAVINIA RODRIGUES DE JESUS
[Linguística e interfaces]
Acabar de, acabar por, acabar com: uma análise funcional das construções com acabar no português moçambicano
Moçambique, país localizado na costa sudeste da África, apresenta um cenário de multilinguismo e diversidade linguística decorrente da convivência e do contato entre diferentes línguas bantu e o português, o que favorece processos de variação e mudança linguística (Ngunga, 2012; Timbane, 2013). Diante desse cenário, este estudo busca descrever aspectos morfossintáticos, semânticos e pragmáticos do verbo acabar no português moçambicano (PM), a partir da análise de um fenômeno de mudança linguística, a gramaticalização, tomando como base pressupostos teóricos do Funcionalismo Norte-Americano (Hopper, 1991; Hopper; Traugot, 1991; Bybee, 2003), e de pesquisas sobre o verbo acabar (Travaglia, 2004; Hintze, 2013; Silva-Surer, 2014). Parte-se da noção de gramaticalização como um processo gradual pelo qual itens ou construções lexicais passam a desempenhar funções gramaticais impulsionados por fatores semânticos, sintáticos e pragmático-discursivos (Hopper; Traugott, 2003). Assim, quando uma palavra originalmente plena, como um verbo com significado lexical, começa a ser empregada em contextos específicos e recorrentes, pode passar a assumir funções mais gramaticais, como verbo auxiliar, operador argumentativo e outros. Esse deslocamento não ocorre de forma abrupta, mas em um continuum, que resulta de usos reiterados em contextos específicos, nos quais determinada forma vai perdendo parte de seu conteúdo semântico pleno e adquirindo maior dependência sintática e funcionalidade estrutural. A motivação para esses usos reside justamente nas necessidades comunicativas dos falantes, que, ao buscar maior eficiência, expressividade ou economia linguística, reanalisam e expandem os recursos já disponíveis no sistema. Quanto à metodologia, esta pesquisa tem um caráter qualitativo e busca analisar dados contemporâneos do PM, extraídos do Corpus do português (Davies; Ferreira, 2006). Os dados indicam que, no PM, acabar apresenta um alargamento funcional significativo, sendo tradicionalmente empregado como verbo pleno, além de atuar como verbo de ligação, verbo auxiliar marcador de tempo e aspecto, verbo auxiliar indicador de resultatividade e operador argumentativo. A análise de acabar no PM permite compreender como fatores socioculturais, discursivos e pragmáticos contribuem para a configuração dessa variedade, oferecendo subsídios para a descrição linguística e para a reflexão sobre a valorização das variedades do português em contextos africanos.
Palavras-chave: gramaticalização; verbo acabar; português moçambicano
WELLINGTON SANTOS DA SILVA
[Línguas Africanas]
Foco e Tópico na Língua Geral de Mina: um caso de transmissão de traço
O presente trabalho aborda a sintaxe do foco e do tópico na língua geral de mina (LGM), interpretando-a como resultante dos processos de competição e seleção de traços na ecologia de contato do ciclo do ouro, à luz da noção de transmissão de traço, proposta por Aboh (2015). A LGM consiste numa língua afrodiaspórica que foi falada no Brasil ao longo do século XVIII, registrada no documento Obra Nova de Lingoa Geral de Mina, escrito pelo português António da Costa Peixoto (1741). Do ponto de vista sintático, a LGM pode ser caracterizada como uma língua gbe na diáspora brasileira, dada a presença de uma série de traços gramaticais identificados com esse grupo de línguas africanas, como serialização verbal, verbos de complementação inerente, marcadores pré-verbais para tempo, modo e aspecto, adjetivos verbais reduplicados etc. Porém, também é possível observar que a língua apresenta algumas diferenças em relação às línguas gbe modernas e aos demais documentos diacrônicos no que diz respeito a determinados domínios gramaticais, como nas construções de foco e tópico. Nas línguas gbe modernas e em seus registros diacrônicos, as construções sintáticas destacadas se caracterizam por duas propriedades: (i) movimento do constituinte focalizado e/ou topicalizado para a periferia esquerda da sentença; (ii) presença de um marcador morfofonologicamente aberto de foco e/ou tópico na posição imediatamente após o constituinte deslocado (Aboh, 2004, 2015). Tais propriedades confirmam a generalização de Ameka (2010), que caracteriza as línguas gbe como discourse configurational languages. Na LGM, entretanto, embora haja o movimento para a periferia esquerda – propriedade percebida, por exemplo, nas interrogativas-wh –, não há morfemas abertos para a marcação das categorias sintático-discursivas aqui trabalhadas. Não obstante a ausência desses marcadores, argumentamos que a LGM apresenta as construções de foco e tópico características das línguas gbe, ancorando-nos sobretudo na descrição sintática dos diálogos apresentados por Costa Peixoto. defendemos, então, que a estrutura da periferia esquerda da LGM é marcada pela atuação dos processos de competição e seleção de traços na ecologia de contato (Mufwene, 2008), mais especificamente, por aquilo que Aboh (2015) caracteriza como transmissão de traço, processo no qual a variedade emergente do contato seleciona o traço semântico de uma dada língua da ecologia, mas fixa sua sintaxe de outro modo.
Palavras-chave: periferia esquerda; língua afrodiaspórica; contato
IRENILZA OLIVEIRA E OLIVEIRA
[Linguística e interfaces]
Linguagens e culturas do Brasil vividas em africano
Estudos sobre línguas-culturas em contato têm contribuído de forma muito significativa para o entendimento sobre como a interação entre povos de distintas procedências conformam os contornos das expressões de uma comunidade. No caso específico do português utilizado no Brasil, esses trabalhos têm mostrado como as relações sociais e etno-históricas estabelecidas pelo tráfico de pessoas negras africanas para o Brasil favoreceram o surgimento de uma nova variedade da língua europeia. Referência para os estudos da presença linguística africana no Brasil, Castro (1980) analisa as influências das línguas africanas no português do Brasil, apontando as marcas morfofonológicas deixadas pelas línguas dos povos banto, numericamente superiores no território brasileiro no período colonial, e as permanências de lexemas de línguas africanas. São exemplos dessas heranças lexicais termos como muxoxo < mushoshu; marimbondo < ma = prefixo de plural + rimbondo = vespa, quitanda < kitanda (grupo banto); acarajé < akará = bola de fogo+ jé =comer; vatapá < ewatapá; orixá < Orí = cabeça + xá = dono/energia (origem iorubana); e acaçá < kasaka; faca < faka; zumbi < zumbi = pessoa morta-viva, fantasma, imortal (grupo ewe). No entanto, essa presença linguística negro-africana no Brasil não se restringe aos aspectos estruturais da língua. Expressões culturais brasileiras são fortemente marcadas pelas culturas dos povos negros das diferentes etnias que foram trazidos para o Brasil. Nessa perspectiva, o presente trabalho, parte de um estudo em andamento, aborda tradições relativas às línguas-culturas de povos originários do continente africano que emergem nas interações cotidianas brasileiras. Tendo como suporte a linguagem fílmica, pretende-se discutir, em diálogo com Hall (2006) e Benjamin (1985), como as formas de expressões comuns aos brasileiros recombinam línguas-culturas deixadas pelos antepassados vindos de África e reconfiguram padrões interacionais num formato afrodiaspórico. A partir de depoimentos de linguistas que estudam a formação do português brasileiro e de diversos agentes de cultura afro-brasileira, conclui-se que, de forma consoante com as marcas de natureza estrutural de línguas africanas que fundaram a variedade brasileira do português, expressões e saberes culturais brasileiros se entrecruzam com valores civilizatórios africanos.
Palavras-chave: Línguas-culturas em contato; Línguas/Linguagens
JULIANA BERTUCCI BARBOSA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Luz, câmera, ação: percepções sociolinguísticas de estudantes de PLE sobre novelas brasileiras na aprendizagem do português
O presente trabalho apresenta um recorte de uma pesquisa de mestrado que investigou a influência de mídias brasileiras na aprendizagem de Português como Língua Estrangeira (PLE). O objetivo central desta comunicação consiste em analisar as percepções sociolinguísticas de aprendizes estrangeiros acerca da variação linguística e das representações culturais mobilizadas em cenas de novelas brasileiras. Parte-se do pressuposto de que a exposição ao insumo audiovisual televisivo oferece um campo rico para o desenvolvimento da competência sociolinguística e intercultural. A pesquisa ancora-se nos estudos da Sociolinguística da Percepção, especialmente nas discussões de Freitag et al. (2016), Oushiro (2018) e Ghessi-Arroyo (2024), articulados ao campo do ensino de PLE e às reflexões sobre aprendizagem informal e competência intercultural. Além disso, reconhecemos a telenovela como um produto que, embora apresente um viés frequentemente estereotipado, especialmente quanto aos sotaques e à caracterização regional, constitui uma representação linguística relevante do país. Consideramos que tais produções funcionam como um panorama da realidade linguística brasileira, servindo de base para o julgamento social de falares. A metodologia, de abordagem qualitativa, utilizou como corpus cenas selecionadas das telenovelas Amor de Mãe (2019–2021) e Terra e Paixão (2023–2024), ambas exibidas pela Rede Globo. Os participantes da pesquisa - estrangeiros vinculados ao Núcleo de Línguas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) - assistiram aos trechos audiovisuais e responderam a um Teste de Percepções Sociolinguísticas (TPS). As questões abordavam, entre outros aspectos, o reconhecimento de variedades regionais do português brasileiro, a percepção de formalidade e informalidade nas falas dos personagens, a identificação de usos pronominais, a relação entre língua e contexto social, bem como as possíveis contribuições das novelas para a aprendizagem do idioma na opinião dos informantes. Os resultados indicam que os participantes associam determinadas formas de falar a regiões específicas do Brasil e reconhecem diferenças de registro e adequação linguística em contextos distintos. Além disso, as respostas revelam que as novelas são percebidas como importantes instrumentos de aprendizagem do “português real”, especialmente no desenvolvimento da compreensão oral, do repertório lexical e da familiarização com expressões coloquiais e variedades linguísticas. Conclui-se que a teledramaturgia brasileira, ao mesmo tempo em que pode reforçar estereótipos sociolinguísticos, também constitui um recurso autêntico e potente para o ensino de PLE, favorecendo reflexões críticas sobre diversidade linguística, identidade cultural e usos sociais da língua portuguesa. Palavras-chave: Português Língua Estrangeira. Novelas brasileiras. Aprendizagem informal. Recursos autênticos.
Palavras-chave: Português Língua Estrangeira; Aprendizagem informal;
MAIRA SUECO MAEGAVA CORDULA
[Políticas Linguísticas]
Navegando em língua portuguesa como língua estrangeira na universidade
O objetivo deste trabalho é realizar uma reflexão sobre a política linguística e algumas práticas de integração e ensino de português como língua estrangeira em uma universidade federal do estado de Minas Gerais, Brasil. Este trabalho considera as práticas, sejam elas de ensino ou de avaliação, como política (Shohamy, 2006) e também considera o contexto de internacionalização do ensino superior em uma perspectiva abrangente (Hudzik, 2014) e a Internacionalização em casa (Beelen; Jones, 2015) no contexto universitário brasileiro (Souza; Freire Júnior, 2024). Trata-se de um relato de experiência reflexivo que focaliza ações em português como língua estrangeira para estudantes internacionais na universidade, considerando o acolhimento, a integração e a interação dos participantes em um contexto voltado para o plurilinguismo e para a interculturalidade. Serão relatadas oficinas culturais realizadas com os estudantes internacionais do convênio PEC-PLE (Programa de Estudantes-Convênio de Português como Língua Estrangeira) com estudantes da graduação e da pós-graduação na área de Letras e Estudos da Linguagem da referida universidade. Uma das oficinas, intitulada Café com PLE, é voltada para atividades culturais, sendo desenvolvida por meio de temática (como, vestuário ou o carnaval) e com o desenvolvimento de propostas que incluam produtos culturais, como música, e outros recursos audiovisuais e dinâmicas de integração com jogos. A outra oficina descrita é Tirando de letra, que tem o foco voltado para atividades que estimulem o letramento acadêmico e digital dos participantes, com o uso de recursos visuais, como apresentação de slides, e troca de informações sobre aspectos do Brasil e de Minas, com os aspectos trazidos dos países dos participantes. A terceira oficina é denominada PLE entre culturas e está na segunda edição, mas com um novo formato, em que as atividades trazem um momento para aprendizado de português, mas também de ensino de outras línguas (dos participantes) e de aspectos culturais. As três oficinas foram organizadas com estudantes da universidade e buscam proporcionar vivência acadêmico-cultural e maior integração dos estudantes PEC-PLE com a comunidade.
Palavras-chave: português como língua estrangeira; internacionaliz
FABIANA DE FREITAS BATISTA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O que dizem os alunos de um curso on-line do Português como Língua
Adicional (PLA)? Percepções e reflexões Este estudo busca conhecer, a partir das vozes, a percepção de alunos sobre o ensino de português língua estrangeira, de forma on-line. Apresenta-se uma reflexão conceitual entre Português Língua Estrangeira e Português Língua Adicional. Em seguida, no percurso histórico, Almeida Filho (2012) destaca a emergência de uma especialidade no ensino de português língua estrangeira. Apresenta-se uma primeira leitura analítica do contexto do Programa Português como Língua Adicional aplicado na Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. O curso tem como foco o ensino básico da Língua Portuguesa para estrangeiros buscando fortalecer a internacionalização da língua nacional. Este estudo está fundamentado em teorias relacionadas ao ensino do português para estrangeiros, pautadas em Rocha (2019, 2025) e o ensino de línguas estrangeiras mediado pelas tecnologias dialogados por Paiva (2008), Moran (2007), Buzato (2001). A investigação, de caráter qualitativo e interpretativista, é considerada um estudo de caso. Para a análise de dados utilizamos a técnica de Análise de Conteúdo de Bardin (2011). Analisa-se as respostas de estudantes de três Estados diferentes. Metodologicamente, utilizamos como instrumento de pesquisa, a aplicação do questionário on-line para estudantes concluintes e egressos do curso, no ano de 2025. Conforme Vieira-Abrahão (2006), a utilização dos questionários pode facilitar o trabalho dos pesquisadores devido ser de fácil aplicabilidade, os dados podem ser coletados em diferentes lugares e em diferentes ocasiões. Procura-se identificar o perfil dos alunos estrangeiros, as contribuições na aprendizagem da língua portuguesa e os desafios encontrados pelos alunos. Os resultados destacam esta modalidade como uma contribuição para aprendizagem da língua portuguesa em diversos aspectos: interação com o professor, crescimento do vocabulário, aulas ao vivo, atividades na plataforma, melhora da pronúncia. Contudo, persistem desafios tecnológicos, letramento digital, geográficos e linguísticos. Pretende-se que o estudo possa ir além de preencher uma lacuna na área de Português para estrangeiros, mas também trazer luz ao Programa PLA em Rede a fim de aprimorar o curso e contribuir no ensino de português para estrangeiros mediados por tecnologias.
Palavras-chave: Português para estrangeiros; Rede de Institutos
THAINÁ CRISTINA DA SILVA FERREIRA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
As vogais médias-baixas do português brasileiro no contexto de PFE: uma análise acústica preliminar
O ensino de português para falantes de espanhol (PFE) apresenta especificidades decorrentes da proximidade linguística entre português e espanhol, incluindo aspectos fonético-fonológicos. Ainda que essa proximidade favoreça a compreensão inicial da língua-alvo, autores como Almeida Filho (1995), Grannier (2002; 2015) e Alonso Rey (2020) apontam que ela também pode dificultar a percepção das diferenças entre os sistemas linguísticos, favorecendo o aproveitamento de padrões da língua espanhola para a produção oral em português. Dentro do sistema vocálico da língua portuguesa, as vogais médias-baixas configuram uma potencial área de dificuldade para aprendizes hispanofalantes, uma vez que esses segmentos exercem função distintiva no sistema vocálico do português e não encontram correspondência direta no espanhol. Nesse contexto, este trabalho apresenta resultados preliminares de uma análise acústica das vogais médias-baixas do português brasileiro produzidas por aprendizes hispanofalantes, buscando verificar em que medida os valores obtidos se aproximam dos padrões descritos na literatura para o português brasileiro e se evidenciam tentativas de afastamento em relação aos padrões vocálicos do espanhol. A pesquisa adota uma abordagem metodológica mista, articulando análise quantitativa e interpretação qualitativa dos dados. O corpus preliminar é composto por dados orais de quatro aprendizes hispanofalantes, coletados por meio de tarefas de leitura e produção guiada, contemplando diferentes contextos prosódicos. As amostras foram segmentadas e analisadas acusticamente no software Praat, com foco nos valores de F1 e F2 das vogais investigadas, posteriormente comparados a intervalos de referência descritos para o português brasileiro. Os resultados preliminares indicam diferenças entre os valores produzidos pelos aprendizes e os intervalos acústicos descritos para o português brasileiro, bem como oscilações entre produções mais próximas aos padrões vocálicos do português e do espanhol. Assim, os dados analisados reforçam empiricamente dificuldades fonético-fonológicas frequentemente observadas por professores no contexto de PFE e discutidas na literatura da área. Espera-se que os resultados contribuam para as discussões sobre ensino de pronúncia no contexto de PFE, especialmente no que se refere à elaboração de estratégias didáticas voltadas à conscientização fonológica e à percepção das diferenças entre os sistemas vocálicos do português e do espanhol.
Palavras-chave: português para falantes de espanhol; vogais
MARLON CORREA AMARAL
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O PLA em Rede como política linguística em ação: narrativas de professores na Rede Federal
Este estudo insere-se no campo da Linguística Aplicada indisciplinar (Moita Lopes, 2008) e investiga o programa Português como Língua Adicional em Rede (PLA em Rede), desenvolvido no âmbito da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, tomando-o como uma instância de política linguística em ação. Partindo de uma concepção ampliada de política linguística, que considera não apenas dispositivos normativos, mas também práticas, ideologias e mecanismos institucionais (Spolsky, 2004; Shohamy, 2006), o estudo focaliza as narrativas de professores que atuaram no programa como espaço privilegiado para compreender como tal política se materializa na experiência docente. Nesse sentido, o objetivo é analisar de que modo o PLA em Rede se configura como espaço formativo e como mecanismo de política linguística, a partir das experiências narradas por professores participantes do programa. O viés metodológico da pesquisa é qualitativo (Paiva, 2019), de natureza narrativa (Barkhuizen, 2013), mobilizando entrevistas semiestruturadas organizadas em eixos que contemplam: trajetória docente, inserção no programa, experiências de atuação, dimensões formativas, aspectos institucionais e perspectivas de inclusão. Esses eixos operam como dispositivo analítico, permitindo mapear como práticas pedagógicas, orientações institucionais e experiências formativas se articulam na constituição do professor como agente de política linguística. Ainda que em fase inicial de geração de dados, o estudo propõe, como hipótese analítica, que as narrativas docentes evidenciam o entrelaçamento entre formação profissional, práticas pedagógicas e políticas linguísticas implícitas, revelando o PLA em Rede como espaço de produção e circulação de ideologias linguísticas. Nesse sentido, antecipa-se que categorias como agência docente, formação situada e políticas implícitas emerjam como centrais na análise. Espera-se, com esta pesquisa, contribuir para a compreensão do ensino de Português como Língua Adicional não apenas como prática pedagógica, mas como campo atravessado por ações, decisões e práticas que se configuram como políticas linguísticas em nível institucional e experiencial, especialmente no que se refere à formação de professores de línguas.
Palavras-chave: Português como Língua Adicional; Políticas Linguís
LINA CLARISSA ROCHA TRINIDAD
[Linguística Aplicada]
O ENSINO DE PORTUGUÊS LÍNGUA ESTRANGEIRA (PLE) NO BRASIL: O ESPANHOL
COMO PONTE PARA A APRENDIZAGEM Esta apresentação tem como objetivo brindar reflexões a partir da experiência pessoal de ensino de Português Língua Estrangeira (PLE) que fora dado a partir de aulas on-line síncronas e semanais ofertadas no Centro de Línguas e Desenvolvimento de Professores (CLDP) da UNESP "Júlio de Mesquita Filho" Ciências e Letras Modernas, Campus de Araraquara (FCLAr) nos anos de 2024 e 2025. Esta comunicação abordará como o uso da língua espanhola tem sido de maior facilidade, acesso e compreensão por parte dos alunos quando utilizada pela professora em sala de aula como ponte de aprendizagem ao aprender o português. Ainda que as aulas ocorram majoritariamente em língua portuguesa, é indubitável a importância da utilização de uma língua de apoio que auxilie os alunos, que são em sua maioria, neste contexto de PLE, hispano-falantes, a ter uma maior inteligibilidade durante o processo de aprendizagem de uma língua estrangeira. É nesta conjuntura que foram apresentados certos livros didáticos, da especificidade de espanhol para lusofalantes, portanto um livro de ELE (Espanhol Língua Estrangeira), durante sala de aula e que, assim, fora abordado sob outra ótica: para alunos de Português Língua Estrangeira, a partir de seu conhecimento nativo da língua espanhola. Tal abordagem deu-se principalmente pela versatilidade do livro didático: Gramática y Práctica de Español para Brasileiros (2014), que faz constantes comparações entre o espanhol latinoamericano e o português brasileiro, e, assim sendo, abre possibilidades para múltiplos usos didáticos. Neste caso, são trazidas à luz três perspectivas reflexivas: o emprego da língua espanhola no ensino de Português Língua Estrangeira (PLE); a aplicabilidade do material didático Gramática y Práctica de Español para Brasileiros, do linguista argentino Adrián Fanjul; e, por fim, a relevância da participação e intervenção didática no curso on-line de Português Língua Estrangeira (PLE) durante a graduação e, atualmente, como docente de português e espanhol como língua estrangeira.
Palavras-chave: Português Língua Estrangeira; Ensino-aprendizagem;
ADRIANA ZANON BENE
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Lócus de enunciação decoloniais em um minicurso de português língua estrangeira para aprendentes do Sul Global
O presente trabalho enquadra-se na área temática de ensino-aprendizagem de língua estrangeira, consistindo em uma proposta para apresentação em simpósio temático. Ele é produto de um recorte da tese, em desenvolvimento, da pesquisadora e de sua orientadora, a qual consiste na elaboração e aplicação de um minicurso de português língua estrangeira (PLE), pautado na pedagogia decolonial, direcionado a aprendentes do Sul Global. A pedagogia decolonial consiste em uma perspectiva que preza o diálogo entre múltiplos saberes e culturas, de modo a combater um pensamento hegemônico que defende a superioridade de determinadas culturas, sujeitos e conhecimentos (Figueiredo, 2021; Walsh, 2013). Trata-se, portanto, de uma concepção que viabiliza a promoção de espaços de escuta para que sujeitos historicamente subalternizados compartilhem suas culturas e conhecimentos (Leroy & Santos, 2018). Tendo isso em consideração, o estudo em pauta objetiva identificar os lócus de enunciação dos/as aprendentes manifestados durante as interações linguístico-discursivas entre eles/elas e as professoras, com foco nos relatos sobre a colonização de seus países de origem e sua relação com a imposição religiosa cristã, bem como nos discursos sobre memória afetiva e comidas típicas. O minicurso foi composto por quatro aulas (uma aula semanal), com duração de duas horas cada, ministrado na modalidade on-line. No trabalho em questão, analisamos os discursos construídos nas aulas dois e quatro, as quais focaram nas temáticas supracitadas. Em relação ao público-alvo, esse foi composto por seis alunos/as, de diferentes nacionalidades (colombiano, boliviano e timorense), com conhecimento intermediário e/ou avançado da língua portuguesa. Quanto à construção dos dados, utilizamos como instrumentos de coleta de dados os discursos orais dos/as estudantes por meio da transcrição de seus relatos, coletados a partir das gravações das aulas, além das anotações em diários reflexivos das professoras ministrante e observadora. Os instrumentos foram analisados por meio da Análise de Conteúdo (AC), uma sistematização rigorosa e estruturada, composta por três fases: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados e interpretação. A partir da análise dos resultados, constatamos que o minicurso consistiu em um espaço de escuta e expressão de lócus de enunciação decoloniais, que desconstruíram “histórias únicas” a respeito de seus países de origem, trazendo suas próprias vivências, culturas e realidades. Entendemos a limitação do estudo quanto à ampla gama de possibilidades da perspectiva decolonial no contexto em questão e esperamos que a presente pesquisa seja um incentivo para a ampliação do debate da pedagogia decolonial na área de PLE.
Palavras-chave: Lócus de enunciação; Português Língua Estrangeira;
MARINA CÉLIA MENDONÇA
[Análise do Discurso]
Manuais de uso inclusivo da língua nas redes sociais: considerações em torno dos gêneros do discurso e da alteridade.
Em projetos de pesquisa anteriores, com embasamento na Análise Dialógica do Discurso, discuti a problemática de políticas em torno do uso linguístico, relacionadas ou não a ensino/aprendizagem de língua e a instrumentos linguísticos. Esses estudos mostraram um movimento purista que está na base da memória do discurso sobre a “disciplinarização” do uso linguístico (Mendonça, 2007; 2008; 2023) e está presente na história da constituição dos instrumentos linguísticos como gramáticas e dicionários - é no interior dessa memória que se constituem o que estou chamando aqui de “manuais de uso linguístico”, nos quais se materializa um senso comum sobre língua no país, de tendência conservadora. Neste trabalho, tomo como ponto de partida tanto essas pesquisas anteriores como o movimento que a sociedade brasileira, nas últimas décadas, tem feito a favor da inclusão social, com pautas de valorização da diversidade. O objetivo é refletir, por um lado, sobre o caráter responsivo do corpus às pautas de movimentos sociais de inclusão da diversidade e, por outro, sobre a especificidade do gênero discursivo “manual de uso linguístico” quando afetado pelo tema da linguagem inclusiva antirracista. Parto de resultados de pesquisa anteriores, em que a análise de um manual de linguagem inclusiva, em forma de cartilha, revela a renovação do gênero quando em contato com um novo tema (no sentido que lhe atribui de Volóchinov, 2017), no contexto de polêmicas em torno do uso da linguagem neutra de gênero e de participação de ativistas na autoria de gêneros que tipicamente estiveram restritos à autoria dos estudiosos/cientistas da linguagem (Mendonça, 2025). O trabalho pretende ampliar essas reflexões, tomando por corpus manuais de linguagem antirracista indígena em forma de cartilha e carrossel no Instagram (enunciados em diferentes linguagens, com diferentes formas de veiculação e produzidos por ativistas). A base teórico-metodológica da pesquisa são escritos de Bakhtin e o Círculo, bem como de seus comentadores, tendo os conceitos de gênero do discurso, enunciado concreto como uma totalidade de sentido, alteridade e signo ideológico centralidade nas análises. O trabalho pretende contribuir com estudos sobre os gêneros discursivos e sua arquitetônica, em especial sobre o “manual de uso linguístico” produzido e veiculado em contexto de redes sociais, e com a discussão política do papel do linguista na produção de manuais de uso linguístico e de políticas linguísticas.
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; Alteridade; Enunciado
ERICK SOUSA LIMA
[Análise do Discurso]
Da praça pública ao vogue: análise dialógica do documentário “Paris Is
Burning”, de Jennie Livingston Este trabalho, parte de uma dissertação em andamento sobre a cultura ballroom no meio digital, analisa o documentário “Paris Is Burning”, de Jennie Livingston (1990). Tal obra é considerada pioneira na divulgação do movimento ballroom, um conjunto de práticas artísticas e performáticas protagonizadas pela comunidade LGBTQ+ que surgiu nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, como resposta a um contexto de segregação e discriminação daquele grupo social. Tal cultura organiza-se, primordialmente, a partir das houses (“casas”, em português), estruturas semelhantes a uma família com contornos mais afetivos do que propriamente biológicos ou consanguíneos; e das chamadas balls (“bailes”, em português), que representam o cerne da cultura ballroom: são nelas que seus membros, representantes de diferentes houses, participam e competem em categorias de performance, dança ou teatralidade. Paris Is Burning é responsável por levar essa cultura ao mainstream, apresentando os grandes ícones da cena ballroom na Nova York dos anos 1980, como Venus Xtravaganza e Willi Ninja. Entre os membros da cena, encontram-se gays, drag queens, mulheres transgêneros, trabalhadores e trabalhadoras sexuais, latinos, brancos e negros, que discorrem sobre suas histórias, sonhos e desejos. Com isso, procuramos, enquanto objetivo geral, compreender como a cultura retratada no documentário pode ser entendida como um fenômeno dialógico e carnavalizador. Enquanto aporte teórico, elegemos a Análise Dialógica do Discurso, desdobrando conceitos do Círculo bakhtiniano como carnavalização, cronotopo e relações dialógicas. Metodologicamente, adotamos o cotejo/correlacionamento para análise dos enunciados que compõem o corpus, como as cenas (frames) e trechos das entrevistas que aparecem ao longo do documentário, entendidos aqui enquanto um todo de sentido. Por fim, a análise aproveita-se das contribuições de teóricos sobre raça, gênero e cultura que se debruçaram sobre a obra fílmica mencionada, como hooks (2019) e Butler (2019), bem como as discussões de Sedgwick (2008) a respeito da epistemologia do armário.
Palavras-chave: Análise Diálogica do Discurso; Enunciado concreto;
MARINA TOTINA DE ALMEIDA LARA
[Análise do Discurso]
Discursos sobre autoria em correções automatizadas de redações do Enem: uma análise dialógica
Esta comunicação analisa o discurso de duas inteligências artificiais, Cria e Glau, produzido como correção de redações do Exame Nacional do Ensino Médio de 2024. Essas plataformas são softwares nos quais estudantes enviam seus textos escritos e recebem um feedback imediato baseado nos critérios de correção do exame. O objetivo do estudo é investigar, sob a perspectiva bakhtiniana, como essas IAs respondem ao texto do participante e em que medida tais avaliações se aproximam ou se distanciam dos estudos linguísticos brasileiros sobre autoria e avaliação de textos escritos, lançando vozes que se colocam em diálogo com um caminho trilhado pela Linguística no Brasil no trabalho com produção de textos escritos na escola. Para isso, o trabalho coloca os autores do Círculo de Bakhtin e pesquisadores da Análise Dialógica do Discurso em diálogo com estudiosos como Michel Foucault, Eni Orlandi e Sírio Possenti, buscando compreender como o conceito de autoria vem sendo ressignificado no contexto escolar e, mais recentemente, nos discursos produzidos pelas IAs. A análise demonstra que, embora utilizem um formato aparentemente interativo, as IAs operam predominantemente com modelos padronizados de correção, e seus retornos aos estudantes são centrados, principalmente, em critérios de coerência, organização textual e adequação à forma composicional do texto dissertativo-argumentativo do Enem, não contribuindo para o reconhecimento do texto como acontecimento singular e estabelecendo diálogo com concepções de autoria ligadas à coerência textual. Além disso, observa-se que essas ferramentas reproduzem e ampliam discursos sobre produções escritas já consolidados no campo escolar, contribuindo para a retomada da noção de “texto como produto” e para a valorização de práticas avaliativas descontextualizadas, que não são construídas na relação entre sujeitos que respondem eticamente ao discurso do outro. Assim, o estudo aponta indícios de que o uso dessas tecnologias para correção de textos – amplamente usadas por estudantes e por escolas no Brasil – reforça concepções de autoria que são colocadas em tensão com perspectivas discursivas assumidas pelos estudos linguísticos sobre práticas de ensino e de aprendizagem de textos escritos na escola, que compreendem a escrita como espaço de alteridade, singularidade e construção ética do sujeito. Desse modo, o trabalho evidencia que a incorporação dessas tecnologias ao contexto educacional tende a fortalecer práticas avaliativas no campo escolar orientadas à homogeneização da escrita e à concepção de textos ligada à estabilidade do enunciado, reduzindo possibilidades de interpretação que considerem as dimensões dialógicas envolvidas no processo de ensino-aprendizagem da produção textual escolar.
Palavras-chave: Círculo de Bakhtin. Análise Dialógica do Discurso
ALANA DESTRI
[Análise do Discurso]
Análise dialógica do discurso: proposta de roteiro aberto para iniciantes
A análise dialógica do discurso é uma metodologia de análise de/do discurso que se fundamenta no ideário teórico-metodológico do Círculo de Bakhtin. Praticada no Brasil desde a recepção das obras russas traduzidas, o termo popularizou-se em 2006 após a publicação de Análise e teoria do discurso de B. Brait. Essa distinta área de análise de/do discurso encontra-se hoje consolidada e em franca expansão de interesse acadêmico. Está no cerne dessa abordagem a possibilidade do estabelecimento de relações variadas, múltiplas e complexas entre enunciados concretos. Tal abertura infindável para o dialogismo está de acordo com a dinâmica e a constituição da linguagem situada. Diante disso, a análise dialógica do discurso é incompatível com um posicionamento neutro diante do objeto e com a aplicação de um método rígido, fechado e linear – é justamente aí que está uma das grandes riquezas da ancoragem bakhtiniana. Tamanha liberdade para construção de sentidos por vezes desorienta o pesquisador iniciante que, dando atenção metodológica para determinados elementos, acaba deixando de lado outros igualmente importantes para a composição de sua análise dialógica. Com base na teia conceitual do Círculo e no artigo Análise dialógica do discurso: uma revisão sistemática integrativa de R. Marchezan e A. Destri, este trabalho objetiva pôr em discussão um possível roteiro aberto para potencializar a atividade analítica dialógica de pesquisadores iniciantes, em especial graduandos. É importante destacar o aspecto aberto desse roteiro, visto que, longe de engessar o processo analítico, dispõe de um conjunto de indagações a serem feitas de modo livre ao objeto de pesquisa, a fim estimular o estabelecimento de relações entre sujeitos, enunciados e formas da língua. Esse material pode ser útil para que o pesquisador iniciante, aliado a um conhecimento adequado da teoria bakhtiniana, desenvolva confiança metodológica a ponto de construir seus próprios caminhos analíticos – rigorosos em termos de mobilização da teoria bakhtiniana, profundamente maleáveis em resposta metodológica à natureza viva do enunciado concreto.
Palavras-chave: Análise dialógica do discurso; Enunciado concreto;
ANA LUCIA FURQUIM CAMPOS TOSCANO
[Análise do Discurso]
GÊNEROS DO DISCURSO E MULTILETRAMENTOS: reflexões sobre enunciados multissemióticos como prática discursiva no ensino de Língua Portuguesa
O ensino de Língua Portuguesa, atualmente, é marcado pela intensa circulação de informações e pela presença das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs), exigindo, dessa maneira, abordagens que considerem a linguagem em sua dimensão social, histórica e interativa. Nessa ambiência, o trabalho com os gêneros do discurso pela perspectiva da Análise Dialógica do Discurso do Círculo de Mikhail Bakhtin contribui para a compreensão da língua como prática discursiva situada nas diversas esferas da atividade humana, uma vez que o enunciado concreto, ao constituir-se na relação com outros enunciados, reflete e refrata posições avaliativas. Paralelamente, as contribuições dos multiletramentos, conceito articulado pelo Grupo de Nova Londres, nos EUA, e desenvolvido, no Brasil, pelos estudos de Roxane Rojo, ampliam essa perspectiva ao incorporar a multiplicidade de linguagens, semioses e culturas presentes no ambiente digital. Assim, para a formação de professores da área de Letras, é importante trabalhar esses conceitos e, principalmente, proporcionar condições para reflexões sobre a prática docente. Este trabalho, portanto, tem por objetivo refletir sobre o uso de recursos das TDICs, articulados à concepção de gêneros do discurso, com ênfase em enunciados multissemióticos, para a construção e o desenvolvimento do conhecimento acerca da organização textual e discursiva, especialmente no que tange à leitura e à produção de textos. Para tanto, analisa-se um conjunto de memes produzidos por discentes do curso de Letras de uma instituição de ensino superior do Estado de São Paulo, elaborados a partir da releitura de pinturas de artistas canônicos e relacionados à vivência acadêmica desses estudantes. Para tanto, utilizamos como referencial teórico-metodológico os estudos da Análise Dialógica do Discurso do Círculo de Mikhail Bakhtin sobre dialogismo e gêneros do discurso (2016) e dos Multiletramentos de Rojo (2013), Rojo e Moura (2016) e Ribeiro (2016). Por fim, entendemos que a articulação dos gêneros do discurso às TDICs, a partir dessas concepções teóricas, possibilita repensar práticas pedagógicas que valorizem a diversidade dos gêneros do discurso, a relação entre a linguagem e a vida, a multimodalidade e a formação crítica dos sujeitos, tornando o ensino mais significativo e alinhado às demandas da sociedade contemporânea.
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; enunciado concreto
ASSUNÇÃO CRISTOVAO
[Análise do Discurso]
Enunciado e/ou produção textual nas respostas de duas inteligências artificiais a prompts de conteúdo ideológico
RESUMO: Este estudo analisa a produção textual por Grandes Modelos de Linguagem (Large Language Models, ou LLMs) a partir de prompts (perguntas, propostas, comandos, instruções e/ou direcionamentos) dirigidos a duas plataformas de Inteligência Artificial (IA): o ChatGPT, criado pela OpenAI, nos Estados Unidos, e a DeepSeek, uma empresa com origem na China. Utilizando como base teórica os estudos da Análise Dialógica do Discurso, esta comunicação questiona discussões recentes sobre textos gerados por modelos de linguagem no sentido de que tais produções decorreriam de operações técnicas neutras, alheias à historicidade própria da linguagem. Nossa hipótese é a de que, quando se toma o enunciado como unidade concreta da comunicação verbal e o signo como lugar de inscrição de valores sociais, tal suposição passa a exigir exame mais detido. Trata-se de observar essas produções de IA como instâncias enunciativas que refratam signos ideológicos, em vez de sistemas neutros de produção textual, uma vez que partem de um grande volume de dados produzidos por seres humanos, como internet pública, livros, códigos e artigos acadêmicos. Se assim é, o ponto de partida das LLMs são refrações nas quais circulam julgamentos, valores e pontos de vista que produzem seu enunciado/produção textual também a partir do conhecimento prévio que desenvolvem sobre seu enunciatário. Para testar essa hipótese, esta comunicação analisará respostas das duas Inteligências artificiais selecionadas em função de sua localização geopolítica, a partir de um mesmo prompt, ainda a ser definido, que contenha conteúdo político-ideológico. O objetivo é demonstrar que a produção textual por IA se ancora em material linguístico socialmente constituído, a partir do qual vozes são rearticuladas e posições ideológicas passam por rearranjos orientados por padrões probabilísticos. Metodologicamente, a análise se fundamentará na aplicação, nas respostas obtidas, de categorias como enunciado, dialogismo e valoração, numa perspectiva que alia componente teórico de caráter qualitativo e exploratório. O estudo justifica-se em função do expressivo aumento do uso de IAs por parte variadas esferas do conhecimento e da necessidade de se conhecer o grau de isenção e de credibilidade desses instrumentos de pesquisa e de trabalho.
Palavras-chave: Palavras Chave: Análise Dialógica do Discurso; Enunciado
THIAGO HENRIQUE NASCIMENTO VERGARA
[Análise do Discurso]
“Diversidade” como signo ideológico nas temáticas da Parada do Orgulho
LGBT: questões sobre alteridade e produção da diferença Este trabalho, fruto de um recorte de meu projeto de doutorado, tem como base teórico-metodológica a Análise Dialógica do Discurso, explorando concepções como alteridade, enunciado concreto, signo ideológico, e se insere em um contexto mais amplo que trata das relações entre sujeitos quando do acontecimento da Parada do Orgulho LGBT no Brasil e em especial da apreensão de questões de diversidade e alteridade também na vida, em que “[...] a diversidade é pensada e produzida como [...] um problema que começa no outro, na sua existência, ou melhor dito, na sua experiência de ser outro” (Skliar, 2003, p. 42). Não por acaso, em duas das acepções dicionarizadas de “diversidade”, tem-se que essa se trata da “ausência de acordo ou de entendimento; desacordo, divergência” ou ainda da “qualidade daquilo que é diverso, diferença [...]” (Michaelis, on-line). Ao tratar desse signo ideológico a proposta é dar enfoque portanto ao aspecto de desacordo, divergência e diferença que habita em “diversidade” e especialmente no entendimento disperso que se vê materializado; a diversidade, ao ser produzida como um problema que surge a partir da existência do outro, “o mesmo problema que aquele da heterogeneidade já antes indesejável” (Skliar, 2003, p. 42), também gera o movimento contrário, de reafirmá-la enquanto parte da alteridade, da diferença que identifica. Neste trabalho, proponho uma série de análises das edições de 2000 a 2002 da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em diálogo com discursos outros que vêm tomando forma a partir de 2018, na esfera política, em tons de polêmica, a partir do sintagma “políticas afirmativas” (em alguns casos, também “ações afirmativas”). O objetivo é refletir, por um lado, sobre a questão da produção da diferença, e por outro, sobre o uso de signos ideológicos, como “diversidade”, “políticas afirmativas” etc., quando estes passam a habitar diferentes esferas da vida social – condensando ou expandindo seus sentidos. Assim, procuro defender a hipótese de que a emergência de discursos que traziam, nominalmente, menções à “diversidade” já no início dos anos 2000, também tinham a ver com “políticas afirmativas” (vide reconhecimento jurídico de uniões de casais homoafetivos). (Apoio: FAPESP – Processo 2025/14752-1).
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; Alteridade; Signo
SIMONY ALVES DE OLIVEIRA
[Análise do Discurso]
SLAM BR 2017: Análise dialógica do enunciado “O leão do norte e seu rugido”, de
Bell Puã Poetry Slam, comumente conhecido no Brasil apenas como slam, diz respeito às batalhas de poesia falada que têm início em Chicago, em 1986, com Marc Kelly Smith e chegam ao Brasil, em 2008, com Roberta Estrela D’alva. Os grupos que organizam e realizam as batalhas de poesia falada são chamados de comunidades. Anualmente, cada comunidade elege o seu representante para o campeonato estadual de poesia falada e cada campeonato estadual elege, por sua vez, o representante do Estado para o campeonato brasileiro de poesia falada, o SLAM BR. O presente trabalho é parte de uma pesquisa maior, à nível de doutorado, que busca analisar, sustentada pelo quadro teórico-metodológico da Análise dialógica do discurso, o que caracteriza o Poetry Slam no Brasil nos 10 anos de SLAM BR – Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, que tem início em 2014 e realiza sua 10ª edição no ano de 2023. Por considerar o caráter efêmero do evento da batalha de poesia, a pesquisa toma como corpus os vídeos contendo as gravações da final do campeonato, especificamente o poema declamado pelo poeta campeão na 3ª rodada da final de cada ano (2014-2023). Cada vídeo é considerado um enunciado concreto com base no que propõe os estudos do Círculo de Bakhtin e chamado na pesquisa de “enunciado vídeo”. Este trabalho, em especial, é um recorte dessa pesquisa maior e pretende apresentar a análise de um dos enunciados vídeos que constituem o corpus da tese de doutorado, especialmente o enunciado vídeo em que é apresentado o poema “O leão do norte e seu rugido”, declamado pela poeta campeã do SLAM BR 2017, Bell Puã. O objetivo do trabalho é responder, calcado no quadro teórico-metodológico da Análise dialógica do discurso, que, por sua vez, se sustenta nos estudos do Círculo de Bakhtin, quais são as relações dialógicas, as vozes e os valores que constituem esse enunciado concreto e de que modo essas relações dialógicas, vozes e valores identificam esse poema campeão. Os resultados apontam que a voz social do eu-poeta defende o povo negro e o povo nordestino, além de questionar a sociedade racista e xenofóbica sobre os seus privilégios em detrimento do sofrimento daqueles que são social e historicamente marginalizados. Assim, há nessa relação de alteridade, presente no enunciado concreto, duas grandes vozes em embate: a voz defendida pelo eu-poeta e a voz do outro antagonista que se opõe aos valores por ele defendidos.
Palavras-chave: Análise dialógica do discurso; enunciado concreto; SLAM
SABRINA EVELYN CRUZ OLIVEIRA
[Fonética e Fonologia]
Apagamento do -R em posição final na escrita escolar: uma análise quantitativa de dados de Rondônia
Este trabalho investiga o apagamento do -R em posição final de palavra na escrita de estudantes da educação básica de Rondônia, considerando a relação entre variação fonológica e produção escrita. Esse fenômeno, amplamente descrito na fala do português brasileiro e frequentemente analisado em contexto de final de infinitivos verbais, é aqui examinado a partir de um conjunto mais amplo de dados, com o objetivo de observar padrões de ocorrência na escrita escolar e buscando identificar os condicionamentos linguísticos do apagamento do -R, com base em uma análise quantitativa de suas ocorrências na escrita. Assim, esta pesquisa dialoga com pressupostos da Fonologia Prosódica (Nespor e Vogel, 1986), especialmente no que se refere à possível influência de aspectos estruturais na realização do segmento em posição final, ainda que, nesta etapa, a análise se concentre na descrição dos padrões de distribuição dos dados. A investigação baseia-se em um corpus de redações escolares do banco de dados do grupo NEFONO (UNIR), composto por aproximadamente 1620 produções escritas de estudantes de diferentes municípios de Rondônia. Para esta comunicação, apresenta-se uma análise piloto composta por 30 redações do ensino fundamental, selecionadas para a identificação e descrição inicial das ocorrências de palavras grafadas ou esperadas com -R em posição final. Os dados serão organizados em planilha e analisados com o auxílio da linguagem de programação “R”, considerando variáveis como classe morfológica (verbos e não verbos), contexto fonológico seguinte e extensão da palavra. Finalmente, espera-se observar que o apagamento do -R apresente distribuição variável na escrita, possivelmente sensível a fatores linguísticos, como a classe de palavra e o contexto fonológico. Tais resultados poderão indicar padrões iniciais que venham a ser explorados em análises posteriores, inclusive no que se refere à atuação de aspectos prosódicos. Acreditamos que este estudo possa contribuir para o avanço das discussões sobre a interface entre fonologia e escrita, ao evidenciar regularidades no comportamento do -R em posição final e ao oferecer subsídios para investigações futuras sobre o papel da prosódia na escrita.
Palavras-chave: fonologia; escrita; consoante rótica;
RAIANE DOS ANJOS PEREIRA
[Fonética e Fonologia]
Pausas, ritmo e fraseamento prosódico em batalhas de rima
Este trabalho tem como objetivo analisar as relações entre ritmo musical e ritmo linguístico no gênero rap, focalizando a ação das pausas na manutenção das coincidências e não coincidências entre proeminências, a partir de dados extraídos de batalhas de rima. Parte-se da hipótese de que proeminências musicais combinam-se prioritariamente com proeminências linguísticas e de que as não coincidências, embora possíveis, tendem a se restringir a usos estilísticos, uma vez que a manutenção de um padrão rítmico depende da recorrência de estruturas. O corpus é constituído por dados coletados em campo, provenientes da etapa final do Circuito Paulista de Batalhas de MCs, realizada no estado de São Paulo, totalizando aproximadamente uma hora de gravações, com a participação de 16 MCs. Trata-se de um contexto de produção espontânea de fala, com alternância de turnos entre os participantes, o que intensifica a aproximação entre fala e música característica do rap, gênero que se configura como um “canto falado”. Após a coleta, os dados são segmentados por turnos de fala, transcritos e analisados inicialmente a partir da observação das coincidências e não coincidências entre proeminências musicais e linguísticas e, posteriormente, segundo a Fonologia Prosódica no que diz respeito ao fraseamento. As pausas são identificadas e marcadas no software Praat, a partir do qual se extraem medidas de duração e parâmetros entoacionais, especialmente relacionados à frequência fundamental (F0), com atenção às regiões de fronteira prosódica, verificando-se a qualidade das pausas e se estas ocorrem em ambientes previstos ou não pela literatura. A pesquisa encontra-se em andamento, com análises já sendo realizadas. Resultados preliminares indicam que as pausas atuam na organização do fraseamento prosódico e na delimitação de unidades rítmicas, podendo exercer tanto função estrutural quanto estilística nas performances dos MCs. Espera-se, ao término da investigação, contribuir para a compreensão do ritmo no português brasileiro, no que diz respeito à interface entre fala e música em contextos de produção espontânea.
Palavras-chave: Pausa; ritmo; rap;
CARLOS ELISIO NASCIMENTO DA SILVA
[Linguística Aplicada]
Estudo das relações entre incentivos gamificados e o desenvolvimento linguístico
Esta pesquisa, situada no campo da linguística aplicada ao ensino de língua materna, propõe e investiga um método de ensino de redação que articula três frentes teóricas habitualmente tratadas em separado. A gamificação é mobilizada como arquitetura de permanência, no sentido em que o desenho motivacional da experiência sustenta o engajamento do aluno em tarefas cognitivamente exigentes ao longo do tempo. A linguística textual de orientação sociocognitivo-interacionista, na esteira de Koch (2002, 2004), Koch e Elias (2017) e Marcuschi (2008), oferece as categorias descritivas que dão precisão ao que se ensina, ou seja, coesão, coerência, progressão temática, intertextualidade e adequação tipológica. A avaliação formativa, ancorada em Sadler (1989) e Nicol e Macfarlane-Dick (2006), fornece o princípio segundo o qual o objetivo da intervenção é desenvolver no aluno a capacidade de monitorar a qualidade emergente de seu próprio trabalho. O estudo foi conduzido ao longo de 2024 em uma turma de 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública do interior de São Paulo. O método combina dois eixos complementares. O primeiro é o feedback dialógico individual, conduzido em encontros face a face em que o pesquisador realiza leitura comentada do texto com o aluno, registra ansiedade, confiança e tempo de escrita e discute o projeto de dizer da redação. O segundo é o ciclo gamificado de avaliação por pares, em que os alunos atuam como avaliadores de redações reais do ENEM organizadas em níveis progressivos de desempenho, aplicando a matriz oficial e debatendo seus diagnósticos em grupos. O corpus de análise reúne 98 redações distribuídas em quatro rodadas mensais. Os resultados confirmaram o impacto significativo do método. Os testes estatísticos aplicados sobre as variáveis controladas indicaram redução da ansiedade, aumento da confiança, melhoria das notas e redução do tempo de escrita. A análise longitudinal documentou a evolução qualitativa das propostas de intervenção e a sofisticação do repertório de conectivos, configurando a passagem de uma escrita que apenas conecta enunciados para uma escrita que constrói argumentação. No plano qualitativo, a atividade gamificada mostrou-se capaz de transformar o julgamento intuitivo dos alunos em julgamento fundamentado, com operacionalização de conceitos da matriz oficial e articulação consistente da metalinguagem avaliativa. Indicadores externos reforçaram esses achados, com destaque para o desempenho da escola na redação do ENEM 2024.
Palavras-chave: Ensino de redação; Gamificação; Linguística textual
LUIZ CARLOS CAGLIARI
[Fonética e Fonologia]
O projeto O Pulo do Sapo
O Projeto O Pulo do Sapo é um projeto de alfabetização que conta com a contribuição das ideias linguísticas da fonologia e da fonética para o ensino e a aprendizagem da decifração da escrita. É formado por três livros: O Pulo do Sapo, voltado para a decifração da escrita; O Pulo do Gato, que ensina conceitos básicos sobre o sistema de escrita; e O Canto do Galo, que é uma antologia que traz textos de diversos tipos de uso comum no processo de alfabetização, para ajudar a realização de atividades de ensino e de aprendizagem. As ideias linguísticas aparecem na metodologia, por exemplo, começando com a escrita de uma palavra (SAPO), introduzindo o alfabeto, a identificação das letras (SAPO), o significado do que está escrito, e a composição da palavra: SA-PO (sílabas) e letras (S+A+P+O). Em seguida, começam as discussões com pares mínimos: GATO, PATO, RATO, MATO: mudando uma letra, a palavra fica com significado diferente. Este projeto trabalha com as ideias de desafio, levando ao domínio de habilidades, numa sequência de conhecimentos que se acumulam. Esta metodologia desenvolve no aluno um modo de estudo. O livro O Pulo do Gato é voltado para o estudo dos sistemas de escrita, com especial destaque para o sistema alfabético. Nos dois livros, o uso da escrita maiúscula predomina e a escrita cursiva é a última a ser ensina. Leva o aluno a aprender a traçar as letras com gabarito e sem gabarito. Ensina o aluno a escrever copiando e escolhendo por conta própria o que ele quiser escrever. Nesse sentido, o projeto junta trabalhos para elaboração de livrinhos de textos produzidos pelos alunos, com sugestão de tema escolhido pela classe. O projeto trabalha também uma variedade de tipos de textos, incluindo poesias, mensagens, notícias, etc. O Projeto conta com Encartes especiais, onde o professor encontra para cada lição uma explicação das razões pelas quais as páginas foram planejadas, o que se espera que o professor ensine e o que se espera como resultado o que o aluno faz e aprende.
Palavras-chave: ALFABETIZAÇÃO; decifração; escrita
LISÂNGELA APARECIDA GUIRALDELLI
[Fonética e Fonologia]
Configuração prosódica da subordinação predicativa nas variedades geográficas e sociais do português: regularidades fonéticas e fonológicas
Este estudo, vinculado às pesquisas de Tojeira-Ramos e Guiraldelli (2024, 2025), examina a codificação prosódica da subordinação predicativa nas variedades do português (africanas, asiáticas, brasileiras e europeias), sob a perspectiva discursivo-funcional (Hengeveld; Mackenzie, 2008; Keizer, 2015), que concebe a gramática como parte de um modelo de interação verbal orientado pela intenção comunicativa. Diante da limitada atenção conferida ao fenômeno na literatura (Rodrigues, 2001; Gonçalves, 2001; Ignácio, 2002), objetiva-se descrever suas propriedades prosódicas e identificar os fatores pragmáticos, semânticos e morfossintáticos condicionantes (Souza; Guiraldelli, 2016). A investigação aborda a influência da ordenação dos constituintes, especificamente a posição da oração subordinada em relação à oração principal, bem como do princípio da Complexidade Crescente (Dik, 1997), sobre a organização prosódica. A base de dados provém do Projeto “Português Falado: Variedades Geográficas e Sociais” e é complementada por leituras experimentais destinadas a suprir lacunas referentes a determinados arranjos morfossintáticos. Os métodos integram três etapas: (1) inspeção auditiva, a partir da identificação de padrões linguísticos perceptíveis e da categorização de contornos entoacionais, conforme estudos funcionalistas anteriores (Halliday, 1970; Cagliari, 1981; Massini-Cagliari; Cagliari, 2001; Córdula, 2013); (2) análise acústica por meio do programa computacional Praat (Boersma; Weenink, 2023), com a mensuração da frequência fundamental (F0) em Hertz (Hz) e sua posterior conversão em escala logarítmica (Galvão Passetti, 2021; Tojeira-Ramos; Pezatti, 2022; Tojeira-Ramos, 2024, 2025), além da aferição da duração em milissegundos (ms); (3) e interpretação fonológica dos aspectos prosódicos observados. Os resultados revelam diferenças prosódicas em função da posição da oração subordinada (anteposta ou posposta à oração principal), com a emergência de duas configurações básicas: uma única Frase Entoacional e a segmentação em duas Frases Entoacionais. Tais padrões dispõem de regularidade transversal às variedades analisadas. No Nível Fonológico, a primeira configuração é associada a um operador descendente, enquanto a segunda apresenta a combinação de um operador ascendente na primeira unidade e de um operador descendente na segunda. No Componente de Saída Acústico, a realização em uma única unidade entoacional é caracterizada por um movimento final de diminuição da F0, sem pausas internas entre as orações, enquanto a segmentação exibe um aumento da F0 na fronteira da primeira oração, seguido de um decréscimo no término da segunda oração, com pausas breves entre as unidades entoacionais e pausas longas ao final do Enunciado. Os achados evidenciam um diálogo entre a caracterização prosódica e a estrutura informacional e contribuem para a descrição funcionalista da subordinação predicativa no português.
Palavras-chave: subordinação predicativa; prosódia; português falado
JUAN PRETE TOJEIRA RAMOS
[Fonética e Fonologia]
Representatividade sociolinguística da variação entoacional do português brasileiro no desenvolvimento de sistemas de síntese de fala: uma proposta de valorização da diversidade prosódico-acústica
Este estudo tem como objetivo geral discutir a representatividade sociolinguística da variação entoacional do português brasileiro (PB) no desenvolvimento de sistemas de síntese de fala. Como objetivos específicos, propõe-se sistematizar os principais padrões entoacionais descritos para as variedades do PB e analisar suas implicações para a modelagem prosódico-acústica em tecnologias de fala. Metodologicamente, a pesquisa é de natureza teórico-propositiva, fundamentada na revisão e na articulação da literatura linguística e tecnológica sobre o PB, com ênfase na interface entre a prosódia, a variação dialetal e a fala sintética. Parte-se do pressuposto de que o PB é uma língua entoacional, em que a melodia distingue significados pragmático-discursivos (Massini-Cagliari; Cagliari, 2001). Nesse contexto, a variação linguística se manifesta em diversos cenários regionais, como o baiano (Salvador), o mineiro (Belo Horizonte) e o sulista (São Paulo e Porto Alegre), cuja caracterização entoacional é objeto de pesquisa (Frota et al., 2015). Estudos empíricos evidenciam distinções entre variedades urbanas, como as de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, sobretudo na relação entre as sílabas pretônicas e tônicas: por exemplo, nas variedades nordestinas, observa-se uma maior proeminência das pretônicas, enquanto, na fala porto-alegrense, verifica-se uma elevação da frequência fundamental (F0) na sílaba tônica (Cunha, 2000). Investigações vinculadas ao Projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) revelam configurações entoacionais distintas em enunciados declarativos, interrogativos e imperativos, o que corrobora a variação melódica como um traço regional (Castelo; Cunha, 2011, 2012; Silvestre; Cunha, 2013; Gomes da Silva et al., 2016). Outros trabalhos demonstram que o PB apresenta uma alta densidade tonal (Fernandes-Svartman, 2024a, 2024b), além de variações nos contornos nucleares, com a configuração de duas regiões dialetais diferenciadas, em especial, pelos padrões do contorno nuclear interrogativo total: ascendentes no Norte e ascendentes-descendentes no Centro-Sul (Castelo, 2016). No campo da fala sintética, destacam-se as limitações de recursos para o PB e o impacto de abordagens baseadas em Inteligência Artificial (IA) na produção de resultados mais naturais (Casanova et al., 2024), embora ainda pouco sensíveis à diversidade identitária. Nesse cenário, investigações recentes sobre a fala sintética indicam a presença de regularidades entoacionais que se aproximam das descrições da fala natural do PB, particularmente quanto à organização melódica no domínio gramatical (Tojeira-Ramos; Massini-Cagliari, 2024; Tojeira-Ramos, 2025). Argumenta-se, por conseguinte, que a inclusão da diversidade entoacional em sistemas de síntese de fala configura um desafio técnico e uma demanda sociolinguística para a valorização da pluralidade cultural brasileira.
Palavras-chave: síntese de fala; português brasileiro; variação
MARIA DO ROSARIO GREGOLIN
[Análise do Discurso]
Ciberativismo e subjetividades: entre a fluidez e a espessura dos discursos insurgentes nas mídias digitais
Esta comunicação apresenta resultados de uma pesquisa em desenvolvimento, cujo objetivo é a análise do funcionamento discursivo das mídias digitais sob a lente da arqueogenealogia de Michel Foucault. A investigação focaliza práticas discursivas que tem como efeito a produção de subjetividades, visando, particularmente, analisar discursos de resistência política no ativismo digital em redes sociais. As análises buscam compreender a articulação entre esses discursos políticos, seus efeitos de sentido e a memória discursiva por meio da descrição de procedimentos discursivos utilizados no ativismo político digital para a produção da insurgência e da negociação em torno das problemáticas de gênero, em suas múltiplas temporalidades e espacialidades (heterotopias). Essas problemáticas tem em sua base algumas questões de pesquisa: a) Como a mídia digital funciona - articulada a outros dispositivos de saber e de poder - para a produção das subjetividades?; b) Quais transformações a mídia digital provoca nas formas de resistência política contemporâneas? c) Quais as especificidades do funcionamento das linguagens na mídia digital, ao serem mobilizadas por sujeitos para a ação política e produzirem a insurgência e a negociação identitárias (de gênero) no interior de jogos de produção das subjetividades contemporâneas? Propomos, portanto, discutir a produção de subjetividades na mídia digital, entendendo-a como dispositivo de saber e de poder, por meio do qual é construída uma “história do presente” como um acontecimento discursivo que tensiona a memória e o esquecimento. Trata-se, portanto, de analisar discursos de insurgência contra o governo da memória e da história, que são possibilitados pelos meios digitais e que criam subjetividades. Assim, o objetivo central de minha exposição é discutir, a partir de uma "análise de discursos com Michel Foucault", como memória e esquecimento funcionam nas mídias digitais para a construção de verdades sobre os sujeitos e suas identidades. Ao analisarmos esses jogos de verdade entre história e esquecimento, tomamos a concepção foucaultiana de discurso como luta, como batalha para instituição das subjetividades. Assim, pretendemos apontar o papel da mídia digital na formatação da historicidade que nos atravessa e nos constitui, das subjetividades históricas que nos ligam ao passado e ao presente.
Palavras-chave: Discurso; Subjetividade; Ciberativismo
DENISE GABRIEL WITZEL
[Análise do Discurso]
“A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO”: DISCURSO E CORAGEM DA VERDADE NO
ACONTECIMENTO GISÈLE PELICOT Este estudo é extraído de uma pesquisa que analisa as relações incontornáveis entre Discurso, Escrita de si, Coragem da Verdade e Práticas de Liberdade na produção de subjetividades do sujeito mulher que se narra e luta contra as múltiplas formas de opressão que incidem sobre seu corpo desde a noite dos tempos. Elegemos, para fins de análise e discussões neste recorte, o enunciado “a vergonha precisa mudar de lado”, extraído da escrita de si de Gisèle Pelicot (2025) e produzido após ela descobrir que havia sido vítima de abusos sexuais sistemáticos ao longo de 10 anos. Seu marido, Dominique Pelicot, a submetia a procedimentos químicos administrados em altas doses de modo a deixá-la viva, porém, inconsciente. Sob esse estado, Gisèle foi estuprada pelo próprio marido e por dezenas de homens recrutados por ele em fóruns da internet. O crime foi descoberto quando Dominique foi detido em um supermercado ao ser flagrado filmando as partes íntimas de mulheres sob suas saias, o que levou a polícia a investigar seus dispositivos eletrônicos e encontrar milhares de registros dos abusos contra sua esposa. Orientando-nos fundamentalmente pelo último curso que Michel Foucault ministrou no Collège de France (1983-1984), estabeleceremos as condições de proveniência e de emergência dos discursos parresiásticos de Gisele Pelicot que, ao tempo em que implicaram coragem, riscos, fraturas virtuais e espaços de liberdade, permitem-nos compreender a coragem da verdade dessa mulher enxertada nos discursos centrados no desdobramento judicial que culminou no julgamento iniciado em setembro de 2024, no Tribunal de Avignon-França. Ao recusar o julgamento dos 51 réus com as portas fechadas, ela negou o anonimato e, parresiasticamente, expôs as práticas brutais a que foi submetida, enfrentando seus agressores publicamente. Emerge, assim, uma ética do cuidado de si com vistas a uma nova subjetividade, pois, ao enunciar que “a vergonha precisa mudar de lado”, ela rompe com uma certa regularidade histórica na ordem do discurso que silencia a vítima. Em sua coragem da verdade, Pelicot desestabiliza poderes patriarcais que sustentam a cultura do estupro e desloca a vergonha - tradicionalmente imposta ao corpo feminino - de volta ao agressor e à estrutura social.
Palavras-chave: escrita de si; parresia; cultura do estupro
RENAN BELMONTE MAZZOLA
[Análise do Discurso]
DISCURSO E ARGUMENTAÇÃO: A POLÊMICA EM TORNO DO CONFLITO ISRAEL X
PALESTINA EM ARTIGOS DE OPINIÃO BRASILEIROS Em 17 de fevereiro de 2024, Lula participou da 37a cúpula da União Africana em Adis Abeba, na Etiópia. Em seu discurso, condenou as ofensivas israelenses na Faixa de Gaza. No dia seguinte, 18, falou com a imprensa e fez uma afirmação que iria repercutir na imprensa nacional e internacional nos próximos dias. Lula disse: "O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus". Essa afirmação foi matéria de jornais, tema de colunas e artigos de opinião, objeto de disputa em debates na tevê, tópico de entrevistas com especialistas, etc. Enfim, essa afirmação gerou polêmica em função de sua natureza controversa. A afirmação de Lula (proposição) e a crítica de Netanyahu (desacordo em relação à proposição) fundaram a questão retórica (chamada de quaestio) a ser debatida, que pode ser formulada da seguinte forma: a comparação de Lula foi adequada? Essa quaestio gera posicionamentos distintos e divergentes, inscrevendo a polêmica no interior dessas interações. Nesse cenário, o objetivo desta comunicação é analisar a configuração da polêmica desta comparação a partir de quatro mirantes: a) o gênero epidítico, b) os conflitos entre Israel x Palestina na história, c) as técnicas argumentativas empregadas no artigo de opinião, d) a dimensão discursiva dessa polêmica. A relevância do tema se justifica pelo importante papel da polêmica político-diplomática na esfera pública, sobretudo nas interações digitais, redefinindo posicionamentos entre atores políticos, mídia e cidadãos. A fundamentação teórica desta pesquisa ancora-se nos trabalhos de Aristóteles (2011) e Perelman e Tyteca (2014) sobre os discursos epidíticos, e nos trabalhos de Angenot (2013) sobre a compreensão da retoricidade dos discursos contemporâneos. Metodologicamente, propomos coletar um corpus de artigos de opinião, notícias, posts em redes sociais, pronunciamentos e debates que comentam/debatem o fato, expondo uma opinião argumentada. Desse modo, nosso corpus será composto por textos que avaliarão se a comparação realizada por Lula foi justa ou injusta. Os resultados preliminares apontam para a fecundidade do tema do conflito como combustível para opiniões exaltadas na mídia, e para a confirmação da natureza polêmica em torno da comparação entre o povo judeu e seu algoz, Hitler.
Palavras-chave: Opinião; Técnicas argumentativas; Discurso;
AGNES EDUARDA DA SILVA BRITO
[Análise do Discurso]
Arqueogenealogia da Análise de Discurso no Brasil: epistemologias insurgentes e colonialidades em disputa
A presente pesquisa apresenta uma investigação arqueogenealógica da institucionalização da Análise de Discurso no Brasil, com foco nas heranças coloniais que estruturam o campo científico e acadêmico e influenciam como os saberes discursivos foram constituídos e legitimados nas universidades brasileiras. Esta pesquisa será conduzida a partir dos Estudos Discursivos Foucaultianos. Para tal, utiliza-se da arqueologia (Foucault, 2007), a fim de mapear as condições de emergência e as regras de formação dos discursos, e da genealogia (Foucault, 1979), para rastrear as relações de saber e de poder entrelaçadas nas formações discursivas que estão imbricadas nos processos da constituição da Análise de Discurso como campo científico no Brasil. Partindo deste método, o estudo objetiva investigar de que modo os saberes coloniais influenciaram a constituição epistemológica e a institucionalização da Análise de Discurso nas universidades brasileiras. Organiza-se em três partes: história dos saberes (de)coloniais, historiografia da Análise de Discurso e a análise de discursos institucionais sobre a teoria como campo do saber no Brasil. Neste momento, privilegia-se a apresentação do desenvolvimento da primeira seção da pesquisa: um capítulo de articulação teórico-metodológica entre a noção foucaultiana de insurreição dos saberes subjugados com as categorias de colonialidade do poder, do saber e do ser com o conceito de agrietar (do espanhol, criar fissuras) a universidade presentes nos estudos decoloniais intermediados por autores como Quijano (2004), Mignolo (2014) e Walsh (2023). Por meio desse diálogo teórico-metodológico, espera-se evidenciar as tensões produzidas entre a continuidade das narrativas do Norte com a ruptura gerada pelos debates que legitimam a decolonialidade, cada vez mais recorrentes nas universidades do Sul. Com esse propósito, a pesquisa contribui para uma abordagem que reconheça a pluralidade epistêmica no contexto pós-colonial periférico e valorize a produção intelectual deste espaço no que tange às Análises de Discurso no Brasil e os Estudos Discursivos Foucaultianos. (CAPES - PROEX)
Palavras-chave: Historiografia; Estudos decoloniais; Arqueogenealogia da
ROBERT LEANDRO SILVA FREITAS
[Análise do Discurso]
Os militares e a rodovia que corta a floresta: Discurso, Mídia e
Relações de Poderes Este trabalho tem o objetivo de analisar e compreender o funcionamento da memória discursiva em sua emergência na atualidade, a partir da forma como os discursos dos militares sobre a BR-230 e suas investidas na Amazônia, por meio de quatro “frentes de expansão” - Agricultura, Pecuária, Minério e Hidrelétrica- operam e se atualizam ao serem inseridos em veículos de mídia contemporâneos. Para isso, faremos um itinerário apresentando como o pensamento dos que idealizavam a construção da rodovia assentavam e ainda se consolidam a partir de práticas colonizatórias que são visíveis de serem observadas em seus discursos. Logo, é importante pontuar que desde o início das incursões dos colonizadores na Amazônia, ao tomarem conhecimento da dimensão de suas potencialidades, a região passou a ser alvo de diversos interesses econômicos, tanto nacionais, quanto internacionais. O espaço passou a ser objeto de conquista e de disseminação de poder. Um momento marcante da história dessas invasões ocorreu na década de 1970, com a construção da rodovia Transamazônica e a implantação de grandes projetos desenvolvimentistas. Assim, a ditadura militar brasileira impôs à floresta um sistema de domínio territorial que avança para dentro do espaço amazônico por meio da instalação de obras monumentais. O nosso movimento analítico focalizará três materialidades: a) os pronunciamentos de figuras políticas do governo militar na inauguração de trechos da rodovia; b) uma propaganda do governo militar e c) um episódio da série presente na plataforma de filmes HBO MAX denominada Transamazônica: uma estrada para o passado. O referencial teórico-metodológico que sustenta nossas reflexões apoia-se na arqueogenealogia foucaultiana pensada a partir de Neves & Gregolin (2021) e as noções de Discurso (2014) Saber (2020) e Poder (2021). Essas noções teóricas foucaultianas são articuladas com estudos de Michel de Certeau (2025) sobre os sentidos do espaço e, além disso, o foco de nossa atenção se dirige ao funcionamento desses discursos na mídia contemporânea a partir das contribuições de Gregolin (2003). Neste trabalho, há um duplo gesto de análise: a primeira situa-se no levantamento de temáticas que se inscrevem nos discursos e nas propagandas dos militares na década de 70 para em seguida, investigarmos como tais temas se apresentam na mídia contemporânea a partir da série presente na HBO MAX.
Palavras-chave: Discurso; Mídia; Militares;
JÚLIO MÁRIO SIGA
[Análise do Discurso]
Políticas de identidade e colonialidade em discursos políticos de presidentes da Guiné-Bissau e Cabo Verde
Esta comunicação propõe apresentar, de uma forma analítica, as políticas de identidade e colonialidade em discursos políticos de presidentes da Guiné-Bissau e Cabo Verde, entre 2020 e 2026, analisando como os reflexos de políticas de identidade (de pertença étnica, religiosa e de status social/coloração) contribuem na influência das formações discursivas e ideológicas em discursos políticos para a ascensão aos cargos políticos e na manutenção do poder. Em outros termos, propomos analisar o funcionamento das ideologias políticas no cenário político guineense e cabo-verdiano. Trata-se de dois países com uma ligação cultural e orgânica histórica, como se pode constatar na “História concisa de Cabo Verde” (SANTOS, et al, 2007), resultante de um contexto histórico-político em que o Dispositivo Colonial, através da rede de outros dispositivos, como o bélico-militar, o pedagógico, o religioso, o jurídico, o escolar, o midiático etc., tem uma forte confluência na formação sócio-político dos dois países (NEVES; GREGOLIN, 2021), tendo os dois realizado uma longa luta armada comum que resultou nas suas independências (LOPES, 1996; SOUSA, 2017). Ademais, após a independência, todo esse dispositivo colonial é assumido pelos sujeitos políticos locais colonizados (CABRAL, 2020; NEVES; GREGOLIN, 2021), em uma sociedade fortemente dividida entre a Modernidade Líquida e Modernidade Sólida, conforme teorizado por (BAUMAN, 2021b; 2021a), face a uma luta pela construção da identidade nacional na perspectiva de (HALL, 2024) e unidade na diversidade, defendida por Amílcar Cabral, líder da independência dos dois países. Recorremos à metodologia qualitativa foucaultiana denominada arqueogenealogia. Pois consideramos que essa metodologia é adequada ao nosso objeto de análise, na medida em que preserva a estrutura da arqueologia foucaultiana, voltada para identificar regularidades e rupturas nos discursos numa história descontínua e problematizar a verdade, incorporando novos conceitos de Foucault, às análises, para evoluir de uma arqueologia do saber para arqueogenealogia do saber-poder (FOUCAULT, 2014; NEVES; GREGOLIN, 2021). Nossas análises, que refletem um primeiro momento da tese em desenvolvimento, apontam que as ideologias de políticas de identidade são tidas nas práticas discursivas presidenciais e nos jogos de saber-poder nos dois países; e os dispositivos de status social/coloração resultantes das oportunidades coloniais são evocados como critérios para a afirmação da identidade cultural e ascensão ao poder político. Assim, os resultados parciais já obtidos evidenciam que esses discursos produzem efeitos de sentido a partir das formações históricas e ideológicas dos já ditos produzidos desde o período colonial.
Palavras-chave: Políticas de identidade e colonialidade em discurs;
JULIANA APARECIDA BARBOSA DA SILVA
[Análise do Discurso]
MULHERES ESCRITORAS: PRESENÇA/AUSÊNCIA DE AUTORAS NAS LISTAS
OBRIGATÓRIAS DA FUVEST DE 2026 A 2028 Os papéis sociais das mulheres vêm se transformando ao longo da história assim como suas vozes trazem impacto e materializam-se enquanto resistência na atualidade. A literatura é um espaço essencial para a emergência dessas transformações, em obras carregadas de luta e de representatividade. A voz feminina, ao longo da história, perpassou por resistências, transformações e (res)significações. A ausência da mulher e de sua voz não só na literatura, mas também em outros espaços sociais, evidencia o silenciamento e o apagamento da figura da mulher ao longo da história. Com o crescimento de obras escritas por mulheres, listas de leituras obrigatórias como a do vestibular da Fuvest tem trazido mais autoras em sua composição, tecendo assim um diálogo com a atualidade. As listas de leituras obrigatórias, cujas obras são majoritariamente escritas por homens, evidenciam relações de poder patriarcalistas que formam e constroem cânones. Assim, apesar de existirem muitos livros importantes na literatura brasileira escritos por mulheres, estas, ainda, continuam sendo consideradas marginalizadas em detrimento de uma hegemonia masculina na literatura. A partir disso, espera-se, nesse trabalho, analisar a representatividade das listas do vestibular da Fuvest a partir do discurso midiático no que diz respeito a livros escritos por mulheres . Para tanto, será recolhido o material através de artigos de opiniões, posts e comentários do Instagram, mensagens do X (Twitter), que tragam discursos referentes ao trabalho. Nesses materiais será analisado como a mudança das listas estão impactando na opinião popular. Tomamos como aporte teórico os estudos discursivos foucaultianos desenvolvidos no Brasil por pesquisadoras brasileiras como Maria do Rosário Gregolin, Denise Witzel e Ivania Neves, utilizando uma analítica-metodológica pautada na arqueogenealogia foucaultiana postulada por Neves e Gregolin (2021). De acordo com esses pressupostos teóricos, temos uma intersecção entre arqueologia e genealogia, adotando uma posição de questionamento sobre as condições históricas e sobre as mudanças da prática discursiva, analisando-as por meio das relações de saber e poder no discurso. Consoante à caixa de ferramenta teórica proposta por Michel Foucault, nossas análises se pautarão pelos seguintes conceitos: Discurso em “A Ordem do discurso” (2014), Saber em “Arqueologia do Saber” (2020) e Poder em “Microfísica do Poder” (2025). Espera-se que esta pesquisa contribua para a adesão das mudanças de forma efetiva nas listas de leituras de outros vestibulares, além da Fuvest, e viabilize que as vozes dessas autoras possam ser ouvidas e que seu papel de agente histórico possa ser reconhecido.
Palavras-chave: Discurso; Autoras mulheres; Fuvest
MYLLENA ARAÚJO DO NASCIMENTO
[Análise do Discurso]
A trollagem política transfóbica da extrema direita no Instagram: uma análise discursiva dos efeitos de humor na política brasileira
A ascensão da extrema direita no cenário político brasileiro, especialmente desde a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018, e o uso maciço das mídias sociais como ferramenta de comunicação política permitiram que o humor fosse usado como forma de autoproteção diante do discurso de ódio. Assim, desde a campanha presidencial brasileira de 2018, o humor, materializado principalmente pela prática da trollagem política, tem sido regularmente utilizado como forma de discurso de ódio pelo ex-presidente e seus respectivos aliados políticos. Neste trabalho, consideramos o conceito de trollagem política tal como cunhado por Lamerichs et al: “Definimos a trollagem política não apenas como o ato de postar mensagens e memes de ódio, mas como um fenômeno mais amplo através do qual os usuários se envolvem em um comportamento influente e tóxico” (2018, p. 182-183). Dessa maneira, este trabalho pretende analisar o funcionamento da trollagem transfóbica no discurso político brasileiro, focalizando particularmente seus usos na extrema direita, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022). Considerando sua inscrição em certo limiar entre o humor e o discurso de ódio e sua circulação digital, buscaremos identificar, descrever, categorizar e interpretar as principais propriedades da prática da trollagem transfóbica, a produção de seus efeitos, a materialização de seus afetos e as possíveis mutações discursivas que ela promove em modos de dizer do discurso de ódio no campo político. Mais precisamente, nosso objetivo consiste em responder às seguintes questões: quais as condições históricas que possibilitam a emergência da trollagem no discurso político brasileiro contemporâneo? Como se dá sua construção nos limites entre a produção do humor no interior de uma comunidade discursiva e a discriminação dos que lhe são exteriores? O que se trolla nos grupos e sujeitos trollados pela extrema direita e quais afetos se materializam em suas trollagens? Quais são as formas e os recursos discursivos mais recorrentes para que elementos do discurso de ódio possam circular dissimulados sob os efeitos de humor? Com vistas a responder a essas e a outras questões, analisaremos duas postagens veiculadas no perfil do Instagram do deputado federal Nikolas Ferreira (Partido Liberal), realizadas nos dias 26 de setembro de 2021 e 25 de agosto de 2022. Para fazê-lo, nosso trabalho se fundamentará em postulados, noções e procedimentos dos Estudos Discursivos Foucaultianos, mais especificamente aqueles referentes à fase arqueológica de Foucault (2000; 2010; 2014; 2016) e em recentes estudos sobre a trollagem no discurso político. (Apoio: FAPESP Processo 2023/03218-9)
Palavras-chave: Trollagem; Humor; Discurso de ódio
NATALIA SILVA DO LAGO
[Análise do Discurso]
A construção discursiva de mulheres na política brasileira contemporânea: gênero, poder e colonialidade
As mulheres enfrentam diariamente obstáculos estruturais como a desigualdade de gênero, estereótipos, pressões sociais sobre corpo e aparência, além de diferentes formas de violência e assédio. Ainda assim, ocupam cada vez mais espaços de destaque na sociedade. Este estudo tem como objetivo analisar a construção discursiva de mulheres que ocupam ou ocuparam posições de destaque na política brasileira, tanto em posições de esquerda (como Erika Hilton, Duda Salabert, Manuela D’Ávila, Dilma Rousseff) quanto de direita (como Bia Kicis, Caroline de Toni, Julia Zanatta etc), em um contexto marcado pela intensa polarização política. Com base em Michel Foucault, o poder estabelece-se como uma rede de relações que atravessa discursos, práticas sociais e processos de subjetivação. Nesse sentido, esta pesquisa busca compreender como as subjetividades das mulheres em cargos e posições políticas se constroem discursivamente a partir de práticas que regulam o que pode ser dito e legitimado no campo político, assim como seus corpos e suas falas são produzidos nas relações de saber/poder. Considera-se que as concepções de gênero foram historicamente construídas e questionadas pelos movimentos plurais do feminismo. Por isso, nossa investigação traça um percurso histórico para entender como a violência de gênero na política se estabeleceu e se legitima constantemente, com base em discursos de ódio que circulam livremente nas mídias sociais a fim de deslegitimar a participação feminina na política brasileira. Para tanto, este trabalho também atenta para as teorias decoloniais desenvolvidas por Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Achille Mbembe que buscam problematizar como a colonialidade reflete no que entendemos como poder, saber e sujeito nas relações sociais atuais e que atravessam a construção discursiva dessas mulheres. Assim, a construção da identidade das mulheres políticas também se ancora na dimensão constitutiva das hierarquias históricas que organizam o espaço político e suas formas de visibilidade. O corpus da pesquisa será composto por postagens em mídias sociais das mulheres já mencionadas, que ocupam uma posição de maior visibilidade na política e utilizam seus perfis para tornar visíveis suas ações e posicionamentos políticos. Espera-se evidenciar que a participação de mulheres na política não supõe, necessariamente, uma ruptura com estruturas históricas de dominação, uma vez que seus discursos continuam sendo regulados por dispositivos que articulam gênero, poder e colonialidade. Ao mesmo tempo, busca apontar fissuras nessa rede de poder que contribuem para a reflexão sobre os limites e as ampliações da representatividade feminina em espaços historicamente marcados pela exclusão.
Palavras-chave: Mulheres na política; Colonialidade; discurso
JORDÃO ANONA SÁ
[Análise do Discurso]
DISCURSOS DOS GOLPES EM GUINÉ-BISSAU: UMA ANÁLISE DO PRONUNCIAMENTO
GOLPISTA DE 2025 No quadro de nosso Mestrado em Linguística na UFSCar, desenvolvemos atualmente uma pesquisa sobre os discursos que justificam os golpes ocorridos em Guiné-Bissau entre 1980 e 2025. Sua base teórica e metodológica é a Análise do Discurso desenvolvida por Michel Pêcheux (1995) e seu grupo, com contribuições de Michel Foucault (2012) consagradas à ordem do discurso e de Patrick Charaudeau (2011) e Carlos Piovezani (2009) dedicadas ao discurso político. O objetivo consiste em analisar enunciados produzidos por lideranças militares golpistas, quando dos golpes de Estado em Guiné-Bissau em 1980, 2012 e 2025, no intuito de descrever e interpretar seu funcionamento discursivo. Mais precisamente, o propósito consiste em considerar quais são e como se formulam os discursos que justificam as intervenções dos militares na política nacional e que buscam lhes outorgar legitimidade para o exercício do poder. Diferentemente do que prescrevem a Constituição de Guiné-Bissau, os poderes militares não têm servido apenas à defesa da Nação, uma vez que os golpes de Estado por eles efetuados não foram raros na recente história do país. De modo geral, quando da execução dos golpes, os militares guineenses proclamam seu suposto direito e sua pretensa legitimidade para determinar quem deve ser eleito e quem deve permanecer no poder. Nessas circunstâncias, cada intervenção militar tem sido frequentemente justificada como solução para a instabilidade política. No cerne dessa justificativa, se dá a construção da imagem das Forças Armadas como heróis da pátria ou salvadores da Nação nesses momentos de graves crises institucionais. Diante desse quadro, nosso material de análise é composto de declarações, documentos e pronunciamentos dos militares golpistas lançados a público por ocasião de cada um dos três golpes acima mencionados. Além do mais, para melhor compreensão das condições históricas de produção dos discursos materializados nessas declarações, documentos e pronunciamentos, o desenvolvimento da pesquisa contempla ainda seleção, leitura e apropriação de textos e obras da literatura especializada na história, na sociedade e na política guineense Para nossa exposição no no 71º Seminário do GEL, além do atual estado da pesquisa, pretendemos apresentar alguns resultados de análises que realizamos do pronunciamento dos líderes do golpe militar de 2025. Nas análises desse documento, examinamos os discursos de justificativa do golpe, da necessidade da intervenção militar e da legitimidade da ação golpista para contornar a instabilidade política, considerando a constituição histórica, a formulação linguística e a circulação social de seus enunciados.
Palavras-chave: Golpes de Estado; Guiné-Bissau; Discurso político
OFELIA REGINA BRAVIN MOREIRA
[Análise do Discurso]
GUERRA CULTURAL E VOZES FEMININAS NA LITERATURA: A RESISTÊNCIA AO
AUTORITARISMO DITATORIAL EM O PARDAL É UM PÁSSARO AZUL (HELONEIDA STUDART) A cultura é um campo de batalha onde discursos e instituições são usados para promover ideologias e influenciar a opinião pública. Neste sentido, conceitos discursivos são armas estrategicamente utilizadas para convencer, atacar pessoas. As artes e a literatura engajadas funcionam como formas de resistência pois permitem denunciar a opressão. Durante a ditadura militar de 1964, no Brasil, artistas, escritores, utilizaram suas obras para denunciar a perseguição do regime de exceção. Nesta comunicação, apresentamos resultados parciais de nossa pesquisa de doutorado, cujo objetivo é analisar o discurso de denúncia produzido por vozes femininas (escritoras e cineastas) atuantes na resistência contra esse regime político repressor. O arcabouço teórico-metodológico está alicerçado nos Estudos Discursivos Foucaultianos e nos estudos históricos sobre decolonialidade (Achille Mbembe e Walter Mignolo), em diálogo com textos sobre os feminismos no Brasil (Lélia Gonzales, Mary del Priore). Nosso corpus de análise é composto pela “trilogia da tortura” (Heloneida Studart), além de textos e vídeos memorialistas, como A Torre das Donzelas (Suzanna Lira). Neste momento, analisaremos a obra O pardal é um pássaro azul, de Heloneida Studart, embasando-nos em conceitos foucaultianos sobre poder, vigilância e punição. Um tema recorrente nessa narrativa é o clima de medo, de silêncio e de perseguição. De acordo com o pensamento foucaultiano, o poder não atua somente pela violência física, mas também pelo controle psicológico e social, levando as pessoas a vigiarem a si próprias por medo da punição. O poder funciona por meio da (auto)vigilância, da disciplina, do controle dos corpos e das ações. Para Foucault (1987, p. 119), “o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma anatomia política, que é também igualmente uma mecânica do poder”. Na Ditadura Militar de 1964, o governo exercia forte controle sobre comportamentos e relações sociais. Na obra analisada, a personagem Marina vive em um mundo que reproduz, metaforicamente, a repressão política, o silenciamento obrigatório e a falta de liberdade, evidenciando que o poder ditatorial agia pelo medo internalizado nas pessoas. Ao expressar essa situação, o romance confronta o poder do Estado ditatorial em um momento político em que, apesar de discursos apontarem para uma abertura política, ainda se mantinha todo o aparato repressivo. Ao enunciar e revelar as prisões, torturas e mortes de adversários políticos, esse texto se engaja na guerra cultural, lutando com as palavras para o restabelecimento da democracia em nosso país. (CAPES-PROEX)
Palavras-chave: Vozes Femininas; Ditadura Militar 1964; Estudos
SHUANNY GONCALVES RAMIES
[Línguas Indígenas]
Dicionário Multimídia Karitiana-Português
Este trabalho busca elaborar um dicionário multimídia bilíngue Karitiana-português. O povo Karitiana habita a sua própria Terra Indígena, localizada a 95 quilômetros ao sul da capital Porto Velho, Rondônia. Trata-se de uma pesquisa que visa auxiliar no fortalecimento e escolarização da língua. Ferramentas e instrumentos linguísticos, como o dicionário multimídia, podem contribuir para os projetos pedagógico das escolas indígenas. Esta pesquisa tem como objetivo fornecer subsídios para as áreas da linguística e educação. O movimento pedagógico ocorre na projeção de que essas obras possam auxiliar o ensino-aprendizado da língua indígena nas escolas (Fargetti e Mondini, 2021). O diretor das escolas Karitiana tem participado de reuniões com a autora e sua orientadora para validar o trabalho. Os objetivos específicos incluem a criação de um dicionário multimídia com 400 palavras para ser usado pelo povo Karitiana em suas escolas. A metodologia utilizada na criação do dicionário adota a metodologia de um projeto do Museu Paraense Emílio Goeldi, intitulado “Dicionário indígena para línguas indígenas”, liderado pela pesquisadora Ana Vilacy Galucio. O projeto concerne conhecimento linguístico e inovações tecnológicas, apresentando capacidade de expandir domínios da circulação da língua, fortalecendo a vitalidade de línguas em situação de vulnerabilidade (Soares; Rodrigues; Galúcio, 2024). Para o seu desenvolvimento, utilizamos um script desenvolvido por Saulo Brito, que permite a criação de dicionários multimídia em formato HTML e PDF, a partir de arquivos ELAN e tabelas. O pesquisador Ivan Rocha, que trabalhou no Museu Emílio Goeldi, auxiliou a aplicação da metologia à base de dados do projeto. No dicionário, são indicadas a transcrição fonética e ortográfica de cada palavra em Karitiana, bem como sua tradução para o português e arquivos de áudio de cada palavra. O conhecimento da fonética e fonologia da língua foram baseados em trabalhos da orientadora (Storto 1996,1999, 2020). A bibliografia sobre lexicografia que embasa o trabalho inclui Biderman (2001); Welker (2008) e Fargetti (2012). O corpus da pesquisa foi constituído a partir do banco de dados lexicais em FLEX criado pela orientadora, bem como de gravações feitas em campo. Neste estudo, também discutiremos os desafios deste tipo de trabalho lexicográfico e sua contribuição para o projeto político-pedagógico da comunidade Karitiana.
Palavras-chave: Língua Karitiana; Dicionário multimídia; Léxico;
MAGDA PUCCI
[Línguas Indígenas]
Léxico, fala e canto em músicas indígenas no Brasil
Este trabalho propõe uma reflexão interdisciplinar sobre léxico, tradução, transcrição e escuta de cantos indígenas, reunindo contribuições da linguística, da etnomusicologia e da antropologia da música a partir de dois estudos de caso: as cantigas de ninar Juruna, traduzidas e analisadas linguisticamente por AUTOR e posteriormente abordadas por AUTOR em suas particularidades musicais e procedimentos de transcrição; e os Cantos dos Bichos de Palob dos Paiter Suruí, traduzidos por AUTOR para o livro XXXXXXX (AUTOR, 2017), em colaboração com Uraan Paiter Suruí. A proposta busca discutir os limites da tradução textual convencional diante de repertórios em que o léxico da língua, sua musicalidade prosódica, recursos coesivos como repetição, inflexões vocais e zonas híbridas entre fala e canto possuem papel central na construção de sentido. Nos cantos Juruna, as relações entre música, linguagem e ambiente revelam formas complexas de percepção e organização sonora, nas quais as categorias “bicho” e “gente” atravessam as vocalizações e os processos de transmissão cultural (AUTOR; AUTOR, 2017). A música aparece integrada ao comportamento, ao corpo, à circulação do conhecimento e às temporalidades cíclicas do ambiente, articulando modos de vida, práticas agrícolas, memória e cosmologia. A partir das reflexões de AUTOR sobre a transcrição musical das cantigas Juruna — marcadas por assimetrias rítmicas, superposição de pulsos, circularidade modal e relações entre movimento corporal e estrutura melódica — o trabalho pretende discutir os desafios de registrar repertórios cuja lógica sonora frequentemente escapa às categorias da música tonal ocidental e às formas lineares de escrita. No caso dos Paiter Suruí, serão abordadas as dificuldades de tradução de cantos que articulam vocalizações, fala cantada, repetições e imitações sonoras associadas ao universo animal e cosmológico. Por meio de exemplos comentados, o trabalho propõe refletir sobre oralidade, vocalidade, performance e tradução intercultural, discutindo como transcrição e tradução podem também se tornar formas de escuta, preservação e mediação entre diferentes concepções de linguagem, música e mundo.
Palavras-chave: linguística lexical; vocalidade indígena; tradução
ANTÔNIA FERNANDA DE SOUZA NOGUEIRA
[Línguas Indígenas]
Materiais lexicográficos para a língua Wayoro
Esse trabalho se situa na área da lexicografia, mais especificamente no campo da produção de materiais lexicográficos para línguas ameaçadas (Frawley et al., 2002; Mosel, 2004; Kroskrity, 2015). A língua Wayoro (família Tupi, subfamília Tupari) está localizada no estado de Rondônia (Brasil). A população total é de 320 pessoas (IBGE, 2024), porém há somente 01 falante fluente (além de cerca de 20 semifalantes) (Nogueira, 2019). Não há transmissão linguística para as novas gerações, as quais falam português como primeira língua. Nesta comunicação, apresentaremos a metodologia e os resultados do processo de criação de dois produtos lexicográficos para a língua Wayoro: o dicionário multimídia da língua Wayoro e a enciclopédia digital bilíngue de aves (Wayoro-Português). A metodologia envolveu documentação linguística (gravação e anotação de dados linguísticos primários) e uso do script CSV2RMD (Brito; Birchall; Galucio, 2024). Os resultados podem ser sintetizados da seguinte maneira. O Dicionário Multimídia da Língua Wayoro (Tupi) apresenta 633 entradas lexicais, centenas de exemplos de uso e 157 imagens. A macroestrutura do dicionário multimídia está organizada em 11 campos semânticos, a saber, animais, plantas, cores, comida, corpo, natureza, pessoas, atividades e eventos, estados e propriedades, itens do dia a dia e outros. A microestrutura do dicionário multimídia apresenta a palavra escrita na língua Wayoro, categoria gramatical da palavra, áudio da palavra na língua Wayoro, equivalente em português, imagem correspondente, sentença exemplo de uso na ortografia Wayoro, equivalente em português da sentença exemplo, áudio da sentença exemplo de uso. A Enciclopédia digital bilíngue de aves (Wayoro-Português) possui 18 nomes de aves em Wayoro, organizados por ordem alfabética. A microestrutura da enciclopédia apresenta o nome da ave em Wayoro, áudio da palavra Wayoro, botão de descrição, em que aparece o nome popular da ave em português, botão de ilustração gráfica e botão de texto, que fornece conteúdo sobre os habitats das aves, hábitos, funções, bem como sobre a cosmologia e a cosmovisão do povo Wajuru sobre a ave. Tratam-se de materiais paradidáticos inéditos, específicos, e que poderão ser utilizados nos processos de revitalização da língua Wayoro.
Palavras-chave: Lexicografia; Línguas ameaçadas; Língua Wayoro
ANDREI CEZAR DA SILVA
[Análise do Discurso]
Divisão social dos afetos nos discursos sobre a leitura: uma análise do
“orgulho” de ler na EJA brasileira Filiando-se às pesquisas realizadas junto ao Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE-CNPq/UFSCar), neste trabalho de doutorado, analisamos discursos sobre a leitura a partir de declarações de estudantes brasileiros da Educação de Jovens e Adultos (EJA) sobre seu perfil leitor, detendo-nos especialmente na expressão do “orgulho” de sua condição leitora, circunscrita nas representações de práticas de leitura compartilhadas por essa comunidade de origem popular e ainda sem lugar na história da leitura no Brasil. Naquilo que enunciam, tais representações coletivas sobre essa prática social constituem-se consensos que incidem decisivamente sobres seus modos de exercê-la. Nossa hipótese foi a de que sujeitos provenientes de camadas populares, que não tiveram acesso precoce e de qualidade a práticas culturais de prestígio, como a da leitura, e que não puderam se beneficiar de uma escolaridade regular, podem não se considerar leitores legítimos, de modo a não se manifestarem de forma orgulhosa em relação a sua condição leitora. Partindo da Análise do Discurso segundo a qual a “ordem dos discursos” (Foucault, 1999) atua sobre o que se enuncia, sobre o modo como se enuncia, assim como define quem pode enunciar, aliado à constatação de que também compõem essa “ordem” as emoções que mais se adequam à enunciação de certas práticas, como a leitura (Curcino, 2024), analisamos em que medida o “orgulho” compõe o que enunciam os estudantes da EJA no Brasil. Assim, observamos a força de alguns discursos consensuais que se reiteram e que contribuem para a negação do direito à leitura a esses estudantes, cujas escolhas lexicais, embora atualizadas individualmente por cada um à sua maneira, ecoam determinações socioculturais que, historicamente, se adensaram. Mudam-se os indivíduos que enunciam, alteram-se as palavras para expressar sua relação com a leitura, permanecem os discursos e os meios de apaziguarem as dissidências e críticas e de legitimarem as desigualdades. (Apoio: FAPESP Processo: 2022/ 11896-4).
Palavras-chave: Orgulho de ser leitor; Discursos sobre a leitura
ALINE MARIA PACÍFICO MANFRIM
[Análise do Discurso]
Discursos presentes na autorrepresentação como leitores realizada por alunos do sexto ano
O presente trabalho identifica e discute os discursos que permeiam a autorrepresentação de leitores realizadas pelos alunos do sexto ano de um colégio de São Carlos-SP. Os registros, realizados por meio de imagens e textos, revelam, em sua maioria, uma relação positiva com a leitura de forma que o corpo faz parte desta integração entre livro e sujeito. Ambientes aconchegantes, corpos relaxados, tempo e possibilidade de experimentar/sentir as histórias e personagens e uma relação afetiva positiva com a leitura destacados nas autorrepresentações vinculam-se com discursos que concebem a leitura como algo prazeroso, de fácil acesso e atrelados a condições de produção de uma classe social que consegue oferecer este tipo de ambientação a seus filhos. Nos registros verbais, trechos de livros e preferências de estilos de narrativas, uma ação que faz parte da rotina, memórias das primeiras leituras e indicação de livros inscrevem estes alunos em comunidades leitoras privilegiadas as quais entram em tensão com outras realidades infantis presentes no contexto brasileiro. Para Roger Chartier, a leitura não é uma operação puramente abstrata de forma que as posturas físicas e os espaços de leitura (o quarto, o sofá, o jardim) são determinantes para a construção do sentido. Dessa forma, a materialidade do objeto livro como algo que convida ao toque e ao conforto, moldando uma experiência de prazer que é, antes de tudo, física. No que se refere à apropriação, esses alunos não apenas leem, eles se apropriam do objeto cultural como marca de identidade e pertencimento a uma classe social que provê o "tempo" e o "espaço" para o ócio literário. Márcia Abreu, em sintonia com a história cultural, enfatiza que os sentidos de um texto são construídos dentro de comunidades de leitores, pois essas comunidades compartilham normas, preferências e modos de ler. ´R possível sinalizar, portanto, que a leitura desses alunos não é apenas um "hobby", mas um reflexo de uma cultura escrita consolidada, onde o livro é um objeto de afeto. Através de Chartier e Abreu, entendemos que o "prazer" de ler relatado não é inato, mas produzido por condições materiais e sociais que permitem ao sujeito se entregar à história de forma relaxada e integrada.
Palavras-chave: discurso sobre leitura; leitores; comunidade leitora
MARINA VIEIRA CERVEZÃO
[Análise do Discurso]
"Você por acaso sabe ler?": Uma análise discursiva de injúrias culturais relativas à leitura
O projeto ora proposto, em consonância com as pesquisas realizadas pelo grupo LIRE, tem por objetivo analisar discursos sobre a leitura, mais especificamente abordar as formas de expressão dos sentimentos da ‘vergonha’ e do ‘orgulho’ relacionadas a essa prática, à condição de ser (considerado) ou não leitor, em enunciados provenientes de notícias da mídia brasileira, nas quais a leitura é convocada como meio de estabelecer hierarquias entre os sujeitos, sob a forma de insulto, de hostilização e de injúria cultural e/ou social. Ao longo desta pesquisa de Mestrado, levantamos e analisamos uma série de enunciados coletados juntos a textos de notícias em formato digital, de blogs pessoais e comentários nessas redes, que abordaram (ainda que breve e acessoriamente) a leitura, aludida como forma ao mesmo tempo para humilhar e rebaixar uns e enaltecer (social e culturalmente) outros. Com o objetivo de investigar esses acontecimentos discursivos em que se mobiliza a leitura como um argumento para a exibição de ‘orgulho’ de ser leitor com a consequente e imposta ‘vergonha’ ao outro por não sê-lo, nos propomos neste projeto de pesquisa a depreender os discursos consensuais sobre a leitura que são evocados nos enunciados que emergem em circunstâncias de ofensas e injúrias. Esse uso peculiar da leitura faz parte dos argumentos relativos ao gesto cultural do “sabe com quem está falando?”, também trabalhado e analisado por Roberto DaMatta, em seu livro Carnavais, Malandros e Heróis (publicado nos anos 90). Por ser uma prática cujo exercício pleno e restrito a poucos, a leitura se mantém entre nós como meio de distinção, a fim de elevar ou diminuir a posição dentro dos discursos. Com esse trabalho, cremos ter contribuído para a melhor depreensão das representações consensuais dessa prática, subsidiados por princípios da Análise do Discurso, da Sociologia e da História Cultural da escrita e da leitura e da História das sensibilidades/emoções.
Palavras-chave: Discurso; Leitura; Representação
DANILO VIZIBELI
[Análise do Discurso]
ESCAVANDO PESQUISAS SOBRE OS BOOKTUBERS: CONSTRUÇÃO E ANÁLISE DE UM
ARQUIVO LINGUÍSTICO PENSANDO COM FOUCAULT Após realizar algumas pesquisas com a temática dos booktubers - leitores e escritores geralmente mais jovens que gravam comentários, resenhas e tantas outras práticas sobre livros e leitura na rede social audiovisual YouTube -, sentimos a necessidade de escavar o que se tem produzido, inicialmente no Brasil, sobre a temática. Dessa forma, o trabalho tem por objetivo principal promover uma pesquisa bibliográfica quanti-qualitativa construindo um arquivo do que se publicou sobre os booktubers no Brasil no período de 2007 a 2025. O ano de início do período demarcatório se deve ao fato de ser o início desta prática no país. Para orientar e conduzir a organização deste arquivo, nos valemos do conceito homônimo em Michel Foucault, mais precisamente em A arqueologia do saber. Dessa forma, interessa-nos pensar nas pesquisas brasileiras sobre os booktubers em termos de linguagem e discurso, inscrevendo-se na Análise do Discurso de matriz francesa e na História Cultural sobre o livro e a leitura. Não se trabalha com a ideia de um arquivo fechado e nem como documento altamente delimitado, mas como monumento que é (re)construído na tessitura do tempo. Com isso, nesta primeira etapa de estudo escavador de pesquisas acerca dos discursos sobre livros e leituras no YouTube que culminaram no que se denominou de booktubers, são destacados apenas artigos científicos publicados em periódicos nacionais indexados pela CAPES. Como nenhum discurso é neutro, intentamos, num primeiro momento, verificar em quais áreas estão as principais pesquisas sobre este tema e, assim, os vãos e desvãos que tais perspectivas podem oferecer, fechando o olhar, num segundo momento, para as pesquisas linguísticas. Com isso, percebemos as formações discursivas nas quais se inscrevem tais trabalhos e as possibilidades de articulação, troca teórica ou aprofundamento e “novas” abordagens para nossas pesquisas futuras. Não se pode deixar de fora uma reflexão sobre o sujeito leitor e produtor de vídeos sobre livros e leituras, uma vez que o pensamento foucaultiano, muito além das temáticas do saber, poder e ética/estética da existência configura-se como uma reflexão do sujeito moderno e se Foucault indagava: “Quem somos nós hoje?”, os estudos analisados configuram-se numa tentativa de (re)pensar “Quem são os leitores hoje”. É com esse propósito que as escavações levam a este arquivo em processamento.
Palavras-chave: Discurso; Arquivo; Booktubers
ADRIANA CICERA AMARAL FANCIO
[Análise do Discurso]
Contradições discursivas entre a lei e a publicidade no programa Conta pra Mim (MEC 2019)
Há um conjunto de discursos materializados em campanhas e programas destinados ao fomento da leitura no âmbito de políticas públicas, as quais, muitas vezes, não são implementadas efetiva e adequadamente por estarem reféns da sazonalidade e da descontinuidade próprias de agendas políticas descomprometidas com a promoção efetiva da igualdade social e de direitos do cidadão. Desse modo, muitas crianças, jovens e adultos continuam sem acesso ao aprendizado efetivo e eficaz da leitura, a livros de qualidade, a espaços e circunstâncias de convívio leitor, afetando assim uma das formas culturais de promoção da equidade de direitos em nosso país. Esse cenário e a falta de equidade resultam em um abismo sociocultural entre ‘herdeiros’ e ‘não herdeiros’ (CHARTIER, 2019). Partindo de uma série de estudos dedicados à análise dos discursos sobre a leitura, neste trabalho, objetivamos depreender discursos sobre a leitura por meio da descrição e interpretação de enunciados do conjunto de documentos de institucionalização e de propaganda do Programa do Governo Federal, de iniciativa do Ministério da Educação, intitulado Conta pra Mim (2019) sobre a leitura e sobre os leitores no Programa Conta pra mim destinado à promoção da leitura. Para isso, analisaremos parte do material que compõe o Programa, como os textos de seu anúncio e publicidade, e outros que constituem propriamente o acervo elaborado para a implementação do Programa, a saber, um Guia de Literacia Familiar, e os artigos de lei que o regulam, especialmente o 2º, da Portaria nº 421. Para tanto, nosso estudo está ancorado em princípios da Análise do Discurso e da História Cultural, especialmente naqueles que se dedicaram direta ou indiretamente ao tema da leitura, Chartier (2019), Abreu (2018) e Curcino (2019). Este trabalho faz parte da nossa pesquisa de doutorado, em cujas análises pudemos depreender contradições em relação ao que é enunciado verbalmente no Artigo 2º, aludido indiretamente no Guia norteador do Programa Conta pra mim, nos quais se apresenta como público-alvo a ser atendido prioritariamente pelo programa “as famílias em situação de vulnerabilidade”, e as representações deste público, especialmente imagéticas, nas campanhas e vídeos publicitários de divulgação do Programa. É esse caráter díspar e paradoxal que exploraremos mais detidamente nesta nossa análise, voltada para a reflexão sobre os discursos sobre a leitura que hoje são difundidos e circulam com valor de verdade, consensualmente em nossa sociedade, naturalizando a evocação dessa prática como uma forma de hierarquização sociocultural dos sujeitos.
Palavras-chave: Leitura; Discurso; Programas do Governo Federal
ANNA CHRISTINA BENTES DA SILVA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Linguagem, gênero e estilo: questões metodológicas
O trabalho que apresentamos neste simpósio está relacionado às preocupações sobre a articulação entre as análises de base sociolinguística sobre a o tema do estilo na linguagem e as análises desenvolvidas a partir de perspectivas de base textual-discursiva sobre o mesmo tema. Em nossas pesquisas desenvolvidas nos últimos anos, as análises produzidas por uma equipe por mim coordenada e composta de discentes de IC, de mestrado e de doutorado sobre corpora de textos feministas produzidos por mulheres de diferentes grupos e interesses sociais têm demonstrado que as categorias "domínio discursivo", "gênero textual" e "categorização social" são fundamentais para a compreensão dos modos de elaboração do estilo na linguagem, noções fundamentais para os estudos textuais-discursivos. Em relação às categorias e noções de base sociolinguística, as análises mostraram que a consideração dessas categorias (tais como a noção de iconização, recursividade e apagamento) às de base textual-discursiva é muito produtiva para caracterizar e tipologizar os estilos performatizados nos textos escritos pelas feministas. Um resultado importante, por exemplo, é o de que os gêneros textuais mais mobilizados pelos.as diferentes atores.as sociais na elaboração de projetos temáticos feministas são os gêneros típicos do campo jornalístico a partir do nosso Acervo de Linguagem e Feminismos nas Mídias Sociais (ALFEMIS) tais como as notícias, as reportagens e os artigos de opinião. A predominância desses gêneros parece indicar que os gêneros jornalísticos, por terem um papel importante na estruturação discursiva de outros campos sociais, tais como o político e o educacional, podem exercer uma grande influência no modo de apresentação dos movimentos feministas e de seus projetos temáticos. Essa abordagem metodológica também tem impactos sobre as articulações teóricas necessárias para dar conta das relações estabelecidas entre linguagem, gênero e estilo. Nesse sentido, nossa apresentação pretende trazer essa discussão de caráter téorico-metodológico de modo a contribuir para o desenvolvimento de reflexões sobre essas necessárias articulações que promovem necessariamente diálogos intradisciplinares.
Palavras-chave: linguagem; estilo; feminismo
CARLA REGINA MARTINS PAZA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Entre o dito e o não dito: gênero, narrativas e interação na prática da renda de bilro
Este trabalho tem como objetivo investigar as temáticas mobilizadas nas interações discursivas que ocorrem durante a confecção da renda de bilro em uma comunidade de mulheres rendeiras do bairro Rio Vermelho, em Florianópolis, Santa Catarina. A análise focaliza especialmente os modos como essas mulheres narram e legitimam as conversas que atravessam essa prática coletiva historicamente associada ao feminino, partindo de uma tensão observada no trabalho de campo: a relação entre aquilo que efetivamente circula nas conversas durante a prática e aquilo que as participantes declaram, nas entrevistas, como sendo ou não tematizado nesse espaço. Os dados provêm de oito meses de observação participante, entre agosto de 2024 e março de 2025, com registros sistematizados em diário de campo, e de 19 entrevistas etnográficas realizadas entre fevereiro e março de 2025 com as participantes e a professora de renda. A base teórica articula o conceito de comunidade de prática de Wenger (1998), a apresentação de si em Goffman (1959), a noção de comunidade linguística em Gumperz (1968) e a abordagem de Tannen (1982) sobre narrativas orais e relatos de experiências interacionais, dentre outros(as) autores(as). De modo geral, há certa correspondência entre os dois conjuntos de dados, uma vez que as rendeiras mencionam conversas relacionadas à vida cotidiana, às relações familiares e a produções culturais. No entanto, observa-se também uma discrepância significativa, já que temas de maior complexidade social, como política, diversidade religiosa e questões de gênero, embora recorrentes nas interações observadas, aparecem pouco ou não são mencionados nos relatos das participantes. Além disso, ao afirmarem que não conversam durante a prática ou que o espaço é dedicado exclusivamente à renda, algumas mulheres parecem buscar afastar estigmas associados à conversa informal entre mulheres, especialmente a ideia de “fofoca”. O trabalho evidencia como mulheres rendeiras representam, silenciam e legitimam diferentes formas de interação discursiva, revelando relações entre linguagem, gênero, prática social e construção de imagens de si no interior de uma comunidade de prática.
Palavras-chave: linguagem e gênero; comunidade de prática; interaç
NATASHA REGINATO MOURÃO
[Sociolinguística e Dialetologia]
“Eu preciso que você entenda”: performance e multimodalidade na produção textual pedagógica de Rita Von Hunty
Este trabalho investiga as condições de produção textual do canal do YouTube Tempero Drag (2015), da drag queen Rita Von Hunty, que atualmente é a maior influenciadora digital (Karhawi 2017, 2022) do campo progressista brasileiro em números de seguidores. O trabalho busca compreender os fatores que sustentam a popularidade e a relevância de Rita no cenário digital contemporâneo. A compreensão desse fenômeno passa por três dimensões articuladas: performance, temática e didatização. A primeira se mostra importante para a compreensão da produção do canal, já que constitui um modo especial de prática comunicativa situada, caracterizada pela reflexibilidade, pela teatralidade e pela hipérbole (Bell & Gibson 2011). Na arte drag, tais recursos são explorados de forma caricatural e subversiva, permitindo sinalizar características reconhecíveis pelo público e produzir efeitos críticos. Além disso, a performance de Rita implica um extenso trabalho estilístico (Eckert & Rickford 2001) a partir da mobilização de traços linguísticos, que contribuem para a construção de personas e projeção de significados sociais. Ao mesmo tempo, a performance implica uma tomada de posição, em que o sujeito, ao invocar o enquadramento performático, assume responsabilidade por sua eficácia comunicativa e alinhamento político (Bauman 2011). Com relação à temática, o canal organiza-se em torno da explicação de conceitos, sobretudo materialistas, abordando temas relacionados à política, cultura e crítica social. Esses eixos temáticos parecem tensionar discursos dominantes e criar espaço para a circulação de perspectivas contra-hegemônicas. A dimensão da didatização parece estar diretamente relacionada ao percurso da própria Rita, que transita entre campos distintos: o artístico, o acadêmico e o político/militante. Ao traduzir conceitos complexos de modo acessível, a produção textual de Rita não apenas divulga, mas também inspira a agir de certo modo pela linguagem no mundo social (Bentes 2024). Considerando que os vídeos pedagógicos (Mourão & Etulain) de Rita Von Hunty são construções textuais de natureza multimodal, o trabalho pretende descrever alguns recursos multimodais mobilizados, em relações de complementaridade e reforço (Bentes 2008), mas também de contraste e tensão. As observações sugerem que a popularidade do Tempero Drag decorre da convergência entre performance, temática e didatização; a partir da mobilização de traços linguísticos e estéticos para a construção de personas e da circulação de conteúdos críticos. Essa convergência está intimamente ligada à multissemiose que caracteriza o canal, pois articula semioses verbais e não verbais de forma a singularizar sua proposta comunicativa e conferir identidade à figura de Rita Von Hunty no espaço digital.
Palavras-chave: drag queen; performance; multimodalidade
MARIA AMÉLIA SOUZA MOREIRA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Um estudo sociolinguístico dos vocativos no Universo do Funk: entre gênero e estilo.
Este estudo parte de uma pesquisa de mestrado acadêmico que investigou a capacidade do modelo ChatGPT (versão 5.2) em reproduzir marcas estilísticas e identitárias próprias do Universo do Funk, focando especificamente no uso dos vocativos. O objetivo central do trabalho foi comparar a fala artificial gerada pela inteligência artificial com a fala espontânea observada no podcast Podpah entre os anos de 2022 e 2025. Metodologicamente, a pesquisa alinhou-se aos pressupostos teóricos da Sociolinguística Variacionista e ao campo emergente da Sociolinguística Computacional. O Corpus de Referência de fala espontânea foi composto por quatro artistas de grande destaque no cenário nacional, divididos equitativamente por gênero (homem e mulher) e região geográfica (São Paulo e Rio de Janeiro). Os comandos e prompts fornecidos à inteligência artificial geraram o Corpus IApah (2025), correspondente à fala artificial. Utilizou-se o software TurboScribe para a transcrição automatizada e o Atlas.ti para a catalogação quantitativa e qualitativa dos dados. O aporte teórico central articulou a Sociolinguística, que define o estilo como construção ativa de identidade (Eckert, 2012; Silverstein, 2006), as discussões sobre os limites do aprendizado de máquina (Turing, 1950; Nguyen et al., 2016) e os importantes estudos antropológicos e sociológicos do movimento funk (Vianna, 1988; Siqueira, 2015). Os resultados empíricos apontaram uma disparidade significativa entre os dados: a análise da fala espontânea identificou 54 tipos de vocativos, categorizados por frequência, gênero e região; em contrapartida, os dados artificiais revelaram apenas 13 tipos, distribuídos em três fases de refinamento dos comandos (Genérica, de Vocativos e de Região São Paulo/Rio de Janeiro). Conclui-se que a Inteligência Artificial Generativa demonstrou limitações severas ao simular a fala humana. O modelo computacional tendeu a reproduzir uma linguagem artificialmente higienizada e reducionista, mostrando-se incapaz de alcançar a complexidade socioestilística que caracteriza a construção identitária de homens e mulheres no Universo do Funk. (Apoio: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Código de Financiamento 001)
Palavras-chave: Sóciolinguística Computacional; Universo do Funk;
ANA CAROLINA SPERANÇA CRISCUOLO
[Linguística Cognitiva]
Aspectos cognitivo-funcionais das orações subordinadas adjetivas: contribuições para o ensino
O ensino de sintaxe na Educação Básica tem enfoque, especialmente, no estudo do período simples e do período composto (orações coordenadas e subordinadas), priorizando-se a estrutura das diferentes formas de organização sintática dos enunciados e suas classificações. Neste trabalho, propõe-se uma discussão sobre o estudo das orações subordinadas adjetivas, considerando-se aspectos cognitivo-funcionais que podem promover uma abordagem mais contextualizada e significativa desse conteúdo no processo de ensino-aprendizagem. Uma primeira pergunta que se pode fazer, do ponto de vista funcional, é para que servem as orações adjetivas? Desse ponto de vista, elas têm o objetivo de aumentar a clareza e o grau de informatividade de um texto, uma vez que, quando um falante ou escritor se dirige a um ouvinte ou leitor, ele deve ser o mais claro possível para atingir o sucesso na interação. De acordo com pressupostos da Linguística Cognitiva (Givón, 1984; Croft, 1990), a organização da língua se dá nos mesmos moldes em que o falante conceptualiza o mundo, como se pode demonstrar, por exemplo, pelo princípio da iconicidade: a preferência por imagens (concreto) em detrimento daquilo que é abstrato. Muitas escolhas do falante em relação ao uso dos pronomes relativos, que introduzem orações adjetivas, são motivadas por esse princípio: (1) “Já vi a bolsa onde deixei as minhas chaves.”; (2) “A viagem onde* apresentei meu trabalho demorou um dia inteiro.”; (3) “A viagem em que apresentei meu trabalho demorou um dia inteiro.” Partindo-se de uma análise de materiais didáticos, observam-se limitações na abordagem das orações adjetivas para, então, explorar suas características funcionais e cognitivas. Tem-se, como principal objetivo deste trabalho, demonstrar contribuições da Linguística Cognitiva para o ensino de língua portuguesa, de forma geral, e para o estudo das orações adjetivas, especificamente. Acredita-se que a reflexão sobre a língua e seus usos pode levar o aluno a desenvolver sua competência comunicativa, lendo e escrevendo adequadamente em diferentes contextos.
Palavras-chave: Oração Adjetiva; Ensino; Iconicidade
ALINE PEREIRA DE SOUZA
[Linguística Cognitiva]
Analogias como recurso de presença para educar na saúde pelo Instagram
As redes sociais, especialmente o Instagram, consolidaram-se como espaços estratégicos de visibilidade profissional, monetização e circulação de conhecimento em diferentes áreas. Nessas plataformas, produtores de conteúdo estabelecem relações diretas com seus públicos, o que favorece tanto a comercialização de produtos e serviços quanto a disseminação de informações especializadas. Nesse cenário, destaca-se a crescente presença da classe médica nas redes sociais, configurando o fenômeno recente dos médicos influenciadores, profissionais que alcançam ampla projeção e elevada audiência no ambiente digital. Embora essa atuação esteja submetida às diretrizes do Código de Ética Médica e às normativas do Conselho Federal de Medicina, tais espaços também podem desempenhar relevante função educativa no campo da saúde. Este trabalho objetiva analisar o perfil disponível no Instagram do médico infectologista Ricardo Kores, atuante na cidade de Uberlândia. Em março de 2026, ele possuía aproximadamente 1,5 milhão de seguidores, e algumas de suas publicações ultrapassavam 600 mil curtidas, índices expressivos de engajamento e aprovação na lógica desse ambiente. As postagens do profissional, predominantemente em formato de vídeo, caracterizam-se pelo uso frequente de analogias como recurso didático para tratar de temas relacionados à saúde. Tais produções configuram-se como textos multimodais, nos quais a construção de sentido resulta da articulação entre elementos verbais e não verbais. Nesse processo, imagem, linguagem verbal, gestos e recursos audiovisuais atuam de forma complementar, contribuindo para a eficácia comunicativa da mensagem. Além disso, o emprego de analogias amplia a acessibilidade do conteúdo, favorecendo a identificação do público com o discurso apresentado. Quanto mais clara, significativa e próxima da experiência cotidiana se mostra a mensagem, maiores tendem a ser seu alcance, circulação e potencial de engajamento, fatores amplamente valorizados no contexto digital. Diante disso, este estudo, fundamentado na Linguística Cognitiva, especialmente no conceito de projeções cognitivas desenvolvido por Gilles Fauconnier e Mark Turner, objetiva analisar a relevância de processos analógicos, como metáfora, metonímia e parábola, na construção de sentido em conteúdos digitais de divulgação científica. Parte-se da hipótese, com base em Souza (2017; 2018), de que o uso intencional desses mecanismos constitui importante estratégia discursiva, pois amplia a visibilidade das ideias, favorece a identificação do leitor e produz efeitos de prazer e humor na recepção textual. Adicionalmente, propõe-se compreender tais produções sob a perspectiva da Retórica, investigando como esses recursos operam como Recursos de Presença, contribuindo para o engajamento, o consumo, o sucesso dos textos multimodais e a humanização da relação entre médico e público.
Palavras-chave: Redes Sociais; Projeções; Educação na Saúde
ALEXANDRE BUENO SANTA MARIA
[Linguística Cognitiva]
Metáforas esmurram a literalidade em blogs de política: integrações conceptuais em processos de argumentação
Este trabalho é fruto de uma pesquisa de doutorado que investiga o uso de metáforas como ferramentas argumentativas em blogs de política, com o objetivo de analisar os atributos cognitivos e retóricos mobilizados na construção da argumentatividade e da persuasão nesse gênero digital. Parte-se da constatação de que as metáforas são recorrentes em textos argumentativos e assumem papel especialmente relevante em ambientes digitais, nos quais blogs políticos participam da circulação de sentidos, da disputa de interpretações e da formação da opinião pública. Com isso, a pesquisa afasta-se da concepção tradicional de metáfora como mero recurso estilístico ou ornamental, compreendendo-a como mecanismo cognitivo, discursivo e retórico de organização da experiência e de orientação argumentativa. O estudo fundamenta-se na teoria sociodiscursiva dos gêneros textuais, na Teoria da Metáfora Conceptual, desenvolvida no campo da Linguística Cognitiva, na integração conceptual e em contribuições da Retórica. A articulação desses referenciais permite compreender a metáfora tanto como forma de conceptualização quanto como estratégia de persuasão, capaz de estruturar modos de pensar, avaliar e argumentar sobre acontecimentos políticos e sociais. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, baseada na análise de conteúdo de postagens selecionadas de blogs de política. Foram consideradas as condições de produção e circulação do gênero, bem como suas características composicionais, linguísticas e enunciativas. A análise buscou identificar como as metáforas participam da construção dos argumentos, da avaliação dos atores políticos e da mobilização de posicionamentos discursivos. Os resultados indicam que as metáforas desempenham papel central na argumentação em blogs de política, pois contribuem para tornar fenômenos sociais e políticos mais acessíveis, avaliáveis e persuasivos. Elas favorecem novas formas de compreensão dos acontecimentos, mobilizam afetos, orientam interpretações e colaboram para a adesão do leitor a determinados pontos de vista. Desse modo, os blogs de política configuram-se como espaços significativos de língua em uso, nos quais linguagem, cognição e disputa sociopolítica se articulam. A pesquisa contribui para a sistematização do conhecimento sobre o uso estratégico de metáforas em textos argumentativos digitais e aponta possíveis aplicações para profissionais da linguagem, como jornalistas, advogados, professores e redatores. Também sugere desdobramentos pedagógicos para o ensino da argumentação e indica a necessidade de estudos futuros sobre a recepção e o impacto das metáforas em diferentes audiências digitais.
Palavras-chave: Argumentação; Linguística Cognitiva; Metáfora
MARIANA MOREIRA NUNES SANTA MARIA
[Linguística Cognitiva]
Frames e Esquemas de Imagem na saúde da mulher: a conceptualização do corpo feminino no discurso científico em língua portuguesa
Os textos científicos da área médica descrevem fenômenos biológicos, processos fisiológicos e condições clínicas por meio de padrões linguísticos relativamente estáveis. No campo da saúde da mulher, tais regularidades manifestam-se em expressões relacionadas ao ciclo menstrual, à gestação, à reprodução, ao equilíbrio hormonal e às intervenções médicas. A recorrência dessas formas de dizer sugere modos específicos de representação do corpo feminino no discurso científico, indicando a presença de frames conceptuais e esquemas de imagem que organizam a construção do conhecimento biomédico. Este estudo tem como objetivo investigar os frames e os esquemas imagéticos que estruturam a conceptualização biomédica do corpo feminino em artigos científicos da área da saúde publicados em português. A pesquisa fundamenta-se na Linguística Cognitiva contemporânea, articulando a Teoria dos Frames (Fillmore, 1976; 1982) e os estudos sobre esquemas imagéticos (Lakoff; Johnson, 1980) aos pressupostos da Linguística Cognitiva Crítica (Hart, 2017), partindo do pressuposto de que o significado linguístico emerge de experiências corporificadas e de estruturas cognitivas social e culturalmente moldadas. A metodologia adota uma abordagem quali-quantitativa baseada na Linguística de Corpus, utilizando a ferramenta Sketch Engine. A partir do CoPEP (Corpus de Português Escrito em Periódicos) será constituído um subcorpus temático homogêneo e representativo, composto por artigos científicos originais e de revisão das áreas de ginecologia, obstetrícia e saúde reprodutiva, publicados, na última década, em periódicos de alto impacto. Inicialmente, serão identificados padrões léxico-gramaticais recorrentes por meio de análises de frequência e coocorrência. Em seguida, os dados serão interpretados à luz da Linguística Cognitiva, com foco na identificação dos frames conceptuais e dos esquemas de imagem predominantes. Dentre as categorias sob análise, destacam-se os esquemas de imagem de CICLO, CONTÊINER, EQUILÍBRIO e FORÇA/INTERVENÇÃO. A hipótese central da pesquisa é que o discurso científico da saúde da mulher conceptualiza o corpo feminino como um sistema temporalmente regulado, um espaço de desenvolvimento biológico e um organismo submetido a parâmetros de normatividade, controle e intervenção. Espera-se que a pesquisa contribua para a descrição dos padrões linguísticos e cognitivos do discurso científico especializado em português, oferecendo, ainda, um modelo metodológico replicável para investigações na interface entre Linguística Cognitiva, Linguística de Corpus e cognição social aplicada à área da saúde.
Palavras-chave: Linguística Cognitiva; Esquemas de Imagem; Frames
ANTÔNIO SUÁREZ ABREU
[Linguística Cognitiva]
Funcionalidade da categorização vertical e teoria da complexidade na descrição e ensino da língua.
Categorização é o processo cognitivo que nos leva a agrupar seres, objetos e ideias, por meio de propriedades comuns. A categorização mais comum é a categorização de nível médio, que nos garante manter uma imagem concreta do referente. Eu posso reunir animais a, b, c, dizendo que são dobermans (nível baixo). Subindo um degrau, posso reunir dobermans, boxers e golden retrievals, dizendo que são cães. (nível médio). Subindo mais um degrau, abstraímos e podemos agrupar cães, ovelhas, baleias e seres humanos, dizendo que são mamíferos. Em termos funcionais, no dia a dia, usamos as categorias de nível médio. Dizemos, por exemplo, que não queremos cão (ou cachorro) dentro da sala. E não que não queremos boxer ou mamífero dentro da sala. Quando examinamos a linguagem articulada como um sistema complexo e usamos a categorização vertical, somos levados a perceber quais são os agentes internos que agem, de modo automático, como padrões para construção e uso: os atratores clareza, economia, iconicidade (imagem), blending (fusão) e sociabilidade. Como todo sistema, seja simples ou complexo, tem um propósito, a linguagem articulada tem o propósito comunicar a uma segunda pessoa informações e emoções, de maneira eficiente. Logo, para descrever fenômenos gramaticais, o mais apropriado é assumir o ponto de vista complexo-cognitivo-funcional, substituindo regras a ser decoradas por padrões. As gramáticas tradicionais dizem que, em frases com sujeitos com núcleos representados por coletivos partitivos (grande parte de) ou números percentuais (dez por cento), o verbo pode também concordar com o complemento do núcleo: Grande parte dos brasileiros gostam de futebol; Dez por cento do chocolate chegou. Dizem que, em frases nominais em que sujeito e predicativo são substantivos (orações equativas) normalmente não há concordância nominal entre ambos. Ex.: Esses drogados são uma desgraça. Acontece que em: Minhas irmãs são médicas, somos obrigados a fazer a concordância nominal, o que seria uma exceção. Mas, partindo do padrão iconicidade, podemos dizer, simplesmente, que a concordância nominal, em todos esses casos, é feita pelo padrão iconicidade. Se conseguimos formar uma imagem mental dos dois termos, concordamos. Se não conseguimos pelo menos de um deles, não concordamos. Isso vale também para o caso anterior. Se não conseguimos formar a imagem mental do núcleo do sujeito, o verbo pode concordar com o complemento. Caso contrário, não.
Palavras-chave: categorização; padrões; funcionalidade
ADRIANO CHAN
[Linguística Cognitiva]
Formação de repertório sociocultural e produção textual no Ensino Médio: uma abordagem sociocognitiva baseada em Michael Tomasello
A formação de repertório sociocultural constitui um dos principais desafios enfrentados por professores de redação no Ensino Médio, especialmente em contextos de preparação para exames vestibulares e avaliações em larga escala. Tradicionalmente, o ensino da escrita esteve associado à pressuposição de um conjunto relativamente estável de referências culturais consideradas canônicas e socialmente legitimadas. Com a popularização da internet e das redes digitais, contudo, esse paradigma foi profundamente transformado. A ampliação do acesso à informação e a multiplicação de comunidades discursivas resultaram na fragmentação dos referenciais culturais e na constituição de múltiplos cânones, vinculados a diferentes grupos sociais e ambientes virtuais. Embora esse cenário tenha ampliado significativamente o universo de conhecimentos disponíveis aos estudantes, a predominância de práticas de leitura hipertextuais, rápidas e descontínuas tende a dificultar processos de reflexão aprofundada e de articulação entre ideias, competências essenciais para a produção de textos argumentativos consistentes. Este trabalho apresenta os resultados de uma investigação qualitativa baseada na análise longitudinal de versões sucessivas de textos produzidos em sala de aula a partir de uma mesma proposta de redação. O objetivo é descrever práticas pedagógicas que favorecem a mobilização do repertório sociocultural e propor uma interpretação teórica fundamentada na perspectiva sociocognitiva de Michael Tomasello. Segundo o autor, a linguagem e a construção do conhecimento emergem de processos de intencionalidade compartilhada, atenção conjunta e cooperação social, por meio dos quais os indivíduos atribuem sentido às práticas comunicativas em contextos de uso. À luz desse referencial, argumenta-se que a valorização exclusiva de repertórios tradicionalmente canonizados pode constituir um obstáculo para estudantes que já dispõem de conhecimentos significativos oriundos de suas experiências digitais e culturais. Ao reconhecer tais repertórios como recursos legítimos de argumentação, o professor cria condições para que os alunos compreendam a função pragmática do repertório na construção do texto. Uma vez estabelecida essa compreensão, observa-se maior abertura para a incorporação de referências historicamente institucionalizadas, agora percebidas como instrumentos efetivos de ampliação argumentativa. Os resultados sugerem que uma abordagem baseada no uso e na funcionalidade social do conhecimento pode contribuir para o desenvolvimento da escrita e para a ressignificação do conceito de repertório sociocultural no ensino de redação. KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e escrever: estratégias de produção textual. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2018. TOMASELLO, Michael. A Natural History of Human Thinking. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014. TOMASELLO, Michael. Becoming Human: A Theory of Ontogeny. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2019.
Palavras-chave: repertório sociocultural; produção textual e ensino
PATRICIA ORMASTRONI IAGALLO
[Linguística Cognitiva]
Potência comunicativa na escrita de textos científicos: contribuições da
Linguística Cognitiva e da Estilística A forma como redigimos textos científicos influencia diretamente o modo como eles são processados pelo leitor. Nesse processo de o estudante universitário se constituir um leitor de textos acadêmicos, temos visto muitas fragilidades: dificuldade em sustentar a atenção, interpretar argumentos densos e construir sentido a partir de textos excessivamente abstratos. A leitura de textos científicos torna se cansativa e pouco significativa, limitando o acesso real ao conhecimento. O objetivo deste trabalho é discutir como um texto científico pode ser escrito com mais potencialidade, obedecendo a alguns princípios relativamente simples das figuras de linguagem. Para isso, foi feita uma breve revisão dos principais elementos estilísticos em obras clássicas de Estilística e teóricas como “O design da escrita” (Abreu, 2014) e “Pequeno manual de estilística” (Abreu, 2023), que apresentam argumentos e elementos para essa escrita mais poética. Uma escrita científica pode ser poética quando reconhece que rigor e imaginação não são opostos, mas parceiros cognitivos. Ela continua comprometida com a precisão conceitual, argumentação sólida e responsabilidade teórica, porém incorpora recursos que ativam imagens mentais, ritmo, metáforas e escolhas lexicais que despertam sensações. Não se trata de “embelezar” o texto, e sim de ampliar sua potência comunicativa, mais acessível e cognitivamente mais eficaz. A leitura mobiliza dois sistemas cognitivos: o sistema 1, intuitivo, imagético e emocional, ligado ao hemisfério direito do cérebro, e o sistema 2, analítico e racional, associado ao hemisfério esquerdo, trabalham juntos na construção de sentido. No entanto, a tradição acadêmica privilegia quase exclusivamente o sistema 2, produzindo textos excessivamente abstratos, pouco imagéticos e, portanto, menos acessíveis. Autores como McGilchrist (2019) defendem que a cognição humana depende da cooperação entre esses dois modos de interpretar o mundo. Estimular apenas o pensamento lógico empobrece a experiência cognitiva e reduz o potencial de compreensão e engajamento. Assim, tornar textos científicos mais atraentes — incorporando metáforas, narratividade, imagens mentais e recursos estilísticos — não é um mero adorno, mas uma estratégia fundamentada em evidências neurocientíficas.
Palavras-chave: linguística cognitiva; estilística; texto científico;
ANDRÉ NOGUEIRA XAVIER
[Línguas de Sinais]
A incorporação de emblemas usados pela comunidade ouvinte brasileira no léxico da Libras
McNeill (2000) propõe o que ele chama de “Contínuo de Kendon” para abranger as diferentes manifestações gestuais e seus variados graus de convencionalização e dependência da fala. Na extremidade menos convencionalizada e menos dependente da fala, McNeill coloca a ‘gesticulação’, ou seja, gestos que coocorrem com a fala. Em termos de forma, esses gestos apresentam um maior grau de variação entre e dentro dos falantes. Em um ponto intermediário do contínuo, são colocadas as ‘pantomimas’, encenações gestuais. Diferentemente da gesticulação, as pantomimas são mais convencionalizadas e totalmente independentes da fala. Por fim, na extremidade do contínuo, McNeill coloca os ‘emblemas’, nos quais a coocorrência com a fala é opcional e que apresentam forma e significado altamente convencionalizados. O gesto de “polegar para cima” pode ser citado como exemplo de emblema.O objetivo deste trabalho é apresentar um projeto de pesquisa em andamento que visa analisar emblemas usados pela comunidade ouvinte brasileira que foram incorporados ao léxico da Libras. Para atingir nosso objetivo, estruturamos o estudo em quatro etapas. A primeira, já concluída, consistiu na coleta de sinais da Libras presentes no dicionário de Capovilla & Raphael (2001) que se assemelham a emblemas usados pela comunidade ouvinte. Identificamos 51 sinais com características de emblemas.As próximas etapas consistirão, primeiramente, em o primeiro autor, que é surdo, gravar-se explicando o(s) significado(s) de cada sinal, bem como listar outros sinais da Libras relacionados a eles. Em segundo lugar, consistirá em mostrar os 51 emblemas correspondentes via Zoom para uma pessoa ouvinte sem conhecimento de Libras, para que ela também explique o(s) seu(s) significado(s) e cite outros emblema(s) que pareçam estar relacionados a eles. Como etapa final deste projeto, esperamos não apenas comparar as explicações da pessoa surda e da pessoa ouvinte para cada sinal/emblema, mas também confrontá-las com dados naturalísticos tanto da Libras quanto do português.
Palavras-chave: Libras; gestos; emblemas
RAFAEL CAVICHIOLLI TEIXEIRA
[Línguas de Sinais]
Língua de sinais de hoje e de ontem: para o registro da sociohistória do
Instituto Santa Terezinha Este trabalho tem como objetivo apresentar um projeto, a ser desenvolvido em nível de doutorado, de documentação e análise sobre a evolução e a preservação da língua de sinais usada por alunas surdas do Instituto Santa Terezinha, na cidade de São Paulo. O projeto visa investigar, considerando tanto aspectos sociohistóricos da comunidade surda quanto experiências de vida dessas ex-alunas do instituto, registros e evidências do uso de línguas de sinais antes da instituicionalização e reconhecimento oficial da Língua Brasileira de Sinais, em 2002. Esses registros podem revelar estruturas linguísticas que emergiram e passaram a ser compartilhadas de forma natural a partir da convivência regular de pessoas surdas num mesmo espaço. Esta pesquisa tem interesse linguístico, histórico e social, ao se voltar para uma observação sincrônica do uso da língua de sinais com vista a acessar usos que remontam a sincronias pretéritas. Nossa metodologia se apoia na proposta laboviana de "mudança em tempo aparente”. Labov (2008 [1972]) propõe que a mudança em progresso pode ser atestada no confronto entre dados de sujeitos de diferentes faixas etárias, pois haveria uma tendência à manutenção de padrões de usos linguísticos fixados até mais ou menos os 15 anos de idade. Desse modo, dados produzidos por um sujeito de 70 anos representariam um estágio de língua de 55 anos atrás. A realidade do nosso grupo linguístico e os objetivos da pesquisa se diferem das pesquisas sociolinguísticas clássicas que se apoiam nos pressupostos labovianos. Todavia, nos valemos dessa hipótese para tentar acessar um estágio de uso de língua de sinais anterior ao seu processo de institucionalização no Brasil. O estudo apoia-se em uma abordagem qualitativa, de caráter descritivo e analítico, com enfoque histórico e etimológico. O quadro teórico-metodológico articula contribuições da Linguística das Línguas de Sinais, da Sociolinguística e da Linguística Histórica, considerando as línguas de sinais como sistemas linguísticos naturais, dotados de estrutura própria e sujeitos a processos de variação e mudança. A pesquisa dialoga com estudos sobre documentação linguística e preservação de línguas ameaçadas, especialmente no contexto das línguas de sinais. A metodologia de coleta de dados será realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, entrevistas sociolinguísticas e tarefas de elicitação lexical. Os dados serão organizados, anotados e analisados com o auxílio do software ELAN, permitindo a descrição de aspectos fonológicos, morfológicos e semânticos dos sinais, bem como a investigação de sua etimologia.
Palavras-chave: sóciohistória da língua de sinais; variação e mudança
RONALDY PAVÃO HEITKOETTER
[Línguas de Sinais]
Estudo de construções de listagem na libras acadêmica e não acadêmica: apresentação do embasamento teórico e procedimentos metodológicos
Esta apresentação objetiva apresentar os objetivos, o embasamento teórico e os procedimentos metodológicos da minha tese de doutorado. Precisamente, objetivo realizar um estudo de construções de listagem digital em Libras. Construções de listagem digital são aquelas em que sinalizantes e falantes usam os dedos da sua mão não dominante para representar itens de sua lista e, geralmente, o indicador de sua mão dominante para fazer essa associação e posterior referência. Estudos sobre esse tipo de construção vêm sendo desenvolvidos em diversas línguas de sinais, a saber, ASL, NSL, SSL, LSFB, LSQ, DGS, FinSSL e Libras. Embora a respeito desta última já haja trabalhos (Leite, 2007; Heitkoetter e Xavier, 2020, 2022, 2024), a presente pesquisa se embasará principalmente no trabalho de Wilcox et al. (2023), que investigou esse tipo de construções na libras e na língua de sinais sueco-finlandesa, bem como na pesquisa realizada por Xavier e Wilcox (2026) a respeito de construções de listagem digital que co-ocorrem com a fala em português brasileiro. Para isso, o estudo utilizará dados de dois sinalizantes em contexto acadêmico (teses) e de dois não acadêmicos, estes últimos coletados por meio de vídeos do Youtube. Para traçar um perfil de cada sinalizante, será realizada uma entrevista com perguntas sobre seu histórico pessoal e experiências linguísticas. A análise das construções de listagem digital abrangerá aspectos formais, como tipo de lista, ou seja, se são sequenciais, mistas ou fixas, se ocorre ou não perseveração da mão não dominante, qual dedo é associado ao primeiro item da lista (polegar, indicador ou mínimo), a extensão da lista, isto é, o número de itens listados e as ações da mão dominante,. Adicionalmente, ela também considerará funções discursivas, observando especificamente como essas construções de listagem digital organizam a estrutura do discurso e são usadas para fazer referências anafóricas. Em última análise, a metodologia visa categorizar as diversas formas pelas quais os sinalizantes utilizam as mãos para enumerar informações e manter a clareza espacial durante a comunicação.
Palavras-chave: construções; Listagem; Libras;
AMANDA REGINA SILVA
[Línguas de Sinais]
O acréscimo e o apagamento da mão não dominante na produção de sinais da libras: levantamento bibliográfico e procedimentos metodológicos
Este trabalho apresenta uma revisão bibliográfica e os procedimentos metodológicos de uma pesquisa em andamento sobre o acréscimo e o apagamento da mão não dominante na produção de sinais da Libras. O estudo busca investigar processos fonológicos relacionados à variação na realização dos sinais, especialmente em contextos nos quais determinados sinais podem ser produzidos com uma ou duas mãos. A pesquisa dialoga com estudos de Xavier (2014), Sanchez-Mendes e Xavier (2016), Sanchez-Mendes, Segala e Xavier (2017; 2020) e Silva e Xavier (2025), além de autores clássicos da fonologia das línguas de sinais, como Battison (1978), Frishberg (1975) e Liddell e Johnson (1989/2000). Esses estudos contribuem para discussões sobre coarticulação, pluralidade, aspecto, intensidade, variação linguística e organização fonológica da Libras. O principal objetivo da pesquisa é discutir diferenças metodológicas entre estudos desenvolvidos com dados eliciados e pesquisas realizadas com dados espontâneos. Enquanto Xavier (2014) utilizou dados produzidos em contexto controlado, esta pesquisa utiliza vídeos espontâneos publicados no YouTube, permitindo observar fenômenos fonológicos em situações naturais de uso da língua. Dessa forma, pretende-se compreender como o contexto discursivo pode influenciar a realização dos sinais com uma ou duas mãos. O corpus é composto por vídeos de quatro influenciadores surdos usuários de Libras, sendo uma mulher de São Paulo, uma mulher de Rio Grande do Sul, um homem de Goiás e um homem de Minas Gerais. Serão selecionados cinquenta vídeos de cada participante, totalizando duzentos vídeos analisados. A investigação focaliza os sinais PRECISAR, PRECISAR-NÃO, QUERER, QUERER-NÃO e JÁ, por apresentarem variações relacionadas ao uso da mão não dominante. Quando identificadas ocorrências desses sinais, será realizado o recorte do trecho discursivo em que aparecem, buscando analisar quais fatores linguísticos e contextuais podem incentivar o uso de uma ou duas mãos durante a produção sinalizada. Espera-se que a pesquisa contribua para os estudos fonológicos da Libras e para discussões metodológicas sobre o uso de dados espontâneos em pesquisas linguísticas.
Palavras-chave: LIBRAS; FONOLOGIA; MÃO NÃO DOMINANTE
PRISCILA MARA SIMÕES
[Línguas de Sinais]
A DISTRIBUIÇÃO SINTÁTICA DE MODALIZADORES NA LIBRAS SOB A PERSPECTIVA
PROSÓDICA Este trabalho investiga a distribuição sintática dos modalizadores em enunciados da língua brasileira de sinais (libras), com o objetivo de determinar se esses itens ocupam preferencialmente as posições inicial, medial ou final das unidades entoacionais. A pesquisa fundamenta-se na tipologia de van der Auwera e Plungian (1998), que categoriza a modalidade em epistêmica (certeza e dúvida) e não epistêmica (deôntica e capacidades internas/externas ao participante). No âmbito da segmentação linguística, adotam-se os critérios de Leite (2007) e Leite e McCleary (2011), que estabelecem pistas prosódicas visuais (manuais e não manuais) como determinantes para a identificação das fronteiras das unidades gramaticais em línguas sinalizadas. A metodologia consistiu na análise de vídeos de sinalização espontânea extraídos do canal Is Flocos, selecionados pela qualidade da imagem e visibilidade dos articuladores. Os dados foram anotados no software ELAN, considerando nove trilhas de análise, incluindo glosa, movimentos das sobrancelhas, olhos, piscadas, boca, cabeça e tronco. Foram analisados oito modalizadores específicos, a saber: POSSÍVEL-S, POSSÍVEL-L, POSSÍVEL-A, IMPOSSÍVEL-U, IMPOSSÍVEL-V, OBRIGATÓRI@, NECESSÁRI@-A e INCERTO-2. A identificação das unidades prosódicas baseou-se em marcas como a redução fonética (sinal de junção e coesão interna) e o alongamento final ou repetição de movimentos (sinais de disjunção e fronteira), além de marcadores pontuais como piscadas e acenos de cabeça. Os resultados demonstram que os modalizadores na libras podem ocorrer em todas as posições da unidade entoacional, ou seja, final e não final, utilizando marcas variadas de segmentação prosódica. Notavelmente, observou-se que um mesmo item lexical pode ocupar diferentes posições, o que sugere que a distribuição dos modalizadores não é fixa. Tais resultados divergem de descrições anteriores da literatura, como as de Shaffer e Janzen (2016) para a ASL e Ferreira-Brito (1995) para a Libras, que apontavam uma tendência de modalizadores epistêmicos se concentrarem na posição final do enunciado. Conclui-se que a distribuição sintática desses elementos é flexível e sensível à organização informacional e à intenção discursiva do sinalizante, reforçando a importância da prosódia para a compreensão da estrutura gramatical das línguas de sinais.
Palavras-chave: libras; modalizadores; prosódia;
KATHERINE FISCHER
[Línguas de Sinais]
Sinais antroponímicos em libras: padrões socioculturais de nomeação e autoapresentação
Libras: https://youtu.be/Cqvn-FTzJTM Os nomes próprios são objeto de estudo da onomástica, área da linguística que abrange diferentes campos, como a toponímia, a antroponímia e a zoonímia (Sousa, 2022). Este estudo dedica-se à análise da antroponímia na libras. Nas comunidades surdas, além do nome registrado oficialmente, os indivíduos utilizam um sinal antroponímico como forma de identificação e elemento associado à identidade cultural e social. Embora as pesquisas sobre sinais antroponímicos em libras tenham se desenvolvido mais recentemente, com destaque para os estudos iniciados por Barros (2018), o tema vem conquistando maior espaço nas discussões acadêmicas (Sousa et al., 2020; Rech, 2022; Fonseca e Xavier, 2024, entre outros). Nesse sentido, este trabalho busca analisar os sinais antroponímicos em libras a partir de aspectos socioculturais e das formas de autoapresentação presentes nas comunidades surdas. Para isso, foram investigadas questões relacionadas à identidade de quem atribuiu o sinal, às mudanças ocorridas ao longo do tempo, à existência de sinais idênticos ou semelhantes, aos sinais alternativos ou apelidos e à ordem de uso entre o sinal e o nome em português durante as apresentações pessoais. Os dados foram coletados por meio de entrevistas com dois grupos de participantes: 14 surdos e 14 ouvintes, selecionados a partir das redes de contato dos pesquisadores. Cada grupo foi composto igualmente por homens e mulheres, provenientes de dez estados brasileiros. As entrevistas buscaram compreender o perfil individual e coletivo dos participantes a partir das seguintes perguntas: “Você pode se apresentar?”; “Você conhece alguém com o mesmo sinal ou um sinal semelhante ao seu?”; “Você já teve outro sinal? Se sim, quando mudou e por quê?”; “Você possui apelido em libras?”; e “As pessoas costumam realizar seu sinal de forma diferente?”. Os resultados mostram que a maior parte dos sinais analisados foi atribuída por pessoas surdas. Observou-se também que os participantes ouvintes relataram com mais frequência mudanças em seus sinais, principalmente quando formados por letras manuais. Em relação aos sinais semelhantes, a maioria afirmou conhecer pessoas com sinais parecidos aos seus, enquanto poucos relataram sinais idênticos. Os sinais alternativos ou apelidos apareceram com maior frequência entre os participantes surdos. Por fim, os homens surdos tenderam a apresentar primeiro o sinal e depois soletrar o nome em português, enquanto entre as mulheres surdas e os participantes ouvintes predominou a ordem inversa.
Palavras-chave: Libras; Sinais Antroponímicos; Padrões Socioculturais
ANDERSON ALMEIDA DA SILVA
[Psicolinguística]
TESTANDO POSSÍVEIS BENEFÍCIOS DO BILINGUISMO L2M2 PARA A MEMÓRIA VISUAL
UTILIZANDO UM NOVO PROTOCOLO DE TESTE SPAN COM EMBLEMAS E PSEUDOEMBLEMAS Este estudo investigou os possíveis benefícios do aprendizado de línguas de sinais sobre a memória de trabalho visual em indivíduos ouvintes. A memória de trabalho, também denominada memória operacional, é responsável pelo armazenamento e manipulação temporária de informações, desempenhando papel fundamental em tarefas cognitivas complexas. Estudos anteriores sugerem que o bilinguismo pode favorecer a resolução de problemas cognitivos, além de promover ganhos em memória e neuroplasticidade. Com base nisso, a pesquisa buscou verificar se ouvintes que aprendem uma língua de sinais desenvolvem vantagens na capacidade de memorização visual em comparação a ouvintes não sinalizantes. Participaram do estudo três grupos: sinalizantes ouvintes fluentes (FHS; n=20), aprendizes ouvintes recentes de língua de sinais (HRL; n=20) e ouvintes não sinalizantes (HNS; n=20). Para evitar favorecer participantes já familiarizados com sinais reais, foi desenvolvido um protocolo inédito de teste Span visual utilizando emblemas e pseudoemblemas. Emblemas são gestos culturalmente convencionais compartilhados entre ouvintes e surdos, enquanto pseudoemblemas consistem em gestos sem associação estável entre forma e significado. A proposta permitiu avaliar todos os grupos em condições equivalentes, independentemente do nível de conhecimento em língua de sinais. Inicialmente, foram selecionados 117 emblemas da cultura brasileira, posteriormente validados em um teste piloto com ouvintes não sinalizantes para garantir reconhecimento adequado. Também foram produzidos 117 pseudoemblemas. Os itens foram gravados em videoclipes de 1 a 2 segundos e organizados em oito níveis progressivos de memorização. No teste, os participantes observavam sequências de gestos e deveriam reproduzi-las corretamente para avançar aos níveis seguintes. O desempenho era determinado pelo maior número de itens corretamente reproduzidos. As análises estatísticas indicaram distribuição não normal dos dados, sendo utilizados testes não paramétricos. Os resultados do teste de Kruskal-Wallis demonstraram diferenças significativas entre os grupos tanto para emblemas quanto para pseudoemblemas. Comparações par a par revelaram diferenças estatisticamente significativas principalmente entre ouvintes não sinalizantes e sinalizantes ouvintes fluentes, indicando melhor desempenho destes últimos na memorização visual. O efeito foi ainda mais evidente nos pseudoemblemas, corroborando estudos prévios sobre palavras, pseudopalavras, sinais e pseudosinais, segundo os quais itens com associação forma-significado são mais facilmente memorizados. Os resultados confirmam a hipótese de que o aprendizado de línguas de sinais favorece a memória de trabalho visual. Além disso, o protocolo proposto mostrou-se potencialmente aplicável a diferentes populações, independentemente da condição auditiva, abrindo novas possibilidades de investigação sobre gestos, memória visual e aquisição linguística em contextos surdos e bilíngues.
Palavras-chave: gestos emblemas; teste de Span; bilinguismo
RAFAELA DE MEDEIROS ALVES KOROSSY
[Línguas de Sinais]
A variação lexical, morfossintática e fonológica na incorporação de numeral na libras
A presente pesquisa analisa a variação morfossintática, lexical e fonológica no processo de incorporação de numeral na língua brasileira de sinais (libras). Esse processo morfológico consiste na modificação de sinais relacionados a conceitos como tempo, ordem e valores monetários, substituindo suas configurações de mão pelas utilizadas nos numerais cardinais. Tal processo permite quantificar diretamente o significado do sinal base, como no caso da adaptação do sinal SEMANA para UMA-SEMANA ou DUAS-SEMANA. Pesquisas com surdos sinalizantes de São Paulo indicaram variações nesse processo, tanto no número até o qual a incorporação é possível quanto na aplicação consistente ou não da modificação entre os sinalizantes. Com base nisso, esta investigação analisa dados do mestrado da primeira autora, realizado em 2024, a partir de duas variedades regionais da libras em Pernambuco e Paraná. O objetivo desta pesquisa é identificar possíveis diferenças na incorporação de numerais, considerando três níveis de variação - (a) morfossintático, (b) lexical e (c) fonológico, nos sinais ANO, MÊS, SEMANA, DIA, DURAÇÃO-EM-HORAS, VEZ, ORDINAL, SÉRIE-ESCOLAR e REAL. A análise considera a produção de oito surdos sinalizantes: dois casais (homem e mulher) do Pernambuco e do Paraná. Os resultados mostram, em relação à morfossintaxe, variação no número até o qual a incorporação ocorre. Essas variações foram observadas tanto na produção de um mesmo sinal por diferentes sujeitos (variação intersujeito) quanto por um mesmo sinalizante (variação intra-sujeito). Entre os exemplos observados, destaca-se a variação no uso do sinal REAL nas diferentes variedades analisadas. Para dois participantes de Pernambuco e um do Paraná, a incorporação de numerais nesse sinal foi até nove, enquanto em outro participante paranaense, apareceu apenas até o quatro. No sinal SEMANA, sua produção seguiu padrão inverso: embora a incorporação de numerais até quatro seja possível, apenas um participante do Paraná não apresentou esse registro. Em relação à variação lexical, verificou-se que o sinal VEZ apresenta o maior número de variantes entre os sinais analisados, totalizando quatro formas distintas. Por fim, no que diz respeito à variação fonológica, foram observadas mudanças principalmente na localização, no movimento e na orientação da palma, como no sinal DIA. Além disso, observaram-se formas analíticas, ou seja, sem incorporação, apresentando ou não assimilação da configuração do numeral durante a produção do sinal seguinte.
Palavras-chave: libras; incorporação numeral; variação;
MARIANA LUZ PESSOA DE BARROS
[Semiótica]
Inscrições da memória em diferentes objetos: uma análise semiótica da
Covid-19 Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o surto de Covid-19 que se alastrava pelo globo, como uma pandemia. A vida das pessoas, no Brasil e no mundo, passava, então, por mudanças drásticas que afetaram as formas de interagir e de viver de toda a população mundial, ainda que de forma desigual de um país para o outro e também dentro de cada país, a depender das decisões governamentais e das condições socioeconômicas de cada lugar. Não exatamente nas mesmas datas, nem com o mesmo rigor, passaram a fazer parte de nossa experiência cotidiana: o distanciamento social, o uso de máscaras e a adoção de novas formas de higiene. Também não foi vivido exatamente da mesma maneira o medo — da morte, de ficar sem trabalho, de perder alguém próximo, de nunca voltarmos a alguma normalidade —, mas não é exagero afirmar que, ainda que em intensidades e com causas distintas, ele se fez presente em todas as casas. Diante dessa experiência de exceção, muitas pessoas sentiram a necessidade e o desejo de registrar esse “novo normal”, por meio de fotos, poemas, relatos pessoais, vídeos etc. Esses textos foram produzidos de forma espontânea em alguns casos e, em outros, como resposta ao chamado de projetos que procuravam justamente reunir em acervos, sobretudo digitais, esses retratos de um período que nos retirou do que entendíamos até então por cotidiano, obrigando-nos a criar novas rotinas e formas de enfrentar, em termos inclusive subjetivos, a pandemia. Este trabalho nasce da experiência de leitura dessas produções, especificamente das que foram realizadas no Brasil durante o período da pandemia de Covid-19, numa busca por compreender os sentidos ali produzidos, dando ênfase ao exame dos diferentes suportes nos quais foram postos em circulação: sites, redes sociais, muros, folhas de caderno, outdoors etc. Para dar conta dessa questão, investigamos, com base na semiótica discursiva, como a memória se inscreveu em distintos objetos-suportes ao longo da pandemia, mostrando o papel desses objetos na construção do sentido dos textos analisados e em suas práticas de produção e de interpretação.
Palavras-chave: Objeto-suporte; memória; Covid-19
MARC BARRETO BOGO
[Semiótica]
Espacialidade e produção de sentido no objeto literário Poemóbiles
A espacialidade pode ser entendida como linguagem na medida em que produz determinados efeitos de sentido a partir de suas configurações significantes: dimensões, profundidade, densidade etc. Particularmente, no campo da produção de livros impressos, experimentações com a espacialidade e com a materialidade dos códices vêm sendo exploradas por criadores de diversos campos como recursos estéticos produtores de sentidos. A recente reedição de Poemóbiles, obra seminal da poesia concreta de Augusto de Campos e Julio Plaza, oferece uma oportunidade privilegiada para investigar o papel da espacialidade nos processos de produção de sentido dos objetos literários. Lançada originalmente nos anos 1970, essa publicação é uma espécie de escultura poética manuseável, reunindo uma dúzia de poemas em formato pop-up em que elementos gráficos ganham movimento e tridimensionalidade por meio de cortes e dobras. A nova edição, publicada em 2025 sob coedição pela Lote 42 e Selo Demônio Negro, preserva o projeto gráfico original, convidando-nos a reler esta obra à luz das reflexões atuais da semiótica discursiva e de seus desdobramentos na semiótica plástica, na semiótica do espaço e nos estudos sociossemióticos dos objetos e interações. O trabalho apoia-se principalmente, portanto, nas contribuições teóricas de Algirdas Julien Greimas, Jean-Marie Floch, Manar Hammad e Eric Landowski, autores do campo da semiótica discursiva que nos possibilitam, por meio do desenvolvimento de uma base teórico-metodológica de conceitos interdefinidos, observar os textos literários contemporâneos como objetos literários intersemióticos. A questão central do trabalho é: que papel cumpre a semiótica espacial nos processos de produção de sentido de Poemóbiles? A sistematização de certas categorias espaciais recorrentes ao longo do volume, como aberto versus fechado, expandido versus comprimido e volume versus superfície, revela a estreita articulação entre a materialidade tridimensional do objeto literário, os gestos cinéticos do leitor e os processos de produção de sentido da obra. Em Poemóbiles, a configuração espacial expansiva dos poemas, construída pela técnica de cortes e vincos, vincula-se diretamente à noção central de liberdade criativa, que constitui uma isotopia semântica ao longo da leitura.
Palavras-chave: Poemóbiles; espacialidade; semiótica plástica
BÁRBARA ZEQUINI SILVESTRE
[Semiótica]
O suporte formal na construção do sentido: análise semiótica de uma plataforma digital educacional
O trabalho pretende analisar as estratégias discursivas de natureza didático-pedagógicas produzidas na plataforma digital educacional “EF Education First”. No ano de 2025, a plataforma passou a ser um recurso tecnológico de utilização obrigatória durante as aulas do componente curricular "Língua estrangeira inglês" da educação básica da rede pública de ensino do estado de São Paulo (etapas ensino fundamental anos finais e ensino médio). Para isso, compreende-se a plataforma digital como texto-enunciado que, integrado a um objeto-suporte, manifesta formas de vida. O Sistema Educacional (SE) do estado de São Paulo, ao implementar a plataforma digital “Education First” nas aulas de língua inglesa, também atribuiu aos usuários uma meta que consiste em realizar uma lição da plataforma por semana. Ao tomar a plataforma como texto-enunciado, verifica-se a presença de uma transformação de estado em que o sujeito educando, inicialmente, encontra-se disjunto do objeto “meta” e deve percorrer a plataforma para entrar em conjunção com este. Entre os anos de 2024 a 2026 a plataforma educacional passou por diversas mudanças, entre elas a organização visual de suas interfaces. Tais alterações incidem diretamente sobre os modos de interação, percursos de navegação e regimes de visibilidade propostos ao usuário, reconfigurando, assim, os processos de produção de sentido. Assim, torna-se fundamental o estudo do objeto formal, conforme proposto por Jacques Fontanille, uma vez que é por meio dele que se apreendem as formas de organização do suporte. Dessa forma, o objetivo deste estudo é discutir como a interface, enquanto instância de condução, participa do processo de conversão de formas de vida da aprendizagem em formas de vida do empreendedorismo. Para isso, mobilizam-se as dimensões plásticas constitutivas do plano da expressão, de modo a compreender a participação do objeto formal na produção de sentido e às formas às quais os sujeitos são convocados ao discurso da plataforma.
Palavras-chave: Plataforma digital; Suporte formal; Formas de vida
LUMA CLÉCIA DA SILVA
[Semiótica]
Agenciamento de suportes e regimes de visibilidade nas inscrições urbanas
Em diversas cidades ao redor do mundo, os espaços urbanos, sejam muros, paredes, postes, fachadas e diferentes superfícies da cidade, tornam-se suportes para manifestações que expressam revolta, esperança, pertencimento, crítica e identidade, funcionando como formas de inscrição das tensões e dos desejos que atravessam a vida coletiva. Esse tipo de manifestação é compreendido como inscrição urbana (Correa, 2016), caracterizada, muitas vezes, pelo anonimato e pela capacidade de interpelar o transeunte, seja provocando, denunciando, reivindicando ou ressignificando o espaço urbano. A partir da perspectiva da semiótica discursiva, é possível analisar como essas inscrições produzem sentido, evidenciando de que modo palavra, imagem e suporte se articulam na construção de identidades, valores e práticas semióticas (Fontanille, 2008), configurando a cidade como um espaço de enunciação e elaboração coletiva de sentidos. Neste estudo, propõe-se uma reflexão sobre as inscrições urbanas, sejam elas pichação, pixo, lambe-lambe, projeção, entre outras, a partir de fotografias dessas manifestações, publicadas no Instagram em perfis que se caracterizam pelo engajamento recorrente com esse tipo de texto em suas diversas variações. A análise concentra-se, portanto, nos processos de produção, circulação e recepção dessas imagens na plataforma, considerando como elemento central o agenciamento de suportes: o espaço urbano como superfície de inscrição, a fotografia como forma de registro, a rede social digital como meio de difusão e o dispositivo tecnológico do usuário como condição de acesso e experiência. A partir desse enquadramento, busca-se compreender de que maneira essas fotografias podem ser integradas ao campo das inscrições urbanas, configurando uma modalidade específica de produção textual. Tal perspectiva implica examinar três dimensões inter-relacionadas: a produção de sentido, que se constrói na relação entre inscrição e registro; a circulação, ampliada pela interação com públicos diversos e pela travessia entre diferentes dispositivos; e a multiplicidade interpretativa, que evidencia a sobreposição de camadas de significação nas práticas contemporâneas de inscrição urbana.
Palavras-chave: Inscrições Urbanas; Agenciamento de Suportes; Regimes de
THIAGO MOREIRA CORREA
[Semiótica]
Suporte, multimodalidade e produção de sentido na atualização curricular de
Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo A versão atualizada do Currículo da Cidade de São Paulo para o componente de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental incorpora, de modo sistematizado, o conceito de suporte como elemento constitutivo da análise linguística e multimodal (São Paulo, 2026). Este trabalho apresenta os fundamentos teórico-metodológicos que orientam essa escolha e os situa no campo da semiótica discursiva e dos estudos do letramento. No que diz respeito à mudança, o currículo passa a distinguir, de modo articulado, as noções de texto e discurso. O texto é compreendido como "unidade de sentido, dada por recorrência daquilo que é dito e de um modo próprio de dizer" (Discini, 2005), enquanto o discurso corresponde a uma instância mais abstrata — uma enunciação socialmente situada e orientada por diversos fatores como gênero, finalidades comunicativas e papéis temáticos. Essa distinção desloca o texto de uma centralidade autorreferente e o insere em uma cadeia discursiva mais ampla, com consequências diretas para o escopo da análise e do ensino. A inserção do suporte como categoria de análise decorre dessa ampliação do olhar sobre o texto. Definido como o objeto de inscrição do texto, o suporte deixa de ser entendido como meio neutro e passa a integrar a construção de sentido. As discussões sobre paratextualidade (Genette, 2009), sobre as práticas de leitura do objeto livro (Portela, Schwartzmann, 2012) e sobre mudanças de suporte na história das inscrições urbanas (Correa, 2024) evidenciam que aspectos como gramatura do papel, tipo de capa, plataforma digital ou superfície urbana participam da organização das práticas de leitura, produção e circulação. O currículo reconhece que os textos são constituídos por múltiplos sistemas semióticos, verbal, visual, musical, etc., e que a atribuição de sentido exige do leitor a mobilização articulada de diferentes capacidades. A análise multimodal, assim, não se encerra na relação entre as linguagens em si, mas se estende ao suporte que as organiza e condiciona. A mudança responde a uma demanda social: as transformações técnicas, midiáticas e culturais reconfiguram os modos de produção, circulação e recepção dos textos e impõem à escola a tarefa de formar leitores(as) e produtores(as) capazes de operar em contextos de crescente sincretismo de linguagens. Ao incorporar o suporte como elemento de análise em consonância com a semiótica discursiva, o Currículo da Cidade de São Paulo propõe uma educação linguística que articula língua, texto, discurso e materialidade como dimensões indissociáveis da significação.
Palavras-chave: Suporte; Ensino; Currículo;
PAULA CRISTINA CORREA CAPELOZZA
[Semiótica]
Estratégias discursivas nos materiais didáticos digitais de Língua
Portuguesa: uma abordagem semiótica na educação básica A crescente presença de tecnologias digitais no contexto educacional tem impactado não apenas os conteúdos e formatos dos materiais didáticos, mas também os modos de leitura e produção de sentidos neles inseridos. No ensino de Língua Portuguesa, essas mudanças afetam não apenas os conteúdos e os gêneros textuais selecionados, mas também as formas de apresentação e exploração desses textos, uma vez que, hoje, coexistem em diferentes suportes: o impresso e o digital. Nesse cenário, observa-se a circulação de textos originalmente digitais que, ao serem incorporados aos materiais didáticos, passam por processos de adaptação para o suporte impresso no livro do estudante. Tal movimento suscita a seguinte questão: de que modo as mudanças de suportes interferem na organização textual, nos processos de enunciação e nas estratégias discursivas que orientam a leitura? Diante disso, o objetivo principal deste trabalho é investigar as estratégias discursivas mobilizadas em materiais didáticos de Língua Portuguesa na Educação Básica, considerando as diferentes construções de sentido que emergem do uso dos suportes digital e impresso. Parte-se da hipótese de que a transposição do digital para o impresso não é neutra, implicando reconfigurações discursivas relevantes. Enquanto o ambiente digital favorece a hipertextualidade, a interatividade e a integração de múltiplas linguagens, o suporte impresso tende à linearidade e à estabilidade, o que impacta os modos de leitura e os efeitos de sentido produzidos. Para fundamentar esta pesquisa, mobilizam-se as teorias do texto e do discurso, em especial a Semiótica Discursiva, com base em Barros (2005) e Fiorin (2000; 2024). Articula-se, ainda, às noções de práticas semióticas, segundo Fontanille, (2008) e Schwartzmann, (2018), permitindo compreender os materiais didáticos como modos de produção e circulação de sentidos socialmente situados. Complementam essa abordagem os estudos sobre discurso digital, Paveau (2022), e multiletramentos Rojo (2012), que evidenciam a centralidade da multimodalidade na contemporaneidade. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa e se desenvolve por meio da análise pontual da reportagem jornalística intitulada “Com a maior câmera digital do mundo, Observatório Vera Rubin promete revolucionar os estudos sobre a matéria escura”, publicada em 2024 no site Jornal da Unesp e incorporada nos materiais didáticos do Estado de São Paulo, com alunos do 6º ano do Ensino Fundamental.
Palavras-chave: Semiótica Discursiva; Enunciação; Material didático.;
ANA PAULA FERREIRA DE MENDONÇA
[Semiótica]
Suporte e produção de sentido num podcast de crimes reais
Este trabalho tem por objetivo observar o papel desempenhado pelo suporte-objeto na recepção de um podcast da atualidade, intitulado Modus operandi, disponível gratuitamente na plataforma Spotify. Trata-se de uma produção bastante apreciada pelo público jovem, principalmente pelo fato de as histórias, já conhecidas e difundidas por meio da mídia escrita e televisiva, serem narradas de forma um tanto descontraída pelas podcasters produtoras. A pesquisa lança um olhar sobre a articulação entre as linguagens utilizadas na construção de uma comunidade virtual, criada a partir da reiteração de estratégias de manipulação, que visam não apenas à adesão de novos membros, mas também ao consumo de produtos dos patrocinadores. Para a análise, recorremos ao instrumental da semiótica greimasiana, a fim de compreendermos melhor como se implanta e se mantém a relação dinâmica entre o suporte e as práticas do gênero. Tendo como objetivo maior a didatização de textos construídos a partir do sincretismo de múltiplas linguagens, e sua utilização na escola, selecionamos como corpus de análise alguns episódios que poderão ser inseridos no âmbito de práticas pedagógicas do ensino médio, desde que respeitada a classificação indicativa e eventualmente suprimidos os trechos de linguagem imprópria. A proposta de trabalho com o texto do podcast deverá contemplar as diferentes práticas de linguagem que se disseminam entre a comunidade virtual, incluindo os sites de hospedagem e mídias sociais específicas do programa, podendo, para uma maior amplitude das atividades de leitura, percorrer a esfera da mídia impressa, em que os crimes foram inicialmente descritos, seja nos jornais e revistas ou na internet. A criação de podcasts como atividade de produção textual, individual ou em grupo, também deverá ser proposta como uma das realizações possíveis em sala de aula, aproveitando-se o fato de ser o aparelho celular o suporte mais acessível economicamente para os alunos e de a plataforma ter acesso gratuito.
Palavras-chave: Semiótica; Objeto-suporte; Podcast
MALIK ASBAHR NASSER
[Semiótica]
Entre a farsa e a fantasia: o caso de Luigi Mangione sob a luz da semiótica
O caso de Luigi Mangione que teve início no mês de dezembro de 2024, após o suposto assassinato do representante de uma empresa do ramo de planos de saúde dos Estados Unidos, foi o estopim para dois discursos mentirosos: uma farsa midiática, apoiada pelo conservadorismo estadunidense e disseminada às pressas por jornais e programas de TV, e uma fantasia popular, de cunho progressista, inspirada na adaptação para o cinema das histórias em quadrinho do Superman. Assim, alguns textos sincréticos, chamados de inscrições urbanas, alinhados à fantasia, que circulam entre as esferas política, jurídica e cultural, foram escolhidos para compor o corpus desta pesquisa e para ser analisados sob as lentes da semiótica, dando ênfase para elementos visuais e passionais, bem como para algumas questões a respeito dos suportes. A seleção desse objeto para essa pesquisa se deu devido ao espaço de disputa e resistência que as inscrições urbanas oferecem, tornando-se textos excepcionalmente contrastantes e impactantes frente aos disseminados pela farsa das mídias de massa. Assim, encontramos nosso corpus por meio de registros fotográficos disponibilizados em acervos virtuais dedicados ao caso de Mangione, o que levou à identificação de uma sequência de palavras (deny, defend, depose), que será aqui apelidada de trinca viral. Essa trinca apresenta semelhança com a replicabilidade tipicamente encontrada no meio digital a partir das hashtags e dos memes, mas agora passa a habitar os muros, os postes e as casas Além disso, a trinca é utilizada ao lado da polissemia do prenome Luigi, que traz à memória a famosa personagem dos jogos da franquia Mario da Nintendo, e atribui a ela um novo suporte, agora no plano material. Por fim, avaliamos os mecanismos que estruturaram e, agora, sustentam os discursos mentirosos presentes nas inscrições urbanas examinadas, como o discurso passional e as isotopias figurativas e temáticas que constroem, em conjunto, o perfil de um herói justiceiro incorruptível em busca de cumprir sua próxima execução.
Palavras-chave: inscrições urbanas; discursos mentirosos; semiótica
JEAN CARLOS DA SILVA GOMES
[Psicolinguística]
Linguística Experimental em estudos sobre patologias da linguagem
As primeiras relações estabelecidas entre linguagem e cérebro na ciência decorreram de evidências obtidas a partir de patologias associadas a lesões cerebrais, especialmente dos casos de afasia (Ahlsén, 2006). Com os avanços da neurociência, novas técnicas passaram a ser empregadas nessas investigações, possibilitando compreender o funcionamento da linguagem na mente e no cérebro em tempo real, sem a necessidade de vinculá-lo exclusivamente a quadros lesionais. Entre esses métodos, destacam-se o Rastreamento Ocular, a Eletroencefalografia (EEG), a Ressonância Magnética Funcional (fMRI), a Magnetoencefalografia (MEG) e a Estimulação Magnética Transcraniana (TMS). De forma complementar, esses métodos, que articulam Linguística Experimental, Psicolinguística e Neurolinguística, também desempenham papel fundamental na compreensão das patologias da linguagem. Neste trabalho, objetiva-se discutir a contribuição desses para a investigação do processamento de compreensão de sentenças em pacientes diagnosticados com afasia, com enfoque específico nos achados provenientes de estudos com Rastreamento Ocular, EEG e MEG. Os resultados obtidos por pesquisas dessa natureza convergem para a proposição de que o conhecimento linguístico de indivíduos afásicos pode ser compreendido para além dos dados obtidos em tarefas comportamentais off-line. Embora tais tarefas forneçam informações relevantes sobre o estado linguístico do indivíduo, elas podem ser complementar com evidências acerca dos mecanismos de processamento que conduzem ao resultado observado. Hanne, De Bleser e Vasishth (2015), por exemplo, demonstram que, apesar de os resultados off-line indicarem prejuízos na compreensão de sentenças ambíguas, dados de Rastreamento Ocular revelam que pacientes afásicos apresentam sensibilidade a marcadores de concordância, ainda que não consigam integrá-los de forma tão incremental quanto sujeitos sem afasia, o que impacta negativamente seu desempenho em tarefas de resposta. De modo semelhante, Chang et al. (2016), com base em dados de EEG, mostram que alterações na janela temporal e na distribuição topográfica do componente N400 podem servir como instrumento para avaliar a gravidade de déficits relacionados à interpretação semântica de sentenças em pacientes com déficits graves que impedem a realização de testes neuropsicológicos tradicionais. Já Meltzer et al. (2013), por meio de dados de MEG, mostram como é possível associar déficits na compreensão de sentenças que demandam conhecimento sintático à reorganização neurofuncional do cérebro, evidenciando como o recrutamento estratégico de redes alternativas pode explicar alguns achados de ativação da linguagem no hemisfério direito em casos de afasia. Desse modo, considera-se que os métodos experimentais ampliam significativamente a compreensão do processamento linguístico em indivíduos afásicos.
Palavras-chave: Linguística Experimental; Neurolinguística; Afasias
OLÍVIA FERNANDES BOGO
[Aquisição de Linguagem]
Rastreamento ocular online em psicolinguística: aplicações e limitações metodológicas
Desde a década de 1980, com a formulação da Eye-mind Assumption (Just e Carpenter, 1980), o rastreamento ocular tem se consolidado como uma ferramenta central em pesquisas cognitivas experimentais. Trata-se de um método não invasivo, amplamente utilizado em psicolinguística para investigar o processamento linguístico em tempo real em participantes de diferentes faixas etárias, desde a primeira infância até a população idosa. O objetivo desta apresentação é discutir as aplicações e limitações do uso do rastreamento ocular online, especialmente na investigação do acesso lexical e do processamento linguístico. Nesse contexto, discute-se como esses fenômenos podem ser investigados por meio da análise dos movimentos oculares dos participantes, a partir do Paradigma do Mundo Visual (Tanenhaus et al., 1995), que se caracteriza pela apresentação simultânea de estímulos visuais e auditivos. A utilização de plataformas como o Lookit, desenvolvido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), apresenta vantagens metodológicas, sobretudo para estudos em aquisição de linguagem, uma vez que a coleta dos dados ocorre no ambiente domiciliar da criança, por meio do computador pessoal da família. Isso confere maior validade ecológica aos dados, sem comprometer a confiabilidade científica nem a eficácia do protocolo experimental (Oakes, 2017; Kaduk et al., 2023; Scott et al., 2017; Scott; Schulz, 2017b; Slim et al., 2024). As limitações da plataforma recaem na necessidade de desenvolver os experimentos em linguagens de programação como JSON (JavaScript Object Notation) e JavaScript, bem como na codificação manual dos movimentos oculares, realizada frame a frame, durante a análise dos dados. Ainda assim, o uso do Lookit e de plataformas similares configura-se como uma estratégia metodológica capaz de ampliar e diversificar as amostras em estudos de neurociência cognitiva, especialmente em populações provenientes de países classificados como WILD — Worldwide, In situ, Local, Diverse (Alves et al., 2022) — historicamente sub-representadas nas pesquisas cognitivas (Henrich et al., 2010; Singh et al., 2023), entre eles o Brasil.
Palavras-chave: aquisição de linguagem; psicolinguística; neurociência
JULIA CATALDO LOPES
[Neurolinguística]
Magnetoencefalografia e linguagem: vantagens, aplicações e desafios metodológicos
Para compreendermos como o cérebro humano sustenta a faculdade da linguagem, é necessário investigar quando e onde os estímulos linguísticos são processados. O eletroencefalograma (EEG), com sua precisão temporal em milissegundos, permite investigar o quando, ao passo que a ressonância magnética funcional (fMRI), com sua alta resolução espacial, permite investigar o onde. No entanto, a fMRI impõe restrições temporais e de desenho experimental que podem limitar os tipos de perguntas linguísticas. Nesse contexto, a magnetoencefalografia (MEG) combina vantagens de ambos os métodos: oferece alta precisão temporal e, ao mesmo tempo, uma resolução espacial que, embora não tão acurada quanto a da fMRI, permite localizar com maior precisão os correlatos neurais de processos linguísticos. Além disso, trata-se de um método não invasivo, que pode ser utilizado com indivíduos saudáveis, permitindo a investigação da linguagem em condições de funcionamento típico, i.e., sem a necessidade de recorrer a populações clínicas, como indivíduos com afasias. Outro ponto relevante é que dados de MEG podem ser produtivamente comparados a dados de EEG e fMRI, desde que sejam consideradas as especificidades de cada modalidade, como a sensibilidade à orientação das correntes neurais. Um exemplo clássico é a relação entre a assinatura neural N400, observada em EEG, e a M350, observada em MEG (Pylkkänen & Marantz, 2003). A presente comunicação destacará as vantagens de investigar os correlatos neurais da linguagem por meio de MEG, apresentando e exemplificando diferentes possibilidades de análise de dados e os tipos de perguntas que elas permitem responder. A discussão contemplará descobertas centrais da neurociência da linguagem realizadas com MEG, incluindo o acesso a categorias fonológicas no córtex auditivo (Phillips et al., 2000), a decomposição morfológica durante o reconhecimento visual de palavras (Solomyak & Marantz, 2010), e a combinação sintático-semântica (Friederici et al., 2000; Matchin et al., 2018; Pylkkänen, 2019), inclusive em estudos com estímulos naturalísticos (Li, Lai & Pylkkänen, 2024). Por fim, serão consideradas algumas limitações do método, como os limites inferenciais de testes estatísticos não paramétricos baseados na formação de clusters com múltiplas permutações (Maris & Oostenveld, 2007; Sassenhagen & Draschkow, 2019), bem como o alto custo de aquisição e manutenção do equipamento. Esse custo restringe a presença de MEG sobretudo a instituições localizadas em países de alta renda, o que limita a diversidade de línguas e populações investigadas e, consequentemente, reduz o potencial de comparação e replicação dos achados quando comparado a métodos mais amplamente disponíveis, como EEG e fMRI.
Palavras-chave: MEG; neurolinguística; processamento linguístico
PEDRO HENRIQUE SOUSA DOS SANTOS
[Neurolinguística]
Processamento automático da linguagem: o que (não) fazemos sem perceber que fazemos?
Desde seu surgimento, o campo da linguística experimental conhecido como Neurociência da Linguagem se dedicou a entender como a linguagem é processada no cérebro durante tarefas de produção e, principalmente, compreensão (Brennan, 2022). Na subárea da eletrofisiologia (França, 2002; Gesualdi; França, 2011; Luck, 2014), estudos com eletroencefalograma (EEG) começaram a detectar respostas do cérebro à incompatibilidade semântica (Kutas; Hillyard, 1980) e morfossintática (Gouvea, 2011) em diversas tarefas, como priming, decisão lexical, leitura automonitorada, entre outras. Essas tarefas, contudo, tocam num nível de processamento mais consciente, visto que os sujeitos direcionam a atenção aos estímulos. Porém, mais recentemente, têm sido desenvolvidos estudos que analisam o processamento da linguagem quando não há atenção direcionada ao estímulo, os quais reportam um componente mais precoce conhecido como Mismatch Negativity (MMN; Näätänen et al., 2001), sensível a diversos níveis linguísticos (Duncan et al., 2009; Fitzgerald; Todd, 2020). Para discutir como o MMN pode contribuir para entender o processamento linguístico automático, este trabalho visa detalhar como o componente é elicitado, quais suas bases neurofisiológicas e quais níveis linguísticos podem ser avaliados na pesquisa com EEG (Pulvermüller; Shtyrov, 2006; Monahan et al., 2022; Cabral, 2026). Além disso, são discutidas potencialidades e limitações do componente. Por exemplo, uma recente aplicação dele é na discriminação de variedades linguísticas (Santos, 2026): a palavra “tio” era apresentada auditivamente variando entre a forma de falar oclusiva ['ti.?] e a palatalizada ['t?i.?], enquanto o participante assistia a um filme mudo que demandava a sua atenção. Com isso, foi possível identificar se a informação sobre “quem diz”, ou seja, sobre formas de falar de outra comunidade de fala (Labov, 2008[1972]), é percebida automaticamente durante o processamento do item lexical, i.e., a informação sobre “o que é dito”. Desse modo, busca-se expandir a discussão sobre experimentos na linguística, partindo para um nível cognitivo fora dos paradigmas mais comumente utilizados.
Palavras-chave: Mismatch Negativity; Percepção Sociolinguística;
PATRICIA SILVA DE CAMARGO
[Neurolinguística]
Eletrocorticografia (EcoG) para avaliação de linguagem durante cirurgia de tumor cerebral com o paciente acordado
Atualmente, o padrão-ouro de mapeamento de linguagem intraoperatório é a estimulação elétrica direta, devido à sua precisão e confiabilidade na detecção de áreas eloquentes durante a remoção de tumores cerebrais com o indivíduo acordado. Uma técnica alternativa utilizada para o mapeamento de linguagem é a Eletrocorticografia (ECoG). Esta técnica eletrofisiológica utiliza um grid de eletrodos colocados diretamente sobre a superfície do córtex cerebral para monitorar a atividade elétrica de áreas específicas, sem a necessidade de aplicação de estimulação elétrica direta. ECoG é uma ferramenta eficaz por apresentar boa resolução temporal e espacial, permitindo capturar a atividade de gama alta (70-150 Hz), associada à produção da fala, além de possibilitar a identificação de áreas de linguagem no cérebro. Nesse contexto, a avaliação funcional da linguagem durante cirurgias de tumor cerebral com o paciente acordado é essencial para identificar áreas corticais que devem ser preservadas. Entretanto, os protocolos atuais costumam ser extensos, aumentando o tempo cirúrgico e o risco de complicações. Para enfrentar esse desafio, desenvolvemos o Mini-Intraoperative Language Test (MILT), uma bateria breve de linguagem integrada a uma escala de decisão baseada em valor para orientar a ressecção de áreas relacionadas à linguagem. O MILT contribui para o desenvolvimento de uma escala de risco de afasia e estabelece um mapa que correlaciona regiões corticais estimuladas com déficits específicos de linguagem, servindo como guia para futuras cirurgias. A eletrocorticografia intraoperatória complementa essa abordagem ao aprimorar a precisão do mapeamento da linguagem, reduzir o tempo cirúrgico e minimizar o risco de afasia pós-operatória. Em nossos estudos, utilizamos registros eletrocorticográficos intraoperatórios para identificar áreas corticais que apresentam modulação na banda gama durante tarefas de linguagem, permitindo o reconhecimento de áreas eloquentes da linguagem sem a necessidade de estimulação elétrica direta. Correlacionar a atividade na banda gama em regiões corticais relacionadas à linguagem com o desempenho na bateria intraoperatória MILT pode reforçar o uso do ECoG como uma ferramenta eficaz para a identificação de áreas eloquentes. A modulação da banda gama é reconhecida como um importante marcador eletrofisiológico da linguagem, e sua análise mais aprofundada pode avançar significativamente os estudos de decodificação da fala em pacientes com lesões neurológicas e afasia.
Palavras-chave: eletrocorticografia; mapeamento de linguagem;
MARIA EUGÊNIA ARANTES GONÇALVES
[Neurolinguística]
Neuroimagem funcional: há espaço para a ressonância magnética na pesquisa de base em linguística?
A linguagem humana envolve processos cognitivos altamente complexos e estruturados, capazes de expressar uma ampla gama de sentidos e de relações entre eles. Existem muitas hipóteses e modelos a respeito do funcionamento destes processos, e, atualmente, uma variedade de formas de testá-los. Enquanto medidas comportamentais, com valores de acurácia e de tempo, podem nos informar sobre custos de processamento e níveis de complexidade do processo como um todo, medidas neurofisiológicas como a eletroencefalografia – tradicional nos estudos da psicologia e da psicolinguística – permitem uma identificação mais precisa do estímulo exato que desencadeia tais mudanças de comportamento. Tecnologias como a ressonância magnética oferecem uma outra abordagem, privilegiando a acurácia espacial e registrando as estruturas do cérebro engajadas no processo em estudo. Apesar de fornecer dados acurados e novos, dificilmente alcançáveis por outros meios de neuroimageamento, a ressonância magnética funcional (fMRI) impõe obstáculos metodológicos e logísticos importantes. Metodológicos por sua natureza e sensibilidade, que limitam os desenhos experimentais e os contextos de estudo da linguagem em uso. Logísticos pelo alto custo de acesso e pela baixa disponibilidade das máquinas, mesmo nos grandes centros internacionais de pesquisa. Por esses motivos, esta não é uma técnica popular na pesquisa em linguística no Brasil, e tende a estar restrita a ambientes muito particulares. A despeito de todos os percalços que envolvem a sua aplicação na pesquisa, a fMRI ofereceu avanços importantes no que diz respeito às relações entre as funções da linguagem e as estruturas do cérebro, com um destaque especial para o estudo de patologias e para a aplicação em intervenções na área da saúde, uma vez que esse campo tende a ter mais acesso às máquinas de ressonância. A fMRI permite o acompanhamento do processamento linguístico a partir do caminho que este percorre no cérebro, e, combinada a outras abordagens comportamentais e/ou neurofisiológicas, nos aproxima de um retrato mais exato dos processos neurológicos e cognitivos que sustentam a linguagem. Essa fala abordará os princípios da fMRI, suas principais aplicações nos estudos da linguagem e os avanços por ela proporcionados, mas também abordará as suas limitações e o seu uso em pesquisas aplicadas, a partir dos quais discutiremos se ela é realmente adequada para pesquisas de base na área.
Palavras-chave: ressonância magnética funcional; neuroimagem;
FERNANDO LUIS ANTUNES SABATINI
[Psicolinguística]
Oscilações neurais: metodologia e aplicações na psicolinguística
Ao longo das últimas duas décadas, o campo da psicolinguística vem experienciando um aumento rápido no interesse pela análise de oscilações neurais (Prystauka; Lewis, 2019). O termo se refere à atividade rítmica do cérebro e às suas dinâmicas de sincronização em diferentes bandas, isto é, faixas de frequências (medidas em Hz), às quais foram atribuídas nomenclaturas (e.g., alpha, beta, gamma e delta) de acordo com correlações mapeadas entre os ciclos oscilatórios e fenômenos/processos cognitivos. Os estudos da linguagem, especificamente, são amplamente beneficiados por essa abordagem metodológica, cujos dados são coletados via M/EEG. Padrões de atividade oscilatória relativamente consistentes têm sido correlacionados a diversos subprocessos ou fenômenos psicolinguísticos, e.g., violações sintáticas, anomalias semânticas, composição estrutural sintática e semântica, predição lexical, entre outros (Prystauka; Lewis, 2019; Kazanina; Tavano, 2023). Além disso, transtornos relacionados à linguagem e outras condições clínicas como autismo, esquizofrenia e dislexia vêm sendo estudados em termos de padrões oscilatórios (cf. Benítez-Burraco; Murphy, 2019). As contribuições dessa nova frente de estudos são muitas. Um caso interessante é o dos estudos sobre o aspecto preditivo do processamento psicolinguístico (Kutas; Federmeier, 2011; Kim; Hendrickson; Wessel, 2022). Modelos que buscam explicar essa dinâmica costumam prever um mecanismo inibitório que cumpra a função de inibir representações distratoras ou que percam a competição pelo acesso lexical, por exemplo (Ness; Meltzer-Asscher, 2018). Há uma discussão sobre a natureza da inibição na linguagem: afinal, ela é parte de um mecanismo global ou estamos falando de um (ou mais) processo(s) especificamente linguístico(s)? Dado que a inibição é um dos fenômenos cognitivos mais correlacionados com certas bandas de oscilação, a análise desses dados pode contribuir bastante com essa linha de estudos. Nesse sentido, esta apresentação traz uma introdução ao uso de dados de oscilação neural na área da psicolinguística e uma discussão sobre avanços recentes, os benefícios dessa abordagem, o diálogo com outros paradigmas teóricos e as limitações impostas não só pela natureza dos dados, mas pelas ferramentas tecnológicas experimentais necessárias para o seu uso. Partindo deste ponto, trarei exemplos de como ele vem sendo utilizado em estudos da linguagem e detalharei uma pesquisa em andamento na qual investigo a natureza da inibição de processos linguísticos por meio de um experimento com oscilações neurais.
Palavras-chave: oscilações neurais; metodologia; inibição
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK
[Linguística Histórica]
Gêneros e processos de variação e mudança: notas para o aprofundamento da discussão teórico-metodológica
A pesquisa variacionista que incorpora a dimensão temporal enfrenta um desafio metodológico decisivo, já que o acesso a usos linguísticos de diferentes momentos depende, com frequência, de registros escritos. Tais registros, contudo, não refletem, de modo equilibrado, a heterogeneidade social das comunidades de fala, seja porque foram produzidos por segmentos socialmente restritos, seja porque resultam de práticas letradas submetidas a convenções normativas específicas. Desse quadro decorre a necessidade de discutir procedimentos capazes de ampliar a representatividade social e textual-discursiva dos corpora utilizados nesse campo de investigação, bem como de refinar a interpretação dos dados neles documentados. Neste trabalho, aprofundamos o debate teórico-metodológico sobre as correlações entre gêneros textuais-discursivos e processos de variação e mudança, para explicitar sua relevância para a interpretação de fenômenos linguísticos no âmbito da pesquisa variacionista. Partimos do pressuposto de que a consideração sistemática dos gêneros, de suas condições de produção, circulação e recepção, favorece a compreensão da distribuição de variantes linguísticas e dos processos de mudança, permitindo apreender as relações entre práticas sociais e textual-discursivas e o funcionamento da língua. A análise fundamenta-se em pressupostos da Sociolinguística Variacionista (Weinreich; Labov; Herzog, 2006[1968]; Labov, 2008[1972]) e Histórica (Romaine, 1982; Conde-Silvestre, 2007; Hernández-Campoy; Conde-Silvestre, 2012), especialmente quanto às relações entre língua e sociedade e aos desafios envolvidos na constituição de corpora, em diálogo com os estudos de gêneros textuais-discursivos (Bakhtin, 1997[1979]; Marcuschi, 2008, 2010; Biber; Conrad, 2009) e com debates acerca do papel dos gêneros na interpretação da variação e da mudança (Berlinck; Biazolli; Balsalobre; Bueno, 2012; Berlinck; Biazolli; Balsalobre, 2014; Biazolli, 2016; Vieira; Lima, 2019; Biazolli; Berlinck; 2021; Lima, 2022; Silva, 2023; Azevedo, 2024; entre outros). Do ponto de vista metodológico, realizamos uma análise teórico-interpretativa, baseada na revisão crítica de pesquisas que articulam variação/mudança e diferentes gêneros. O recorte privilegia estudos desenvolvidos com gêneros jornalísticos (editoriais, notícias e artigos de opinião – entre outros), com os gêneros artístico-literários peça teatral e roteiro de cinema, e com o gênero audiovisual legenda. Com base nos resultados já alcançados, esperamos demonstrar que o investimento analítico nos gêneros constitui via promissora para uma apreensão mais abrangente da complexidade dos fatos linguísticos, na medida em que a consideração articulada de suas especificidades ao longo das diferentes etapas da pesquisa permite enfrentar limites de representatividade e qualificar a interpretação dos condicionamentos sociais e estilísticos que incidem sobre os dados coletados. (Apoio: CNPq-Processos 405181/2021-3; 307524/2022-1)
Palavras-chave: Fundamentos teórico-metodológicos; Gêneros
GLADIS MASSINI-CAGLIARI
[Linguística Histórica]
Estudar a entoação do ancestral medieval do português é possível?
O objetivo desta comunicação é investigar a prosódia do ancestral medieval do português (séculos XIII-XIV), em busca de uma metodologia que viabilize o estudo da entoação de um período passado, no qual não havia ainda tecnologia disponível para a gravação e armazenamento da voz humana. O foco desta comunicação é a densidade tonal, definida por Fernandes Svartmann (2024, p. 29-30) como “a proporção de acentos tonais por palavra prosódica (PW) em um enunciado, calculada da seguinte maneira: número de acentos tonais dividido pelo número de PWs”. A pesquisa considera como corpus uma seleção de 10% das Cantigas de Santa Maria (as 42 cantigas iniciais), de Afonso X (1221-1284). Em estudos anteriores, buscou-se investigar o direcionamento da melodia (Massini-Cagliari, 2019) e a constituência prosódica de níveis superiores (sintagma entoacional e enunciado fonológico), vista a partir da análise de parâmetros apurados a partir da notação musical (duração, proeminência rítmica, aspectos melódico-rítmicos) (Massini-Cagliari, 2023). A partir da interface com a Música, buscou-se verificar se há marcas na notação musical, considerando a(s) nota(s) correspondente(s) à sílaba tônica do constituinte considerado, que possam indiciar tanto a segmentação dos enunciados em constituintes prosódicos superiores, quanto a marcação da proeminência nesse nível. Nesta comunicação, avança-se na exploração da relação entre a letra e a música das cantigas medievais, investigando quais proeminências de palavra prosódica apresentam marcas na notação musical correspondentes a proeminências musicais (em termos de duração, proeminência rítmica e movimento melódico), que podem ser consideradas para o cálculo da densidade tonal. Os resultados obtidos apontam para a viabilidade da metodologia proposta, que se baseia em confrontar a construção dos constituintes prosódicos (cf. Nespor e Vogel, 1986) com o movimento melódico/rítmico musical, focalizando os agrupamentos formados, como uma possibilidade de averiguação de indícios da entoação do ancestral medieval do português. Desta forma, acreditamos que a análise da relação entre letra e música pode contribuir para a caracterização da prosódia, em períodos passados da língua, dado que as músicas cantadas se baseiam em uma relação entre os níveis musical e linguístico, mediada pelo nível poético (Massini-Cagliari, 2010).
Palavras-chave: entoação; Fonologia; Linguística Histórica
HELCIUS BATISTA PEREIRA
[Linguística Histórica]
Os baianos no sul do Brasil: o português brasileiro em Maringá-PR na década de 1950
Esta apresentação tem por objetivo expor resultados de pesquisa sobre a contribuição de baianos para a formação linguística de Maringá-PR. Esse município foi fundado oficialmente em 1947, a partir de empreendimento levado a cabo pela Companhia de Melhoramentos Norte do Paraná, empresa privada que adquiriu do Estado do Paraná, nos anos 1930, o direito de explorar economicamente uma larga região no norte/noroeste paranaense, comercializando terras e lotes urbanos das cidades que fundaria (Luz, 1997). O empreendimento atraiu brasileiros de diferentes regiões e, inclusive, comunidades de estrangeiros e seus descendentes, como a dos nipo-brasileiros. Dentre os nacionais, é bastante conhecida a contribuição de paulistas, dada a proximidade da cidade com São Paulo. Além disso, migrações de paranaenses de outras regiões do Paraná e de mineiros também foram relevantes para formação da cidade. Entretanto, a história social e linguística maringaense foi também construída por baianos, hoje invisibilizados pelos discursos oficiais da cidade. Segundo Luz (1999, p. 132-133), que realizou um estudo de demografia histórica por meio do mapeamento da naturalidade de cônjuges casados nos cartórios da microrregião de Maringá, de 1944 a 1980, 4,6% dos noivos – um total de 6.903 indivíduos – eram da Bahia. Além dos dados sócio-históricos sobre a presença desses falantes na formação da cidade de Maringá, focalizou-se o perfil e os usos linguísticos de amostragem de 50 baianos transferidos para a cidade de Maringá até 1956. O corpus da pesquisa linguística foi constituído por documentos constantes do Processo de alistamento eleitoral vigente até a constituição de 1988, que exigia um preenchimento de próprio punho para comprovação da alfabetização do eleitor, conforme legislação vigente na época. Esse material foi coletado no Patrimônio Histórico de Maringá que preservou tais documentos após a mudança na lei. Nossa investigação procurou traçar o perfil social desses “pioneiros” baianos e procurou identificar fenômenos variáveis fonéticos e morfossintáticos de uso mais comum na fala dos pioneiros. Do ponto de vista teórico, o trabalho se baseou na Sociolinguística Variacionista (Labov, 2008; Weinreich, Labov e Herzog, 2006) e no conceito de História Social da Língua discutido por Burke (1995). Os resultados evidenciam a presença constante dos baianos no panorama sociolinguístico de Maringá e apontam para traços de fala estigmatizados que ainda persistem pela cidade.
Palavras-chave: História do Português Brasileiro; Sociolinguística;
SANDERLEIA ROBERTA LONGHIN
[Linguística Histórica]
Ciclicidade semântico-pragmática na constituição de marcadores de concessividade
Os marcadores de relações de concessivas, dado o alto teor de (inter)subjetividade, são propensos a processos de renovação que tipicamente envolvem fortalecimento pragmático. Há um debate recente em torno da natureza cíclica desses processos, nos termos de Hansen (2018, 2020). A hipótese subjacente à existência de ciclos semântico-pragmáticos é a de que significados fonte similares devem favorecer inferências contextuais similares, em intervalos temporais maiores ou menores, na diacronia de uma língua ou mesmo de línguas geneticamente relacionadas. Nesta apresentação, exploramos dois fatos de mudança linguística que levaram à renovação dos sistemas de concessividade do latim clássico e do português moderno e que, tomados em conjunto, parecem se conformar a uma instância de ciclicidade. Trata-se dos processos de constituição dos marcadores concessivos quamvis, do latim, e por mais que, do português, exemplificados, respectivamente, em (1) e (2): (1) “nunc hoc propono, quod mihi persuasi, quamvis ars non sit, tamen nihil esse perfecto oratore praeclarius” ((...) por mais que a eloquência não seja uma arte, não há nada mais esplêndido do que um orador perfeito) (Cicero, de orat. 2, 33) (2) “A falta de documentos emperra qualquer tentativa de abrir um processo de canonização, por mais que se atribuam milagres à escrava.” ( NILC) A pesquisa se filia ao quadro teórico-metodológico da gramaticalização (Bybee, 2015; Narrog; Heine, 2021) e focaliza as relações que se estabelecem entre os significados fonte e os respectivos contextos de uso que predispuseram enriquecimentos inferenciais em direção à concessividade, com o propósito específico de evidenciar o modo como a noção de quantidade participa da construção dos significados concessivos. Para o estudo de quamvis, recorremos a estudos sobre gramaticalização de concessivos latinos (Martín Puente, 2002; Bertocchi; Maraldi, 2009) e, para as construções com por mais que, baseamo-nos em amostras diacrônicas, referentes ao português antigo e médio (séculos XIII a XV) e ao português clássico (XVI a XVIII). As análises de ambas as trajetórias de mudança permitiram capturar traços que se consolidaram gradualmente no tempo - indeterminação genérica, aumento de escopo, seleção de subjuntivo, fixação da posição e polaridade negativa - e que contribuíram nos dois casos para construção de uma estratégia argumentativa que consiste em atribuir grande importância a um argumento, tornando esperável uma consequência que, ao final, se mostra insuficiente e quebra expectativas. Fatos dessa natureza fortalecem a noção de ciclicidade enquanto retorno de uma trajetória de mudança da língua mãe na língua filha.
Palavras-chave: mudança linguística; concessividade; ciclicidade;
ALINE GOMES GARCIA
[Linguística Histórica]
“Mas acontece que agora quem começa a não entender sou eu”: a
(co)atuação em perspectiva histórica dos marcadores discursivos “mas” e “acontece que” na continuidade de tópico discursivo em peças teatrais brasileiras No âmbito do Simpósio “O linguístico e o social nos estudos históricos do português: desafios, propostas e caminhos”, neste trabalho, utilizamos peças teatrais brasileiras do projeto “Língua EmCena” (CNPq 405181/2021?3) a fim de descrever o uso histórico dos marcadores discursivos (MDs) “mas” e “acontece que”, dando especial atenção a casos em que esses dois MDs coocorrem na função de assinalar continuidade de um tópico discursivo. Como parte de nosso objetivo, nos propomos também a verificar fatores linguísticos e extralinguísticos que podem estar associados à escolha de um ou outro desses MDs na função de continuidade tópica. O referencial teórico-metodológico de nossa pesquisa constitui-se de uma articulação entre a Gramática Textual-Interativa, a qual suporta a investigação de MDs no processo de construção textual, distinguindo, por exemplo, MDs que sequenciam tópicos discursivos, o Sociofuncionalismo e a Linguística Histórica, que fundamentam o estudo da variação linguística e em perspectiva histórica. Como o Língua EmCena reúne peças de teatro brasileiras de diferentes sincronias, quais sejam (i) 1831-1889; (ii) 1890-1930; (iii) 1931-1964 e (iv) 1965-2010, coletamos dados das sincronias (iii) e (iv), já que apuramos o uso de “acontece que” como MD apenas nessas duas sincronias mais recentes do corpus. Conforme análises do português brasileiro falado na segunda metade do século XX e início do XXI, “acontece que” marca um contraste entre partes constituintes de um mesmo tópico discursivo (Santana; Gonçalves, 2024). Assim, hipotetizamos que, nos casos de coocorrência dos MDs nas peças teatrais nos dois períodos históricos, os itens, de fato, marcariam um contraste entre grupos de enunciados que constituem um mesmo tópico discursivo, função que seria preservada por “acontece que” quando este MD ocorresse sozinho também articulando a construção tópica. Quanto a “mas”, nossa hipótese é que, como um MD recorrente na sequenciação de tópicos discursivos (Guerra, 2007), seu uso nem sempre se associe a um valor de contraste no contexto em apreço. Com esta apresentação, esperamos colaborar para os estudos históricos do português brasileiro, particularmente para a descrição da atuação textual-interativa de MDs em perspectiva histórica, proposta ainda pouco explorada. Em razão da natureza de nosso fenômeno, MD, esperamos também que a utilização de peças teatrais como fonte de dados, as quais têm em sua constituição o diálogo entre personagens, colabore para a superação de um desafio de estudos linguísticos históricos, que á a investigação diacrônica de funções bastante recorrentes na modalidade falada da língua, como a de MD.
Palavras-chave: marcadores discursivos; mas; acontece que
MILENA APARECIDA DE ALMEIDA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Em defesa de uma Sociolinguística Histórico-Textual: o caso de onde
Pesquisas diacrônicas com base teórico-metodológica na Teoria da Variação e da Mudança Linguística (Weinreich, Labov, Herzog, 1968; Labov, 1972), ao longo dos anos, encontram o desafio de trabalharem com materiais escritos de diversos gêneros textuais e, muitas vezes, fragmentário (Biazolli, Berlinck, 2021). Apesar dessas limitações, consideramos que compreender as regras mobilizadas dentro de um gênero textual é extremamente importante para a compreensão dos processos de configuração, variação e mudança de padrões linguísticos; dado que “[...] a maioria das situações sociais terá uma arquitetura social preexistente e uma estrutura de gênero dentro da qual o significado social pode ser negociado” (Coupland, 2007, p. 41). Assim, nosso objetivo é demonstrar como o gênero textual não deve ser apenas um pano de fundo para a construção do corpus ou uma variável independente superficialmente analisada. Para tanto, investigamos a multifuncionalidade do pronome relativo onde (Souza, 2003; Braga, Manfili, 2004; Lima, 2007; Lima, Coroa, 2013; Almeida, 2020), por meio da Teoria da Variação e Mudança Linguística em conjunto com a Abordagem Diacrônica dos Textos (Jubran, 2010; Penhavel, Cintra, 2022). Desse modo, buscamos compreender se e como o gênero textual peça de teatro desempenha um papel na regulação de padrões variáveis ou de mudança linguística. O objetivo do estudo é defender a interface entre a Sociolinguística Histórica e o estudo de gêneros textuais. Assim, a análise é dividida em três quadros: (i) a busca por padrões de variação e mudança no fenômeno gramatical, por meio de descrições sintáticas e semânticas mobilizadas pelas construções-alvo; (ii) a análise dos processos de construção do texto, discutindo a organização tópica das cenas das peças teatrais e suas mudanças ao longo dos séculos investigados; e (iii) a intersecção, relacionando os dois primeiros níveis com o objetivo de argumentar sobre a funcionalidade do uso do pronome relativo no interior das peças teatrais dos séculos XIX, XX e XXI provenientes do banco de dados Língua EmCena (CNPq 405181/2021-3). Para a coleta dos dados, nos utilizamos de uma ETL criada dentro do projeto, e a quantificação foi produzida com o auxílio da plataforma R (Core Team, 2025). Como resultados preliminares, averiguamos a existência do uso de onde não locativo ao longo das sincronias, num total de 24 dados. Apesar da frequência não ser expressiva, mesmo no contexto de uma variável sintática, os dados confirmam que a multifuncionalidade de onde não se restringem ao uso presente da língua. (Apoio: FAPESP – Processo 2021/14900-0).
Palavras-chave: pronome relativo onde; sociolinguística histórico-
EMANUELA RODRIGUES DA SILVA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Entre a norma e o uso: um estudo diacrônico da construção
“para–pronome–infinitivo” no português brasileiro Este trabalho investiga, em perspectiva diacrônica, a construção “para–pronome–infinitivo” no português brasileiro, com foco na variação entre as formas eu, mim e zero anafórico como sujeito de orações infinitivas introduzidas por para. O estudo parte da constatação de que, embora a forma “para mim fazer” seja amplamente estigmatizada por tradições normativas e por discursos de correção linguística, seu funcionamento efetivo no português brasileiro ainda demanda descrição histórica mais sistemática. Assim, o objetivo central da pesquisa é verificar se a distribuição dessas variantes ao longo do tempo configura um quadro de variação estável ou um processo de mudança em progresso. O trabalho fundamenta-se nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística Variacionista (Weinreich; Labov; Herzog, 2006 [1968]; Labov, 2008 [1972], 1994, 2001, 2010) e da Sociolinguística Histórica (Conde Silvestre, 2007), articulando a análise de condicionadores linguísticos e extralinguísticos com uma leitura historicamente situada dos dados. Como corpus, utilizam-se 85 peças teatrais brasileiras dos séculos XIX, XX e XXI, integrantes do Projeto Língua EmCena, selecionadas por sua relevância para o estudo sócio-histórico do português brasileiro e por sua proximidade com a oralidade representada. A análise considera, entre os fatores linguísticos, a correferencialidade entre os sujeitos, a função sintática e a posição da oração infinitiva, bem como a forma da preposição introdutora; entre os fatores extralinguísticos, consideram-se categorias associadas ao perfil social das personagens, como sexo/gênero, fase da vida, instrução, ocupação, classe social e etnia. Os resultados mostram que a variante zero é amplamente majoritária no corpus, correspondendo a mais de 94% das 354 ocorrências levantadas, com forte favorecimento em contextos correferenciais. As formas plenas eu e mim apresentam baixa produtividade ao longo de todas as sincronias analisadas. Além disso, eu tende a associar-se a contextos mais monitorados e a personagens socialmente prestigiadas, enquanto mim aparece de modo bastante restrito, ligado à caracterização ideológica de personagens femininas e socialmente subalternizadas, desaparecendo nas sincronias mais recentes do corpus. Esses achados apontam para um quadro de variação diacronicamente estável, e não para uma reconfiguração estrutural do sistema. Desse modo, o estudo contribui para a compreensão histórica do português brasileiro e para a discussão da relação entre variação linguística, representação social e preconceito linguístico
Palavras-chave: variação pronominal; sociolinguistica histórica;
DÉBORA APARECIDA DOS REIS JUSTO BARRETO
[Linguística Histórica]
Análise do estatuto fonológico dos segmentos nasais do português arcaico
Este trabalho tem por finalidade analisar os fenômenos fonológicos do ancestral arcaico do português, investigando, de maneira específica, os segmentos nasais (representados na escrita por e , e abreviados por meio do uso do til) em 250 cantigas medievais galego-portuguesas. Para a realização da presente pesquisa, foram selecionadas 100 Cantigas de Santa Maria (CSM) (composições religiosas cuja autoria é atribuída ao rei de Leão e Castela, Dom Afonso X, o sábio); e 150 cantigas da vertente profana (50 cantigas de amor, 50 de amigo e 50 de escárnio e maldizer). A coleta de todos os dados foi realizada por meio do uso das edições fac-similadas dos cantares que formam o corpus, que consistem na reprodução fotográfica dos textos trovadorescos em tamanho real. Os fac-símiles, desse modo, oferecem ao pesquisador que se dedica à análise do ancestral medieval da língua a escrita que de fato ocorreu, o que realmente foi registrado pelos copistas do medievo. A metodologia deste trabalho se baseia na verificação da possibilidade, ou não, de variação na representação escrita desses segmentos da fase arcaica da língua, bem como na posição ocupada pelas nasais no interior da sílaba e da palavra, a fim de averiguar os seguintes pontos: 1) o estatuto fonológico de tais segmentos em contexto de ataque e coda; 2) a nasalização de vogais/ditongos. Os dados coletados nos documentos foram analisados à luz das teorias fonológicas não-lineares. As ocorrências encontradas indicam que, em posição de coda de sílaba, a alternância entre as representações gráficas , e til não representa uma alteração no significado da palavra, ou seja, no nível fonológico, há neutralização da oposição existente entre os sons representados por , e til <~>. Já com relação ao contexto de ataque da sílaba, a oposição se conserva, isto é, a mudança de um segmento nasal por outro implica na mudança da palavra. Cabe pontuar que a revisitação dos dados do ancestral arcaico do português à luz de teorias fonológicas atuais auxilia a explicar dúvidas que restavam aos filólogos do final do século XIX e do século XX (no caso, especificamente sobre a existência, ou não, de oposição entre os segmentos nasais em posição de coda de sílaba), que trabalhavam a partir somente do cotejamento das formas escritas remanescentes.
Palavras-chave: segmentos nasais; estatuto fonológico; cantigas
FILIPO PIRES FIGUEIRA
[Análise do Discurso]
“Cenas de guerra”: cenografia bélica e hipervirilidade no discurso bolsonarista
Esta comunicação tem como objetivo de apresentar alguns resultados preliminares da pesquisa de pós-doutorado em andamento sobre a relação constitutiva entre virilidade e política no discurso bolsonarista (Figueira; Piovezani, 2025). Parte-se da premissa de que o bolsonarismo é uma manifestação brasileira dos neofascismos contemporâneos (Boito, 2020; Cox; Skidmore, 2025), inflexionado pela ideologia fascista antigênero (Butler, 2024). Nossa hipótese é a de que, analogamente à centralidade de uma virilidade guerreira nos fascismos históricos, subjacente à racialidade totalitária que animavam, determinado ideal neofascista de hipervirilidade estrutura o discurso neofascista bolsonarista. Esta centralidade se manifestaria globalmente no discurso bolsonarista, desde seus processos de significação até sua manifestação enunciativa. Apoiando-se na abordagem enunciativo-pragmática do discurso proposta por Dominique Maingueneau (2008, 2013), nesta apresentação busca-se analisar a construção de “cenografias bélicas” no discurso bolsonarista, isto é, no modo como o discurso bolsonarista manifesta sua hipervirilidade através da encenação de “combates públicos” ao dirigir-se a seus adversários, empregando um ethos masculino bélico como forma de atuar politicamente e de angariar legitimidade frente aos seus adeptos e correligionários. Para além do objetivo analítico, espera-se também dar início a uma reflexão sobre a relação entre o conceito de “cenografia” (Maingueneau, 2013) e a performatividade discursiva (Butler, 2021), na medida em que a cenografia implica em uma ritualidade repetida no tempo, cujo efeito de legitimidade “esperado” ou “pretendido” pode ou não ter sucesso em se concretizar. O corpus de análise consiste em enunciados coletados nas “lives de quinta”, transmissões semanais pelas quais, durante todo seu mandato (2019-2022), o então presidente Jair Bolsonaro dirigia-se aos seus seguidores do Palácio da Alvorada. Cotejaremos os seus pronunciamentos com os enunciados por outros políticos bolsonaristas no plenário. Como tal, esta apresentação se desenvolve a partir dos pressupostos da Análise do Discurso (Pêcheux, 2014; Maingueneau, 2015), em diálogo com teorias da performatividade de gênero (Zoppi-Fontana; Ferrari, 2017), também encontrando aporte, portanto, na Linguística Queer (Borba, 2020; Bagagli, 2020).
Palavras-chave: Cenografia; Bolsonarismo; Masculinidade
SIRIO POSSENTI
[Análise do Discurso]
NOTA SOBRE AUTORIA: O PRIVILÉGIO DA PESSOA
Maingueneau argumentou que a dupla “escritor / autor” é insuficiente para dar conta da questão da autoria. Propôs que ela envolve três instâncias: a pessoa, o escritor e o inscritor, inseparáveis e sem hierarquia. O trio, ele propôs, compõe um nó Borromeu: se um cai, o nó desaparece. Inger Østenstad propõe, ou constata, na esteira de Maingueneau, que a análise literária privilegia ora um, ora outro desses três elementos: ou trata mais da pessoa, ou mais do escritor (da carreira) ou mais do “estilo”, da linguagem, da criação. Esta comunicação segue duas pistas. Ambas levam a dar razão a Østenstad, na medida em que privilegiam a pessoa. A primeira é a constatação de que comentários sobre obras literárias, em especial na mídia, têm privilegiado o autor como pessoa, isto é, sua vida, sua cor, seu gênero... e o efeito desses fatores na obra, principalmente em seu conteúdo. Livros tornaram célebres seus autores por razões que permitem relacionar a pessoa ao conteúdo da obra: relações familiares, vida difícil, um acontecimento na vida do autor, questões de gênero ou raça. Assim, tornou-se corrente a tese de que a literatura atual é em grande medida autoficção, por um lado, ou “defesa” de teses identitárias, por outro. A segunda é a seguida por José Miguel Wisnik em livro sobre Drummond de Andrade, no qual o autor pretende mostrar a estreita relação entre a obra do poeta e sua vida e suas tomadas de posição políticas, em especial no que se referem à mineração em Itabirito, sua terra natal. Neste caso, a análise privilegia a relação considerada constitutiva entre vida e obra, na medida em que a vida e o ambiente fornecem a matéria prima, sem que esta seja tratada como documento. Este exemplo será secundado com breves notas a um poema de Maria Lúcia dal Farra que trata de Ana Cristina César como pessoa e não de sua poesia. -
Palavras-chave: autoria; pessoa; maingueneau;
RAQUEL DUARTE HADLER
[Análise do Discurso]
Do gênero do discurso à cenografia: uma análise do discurso em torno da construção do autor nas mídias sociais
Noções tradicionais da Análise do Discurso são desafiadas com as dinâmicas que marcam a circulação de conteúdos, as possibilidades de conexão e o desenvolvimento das inovações técnicas que passam a configurar dispositivos comunicacionais no contexto sócio-histórico contemporâneo. Análises antes realizadas em corpus estáveis, precisam ser adaptadas no universo digital, onde a textualidade ganha plasticidade e novas relações começam a ser estabelecidas entre a oralidade e a escrita, o texto e a imagem, o locutor e o interlocutor. Um exemplo destacado por Maingueneau (2025) é a noção de gênero do discurso, um dos componentes da cena da enunciação, que tradicionalmente detinha sua centralidade por definir os papéis dos participantes da cena e demais regras que a estruturam. Em ambientes digitais, que demandam uma textualidade interconectada, fragmentada por módulos, passíveis de serem alterados de acordo com a lógica algorítmica, há uma recorrente necessidade de adaptação do discurso e o enfraquecimento das coerções impostas pelo gênero do discurso. Com isso, o gênero do discurso cede espaço ao hipergênero (Maingueneau, 2016), a cenografia passa a ser a fonte principal da encenação da comunicação e o sujeito que enuncia demonstra mais liberdade, atuando não simplesmente como um locutor, mas como uma autoridade, cuja fala não fica restrita a um destinatário e a um dispositivo. Observa-se, assim, que esse sujeito se porta como um autor, dirigindo-se a “um auditório interminável”, cuja fala não se enquadra em uma atividade situada, “mas como expressão de um sujeito extraordinário” (Maingueneau, 2025, p. 28), que demonstra interesse em marcar a memória coletiva. Logo, a partir do suporte teórico e metodológico da Análise do Discurso de linha francesa, apresento neste trabalho uma análise do discurso que circula em diferentes plataformas de mídias sociais de um mesmo sujeito, com o suposto propósito de constituir sua presença digital e respectiva influência. Nesse processo, analiso como o enfraquecimento do gênero do discurso e o fortalecimento da cenografia contribuem para a construção desse sujeito, que se porta como um autor e busca construir a sua “obra” nos ambientes digitais por onde o seu discurso circula.
Palavras-chave: gênero do discurso; cenografia; autor;
BRENO RAFAEL MARTINS PARREIRA RODRIGUES REZENDE
[Análise do Discurso]
Divulgação científica e gênero do discurso: análise de condições de produção do campo da ciência
Conforme Maingueneau (2016), a problemática do gênero do discurso se impõe a muitos trabalhos desenvolvidos sob a tutela da análise do discurso, o que pode supor uma saturação de noções apresentadas em relação ao conceito. No entanto, dada a capacidade de renovação das práticas sociais, muitos problemas (novos e antigos) sobre o gênero continuam a se impor a pesquisadores inscritos nessa área de estudos. Neste trabalho, que decorre de uma pesquisa de pós-doutorado, apresento um recorte dessa pesquisa, em que busco analisar textos de divulgação científica e sua genericidade, a partir de condições de produção (Pêcheux, [1969] 1997; Maingueneau, 2008b) impostas pelo campo da ciência. A hipótese principal dessa análise é que, no interior desse campo, enunciados de divulgação científica podem ser caracterizados como exemplares de gênero, devido à função social que exercem na comunicação humana e ao fato de serem condicionados por um discurso constituinte, ligado a uma fonte legitimadora (o método), gerido por uma comunidade discursiva tributária de práticas altamente institucionalizadas. Nesta proposta, verifiquei que os enunciados apresentam uma extensa variabilidade de cenografias (Maingueneau, 2008a), especialmente em função do público-alvo dos veículos especializados na publicação desse tipo de texto, dentre os quais se destaca a Revista Pesquisa Fapesp e a Revista Ciência Hoje das Crianças¸ considerados para a coleta dos dados de análise, os quais possuem em comum o fato de serem mantidos por agências de fomento brasileiras. Nesse sentido, a abordagem realizada diferencia-se de trabalhos predecessores (Grillo, 2006; Bueno, 1985), que analisaram enunciados de divulgação científica como um fenômeno ligado, pelo menos em certa medida, a vários campos. Nesta abordagem, por outro lado, considera-se que, enquanto gênero composto de enunciados relativamente estáveis (Bakhtin, 2003), as variações nas dimensões do tema, da composição e do estilo ocorrem mais em função de certa diversidade enunciativa que esses textos possuem, do que devido a uma mudança de campo.
Palavras-chave: Divulgação científica; Gênero do discurso; Condições de
ANDERSON CARNIN
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
Desenvolvimento e validação de uma proposta didática para produção de relatos pessoais no Ensino Médio: articulações entre IA Gen, produção textual e análise linguística
Esta comunicação tem por objetivo apresentar a elaboração, o desenvolvimento e a validação de uma proposta didática voltada à produção de textos inscritos no gênero relato pessoal no Ensino Médio, articulando o uso de sistemas de inteligência artificial generativa (IA Gen) ao trabalho com produção textual e, especificamente, análise linguística como prática de linguagem orientadora da reescrita. Ancorada no campo da Linguística Aplicada, especialmente em abordagens que concebem a escrita como prática social, e nos estudos que tomam os gêneros de texto como (mega)instrumentos de ensino, a proposta busca integrar dimensões frequentemente tratadas de forma dissociada no ensino de língua materna, a saber: a produção de textos e a análise linguística. Do ponto de vista metodológico, a investigação insere-se em uma perspectiva qualitativo-interpretativista, assumindo contornos de pesquisa-intervenção desenvolvida em turmas do Ensino Médio de duas escolas públicas, uma em São Paulo, outra no Rio Grande do Sul. A proposta didática organiza-se em torno de um percurso de produção, revisão e reescrita de relatos pessoais, no qual o uso de sistemas de IA Gen pelos alunos é realizado de modo orientado, tanto como suporte à geração de ideias e à textualização quanto como objeto de reflexão (meta)linguística. Nesse processo, são mobilizados dispositivos de mediação por IA Gen que visam favorecer a explicitação e/ou revisão de escolhas linguístico-discursivas, bem como a problematização de aspectos relativos à adequação ao gênero e aos efeitos de sentido produzidos. Os resultados indicam que a articulação entre IA Gen, produção textual e análise linguística pode contribuir para a ampliação das estratégias de textualização dos estudantes, ao mesmo tempo em que demanda a proposição e a explicitação de critérios de uso dessas tecnologias no contexto escolar, especialmente em contextos de educação linguística. Argumenta-se, por fim, que propostas dessa natureza favorecem uma abordagem mais integrada do ensino de língua portuguesa, na qual o trabalho com a escrita e com a análise linguística se constituem de forma indissociável, em diálogo com os desafios contemporâneos colocados pela presença da IA Gen nas práticas de linguagem ? tanto em cenários escolares quanto não-escolares.
Palavras-chave: produção textual; inteligência artificial generativa;
BRUNO SCIENZA SCHMIDT
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
Inteligência artificial generativa (IA Gen) e produção textual no Ensino
Médio: implicações para a aprendizagem da escrita em uma educação linguística pós-digital No contexto de uma educação pós-digital, as práticas escolares de produção textual escrita passam a ser atravessadas pela crescente presença de sistemas de inteligência artificial generativa (IA Gen). Nesse cenário, a escrita, entendida como um processo interativo, dialógico, dinâmico e negociável (Antunes, 2003), tende a assumir novos contornos, uma vez que estudantes passam a interagir com tais sistemas durante o processo de elaboração de seus textos. Diante desse quadro, a presente comunicação busca analisar as estratégias linguístico-textuais e discursivas mobilizadas pelos alunos ao produzirem textos com auxílio de sistemas de IA Gen, buscando compreender o que essas estratégias revelam sobre a aprendizagem da escrita na perspectiva de uma educação linguística pós-digital. Para tanto, fundamenta-se nas concepções sociointeracionistas de linguagem (Bakhtin, 2003; Bronckart, 2006), nos estudos sobre gêneros e letramentos (Dolz; Schneuwly, 2004; Rojo, 2005; Kleiman, 2010) e nos debates acerca da educação linguística ampliada (Cavalcanti, 2013) e da educação pós-digital (Jandri? et al., 2018). Do ponto de vista metodológico, o estudo insere-se no campo da pesquisa-ação (Tripp, 2005) e os dados foram gerados por meio do desenvolvimento de um projeto de ensino que integrou um sistema de IA Gen ao processo de produção textual em duas escolas públicas, localizadas nos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Para fins analíticos, examinam-se os textos produzidos pelos estudantes participantes do projeto, observando as mudanças ocorridas entre as versões iniciais e finais dos textos, bem como as formas de interação estabelecidas com o sistema de IA Gen ao longo do processo de escrita. Os resultados indicam que, nas versões iniciais, a IA Gen atuou predominantemente na geração e organização de ideias sem substituir, aparentemente, a autoria dos estudantes. Já nas versões finais, observa-se uma combinação entre colaboração e delegação, com os alunos recorrendo à IA Gen para reescrever trechos, mas assumindo a responsabilidade sobre as escolhas discursivas. Conclui-se, assim, que o uso de sistemas de IA Gen pode assumir um papel relevante nas práticas pós-digitais de escrita, desde que sua integração ocorra de modo orientado e eticamente situado, favorecendo processos de reflexão sobre autoria, textualização e uso crítico dessas tecnologias no contexto escolar.
Palavras-chave: Produção textual escrita; Inteligência artificial
WILLIAM PINHEIRO DA SILVA
[Linguística Aplicada]
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA NO ENSINO MÉDIO: UM MAPEAMENTO
SISTEMÁTICO Este artigo, situado no campo da Linguística Aplicada (LA), lança luz sobre as relações entre produção textual no ensino médio e Inteligência Artificial Generativa (IAGen). O objetivo geral é mapear a produção científica recente sobre o tema no Brasil, no período de 2015 a 2025, buscando compreender como a IAGen vem sendo discutida e investigada no contexto acadêmico brasileiro. A pesquisa se fundamenta principalmente em Hockly (2023), que evidencia a urgência de reavaliação das práticas de escrita diante da rápida incorporação das IAGens, tendência intensificada no cenário pós-pandemia de COVID-19 e suas profundas repercussões educacionais e sociais. O estudo adota abordagem qualiquantitativa, com base teórica em Minayo (2001) e Creswell (2007), e utiliza o mapeamento sistemático como procedimento metodológico central, conforme proposto por Richter (2022). A geração de dados ocorreu por meio de buscas em quatro bases acadêmicas: SciELO, Banco de Teses e Dissertações da CAPES, Google Acadêmico e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, envolvendo artigos, dissertações e teses diretamente relacionados ao tema investigado. A pesquisa se encontra atualmente em fase de análise dos dados coletados. Até o momento, a análise quantitativa identificou um corpus composto por 84 trabalhos, distribuídos entre 49 artigos (58,3%), 27 dissertações (32,1%) e 8 teses (9,5%). Os resultados indicam crescimento expressivo do interesse acadêmico pelo tema a partir de 2023, com pico de publicações registrado em 2024, evidenciando a emergência, expansão e consolidação dessa área de investigação no cenário brasileiro contemporâneo. Na análise qualitativa, ainda em caráter preliminar, observa-se que a IAGen é frequentemente compreendida como ferramenta de apoio à produção textual, sendo associada a novas práticas de escrita no contexto educacional. Os estudos mapeados apontam a necessidade de desenvolvimento de letramentos em IAGen, do uso crítico dessas tecnologias digitais e da ampliação dos debates sobre implicações éticas, autoria, avaliação e responsabilidade no uso dessas ferramentas em ambientes educacionais contemporâneos.
Palavras-chave: inteligência artificial; generativa; produção textual;
GABRIELA ANDREOLLA LOCATELLI
[Linguística Aplicada]
Produção textual no Ensino Médio e inteligência artificial generativa: uma análise do percurso de escrita-revisão-reescrita com o uso do ChatGPT
O ensino da escrita tem enfrentado novos desafios e possibilidades em tempos de inteligência artificial generativa (IA Gen), com chatbots como o ChatGPT que auxiliam os estudantes na geração de ideias, na elaboração de rascunhos, na edição, na revisão e na criação de textos (Hutson, 2025). Nesse contexto, este trabalho discute o ensino de produção textual no Ensino Médio a partir da análise de dois textos produzidos por um aluno participante de uma proposta didática a respeito do gênero de texto relato pessoal, a fim de examinar o percurso de escrita-revisão-reescrita do estudante apoiado por atividades com o uso de IA Gen. Para tanto, propõe-se uma análise qualitativa das versões inicial e final dos textos, ancorada em princípios do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999; 2006; 2008). Assume-me, ainda, uma compreensão de IA Gen como uma ferramenta mediadora que fornece devolutivas ao longo do processo de (re)escrita do aluno (Schneuwly, 2025; Hutson, 2025). As análises preliminares indicam que, tanto na produção inicial, quanto na final, a IA Gen funcionou como uma mediadora por geração e por interlocução. Na produção inicial, a IA Gen gerou ideias e sugeriu uma organização do texto, mas não substituiu a autoria do estudante, responsável por orientar o estilo do seu relato. Antes de fazer a produção final, o aluno enviou a versão inicial para a IA Gen analisar, conforme prompt planejado na proposta didática, a qual ofereceu sugestões para orientar a reescrita do aluno. Entretanto, o estudante solicitou que o ChatGPT reescrevesse o texto para ele, limitando que a IA Gen mantivesse o estilo previamente construído pelo aluno na versão inicial. A partir desse recorte de pesquisa, pode-se concluir que o ChatGPT tem a potencialidade de funcionar como uma ferramenta mediadora nas práticas de escrita e reescrita na escola, ao gerar ideias para o estudante ou promover uma devolutiva sobre o texto do aluno, desde que integrado em uma proposta didática orientada pelo professor.
Palavras-chave: Produção textual escrita no Ensino Médio; inteligência
WAGNER OLIVEIRA
[Linguística Aplicada]
METODOLOGIAS HÍBRIDAS DE ANÁLISE TEXTUAL: UMA ARTICULAÇÃO ENTRE
FERRAMENTA COMPUTACIONAL E IAGen Esta comunicação oral apresenta uma pesquisa cujo objetivo é investigar a articulação entre o uso de uma ferramenta computacional de análise textual e de uma ferramenta de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) em uma prática de análise de textos acadêmicos produzidos por ingressantes no ensino superior de uma universidade pública brasileira. Essa investigação parte de uma pesquisa anterior (Menegaldo & Oliveira, 2025) desenvolvida com o auxílio do software AntConc, que seguiu o procedimento metodológico descrito por Menegaldo (2024), cuja proposta é usar ferramentas de análise de corpus de maneira exploratória, em uma abordagem quali-quantitativa, em adaptação à metodologia Data Driven Learning, para analisar o emprego de operadores argumentativos e de mecanismos de coesão em textos produzidos por estudantes do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS) da Universidade Estadual de Campinas (São Paulo, Brasil), nos anos de 2012 e 2022. A partir dos resultados obtidos nessa pesquisa, a investigação tema desta comunicação propõe discutir as possibilidades de integração entre essa experiência metodológica anterior e o processamento interpretativo realizado por uma ferramenta de IAGen, o Chat GPT, confrontando os resultados quali-quantitativos obtidos por meio do uso de ambas as ferramentas. Especificamente, o método proposto consiste em combinar os recursos gerados pelo AntConc, como: listas de frequência, concordâncias e padrões de coocorrência; com os outputs gerados pelo Chat GPT, como: análises discursivas, interpretações textuais e sugestões de intervenção. Dessa forma, busca-se verificar o uso dessas tecnologias como apoio à análise textual no âmbito acadêmico, especificamente no que se refere às relações de coesão e, por consequência, à identificação de padrões argumentativos. Os resultados contemplam uma reflexão acerca do que pesquisadores da análise textual podem esperar da aplicação de metodologias que usam ferramentas computacionais tradicionais e/ou tecnologias mais atuais, contribuindo para as discussões vigentes sobre o tema no campo da Linguística Aplicada e áreas correlatas.
Palavras-chave: análise textual; ferramenta computacional; ferramenta de
RICARDO MASSAO INOUE
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
A CONSTRUÇÃO DA AUTORIA EM PRODUÇÕES TEXTUAIS DE ESTUDANTES DO ENSINO
MÉDIO COM MEDIAÇÃO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA: UMA ANÁLISE DE RECURSOS LINGUÍSTICOS E DISCURSIVOS EM TEXTOS PRODUZIDOS NA REDE PÚBLICA DE SP E RS O ensino de Produção de Texto no Ensino Médio, componente da área de Linguagens e suas Tecnologias, desempenha papel central na ampliação da autonomia, do protagonismo e da autoria nas produções de diferentes linguagens (BRASIL, 2018). Nessa etapa, observa-se recorrentemente o foco do ensino na escrita de textos no formato proposto pelo ENEM, prática que em muitos contextos limita a potencialidade criativa dos estudantes ao incentivar a reprodução de modelos padronizados. Soma-se a popularização recente dos sistemas de Inteligência Artificial Generativa (IA Gen) que têm sido utilizados em produções escritas de diversas atividades escolares e substituído em algumas situações o desenvolvimento autoral dos textos propostos na escola. No campo da escrita, a construção da autoria (BARTHES, FOUCAULT e BAKHTIN) em textos gerados nesse novo contexto demanda reflexão teórica e investigação empírica para a qualificação do trabalho dos professores e melhoria da aprendizagem de competências e habilidades dos estudantes. Diante desse cenário, o objetivo geral deste projeto de pesquisa, inserido no campo da Linguística Aplicada, é analisar as estratégias discursivas e linguísticas que produzem marcas de autoria em textos de estudantes do Ensino Médio, produzidos no âmbito do projeto “Produção de Textos na Escola em Tempos de Inteligência Artificial Generativa: uma pesquisa-ação no contexto do Ensino Médio público brasileiro”, aplicada em dois contextos distintos: no estado do Rio Grande do Sul e no estado de São Paulo. A análise dos dados gerados seguirá orientação textual-discursiva, focalizando a materialidade textual por meio de categorias linguístico-enunciativas advindas do quadro interacionista sociodiscursivo (Bronckart, 1999; 2006; 2008). Espera-se contribuir com reflexões aprofundadas sobre a construção da autoria em textos produzidos por aprendizes do ensino médio das redes gaúcha e paulista com a mediação de inteligência artificial generativa e colaborar com a discussão mais qualificada sobre o ensino de produção textual nas escolas públicas do Brasil.
Palavras-chave: Ensino Médio; Produção de texto; Inteligência artificial
MIRELLA DE OLIVEIRA FREITAS
[Linguagem e novas tecnologias]
Mediação docente na produção escrita com apoio de IA generativa: dispositivos didáticos para o desenvolvimento da autonomia discursiva
O uso de inteligência artificial generativa (IA Gen) para a produção textual em contextos formativos tem representado um importante desafio, tendo em vista que demanda reconfiguração pedagógica. Nesse cenário, a escrita não é apenas um produto solicitado em disciplinas, mas funciona simultaneamente como instrumento de ensino-aprendizagem, para acesso a (e construção de) conhecimentos, para o desenvolvimento de competências técnicas, científicas e no uso da língua, além de servir como evidência avaliativa. Dada essa realidade, este trabalho discute as implicações dos usos de IA Gen para as práticas pedagógicas que requerem produções de textos escritos. O objetivo é investigar como a proposição ou a adoção de dispositivos didáticos específicos pode auxiliar no desenvolvimento da autonomia discursiva de estudantes universitários, quando usam tecnologia generativa. Realizada no campo de estudos da Linguística Aplicada, a investigação assume o desenho de um estudo de caso, de abordagem qualitativa e objetivo descritivo-explicativo, desenvolvida sob a ótica da pesquisa-participante e da análise documental. A coleta de dados ocorreu ao longo de um semestre acadêmico, acompanhando-se desde o planejamento até a entrega final de textos escritos, requeridos e produzidos no contexto de realização de uma disciplina. Diários de bordo elaborados pelos discentes ? com registros de conteúdos, percepções de aprendizagens e dúvidas, estratégias de regulação da aprendizagem, processos e decisões autorais a partir de usos de IA Gen, entre outros ? constituíram os documentos analisados neste estudo. Além desse material, em alguns momentos, foram acessados os logs de interação com sistemas de IA Gen e as diferentes versões de produções autorais dos estudantes. Os resultados apontam para a necessidade de uma avaliação que, diante desse novo cenário, desloque-se do produto final para os processos e etapas mobilizados ao longo da formação e das próprias práticas de escrita. O enfoque precisa recair, portanto, sobre o que, no campo de estudos dos letramentos, tem se denominado “práticas de designing” de sentidos, em que se pode dar evidência à agência humana. Para isso, são necessários instrumentos didático-metodológicos que mobilizem e registrem um processo de aprendizagem dialógico, processual e que coloque em ação uma meta-aprendizagem que desperte no estudante a consciência do próprio processo. Assim, a IA Gen pode ser integrada com responsabilidade nos contextos de ensino-aprendizagem, não como uma ferramenta de substituição, mas como um apoio e objeto de reflexão crítica.
Palavras-chave: tecnologia generativa; produção de textos escritos;
RICARDO BOONE WOTCKOSKI
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
Inserção da IA Gen no Ensino Superior: percepções, uso e perspectivas de docentes e discentes de uma faculdade de tecnologia pública do
Estado de São Paulo A inserção da inteligência artificial generativa (IA Gen) no Ensino Superior tem provocado transformações significativas no letramento e na produção acadêmica, desafiando a exclusividade humana na enunciação. Nesse cenário, as fronteiras da autoria e da responsabilidade tornam-se difusas diante da mediação algorítmica. Este trabalho analisa as implicações socio-discursivas do uso contínuo da IA Gen na formação tecnológica, investigando percepções, finalidades de uso, temores epistêmicos e perspectivas de docentes e discentes de uma faculdade de tecnologia pública paulista. O aporte teórico fundamenta-se na linguagem como interação social (Bakhtin, 2011) e na concepção da IA Gen como um simulacro de autoria (Buzato, 2023; Fernandes, 2024), que reproduz a estrutura dos gêneros discursivos, mas carece de plasticidade retórica, valoração ética e responsabilidade histórica. Trata-se de uma pesquisa qualitativa exploratória, cujos dados preliminares foram coletados entre fevereiro e março de 2026, por meio de questionário, com 24 docentes e 127 discentes participantes. Os dados foram analisados sob a ótica da análise dialógica do discurso para mapear as tensões e os posicionamentos axiológicos. Os resultados indicam a consolidação da versão gratuita do ChatGPT como interface hegemônica na rotina acadêmica, utilizada predominantemente para revisões ortográficas, adequações estilísticas e ideação de conteúdo. Evidenciam-se tensões autorais e uma crise de exotopia: parte dos usuários preserva o controle crítico como autores-revisores, enquanto outra delega a formulação do raciocínio à IA Gen, o que tende ao apagamento enunciativo. Sob a perspectiva docente, a tecnologia atua como um apoio estratégico ao planejamento. Contudo, os professores declaram não alterar suas avaliações, embora concordem com a necessidade de reformulá-las. O maior temor discente concentra-se na atrofia cognitiva, sobrepondo-se à preocupação com o plágio. Há consenso de que o distanciamento da IA Gen é inócuo e que o cenário exige novas abordagens. Conclui-se ser fundamental a transição do treinamento instrumental para o letramento crítico (Soares, 2009; Rojo, 2017; Wang et. al., 2024), capacitando a comunidade acadêmica para o exercício de uma autoria técnica, ética e socialmente responsável no ecossistema digital.
Palavras-chave: Inteligência artificial generativa; Ensino Superior
EMERSON DE PIETRI
[Letramento(s)]
Inteligência artificial, mediação editorial e processos de subjetivação em práticas de letramento acadêmico-científico Os mecanismos de controle dos discursos ((F
(Foucault, 1996) se constituíram em associação à produção de dispositivos de ordenamento social das práticas discursivas, em que a mediação editorial (Chartier, 2002) se institui como o processo de gestão material fundamental. A função-autor é assim resultante de um conjunto de intervenções técnicas, econômicas e culturais centralizadas em torno da propriedade dos meios de produção necessários para o tratamento formal dos textos e para a formação de um mercado consumidor para os produtos. O advento dos meios digitais de produção e circulação de textos foi considerado a princípio como a possibilidade de suplantar a rarefação que caracterizou historicamente a posse dos meios de produção editorial. Os recursos de edição e publicação estariam amplamente disponíveis num contexto em que os instrumentos para o tratamento formal dos textos e os meios de sua divulgação se tornariam acessíveis a amplas parcelas da população e em que os textos seriam resultantes do trabalho coletivo de sujeitos anônimos. No entanto, mais recentemente a Inteligência Artificial Generativa, e, mais especificamente, os Large Language Models (LLM), atravessaram essas bases materiais concentrando novamente sob o controle de um número reduzido de proprietários os meios de produção editorial, desta vez controlando não apenas as condições de produção e de distribuição dos discursos, mas a própria produção dos enunciados, operando sobre sua materialidade linguística. Neste contexto, compõe o corpus de análise do presente trabalho textos produzidos por participantes de uma disciplina de pós-graduação, pesquisadores em formação no campo da educação e da linguagem, instados a elaborar um ensaio em que discutissem a noção de autoria em função do contexto de avanço da IA Gen e de seus interesses de pesquisa. Com base em elementos de análise do discurso de linha francesa, foram analisadas as concepções de linguagem, texto e discurso presentes nos textos produzidos. Os resultados evidenciam que, ainda que sejam problematizados os efeitos da IA Gen nas condições de controle dos discursos, não se questionam concepções de linguagem centradas no sujeito, mas se propõem meios de preservação da subjetividade, ameaçada pelos processos digitais, sem que seu estatuto seja problematizado. Espera-se que os resultados encontrados e a discussão realizada contribuam para a compreensão e o questionamento das concepções de linguagem, texto e discurso que orientam as práticas de letramento acadêmico-científico na Universidade e na escola básica. (Apoio: FAPESP 2022/05908?0)
Palavras-chave: Letramento acadêmico-científico; Inteligência
MANOEL LUIZ GONÇALVES CORRÊA
[Linguística Aplicada]
A importância da noção de língua na análise de perspectiva etnográfico-discursiva
No campo das ciências da linguagem, tem sido comum o tratamento dos dados de pesquisa por meio de recursos buscados em perspectivas teóricas vizinhas àquela que orienta o trabalho ou em disciplinas de domínios conexos, como mostram as discussões, já bem fixadas, sobre inter-, trans- e indisciplinaridade no campo aplicado. O presente trabalho, concebido no campo da Linguística Aplicada, procura estabelecer um território particular que, no campo das ciências da linguagem, articule uma perspectiva enunciativa com uma perspectiva discursiva, considerada, ao mesmo tempo, em viés transdisciplinar, sua articulação com o trabalho etnográfico. No caso desta apresentação, tomo a perspectiva etnográfica do modelo de letramentos acadêmicos (Lea & Street, 2006 / 2014), ela própria contendo já uma contribuição entre estudos linguísticos e etnográficos. O movimento teórico proposto visa apreender fatos linguístico-enunciativos perpassados por relações sociais de poder e identidade numa configuração sócio-histórica específica, ou seja, como fatos discursivos. A atenção se volta para duas direções: a) como apreender fatos discursivos sócio-historicamente concebidos e consolidar sua importância para o trabalho de análise do pesquisador iniciante? b) como apreendê-los no trabalho didático, particularmente, em atividades de sala de aula, sem desprezar o caráter linguístico de sua formulação e o papel da própria língua? O material utilizado é composto: a) por dois relatórios finais de iniciação científica (IC) e por duas dissertações de mestrado, cujas análises se ocuparam de material escrito coletado em disciplina de pós-graduação, ministrada em rede, em 2023, como oficina em letramentos acadêmico-científicos, como ação integrante do Projeto Temático Fapesp nº 2022/05908-0; e b) pelas atividades didáticas de produção textual propostas naquela disciplina, elaboradas conjuntamente pelos professores por ela responsáveis, as quais resultaram nos textos posteriormente analisados por pesquisadores de IC e por mestrandos. Tanto no percurso de análise dos pesquisadores, quanto na análise das atividades propostas pelos professores da disciplina, mostra-se a necessidade de distinguir fatos enunciativo-discursivos de fatos pragmático-discursivos, distinção proposta, nesta apresentação, a partir de uma noção particular de língua, fundamental no contexto teórico da perspectiva etnográfico-discursiva como elemento produtor de diferença. A contribuição esperada é a de lidar com a complexidade do fato discursivo tanto na prática de análise de textos (complexidade de natureza 1) quanto na prática didática (complexidade de natureza 2). (Apoio: FAPESP - Processo 2022/05908-0)
Palavras-chave: Análise de textos; Perspectiva etnográfico-discursiva;
ELISANGELA PEREIRA DA SILVA
[Formação de professores]
Escrevivências do professor: escrita e memória no processo formativo
Conceição Evaristo ao falar de escrevivência afirma que essa escrita “ traz a força motriz de mulheres negras escravizadas que nos antecederam'', destacando que o conceito supera a questão semântica. Desse modo, mais que a junção entre o verbo “escrever” e o substantivo “vivências”, "Escrevivências" são, não apenas a escrita individual de uma experiência vivida, mas o registro e as marcas da coletividade nessas experiências e dessas experiências para e na coletividade. Nesse sentido, pegamos emprestado o termo para pensar sobre a escrita dos nossos professores, entre os quais, muitas são as mulheres negras, que cresceram e se formaram em diferentes territórios do nosso país e hoje vivem e atuam profissionalmente em escolas da periferia na Zona Sul de São Paulo. Consideramos a escrita como parte do processo formativo, assim, convidamos essas professoras a escrever e a partir dessa escrita acessarem a memória, retomando experiências que tiveram com o texto e o ensino de produção textual durante o processo de escolarização. A pesquisa insere-se no âmbito da Formação de Professores, da Linguística Textual e do Ensino de Língua Materna e se fundamenta nas contribuições de Tardiff (2014), Freire ([1996]2024), Vygotsky(1988); (1999); (2001), Marcuschi (2009); (2010);(2011), Koch(2002) e Nóvoa (2013). Apresentamos a sequência formativa elaborada por mim como Coordenadora Pedagógica, além de trechos dos textos produzidos, a partir dessa proposta, por professores de três unidades escolares da rede municipal de São Paulo nas quais desenvolvemos a “Pesquisa- ação”. Esse trabalho é parte do estudo de Doutorado em andamento e nossa intenção é promover uma reflexão sobre as relações entre o ensino, a escrita e a memória e sua relevância para os processos formativos de professores de Língua Portuguesa que trabalham com produção de textos. Os resultados apontam para a importância da escrita individual no processo formativo e indicam que as professoras reconhecem as bases teórico-metodológicas que operam sob as suas práticas docentes e de seus colegas, o que não necessariamente garante que, ainda que tendo essa percepção, alterem suas próprias práticas pedagógicas. (Apoio:FAPESP 2022/05908-0)
Palavras-chave: Escrita; Ensino; Formação
TIAGO RUAS DIEGUEZ
[Análise do Discurso]
A análise do discurso de divulgação científica em Que Bobagem!: modulações e limites da semântica global
Nesta pesquisa de doutorado em andamento, investigo o funcionamento polêmico do discurso de divulgação científica contemporâneo a partir do livro Que bobagem! (Pasternak; Orsi, 2023). A análise busca questionar a representação comum da divulgação como mera tradutora neutra e facilitadora de saberes, compreendendo-a em um espaço discursivo em que distintas posições lutam por hegemonia e pela legitimidade de dizer o que é ou não ciência. Esse embate ocorre tanto contra áreas rechaçadas (pseudociência), quanto contra outras posições dentro da própria esfera do que se intitula divulgação científica. O quadro teórico-metodológico basilar apoia-se na semântica global de Dominique Maingueneau. Nesse primeiro movimento analítico sobre o corpus, busquei mapear pares de semas positivos e negativos projetados pelos enunciadores. Essa abordagem indutiva, contudo, resultou num impasse, produzindo a identificação de temas em oposição, em vez de semas estruturais profundos. Tal impasse metodológico exigiu um recuo historiográfico para compreender as raízes da própria aplicação da teoria de Maingueneau no Brasil. Ao fazê-lo, observei que parte da tradição nacional vivenciou um desvio prático semelhante, operando a semântica global já num cenário em que essa teoria convivia com visadas pragmáticas e enunciativas do próprio autor, e, muitas vezes, também realizando certa deriva terminológica (de sema para tema). Apesar de esse resultado inicial ter me levado à reconsideração da metodologia adotada, pude perceber, ao aplicar a teoria da semântica global, que os enunciadores constroem sua identidade num espaço discursivo ternário, e não estritamente binário. Por um lado, projetam semas negativos sobre o Outro rejeitado (pseudociência); de outro, relacionam-se com um Outro privilegiado (o discurso científico institucional), replicando positivamente seus semas. A esse fenômeno de incorporação corresponde um simulacro de valorização, cuja dinâmica articula tradução e interincompreensão regrada, em regime próximo ao dos simulacros descritos por Maingueneau, mas com inversão de valência. Em vez de produzir um Outro rejeitado, constrói-se um Outro valorizado e funcional à legitimação do discurso. A apresentação desse primeiro caminho metodológico visa a debater as dinâmicas de tradução e interincompreensão em um campo discursivo no qual se relacionam distintos atores, bem como a apontar a necessidade de uma aplicação da semântica global que incorpore conceitos da pragmática enunciativa (cenografia e ethos) e da teoria da polêmica argumentativa de Ruth Amossy.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Semântica global; Divulgação
VANESSA DOS SANTOS ARAUJO
[Letramento(s)]
A produção de material didático para o letramento acadêmico-científico como uma prática de formação docente
No presente trabalho busca-se apresentar resultados obtidos com a análise do processo de produção de material didático a ser utilizado em pesquisa-ação voltada à formação continuada de professores de língua portuguesa. No contexto brasileiro atual, a produção de material didático contribui para necessária autonomia docente na prática educativa, que se justifica frente ao avanço da “plataformização da educação” adotada em algumas redes de ensino. A perspectiva teórica a partir da qual é analisada a relação entre a produção de material didático e a formação docente continuada pauta-se em Tardif (2014), para quem os saberes dos professores são plurais e estão intimamente relacionados a seu trabalho na sala de aula, e ainda, em Freire (2022), que defende que a prática docente exige uma reflexão crítica permanente desde o princípio da experiência formadora. O material didático produzido no âmbito da pesquisa volta-se ao letramento acadêmico-científico de professores e estudantes da educação básica. Nesse contexto, Komesu e Fisher (2014) entendem o letramento acadêmico-científico como uma prática social, cuja concepção supera o âmbito do nível superior e também se aplica aos demais níveis da escolaridade. No material didático produzido, o objeto de estudo principal é um gênero discursivo da divulgação científica, que é concebido em perspectiva bakhtiniana (Bakhtin, 2016), assim como a divulgação científica, que, para Grillo (2013), é compreendida como uma modalidade particular de relação dialógica. A organização formal do material se realiza em torno de sequências didáticas, de acordo com Dolz; Noverraz e Scheneuwly (2004) e de projetos de trabalho, tais como concebidos por Hernández (1998). Espera-se que os resultados contribuam para a compreensão dos modos de produção de materiais didáticos em suas relações com contextos específicos de formação e atuação docente, e para a promoção do letramento acadêmico-científico de docentes e discentes em aulas de linguagem dos anos finais do ensino fundamental, para que assim o acesso ao conhecimento científico seja ampliado, contribuindo para a redução das desigualdades. Apoio: FAPESP 2022/05908-0
Palavras-chave: letramento científico; gêneros de divulgação científica;
TRICIANE RABELO DOS SANTOS DE ALMADA
[Letramento(s)]
O paradoxo da autonomia do estudante em termos da definição acadêmica na escrita de Trabalhos de Conclusão de Curso
Este trabalho analisa um paradoxo presente na construção de definições na escrita acadêmica de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), buscando mostrar que quanto mais uma definição se apresenta como autônoma, mais ela se ancora em redes invisíveis de memória discursiva; e, inversamente, mesmo definições alinhadas aos modelos científicos carregam marcas de subjetividade e reinscrição. Nesse espaço de tensão, a escrita do TCC se constitui entre exigências institucionais de legitimidade científica e modos singulares de apropriação do conhecimento. O estudo investiga o funcionamento discursivo das reformulações parafrásticas de definições presentes na fundamentação teórica de TCCs produzidos por estudantes de graduação. Inscrita em uma perspectiva aplicada de base discursiva, a pesquisa articula pressupostos da Análise do Discurso de linha francesa com os Novos Estudos do Letramento. Do ponto de vista teórico-metodológico, busca contribuir para os estudos do letramento acadêmico ao propor uma leitura que reconhece a escrita como prática social, histórica e ideológica, deslocando o enfoque da correção normativa para os processos formativos na academia. O corpus foi constituído por 25 TCCs, dos quais foram selecionadas sequências definicionais reformuladas parafrasticamente. Foram identificados três tipos recorrentes de reformulação de definições: (i) com remissões explícitas a textos citados; (ii) com traços citacionais, porém sem referência direta; e (iii) formuladas sem marcas mostradas de filiação a fontes teóricas. A predominância do terceiro tipo indica um padrão dissonante, uma vez que, em tese, essas formulações deveriam estar ancoradas em suas referências teóricas. Os resultados indicam que a definição nos TCCs obedece a uma gradação entre a remissão explícita a fontes teóricas e as formulações sem marcas mostradas de filiação. Constitui-se, portanto: (i) pela execução mais, ou menos, competente, de uma norma de citação direta e explícita; (ii) pela exploração mais, ou menos competente, da palavra alheia, feita de forma explícita, ainda que indireta; ou (iii) pela apropriação, mais, ou menos, competente, fazendo supor, mas sem marcas, fontes institucionalizadas. O paradoxo se situa no fato de que a definição sempre se constitui na tensão entre efeitos de autonomia enunciativa e a sua inscrição inevitável no interdiscurso em qualquer dos três casos. Como contribuição, propõe-se ampliar o olhar sobre o letramento acadêmico, favorecendo práticas pedagógicas que levem em conta a inscrição no interdiscurso como forma de iluminar a questão da autonomia do estudante no que se refere a sua escrita acadêmico-científica.
Palavras-chave: Definição. Escrita Acadêmica. Interdiscurso. Parad;
REINALDO RODRIGUES MONÇÃO JUNIOR
[Linguística Aplicada]
As formas metaenunciativas de representação do dizer outro
O objetivo deste trabalho é investigar a ocorrência de formas metaenunciativas empregadas em resenhas produzidas por pós-graduandos de três universidades brasileiras. O corpus é um conjunto de 41 resenhas críticas produzidas em oficinas integradas de letramento acadêmico realizadas em 2023 desenvolvida por docentes dos programas de pós-graduação em Letras (PUC-Minas), em Estudos Linguísticos (Unesp) e em Filologia e Língua Portuguesa e em Educação (ambos da USP). A investigação se justifica por procurar compreender quais recursos enunciativos os escreventes utilizam para representar o discurso do outro em suas resenhas, bem como para classificar, inclusive em termos quantitativos, os recursos metaenunciativos empregados na escrita de resenhas. A pergunta central desta apresentação é: o que o fenômeno metaenunciativo pode revelar sobre a maneira como escreventes representam o dizer do outro na produção de suas resenhas? A fundamentação teórica baseou-se na articulação entre a proposta teórica de representação do dizer do outro de Authier-Revuz (1990; 1998; 1999) e a Análise do Discurso de linha francesa, representada, sobretudo, por Pêcheux (1997). A metodologia de trabalho consistiu, a partir da tipologia de formas de modalização autonímica proposta por Authier-Revuz (1999), na identificação, quantificação e interpretação dessas ocorrências no material estudado, a fim de observar os recursos adotados pelos resenhistas para retomar o dizer presente no discurso resenhado. A hipótese testada é a de que as marcas de retomada se fazem presentes na medida em que os escreventes buscam ou não traçar fronteiras entre a linearidade do próprio dizer e o dizer exterior trazido para a resenha, revelando, dessa forma, o grau de identidade ou de alteridade do escrevente com as palavras do outro em seu dizer. Como contribuição, apresenta-se a descrição, quantificação e interpretação – ainda em andamento – produzidas para aprofundar a compreensão crítica quanto à produção da escrita acadêmica por professores e pesquisadores em formação quando vista de uma perspectiva enunciativa e discursiva, bem como mostra aspectos relevantes no que diz respeito à produção do gênero resenha crítica.
Palavras-chave: Resenha Crítica; Representação do Dizer Outro;
BRUNA MARIA ATALLA PEREIRA
[Letramento(s)]
Inteligência artificial generativa e letramento acadêmico-científico: deslocamentos da posição-sujeito e efeitos discursivos
Este trabalho investiga os efeitos da Inteligência Artificial Generativa (IAG), especificamente do modelo ChatGPT, na revisão da escrita acadêmico-científica e problematiza as implicações da intervenção algorítmica no letramento de pesquisadores em formação. O estudo está inserido no campo da Linguística Aplicada e fundamenta-se na perspectiva etnográfico-discursiva dos letramentos (Corrêa, 2011) e na Análise do Discurso de vertente francesa. Do ponto de vista teórico-metodológico, o estudo mobiliza conceitos centrais da Análise de Discurso de vertente francesa: sujeito, condições de produção (Pêcheux, 2014) e interdiscurso (Pêcheux, 2014; Maingueneau, 2008. O objetivo central é compreender as reconfigurações operadas em textos originais de estudantes a partir de comandos voltados à adequação aos critérios acadêmico-científicos, examinando os deslocamentos do sujeito discursivo e a possível supressão de sua inscrição histórica e subjetiva. O corpus é constituído por textos-resposta produzidos no primeiro semestre de 2023, em uma disciplina de pós-graduação organizada como oficina de letramentos acadêmico-científicos, ministrada no formato online, vinculada ao Projeto Temático Aprendizes Universitários em Práticas Contemporâneas de Letramento Acadêmico-Científico. Os textos, organizados na forma pergunta/resposta, tematizam a liberdade de escolha do pesquisador quanto ao seu objeto de estudo. Cada texto foi submetido ao ChatGPT acompanhado de um prompt específico solicitando avaliação conforme critérios da escrita acadêmico-científica e reescrita corrigida. A metodologia, de natureza qualitativa com suporte de análise quantitativa, organiza a análise em eixos que revelam tendências sistemáticas de transformação dos efeitos discursivos. Os resultados permitem constatar que, enquanto o texto do estudante é marcado por uma individuação que articula saberes teóricos à sua experiência situada e coletiva, a IAG opera uma assepsia dessas tensões, movendo o sujeito aprendiz para um pesquisador genérico. O trabalho contribui para a reflexão crítica sobre as práticas de produção científica contemporânea, fornecendo subsídios para o campo do letramento acadêmico-científico ao lançar luz sobre como a intervenção tecnológica pode reconfigurar os modos de inscrição do sujeito na cultura acadêmica.
Palavras-chave: Inteligência Artificial Generativa; Letramento
JULIANA ALVES ASSIS
[Linguística Aplicada]
Representações sobre a escrita acadêmica e o fazer científico no discurso de estudantes universitários em contexto de avanço da inteligência artificial
Em relatório publicado pela Unesco em 2025, intitulado “Marco referencial de competências em IA para professores”, as atuais transformações na tradicional relação envolvendo professor, estudante e práticas de ensino/aprendizagem são assumidas como desafios decorrentes tanto da forte presença da Inteligência Artificial (IA) no mundo contemporâneo quanto também de uma compreensão ainda limitada acerca do funcionamento da IA, suas potencialidades e limites. Com base em um quadro teórico inspirado na tradição socioantropológica dos estudos sobre Letramento, em diálogo com abordagens de base discursiva e com estudos sobre IA, ocupamo-nos, neste trabalho, da reflexão sobre representações sobre a escrita acadêmica e sobre o fazer científico no discurso de estudantes universitários, chamados a refletir sobre o uso da IA em suas práticas de leitura e de escrita no ensino superior. O material analisado são respostas de 173 estudantes brasileiros da graduação, mestrado e doutorado, de diferentes áreas de conhecimento e de universidades brasileiras. Trata-se de respostas a uma questão aberta, integrante de questionário aplicado entre abril e setembro de 2025, voltada à apreensão de respostas sobre os seguintes aspectos: (i) uso de IA para escrita e (ii) impactos atuais e futuros no ensino superior, tendo em conta o uso da IA. A partir de uma abordagem qualitativo-interpretativa, as respostas a essa questão foram analisadas com o apoio do MAXQDA (2024), um software que apoia a codificação e apresentação de dados, dentre outros recursos. Para a análise, levamos em conta pistas linguísticas e discursivas que permitissem uma interpretação de valores e papéis atribuídos à escrita acadêmica, ao fazer científico e à IA. Os resultados permitem identificar um conjunto variado de tensões envolvendo a relação entre o fazer científico, a prática de escrita e a mobilização da IA no ensino superior. Trata-se de resultados que podem oferecer contribuições para compreensão das dinâmicas implicadas na formação universitária contemporânea, considerados ainda seus impactos na formação de pesquisadores e futuros profissionais. (Apoio: FAPESP 2022/05908?0; FAPEMIG 05058-23; CAPES-COFECUB 88887.712049/2022-00; CNPq 409249/2023-8; 312852/2022-3 e 301678/2025-1.)
Palavras-chave: representações; escrita acadêmica; inteligência
MARLUZA TEREZINHA DA ROSA
[Linguística Aplicada]
Função da escrita e tomada de posição do sujeito no ingresso ao ensino superior
O discurso sobre a ciência, pautado no ideal de racionalidade e logicidade, na exatidão de formas, fórmulas e métodos, bem como na determinação pela estrutura, está na base do pensamento logocêntrico ocidental, no qual se ancoram, ainda hoje, não apenas as representações acerca do que possa ser, ou não, científico, mas também algumas das noções que fundamentam os estudos da linguagem, tais como as de língua, texto e escrita. Nesta pesquisa, propomo-nos a investigar o imaginário sobre a escrita acadêmica do qual compartilham estudantes em fase de inserção no âmbito universitário (1º semestre) via Programa de Formação Interdisciplinar Superior na Universidade Estadual de Campinas (ProFIS/UNICAMP). O objetivo é compreender, com o auxílio de marcas discursivas, como se constrói uma posição subjetiva frente à escrita e sua função na formação superior. O corpus de análise se constitui de atividades diagnósticas realizadas em 25 turmas, ao longo de cinco anos, na disciplina de Leitura e Produção de Textos Acadêmicos I. Esta intervenção explora, mais precisamente, as produções textuais formuladas em resposta à pergunta: “Que funções e características da escrita acadêmica você já conhece?”. Para tanto, estabelecemos um diálogo teórico entre trabalhos que se voltam para a problemática da escrit(ur)a e do letramento acadêmico no campo da Linguística Aplicada. O estudo apresenta os primeiros movimentos de análise e aponta para o fato de que, embora haja uma heterogeneidade nas representações, reforça-se uma imagem idealizada do fazer científico, ancorada na transparência da linguagem, na formalização/padronização do texto e na busca pela verdade. Outra regularidade do corpus analisado consiste na sustentação de um não-saber sobre o que caracterizaria a escrita acadêmica e suas funções, o que sugere uma posição discursiva de distanciamento assumida pelos estudantes quando da inserção no discurso universitário como prática social. Tal posição concebe a escrita como técnica a ser aprendida, em vez de registro autoral que marca a participação do sujeito em seu próprio processo de formação.
Palavras-chave: Escrita acadêmica; Formação Superior; Constituição do
LÚCIA REGIANE LOPES-DAMASIO
[Letramento(s)]
Letramento acadêmico-científico e formação de professores: da análise linguístico-discursiva a proposições para o ensino da escrita
O trabalho parte de resultados do Projeto “Escrita e tradição discursiva no ensino: da delimitação conceitual ao seu papel nos aspectos ocultos do letramento acadêmico”, desenvolvido sob a linha de fomento Programa Nova Geração de Pesquisadores – Projeto Inicial (PI) (Fapesp, 2022/02850-0) e composto por uma parte teórica e por uma parte aplicada. Teoricamente, as investigações buscam um ponto próprio de observação de Tradições Discursivas (TDs), como matéria e produto de linguagem, propondo uma redefinição que abarca o conceito introduzido por Kabatek (2005). Para isso, focalizam a constituição de práticas discursivas, tomadas como TDs, partindo da ideia de que os elementos juntivos do texto, considerados em espaços determinados, na qualidade de espaços de repetibilidade, são sintomas de diferentes TDs, bem como da composicionalidade de uma TD. Esses espaços de repetibilidade têm mostrado diferentes tipos de circulação do escrevente pelo que imagina ser a gênese da escrita, o código escrito institucionalizado e o já-falado/escrito, os quais, para o analista, constituem três eixos de observação da heterogeneidade constitutiva da escrita (Corrêa, 1997). Esses eixos, ao lado de um critério bidimensional (sintático e semântico) de descrição da junção oracional, constituem os instrumentos metodológicos para a identificação das TDs. Em sua parte aplicada, os resultados fundamentam uma discussão relacionada ao ensino da escrita. Para tanto, sustentam a hipótese de que as TDs têm feito parte dos aspectos ‘ocultos’ do letramento acadêmico (Street, 2009), expressão utilizada para mostrar que certos aspectos da produção do texto, cobrados no momento da avaliação, não são explicitados no processo de ensino e aprendizagem. No Simpósio “Práticas de letramento acadêmico-científico e modos de fazer ciência na formação de pesquisadores e de professores”, serão apresentados resultados dessas investigações (cf. Oliveira; Lopes-Damasio, 2025; Lopes-Damasio; Silva, 2025; Lopes-Damasio; Gava, 2025; Carvalho, 2025; Lopes-Damasio; Cardoso, 2024), realizadas no escopo do PI (Lopes-Damasio, 2022), a fim de estabelecer um diálogo propositivo para as práticas de letramento acadêmico-científico na formação de professores e pesquisadores. Esse diálogo estará subsidiado nos resultados das análises linguístico-discursivas experimentadas no contexto teórico-metodológico sinteticamente delineado acima, a partir de textos produzidos por sujeitos do Primeiro Ciclo do Ensino Fundamental e do Programa de Educação de Jovens e Adultos. Trata-se, pois, de comunicar a proposição de estratégias didático-pedagógicas, a partir de (certos) aspectos da produção textual e da escrita movente, não explicitados no processo de ensino e aprendizagem, também situado na cultura universitária, enquanto espaço de formação de professores de língua materna.
Palavras-chave: escrita; ensino da escrita; letramento
RENATA PALUMBO
[Letramento(s)]
Níveis de análise de textos de aprendizes universitários com apoio de
IAGen: um estudo metodológico Em nossa pesquisa, voltamo-nos para a aplicação de um protocolo de codificação para exame de textos de aprendizes universitários com vista à identificação das possibilidades e dos limites de uma Inteligência Artificial Generativa (IAGen) no que diz respeito às análises textuais de resenhas críticas. Para tanto, a partir dos trabalhos de Bezerra e Reinaldo (2020) e de Adam (2011), temos considerado cinco níveis analíticos: (1) nível sequencial-composicional; (2) nível semântico; (3) nível enunciativo; (4) nível argumentativo; e (5) nível formal. Nosso objetivo central consiste no desenvolvimento posterior de um procedimento metodológico de análise quali-quantitativa de corpora extensos, que também possa colaborar para o exercício docente no ensino superior e para o processo de ensino-aprendizagem da escrita de textos acadêmicos. Nosso corpus inicial, de caráter exploratório, é composto por duas resenhas produzidas, em 2021, por dois estudantes do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS), ofertado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Para este simpósio, descrevemos e examinamos um experimento, no qual é utilizada uma estrutura baseada em prompts, executados no ChatGPT, para análise das produções textuais dos alunos, especificamente do nível argumentativo e de seus subníveis – (1) atos de discurso e (2) articulação com o gênero –, com atenção ao modo como tais elementos colaboram com a orientação argumentativa da resenha crítica, da avaliação de uma obra. Tais análises produzidas por essa Inteligência Artificial Generativa são acompanhadas de um diagnóstico pedagógico e de sugestões voltadas para professores. Além do protocolo de codificação, a elaboração dos prompts apoiou-se no exame do corpus previamente desenvolvido pelos pesquisadores e no modelo de atividade de resenha crítica que foi apresentada aos estudantes do ProFIS. Como referencial teórico, nossa pesquisa fundamenta-se nos trabalhos de Adam (1992, 2011), Bezerra e Reinaldo (2020), Koch (1984, 2005), Koch e Elias (2016), Palumbo, Azevedo e Carnin (2025), Motta-Roth e Hendges (2010), entre outros.
Palavras-chave: Letramento acadêmico; Procedimento metodológico;
CRISTIAN HENRIQUE IMBRUNIZ
[Linguística Aplicada]
Podcasts escolares e reformulação discursiva: práticas de oralidade no
Ensino Fundamental II De uma perspectiva dos estudos dos (multi)letramentos, este trabalho tem como objetivo investigar processos de reformulação discursiva em episódios de podcast produzidos por alunos dos anos finais do Ensino Fundamental II, com vistas a eventuais processos de didatização de gêneros orais. A reformulação é compreendida como fenômeno constitutivo da linguagem que, no caso da produção oral, manifesta-se como estratégia de construção, ajuste e reorganização do dizer. O podcast é entendido, por sua vez, como prática de linguagem que articula modos de enunciação letrados, no planejamento e na roteirização, e orais, na realização do episódio. Em contexto educacional, observa-se crescente incentivo ao uso dessa mídia como recurso pedagógico voltado à autoria estudantil, ao desenvolvimento da oralidade e ao uso crítico de tecnologias digitais. O corpus é constituído pela transcrição do episódio “Podcast educativo aborda História da escola, da cidade e do país | Boas Práticas da Rede”, produzido em 2023 por estudantes do 9º ano da Escola Municipal Estados Unidos, no Rio de Janeiro, no âmbito de iniciativa vinculada à MultiRio. O episódio foi selecionado por integrar uma prática de produção de podcast escolar desenvolvida com estudantes do ensino fundamental II, contexto semelhante às experiências pedagógicas mobilizadas pela autoria no ensino de oralidade. Além disso, o gênero podcast favorece situações de interação oral marcadas por planejamento parcial, monitoramento da fala e negociação de sentidos, aspectos que possibilitam a observação de processos de reformulação. O corpus apresenta diferentes processos de reformulação. Para fins analíticos, privilegiam-se quatro movimentos recorrentes: autorreparações, retomadas expansivas, buscas lexicais e substituições referenciais. Metodologicamente, trata-se de investigação qualitativa de base interpretativa, centrada na identificação e interpretação de ocorrências de reformulação no discurso oral escolar. Os resultados parciais indicam que a reformulação atua como recurso central na organização do discurso, na construção colaborativa de sentidos e no desenvolvimento de competências discursivas em práticas escolares mediadas por tecnologias, em consonância com demandas contemporâneas dos multiletramentos em contexto de ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Podcast; Reformulação; Multiletramentos
RITA DE FATIMA RODRIGUES GUIMARÃES
[Linguística Aplicada]
Análise linguística assistida por software de apoio à codificação qualitativa de textos: implicações para a automação
Este trabalho apresenta a construção e a testagem de uma grade de análise linguística de produções textuais de aprendizes, aplicada ao software ATLAS.ti e às possibilidades de automatização analítica. A grade foi elaborada com base em Bezerra e Reinaldo (2020) e organiza-se em cinco dimensões: organização textual, relações de sentido, gestão enunciativa, orientação argumentativa e aspectos formais da escrita Esse processo integra investigação mais ampla voltada ao desenvolvimento de uma aplicação de análise linguística automatizada e qualificada de textos de aprendizes, com Inteligência Artificial Generativa (IAGen), para orientar planos de aula coerentes com as dificuldades identificadas (Projeto FAEPEX n. 3348/24 na interface com o Projeto Temático FAPESP n.05908-0; Projeto CNPq n.409998/2025-7). O codebook produzido foi testado no ATLAS.ti pela codificação de textos de aprendizes, visando verificar a adequação dos descritores, a pertinência dos códigos e as possibilidades de sistematização e automatização das análises. Os resultados indicaram que a estrutura proposta favoreceu a análise qualitativa e a quantificação do corpus por dimensões e a visualização das pontuações atribuídas. Observou-se que etapas relacionadas a aspectos da forma podem ser parcialmente automatizadas, especialmente para fins de sugestão inicial de codificação. Por outro lado, dimensões relativas à organização textual, à construção de sentido, à gestão enunciativa e à orientação argumentativa demandaram interpretação contextualizada, mantendo-se mais dependentes da codificação manual do pesquisador. A criação de códigos auxiliares, durante o processo, evidenciou a possibilidade de refinamento da grade, permitindo ajustes às especificidades do corpus e aos objetivos da futura automação. Desse modo, os resultados apontam que, ao mesmo tempo em que se evidenciam limites da automatização e a necessidade do controle interpretativo humano (Williamson; Van Rooyen; Dry, 2025), a articulação entre (i) grade analítica, (ii) software de codificação manual e (iii) apoio de IAGen constitui uma estratégia relevante para a sistematização da análise linguística automatizada de textos de aprendizes. Referências: BEZERRA, Maria Auxiliadora; REINALDO, Maria Augusta. Análise linguística: afinal, a que se refere? São Paulo: Cortez, 2020. WILLIAMSON, Charmaine; VAN ROOYEN, Annelien; DRY, Rika. In tandem with artificial intelligence: a working framework for coding in ATLAS.ti™. International Journal of Qualitative Methods, v. 24, p. 1-13, 2025.
Palavras-chave: Análise linguística; Codificação manual assistida por
FABRÍCIO JOSÉ DA SILVA
[Letramento(s)]
Práticas de letramentos acadêmicos com uso de tecnologias no ensino superior: eventos de letramentos em planos de ensino
Com base em estudos de letramentos, de maneira particularizada, aqueles que se ocupam de práticas sociais letradas acadêmicas e digitais, este trabalho tem como objetivo investigar como tecnologias digitais são mobilizadas em práticas de letramentos acadêmicos, a partir de eventos registrados em planos de ensino de diferentes cursos de graduação de uma universidade pública estadual paulista. Interessa a este trabalho compreender a proposição de práticas sociais letradas acadêmicas em resposta a demandas contemporâneas com uso de tecnologias digitais, (i) no mapeamento de eventos de letramentos acadêmicos e digitais (gêneros, recursos, finalidades e critérios de avaliação), (ii) na análise de um perfil de estudante/profissional projetado nessas propostas, isto é, que competências, posturas e modos de atuação acadêmico-profissional são pressupostos e incentivados quando o digital aparece como mediador do trabalho universitário. Parte-se de uma conjuntura de intensificação do digital no ensino superior, que reconfigura modos de ler, escrever, produzir e validar conhecimentos constituídos por critérios de credibilidade e legitimação, o que torna o estudo relevante para o campo por explicitar como a instituição orienta a formação e a avaliação dessas práticas. O conjunto do material é formado de 153 planos de ensino de cursos de Ciência da Computação, Ciências Biológicas, Engenharia de Alimentos, Física, Letras, Matemática, Pedagogia e Química, de uma universidade pública do Estado de São Paulo. A seleção dos documentos seguiu um procedimento explícito: os planos foram triados por meio de busca de palavras- chave, sendo incluídos aqueles que apresentavam ocorrências dos termos “digital” e/ou “tecnologia” em seus campos descritivos, objetivos, conteúdos, metodologias, atividades, bibliografias ou critérios de avaliação. Esse recorte permitiu delimitar um conjunto documental em que o tema do digital é ao menos mencionado, possibilitando investigar não apenas presenças evidentes, mas também usos superficiais, ambiguidades e silenciamentos. A análise, de cunho documental, articula levantamento descritivo e quantitativo desses eventos e análise qualitativa interpretativista. Como resultados esperados, pretende-se identificar padrões (e também lacunas) na integração entre práticas letradas acadêmicas e digitais em cursos de ensino superior, considerando-se práticas pedagógicas situadas e responsivas a demandas sociotécnicas atuais.
Palavras-chave: letramentos acadêmico-científicos; letramentos digitais;
RACHEL FERREIRA OLIVEIRA SANTOS
[Formação de professores]
Formação docente inicial e tecnologias digitais
Esta comunicação apresenta resultados parciais de uma pesquisa em desenvolvimento que investiga como estudantes universitários veteranos, em formação docente inicial, compreendem e mobilizam tecnologias digitais em suas práticas acadêmicas. O objetivo consiste em compreender como esses sujeitos significam, incorporam e problematizam o uso de tecnologias em práticas acadêmicas e cotidianas, tendo em vista suas implicações sobre as formas de estudar, elaborar textos e atuar em distintos contextos. Parte-se da compreensão do digital para além de sua dimensão instrumental, situando-o como parte de ecologias sociomateriais e de mediações algorítmicas que atravessam a experiência formativa. Trata-se de uma pesquisa de abordagem mista, baseada em questionário aplicado a estudantes de diferentes licenciaturas (n=128), complementado por entrevistas semiestruturadas (n=12). Os resultados parciais indicam a naturalização do uso das tecnologias digitais nas práticas acadêmicas, bem como a coexistência de práticas online e offline, articuladas nos processos de busca de informações, leitura, escrita, consumo de vídeos educacionais e organização dos estudos. Observa-se ainda uma criticidade incipiente frente às mediações algorítmicas e à inteligência artificial, configurando um perfil pragmático, orientado por critérios de funcionalidade. Nesse contexto, emergem questões como menor aproveitamento na leitura em ambientes digitais, avaliações dos vídeos educacionais como apoio ao estudo e a adequação do suporte ao local e ao tipo de atividade acadêmica. Verifica-se também o uso naturalizado de ferramentas de IA quando as mediações são mais implícitas, como corretores e tradutores, e maiores questionamentos quando se trata de mediações mais explícitas, como ChatGPT e Gemini, além de preocupações com confiabilidade, autoria e impactos do uso de tecnologias, especialmente da inteligência artificial, na aprendizagem. Tais aspectos evidenciam uma relação ambivalente com o digital, marcada pela coexistência entre uso recorrente de caráter instrumental e níveis ainda incipientes de problematização dessas tecnologias. Assim, a formação docente inicial ocorre em um cenário no qual o uso intensivo de ferramentas digitais não é acompanhado, na mesma medida, por processos formativos que considerem suas implicações pedagógicas, epistemológicas e sociais. Nesse sentido, o estudo contribui com esse campo, ao evidenciar a necessidade de compreender as tecnologias digitais como estruturantes das práticas acadêmicas e dos modos de produzir conhecimento no ensino superior.
Palavras-chave: formação docente inicial; tecnologias digitais; práticas
MARCUS GARCIA DE SENE
[Sociolinguística e Dialetologia]
Campos indiciais de pitch médio na fala de homens
É recorrente a percepção de que homens soam menos masculinos em disfarces com pitch médio elevado – de acordo com resultados de diversos experimentos (Levon 2006, Drager 2021, Sene 2022, Pie 2023, etc). Aqui, adicionamos mais dados que evidenciam tal percepção em português e discutimos como ela se associa a outros significados sociais. Coletamos respostas de 488 ouvintes voluntários aos quais trechos da fala de oito homens foram apresentados alternativamente em duas condições experimentais: a 240 ouvintes, primeiro no disfarce com F0 médio original (F0o) e, depois, no disfarce com F0 acrescido de 30 Hz (F0+30); para os demais 248 ouvintes, os estímulos foram apresentados na ordem contrária (primeiramente, no disfarce F0+30, depois F0o). Após ouvir cada um dos 16 estímulos, cada ouvinte descreveu o falante que imaginou por meio de escalas de diferenciais semânticos (soa nada a muito: “gay”, “masculino”, “sério” e “inteligente”) e de características discretas, que poderiam assinalar ou não (“magrinho”, “alto”, “jovem”, “rico”, “bonito”, “simpático”). A associação desses significados sociais aos disfarces não variou significativamente de acordo com sua ordem de apresentação. Os falantes, na sua maioria (exceto um), foram percebidos como homens que soam menos masculinos e mais gay no disfarce F0+30. Árvores de distâncias mínimas (ADM) (Gower; Ross 1969; Oushiro 2019) mostram ainda que, no geral, F0+30 leva à percepção de que os falantes parecem jovens e magrinhos, ao passo que, no disfarce F0o, os falantes frequentemente parecem sérios. À percepção de seriedade associa-se à de beleza ("bonito"), classe ("rico") e altura ("alto") – sugerindo que esses significados se ligam indiretamente a F0o. "Simpático" e "inteligente" não foram associados a nenhum dos disfarces. Tais correlações não variaram significativamente de acordo com agrupamentos de ouvintes (segundo seu gênero, sua sexualidade ou sua rede de amigos – com muitas ou poucas pessoas gays), o que aponta para sua generalidade. Por outro lado, ADM plotadas para cada falante, individualmente, sugerem que, além do link F0+30 "menos masculino/mais gay", as associações que se observam para a maioria dos falantes são F0o > "alto" e F0+30 > "magrinho" (ou seja, estereótipos acerca do tamanho do corpo). As demais percepções variam mais de falante para falante, com destaque para F0o > "magrinho" (um falante), F0o > "bonito" (não observado para dois falantes) e F0+30 > "simpático" (um falante). Além de discutir associações estereotípicas a F0 médio, nosso trabalho avança na utilização do método das ADM para tratar de campos indiciais.
Palavras-chave: Campos indiciais; pitch médio; fala de homens
ALINE BEZERRA FALCÃO DE OLIVEIRA
[Sociolinguística e Dialetologia]
A ausência de correlação entre classe socioeconômica e percepções associadas a (t,d) em
Alagoas Classe socioeconômica é uma variável social tradicionalmente investigada nos estudos sociolinguísticos, principalmente no âmbito da produção. O interesse nela se deve à noção de prestígio e remonta aos desenvolvimentos iniciais da sociolinguística laboviana: classes mais altas tendem a empregar mais vezes formas linguísticas mais prestigiosas; formas linguísticas tendem a ser interpretadas como prestigiosas quando frequentemente empregadas por pessoas de classes mais altas. Embora "prestígio" seja um significado social da variação, tal conceito – amplo que é – pode estar associado, na percepção sociolinguística, a muitos outros: soar inteligente, escolarizado, formal, sério, desenvolto (desenrolado), exibido, (des)agradável, etc. A interpretação desses significados, por sua vez, pode ou não depender da classe do ouvinte. O estudo que aqui se reporta discute o fato de que não se identificam correlações entre "classe do ouvinte" e as percepções que 99 alagoanas/os revelaram, em um experimento de percepção, acerca de quatro falantes (duas mulheres e dois homens, também alagoanos), em disfarces oclusivos ou palatais de (t,d) (polí[t]ico ~ polí[t?]ico; [d]inheiro ~ [d?]inheiro). Os ouvintes são naturais de Arapiraca, Delmiro Gouveia e Maceió e, em nenhum desses subgrupos, suas percepções de como soam os falantes (em diversas escalas de diferenciais semânticos) variaram significativamente a depender da combinação entre variável linguística (palatal vs. oclusiva) e classe do ouvinte (média vs. baixa). Adicionalmente, a percepção de classe dos falantes (em cinco níveis) pelos ouvintes também não variou de acordo com (t,d). Parece surpreendente que percepções associadas a (t,d) não dependam da "classe do ouvinte" nos dados coletados. Com base em correlações entre a palatalização variável e a escolaridade do falante na produção alagoana (Falcão 2021), integravam as expectativas acerca do experimento proposto que alguns significados sociais (e.g. "escolarizado","inteligente") seriam associados à variante palatal mais frequentemente por alagoanas/os de classe mais alta. Em discussão, embora se considere o fato de que a variação de classe na amostra de ouvintes não seja ampla (apenas classe média vs. classe baixa), interpreta-se a ausência de correlações com classe à luz do fato de que, independentemente dessa variável, os significados sociais de (t,d) são muito variados em cada uma das três cidades alagoanas em foco (Falcão 2025). Nesse sentido, o estabelecimento de um link entre (t,d) e certos significados sociais nesse estado nordestino pode depender de outros significados, como percepção de origem (sul/sudeste vs. nordeste), de modo que correlações com classe possam se estabelecer indiretamente – algo a ser explorado na continuação da pesquisa.
Palavras-chave: Palatalização de (t/d); Alagoas; percepção
LIVIA OUSHIRO
[Sociolinguística e Dialetologia]
O efeito de utilização de imagens em experimentos matched-guise
Esta comunicação visa a discutir o efeito da apresentação de ilustrações de falantes em experimentos do tipo matched-guise (Lambert et al, 1960), a partir de um estudo que analisou de que modo a concordância nominal (CN, p.ex. “os carrinhos” vs. “os carrinho”) se entrelaça com Gênero e Raça na formação das impressões que participantes paulistas têm sobre falantes. A hipótese inicial era a de que falantes brancos e homens seriam percebidos menos desfavoravelmente do que falantes mulheres, pretos e pardos ao utilizar CNØ, já que ocupam posições desiguais em termos de privilégio social. Para tanto, utilizaram-se estímulos auditivos pareados em dois experimentos, um em que os participantes (N = 28) apenas escutaram os áudio e outro (N = 36) em que os áudios foram acompanhados de ilustrações, geradas no site Picrew e que representam os dois gêneros e as três raças; em ambos, a tarefa foi a atribuição de características aos falantes. Os resultados mostram que o uso de imagens parece ter funcionado como uma “contenção perceptiva”, pois efeitos observados no experimento com estímulos em áudio não se repetiram no experimento com estímulos em áudio e imagens. O efeito da CN mostrou-se tão pronunciado que atenuou o efeito racial, sendo a CNØ associada a percepções de baixo status, independentemente da raça representada. A CNp suscitou noções de homossexualidade em estímulos com vozes masculinas no experimento com estímulos exclusivamente auditivos, de modo semelhante a Mendes (2018), e CNØ suscitou relativamente mais noções de dinamicidade, sobretudo quando associada a falantes pretos. Além disso, homens foram percebidos mais favoravelmente do que mulheres em aspectos intelectuais quando empregando CNp, além de terem sido menos associados a comentários negativos em comparação às locutoras femininas tanto em CNp quanto em CNØ. Por fim, a maioria dos participantes afirmou não ter percebido diferença entre os estímulos ao serem apresentados ao par de áudios CNp e CNØ ao final do experimento. Nesse sentido, a apresentação discute os mecanismos pelos quais certas formas linguísticas vêm a se atrelar a certos significados sociais (Eckert, 2008; Oushiro, 2019), considerando a multimodalidade dos estímulos, o que se aproxima de situações reais de interação social.
Palavras-chave: concordância nominal; raça; gênero
HIGOR ALVES SENA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Ouvindo um homem transgênero: percepções associadas a pitch médio
A principal questão que motiva este estudo é: quando ouvimos um homem transgênero, temos percepções semelhantes ou diferentes, relativamente a quando ouvimos um homem cisgênero – no que toca a variações no pitch médio? Temos alguns trabalhos em português (e.g. Sene 2022, Pie 2023) que evidenciam que vozes de homens com pitch médio mais alto tendem a ser percebidas como menos masculinas e mais gay. Entretanto, tais pesquisas têm lidado apenas com homens cis; ainda não se investigaram efeitos de variações no pitch médio (doravante, F0) nas percepções acerca da voz de um homem trans. Para começar a explorar tais percepções, desenvolvemos um experimento no qual 51 ouvintes foram estimulados com trechos da fala de um homem trans (pseudonomeado Alex) e de um homem cis (Túlio). Cada voluntário ouviu Alex e Túlio em três disfarces: um trecho com pitch médio original (F0o); outro com F0o+20Hz e outro F0o-20Hz. Após cada trecho, os ouvintes descreveram a pessoa que imaginaram primeiramente por meio de características discretas, agrupadas em estilísticas, psicológicas, sociais e fenotípicas. Em seguida, descreveram-na também por meio de diferenciais semânticos, dentre os quais estão "soar (nada a muito) gay e masculino". Aqui, discutimos as semelhanças e diferenças nas percepções acerca de Alex e Túlio nas características discretas e nessas duas escalas. As comparações são apresentadas em dois momentos: (i) cada falante consigo mesmo, a depender de F0 (e.g. Alex F0o vs. Alex F0-20) e (ii) Alex vs. Tulio, em cada um dos disfarces (e.g. Alex F0o vs. Tulio F0o). No geral, em (i), as respostas dos ouvintes sugerem que Alex (trans) é percebido como “menos gay” e “mais masculino” em F0-20, comparativamente aos demais disfarces; Túlio soa “mais gay” em F0-20 (uma correlação inesperada) e “mais masculino” em F0o. Em (ii), nossos dados mostram que os efeitos de F0 na percepção acerca de Alex (trans) não são muito diferentes dos seus efeitos na percepção de Tulio (cis), principalmente no que toca a soar "menos masculino/mais gay" no disfarce F0+20, relativamente a F0o. Além de explorar efeitos de F0 na percepção da voz de um homem trans, nossa apresentação permite também discutir métodos na descrição experimental de falantes por meio de características discretas apresentadas inicialmente e em blocos (diferentemente do que se tem feito na maioria dos experimentos de percepção).
Palavras-chave: Percepção sociolinguística; pitch médio; homem
JULIA LOURENÇO COSTA
[Semiótica]
Contrastes de gênero na Linguística: Perspectivas semiótica e historiográfica sobre as mulheres linguistas brasileiras
A demanda por compreender o papel das mulheres na ciência impulsiona debates em diferentes esferas sociais, inclusive na academia. Nesse contexto, as ciências da linguagem têm contribuído para as discussões de gênero por meio de variadas perspectivas teóricas. Entre elas, destacam-se a Historiografia Linguística e a Semiótica Discursiva, cujas pesquisas recentes vêm ampliando a abordagem do tema (Ayres-Bennett; Wendy; Sanson, 2020; Altman; Lourenço, 2023; Moreira; Santos; Portela, 2021). A Historiografia Linguística busca descrever e interpretar a evolução do conhecimento linguístico em determinado contexto histórico e social (Altman, 2003). Já a Semiótica investiga os mecanismos de construção e apreensão de sentido nos mais diversos textos e discursos (Greimas; Courtés, 2008). Este trabalho propõe um diálogo entre essas duas perspectivas para analisar a função das mulheres na Linguística brasileira, especialmente nos processos de institucionalização da disciplina no país. Com recorte temporal entre 1960 e 1990, examinamos textos de autoria feminina e masculina publicados em seis periódicos científicos do período. A análise articula parâmetros internos e externos aos textos, buscando identificar contrastes relacionados ao gênero dos(as) autores(as), tanto no valor semântico assumido em seus contextos de enunciação quanto nas funções exercidas em seus contextos sociais. Com base, sobretudo, no conceito de influência (Koerner, 2014), busca-se suprir uma lacuna de análise discursivo-textual mediante o uso de elementos da metodologia semiótica (Zilberberg; Fontanille, 2001). No caso específico da influência, a elaboração de uma tipologia de citações tensivas possibilita a criação de horizontes retrospectivos. Assim, o principal objetivo deste estudo é levantar a participação de mulheres linguistas do século XX por meio das citações: tanto pela maneira como citam outros autores quanto pela forma como são citadas nos textos do corpus analisado. A aproximação entre Historiografia e Semiótica permite, a partir da análise dos traços deixados nos enunciados, quantificar e qualificar elementos citacionais, evidenciando também contrastes de gênero. Dessa forma, propomos categorias interpretativas para a construção de uma Historiografia Linguística feminina no Brasil, reposicionando pesquisadoras e professoras que participaram e ainda participam ativamente do desenvolvimento das ciências da linguagem no país. Além de mapear a presença feminina nos periódicos analisados, a pesquisa busca compreender como essas autoras construíram redes de circulação de saberes e reconhecimento acadêmico. Ao investigar os modos de citação, pretendemos evidenciar relações de legitimidade, apagamento e valorização intelectual, contribuindo para ampliar a visibilidade histórica das mulheres na Linguística brasileira e fortalecer debates sobre memória científica, gênero e produção do conhecimento.
Palavras-chave: Mulheres linguistas brasileiras; Institucionalização da
JEAN CRISTTUS PORTELA
[Semiótica]
Sobre o espectro do identitarismo: reflexões semióticas
O debate sobre a questão da identidade não apenas retornou ao centro das reflexões nas ciências humanas e sociais e nas ciências da linguagem, como também conquistou, mais recentemente, espaço significativo na mídia, na mobilização da opinião pública e, especificamente, nos textos e discursos políticos ditos de (extrema) direita, de centro e de (extrema) esquerda nas redes sociais. Com base na semiótica do discurso, compreendemos aqui identidade não como algo dado e estabilizado, um resíduo cristalizado de subjetividade ou actorialidade, mas como um conjunto de traços mobilizados em contraste, em contraprograma a um dado percurso narrativo. Assim, as identidades produzem narrativas e por elas são produzidas, constituindo um vasto campo de estudo para os desdobramentos polêmico-contratuais e modais do discurso. A alegada “crise das identidades”, expressão cara a Claude Dubar (2009), se configura, segundo esse princípio, como uma bem-vinda crise de agência e, portanto, de destinação: a ação segundo as identidades hegemônicas é sancionada negativamente, confrontada por outras identidades em disputa pela vida ou “presença”, em sentido semiótico, social e de direitos humanos. Neste trabalho, propomos o recenseamento e a análise de postagens e comentários sobre identitarismo no Instagram, com foco nas hashtags #identitarismo, #identitarismotóxico e #identitarismoliberal, veiculadas em perfis pessoais e institucionais. Nosso objetivo é compreender semioticamente os discursos sobre identitarismo – aqui definido como exacerbação e moralização da identidade – produzidos no campo político da esquerda, que, muitas vezes, o tem entendido como uma espécie de ameaça ou obstáculo à ação política. Nas redes sociais, concepções acerca do que sejam sexismo, racismo, classismo, LGBTfobia, capacitismo, etarismo, entre outras formas de violência e segregação, inflamam atores moderados e extremados de diferentes nuanças ideológicas, supostamente assombrados pelo espectro do identitarismo. Nesse contexto, identidade e identitarismo passam a figurar discursivamente como causas ou efeitos dos mais variados cenários: da decadência moral à crise do nacionalismo, da adesão ao neoliberalismo à conspiração contra a luta de classes.
Palavras-chave: Identidade; Identitarismo; Semiótica
MARIELA LUIZA SALVINI
[Semiótica]
Beleza, feminilidade e consumo: uma investigação semiótica do anúncio creme perfeito dagelle
Considerada uma revista de ampla circulação no Brasil ao longo do século XX, o Jornal das Moças desempenhou papel significativo na difusão de conteúdos voltados ao comportamento feminino, à beleza, ao casamento, à maternidade e à vida doméstica, atuando como importante veículo na consolidação e disseminação de modelos sociais de feminilidade. Suas páginas não apenas informavam, mas também educavam, orientavam e normatizavam condutas, colaborando diretamente para a construção de ideais de mulher alinhados às expectativas morais, sociais e culturais de sua época. Nesse sentido, a revista funcionava como espaço privilegiado de circulação de discursos que reforçavam papéis de gênero e legitimavam determinadas formas de ser mulher na sociedade brasileira. Nesse contexto, este trabalho tem como objetivo analisar uma peça publicitária do Creme Perfeito, da marca Dagelle, publicada em 1940, investigando de que maneira a articulação entre linguagem verbal e visual participa da produção de sentidos sobre a mulher, sua imagem e seu lugar social. A análise fundamenta-se no conceito de semissimbolismo, proposto por Jean-Marie Floch (1985), a partir do qual se observa como elementos cromáticos, formais e espaciais organizam relações de sentido que vinculam beleza, prestígio social, reconhecimento afetivo e validação masculina ao corpo feminino. A publicidade, nesse caso, ultrapassa sua função comercial de promover um cosmético, atuando também como prática discursiva e ideológica que reforça normas culturais, padrões estéticos e estruturas de gênero. Em diálogo com Simone de Beauvoir ([1949]2019), especialmente no que se refere à constituição da mulher em relação ao olhar do Outro, discute-se como a identidade feminina é construída sob parâmetros externos de legitimação social, simbólica e afetiva. Evidencia-se, assim, que a peça publicitária analisada participa de uma lógica cultural que associa beleza à aceitação, felicidade, sucesso social e realização pessoal, contribuindo para a manutenção de hierarquias de gênero e para a naturalização de papéis femininos socialmente prescritos. Desse modo, o estudo contribui para a compreensão crítica das relações entre mídia, consumo, publicidade e construção social da mulher no Brasil, evidenciando como discursos midiáticos atuam na reprodução de valores históricos e sociais.
Palavras-chave: semiótica; beleza; Jornal das Moças
ANA CAROLINA DE PICOLI
[Semiótica]
A (re)construção do feminino na linguagem
Alguns dizeres são repetidos para mulheres, seja por homens ou pelas próprias mulheres, ao longo dos tempos. Frases que moldam o inconsciente coletivo de uma sociedade reiteradamente patriarcal. Frases que desenham em nossas mentes um perfil do que é “ser mulher” e, mais ainda, do que é “ser uma boa mulher”. Em contrapartida, isso evoca o que é “ser homem” e por meio de quais atitudes, posturas, sentimentos eles devem ser considerados “bons”. Assim, por meio da linguagem, a realidade é sempre (re)produzida. É a linguagem que coloca o mundo em funcionamento e estabelece também o modo como o vemos. Por meio de estruturas, muitas vezes, cristalizadas na linguagem que a forma do pensamento configura-se, ou seja, não existem ideias fora da linguagem (seja ela verbal ou não verbal). Tudo o que aprendemos desde a mais tenra idade apreendemos de acordo com a construção social, com a ideologia de uma determinada língua. O presente trabalho tem por objetivo refletir sobre essas estruturas, que geram uma construção social do que é ser “mulher” em uma sociedade patriarcal. Partindo da ideia de Hare-Mustin (2004), psicóloga e estudiosa do feminismo pós-moderno, de que o gênero é uma construção social proveniente da criação: de estereótipos para o que sejam “homem” e “mulher”, dos arranjos sociais que os separam, do estabelecimento e da manutenção de instituições sociais patriarcais e da construção da linguagem, analisamos um excerto do texto de Becky Korich de 2025 (publicado em razão do Dia Internacional da Mulher) à luz da semiótica discursiva. Considerando que é a linguagem que molda nossa maneira de enxergar o mundo, pautamos nossas reflexões nas relações estabelecidas cotidianamente com a linguagem, questionando como elas auxiliam ou não na perpetuação de determinados estereótipos do masculino e do feminino. Para tanto, recorremos aos estudos de Eric Landowski (2014) sobre os regimes de interação, Greimas (2014), Fiorin (1998) e Schwartzmann (2022).
Palavras-chave: Semiótica; Iteração; Linguagem
THIAGO EVERTON AYABE FERRARESSO DE SIQUEIRA
[Semiótica]
Direitos e prazeres: representações das práticas de liberdade sexual no jornal "Lampião da Esquina"
na perspectiva da semiótica do discurso Os discursos sobre as práticas de liberdade sexual ainda são, frequentemente, reproduzidos por um viés censurado, conservador e intimista. Em Chauí (1984), a filósofa brasileira afirma que repressões sexuais são construídas a partir de valores ideológicos a fim de controlar o exercício da sexualidade, uma vez que são vistas como perigo para uma sociedade conservadora. Esta pesquisa, inserida no simpósio temático intitulado “Semiótica, práticas e vida social”, preocupada com a vida, práticas identitárias e corpos de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, historicamente marginalizados pela sociedade, busca compreender como as práticas de direito à liberdade sexual (sexo grupal, nudez, prostituição, entre outros temas) são representadas no periódico LGBTQIAPN+ Lampião da Esquina (1978-1981), publicado durante o período da ditadura civil-militar brasileira. Procuramos entender igualmente como os discursos acerca das práticas da liberdade sexual constroem os aspectos da identidade, com base nas discussões de Portela et al. (2025) e Portela; Schwartzmann (2017). O presente estudo, tendo como fundamentação teórica a semiótica do discurso, parte do seguinte quadro teórico-metodológico: os planos de expressão e conteúdo do percurso gerativo do sentido, assim como as formas de vida, baseando-se em Fontanille (2008). Serve-se também de conceitos como semissimbolismo, figuratividade e plasticidade (Floch, 2004; Pietroforte, 2007; Teixeira e Oliveira, 2009). O córpus deste trabalho consiste em duas edições do periódico, respectivamente uma do ano de 1979 e outra de 1981, com destaque em uma capa e uma reportagem, focando em elementos verbovisuais que remetem às práticas de liberdade sexual mencionadas anteriormente. Partindo da ideia de Gomes (2009) de que o jornal é um texto sincrético, isto é, a fusão de diferentes linguagens, analisamos, além dos enunciados, elementos plásticos, como cores, composição de páginas, espaçamento das figuras presentes, diagramação e entre outros aspectos. Mesmo em andamento, as análises deste estudo levam a reflexão de dois pontos importantes: (I) o direito ao prazer é fundamental para a construção das formas de vida da comunidade LGBTQIAPN+; e (II) a liberdade do corpo é representada como um ato de resistência.
Palavras-chave: semiótica; identidade; Lampião da Esquina;
POLIANA MAGALHÃES OLIVEIRA
[Semiótica]
A função de conceptualização no arranjo sintagmático da linguagem cinematográfica
Nossa pesquisa tem como objetivo central compreender como se dá a construção da dimensão estética do filme enquanto objeto artístico. Partimos da abordagem da linguagem cinematográfica enquanto semiótica sincrética (Beividas, 1983) e consideramos o filme um enunciado cuja interface sensível pode ser mapeada por meio do aparato teórico oferecido pela teoria semiótica de linha francesa. Objetiva-se mapear quais estratégias de textualização são mobilizadas e como a superfície sensível do filme (enquanto texto) entra na constituição final de significação prevista por ele. Nosso empreendimento teórico e analítico parte do conceito hjelmsleviano de sincretismo, definido como “a categoria estabelecida por uma superposição (nos dois planos da língua)” (Hjelmslev, 2013, p. 93). Ainda que seus exemplos sejam mais fonológicos, o linguista dinamarquês traz contribuições para um conceito mais geral e sua manifestação por fusão ou implicação: quando ocorreria a “manifestação de um sincretismo que, do ponto de vista da hierarquia da substância, é idêntico à manifestação de todos ou de nenhum dos funtivos que entram num sincretismo” ou "a manifestação de um sincretismo que, do ponto de vista da hierarquia da substância, é idêntico à manifestação de um ou vários funtivos que entram no sincretismo, mas não de todos” (idem, p. 95). Além de fundamentarmos o conceito de sincronia em Hjelmslev, consideramos o modelo hipotético de Beividas em prol de uma significação global, elaborado para dar conta do arranjo das variadas formas de expressão que os diferentes códigos assumem em uma semiótica sincrética como o cinema. Esse arranjo seria então responsável por instaurar o “sentido da expressão” ou o efeito de sentido específico da linguagem em exame e sua constituição enquanto objeto semiótico. Sendo assim, Beividas concebe o código “como uma competência semiótica (do destinador e do destinatário), capaz de gerar e de articular a significação, cada vez mais refinadamente, em diferentes níveis de profundidade” (Beividas, 2006, p. 74). Como parte da pesquisa em desenvolvimento no doutorado, buscamos neste trabalho apresentar nossa investigação em Pottier (1974; 1978) do conceito de conceptualização, fenômeno fundamental de apreensão mental para seleção de elementos da percepção, segundo o qual seria possível criar simulacros metodológicos de construção desse mecanismo a partir do texto. Com isso, avançamos para um melhor entendimento e descrição do que propôs Beividas (1983) chamar de função de conceptualização, função esta que operaria a conversão sintagmática do arranjo pluricódico do filme em nosso estudo sobre a linguagem cinematográfica.
Palavras-chave: semiótica discursiva; linguagem cinematográfica; função
WENDELL LOPES DE AZEVEDO BRAULIO
[Semiótica]
A forma de vida hollywoodiana e a gramática da moda “universal”. Ou gramática da Branquitude?
Pretendemos refletir sobre a problematização das diferenças raciais no âmbito das análises de estilo na moda. Nesse sentido, a investigação é orientada pelas seguintes questões: qual é a “cor” das análises de moda? Em outra formulação: qual é a “cor” da própria moda? Para tratar dessas questões, realizamos uma análise do uso do vestido da grife paraense Normando pela atriz Alice Carvalho na cerimônia do Oscar. A peça foi confeccionada com tecido sustentável composto por fibras naturais de juta e malva amazônica, cultivadas de forma orgânica e artesanal, sem o uso de agrotóxicos ou pesticidas, irrigadas naturalmente pelos rios da região e trabalhadas pela iniciativa @somoscastanhal. Elaborado sob medida, com técnicas de alfaiataria e cauda sereia, o vestido constitui um exemplar de alta moda que celebra a bioeconomia amazônica. O presente estudo de caso da atriz Alice Carvalho tem como principal objetivo refletir semioticamente sobre duas análises de estilo no campo da moda, realizadas a partir de perspectivas distintas por duas profissionais de estilo: a primeira postagem, de Carol Berto (@carolbberto), realizada em 16 de março (https://www.instagram.com/p/DV9QjWcEVcF/?img_index=1), ela se descreve como uma profissional negra, situada fora da normatização dos corpos; a segunda e de Ana Rodrigues (@ana.estiloecoroutro), realizada em 17 de março (https://www.instagram.com/p/DWABWmSESwJ/), ela é uma profissional branca, comprometida com a normatização de corpos, mentes, cores e do status quo presente na moda. O estudo mobilizará conceitos da semiótica francesa (Floch, 1995; Fontanille & Greimas, 1993; Fontanille, 2008, 2014, 2017; Stange, 2018, 2024, 2025) e da escola semiótica brasileira (Barros, 2011; Fiorin, Portela & Schwartzmann, 2008; Fiorin, 1988, 2001a e 2001b, 2019; Schwartzmann, 2009, 2017, 2022). Como hipótese, sustenta-se que aquilo que se apresenta como uma suposta universalidade no campo da moda revela-se como uma construção situada, historicamente marcada e atravessada por relações de poder. Isso aparece no caso em questão, pois, ao tensionar essa normatividade no espaço altamente codificado do Oscar, a presença de Alice Carvalho instaura novas possibilidades de significação, contribuindo para a problematização dos regimes de visibilidade que estruturam o campo da moda. A análise comparativa de uma perspectiva racializada em detrimento de uma perspectiva universalizada poderá revelar que a chamada “gramática universal” da moda tende a operar como uma gramática da branquitude, ao naturalizar determinados corpos e repertórios simbólicos em detrimento de outros.
Palavras-chave: forma de vida; moda; branquitude;
CAROLINA PASQUOTE VIEIRA
[Semiótica]
Entre programação e ajustamento: o discurso médico e seus efeitos na vivência do câncer infantil
O discurso médico no contexto do câncer infantil pode ser analisado como um dispositivo que organiza relações, produz efeitos de sentido e orienta condutas, mobilizando os saberes e as práticas dos sujeitos envolvidos. Muitas vezes o discurso profissional se constrói de forma mecanicista e padronizada, operando pela programação, no que diz respeito aos regimes de interação (Landowski, 2014), e impondo um fazer ao outro. Em alguns momentos, há uma mudança para a manipulação, quando se estabelece um não saber no paciente, como se a posição de doença lhe atribuísse uma passividade e uma anulação de decisões. Em uma live realizada pela idealizadora do @institutoanaju em 12 de fevereiro de 2026, uma mãe oncológica relata: “E aí ela chegou e falou ‘é neuroblastoma, uma doença muito agressiva... e eu marquei uma cirurgia pra ele na terça e vamos começar a quimioterapia’. Ela falou ‘eu vou dar alta pra vocês nesse fim de semana e depois vocês vão internar sem previsão de sair, porque assim, eu não sei o que te falar, não sei se vai sair ou se não vai sair porque mãe é uma coisa que é muito agressiva”. Esse texto revela um discurso que se define pelo regime da programação, porque opera diretamente sobre as coisas. Também se nota a presença da manipulação quando é observada a tentativa de influenciar o outro sujeito a agir de forma determinada. Esse é apenas um exemplo de algo que se reitera, conforme pudemos observar em nossa pesquisa: nos momentos mais delicados da vivência do diagnóstico há uma predominância da programação, para que os riscos trazidos pelos questionamentos sejam minimizados. A análise dos discursos a partir dos regimes de interação permite compreender como diferentes modos de enunciação impactam a experiência do câncer infantil, podendo tanto reforçar a dimensão traumática quanto possibilitar formas mais compartilhadas e sensíveis de enfrentamento. A partir de nossa pesquisa com mães oncológicas, propomos que a busca por uma possibilidade de ajustamento no discurso dos profissionais envolvidos com os familiares poderia ser uma estratégia de reinvenção do discurso da família para a criança. Isso seria um fator que favoreceria outras vias de significação da experiência, contribuindo para uma alternativa mais saudável de vivência do percurso da doença e do tratamento. Essa outra possibilidade de construção do sentido poderia promover um registro de memória mais permeado pela extensidade, promovendo a redução de efeitos traumáticos, tanto nos familiares como nas crianças.
Palavras-chave: câncer infantil; regimes de interação; semiótica
VITOR MAGALHÃES DIAS
[Semiótica]
ENTRE LIBERDADE E OPRESSÃO: uma abordagem semiótica da estética distópica
Nas mais diversas sociedades e nos mais variados períodos, a História foi espectadora confiável da busca humana pela utopia comunitária, vendo, em repetidas ocasiões, o constante fracasso dos grupos sociais em atingi-la. Se por um lado tais discussões já ressoavam no campo literário-filosófico desde a Antiguidade, o advento do mundo moderno promove uma reconfiguração desses entendimentos, opondo o conceito de ‘utopia’, de certa forma estabilizado na cultura ocidental, com uma versão disfórica da realidade projetada, isto é, a ‘distopia’, cuja difusão se dá, principalmente, durante o século XX. Pensando nessas questões, o presente trabalho, amparado pela teoria semiótica de vertente greimasiana, busca aproximar a noção de uma ‘estética da distopia’ com o quadro conceitual da disciplina francesa, sobretudo observando as dimensões narrativas e discursivas pertinentes ao cerne do paradigma supracitado, além de esquadrinhar como a apreensão estética viabiliza uma projeção ético-ideológica do sujeito que enuncia. Assim sendo, recorremos às contribuições semióticas de Barros (2002; 2011), Fiorin (2004; 2021), Fontanille (2007) e Discini (2006), a fim de refletir como o programa narrativo de disjunção de uma determinada comunidade em relação ao objeto-valor ‘liberdade’ i) reverbera a apreensão de temas e figuras recorrentemente suscitados em obras da referida vertente literária e ii) possibilita o estabelecimento de um escopo enunciativo que, através do texto-enunciado, revela uma postura ideológica do enunciador. Para além, os trabalhos de Carpio (2022), Clayes (2011) e Moylan (2000) são fundamentais para firmar o diálogo entre o campo da teoria semiótica com os estudos do utopismo na literatura e no cinema, uma vez que tais produções propõem elementos mínimos para a compreensão da distopia enquanto conceito decorrente da ficção científica. Em nível último, a discussão contribuirá para um olhar analítico da série de romances Jogos Vorazes, cujo direcionamento para o público juvenil adiciona uma outra dimensão de significação e pertinência aos problemas teóricos previamente descritos.
Palavras-chave: Semiótica; Literatura; Distopia;
VINÍCIUS DOS SANTOS RIBEIRO
[Semiótica]
Práticas e estratégias científicas: saberes científicos e saberes divulgados sobre a Covid-19
O presente trabalho tem como temática central a construção e a circulação da divulgação científica, compreendida como uma prática discursiva que envolve a mediação do saber entre a esfera acadêmica e a esfera pública. Nosso corpus é formado por textos da Revista Pesquisa FAPESP e por postagens em redes sociais sobre a pandemia de Covid-19, selecionados a partir de um recorte temporal específico (de março de 2020 a fevereiro de 2021) e analisados considerando seu caráter sincrético, que articula diferentes linguagens (verbal, visual, diagramática etc.). O objetivo desta pesquisa de Doutorado, ainda em fase inicial, é identificar e descrever os mecanismos de construção do discurso de divulgação científica, bem como compreender as estratégias por meio das quais o saber científico é transposto, reconfigurado e colocado em circulação para públicos não especializados. Com isso, pretendemos contribuir para a compreensão da divulgação científica enquanto prática semiótica, além de propor reflexões, no âmbito da semiótica discursiva, sobre os modos de produção de sentido, de veridicção e de mediação do conhecimento. Nosso trabalho tem como fundamento a teoria semiótica de base greimasiana e seus desdobramentos contemporâneos, especialmente as contribuições de Fontanille (2005; 2008) acerca das práticas e estratégias semióticas e de Zilberberg (2004) sobre a sintaxe da mestiçagem. A pesquisa dialoga também com a teoria da transposição didática proposta por Chevallard (1991 [1985]), na medida em que considera a divulgação científica como um processo de transformação e recontextualização do saber. A análise dos textos selecionados buscará examinar tanto o plano do conteúdo, a partir do percurso gerativo do sentido, quanto o plano da expressão, considerando aspectos como organização visual, disposição dos elementos e recursos multimodais. O enfoque recai, sobretudo, sobre o nível discursivo, com atenção às estratégias de veridicção, à construção das imagens de enunciador e enunciatário e aos modos de dizer a ciência em diferentes esferas de circulação. Por se tratar de uma pesquisa em desenvolvimento, ainda não apresentamos resultados conclusivos; contudo, esperamos que as análises permitam evidenciar diferentes modos de construção da divulgação científica, contribuindo para o avanço das discussões sobre linguagem, ciência e sociedade, bem como para o fortalecimento do letramento científico em contextos contemporâneos.
Palavras-chave: Semiótica; Divulgação Científica; Covid-19;
KELLY PRAXEDES PEREIRA DA CRUZ
[Semiótica]
Análise semiótica de estereótipos de pessoas negras na telenovela
Senhora do Destino Deve-se entender que, ao longo da história, foi-se associado à figura da pessoa negra características negativas, moldadas com o passar do tempo e reforçadas como estereótipos, sem levar em consideração o contexto em que esses indivíduos foram colocados e quem os impôs nessa condição. Essa padronização da condição social de uma pessoa negra, trataremos como estereótipo. O intuito desta pesquisa é analisar como são construídos esses estereótipos ruins associados a pessoas negras e como a mídia utiliza de seus materiais para evidenciar características ruins nessas personagens, para que elas sejam reconhecidas por esses papeis sociais que as foram condicionadas. É de grande importância expor essas práticas discriminatórias que, por muitas vezes, aparecem de forma “escondida” e quase imperceptível, para que assim possamos reconhecê-las e combatê-las. Utilizando os conceitos de tematização e figurativização, vamos examinar os discursos tanto das personagens negras, como também dos demais personagens ao se referirem a elas, entendendo as sutis marcas nessas falas que são utilizadas para desenvolvê-los (de forma ruim) dentro da trama, para apreender esse aspecto mais sub/objetivo presente no enunciado. A semiótica nos auxilia a encontrar essa imagem estereotipada, analisando não somente o campo discursivo, como também o visual da telenovela, observando a forma como o enunciador caracteriza os personagens, onde nos reforçam as questões raciais, ideológicas e sociais ali presentes. É necessário compreender o objetivo midiático, que é atingir ao máximo seus telespectadores. Portanto, nota-se a necessidade de colocar pessoas negras nesses papeis, com o objetivo de que seja aceito com mais facilidade pela sociedade, que assistirá a essa mídia e logo compreenderá os papeis passados pelo enunciador. Com isso, a sociedade consome o discurso (que, no caso do corpus analisado, se passa na emissora considerada como a maior do Brasil) e reproduz essas práticas discriminatórias como verdade única. Onde não somente pessoas brancas passam a reproduzi-las, como também as pessoas negras que, ao consumir esse conteúdo, acreditam nesses papeis trazidos como verdadeiros: “Ao mesmo tempo em que os papéis normalizam e estabilizam as relações entre as pessoas, também podem bloquear a espontaneidade e a liberdade de ação.” (BAGGIO, 2016). Assim, passam a colocar em sua consciência que esses são os únicos espaços em que elas podem pertencer, entendendo também essa verdade como única. Concluindo então, que não somente a mídia é um reflexo da sociedade, como também a sociedade é um reflexo da mídia.
Palavras-chave: racismo; estereótipo; semiótica
LEANDRO LIMA RIBEIRO
[Semiótica]
Arte e estilo: por uma tipologia da arte contemporânea do carnaval do
Rio de Janeiro O desfile de escola de samba, objeto desta comunicação, tem sido amplamente abordado por perspectivas antropológicas, históricas e sociológicas, desde os estudos pioneiros de Roberto DaMatta ainda no século passado até as reflexões de Muniz Sodré e Carlos Sandroni sobre a significação do samba. Predomina, nesses campos, a compreensão do desfile de carnaval como prática sociocultural, enquanto sua dimensão plástica e estilística tende a ser tratada de forma secundária ou dissociada. Diante disso, proponho-me aqui uma abordagem semiótica que seja capaz de dar conta das estruturas de significação de modo mais amplo à luz do quadro teórico-metodológico da semiótica greimasiana de linha francesa. Meu intuito é, mais precisamente, examinar as propriedades plásticas de alegorias carnavalizadas de quatro importantes artistas do carnaval do Rio de Janeiro na contemporaneidade. São eles: Leandro Vieira; Paulo Barros; Leonardo Bora e Gabriel Haddad; e Tarcísio Zanon. Resultados preliminares apontam que as alegorias produzem uma enunciação poética que incide no seu modo de enunciar de acordo com as funções de deslocamento (objetivo funcional), de projeção (materialização cênica); de interação com o público (experiência perceptiva do destinatário/observador em relação ao objeto); e de carnavalização da linguagem (através de técnicas de inversão, ridicularização, estilização, ambivalência, pluriestilismo, pluritonalidade etc.) A partir disso, estabeleceu-se quatro regimes de construção estética: a fragmentação em Leandro Vieira, pela recusa da monumentalidade totalizante, abrindo espaços vazados e recortes carnavalizados; a cinetização em Paulo Barros, representado pelo show dentro do show, com impacto visual imediato e de fácil leitura pelo público; a bricolagem em Bora e Haddad, que articula linguagens heterogêneas em tensão produtiva; e a compactação em Zanon, marcada pela predominância da simetria e da harmonia formal, muitas vezes evocando uma estética neobarroca ou rococó. Cada um desses regimes cria uma identidade de fácil reconhecimento do artista e da escola de samba em que se realiza.
Palavras-chave: Desfile de escola de samba; Samba; Significação
SUZI MARQUES SPATTI CAVALARI
[Linguística Aplicada]
Autonomia na aprendizagem de línguas: estado da arte e perspectivas
O objetivo deste trabalho é apresentar os resultados de uma revisão de escopo (scoping review), ou estado da arte, que, de acordo com Chong e Reinders (2022) se refere a um tipo de revisão sistemática da literatura que pode sintetizar dados qualitativos e/ou quantitativos. Neste estudo, adotamos abordagem qualitativa, com vistas a mapear a literatura existente sobre o conceito de autonomia e suas relações com a metacognição no contexto do ensino-aprendizagem de línguas (Cavalari et al., em andamento). Trata-se de uma revisão de caráter exploratório que mapeou 80 estudos teóricos e empíricos publicados em livros e jornais de alta relevância em três línguas (português, inglês e francês), no período de 2000 a 2025. O levantamento concentrou-se nas principais definições mobilizadas, nos quadros teórico-metodológicos mais recorrentes e nas implicações científicas e pedagógicas identificadas na literatura. A análise evidenciou que os conceitos de autonomia e metacognição estão frequentemente interligados e, em alguns casos, são empregados de forma intercambiável (Garcia et al., 2017). No âmbito das pesquisas sobre autonomia, a metacognição é, em geral, concebida como uma dimensão central, quando não a principal, para o desenvolvimento da aprendizagem autônoma, especialmente no que se refere à capacidade do aprendiz de planejar, monitorar e avaliar seus próprios processos de aprendizagem. Os resultados também apontam para uma ampliação e uma reconfiguração da noção de autonomia, que deixa de ser compreendida como um estado estático para ser concebida como um processo dinâmico e situado (Dam; Legenhausen, 2011; Benson, 2022). Do ponto de vista científico, os achados reforçam a relevância de abordagens integrativas que permitam investigar a autonomia a partir da intersecção entre fatores cognitivos, sociais, emocionais e políticos (Paiva, 2009; Tassinari, 2012). No plano pedagógico, destaca-se a necessidade de fomentar práticas que incentivem a reflexão e a verbalização, por parte dos aprendizes, acerca das relações que estabelecem entre esses diferentes elementos no processo de aprender línguas.
Palavras-chave: autonomia; aprendizagem de línguas; estado da arte;
ROSÂNGELA APARECIDA DANTAS DE OLIVEIRA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Translanguaging, reflexão metalinguística, metacognição e autonomia no teletandem: articulações teórico-metodológicas
Este trabalho é um recorte de uma pesquisa de pós-doutorado que tem como objetivo aprofundar o entendimento sobre o uso de translanguaging (García, 2009; García; Wei, 2014; Cenoz; Gorter, 2020) em parcerias de Teletandem (TTD) (Telles, 2009), explorando sua relação com a reflexão metalinguística (Swain; Lapkin, 2000) e com os processos metacognitivos ligados ao desenvolvimento da autonomia (Holec, 1979, 1981; Little, 2012; García, O’Connor e Cappellini, 2017). A amplitude das pesquisas sobre autonomia na aprendizagem de línguas apontam para sua complexidade e multiplicidade de dimensões. O tema vem recebendo atenção em projetos de intercâmbio virtual voltados para a aprendizagem de línguas. Nesses contextos, a presença de recursos que permitam aos aprendizes fazer registros sobre a experiência é um elemento-chave (Moon, 2004; Cappellini, 2015). Sob a forma de diários de aprendizagem, questionários, blogs etc, são eles que propiciam os processos metacognitivos tradicionalmente associados ao desenvolvimento da autonomia - definição de objetivos, seleção de recursos e estratégias e monitoramento e avaliação da aprendizagem -, e também reflexões ligadas às suas outras dimensões. As verbalizações dos aprendizes, portanto, são tanto ferramentas para eles mesmos, quanto fonte de dados para pesquisas que contribuirão para o aperfeiçoamento informado das práticas telecolaborativas. Little (2012) relaciona o desenvolvimento da autonomia ao desenvolvimento linguístico do aprendiz, o que nos lembra que, na aprendizagem de línguas, a linguagem é simultaneamente meio de comunicação e objeto de aprendizagem. Nesse cenário, até onde sabemos, há poucos trabalhos que exploram a interface entre reflexão metalinguística e metacognição no contexto de TTD. Nosso olhar sobre o tema recai sobre a mobilização do repertório linguístico dos interagentes nas negociações de significado durante as sessões orais síncronas, entendo-as como um potencial disparador de reflexões sobre o funcionamento da(s) língua(s) e, portanto, para um dos processos metacognitivos envolvidos no desenvolvimento da autonomia. Trabalhamos com dados do MulTeC (Aranha, Lopes, 2019) e investigamos verbalizações nos diários reflexivos e os episódios das sessões orais que lhes deram origem. Nesta comunicação, apresentaremos o percurso teórico-metodológico que articula os diferentes construtos que foram mobilizados no estudo. ( Apoio CAPES).
Palavras-chave: autonomia; teletandem; translanguaging;
LAURA RAMPAZZO
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
A dinâmica jornada emocional dos participantes no teletandem: uma investigação a partir do viés da complexidade
Esta comunicação parte do entendimento do conceito de autonomia como um construto multidimensional e complexo (Paiva, 2006; Stringer, 2025; Tassinari, 2012). A partir dessa concepção, discute-se sua dimensão emocional na trajetória de participantes de um teletandem institucional integrado (TTDii) (Aranha; Cavalari, 2014). Especificamente, propõe-se apresentar e discutir resultados de um estudo que mapeou a jornada emocional de participantes no teletandem conforme os aprendizes refletiam sobre a experiência de aprendizagem em seus diários escritos semanalmente. A investigação adotou uma abordagem de métodos mistos para analisar 59 diários de 10 aprendizes que participaram do TTDii em 2025. O foco da análise esteve na interação entre as emoções de realização (Pekrun, 2006, 2023; Shao et al., 2023) por eles expressas e os componentes do modelo complexo de autonomização (Borges, 2019, 2022, 2024). Em uma primeira etapa, adotando os procedimentos sugeridos por Ferro, Cavalari e Cappellini (2026), foram identificadas e etiquetadas as expressões de emoção, controle e valor nos diários dos aprendizes. Essa fase incluiu a classificação das emoções em quatro categorias, quais sejam positivas ativadoras, positivas desativadoras, negativas ativadoras e negativas desativadoras. Esse procedimento foi seguido pela etiquetação dos componentes de autonomização (Borges, 2019) em segmentos previamente codificados para emoção, controle e valor. Além disso, identificou-se a frequência de correlação entre as etiquetas e sua variação estatística, cujos resultados corroboram o entendimento do desenvolvimento da autonomia como um fenômeno orientado socialmente e, simultaneamente, individual, como evidenciado pela variação na distribuição das etiquetas. Nesta comunicação, enfatizam-se os resultados da descrição qualitativa das trajetórias emocionais a fim de responder a quais são as jornadas emocionais dos participantes nesta experiência telecolaborativa. Por meio de figuras que ilustram a trajetória emocional ora ascendente, ora descendente e ora estável dos participantes, enfatizam-se os padrões emocionais predominantes, isto é, de que maneira as emoções em suas quatro classificações se relacionam a outros elementos em seu processo de aprendizagem no teletandem.
Palavras-chave: telecolaboração; autonomização; sistemas complexos
MARIA DO PERPÉTUO SOCORRO DE OLIVEIRA SANTOS
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Autonomia e motivação na aprendizagem de línguas: quando as linhas se entrelaçam
Este trabalho busca investigar a relação entre os conceitos de autonomia e motivação em contexto de aprendizagem de línguas, seguindo a esteira de estudos anteriores (Ushioda, 2000, 2011; Ueki; Takeuchi, 2013). O interesse pela pesquisa surgiu como intento de revisar a literatura e bibliografia existentes na área nos últimos anos. Para tanto, adotou-se a metodologia da revisão bibliográfica narrativa, que permite uma compreensão mais ampla e interpretativa do conhecimento produzido sobre um tema específico e favorece a articulação entre diferentes perspectivas teóricas (Cavalcante; Oliveira, 2020). Os estudos sobre autonomia na aprendizagem de línguas revelam um consenso sobre a sua definição como a capacidade de se responsabilizar pela própria aprendizagem (Holec, 1979; Little, 2003). Holec (1979) englobou nessa definição todos os aspectos relacionados à aprendizagem: estabelecimento de metas, definição de conteúdos e progressões, seleção de métodos, monitoramento do processo e avaliação. O avanço dos estudos sobre autonomia evidenciou lacunas. Little (2012) e Benson (2022) propuseram que se repense o conceito de autonomia, pois existe a tendência de se pensar mais individualmente, por razões econômicas e sociais, inclusive na aprendizagem de línguas. Tassinari (2012) e Cavalari et al. (em andamento) abordaram as diversas dimensões da autonomia: a cognitiva, com a regulação da aprendizagem; a emocional, por meio da regulação das emoções; a social e sociocultural, por meio da interação dos aprendizes, de diferentes culturas, na língua-alvo; a tecnológica, com recursos que podem promover uma aprendizagem autônoma e, finalmente, a política, com a ideia de uma educação democrática. Em meio a essas dimensões e componentes, destaca-se, neste trabalho, a motivação, que pode ser caracterizada como um fenômeno complexo e multifacetado (Kami, 2011) e que tem como prioridade elementos influenciadores, a depender de um dado contexto e da forma pela qual será abordada. Os estudos sobre motivação, segundo Dörnyei (2000), buscam elucidar três aspectos relativos ao comportamento humano: (i) a razão pela qual as pessoas decidem realizar determinadas ações, (ii) por quanto tempo elas estão dispostas a sustentar tal atividade e (iii) quais estratégias serão utilizadas para alcançar essa meta estabelecida inicialmente. Ainda, segundo Ushioda (2011) a motivação e a metacognição estão altamente relacionadas, pois, segundo a autora, o exercício da metacognição e do controle sobre os processos de pensamento estratégico, só pode acontecer quando acompanhado de motivação ou vontade de fazê-lo. A análise dos estudos enfocados revela que eles estão imbricados e são interdependentes, posto que um é condição para o outro.
Palavras-chave: Autonomia; Motivação; Aprendizagem de línguas
Apresentação de Trabalhos – Simpósios
ADRIANA CICERA AMARAL FANCIO
[Análise do Discurso]
Contradições discursivas entre a lei e a publicidade no programa Conta pra Mim (MEC 2019)
Há um conjunto de discursos materializados em campanhas e programas destinados ao fomento da leitura no âmbito de políticas públicas, as quais, muitas vezes, não são implementadas efetiva e adequadamente por estarem reféns da sazonalidade e da descontinuidade próprias de agendas políticas descomprometidas com a promoção efetiva da igualdade social e de direitos do cidadão. Desse modo, muitas crianças, jovens e adultos continuam sem acesso ao aprendizado efetivo e eficaz da leitura, a livros de qualidade, a espaços e circunstâncias de convívio leitor, afetando assim uma das formas culturais de promoção da equidade de direitos em nosso país. Esse cenário e a falta de equidade resultam em um abismo sociocultural entre ‘herdeiros’ e ‘não herdeiros’ (CHARTIER, 2019). Partindo de uma série de estudos dedicados à análise dos discursos sobre a leitura, neste trabalho, objetivamos depreender discursos sobre a leitura por meio da descrição e interpretação de enunciados do conjunto de documentos de institucionalização e de propaganda do Programa do Governo Federal, de iniciativa do Ministério da Educação, intitulado Conta pra Mim (2019) sobre a leitura e sobre os leitores no Programa Conta pra mim destinado à promoção da leitura. Para isso, analisaremos parte do material que compõe o Programa, como os textos de seu anúncio e publicidade, e outros que constituem propriamente o acervo elaborado para a implementação do Programa, a saber, um Guia de Literacia Familiar, e os artigos de lei que o regulam, especialmente o 2º, da Portaria nº 421. Para tanto, nosso estudo está ancorado em princípios da Análise do Discurso e da História Cultural, especialmente naqueles que se dedicaram direta ou indiretamente ao tema da leitura, Chartier (2019), Abreu (2018) e Curcino (2019). Este trabalho faz parte da nossa pesquisa de doutorado, em cujas análises pudemos depreender contradições em relação ao que é enunciado verbalmente no Artigo 2º, aludido indiretamente no Guia norteador do Programa Conta pra mim, nos quais se apresenta como público-alvo a ser atendido prioritariamente pelo programa “as famílias em situação de vulnerabilidade”, e as representações deste público, especialmente imagéticas, nas campanhas e vídeos publicitários de divulgação do Programa. É esse caráter díspar e paradoxal que exploraremos mais detidamente nesta nossa análise, voltada para a reflexão sobre os discursos sobre a leitura que hoje são difundidos e circulam com valor de verdade, consensualmente em nossa sociedade, naturalizando a evocação dessa prática como uma forma de hierarquização sociocultural dos sujeitos.
Palavras-chave: Leitura; Discurso; Programas do Governo Federal
ADRIANA ZANON BENE
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Lócus de enunciação decoloniais em um minicurso de português língua estrangeira para aprendentes do Sul Global
O presente trabalho enquadra-se na área temática de ensino-aprendizagem de língua estrangeira, consistindo em uma proposta para apresentação em simpósio temático. Ele é produto de um recorte da tese, em desenvolvimento, da pesquisadora e de sua orientadora, a qual consiste na elaboração e aplicação de um minicurso de português língua estrangeira (PLE), pautado na pedagogia decolonial, direcionado a aprendentes do Sul Global. A pedagogia decolonial consiste em uma perspectiva que preza o diálogo entre múltiplos saberes e culturas, de modo a combater um pensamento hegemônico que defende a superioridade de determinadas culturas, sujeitos e conhecimentos (Figueiredo, 2021; Walsh, 2013). Trata-se, portanto, de uma concepção que viabiliza a promoção de espaços de escuta para que sujeitos historicamente subalternizados compartilhem suas culturas e conhecimentos (Leroy & Santos, 2018). Tendo isso em consideração, o estudo em pauta objetiva identificar os lócus de enunciação dos/as aprendentes manifestados durante as interações linguístico-discursivas entre eles/elas e as professoras, com foco nos relatos sobre a colonização de seus países de origem e sua relação com a imposição religiosa cristã, bem como nos discursos sobre memória afetiva e comidas típicas. O minicurso foi composto por quatro aulas (uma aula semanal), com duração de duas horas cada, ministrado na modalidade on-line. No trabalho em questão, analisamos os discursos construídos nas aulas dois e quatro, as quais focaram nas temáticas supracitadas. Em relação ao público-alvo, esse foi composto por seis alunos/as, de diferentes nacionalidades (colombiano, boliviano e timorense), com conhecimento intermediário e/ou avançado da língua portuguesa. Quanto à construção dos dados, utilizamos como instrumentos de coleta de dados os discursos orais dos/as estudantes por meio da transcrição de seus relatos, coletados a partir das gravações das aulas, além das anotações em diários reflexivos das professoras ministrante e observadora. Os instrumentos foram analisados por meio da Análise de Conteúdo (AC), uma sistematização rigorosa e estruturada, composta por três fases: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados e interpretação. A partir da análise dos resultados, constatamos que o minicurso consistiu em um espaço de escuta e expressão de lócus de enunciação decoloniais, que desconstruíram “histórias únicas” a respeito de seus países de origem, trazendo suas próprias vivências, culturas e realidades. Entendemos a limitação do estudo quanto à ampla gama de possibilidades da perspectiva decolonial no contexto em questão e esperamos que a presente pesquisa seja um incentivo para a ampliação do debate da pedagogia decolonial na área de PLE.
Palavras-chave: Lócus de enunciação; Português Língua Estrangeira;
ADRIANO CHAN
[Linguística Cognitiva]
Formação de repertório sociocultural e produção textual no Ensino Médio: uma abordagem sociocognitiva baseada em Michael Tomasello
A formação de repertório sociocultural constitui um dos principais desafios enfrentados por professores de redação no Ensino Médio, especialmente em contextos de preparação para exames vestibulares e avaliações em larga escala. Tradicionalmente, o ensino da escrita esteve associado à pressuposição de um conjunto relativamente estável de referências culturais consideradas canônicas e socialmente legitimadas. Com a popularização da internet e das redes digitais, contudo, esse paradigma foi profundamente transformado. A ampliação do acesso à informação e a multiplicação de comunidades discursivas resultaram na fragmentação dos referenciais culturais e na constituição de múltiplos cânones, vinculados a diferentes grupos sociais e ambientes virtuais. Embora esse cenário tenha ampliado significativamente o universo de conhecimentos disponíveis aos estudantes, a predominância de práticas de leitura hipertextuais, rápidas e descontínuas tende a dificultar processos de reflexão aprofundada e de articulação entre ideias, competências essenciais para a produção de textos argumentativos consistentes. Este trabalho apresenta os resultados de uma investigação qualitativa baseada na análise longitudinal de versões sucessivas de textos produzidos em sala de aula a partir de uma mesma proposta de redação. O objetivo é descrever práticas pedagógicas que favorecem a mobilização do repertório sociocultural e propor uma interpretação teórica fundamentada na perspectiva sociocognitiva de Michael Tomasello. Segundo o autor, a linguagem e a construção do conhecimento emergem de processos de intencionalidade compartilhada, atenção conjunta e cooperação social, por meio dos quais os indivíduos atribuem sentido às práticas comunicativas em contextos de uso. À luz desse referencial, argumenta-se que a valorização exclusiva de repertórios tradicionalmente canonizados pode constituir um obstáculo para estudantes que já dispõem de conhecimentos significativos oriundos de suas experiências digitais e culturais. Ao reconhecer tais repertórios como recursos legítimos de argumentação, o professor cria condições para que os alunos compreendam a função pragmática do repertório na construção do texto. Uma vez estabelecida essa compreensão, observa-se maior abertura para a incorporação de referências historicamente institucionalizadas, agora percebidas como instrumentos efetivos de ampliação argumentativa. Os resultados sugerem que uma abordagem baseada no uso e na funcionalidade social do conhecimento pode contribuir para o desenvolvimento da escrita e para a ressignificação do conceito de repertório sociocultural no ensino de redação. KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e escrever: estratégias de produção textual. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2018. TOMASELLO, Michael. A Natural History of Human Thinking. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014. TOMASELLO, Michael. Becoming Human: A Theory of Ontogeny. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2019.
Palavras-chave: repertório sociocultural; produção textual e ensino
AGNES EDUARDA DA SILVA BRITO
[Análise do Discurso]
Arqueogenealogia da Análise de Discurso no Brasil: epistemologias insurgentes e colonialidades em disputa
A presente pesquisa apresenta uma investigação arqueogenealógica da institucionalização da Análise de Discurso no Brasil, com foco nas heranças coloniais que estruturam o campo científico e acadêmico e influenciam como os saberes discursivos foram constituídos e legitimados nas universidades brasileiras. Esta pesquisa será conduzida a partir dos Estudos Discursivos Foucaultianos. Para tal, utiliza-se da arqueologia (Foucault, 2007), a fim de mapear as condições de emergência e as regras de formação dos discursos, e da genealogia (Foucault, 1979), para rastrear as relações de saber e de poder entrelaçadas nas formações discursivas que estão imbricadas nos processos da constituição da Análise de Discurso como campo científico no Brasil. Partindo deste método, o estudo objetiva investigar de que modo os saberes coloniais influenciaram a constituição epistemológica e a institucionalização da Análise de Discurso nas universidades brasileiras. Organiza-se em três partes: história dos saberes (de)coloniais, historiografia da Análise de Discurso e a análise de discursos institucionais sobre a teoria como campo do saber no Brasil. Neste momento, privilegia-se a apresentação do desenvolvimento da primeira seção da pesquisa: um capítulo de articulação teórico-metodológica entre a noção foucaultiana de insurreição dos saberes subjugados com as categorias de colonialidade do poder, do saber e do ser com o conceito de agrietar (do espanhol, criar fissuras) a universidade presentes nos estudos decoloniais intermediados por autores como Quijano (2004), Mignolo (2014) e Walsh (2023). Por meio desse diálogo teórico-metodológico, espera-se evidenciar as tensões produzidas entre a continuidade das narrativas do Norte com a ruptura gerada pelos debates que legitimam a decolonialidade, cada vez mais recorrentes nas universidades do Sul. Com esse propósito, a pesquisa contribui para uma abordagem que reconheça a pluralidade epistêmica no contexto pós-colonial periférico e valorize a produção intelectual deste espaço no que tange às Análises de Discurso no Brasil e os Estudos Discursivos Foucaultianos. (CAPES - PROEX)
Palavras-chave: Historiografia; Estudos decoloniais; Arqueogenealogia da
ALANA DESTRI
[Análise do Discurso]
Análise dialógica do discurso: proposta de roteiro aberto para iniciantes
A análise dialógica do discurso é uma metodologia de análise de/do discurso que se fundamenta no ideário teórico-metodológico do Círculo de Bakhtin. Praticada no Brasil desde a recepção das obras russas traduzidas, o termo popularizou-se em 2006 após a publicação de Análise e teoria do discurso de B. Brait. Essa distinta área de análise de/do discurso encontra-se hoje consolidada e em franca expansão de interesse acadêmico. Está no cerne dessa abordagem a possibilidade do estabelecimento de relações variadas, múltiplas e complexas entre enunciados concretos. Tal abertura infindável para o dialogismo está de acordo com a dinâmica e a constituição da linguagem situada. Diante disso, a análise dialógica do discurso é incompatível com um posicionamento neutro diante do objeto e com a aplicação de um método rígido, fechado e linear – é justamente aí que está uma das grandes riquezas da ancoragem bakhtiniana. Tamanha liberdade para construção de sentidos por vezes desorienta o pesquisador iniciante que, dando atenção metodológica para determinados elementos, acaba deixando de lado outros igualmente importantes para a composição de sua análise dialógica. Com base na teia conceitual do Círculo e no artigo Análise dialógica do discurso: uma revisão sistemática integrativa de R. Marchezan e A. Destri, este trabalho objetiva pôr em discussão um possível roteiro aberto para potencializar a atividade analítica dialógica de pesquisadores iniciantes, em especial graduandos. É importante destacar o aspecto aberto desse roteiro, visto que, longe de engessar o processo analítico, dispõe de um conjunto de indagações a serem feitas de modo livre ao objeto de pesquisa, a fim estimular o estabelecimento de relações entre sujeitos, enunciados e formas da língua. Esse material pode ser útil para que o pesquisador iniciante, aliado a um conhecimento adequado da teoria bakhtiniana, desenvolva confiança metodológica a ponto de construir seus próprios caminhos analíticos – rigorosos em termos de mobilização da teoria bakhtiniana, profundamente maleáveis em resposta metodológica à natureza viva do enunciado concreto.
Palavras-chave: Análise dialógica do discurso; Enunciado concreto;
ALESSANDRO JOCELITO BECCARI
[Historiografia Linguística]
A concepção de gramática do modista Boécio da Dácia
Esta comunicação tem como objetivo apresentar a concepção de gramática que emana das primeiras 28 questões (ou capítulos) do tratado gramatical Questões sobre os modos de significar, de Boécio da Dácia, uma das primeiras e mais representativas discussões sobre os modos de significar, ou gramáticas especulativas. Boécio da Dácia (c. 1235-1280) foi autor polêmico: visto como cético do equilíbrio entre fé e razão, para quem a filosofia era o único meio de acesso seguro ao conhecimento e à suprema realização intelectual e humana. Não sabemos muito sobre sua biografia, apenas que provinha do país hoje conhecido como Dinamarca, que atuou como mestre na Faculdade de Artes da Universidade de Paris entre 1269 e 1280, que possivelmente deixou a França após ter sido citado nas condenações de 1277 pelo bispo Étienne Tempier. Sabemos que terminou seus dias provavelmente como frade dominicano, em lugar ignoto, talvez a Dinamarca natal (Ebbesen, 2020). Um polímata, Boécio da Dácia escreveu sobre ética, retórica, metafísica, lógica, filosofia natural, e um tratado seminal de gramática especulativa, cuja primeira parte são as questões de que se deriva nosso objeto de pesquisa: uma concepção de gramática. As Questões sobre os modos de significar (Pinborg; Roos; Jensen, 1969) foram escritas provavelmente entre 1269 e 1272. O texto discute o Prisciano maior, que é a parte mais extensa da obra conhecida como Institutiones grammaticae ou Ars Prisciani, escrita por Prisciano Cesariense em Constantinopla por volta do ano 525 d.C., cerca de 50 anos depois da queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.). Esta comunicação resulta de um trabalho de pesquisa de iniciação científica (2025), em que o proponente e seu orientando, Mauro Max – graduado em Letras na Unesp de Assis – traduziram, interpretaram e analisaram as 28 questões. Em nosso estudo, guiamo-nos pelos pressupostos teóricos e metodológicos da Historiografia Linguística, entendida como disciplina voltada à abordagem crítica do contexto, imanência e apresentação adequada e não anacrônica de narrativas linguísticas do passado (Koerner, 2014). Ademais, entendemos que nossa pesquisa é de natureza epi-historiográfica (Swiggers, 2010), já que se baseia em um texto metalinguístico, produzido por agentes do passado, escrito em latim, texto este de que selecionamos e traduzimos 28 capítulos, permitindo que sua concepção de gramática fosse analisada e compreendida.
Palavras-chave: Gramaticografia; Gramática Especulativa; Boécio da
ALEXANDRE BUENO SANTA MARIA
[Linguística Cognitiva]
Metáforas esmurram a literalidade em blogs de política: integrações conceptuais em processos de argumentação
Este trabalho é fruto de uma pesquisa de doutorado que investiga o uso de metáforas como ferramentas argumentativas em blogs de política, com o objetivo de analisar os atributos cognitivos e retóricos mobilizados na construção da argumentatividade e da persuasão nesse gênero digital. Parte-se da constatação de que as metáforas são recorrentes em textos argumentativos e assumem papel especialmente relevante em ambientes digitais, nos quais blogs políticos participam da circulação de sentidos, da disputa de interpretações e da formação da opinião pública. Com isso, a pesquisa afasta-se da concepção tradicional de metáfora como mero recurso estilístico ou ornamental, compreendendo-a como mecanismo cognitivo, discursivo e retórico de organização da experiência e de orientação argumentativa. O estudo fundamenta-se na teoria sociodiscursiva dos gêneros textuais, na Teoria da Metáfora Conceptual, desenvolvida no campo da Linguística Cognitiva, na integração conceptual e em contribuições da Retórica. A articulação desses referenciais permite compreender a metáfora tanto como forma de conceptualização quanto como estratégia de persuasão, capaz de estruturar modos de pensar, avaliar e argumentar sobre acontecimentos políticos e sociais. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, baseada na análise de conteúdo de postagens selecionadas de blogs de política. Foram consideradas as condições de produção e circulação do gênero, bem como suas características composicionais, linguísticas e enunciativas. A análise buscou identificar como as metáforas participam da construção dos argumentos, da avaliação dos atores políticos e da mobilização de posicionamentos discursivos. Os resultados indicam que as metáforas desempenham papel central na argumentação em blogs de política, pois contribuem para tornar fenômenos sociais e políticos mais acessíveis, avaliáveis e persuasivos. Elas favorecem novas formas de compreensão dos acontecimentos, mobilizam afetos, orientam interpretações e colaboram para a adesão do leitor a determinados pontos de vista. Desse modo, os blogs de política configuram-se como espaços significativos de língua em uso, nos quais linguagem, cognição e disputa sociopolítica se articulam. A pesquisa contribui para a sistematização do conhecimento sobre o uso estratégico de metáforas em textos argumentativos digitais e aponta possíveis aplicações para profissionais da linguagem, como jornalistas, advogados, professores e redatores. Também sugere desdobramentos pedagógicos para o ensino da argumentação e indica a necessidade de estudos futuros sobre a recepção e o impacto das metáforas em diferentes audiências digitais.
Palavras-chave: Argumentação; Linguística Cognitiva; Metáfora
ALEXANDRE MARCELO BUENO
[Semiótica]
#(ME)Moria: presença e ausência em um dispositivo de refugiados
A crise de refugiados é um dos principais problemas humanitários existentes nos dias atuais. A vida de pessoas que são obrigadas a deixarem seus locais de origem, por causa de perseguições políticas, religiosas, econômicas, raciais, sexuais, entre outras, representa uma grande ruptura em suas narrativas cotidianas, com a transformação radical e inesperada de valores, perspectivas e visão de mundo. Nessa mudança radical entre um papel temático rotineiro para o papel de refugiado, se torna necessária uma reelaboração de suas narrativas para a adaptação que tal acontecimento provoca nas vidas desses novos sujeitos. Dentre essas narrativas, os discursos dos meios de comunicação são os mais frequentes para representar a situação de refúgio na atualidade. Contudo, a arte se apresenta como uma outra forma possível de compreensão sobre os novos significados que a condição de refúgio impõe aos sujeitos. O objetivo deste trabalho é, assim, analisar um espaço produzido por refugiados na ilha de Lesbos, no mediterrâneo grego, no qual frases e pinturas se misturam em uma linguagem sincrética nas paredes de uma casa abandonada, que foi espontaneamente transformada em um museu, para presentificar a ausência das pessoas que por lá passaram e deixaram seus “rastros discursivos”. Para examinar o espaço, registrado visualmente em uma visita ao local, será utilizada a semiótica discursiva, com destaque para a dimensão sincrética da construção do espaço como dispositivo de presentificação e de construção de narrativas em torno do tema do refúgio. Desse modo, será possível observar os discursos produzidos a partir da perspectiva dos refugiados e não um olhar exterior à sua condição, como, em geral, ocorre, por exemplo, nos meios de comunicação. Almeja-se, com este trabalho, apresentar uma abordagem distinta para as tensões envolvidas na produção dos sentidos em relação à figura das pessoas em situação de refúgio e, assim, apresentar outras perspectivas de memória e resistência a respeito de tais sujeitos.
Palavras-chave: presença; semiótica; refúgio
ALICE FERNANDES HENRIQUE
[Psicolinguística]
Coerção de Tipo na Psicolinguística Experimental
O objetivo do trabalho aqui proposto é o de discutir a composicionalidade semântica, com foco no fenômeno da Coerção de Complemento (ou Coerção de Tipo / Type Shift), e seus desdobramentos no processamento cognitivo. Segundo o modelo de Ray Jackendoff (2002), podemos contrastar as estruturas das chamadas Composições Simples (Simple Composition), onde o sentido da sentença é uma função direta de suas partes, daquelas das Composições Enriquecidas (Enriched Composition), que demanda um acesso diferente à estrutura conceitual (LCS) de modo a selecionar e atribuir sentido à sentença através de inferências e conhecimento de mundo. O fenômeno da coerção é uma composição enriquecida, acontecendo quando combinamos verbos que exigem complementos eventivos com complementos que se referem a entidades nominais, como no clássico exemplo "João começou o livro". Nesse contexto, o sistema linguístico precisa buscar por um sentido não informado para interpretar a ação subjacente (e.g., começar a ler ou começar a escrever). Por volta dos anos 1990, a psicolinguística passou a se interessar pelo assunto e diferentes experimentos utilizando diferentes métodos e formas de medidas passaram a investigar as coerções. A literatura em processamento de sentenças aponta que a coerção exige mais do que uma simples alteração de sentido. Assim, o fenômeno é considerado uma operação cognitiva adicional, implicando em maior custo de processamento. Esta apresentação se propõe a apresentar uma revisão de literatura com o objetivo de trazer evidências de experimentos comportamentais e neurofisiológicos da diferença de processamento entre composições simples e suas contrapartes com coerção de complemento. Para obter estas evidências, a literatura se utilizou de medidas como testes comportamentais cronometrados (ex. leitura automonitorada), rastreamento ocular (Eye Tracker) e Magneto/Eletroencefalografia (M/EEG). Os estudos revisados apresentam maiores tempos de leitura e de fixação ocular em regiões seguintes às regiões de interesse das frases (i.e. efeito tardio / spillover), bem como diferenças eletromagnéticas (Anterior Midline Field) durante o processamento da coerção em comparação com o processamento de sentenças em composição simples.
Palavras-chave: Coerção de tipo; Coerção de complemento;
ALINE BEZERRA FALCÃO DE OLIVEIRA
[Sociolinguística e Dialetologia]
A ausência de correlação entre classe socioeconômica e percepções associadas a (t,d) em
Alagoas Classe socioeconômica é uma variável social tradicionalmente investigada nos estudos sociolinguísticos, principalmente no âmbito da produção. O interesse nela se deve à noção de prestígio e remonta aos desenvolvimentos iniciais da sociolinguística laboviana: classes mais altas tendem a empregar mais vezes formas linguísticas mais prestigiosas; formas linguísticas tendem a ser interpretadas como prestigiosas quando frequentemente empregadas por pessoas de classes mais altas. Embora "prestígio" seja um significado social da variação, tal conceito – amplo que é – pode estar associado, na percepção sociolinguística, a muitos outros: soar inteligente, escolarizado, formal, sério, desenvolto (desenrolado), exibido, (des)agradável, etc. A interpretação desses significados, por sua vez, pode ou não depender da classe do ouvinte. O estudo que aqui se reporta discute o fato de que não se identificam correlações entre "classe do ouvinte" e as percepções que 99 alagoanas/os revelaram, em um experimento de percepção, acerca de quatro falantes (duas mulheres e dois homens, também alagoanos), em disfarces oclusivos ou palatais de (t,d) (polí[t]ico ~ polí[t?]ico; [d]inheiro ~ [d?]inheiro). Os ouvintes são naturais de Arapiraca, Delmiro Gouveia e Maceió e, em nenhum desses subgrupos, suas percepções de como soam os falantes (em diversas escalas de diferenciais semânticos) variaram significativamente a depender da combinação entre variável linguística (palatal vs. oclusiva) e classe do ouvinte (média vs. baixa). Adicionalmente, a percepção de classe dos falantes (em cinco níveis) pelos ouvintes também não variou de acordo com (t,d). Parece surpreendente que percepções associadas a (t,d) não dependam da "classe do ouvinte" nos dados coletados. Com base em correlações entre a palatalização variável e a escolaridade do falante na produção alagoana (Falcão 2021), integravam as expectativas acerca do experimento proposto que alguns significados sociais (e.g. "escolarizado","inteligente") seriam associados à variante palatal mais frequentemente por alagoanas/os de classe mais alta. Em discussão, embora se considere o fato de que a variação de classe na amostra de ouvintes não seja ampla (apenas classe média vs. classe baixa), interpreta-se a ausência de correlações com classe à luz do fato de que, independentemente dessa variável, os significados sociais de (t,d) são muito variados em cada uma das três cidades alagoanas em foco (Falcão 2025). Nesse sentido, o estabelecimento de um link entre (t,d) e certos significados sociais nesse estado nordestino pode depender de outros significados, como percepção de origem (sul/sudeste vs. nordeste), de modo que correlações com classe possam se estabelecer indiretamente – algo a ser explorado na continuação da pesquisa.
Palavras-chave: Palatalização de (t/d); Alagoas; percepção
ALINE GOMES GARCIA
[Linguística Histórica]
“Mas acontece que agora quem começa a não entender sou eu”: a
(co)atuação em perspectiva histórica dos marcadores discursivos “mas” e “acontece que” na continuidade de tópico discursivo em peças teatrais brasileiras No âmbito do Simpósio “O linguístico e o social nos estudos históricos do português: desafios, propostas e caminhos”, neste trabalho, utilizamos peças teatrais brasileiras do projeto “Língua EmCena” (CNPq 405181/2021?3) a fim de descrever o uso histórico dos marcadores discursivos (MDs) “mas” e “acontece que”, dando especial atenção a casos em que esses dois MDs coocorrem na função de assinalar continuidade de um tópico discursivo. Como parte de nosso objetivo, nos propomos também a verificar fatores linguísticos e extralinguísticos que podem estar associados à escolha de um ou outro desses MDs na função de continuidade tópica. O referencial teórico-metodológico de nossa pesquisa constitui-se de uma articulação entre a Gramática Textual-Interativa, a qual suporta a investigação de MDs no processo de construção textual, distinguindo, por exemplo, MDs que sequenciam tópicos discursivos, o Sociofuncionalismo e a Linguística Histórica, que fundamentam o estudo da variação linguística e em perspectiva histórica. Como o Língua EmCena reúne peças de teatro brasileiras de diferentes sincronias, quais sejam (i) 1831-1889; (ii) 1890-1930; (iii) 1931-1964 e (iv) 1965-2010, coletamos dados das sincronias (iii) e (iv), já que apuramos o uso de “acontece que” como MD apenas nessas duas sincronias mais recentes do corpus. Conforme análises do português brasileiro falado na segunda metade do século XX e início do XXI, “acontece que” marca um contraste entre partes constituintes de um mesmo tópico discursivo (Santana; Gonçalves, 2024). Assim, hipotetizamos que, nos casos de coocorrência dos MDs nas peças teatrais nos dois períodos históricos, os itens, de fato, marcariam um contraste entre grupos de enunciados que constituem um mesmo tópico discursivo, função que seria preservada por “acontece que” quando este MD ocorresse sozinho também articulando a construção tópica. Quanto a “mas”, nossa hipótese é que, como um MD recorrente na sequenciação de tópicos discursivos (Guerra, 2007), seu uso nem sempre se associe a um valor de contraste no contexto em apreço. Com esta apresentação, esperamos colaborar para os estudos históricos do português brasileiro, particularmente para a descrição da atuação textual-interativa de MDs em perspectiva histórica, proposta ainda pouco explorada. Em razão da natureza de nosso fenômeno, MD, esperamos também que a utilização de peças teatrais como fonte de dados, as quais têm em sua constituição o diálogo entre personagens, colabore para a superação de um desafio de estudos linguísticos históricos, que á a investigação diacrônica de funções bastante recorrentes na modalidade falada da língua, como a de MD.
Palavras-chave: marcadores discursivos; mas; acontece que
ALINE MARIA PACÍFICO MANFRIM
[Análise do Discurso]
Discursos presentes na autorrepresentação como leitores realizada por alunos do sexto ano
O presente trabalho identifica e discute os discursos que permeiam a autorrepresentação de leitores realizadas pelos alunos do sexto ano de um colégio de São Carlos-SP. Os registros, realizados por meio de imagens e textos, revelam, em sua maioria, uma relação positiva com a leitura de forma que o corpo faz parte desta integração entre livro e sujeito. Ambientes aconchegantes, corpos relaxados, tempo e possibilidade de experimentar/sentir as histórias e personagens e uma relação afetiva positiva com a leitura destacados nas autorrepresentações vinculam-se com discursos que concebem a leitura como algo prazeroso, de fácil acesso e atrelados a condições de produção de uma classe social que consegue oferecer este tipo de ambientação a seus filhos. Nos registros verbais, trechos de livros e preferências de estilos de narrativas, uma ação que faz parte da rotina, memórias das primeiras leituras e indicação de livros inscrevem estes alunos em comunidades leitoras privilegiadas as quais entram em tensão com outras realidades infantis presentes no contexto brasileiro. Para Roger Chartier, a leitura não é uma operação puramente abstrata de forma que as posturas físicas e os espaços de leitura (o quarto, o sofá, o jardim) são determinantes para a construção do sentido. Dessa forma, a materialidade do objeto livro como algo que convida ao toque e ao conforto, moldando uma experiência de prazer que é, antes de tudo, física. No que se refere à apropriação, esses alunos não apenas leem, eles se apropriam do objeto cultural como marca de identidade e pertencimento a uma classe social que provê o "tempo" e o "espaço" para o ócio literário. Márcia Abreu, em sintonia com a história cultural, enfatiza que os sentidos de um texto são construídos dentro de comunidades de leitores, pois essas comunidades compartilham normas, preferências e modos de ler. ´R possível sinalizar, portanto, que a leitura desses alunos não é apenas um "hobby", mas um reflexo de uma cultura escrita consolidada, onde o livro é um objeto de afeto. Através de Chartier e Abreu, entendemos que o "prazer" de ler relatado não é inato, mas produzido por condições materiais e sociais que permitem ao sujeito se entregar à história de forma relaxada e integrada.
Palavras-chave: discurso sobre leitura; leitores; comunidade leitora
ALINE PEREIRA DE SOUZA
[Linguística Cognitiva]
Analogias como recurso de presença para educar na saúde pelo Instagram
As redes sociais, especialmente o Instagram, consolidaram-se como espaços estratégicos de visibilidade profissional, monetização e circulação de conhecimento em diferentes áreas. Nessas plataformas, produtores de conteúdo estabelecem relações diretas com seus públicos, o que favorece tanto a comercialização de produtos e serviços quanto a disseminação de informações especializadas. Nesse cenário, destaca-se a crescente presença da classe médica nas redes sociais, configurando o fenômeno recente dos médicos influenciadores, profissionais que alcançam ampla projeção e elevada audiência no ambiente digital. Embora essa atuação esteja submetida às diretrizes do Código de Ética Médica e às normativas do Conselho Federal de Medicina, tais espaços também podem desempenhar relevante função educativa no campo da saúde. Este trabalho objetiva analisar o perfil disponível no Instagram do médico infectologista Ricardo Kores, atuante na cidade de Uberlândia. Em março de 2026, ele possuía aproximadamente 1,5 milhão de seguidores, e algumas de suas publicações ultrapassavam 600 mil curtidas, índices expressivos de engajamento e aprovação na lógica desse ambiente. As postagens do profissional, predominantemente em formato de vídeo, caracterizam-se pelo uso frequente de analogias como recurso didático para tratar de temas relacionados à saúde. Tais produções configuram-se como textos multimodais, nos quais a construção de sentido resulta da articulação entre elementos verbais e não verbais. Nesse processo, imagem, linguagem verbal, gestos e recursos audiovisuais atuam de forma complementar, contribuindo para a eficácia comunicativa da mensagem. Além disso, o emprego de analogias amplia a acessibilidade do conteúdo, favorecendo a identificação do público com o discurso apresentado. Quanto mais clara, significativa e próxima da experiência cotidiana se mostra a mensagem, maiores tendem a ser seu alcance, circulação e potencial de engajamento, fatores amplamente valorizados no contexto digital. Diante disso, este estudo, fundamentado na Linguística Cognitiva, especialmente no conceito de projeções cognitivas desenvolvido por Gilles Fauconnier e Mark Turner, objetiva analisar a relevância de processos analógicos, como metáfora, metonímia e parábola, na construção de sentido em conteúdos digitais de divulgação científica. Parte-se da hipótese, com base em Souza (2017; 2018), de que o uso intencional desses mecanismos constitui importante estratégia discursiva, pois amplia a visibilidade das ideias, favorece a identificação do leitor e produz efeitos de prazer e humor na recepção textual. Adicionalmente, propõe-se compreender tais produções sob a perspectiva da Retórica, investigando como esses recursos operam como Recursos de Presença, contribuindo para o engajamento, o consumo, o sucesso dos textos multimodais e a humanização da relação entre médico e público.
Palavras-chave: Redes Sociais; Projeções; Educação na Saúde
ALLINE DUARTE RUFO
[Análise do Discurso]
Númenor em “Os Anéis de Poder”: a verbivocovisualidade e o legendarium de J. R. R. Tolkien
Esta proposta investiga a construção verbivocovisual da Segunda Era do legendarium, de J. R. R. Tolkien, na adaptação audiovisual da primeira temporada de “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder”, da Amazon Prime. O objetivo é analisar como os elementos verbais, vocais e visuais se articulam explicitamente na construção de uma unidade de sentidos na reinterpretação do mundo ficcional, considerando as limitações impostas pelos direitos autorais, que restringem o acesso a determinados textos tolkienianos. O recorte metodológico centra-se na ilha de Númenor, na primeira temporada da série, em cotejo com as obras de J. R. R. Tolkien, sobretudo O Silmarillion. Adota-se uma perspectiva teórico-metodológica do chamado Círculo bakhtiniano, com uma abordagem tridimensional da linguagem, em que o enunciado é assumido como unidade indissociável de aspectos cognoscíveis internos e, no audiovisual, explicitamente materializados nas dimensões verbal, vocal e visual. Ademais, a partir do conceito de dialogismo, observa-se que a adaptação audiovisual é concebida como um processo dialógico, central e constitutivo da perspectiva bakhtiniana, para a qual o enunciado presente estabelece relações de convergências e tensões com aqueles expressos antes dele, assim como antecipa respostas de enunciados futuros. No caso, a série responde dialogicamente à obra literária e constitui um processo singular de worldbuilding (Mark J. P. Wolf). Parte-se, assim, do mapeamento e da análise de cenas da primeira temporada ambientadas exclusivamente em Númenor, selecionadas por sua relevância na construção da Segunda Era, com foco em sua construção explicitamente verbivocovisual para identificar como esses elementos convergem para produzir sentidos com a finalidade de tornar verossímil a construção de Númenor como mundo possível. Nesse sentido, diante das restrições de acesso a materiais do legendarium e do caráter fragmentário das fontes sobre Númenor, a série elabora uma, possível, proposta singular, na qual a invenção, para além da criação de Tolkien, é legitimada por uma coerência estética discursiva que busca suprir lacunas narrativas e traduzir as tensões sociais dentro do mundo ficcional em um prenúncio da Queda de Númenor. Os resultados demonstram a pertinência e relevância da assunção da verbivocovisualidade da linguagem como modo de visualizar as camadas de sentido que transcendem a narrativa na construção discursiva arquitetônica de determinado projeto de dizer. Com a reflexão empreendida, a pesquisa contribui com os estudos de adaptação, e de enunciados audiovisuais, ao evidenciar como a obra audiovisual constrói um mundo ficcional em diálogo com o canon tolkieniano.
Palavras-chave: Adaptação audiovisual; Verbivocovisualidade; J. R. R
AMANDA DE LIRA SANTOS
[Gramática Funcional]
Aspectos semântico - pragmáticos de construções insubordinadas condicionais - concessivas com ‘nem que’ no português brasileiro
O presente trabalho investiga as construções condicionais-concessivas insubordinadas introduzidas pelo conectivo nem que no português brasileiro contemporâneo. De acordo com Haspelmath e König (1998), as orações condicionais-concessivas são subdivididas em três categorias, a depender do tipo de conectivo que as introduz e da relação estabelecida entre a prótase e a apódose: as orações do subtipo escalar, foco deste trabalho, são prefaciadas por uma conjunção formada por uma partícula escalar e implicam o recrutamento de uma escala argumentativa na qual o argumento presente na prótase corresponde sempre ao valor mais extremo. Embora as descrições encontradas na literatura a respeito dessas construções estejam concentradas na investigação de orações que integram um período complexo, tradicionalmente subordinado, trabalhos recentes (Albeda e Gras, 2010; Martínez Caro e Alba-Juez, 2021; Lira e Hirata-Vale, 2025; Lira e Souza, 2025; Lira, em preparação) têm demonstrado que o uso independente de orações condicionais-concessivas com nem que é produtivo no português e no espanhol e está frequentemente associado à expressão de funções pragmáticas (inter)subjetivas, como réplica, avaliação negativa e atos de fala expressivos. Para Evans (2007), as orações insubordinadas, embora possuam uma marca formal de subordinação, não estabelecem vínculo sintático com uma cláusula nuclear e seguem uma trajetória de independentização na qual o último estágio seria composto por orações totalmente independentes sintaticamente e semântico-pragmaticamente especializadas. A fim de expandir esses resultados, e baseado nos pressupostos da Gramática de Construções (Goldberg, 1995; 2006; Traugott e Trousdale, 2013), este trabalho busca descrever as propriedades formais e funcionais das construções condicionais-concessivas insubordinadas com nem que no português brasileiro. A partir da coleta de ocorrências no Corpus do Português (subcorpus NOW), os dados são analisados quali-quantitativamente (Cunha Lacerda, 2016) segundo critérios morfossintáticos, semânticos e pragmáticos, tais como tempo e modo verbal, tipo semântico do verbos, parâmetros de condicionalidade e funções pragmáticas. Os resultados demonstram que as construções condicionais-concessivas insubordinadas com nem que apresentam padrões formais relativamente regulares, com predominância do presente e pretérito imperfeito do subjuntivo e, no polo funcional, uma tendência ao uso de verbos eventivos e relacionados à expressão de desejos e necessidades. Verifica-se, ainda, que as construções com nem que apresentam graus distintos de composicionalidade e de independentização, que se alinham à proposta de continuum de Hirata-Vale (2015), uma vez que coexistem usos de forma e função mais livres e espontâneas, até construções formal e funcionalmente mais convencionalizadas e formulaicas. (Apoio: FAPESP – Processo 2025/08219-6).
Palavras-chave: Insubordinação; Gramática de construções;
AMANDA REGINA SILVA
[Línguas de Sinais]
O acréscimo e o apagamento da mão não dominante na produção de sinais da libras: levantamento bibliográfico e procedimentos metodológicos
Este trabalho apresenta uma revisão bibliográfica e os procedimentos metodológicos de uma pesquisa em andamento sobre o acréscimo e o apagamento da mão não dominante na produção de sinais da Libras. O estudo busca investigar processos fonológicos relacionados à variação na realização dos sinais, especialmente em contextos nos quais determinados sinais podem ser produzidos com uma ou duas mãos. A pesquisa dialoga com estudos de Xavier (2014), Sanchez-Mendes e Xavier (2016), Sanchez-Mendes, Segala e Xavier (2017; 2020) e Silva e Xavier (2025), além de autores clássicos da fonologia das línguas de sinais, como Battison (1978), Frishberg (1975) e Liddell e Johnson (1989/2000). Esses estudos contribuem para discussões sobre coarticulação, pluralidade, aspecto, intensidade, variação linguística e organização fonológica da Libras. O principal objetivo da pesquisa é discutir diferenças metodológicas entre estudos desenvolvidos com dados eliciados e pesquisas realizadas com dados espontâneos. Enquanto Xavier (2014) utilizou dados produzidos em contexto controlado, esta pesquisa utiliza vídeos espontâneos publicados no YouTube, permitindo observar fenômenos fonológicos em situações naturais de uso da língua. Dessa forma, pretende-se compreender como o contexto discursivo pode influenciar a realização dos sinais com uma ou duas mãos. O corpus é composto por vídeos de quatro influenciadores surdos usuários de Libras, sendo uma mulher de São Paulo, uma mulher de Rio Grande do Sul, um homem de Goiás e um homem de Minas Gerais. Serão selecionados cinquenta vídeos de cada participante, totalizando duzentos vídeos analisados. A investigação focaliza os sinais PRECISAR, PRECISAR-NÃO, QUERER, QUERER-NÃO e JÁ, por apresentarem variações relacionadas ao uso da mão não dominante. Quando identificadas ocorrências desses sinais, será realizado o recorte do trecho discursivo em que aparecem, buscando analisar quais fatores linguísticos e contextuais podem incentivar o uso de uma ou duas mãos durante a produção sinalizada. Espera-se que a pesquisa contribua para os estudos fonológicos da Libras e para discussões metodológicas sobre o uso de dados espontâneos em pesquisas linguísticas.
Palavras-chave: LIBRAS; FONOLOGIA; MÃO NÃO DOMINANTE
ANA CAROLINA DE PICOLI
[Semiótica]
A (re)construção do feminino na linguagem
Alguns dizeres são repetidos para mulheres, seja por homens ou pelas próprias mulheres, ao longo dos tempos. Frases que moldam o inconsciente coletivo de uma sociedade reiteradamente patriarcal. Frases que desenham em nossas mentes um perfil do que é “ser mulher” e, mais ainda, do que é “ser uma boa mulher”. Em contrapartida, isso evoca o que é “ser homem” e por meio de quais atitudes, posturas, sentimentos eles devem ser considerados “bons”. Assim, por meio da linguagem, a realidade é sempre (re)produzida. É a linguagem que coloca o mundo em funcionamento e estabelece também o modo como o vemos. Por meio de estruturas, muitas vezes, cristalizadas na linguagem que a forma do pensamento configura-se, ou seja, não existem ideias fora da linguagem (seja ela verbal ou não verbal). Tudo o que aprendemos desde a mais tenra idade apreendemos de acordo com a construção social, com a ideologia de uma determinada língua. O presente trabalho tem por objetivo refletir sobre essas estruturas, que geram uma construção social do que é ser “mulher” em uma sociedade patriarcal. Partindo da ideia de Hare-Mustin (2004), psicóloga e estudiosa do feminismo pós-moderno, de que o gênero é uma construção social proveniente da criação: de estereótipos para o que sejam “homem” e “mulher”, dos arranjos sociais que os separam, do estabelecimento e da manutenção de instituições sociais patriarcais e da construção da linguagem, analisamos um excerto do texto de Becky Korich de 2025 (publicado em razão do Dia Internacional da Mulher) à luz da semiótica discursiva. Considerando que é a linguagem que molda nossa maneira de enxergar o mundo, pautamos nossas reflexões nas relações estabelecidas cotidianamente com a linguagem, questionando como elas auxiliam ou não na perpetuação de determinados estereótipos do masculino e do feminino. Para tanto, recorremos aos estudos de Eric Landowski (2014) sobre os regimes de interação, Greimas (2014), Fiorin (1998) e Schwartzmann (2022).
Palavras-chave: Semiótica; Iteração; Linguagem
ANA CAROLINA SIANI LOPES
[Filosofia da Linguagem]
Uma reflexão dialógica verbivocovisual da visão (mágica) de mundo da saga "Harry Potter"
Esta proposta está baseada em um percurso de pesquisas em níveis de doutorado e pós-doutorado que têm como objetivo analisar o modo pelo qual relações de raça, gênero e classe são materializadas no mundo mágico de Harry Potter (HP), tanto na literatura quanto no cinema. A partir do pensamento teórico-metodológico do Círculo de Bakhtin e de suas considerações filosóficas sobre o diálogo entre vida e arte, entre as formas de linguagem e o solo sócio-histórico-cultural, no doutorado, uma pesquisa se focou no nó patriarcado-racismo-capitalismo na construção da intersecção gênero-raça-classe, nos sete volumes da série literária de HP e, no pós-doutorado, a pesquisa atual, desdobramento do doutorado, volta-se ao modo pelo qual essas relações são semiotizadas na saga cinematográfica. Ancorada nesse percurso, esta comunicação apresenta algumas reflexões resultantes do estágio de pesquisa no exterior (BEPE-FAPESP), no qual foram aprofundadas as especificidades do gênero fantástico, tal como é concretizado na esfera do cinema, uma vez que a hipótese pós-doutoral é a de que, em HP, a relação “eu-outro” organiza a forma/conteúdo do enunciado, a partir de dado acabamento ético-estético do “outro” (visto como “diferente”), característica singular do universo da fantasia enquanto discurso materializado por um enunciado que se mostra por meio de uma visão “mágica” de mundo ao refletir e refratar questões sociais de identidade e diferença. Assim, analisa-se como os sentidos se expressam no enunciado fílmico, ou seja, como os conflitos entre identidade e diferença ganham uma encarnação audiovisual, à luz de uma concepção verbivocovisual de linguagem, perspectiva prevista na amplitude do pensamento do Círculo. Os resultados apontam para as potencialidades valorativas da linguagem cinematográfica na composição do projeto de dizer do enunciado, uma vez que a interrelação entre elementos verbais, vocais (sonoros/musicais) e visuais operam materialmente juntos na constituição do sentido, internos (em termos de compreensão cognoscente ativa) e externos (como elementos próprios do audiovisual, composto pela síncrese da linguagem). Construção que também é potencializada pelo gênero fantástico e suas especificidades. O fantástico no cinema retrata a ordem social mágica por meio de sua linguagem específica, na esteira de dado acabamento estético, a partir do qual a filmografia de HP reflete e refrata a relação “eu-outro” por meio de determinadas construções verbivocovisuais do “diferente”. “Diferente” assumido como “estranho” e “peculiar”, caracterizado por elementos próprios de uma construção artística crítica e, ao mesmo tempo, aparentemente distante da vida social corrente.
Palavras-chave: Fantasia; Verbivocovisualidade; Círculo de Bakhtin
ANA CAROLINA SPERANÇA CRISCUOLO
[Linguística Cognitiva]
Aspectos cognitivo-funcionais das orações subordinadas adjetivas: contribuições para o ensino
O ensino de sintaxe na Educação Básica tem enfoque, especialmente, no estudo do período simples e do período composto (orações coordenadas e subordinadas), priorizando-se a estrutura das diferentes formas de organização sintática dos enunciados e suas classificações. Neste trabalho, propõe-se uma discussão sobre o estudo das orações subordinadas adjetivas, considerando-se aspectos cognitivo-funcionais que podem promover uma abordagem mais contextualizada e significativa desse conteúdo no processo de ensino-aprendizagem. Uma primeira pergunta que se pode fazer, do ponto de vista funcional, é para que servem as orações adjetivas? Desse ponto de vista, elas têm o objetivo de aumentar a clareza e o grau de informatividade de um texto, uma vez que, quando um falante ou escritor se dirige a um ouvinte ou leitor, ele deve ser o mais claro possível para atingir o sucesso na interação. De acordo com pressupostos da Linguística Cognitiva (Givón, 1984; Croft, 1990), a organização da língua se dá nos mesmos moldes em que o falante conceptualiza o mundo, como se pode demonstrar, por exemplo, pelo princípio da iconicidade: a preferência por imagens (concreto) em detrimento daquilo que é abstrato. Muitas escolhas do falante em relação ao uso dos pronomes relativos, que introduzem orações adjetivas, são motivadas por esse princípio: (1) “Já vi a bolsa onde deixei as minhas chaves.”; (2) “A viagem onde* apresentei meu trabalho demorou um dia inteiro.”; (3) “A viagem em que apresentei meu trabalho demorou um dia inteiro.” Partindo-se de uma análise de materiais didáticos, observam-se limitações na abordagem das orações adjetivas para, então, explorar suas características funcionais e cognitivas. Tem-se, como principal objetivo deste trabalho, demonstrar contribuições da Linguística Cognitiva para o ensino de língua portuguesa, de forma geral, e para o estudo das orações adjetivas, especificamente. Acredita-se que a reflexão sobre a língua e seus usos pode levar o aluno a desenvolver sua competência comunicativa, lendo e escrevendo adequadamente em diferentes contextos.
Palavras-chave: Oração Adjetiva; Ensino; Iconicidade
ANA CRISTINA BIONDO SALOMÃO
[Linguística Aplicada]
Além do inglês: práticas translíngues e internacionalização crítica em contextos de intercâmbio virtual
Nas últimas décadas, as políticas e práticas de internacionalização do ensino superior vêm sendo progressivamente reconfiguradas pela expansão de experiências digitais colaborativas e por modelos de internacionalização que ultrapassam a lógica tradicional da mobilidade acadêmica presencial. Nesse cenário, iniciativas de Internacionalização em Casa (IeC) e intercâmbio virtual (IV) têm ampliado as possibilidades de interação transnacional ao promover encontros interculturais, colaboração acadêmica e circulação de saberes em ambientes digitais e institucionalmente situados. Essas transformações deslocam a compreensão da internacionalização de uma perspectiva centrada no deslocamento físico de estudantes e docentes para uma abordagem que enfatiza práticas sociais, discursivas e multimodais mediadas pela linguagem. Este trabalho discute práticas translíngues em contextos de IV, a partir de uma abordagem qualitativa, examinando experiências de estudantes brasileiros participantes do programa BRaVE (Brazilian Virtual Exchange), em interações realizadas com parceiros da Espanha, Colômbia, México e Estados Unidos. Ancorado em referenciais da Linguística Aplicada crítica, da translinguagem e da internacionalização crítica, o trabalho problematiza a centralidade do inglês como língua hegemônica nos processos de internacionalização e discute como práticas comunicativas multilíngues podem contribuir para formas mais inclusivas e equitativas de colaboração acadêmica internacional. Os dados analisados mostram que, embora o inglês tenha sido inicialmente proposto como língua principal das interações, os participantes recorreram frequentemente ao português, ao espanhol, ao “portunhol”, a estratégias de intercompreensão e a diferentes recursos multimodais, como gestos, expressões faciais, chat, tradutores automáticos e compartilhamento de imagens, para negociar sentidos e construir inteligibilidade mútua. Essas práticas revelam que a comunicação em IV é construída de forma dinâmica, multimodal e colaborativa, desafiando ideologias monolíngues frequentemente presentes em iniciativas de internacionalização. O trabalho discute ainda como experiências de intercâmbio virtual desenvolvidas no Sul Global podem contribuir para a construção de formas mais críticas de internacionalização ao valorizarem repertórios linguísticos diversos, relações mais horizontais de colaboração e processos de mediação intercultural baseados na reciprocidade e na negociação de sentidos. Nesse contexto, argumenta-se que práticas translíngues e transmodais não devem ser compreendidas como desvios em relação a modelos monolíngues idealizados, mas como recursos legítimos de construção de conhecimento e participação acadêmica internacional.
Palavras-chave: internacionalização em casa; intercâmbio virtual;
ANA LUCIA FURQUIM CAMPOS TOSCANO
[Análise do Discurso]
GÊNEROS DO DISCURSO E MULTILETRAMENTOS: reflexões sobre enunciados multissemióticos como prática discursiva no ensino de Língua Portuguesa
O ensino de Língua Portuguesa, atualmente, é marcado pela intensa circulação de informações e pela presença das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs), exigindo, dessa maneira, abordagens que considerem a linguagem em sua dimensão social, histórica e interativa. Nessa ambiência, o trabalho com os gêneros do discurso pela perspectiva da Análise Dialógica do Discurso do Círculo de Mikhail Bakhtin contribui para a compreensão da língua como prática discursiva situada nas diversas esferas da atividade humana, uma vez que o enunciado concreto, ao constituir-se na relação com outros enunciados, reflete e refrata posições avaliativas. Paralelamente, as contribuições dos multiletramentos, conceito articulado pelo Grupo de Nova Londres, nos EUA, e desenvolvido, no Brasil, pelos estudos de Roxane Rojo, ampliam essa perspectiva ao incorporar a multiplicidade de linguagens, semioses e culturas presentes no ambiente digital. Assim, para a formação de professores da área de Letras, é importante trabalhar esses conceitos e, principalmente, proporcionar condições para reflexões sobre a prática docente. Este trabalho, portanto, tem por objetivo refletir sobre o uso de recursos das TDICs, articulados à concepção de gêneros do discurso, com ênfase em enunciados multissemióticos, para a construção e o desenvolvimento do conhecimento acerca da organização textual e discursiva, especialmente no que tange à leitura e à produção de textos. Para tanto, analisa-se um conjunto de memes produzidos por discentes do curso de Letras de uma instituição de ensino superior do Estado de São Paulo, elaborados a partir da releitura de pinturas de artistas canônicos e relacionados à vivência acadêmica desses estudantes. Para tanto, utilizamos como referencial teórico-metodológico os estudos da Análise Dialógica do Discurso do Círculo de Mikhail Bakhtin sobre dialogismo e gêneros do discurso (2016) e dos Multiletramentos de Rojo (2013), Rojo e Moura (2016) e Ribeiro (2016). Por fim, entendemos que a articulação dos gêneros do discurso às TDICs, a partir dessas concepções teóricas, possibilita repensar práticas pedagógicas que valorizem a diversidade dos gêneros do discurso, a relação entre a linguagem e a vida, a multimodalidade e a formação crítica dos sujeitos, tornando o ensino mais significativo e alinhado às demandas da sociedade contemporânea.
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; enunciado concreto
ANA LUÍSA COLETTI RICCI
[Aquisição de Linguagem]
A NEGAÇÃO NOS DADOS DE ARGUMENTAÇÃO DE DUAS CRIANÇAS A PARTIR DA
ABORDAGEM DIALÓGICO-DISCURSIVA: ANÁLISE DE ALGUMAS ESTRATÉGIAS ARGUMENTATIVAS Este trabalho traz um recorte dos resultados de nossa pesquisa de doutorado (RICCI, 2025, no prelo), propondo, a partir da Abordagem Dialógica-discursiva (Volóchinov, 2017; Bakhtin, 2016), tratar da negação no discurso argumentativo de duas crianças, A. (francesa) e S. (brasileira), em período de aquisição e desenvolvimento da linguagem (Del Ré et al. 2014a, 2014b), focalizando, neste momento, como a realidade sócio-histórica e cultural dos sujeitos, ou seja, sua Microcultura (Salazar, 2023; Nelson, 1981, 2007; Rogoff et al., 2018; Sueb, Haranti, Susanti, 2023), influencia suas escolhas linguístico-discursivas e as estratégias utilizadas para argumentar. Buscamos observar de que modo o marcador de posicionamento da negação (Beaupoil-Hourdel, 2015; Vasconcelos, Scarpa, Dodane, 2019; Bolinger, 1983; Balog, Brentari, 2008; Ducrot, 1972, 1973, 1980, 1984; Nølke, 2017) se faz presente nos enunciados argumentativos (Leitão, 1999, 2003, 2007a, 2007b; Leitão, Banks-Leite, 2006; Leitão, Ferreira, 2006; Leitão, Vieira, 2017, 2018) de A. e S., em que está explícita a oposição de pontos de vista. Os dados foram coletados em contextos naturais de interação, registrados em vídeo e transcritos no programa CLAN, segundo as normas do CHAT (Mac Whinney, 2000). Esta ferramenta possibilitou detalhamento dos enunciados das crianças, assim como sua descrição e análise multimodal, de elementos verbais (lexical, sintático e esquemas - estilísticos - de construção), gestuais, accionais, vocais e entoacionais, sobretudo o acento de focalização (Ono & Thompson, 1995; Thompson, Couper-Kuhlen, 2005; Fried & Östman, 2004; Gonçalvez, 1999; Ferré, 2003; Nowakowska et al., 2021; Martel et al., 2023; Dodane et al., 2021; Cavalcante, 1994, 2018; Cavalcante, Brandão, 2012; De Almeida, Cavalcante, 2017; McNeill, 2002; Cosnier, 2000; Boutet, 2018) e formatos (Bruner, 1982, 1985, 2007) que foram mobilizados pelos sujeitos para construção de seus enunciados, com sentido argumentativos, em que a negação se faz presente. Lançamos mão de categorias de análise - algumas de pesquisas anteriores (Leitão, 2007; Vieira, 2011; Vasconcelos, 2017; Beaupoil-Horudel, 2017; Ricci, 2020) - para observarmos os discursos argumentativos das crianças. Neste estudo, chegamos à conclusão que a criança argumenta desde muito cedo, antesdos 2 anos, e que a negação comparece de diferentes formas nos enunciados argumentativos, por meio de elementos prototípicos (ex.: advérbios de negação e gestos emblemáticos) ou de maneira menos marcada, através de elementos não-prototípicos (ex.: ações, entonação, construções sintáticas e discursivas). O sujeito utiliza seus conhecimentos de mundo, discursivos e linguísticos, que vão se desenvolvendo ao longo dos meses, havendo diversificação e complexificação dos elementos multimodais e recursos estilísticos.
Palavras-chave: Argumentação; Negação; Multimodalidade
ANA PAULA FERREIRA DE MENDONÇA
[Semiótica]
Suporte e produção de sentido num podcast de crimes reais
Este trabalho tem por objetivo observar o papel desempenhado pelo suporte-objeto na recepção de um podcast da atualidade, intitulado Modus operandi, disponível gratuitamente na plataforma Spotify. Trata-se de uma produção bastante apreciada pelo público jovem, principalmente pelo fato de as histórias, já conhecidas e difundidas por meio da mídia escrita e televisiva, serem narradas de forma um tanto descontraída pelas podcasters produtoras. A pesquisa lança um olhar sobre a articulação entre as linguagens utilizadas na construção de uma comunidade virtual, criada a partir da reiteração de estratégias de manipulação, que visam não apenas à adesão de novos membros, mas também ao consumo de produtos dos patrocinadores. Para a análise, recorremos ao instrumental da semiótica greimasiana, a fim de compreendermos melhor como se implanta e se mantém a relação dinâmica entre o suporte e as práticas do gênero. Tendo como objetivo maior a didatização de textos construídos a partir do sincretismo de múltiplas linguagens, e sua utilização na escola, selecionamos como corpus de análise alguns episódios que poderão ser inseridos no âmbito de práticas pedagógicas do ensino médio, desde que respeitada a classificação indicativa e eventualmente suprimidos os trechos de linguagem imprópria. A proposta de trabalho com o texto do podcast deverá contemplar as diferentes práticas de linguagem que se disseminam entre a comunidade virtual, incluindo os sites de hospedagem e mídias sociais específicas do programa, podendo, para uma maior amplitude das atividades de leitura, percorrer a esfera da mídia impressa, em que os crimes foram inicialmente descritos, seja nos jornais e revistas ou na internet. A criação de podcasts como atividade de produção textual, individual ou em grupo, também deverá ser proposta como uma das realizações possíveis em sala de aula, aproveitando-se o fato de ser o aparelho celular o suporte mais acessível economicamente para os alunos e de a plataforma ter acesso gratuito.
Palavras-chave: Semiótica; Objeto-suporte; Podcast
ANA PAULA PAIVA PEDROSO RAMOS DE FREITAS
[Linguagem e novas tecnologias]
Formação inicial e autonomia docente em tempos marcados pela IAG na
Educação Este trabalho, uma pesquisa de doutorado em andamento, tem por objetivo investigar como duas universidades da região de Campinas, uma privada e uma pública, têm proposto a formação de alunos de licenciatura em Letras – Português e/ou Inglês, tendo por foco a atuação e a autonomia docentes, mediante a inserção da Inteligência Artificial Generativa (IAG) em contextos e práticas educacionais. Nesse contexto, a IAG é tomada como linguagem e, portanto, produtora de sentidos. Trata-se de uma pesquisa exploratória, qualitativa e interpretativista, cuja geração de dados se realizará por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas com graduandos, professores e coordenadores dos referidos cursos, com vistas a compreender o modo como concebem a formação docente em tempos de IA. Para consubstanciar o estudo, também se prevê a análise de marcos regulatórios, a exemplo do Marco referencial de competências em IA para professores (Unesco, 2024) e do Guia para a IA generativa na educação e na pesquisa (Unesco, 2024), com o objetivo de se levantar as proposituras de tais documentos para a formação docente. O referencial teórico está apoiado em contribuições bakhtinianas, para análise dialógica de dados advindos das entrevistas. Também serão consideradas as contribuições da pedagogia crítica freireana, entre outras, para tratar a questão da autonomia docente. Assim, como procedimentos metodológicos, o desenho da pesquisa prevê a realização de revisão de literatura (para análise de estudos correlatos), de pesquisa bibliográfica (para estabelecimento do referencial teórico-analítico), de pesquisa documental (para análise de marcos regulatórios e matrizes curriculares das duas universidades), de entrevistas semiestruturadas (para coleta de dados), e de uma análise de discursos enunciados nas entrevistas. Ao analisar práticas discursivas perpassadas pelos enfrentamentos docentes diante da expansão de modelos de IAG, espera-se contribuir com reflexões sobre a formação de professores de Português e Inglês, a partir de perspectiva crítica, a fim de destacar a relevância da autonomia docente na (re)elaboração de práticas pedagógicas. Com isso, espera-se propor sugestões à elaboração de proposta de formação inicial de professores alinhada aos desafios destes tempos. (Apoio: Capes - Processo 88887.281261/2026-00).
Palavras-chave: Inteligência Artificial Generativa; Formação de
ANDERSON ALMEIDA DA SILVA
[Psicolinguística]
TESTANDO POSSÍVEIS BENEFÍCIOS DO BILINGUISMO L2M2 PARA A MEMÓRIA VISUAL
UTILIZANDO UM NOVO PROTOCOLO DE TESTE SPAN COM EMBLEMAS E PSEUDOEMBLEMAS Este estudo investigou os possíveis benefícios do aprendizado de línguas de sinais sobre a memória de trabalho visual em indivíduos ouvintes. A memória de trabalho, também denominada memória operacional, é responsável pelo armazenamento e manipulação temporária de informações, desempenhando papel fundamental em tarefas cognitivas complexas. Estudos anteriores sugerem que o bilinguismo pode favorecer a resolução de problemas cognitivos, além de promover ganhos em memória e neuroplasticidade. Com base nisso, a pesquisa buscou verificar se ouvintes que aprendem uma língua de sinais desenvolvem vantagens na capacidade de memorização visual em comparação a ouvintes não sinalizantes. Participaram do estudo três grupos: sinalizantes ouvintes fluentes (FHS; n=20), aprendizes ouvintes recentes de língua de sinais (HRL; n=20) e ouvintes não sinalizantes (HNS; n=20). Para evitar favorecer participantes já familiarizados com sinais reais, foi desenvolvido um protocolo inédito de teste Span visual utilizando emblemas e pseudoemblemas. Emblemas são gestos culturalmente convencionais compartilhados entre ouvintes e surdos, enquanto pseudoemblemas consistem em gestos sem associação estável entre forma e significado. A proposta permitiu avaliar todos os grupos em condições equivalentes, independentemente do nível de conhecimento em língua de sinais. Inicialmente, foram selecionados 117 emblemas da cultura brasileira, posteriormente validados em um teste piloto com ouvintes não sinalizantes para garantir reconhecimento adequado. Também foram produzidos 117 pseudoemblemas. Os itens foram gravados em videoclipes de 1 a 2 segundos e organizados em oito níveis progressivos de memorização. No teste, os participantes observavam sequências de gestos e deveriam reproduzi-las corretamente para avançar aos níveis seguintes. O desempenho era determinado pelo maior número de itens corretamente reproduzidos. As análises estatísticas indicaram distribuição não normal dos dados, sendo utilizados testes não paramétricos. Os resultados do teste de Kruskal-Wallis demonstraram diferenças significativas entre os grupos tanto para emblemas quanto para pseudoemblemas. Comparações par a par revelaram diferenças estatisticamente significativas principalmente entre ouvintes não sinalizantes e sinalizantes ouvintes fluentes, indicando melhor desempenho destes últimos na memorização visual. O efeito foi ainda mais evidente nos pseudoemblemas, corroborando estudos prévios sobre palavras, pseudopalavras, sinais e pseudosinais, segundo os quais itens com associação forma-significado são mais facilmente memorizados. Os resultados confirmam a hipótese de que o aprendizado de línguas de sinais favorece a memória de trabalho visual. Além disso, o protocolo proposto mostrou-se potencialmente aplicável a diferentes populações, independentemente da condição auditiva, abrindo novas possibilidades de investigação sobre gestos, memória visual e aquisição linguística em contextos surdos e bilíngues.
Palavras-chave: gestos emblemas; teste de Span; bilinguismo
ANDERSON CARNIN
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
Desenvolvimento e validação de uma proposta didática para produção de relatos pessoais no Ensino Médio: articulações entre IA Gen, produção textual e análise linguística
Esta comunicação tem por objetivo apresentar a elaboração, o desenvolvimento e a validação de uma proposta didática voltada à produção de textos inscritos no gênero relato pessoal no Ensino Médio, articulando o uso de sistemas de inteligência artificial generativa (IA Gen) ao trabalho com produção textual e, especificamente, análise linguística como prática de linguagem orientadora da reescrita. Ancorada no campo da Linguística Aplicada, especialmente em abordagens que concebem a escrita como prática social, e nos estudos que tomam os gêneros de texto como (mega)instrumentos de ensino, a proposta busca integrar dimensões frequentemente tratadas de forma dissociada no ensino de língua materna, a saber: a produção de textos e a análise linguística. Do ponto de vista metodológico, a investigação insere-se em uma perspectiva qualitativo-interpretativista, assumindo contornos de pesquisa-intervenção desenvolvida em turmas do Ensino Médio de duas escolas públicas, uma em São Paulo, outra no Rio Grande do Sul. A proposta didática organiza-se em torno de um percurso de produção, revisão e reescrita de relatos pessoais, no qual o uso de sistemas de IA Gen pelos alunos é realizado de modo orientado, tanto como suporte à geração de ideias e à textualização quanto como objeto de reflexão (meta)linguística. Nesse processo, são mobilizados dispositivos de mediação por IA Gen que visam favorecer a explicitação e/ou revisão de escolhas linguístico-discursivas, bem como a problematização de aspectos relativos à adequação ao gênero e aos efeitos de sentido produzidos. Os resultados indicam que a articulação entre IA Gen, produção textual e análise linguística pode contribuir para a ampliação das estratégias de textualização dos estudantes, ao mesmo tempo em que demanda a proposição e a explicitação de critérios de uso dessas tecnologias no contexto escolar, especialmente em contextos de educação linguística. Argumenta-se, por fim, que propostas dessa natureza favorecem uma abordagem mais integrada do ensino de língua portuguesa, na qual o trabalho com a escrita e com a análise linguística se constituem de forma indissociável, em diálogo com os desafios contemporâneos colocados pela presença da IA Gen nas práticas de linguagem ? tanto em cenários escolares quanto não-escolares.
Palavras-chave: produção textual; inteligência artificial generativa;
ANDREI CEZAR DA SILVA
[Análise do Discurso]
Divisão social dos afetos nos discursos sobre a leitura: uma análise do
“orgulho” de ler na EJA brasileira Filiando-se às pesquisas realizadas junto ao Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE-CNPq/UFSCar), neste trabalho de doutorado, analisamos discursos sobre a leitura a partir de declarações de estudantes brasileiros da Educação de Jovens e Adultos (EJA) sobre seu perfil leitor, detendo-nos especialmente na expressão do “orgulho” de sua condição leitora, circunscrita nas representações de práticas de leitura compartilhadas por essa comunidade de origem popular e ainda sem lugar na história da leitura no Brasil. Naquilo que enunciam, tais representações coletivas sobre essa prática social constituem-se consensos que incidem decisivamente sobres seus modos de exercê-la. Nossa hipótese foi a de que sujeitos provenientes de camadas populares, que não tiveram acesso precoce e de qualidade a práticas culturais de prestígio, como a da leitura, e que não puderam se beneficiar de uma escolaridade regular, podem não se considerar leitores legítimos, de modo a não se manifestarem de forma orgulhosa em relação a sua condição leitora. Partindo da Análise do Discurso segundo a qual a “ordem dos discursos” (Foucault, 1999) atua sobre o que se enuncia, sobre o modo como se enuncia, assim como define quem pode enunciar, aliado à constatação de que também compõem essa “ordem” as emoções que mais se adequam à enunciação de certas práticas, como a leitura (Curcino, 2024), analisamos em que medida o “orgulho” compõe o que enunciam os estudantes da EJA no Brasil. Assim, observamos a força de alguns discursos consensuais que se reiteram e que contribuem para a negação do direito à leitura a esses estudantes, cujas escolhas lexicais, embora atualizadas individualmente por cada um à sua maneira, ecoam determinações socioculturais que, historicamente, se adensaram. Mudam-se os indivíduos que enunciam, alteram-se as palavras para expressar sua relação com a leitura, permanecem os discursos e os meios de apaziguarem as dissidências e críticas e de legitimarem as desigualdades. (Apoio: FAPESP Processo: 2022/ 11896-4).
Palavras-chave: Orgulho de ser leitor; Discursos sobre a leitura
ANDRÉ NOGUEIRA XAVIER
[Línguas de Sinais]
A incorporação de emblemas usados pela comunidade ouvinte brasileira no léxico da Libras
McNeill (2000) propõe o que ele chama de “Contínuo de Kendon” para abranger as diferentes manifestações gestuais e seus variados graus de convencionalização e dependência da fala. Na extremidade menos convencionalizada e menos dependente da fala, McNeill coloca a ‘gesticulação’, ou seja, gestos que coocorrem com a fala. Em termos de forma, esses gestos apresentam um maior grau de variação entre e dentro dos falantes. Em um ponto intermediário do contínuo, são colocadas as ‘pantomimas’, encenações gestuais. Diferentemente da gesticulação, as pantomimas são mais convencionalizadas e totalmente independentes da fala. Por fim, na extremidade do contínuo, McNeill coloca os ‘emblemas’, nos quais a coocorrência com a fala é opcional e que apresentam forma e significado altamente convencionalizados. O gesto de “polegar para cima” pode ser citado como exemplo de emblema.O objetivo deste trabalho é apresentar um projeto de pesquisa em andamento que visa analisar emblemas usados pela comunidade ouvinte brasileira que foram incorporados ao léxico da Libras. Para atingir nosso objetivo, estruturamos o estudo em quatro etapas. A primeira, já concluída, consistiu na coleta de sinais da Libras presentes no dicionário de Capovilla & Raphael (2001) que se assemelham a emblemas usados pela comunidade ouvinte. Identificamos 51 sinais com características de emblemas.As próximas etapas consistirão, primeiramente, em o primeiro autor, que é surdo, gravar-se explicando o(s) significado(s) de cada sinal, bem como listar outros sinais da Libras relacionados a eles. Em segundo lugar, consistirá em mostrar os 51 emblemas correspondentes via Zoom para uma pessoa ouvinte sem conhecimento de Libras, para que ela também explique o(s) seu(s) significado(s) e cite outros emblema(s) que pareçam estar relacionados a eles. Como etapa final deste projeto, esperamos não apenas comparar as explicações da pessoa surda e da pessoa ouvinte para cada sinal/emblema, mas também confrontá-las com dados naturalísticos tanto da Libras quanto do português.
Palavras-chave: Libras; gestos; emblemas
ANNA CHRISTINA BENTES DA SILVA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Linguagem, gênero e estilo: questões metodológicas
O trabalho que apresentamos neste simpósio está relacionado às preocupações sobre a articulação entre as análises de base sociolinguística sobre a o tema do estilo na linguagem e as análises desenvolvidas a partir de perspectivas de base textual-discursiva sobre o mesmo tema. Em nossas pesquisas desenvolvidas nos últimos anos, as análises produzidas por uma equipe por mim coordenada e composta de discentes de IC, de mestrado e de doutorado sobre corpora de textos feministas produzidos por mulheres de diferentes grupos e interesses sociais têm demonstrado que as categorias "domínio discursivo", "gênero textual" e "categorização social" são fundamentais para a compreensão dos modos de elaboração do estilo na linguagem, noções fundamentais para os estudos textuais-discursivos. Em relação às categorias e noções de base sociolinguística, as análises mostraram que a consideração dessas categorias (tais como a noção de iconização, recursividade e apagamento) às de base textual-discursiva é muito produtiva para caracterizar e tipologizar os estilos performatizados nos textos escritos pelas feministas. Um resultado importante, por exemplo, é o de que os gêneros textuais mais mobilizados pelos.as diferentes atores.as sociais na elaboração de projetos temáticos feministas são os gêneros típicos do campo jornalístico a partir do nosso Acervo de Linguagem e Feminismos nas Mídias Sociais (ALFEMIS) tais como as notícias, as reportagens e os artigos de opinião. A predominância desses gêneros parece indicar que os gêneros jornalísticos, por terem um papel importante na estruturação discursiva de outros campos sociais, tais como o político e o educacional, podem exercer uma grande influência no modo de apresentação dos movimentos feministas e de seus projetos temáticos. Essa abordagem metodológica também tem impactos sobre as articulações teóricas necessárias para dar conta das relações estabelecidas entre linguagem, gênero e estilo. Nesse sentido, nossa apresentação pretende trazer essa discussão de caráter téorico-metodológico de modo a contribuir para o desenvolvimento de reflexões sobre essas necessárias articulações que promovem necessariamente diálogos intradisciplinares.
Palavras-chave: linguagem; estilo; feminismo
ANTÔNIA FERNANDA DE SOUZA NOGUEIRA
[Línguas Indígenas]
Materiais lexicográficos para a língua Wayoro
Esse trabalho se situa na área da lexicografia, mais especificamente no campo da produção de materiais lexicográficos para línguas ameaçadas (Frawley et al., 2002; Mosel, 2004; Kroskrity, 2015). A língua Wayoro (família Tupi, subfamília Tupari) está localizada no estado de Rondônia (Brasil). A população total é de 320 pessoas (IBGE, 2024), porém há somente 01 falante fluente (além de cerca de 20 semifalantes) (Nogueira, 2019). Não há transmissão linguística para as novas gerações, as quais falam português como primeira língua. Nesta comunicação, apresentaremos a metodologia e os resultados do processo de criação de dois produtos lexicográficos para a língua Wayoro: o dicionário multimídia da língua Wayoro e a enciclopédia digital bilíngue de aves (Wayoro-Português). A metodologia envolveu documentação linguística (gravação e anotação de dados linguísticos primários) e uso do script CSV2RMD (Brito; Birchall; Galucio, 2024). Os resultados podem ser sintetizados da seguinte maneira. O Dicionário Multimídia da Língua Wayoro (Tupi) apresenta 633 entradas lexicais, centenas de exemplos de uso e 157 imagens. A macroestrutura do dicionário multimídia está organizada em 11 campos semânticos, a saber, animais, plantas, cores, comida, corpo, natureza, pessoas, atividades e eventos, estados e propriedades, itens do dia a dia e outros. A microestrutura do dicionário multimídia apresenta a palavra escrita na língua Wayoro, categoria gramatical da palavra, áudio da palavra na língua Wayoro, equivalente em português, imagem correspondente, sentença exemplo de uso na ortografia Wayoro, equivalente em português da sentença exemplo, áudio da sentença exemplo de uso. A Enciclopédia digital bilíngue de aves (Wayoro-Português) possui 18 nomes de aves em Wayoro, organizados por ordem alfabética. A microestrutura da enciclopédia apresenta o nome da ave em Wayoro, áudio da palavra Wayoro, botão de descrição, em que aparece o nome popular da ave em português, botão de ilustração gráfica e botão de texto, que fornece conteúdo sobre os habitats das aves, hábitos, funções, bem como sobre a cosmologia e a cosmovisão do povo Wajuru sobre a ave. Tratam-se de materiais paradidáticos inéditos, específicos, e que poderão ser utilizados nos processos de revitalização da língua Wayoro.
Palavras-chave: Lexicografia; Línguas ameaçadas; Língua Wayoro
ANTÔNIO SUÁREZ ABREU
[Linguística Cognitiva]
Funcionalidade da categorização vertical e teoria da complexidade na descrição e ensino da língua.
Categorização é o processo cognitivo que nos leva a agrupar seres, objetos e ideias, por meio de propriedades comuns. A categorização mais comum é a categorização de nível médio, que nos garante manter uma imagem concreta do referente. Eu posso reunir animais a, b, c, dizendo que são dobermans (nível baixo). Subindo um degrau, posso reunir dobermans, boxers e golden retrievals, dizendo que são cães. (nível médio). Subindo mais um degrau, abstraímos e podemos agrupar cães, ovelhas, baleias e seres humanos, dizendo que são mamíferos. Em termos funcionais, no dia a dia, usamos as categorias de nível médio. Dizemos, por exemplo, que não queremos cão (ou cachorro) dentro da sala. E não que não queremos boxer ou mamífero dentro da sala. Quando examinamos a linguagem articulada como um sistema complexo e usamos a categorização vertical, somos levados a perceber quais são os agentes internos que agem, de modo automático, como padrões para construção e uso: os atratores clareza, economia, iconicidade (imagem), blending (fusão) e sociabilidade. Como todo sistema, seja simples ou complexo, tem um propósito, a linguagem articulada tem o propósito comunicar a uma segunda pessoa informações e emoções, de maneira eficiente. Logo, para descrever fenômenos gramaticais, o mais apropriado é assumir o ponto de vista complexo-cognitivo-funcional, substituindo regras a ser decoradas por padrões. As gramáticas tradicionais dizem que, em frases com sujeitos com núcleos representados por coletivos partitivos (grande parte de) ou números percentuais (dez por cento), o verbo pode também concordar com o complemento do núcleo: Grande parte dos brasileiros gostam de futebol; Dez por cento do chocolate chegou. Dizem que, em frases nominais em que sujeito e predicativo são substantivos (orações equativas) normalmente não há concordância nominal entre ambos. Ex.: Esses drogados são uma desgraça. Acontece que em: Minhas irmãs são médicas, somos obrigados a fazer a concordância nominal, o que seria uma exceção. Mas, partindo do padrão iconicidade, podemos dizer, simplesmente, que a concordância nominal, em todos esses casos, é feita pelo padrão iconicidade. Se conseguimos formar uma imagem mental dos dois termos, concordamos. Se não conseguimos pelo menos de um deles, não concordamos. Isso vale também para o caso anterior. Se não conseguimos formar a imagem mental do núcleo do sujeito, o verbo pode concordar com o complemento. Caso contrário, não.
Palavras-chave: categorização; padrões; funcionalidade
ANY CAROLINY CASTRO DOS SANTOS
[Gramática Funcional]
A microconstrução "contando que" e sua função conectiva no português
A presente pesquisa visa investigar a microconstrução [contando que] no português brasileiro e seus usos, com foco maior em sua função conectiva e no mapeamento de pontos de sua trajetória histórica. Do ponto de vista teórico, este projeto se apoia no Funcionalismo Linguístico e na Linguística Cognitiva, visto que o Funcionalismo parte do princípio de que forma e função não podem ser analisadas separadamente, uma vez que a gramática se reorganiza continuamente a partir das necessidades comunicativas dos falantes. Por sua vez, a Linguística Cognitiva acrescenta a noção de que os significados emergem de cognitivo como construcionalização e esquematização em que essas abordagens permitem compreender a microconstrução [contando que] não como uma expressão pronta, mas como um fenômeno linguístico motivado por fatores discursivos, semânticos, históricos e sociocognitivos. Além disso, apoia-se nos pressupostos de Traugott e Trousdale (2021) sobre construcionalização e mudança construcional, autores que descrevem como novas construções emergem, modificam seus padrões semânticos e sintáticos e podem se consolidar ou se estabilizar de forma restrita. Por conseguinte, a metodologia da pesquisa busca investigar 500 ocorrências da microconstrução extraídas de dois corpora de referência: o Corpus Tycho Brahe, que contempla textos entre os séculos XVI e XIX, e o Corpus do Português, que contempla textos dos séculos XIX ao XXI. Posto isso, a análise das ocorrências seguirá critérios específicos, incluindo: o século de produção do texto; a função sintático-semântica desempenhada pela microconstrução (condicional, narrativa, considerativa ou enumerativa); o grau de esquematicidade presente na construção; o nível de composicionalidade; e, finalmente, sua produtividade na língua. Além disso, interessa compreender de que maneira a junção entre “contando” e “que” produziu um ambiente favorável à reinterpretação da estrutura, permitindo que um verbo em formato de gerúndio, dotado de força lexical, passasse a integrar uma construção de valor relacional. Com isso, ao mapear dados diacrônicos da microcostrução [contando que], o estudo visa ampliar o conhecimento sobre redes de conectivos do português, analisando de que modo esse conectivo se comporta e se relaciona com os demais. Portanto, busca-se compreender em que contextos discursivos sua emergência e eventual convencionalização são favorecidas, bem como de que maneira fatores como as práticas comunicativas, sua posição entre demais conectivos e os domínios de uso contribuem para sua fixação como um item relacional na língua.
Palavras-chave: Funcionalismo; Conectivos; Contando que
ARNALDO RODRIGUES DE LIMA
[Neurolinguística]
Agramatismo: uma categoria que se sustenta?
O agramatismo é uma das categorias clínicas mais estudadas no âmbito da Neurolinguística e está associada às afasias não fluentes. Esse item semiológico sugere que se trata da ‘perda de gramática’ ou de alguns de seus subcomponentes, principalmente aqueles relacionados às classes gramaticais ‘fechadas’: morfemas livres (preposições, artigos e cópulas) e os morfemas presos (derivacionais e flexionais). A produção do sujeito com esse tipo de afasia é caracterizada como ‘telegráfica’, sendo sintaticamente mais curta, laboriosa e hesitativa. A maioria dos neurolinguistas diverge sobre a natureza das dificuldades subjacentes. Como aponta Novaes-Pinto (2020), diferentes hipóteses que variam do fonológico ao discursivo foram postuladas para explicar o agramatismo. Jakobson ([1954]1981) - primeiro linguista a se interessar pelas afasias - propõe que o fenômeno seja o resultado das dificuldades dos sujeitos com as operações de combinação, no eixo sintagmático. Entretanto, nos parece bastante robusta a hipótese de que haja, primeiramente, uma dificuldade de seleção lexical que impacta consequentemente a produção dos enunciados de estilo telegráfico (Novaes-Pinto, 1997, 1999, 2020; Novaes-Pinto e Lima, 2021; Lima, 2020, 2023). Este trabalho, fundamentado nos princípios teórico-metodológicos da Neurolinguística Enunciativo-Discursiva (Coudry, [1986]1988; Novaes-Pinto, 1999) tem como o principal objetivo discutir a hipótese de que o agramatismo seria o protótipo da afasia de combinação. A discussão é desenvolvida a partir da análise longitudinal dos enunciados de Pedro, um jovem com afasia tipicamente não fluente, participante do Centro de Convivência de Afásicos (CCA, IEL/UNICAMP). As análises demonstram que, embora a literatura sugira que o agramatismo seja consequência de um déficit sintático, as dificuldades de Pedro se relacionam primordialmente com as operações de seleção de morfemas gramaticais. Na falta da palavra geralmente ocorre uma tradução intersemiótica que visa preencher as lacunas com outros elementos verbais e não-verbais, o que, por sua vez, impacta o fluxo discursivo. Pedro, ao longo dos processos interativos, mobiliza a gramática da língua para alcançar seu intuito comunicativo e para ser compreendido por seus interlocutores. Esses recursos são sempre orientados pragmática e discursivamente. Os processos de seleção e de combinação, característicos da produção não patológica, são operações linguístico-cognitivas interdependentes que continuam orientando a produção do enunciado nas afasias (mesmo nos casos não fluentes) e contribuem também para explicar a grande variação interindividual e as variações intraindividuais que põem em xeque os modelos componenciais que prevalecem nos estudos neuropsicológicos.
Palavras-chave: Agramatismo; Neurolinguística Discursiva; Fala
ASSUNÇÃO CRISTOVAO
[Análise do Discurso]
Enunciado e/ou produção textual nas respostas de duas inteligências artificiais a prompts de conteúdo ideológico
RESUMO: Este estudo analisa a produção textual por Grandes Modelos de Linguagem (Large Language Models, ou LLMs) a partir de prompts (perguntas, propostas, comandos, instruções e/ou direcionamentos) dirigidos a duas plataformas de Inteligência Artificial (IA): o ChatGPT, criado pela OpenAI, nos Estados Unidos, e a DeepSeek, uma empresa com origem na China. Utilizando como base teórica os estudos da Análise Dialógica do Discurso, esta comunicação questiona discussões recentes sobre textos gerados por modelos de linguagem no sentido de que tais produções decorreriam de operações técnicas neutras, alheias à historicidade própria da linguagem. Nossa hipótese é a de que, quando se toma o enunciado como unidade concreta da comunicação verbal e o signo como lugar de inscrição de valores sociais, tal suposição passa a exigir exame mais detido. Trata-se de observar essas produções de IA como instâncias enunciativas que refratam signos ideológicos, em vez de sistemas neutros de produção textual, uma vez que partem de um grande volume de dados produzidos por seres humanos, como internet pública, livros, códigos e artigos acadêmicos. Se assim é, o ponto de partida das LLMs são refrações nas quais circulam julgamentos, valores e pontos de vista que produzem seu enunciado/produção textual também a partir do conhecimento prévio que desenvolvem sobre seu enunciatário. Para testar essa hipótese, esta comunicação analisará respostas das duas Inteligências artificiais selecionadas em função de sua localização geopolítica, a partir de um mesmo prompt, ainda a ser definido, que contenha conteúdo político-ideológico. O objetivo é demonstrar que a produção textual por IA se ancora em material linguístico socialmente constituído, a partir do qual vozes são rearticuladas e posições ideológicas passam por rearranjos orientados por padrões probabilísticos. Metodologicamente, a análise se fundamentará na aplicação, nas respostas obtidas, de categorias como enunciado, dialogismo e valoração, numa perspectiva que alia componente teórico de caráter qualitativo e exploratório. O estudo justifica-se em função do expressivo aumento do uso de IAs por parte variadas esferas do conhecimento e da necessidade de se conhecer o grau de isenção e de credibilidade desses instrumentos de pesquisa e de trabalho.
Palavras-chave: Palavras Chave: Análise Dialógica do Discurso; Enunciado
BEATRIZ ARAUJO MORANDINI
[Semiótica]
A dimensão política dos afetos: um estudo semiótico da carta "Dido a
Eneias" (Ovídio, Heroides, VII) Há duas leituras concorrentes da carta “Dido a Eneias”: uma mais recorrente que concebe a despedida amorosa de dois amantes, comentada por classicistas; outra, como um testemunho que transforma a morte de Dido numa atitude também de influência política. O amor funesto torna-se arena de combate na qual os amantes ocupam posições de rivais, aludindo às Guerras Púnicas entre Roma e Cartago. Este trabalho desenvolverá a segunda possibilidade de leitura, em complemento à primeira, considerando que o simulacro de subjetividade feminina instaurado no texto se desdobra em um perfil político, isto é, a partir do papel temático de rainha, e em um perfil amoroso, caro ao papel temático de amante. O objetivo principal é identificar e articular os elementos na carta que permitam configurar uma isotopia política no discurso predominantemente amoroso da carta. Na ausência de Eneias, que abandona Dido e o reino de Cartago para cumprir com sua missão de herói pio, a carta adquire a função de relatar o sofrimento de Dido uma vez que, para que Eneias se compadeça, é preciso que ele testemunhe de alguma maneira o dano causado por sua partida. Para essa discussão, recorre-se a Semiótica Discursiva, visando reconhecer os efeitos de sentido decorrentes da narração do passado de Dido (v. 111-128) e a contribuição destes para a argumentação da heroína que, para além da morte que será causada por Eneias, elenca duas outras mortes alternativas por meio de figuras de poder político importantes: Pigmalião, seu irmão; e Jarbas, um dos pretendentes recusado dos reinos vizinhos. Além disso, a catálise desse trecho será examinada em sua tensividade, recorrendo a Semiótica Tensiva. Nesse sentido, com um estudo dos afetos e da dimensão sensível da carta elegíaca, espera-se atingir as condições de emergência da afetividade que advém da experiência sensível do sentido, isto é, o sofrimento manifestado pela heroína. A proposta é, com a aplicação ao texto da teoria semiótica, lançar luz às particularidades do poeta Ovídio que, ao subverter as categorias elegíacas, promove outros efeitos com o lamento amoroso na voz feminina. (Apoio: FAPESP - Processo 2025/03487-5).
Palavras-chave: Semiótica; Ovídio; Persuasão
BEATRIZ GOAVEIA GARCIA PARRA DE ARAUJO
[Gramática Funcional]
Uma investigação diacrônica das construções concessivas prefaciadas por
"aunque" no espanhol peninsular Este trabalho apresenta uma análise diacrônica das construções concessivas prefaciadas pelo conectivo "aunque" em dados do espanhol peninsular sob o viés da Gramática de Construções (Traugott; Trousdale, 2013; Bybee 2016, entre outros). O objetivo de nossa investigação é descrever as propriedades das construções iniciadas por esse conectivo e observar possíveis mudanças ao longo do tempo. Para tanto, adotamos o modelo teórico da Gramática de Construções, que assume a língua como um sistema adaptativo complexo emergente do uso, e que adota a construção como unidade básica de análise. Ao considerar a construção como o pareamento simbólico entre forma e significado, a Gramática de Construções permite que a análise das mudanças diacrônicas considere não apenas o conectivo, mas toda a construção na qual ele se insere. Os dados analisados foram coletados do "Corpus Diacrónico del Español" (CORDE), organizado pela Real Academia Española, de modo a contemplar os três períodos do espanhol peninsular: fase antiga, fase média e fase moderna, segundo a proposta de periodização de Eberenz (1991). Os parâmetros de análise observados foram: (i) frequência token e type das construções concessivas; (ii) função desempenhada pela construção concessiva dentro da construção complexa; (iii) factualidade da construção concessiva; (iv) configuração modo-temporal da construção concessiva; e (v) posição da construção concessiva dentro da construção complexa. A análise dos dados revela que, com o aumento da frequência das construções concessivas introduzidas por "aunque" ao longo do tempo, surgiram mudanças nos padrões construcionais e nos tipos de construções introduzidos por "aunque". Mudanças nos padrões construcionais podem ser observadas na passagem da fase antiga – na qual "aunque" é utilizado principalmente em construções concessivo-condicionais – para a fase média – quando "aunque" passa a introduzir predominantemente construções tipicamente concessivas. Além disso, verificamos uma abstratização do valor concessivo nas construções iniciadas por "aunque", em especial a partir da fase média, uma vez que esse conectivo passa a atuar em construções retóricas, voltadas para a interação comunicativa. Por fim, a análise revela uma mudança categorial de "aunque", que, além de atuar como conjunção, passa a ocorrer como marcador discursivo nas fases mais recentes do espanhol. (Apoio: PIPD-CAPES, processo nº88887.019315/2024-00)
Palavras-chave: Gramática de Construções; Análise diacrônica;
BEATRIZ QUIRINO ARRUDA DONÁ
[Linguística Cognitiva]
A metonímia na anamnese: linguagem multimodal e construction do raciocínio clínico na relação médico-paciente
A prática clínica constitui-se fundamentalmente pela linguagem e pela construção interpretativa das narrativas produzidas na interação entre médico e paciente. Durante a anamnese, o paciente raramente organiza sua experiência de adoecimento de maneira linear ou tecnicamente sistematizada; seus relatos emergem por meio de fragmentos de memória, percepções corporais, episódios específicos, emoções, gestos, pausas e seleções parciais da experiência vivida. Nesse contexto, este trabalho propõe compreender a metonímia como mecanismo cognitivo fundamental para a construção da narrativa clínica e para a elaboração do raciocínio diagnóstico. Fundamentado na Linguística Cognitiva, especialmente nos estudos de Gibbs, Lakoff e Johnson, e dialogando com as discussões sobre multimodalidade em Antônio Suárez Abreu e Kress, bem como com a perspectiva da medicina narrativa em Rita Charon, o estudo objetiva analisar de que maneira os relatos dos pacientes operam metonimicamente durante a anamnese e como a escuta clínica depende da capacidade do médico de reconhecer, organizar e interpretar essas projeções parciais na construção do quadro clínico. Parte-se da hipótese de que o discurso do paciente estrutura- se frequentemente pela lógica de partes relevantes na perspectiva do paciente, na qual sintomas isolados, percepções corporais e manifestações multimodais funcionam como pontos de acesso cognitivo para a compreensão da condição clínica mais ampla. Nessa dinâmica, o médico atua como sujeito interpretante capaz de articular elementos verbais e não verbais, organizando fragmentos dispersos em uma totalidade diagnóstica significativa. Sob essa ótica, o diagnóstico clínico não decorre da simples soma mecânica dos sintomas, mas da capacidade de estabelecer relações interpretativas entre indícios, focalizações perceptivas e experiências narradas pelo paciente. O estudo busca, assim, contribuir para as discussões sobre linguagem, cognição e formação médica, evidenciando a relevância da competência discursiva e interpretativa na construção da escuta clínica e na humanização do cuidado em saúde. Referências bibliográficas ABREU, Antônio Suárez. Linguagem, cognição e multimodalidade. São Paulo: Contexto, 2022. CHARON, Rita. Narrative Medicine: Honoring the Stories of Illness. New York: Oxford University Press, 2006. GIBBS, Raymond W. Embodiment and Cognitive Science. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. KRESS, Gunther. Multimodality: A Social Semiotic Approach to Contemporary Communication. London: Routledge, 2010. LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metaphors We Live By. Chicago: The University of Chicago Press, 1980. MOURA, Heronides. Metáfora e metonímia: abordagens cognitivas. Florianópolis: Insular, 2007.
Palavras-chave: Metonímia; Linguística Cognitiva; Anamnese; Multim
BRENO RAFAEL MARTINS PARREIRA RODRIGUES REZENDE
[Análise do Discurso]
Divulgação científica e gênero do discurso: análise de condições de produção do campo da ciência
Conforme Maingueneau (2016), a problemática do gênero do discurso se impõe a muitos trabalhos desenvolvidos sob a tutela da análise do discurso, o que pode supor uma saturação de noções apresentadas em relação ao conceito. No entanto, dada a capacidade de renovação das práticas sociais, muitos problemas (novos e antigos) sobre o gênero continuam a se impor a pesquisadores inscritos nessa área de estudos. Neste trabalho, que decorre de uma pesquisa de pós-doutorado, apresento um recorte dessa pesquisa, em que busco analisar textos de divulgação científica e sua genericidade, a partir de condições de produção (Pêcheux, [1969] 1997; Maingueneau, 2008b) impostas pelo campo da ciência. A hipótese principal dessa análise é que, no interior desse campo, enunciados de divulgação científica podem ser caracterizados como exemplares de gênero, devido à função social que exercem na comunicação humana e ao fato de serem condicionados por um discurso constituinte, ligado a uma fonte legitimadora (o método), gerido por uma comunidade discursiva tributária de práticas altamente institucionalizadas. Nesta proposta, verifiquei que os enunciados apresentam uma extensa variabilidade de cenografias (Maingueneau, 2008a), especialmente em função do público-alvo dos veículos especializados na publicação desse tipo de texto, dentre os quais se destaca a Revista Pesquisa Fapesp e a Revista Ciência Hoje das Crianças¸ considerados para a coleta dos dados de análise, os quais possuem em comum o fato de serem mantidos por agências de fomento brasileiras. Nesse sentido, a abordagem realizada diferencia-se de trabalhos predecessores (Grillo, 2006; Bueno, 1985), que analisaram enunciados de divulgação científica como um fenômeno ligado, pelo menos em certa medida, a vários campos. Nesta abordagem, por outro lado, considera-se que, enquanto gênero composto de enunciados relativamente estáveis (Bakhtin, 2003), as variações nas dimensões do tema, da composição e do estilo ocorrem mais em função de certa diversidade enunciativa que esses textos possuem, do que devido a uma mudança de campo.
Palavras-chave: Divulgação científica; Gênero do discurso; Condições de
BRUNA MARIA ATALLA PEREIRA
[Letramento(s)]
Inteligência artificial generativa e letramento acadêmico-científico: deslocamentos da posição-sujeito e efeitos discursivos
Este trabalho investiga os efeitos da Inteligência Artificial Generativa (IAG), especificamente do modelo ChatGPT, na revisão da escrita acadêmico-científica e problematiza as implicações da intervenção algorítmica no letramento de pesquisadores em formação. O estudo está inserido no campo da Linguística Aplicada e fundamenta-se na perspectiva etnográfico-discursiva dos letramentos (Corrêa, 2011) e na Análise do Discurso de vertente francesa. Do ponto de vista teórico-metodológico, o estudo mobiliza conceitos centrais da Análise de Discurso de vertente francesa: sujeito, condições de produção (Pêcheux, 2014) e interdiscurso (Pêcheux, 2014; Maingueneau, 2008. O objetivo central é compreender as reconfigurações operadas em textos originais de estudantes a partir de comandos voltados à adequação aos critérios acadêmico-científicos, examinando os deslocamentos do sujeito discursivo e a possível supressão de sua inscrição histórica e subjetiva. O corpus é constituído por textos-resposta produzidos no primeiro semestre de 2023, em uma disciplina de pós-graduação organizada como oficina de letramentos acadêmico-científicos, ministrada no formato online, vinculada ao Projeto Temático Aprendizes Universitários em Práticas Contemporâneas de Letramento Acadêmico-Científico. Os textos, organizados na forma pergunta/resposta, tematizam a liberdade de escolha do pesquisador quanto ao seu objeto de estudo. Cada texto foi submetido ao ChatGPT acompanhado de um prompt específico solicitando avaliação conforme critérios da escrita acadêmico-científica e reescrita corrigida. A metodologia, de natureza qualitativa com suporte de análise quantitativa, organiza a análise em eixos que revelam tendências sistemáticas de transformação dos efeitos discursivos. Os resultados permitem constatar que, enquanto o texto do estudante é marcado por uma individuação que articula saberes teóricos à sua experiência situada e coletiva, a IAG opera uma assepsia dessas tensões, movendo o sujeito aprendiz para um pesquisador genérico. O trabalho contribui para a reflexão crítica sobre as práticas de produção científica contemporânea, fornecendo subsídios para o campo do letramento acadêmico-científico ao lançar luz sobre como a intervenção tecnológica pode reconfigurar os modos de inscrição do sujeito na cultura acadêmica.
Palavras-chave: Inteligência Artificial Generativa; Letramento
BRUNO BOHOMOLETZ DE ABREU DALLARI
[Historiografia Linguística]
Saussure e o advento da linguística das línguas
Na história da Linguística, o momento da constituição da linguística moderna costuma ser identificado com a transição entre paradigmas da linguística histórica para a linguística estrutural, estabelecida em bases científicas. Nessa narrativa, o papel de Saussure teria sido prover os fundamentos da segunda, conforme colocados no CLG (Curso de Linguística Geral). Essa caracterização, por si mesma problemática como descrição do desenvolvimento da disciplina, aloca no processo interno de elaboração teórica a criação e o estabelecimento de seu arcabouço fundamental. Essa perspectiva desconsidera inteiramente uma série de acontecimentos do contexto externo decisivos para a constituição da linguística moderna que tiveram tanta ou mais importância que o desenvolvimento teórico interno para gerar esse resultado. Esta apresentação visa expor esses elementos externos e mostrar como eles convergiram com a evolução interna da disciplina para gerar a nova abordagem. A partir da segunda metade do século XIX, os estados passaram a se definir como “nacionais”. A instituição de uma língua definida como nacional e oficial era o componente fundamental da operação necessária para legitimar e estabelecer as bases de funcionamento do Estado (Hobsbawm, 1990). A configuração da língua nacional se consolidava na elaboração de dicionários e gramáticas oficiais, a serem usados como referência em todas as atividades do Estado e na educação pública, que tinha por missão unificar a língua como base para o estabelecimento de uma comunidade nacional (Anderson, 2008). A configuração das línguas nacionais a partir das línguas efetivamente faladas em certos territórios, tomando como referência a versão culta delas, requeria um aparato conceitual e metodológico qualificado para sua descrição e reconfiguração. Ela demandava, como arcabouço, uma linguística geral das línguas vernaculares que não correspondia ao que se praticava sob o nome de Linguística até aquele momento. A investigação dos fenômenos da linguagem e a realização de tarefas aplicadas sobre ela aconteciam num quadro disciplinar muito disperso que não prefigurava a constituição de uma ciência unificada. As perspectivas, bastante avançadas sob alguns aspectos, de precursores como Gabelentz, Whitney, Jespersen e Sapir, não chegavam à cobertura requerida. É nesse contexto que a linguística geral exposta no CLG aparece como um arcabouço consistente e compreensivo em condições de suprir essa demanda, na medida em que se propunha a cobrir, pioneiramente, “todas as manifestações da linguagem humana, quer se trate de povos selvagens ou nações civilizadas (...) não só a linguagem correta e a ‘bela linguagem’, mas todas as formas de expressão” (Saussure, 2018 [1916]).
Palavras-chave: Saussure; linguística das línguas; políticas
BRUNO SCIENZA SCHMIDT
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
Inteligência artificial generativa (IA Gen) e produção textual no Ensino
Médio: implicações para a aprendizagem da escrita em uma educação linguística pós-digital No contexto de uma educação pós-digital, as práticas escolares de produção textual escrita passam a ser atravessadas pela crescente presença de sistemas de inteligência artificial generativa (IA Gen). Nesse cenário, a escrita, entendida como um processo interativo, dialógico, dinâmico e negociável (Antunes, 2003), tende a assumir novos contornos, uma vez que estudantes passam a interagir com tais sistemas durante o processo de elaboração de seus textos. Diante desse quadro, a presente comunicação busca analisar as estratégias linguístico-textuais e discursivas mobilizadas pelos alunos ao produzirem textos com auxílio de sistemas de IA Gen, buscando compreender o que essas estratégias revelam sobre a aprendizagem da escrita na perspectiva de uma educação linguística pós-digital. Para tanto, fundamenta-se nas concepções sociointeracionistas de linguagem (Bakhtin, 2003; Bronckart, 2006), nos estudos sobre gêneros e letramentos (Dolz; Schneuwly, 2004; Rojo, 2005; Kleiman, 2010) e nos debates acerca da educação linguística ampliada (Cavalcanti, 2013) e da educação pós-digital (Jandri? et al., 2018). Do ponto de vista metodológico, o estudo insere-se no campo da pesquisa-ação (Tripp, 2005) e os dados foram gerados por meio do desenvolvimento de um projeto de ensino que integrou um sistema de IA Gen ao processo de produção textual em duas escolas públicas, localizadas nos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Para fins analíticos, examinam-se os textos produzidos pelos estudantes participantes do projeto, observando as mudanças ocorridas entre as versões iniciais e finais dos textos, bem como as formas de interação estabelecidas com o sistema de IA Gen ao longo do processo de escrita. Os resultados indicam que, nas versões iniciais, a IA Gen atuou predominantemente na geração e organização de ideias sem substituir, aparentemente, a autoria dos estudantes. Já nas versões finais, observa-se uma combinação entre colaboração e delegação, com os alunos recorrendo à IA Gen para reescrever trechos, mas assumindo a responsabilidade sobre as escolhas discursivas. Conclui-se, assim, que o uso de sistemas de IA Gen pode assumir um papel relevante nas práticas pós-digitais de escrita, desde que sua integração ocorra de modo orientado e eticamente situado, favorecendo processos de reflexão sobre autoria, textualização e uso crítico dessas tecnologias no contexto escolar.
Palavras-chave: Produção textual escrita; Inteligência artificial
BÁRBARA ZEQUINI SILVESTRE
[Semiótica]
O suporte formal na construção do sentido: análise semiótica de uma plataforma digital educacional
O trabalho pretende analisar as estratégias discursivas de natureza didático-pedagógicas produzidas na plataforma digital educacional “EF Education First”. No ano de 2025, a plataforma passou a ser um recurso tecnológico de utilização obrigatória durante as aulas do componente curricular "Língua estrangeira inglês" da educação básica da rede pública de ensino do estado de São Paulo (etapas ensino fundamental anos finais e ensino médio). Para isso, compreende-se a plataforma digital como texto-enunciado que, integrado a um objeto-suporte, manifesta formas de vida. O Sistema Educacional (SE) do estado de São Paulo, ao implementar a plataforma digital “Education First” nas aulas de língua inglesa, também atribuiu aos usuários uma meta que consiste em realizar uma lição da plataforma por semana. Ao tomar a plataforma como texto-enunciado, verifica-se a presença de uma transformação de estado em que o sujeito educando, inicialmente, encontra-se disjunto do objeto “meta” e deve percorrer a plataforma para entrar em conjunção com este. Entre os anos de 2024 a 2026 a plataforma educacional passou por diversas mudanças, entre elas a organização visual de suas interfaces. Tais alterações incidem diretamente sobre os modos de interação, percursos de navegação e regimes de visibilidade propostos ao usuário, reconfigurando, assim, os processos de produção de sentido. Assim, torna-se fundamental o estudo do objeto formal, conforme proposto por Jacques Fontanille, uma vez que é por meio dele que se apreendem as formas de organização do suporte. Dessa forma, o objetivo deste estudo é discutir como a interface, enquanto instância de condução, participa do processo de conversão de formas de vida da aprendizagem em formas de vida do empreendedorismo. Para isso, mobilizam-se as dimensões plásticas constitutivas do plano da expressão, de modo a compreender a participação do objeto formal na produção de sentido e às formas às quais os sujeitos são convocados ao discurso da plataforma.
Palavras-chave: Plataforma digital; Suporte formal; Formas de vida
CARLA REGINA MARTINS PAZA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Entre o dito e o não dito: gênero, narrativas e interação na prática da renda de bilro
Este trabalho tem como objetivo investigar as temáticas mobilizadas nas interações discursivas que ocorrem durante a confecção da renda de bilro em uma comunidade de mulheres rendeiras do bairro Rio Vermelho, em Florianópolis, Santa Catarina. A análise focaliza especialmente os modos como essas mulheres narram e legitimam as conversas que atravessam essa prática coletiva historicamente associada ao feminino, partindo de uma tensão observada no trabalho de campo: a relação entre aquilo que efetivamente circula nas conversas durante a prática e aquilo que as participantes declaram, nas entrevistas, como sendo ou não tematizado nesse espaço. Os dados provêm de oito meses de observação participante, entre agosto de 2024 e março de 2025, com registros sistematizados em diário de campo, e de 19 entrevistas etnográficas realizadas entre fevereiro e março de 2025 com as participantes e a professora de renda. A base teórica articula o conceito de comunidade de prática de Wenger (1998), a apresentação de si em Goffman (1959), a noção de comunidade linguística em Gumperz (1968) e a abordagem de Tannen (1982) sobre narrativas orais e relatos de experiências interacionais, dentre outros(as) autores(as). De modo geral, há certa correspondência entre os dois conjuntos de dados, uma vez que as rendeiras mencionam conversas relacionadas à vida cotidiana, às relações familiares e a produções culturais. No entanto, observa-se também uma discrepância significativa, já que temas de maior complexidade social, como política, diversidade religiosa e questões de gênero, embora recorrentes nas interações observadas, aparecem pouco ou não são mencionados nos relatos das participantes. Além disso, ao afirmarem que não conversam durante a prática ou que o espaço é dedicado exclusivamente à renda, algumas mulheres parecem buscar afastar estigmas associados à conversa informal entre mulheres, especialmente a ideia de “fofoca”. O trabalho evidencia como mulheres rendeiras representam, silenciam e legitimam diferentes formas de interação discursiva, revelando relações entre linguagem, gênero, prática social e construção de imagens de si no interior de uma comunidade de prática.
Palavras-chave: linguagem e gênero; comunidade de prática; interaç
CARLOS ELISIO NASCIMENTO DA SILVA
[Linguística Aplicada]
Estudo das relações entre incentivos gamificados e o desenvolvimento linguístico
Esta pesquisa, situada no campo da linguística aplicada ao ensino de língua materna, propõe e investiga um método de ensino de redação que articula três frentes teóricas habitualmente tratadas em separado. A gamificação é mobilizada como arquitetura de permanência, no sentido em que o desenho motivacional da experiência sustenta o engajamento do aluno em tarefas cognitivamente exigentes ao longo do tempo. A linguística textual de orientação sociocognitivo-interacionista, na esteira de Koch (2002, 2004), Koch e Elias (2017) e Marcuschi (2008), oferece as categorias descritivas que dão precisão ao que se ensina, ou seja, coesão, coerência, progressão temática, intertextualidade e adequação tipológica. A avaliação formativa, ancorada em Sadler (1989) e Nicol e Macfarlane-Dick (2006), fornece o princípio segundo o qual o objetivo da intervenção é desenvolver no aluno a capacidade de monitorar a qualidade emergente de seu próprio trabalho. O estudo foi conduzido ao longo de 2024 em uma turma de 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública do interior de São Paulo. O método combina dois eixos complementares. O primeiro é o feedback dialógico individual, conduzido em encontros face a face em que o pesquisador realiza leitura comentada do texto com o aluno, registra ansiedade, confiança e tempo de escrita e discute o projeto de dizer da redação. O segundo é o ciclo gamificado de avaliação por pares, em que os alunos atuam como avaliadores de redações reais do ENEM organizadas em níveis progressivos de desempenho, aplicando a matriz oficial e debatendo seus diagnósticos em grupos. O corpus de análise reúne 98 redações distribuídas em quatro rodadas mensais. Os resultados confirmaram o impacto significativo do método. Os testes estatísticos aplicados sobre as variáveis controladas indicaram redução da ansiedade, aumento da confiança, melhoria das notas e redução do tempo de escrita. A análise longitudinal documentou a evolução qualitativa das propostas de intervenção e a sofisticação do repertório de conectivos, configurando a passagem de uma escrita que apenas conecta enunciados para uma escrita que constrói argumentação. No plano qualitativo, a atividade gamificada mostrou-se capaz de transformar o julgamento intuitivo dos alunos em julgamento fundamentado, com operacionalização de conceitos da matriz oficial e articulação consistente da metalinguagem avaliativa. Indicadores externos reforçaram esses achados, com destaque para o desempenho da escola na redação do ENEM 2024.
Palavras-chave: Ensino de redação; Gamificação; Linguística textual
CAROLINA MAZZARON DE CASTRO
[Semiótica]
Violência ou misoginia? Uma análise semiótica da opinião pública digital e da ineficácia simbólica da Lei Maria da Penha
Este trabalho analisa como a violência contra a mulher é retratada em comentários de redes sociais e publicações digitais sobre o tema, adotando uma perspectiva mereológica de construção do corpus (Fontanille, 2008; Dondero, 2000), na qual os textos são reconstruídos a partir de procedimentos enunciativos de indexação e recorte. Com base na semiótica discursiva e nos estudos de Fontanille, Schwartzmann e Saffioti, buscamos compreender como essas narrativas influenciam a percepção social sobre a vítima, o agressor e as medidas de proteção. A pesquisa observa sentidos como silenciamento, culpabilização da mulher e relações de poder presentes nos discursos sobre violência doméstica. Conforme Lipmann (1922), a opinião pública não acessa a realidade diretamente, mas por imagens construídas midiaticamente, que obedecem a um sistema de valores e preconceitos. No ambiente digital, comentários em redes sociais operam como extensão performativa dessa opinião, produzindo efeitos de legitimidade. Distinguimos, com Schwartzmann (2024), violência de gênero de misoginia: esta ocorre quando os discursos não apenas descrevem o ato violento, mas expressam ódio e aversão à condição feminina, retirando a humanidade da vítima. Aplicamos esse critério aos comentários sobre casos de violência, identificando marcas de desumanização. Além disso, retomando Jessé de Souza (2017), a violência simbólica opera pela construção de uma sociedade adequada aos interesses dominantes, substituindo a coação física por persuasão dirigida às "pessoas de bem". A grande imprensa e sua propagação digital institucionalizam esse processo. O trabalho demonstra a distância entre o texto da Lei Maria da Penha e as práticas sociais efetivas, evidenciando uma ineficácia de natureza semiótica: os discursos que circulam nas redes frequentemente neutralizam os efeitos protetivos da lei. A culpabilização da vítima, a desqualificação de seus relatos e a naturalização da violência nos comentários funcionam como contra-dispositivos simbólicos que esvaziam a lei no plano das práticas. Assim, a pesquisa mostra que os problemas entre o texto legal e sua aplicação não são meramente operacionais, mas discursivos. A reflexão sobre políticas públicas precisa incorporar essa dimensão semiótica: a ineficácia da Lei Maria da Penha é também discursiva, e combatê-la exige transformar os regimes de opinião pública que reproduzem, a cada comentário, o silenciamento e a desumanização da mulher.
Palavras-chave: Semiótica; misoginia; violência doméstica
CAROLINA PASQUOTE VIEIRA
[Semiótica]
Entre programação e ajustamento: o discurso médico e seus efeitos na vivência do câncer infantil
O discurso médico no contexto do câncer infantil pode ser analisado como um dispositivo que organiza relações, produz efeitos de sentido e orienta condutas, mobilizando os saberes e as práticas dos sujeitos envolvidos. Muitas vezes o discurso profissional se constrói de forma mecanicista e padronizada, operando pela programação, no que diz respeito aos regimes de interação (Landowski, 2014), e impondo um fazer ao outro. Em alguns momentos, há uma mudança para a manipulação, quando se estabelece um não saber no paciente, como se a posição de doença lhe atribuísse uma passividade e uma anulação de decisões. Em uma live realizada pela idealizadora do @institutoanaju em 12 de fevereiro de 2026, uma mãe oncológica relata: “E aí ela chegou e falou ‘é neuroblastoma, uma doença muito agressiva... e eu marquei uma cirurgia pra ele na terça e vamos começar a quimioterapia’. Ela falou ‘eu vou dar alta pra vocês nesse fim de semana e depois vocês vão internar sem previsão de sair, porque assim, eu não sei o que te falar, não sei se vai sair ou se não vai sair porque mãe é uma coisa que é muito agressiva”. Esse texto revela um discurso que se define pelo regime da programação, porque opera diretamente sobre as coisas. Também se nota a presença da manipulação quando é observada a tentativa de influenciar o outro sujeito a agir de forma determinada. Esse é apenas um exemplo de algo que se reitera, conforme pudemos observar em nossa pesquisa: nos momentos mais delicados da vivência do diagnóstico há uma predominância da programação, para que os riscos trazidos pelos questionamentos sejam minimizados. A análise dos discursos a partir dos regimes de interação permite compreender como diferentes modos de enunciação impactam a experiência do câncer infantil, podendo tanto reforçar a dimensão traumática quanto possibilitar formas mais compartilhadas e sensíveis de enfrentamento. A partir de nossa pesquisa com mães oncológicas, propomos que a busca por uma possibilidade de ajustamento no discurso dos profissionais envolvidos com os familiares poderia ser uma estratégia de reinvenção do discurso da família para a criança. Isso seria um fator que favoreceria outras vias de significação da experiência, contribuindo para uma alternativa mais saudável de vivência do percurso da doença e do tratamento. Essa outra possibilidade de construção do sentido poderia promover um registro de memória mais permeado pela extensidade, promovendo a redução de efeitos traumáticos, tanto nos familiares como nas crianças.
Palavras-chave: câncer infantil; regimes de interação; semiótica
CAYO FELLYPE DE SOUSA DANIELI
[Gramática Funcional]
Construções correlativas comparativas de superioridade no português brasileiro contemporâneo: uma abordagem cognitivo-funcional
Este trabalho analisa, em perspectiva sincrônica, as construções correlativas comparativas de superioridade [MAIS…QUE] no português brasileiro. O estudo descreve os esquemas de intensificação e o funcionamento morfossintático, semântico e pragmático-discursivo dessas construções. A fundamentação teórica inscreve-se na Linguística Cognitivo-Funcional (Givón, 2001; Módolo, 2004; Neves, 2011; 2018) e na Teoria das Construções Gramaticais (Goldberg, 1995; Croft, 2001; Langacker, 2008; Bybee, 2010), que concebem a língua como uma rede de construções organizada por pareamentos simbólicos entre forma e função. No domínio das construções correlativas comparativas, o par [MAIS…QUE] estabelece uma relação de interdependência entre segmentos, marcada pelo advérbio MAIS na prótase e por conectivos como QUE, DO QUE ou DE QUE na apódose, como em “é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo (X-Twitter, 02/03/2021)”. Essas construções situam-se em uma zona intermediária entre coordenação e subordinação, apresentando propriedades de ambas. Apesar de sua frequência no português brasileiro, ainda são relativamente pouco exploradas na literatura linguística. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa e quantitativa, de natureza descritiva e documental. O corpus é composto por dados reais de uso, coletados na plataforma X-Twitter, abrangendo o período de 2009 a 2025. A partir do par [MAIS…QUE], foram identificados seis padrões construcionais, descritos com base nos seguintes critérios: (i) frequência token (1.339 ocorrências); (ii) frequência type: distribuída em seis subesquemas: [X MAIS QUE Y] (185 ocorrências); [MAIS X QUE Y] (375 ocorrências); [MAIS X DO QUE Y] (512 ocorrências); [X MAIS DO QUE Y] (192 ocorrências); [MAIS X DE QUE Y] (4 ocorrências); e [X MAIS DE QUE Y] (71 ocorrências); (iii) elemento comum; (iv) elementos em comparação; (v) marcador comparativo; (vi) expediente sintático; (vii) juntura; e (viii) interdependência. Os resultados indicam que essas construções desempenham papel relevante na organização de avaliações e na estruturação de escalas comparativas no português brasileiro contemporâneo, especialmente em contextos de uso digital. Dessa forma, o estudo contribui para a compreensão dos mecanismos linguísticos envolvidos na expressão de comparação e intensificação no português brasileiro. Este estudo integra uma pesquisa mais ampla sobre as construções correlativas comparativas de superioridade no português brasileiro (Apoio: CAPES – Processo 88887.079807/2024-00).
Palavras-chave: Linguística Cognitivo-Funcional; Correlação; Comparação
CIBELE NAIDHIG DE SOUZA
[Gramática Funcional]
A CONSTRUÇÃO [ÀS VEZES] E A MODALIDADE NO PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO
Neste trabalho, examinam-se ocorrências da construção [às vezes], buscando demonstrar que determinados usos permitem uma leitura modal. A pesquisa baseia-se em textos do português contemporâneo disponíveis no banco de dados do Corpus do Português (DAVIS; FERREIRA, 2006), no conjunto Web/Dialetos e em dados localizados na internet. Defende-se que a construção pode expressar um evento como conjectura do enunciador, isto é, como algo não factual, possível, o que favorece uma interpretação modal. Investigam-se contextos de uso caracterizados por multiplicidade semântica que permitem o surgimento de valores modais a partir de inferências, bem como indícios de rotinização. Observam-se parâmetros semânticos, pragmáticos e morfossintáticos que conduzem à interpretação modal. Compõem o alicerce teórico para o tratamento da modalidade estudos que, de diferentes modos, concebem essa categoria como relacionada à expressão da atitude do enunciador em relação a um conteúdo e a analisam sob uma perspectiva orientada para o uso (entre outros: Palmer (1986), Narrog (2012), Bybee et al. (1994), Auwera; Plungian (1998), Hengeveld (2004)). Para a classificação dos subtipos modais, adota-se Hengeveld (2004), cuja proposta parte do cruzamento entre: (i) orientação - para o participante, para o evento ou para a proposição - e (ii) domínio - facultativo, deôntico, volitivo ou epistêmico. Orientada para o participante, a modalidade pode ser facultativa, deôntica ou volitiva; orientada para o evento, pode ser facultativa, deôntica, volitiva ou epistêmica; orientada para a proposição, pode ser epistêmica ou evidencial. Além dessas bases para o estudo da modalidade, a proposta analítica para [às vezes] sustenta-se em pressupostos da Gramática de Construções, segundo a qual a língua é entendida como estruturada, variável e gradiente, em constante acomodação decorrente do uso (BYBEE, 2010). Nessa perspectiva, o conhecimento linguístico é organizado em esquemas rotinizados pela experiência, interligados entre si e pertencentes a uma rede. A unidade de análise é o pareamento simbólico entre forma e função (a construção), que pode ser caracterizada por meio dos conceitos de esquematicidade, de produtividade e de composicionalidade (TRAUGOTT; TROUSDALE, 2013).
Palavras-chave: Linguística Centrada no Uso; Modalidade; [às vezes]
CLARA BONTEMPO
[Semiótica]
Construção semiótica da Tradwife: a tensão entre o discurso da esposa tradicional e as práticas da influenciadora digital
Este trabalho investiga a construção semiótica da tradwife, considerando como objeto de análise as publicações da influenciadora Luiza Maciel na rede social Instagram. Tomaremos como base metodológica a semiótica discursiva, em especial as categorias do percurso gerativo de sentido, proposto por A. J. Greimas, alguns conceitos da abordagem tensiva, desenvolvida por Claude Zilberberg e a proposta mais recente de Jacques Fontanille sobre o percurso gerativo do plano da expressão, que compreende figura-signo, texto-enunciado, objeto, prática semiótica e forma de vida. Buscaremos demonstrar como a tradwife se constitui a partir de uma relação concessiva entre dois papéis temáticos em tensão: o da esposa tradicional e o da influenciadora digital. Para este trabalho, analisaremos 10 publicações que representam as principais questões abordadas pela influenciadora - casamento, maternidade, feminilidade, beleza, moda modesta e cuidado doméstico. Essas 10 postagens também são representativas no que diz respeito aos formatos midiáticos utilizados, tais como vídeos com fundo musical e texto escrito, vídeos narrados, sequência de fotos com legenda complementar e, entre eles, conteúdo publicitário. Por fim, discutiremos a relação conflituosa entre os papéis temáticos da esposa e da influenciadora na relação que se estabelece entre o texto enunciado e a prática semiótica de Luiza Maciel no Instagram. Pelo ponto de vista do texto enunciado, ela se apresenta como esposa submissa e mãe zelosa, que tem como objeto-valor de seu programa de base a harmonia do lar e o bem-estar da família. Ao mesmo tempo, o sujeito da prática é uma influencer característica que tem como objeto-valor de seu programa de base a viralização e a monetização de seus conteúdos. Nesse embate, procuraremos mostrar que, embora Luiza Maciel dissemine valores conservadores, sobretudo no que diz respeito a papéis de gênero, seu papel na prática semiótica de influenciadora digital é, de fato, o de uma empreendedora que visa lucro e presença marcante nas redes sociais. A questão de interesse é entender como a tradwife se constitui como uma figura coesa a partir do tensionamento entre dois papéis aparentemente antagônicos.
Palavras-chave: Tradwife; práticas semióticas; influenciadora digital
CRISTIAN HENRIQUE IMBRUNIZ
[Linguística Aplicada]
Podcasts escolares e reformulação discursiva: práticas de oralidade no
Ensino Fundamental II De uma perspectiva dos estudos dos (multi)letramentos, este trabalho tem como objetivo investigar processos de reformulação discursiva em episódios de podcast produzidos por alunos dos anos finais do Ensino Fundamental II, com vistas a eventuais processos de didatização de gêneros orais. A reformulação é compreendida como fenômeno constitutivo da linguagem que, no caso da produção oral, manifesta-se como estratégia de construção, ajuste e reorganização do dizer. O podcast é entendido, por sua vez, como prática de linguagem que articula modos de enunciação letrados, no planejamento e na roteirização, e orais, na realização do episódio. Em contexto educacional, observa-se crescente incentivo ao uso dessa mídia como recurso pedagógico voltado à autoria estudantil, ao desenvolvimento da oralidade e ao uso crítico de tecnologias digitais. O corpus é constituído pela transcrição do episódio “Podcast educativo aborda História da escola, da cidade e do país | Boas Práticas da Rede”, produzido em 2023 por estudantes do 9º ano da Escola Municipal Estados Unidos, no Rio de Janeiro, no âmbito de iniciativa vinculada à MultiRio. O episódio foi selecionado por integrar uma prática de produção de podcast escolar desenvolvida com estudantes do ensino fundamental II, contexto semelhante às experiências pedagógicas mobilizadas pela autoria no ensino de oralidade. Além disso, o gênero podcast favorece situações de interação oral marcadas por planejamento parcial, monitoramento da fala e negociação de sentidos, aspectos que possibilitam a observação de processos de reformulação. O corpus apresenta diferentes processos de reformulação. Para fins analíticos, privilegiam-se quatro movimentos recorrentes: autorreparações, retomadas expansivas, buscas lexicais e substituições referenciais. Metodologicamente, trata-se de investigação qualitativa de base interpretativa, centrada na identificação e interpretação de ocorrências de reformulação no discurso oral escolar. Os resultados parciais indicam que a reformulação atua como recurso central na organização do discurso, na construção colaborativa de sentidos e no desenvolvimento de competências discursivas em práticas escolares mediadas por tecnologias, em consonância com demandas contemporâneas dos multiletramentos em contexto de ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Podcast; Reformulação; Multiletramentos
CRISTINA DOS SANTOS CARVALHO
[Linguística e interfaces]
Fenômenos de mudança linguística no português angolano e moçambicano: algumas pesquisas na
UNEB No Brasil, em relação aos estudos linguísticos, houve uma preocupação inicial, sob diferentes orientações teóricas, de descrever o português brasileiro (PB) e apenas compará-lo ao português europeu (PE), a variedade linguística do colonizador. Mais tarde, a atenção do(a) linguista brasileiro(a) passou a se voltar também para realidades linguísticas de outros países que também tiveram o português imposto em seus territórios, tais como os países africanos de língua oficial portuguesa. Essa postura teórico-metodológica contribuiu para evidenciar a importância de não se fazer apenas uma linguística de viés eurocêntrico. Deslocou-se, por exemplo, o olhar para o comportamento de fenômenos de variação e mudança linguísticas em variedades africanas do português. Ademais, buscou-se situar o PB para além do contexto de dicotomia PB x PE (Petter, 2009), ampliando-se o escopo de comparação para abranger outras variedades da língua portuguesa. Na presente comunicação, pretendemos traçar um panorama de pesquisas desenvolvidas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) sobre alguns fenômenos de mudança linguística com base em dados do português angolano e moçambicano. Na discussão, valemo-nos de resultados empíricos de pesquisas qualiquantitativas dos Campi I e XIV da UNEB. Quanto à linha teórica, centramos nossa atenção em trabalhos fundamentados no funcionalismo norte-americano, sob os enfoques da abordagem da gramaticalização ou da Linguística Funcional Centrada no Uso. Quanto à temática, tais trabalhos têm analisado os seguintes objetos linguísticos: a construção quer dizer (Almeida, 2022); usos dos verbos entender (Lima, 2025) e tomar (Carvalho; Jesus, 2025); pronomes locativos pós SN (Jesus; Carvalho, 2025, 2026); construções parentéticas epistêmicas (Carvalho; Carneiro; Magalhães, 2020,2021; Pinto; Carneiro; Carvalho, 2025); construções com verbos perceptivos (Carneiro, 2021, 2024) e cognitivos (saber) (Carvalho, 2025). Quanto aos resultados, algumas dessas pesquisas têm evidenciado usos linguísticos próprios das variedades examinadas e características comuns ao PB. Tais resultados podem constituir indícios empíricos de aproximações entre variedades africanas do português e o PB, desmitificando a ideia de que as variedades africanas apenas refletem a norma europeia da língua portuguesa. Em uma dimensão mais política, as pesquisas desenvolvidas na UNEB, orientadas por uma perspectiva decolonial de fazer ciência linguística (Nascimento, 2019; Tamba; Timbane, 2024), têm contribuído para dar mais visibilidade às variedades africanas em estudo a partir do mapeamento de fenômenos linguísticos. Nesse sentido, podemos dizer que também colaboram com o combate ao epistemicídio negro africano ao promover, no cenário dos estudos da linguagem, reflexões teórico-metodológicas sobre essas variedades, rompendo com o viés eurocêntrico.
Palavras-chave: Mudança linguística; Funcionalismo linguístico;
DANILO EDUARDO RODRIGUES
[Sociolinguística e Dialetologia]
Interfaces Pajubá Sociolinguística: Descrição, Análise e Ensino na Sala de
Aula de Língua Portuguesa Articulando Sociolinguística e Ensino-Aprendizagem para a realização de uma reflexão que possui enquanto objetivo trazer à luz o Pajubá (ou Bajubá), o presente trabalho toma como bases a teoria Sociolinguística (Weinreich; Labov; Herzog, 2006[1968]; Labov, 2008[1972]), os estudos sobre o ensino-aprendizagem e a sala de aula de línguas (Bortoni-Ricardo, 2014; Rozenfeld; Viana, 2020), e as sistematizações a respeito da (morfos)sintaxe do Português Brasileiro (PB) (Mateus, 2003; Neves, 2011, 2018). Apesar de hoje, infelizmente, ser enxergado como um fenômeno linguístico-social de menor importância, o Pajubá se faz vital dentro da vivência de pessoas transsexuais/ travestis aqui no Brasil, operando enquanto um instrumento de exaltação da linguagem e da comunidade que o utiliza (Barroso, 2017). Em análises linguístico-descritivas prévias realizadas na perspectiva sociolinguística, a possível relação existente entre o Pajubá e o PB se revela a partir de elementos linguístico-estruturais comuns na sintaxe de ambas as manifestações linguísticas, por exemplo: (i) alguns verbos como “Gongar”, “Acquendar” e “Fazer” funcionam como núcleos lexicais plenos, projetando uma grade argumental; (ii) os padrões de ordenação de constituintes na sentença seguem, em Pajubá, o mesmo padrão canônico mais produtivo no PB: Sujeito + Verbo + Objeto; (iii) o conjunto de verbos auxiliares em Pajubá se mantém igual ao do PB, sendo alguns deles: “Ser”, “Estar” e “Ir”; (iv) assim como a possibilidade de adição, ou não, de um verbo leve; semiauxiliar ou auxiliar ao Sintagma Verbal (Rodrigues; Berlinck, 2024). Todas estas características sintáticas são muito valiosas quando se fala no processo de ensino-aprendizagem de línguas no ensino básico, isso porque, hoje, ainda se tem uma visão, extremamente, purista e elitizada do que deveria ser a língua, de como deveria acontecer seu uso, e de como deveria ocorrer seu processo de ensino que, por sua vez, quando é baseado na prescrição, e não da descrição, não estimula o desenvolvimento de proficiência linguística, afinal, não prepara o estudante para fazer uso da língua alvo de uma forma plural e multifacetada. Portanto, a utilização do Pajubá dentro da sala de aula de Língua Portuguesa, seja pelo viés de língua materna ou de língua estrangeira, permite que o professor construa um panorama teórico-reflexivo em torno de temáticas importantíssimas, como a relação língua, dialeto e variedade, e língua, uso e identidade. Tal discussão revelará a importante e distinta função sociolinguística que o Pajubá possuiu e possui na resistência e na luta da comunidade trans/ travesti dentro da sociedade brasileira.
Palavras-chave: Pajubá; Sintaxe; Sociolinguística
DANILO VIZIBELI
[Análise do Discurso]
ESCAVANDO PESQUISAS SOBRE OS BOOKTUBERS: CONSTRUÇÃO E ANÁLISE DE UM
ARQUIVO LINGUÍSTICO PENSANDO COM FOUCAULT Após realizar algumas pesquisas com a temática dos booktubers - leitores e escritores geralmente mais jovens que gravam comentários, resenhas e tantas outras práticas sobre livros e leitura na rede social audiovisual YouTube -, sentimos a necessidade de escavar o que se tem produzido, inicialmente no Brasil, sobre a temática. Dessa forma, o trabalho tem por objetivo principal promover uma pesquisa bibliográfica quanti-qualitativa construindo um arquivo do que se publicou sobre os booktubers no Brasil no período de 2007 a 2025. O ano de início do período demarcatório se deve ao fato de ser o início desta prática no país. Para orientar e conduzir a organização deste arquivo, nos valemos do conceito homônimo em Michel Foucault, mais precisamente em A arqueologia do saber. Dessa forma, interessa-nos pensar nas pesquisas brasileiras sobre os booktubers em termos de linguagem e discurso, inscrevendo-se na Análise do Discurso de matriz francesa e na História Cultural sobre o livro e a leitura. Não se trabalha com a ideia de um arquivo fechado e nem como documento altamente delimitado, mas como monumento que é (re)construído na tessitura do tempo. Com isso, nesta primeira etapa de estudo escavador de pesquisas acerca dos discursos sobre livros e leituras no YouTube que culminaram no que se denominou de booktubers, são destacados apenas artigos científicos publicados em periódicos nacionais indexados pela CAPES. Como nenhum discurso é neutro, intentamos, num primeiro momento, verificar em quais áreas estão as principais pesquisas sobre este tema e, assim, os vãos e desvãos que tais perspectivas podem oferecer, fechando o olhar, num segundo momento, para as pesquisas linguísticas. Com isso, percebemos as formações discursivas nas quais se inscrevem tais trabalhos e as possibilidades de articulação, troca teórica ou aprofundamento e “novas” abordagens para nossas pesquisas futuras. Não se pode deixar de fora uma reflexão sobre o sujeito leitor e produtor de vídeos sobre livros e leituras, uma vez que o pensamento foucaultiano, muito além das temáticas do saber, poder e ética/estética da existência configura-se como uma reflexão do sujeito moderno e se Foucault indagava: “Quem somos nós hoje?”, os estudos analisados configuram-se numa tentativa de (re)pensar “Quem são os leitores hoje”. É com esse propósito que as escavações levam a este arquivo em processamento.
Palavras-chave: Discurso; Arquivo; Booktubers
DENISE GABRIEL WITZEL
[Análise do Discurso]
“A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO”: DISCURSO E CORAGEM DA VERDADE NO
ACONTECIMENTO GISÈLE PELICOT Este estudo é extraído de uma pesquisa que analisa as relações incontornáveis entre Discurso, Escrita de si, Coragem da Verdade e Práticas de Liberdade na produção de subjetividades do sujeito mulher que se narra e luta contra as múltiplas formas de opressão que incidem sobre seu corpo desde a noite dos tempos. Elegemos, para fins de análise e discussões neste recorte, o enunciado “a vergonha precisa mudar de lado”, extraído da escrita de si de Gisèle Pelicot (2025) e produzido após ela descobrir que havia sido vítima de abusos sexuais sistemáticos ao longo de 10 anos. Seu marido, Dominique Pelicot, a submetia a procedimentos químicos administrados em altas doses de modo a deixá-la viva, porém, inconsciente. Sob esse estado, Gisèle foi estuprada pelo próprio marido e por dezenas de homens recrutados por ele em fóruns da internet. O crime foi descoberto quando Dominique foi detido em um supermercado ao ser flagrado filmando as partes íntimas de mulheres sob suas saias, o que levou a polícia a investigar seus dispositivos eletrônicos e encontrar milhares de registros dos abusos contra sua esposa. Orientando-nos fundamentalmente pelo último curso que Michel Foucault ministrou no Collège de France (1983-1984), estabeleceremos as condições de proveniência e de emergência dos discursos parresiásticos de Gisele Pelicot que, ao tempo em que implicaram coragem, riscos, fraturas virtuais e espaços de liberdade, permitem-nos compreender a coragem da verdade dessa mulher enxertada nos discursos centrados no desdobramento judicial que culminou no julgamento iniciado em setembro de 2024, no Tribunal de Avignon-França. Ao recusar o julgamento dos 51 réus com as portas fechadas, ela negou o anonimato e, parresiasticamente, expôs as práticas brutais a que foi submetida, enfrentando seus agressores publicamente. Emerge, assim, uma ética do cuidado de si com vistas a uma nova subjetividade, pois, ao enunciar que “a vergonha precisa mudar de lado”, ela rompe com uma certa regularidade histórica na ordem do discurso que silencia a vítima. Em sua coragem da verdade, Pelicot desestabiliza poderes patriarcais que sustentam a cultura do estupro e desloca a vergonha - tradicionalmente imposta ao corpo feminino - de volta ao agressor e à estrutura social.
Palavras-chave: escrita de si; parresia; cultura do estupro
DOUGLAS VIDAL SANTIAGO
[Neurolinguística]
Interações multimodais no ensino de inglês com estudante com TEA: cenas enunciativas à luz da
Neurolinguística Discursiva O Transtorno do Espectro Autista (TEA), conforme o DSM-5-TR (APA, 2022) e a CID-11 (OMS, 2022/2024), é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na comunicação e na interação social, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Inserida no campo da Neurolinguística Discursiva (Coudry, 1986; Novaes-Pinto, 1999), esta comunicação oral tem como objetivo geral analisar como se organizam as interações envolvendo um estudante com TEA em contexto de ensino e aprendizagem de inglês como língua adicional. Especificamente, busca-se descrever a construção conjunta de sentidos em cenas enunciativas (Maingueneau, 2006), considerando a articulação entre diferentes recursos semióticos e a dinâmica interacional entre os participantes. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, orientada pela perspectiva do dado-achado, com análise de excertos de interações pedagógicas naturalísticas produzidas em ambiente online. O corpus contempla situações de díade (professor–estudante com TEA) e de tríade (com a participação da irmã neurotípica, de 10 anos), possibilitando comparar diferentes configurações interacionais. A análise privilegia episódios que evidenciam ações colaborativas, construção conjunta da atenção e momentos de instabilidade e negociação, considerando a mobilização de recursos verbais, gestuais e corporais na organização das ações. Os resultados indicam que o funcionamento linguístico do estudante não pode ser reduzido a uma lógica deficitária, evidenciando formas singulares e produtivas de significação que emergem na e pela interação. Observa-se que a mediação do interlocutor e os recursos multimodais desempenham papel central na construção de sentidos, assim como a configuração triádica, que amplia as possibilidades de circulação da palavra e de engajamento do sujeito. Episódios de silêncio, pausas e reformulações são compreendidos como constitutivos do processo interacional, e não como falhas. Em diálogo com estudos da área (Morato, 2012; Padilha, 2018; Bordin, 2006; Sellin, 2025), bem como com a noção de neurodivergência (Ortega, 2008) e a perspectiva histórico-cultural (Vygotsky, [1983], 1997), a comunicação contribui para a teorização linguística no âmbito da Neurolinguística Discursiva e para o enfrentamento de abordagens medicalizantes, ao dar visibilidade à singularidade e à alteridade nos modos de estar na linguagem, com implicações para práticas pedagógicas inclusivas.
Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; cenas enunciativas;
DÉBORA APARECIDA DOS REIS JUSTO BARRETO
[Linguística Histórica]
Análise do estatuto fonológico dos segmentos nasais do português arcaico
Este trabalho tem por finalidade analisar os fenômenos fonológicos do ancestral arcaico do português, investigando, de maneira específica, os segmentos nasais (representados na escrita por e , e abreviados por meio do uso do til) em 250 cantigas medievais galego-portuguesas. Para a realização da presente pesquisa, foram selecionadas 100 Cantigas de Santa Maria (CSM) (composições religiosas cuja autoria é atribuída ao rei de Leão e Castela, Dom Afonso X, o sábio); e 150 cantigas da vertente profana (50 cantigas de amor, 50 de amigo e 50 de escárnio e maldizer). A coleta de todos os dados foi realizada por meio do uso das edições fac-similadas dos cantares que formam o corpus, que consistem na reprodução fotográfica dos textos trovadorescos em tamanho real. Os fac-símiles, desse modo, oferecem ao pesquisador que se dedica à análise do ancestral medieval da língua a escrita que de fato ocorreu, o que realmente foi registrado pelos copistas do medievo. A metodologia deste trabalho se baseia na verificação da possibilidade, ou não, de variação na representação escrita desses segmentos da fase arcaica da língua, bem como na posição ocupada pelas nasais no interior da sílaba e da palavra, a fim de averiguar os seguintes pontos: 1) o estatuto fonológico de tais segmentos em contexto de ataque e coda; 2) a nasalização de vogais/ditongos. Os dados coletados nos documentos foram analisados à luz das teorias fonológicas não-lineares. As ocorrências encontradas indicam que, em posição de coda de sílaba, a alternância entre as representações gráficas , e til não representa uma alteração no significado da palavra, ou seja, no nível fonológico, há neutralização da oposição existente entre os sons representados por , e til <~>. Já com relação ao contexto de ataque da sílaba, a oposição se conserva, isto é, a mudança de um segmento nasal por outro implica na mudança da palavra. Cabe pontuar que a revisitação dos dados do ancestral arcaico do português à luz de teorias fonológicas atuais auxilia a explicar dúvidas que restavam aos filólogos do final do século XIX e do século XX (no caso, especificamente sobre a existência, ou não, de oposição entre os segmentos nasais em posição de coda de sílaba), que trabalhavam a partir somente do cotejamento das formas escritas remanescentes.
Palavras-chave: segmentos nasais; estatuto fonológico; cantigas
EDSON ROSA FRANCISCO DE SOUZA
[Gramática Funcional]
AS CONSTRUÇÕES AUXILIARES DE ASPECTO [DISPARAR Prep V2inf] E [PASSAR
Prep V2inf] NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: CASOS DE VARIAÇÃO? O objetivo deste trabalho é analisar, com base na Abordagem construcional da mudança (Traugott e Trousdale, 2013) e na Gramática de Construções (Goldberg, 1995; Croft, 2001), as construções auxiliares [disparar Prep V2inf] e [passar Prep V2inf] no português brasileiro (Corpus do Português, Davies e Ferreira, 2006), buscando identificar os contextos de uso que propiciam a consolidação dessas expressões perifrásticas, bem como as motivações morfossintáticas, semânticas e pragmáticas que operam no desenvolvimento dos valores aspectuais de inceptividade, cursividade e iteratividade. Para tanto, partimos da hipótese de que as construções [Disparar Prep V2inf] e [Passar Prep V2inf] se formam a partir de estruturas transitivas plenas [Sujeito+Verbo+Objeto Direto], passam por estágios intermediários de mudança e culminam na auxiliarização, em que V1 perde autonomia lexical e argumental, especializando-se na codificação de valores aspectuais, temporais ou modais. Os resultados mostram que, embora compartilhem o mesmo esquema [V1 Prep V2inf], as microconstruções [passar Prep V2inf] e [disparar Prep V2inf] percorrem trajetórias distintas de mudança (Salton, 2025). A construção [passar Prep V2inf] encontra-se em estágio mais avançado de mudança, apresentando maior frequência no córpus (203/72,8%) e ampla variedade de verbos em V2. Além disso, essa microconstrução ocorre predominantemente com sujeitos inanimados e abstratos, o que indica maior esquematicidade e afastamento do sentido lexical original de passar. Por outro lado, a microconstrução [disparar Prep V2inf] ocorre em apenas 27,2% (76) das ocorrências, relacionando-se, com maior frequência, com verbos dicendi e de movimento. Além disso, sua relação mais próxima com sujeitos humanos, em oposição à microconstrução [passar Prep V2inf] que ocorre com diferentes tipos de sujeitos (humanos e inanimados), indica menor grau de abstração. Quanto ao comportamento morfossintático, ambas as construções selecionam o pretérito perfeito, associado a leituras inceptivas, embora passar apresente maior diversidade temporal, incluindo também usos prospectivos. A perífrase com "passar" indica o início paulatino de um processo, ao passo que a perífrase com "disparar" indica um início repentino de algo. Ademais, em 99,3% dos casos, verificou-se que V1 não atribui papéis temáticos (Ilari e Basso, 2002), evidenciando perda de autonomia argumental (Lobato, 1975; Longo, 1990; Heine, 1993). Assim, concluímos que o esquema [V1 Prep V2inf] constitui um caso de construcionalização gramatical, no qual diferentes microconstruções avançam em ritmos distintos rumo à convencionalização. Enquanto [passar Prep V2inf] configura-se como perífrase aspectual altamente integrada, [disparar Prep V2inf] permanece em estágio intermediário de auxiliarização, preservando traços lexicais e menor abstração construcional.
Palavras-chave: Construções auxiliares; Aspecto; Abordagem
ELIANE FERNANDES AZZARI
[Linguagem e novas tecnologias]
A IA Generativa na formação continuada de professores da Educação Básica no contexto de
Oficinas Dialógicas A Educação Básica pública paulista tem vivenciado intensas mudanças decorrentes da adoção de múltiplas plataformas que, ancoradas no discurso de promoção da qualidade do ensino, desenvolvimento da aprendizagem e melhora na performance das escolas, chegam navegando a onda da inserção da IA Generativa (IAG) nos processos educacionais. Não obstante os avanços tecnológicos devam ser considerados, essa inserção de recursos digitais nos fazeres pedagógicos e na gestão escolar tem acarretado dúvidas, incertezas e desestabilizado espaços para a agência docente. Nessa direção, apresento resultados parciais de pesquisa-ação colaborativa, parcialmente financiada pela Fapesp, que emprega as Oficinas Dialógicas como espaços formativos em momentos de ATPC (aula de trabalho pedagógico coletivo). Os dados advém de encontros realizados em uma escola pública estadual na região de Campinas e revelam que: i) há distorção entre as concepções de IA/IAG dos professores e as plataformas que foram adotadas pela Rede escolar; ii) o/as docentes ainda se sentem pouco preparado/as para enfrentar os desafios impostos pela presença dos sistemas de IA/IAG em suas práticas, especialmente no que tange às atividades de leitura e escrita e suas respectivas avaliações; iii) há evidente cerceamento da agência docente nos contextos plataformizados e iv) as Oficinas Dialógicas provaram ser valiosos tempos-espaços para o diálogo, a reflexão e a formação continuada e colaborativa de docentes da Educação Básica. Nossa discussão está fundamentada pela abordagem enunciativa bakhtiniana (e de seus pares), pelos letramentos críticos e por visões críticas da interface educação-linguagem-tecnologias digitais. Os relatos dos docentes participantes das Oficinas Dialógicas realizadas ao longo de três semestres letivos, entre agosto de 2024 e novembro de 2025, reforçam a noção de que, ao adotar a pesquisa-ação colaborativa, sob perspectiva crítica e dialógica, abrimos espaços para a interlocução entre a academia e a Educação Básica, aproximando a troca de saberes, construindo pontes entre as instâncias, mas também criando oportunidades para o diálogo profícuo entre pares, na própria escola, propiciando o que Paulo Freire sugere ao tratar do papel transformador dos professores na sociedade, quando lhes é facultado exercer sua agência e criticidade.
Palavras-chave: Formação de Professores; Oficinas Dialógicas;
ELIANE SOARES DE LIMA
[Semiótica]
Entre o ódio e a cólera: as duas faces dos discursos de ódio no
Instagram Uma das primeiras discretizações necessárias quando se tenta estudar de forma sistemática o fenômeno dos discursos de ódio (hate speech) é aquela entre o ódio, como paixão vivida, experimentada pelo sujeito, e a sua resolução emocional por meio de uma manifestação discursiva violenta e agressiva dirigida a um outro, tomado este como representante de determinado grupo social. Ainda que estejam intimamente relacionadas, essas duas etapas, a paixão em si e a sua discursivização verbal, não se confundem, uma vez que nem todo ódio, sentido como assomo de um estado de alma, adota como desdobramento esse tipo de resolução patêmica — entre outros traços que os diferenciam. A primeira, referente ao ódio como estado de alma, parece remeter às condições de produção do sentimento, enquanto a segunda, aos discursos de ódio propriamente ditos, que a partir desse estado passional se configuram e alimentam. Dentro desse contexto, parece essencial examinar as semelhanças e, sobretudo, as diferenças entre duas paixões vizinhas, o ódio e a cólera, que costumam se imbricar nas manifestações discursivas odiosas as quais, por vezes, circulam nas redes sociais digitais, como o Instagram. Interessa, portanto, a este estudo, partir da distinção entre a paixão do ódio ela mesma e a sua manifestação verbal contra um outro para, então, depreender as condições de emergência das paixões do ódio e da cólera, bem como o modo como se manifestam no discurso apaixonado do odiador. Assim, depois de caracterizá-las, verificaremos, primeiro, o grau de presença de cada uma dessas duas paixões em postagens típicas do discurso de ódio raivoso, para, na sequência, examinar o seu modo de articulação e a possibilidade de hierarquização entre tais disposições afetivas. Isso será feito por meio dos princípios teóricos e metodológicos da Semiótica Discursiva, com especial atenção aos desdobramentos da semiótica das paixões e da semiótica tensiva. O intuito é justamente o de contribuir para o estabelecimento de uma maior inteligibilização da dinâmica de funcionamento que subjaz aos discursos de ódio, permitindo o seu efetivo reconhecimento e a consequente responsabilização das práticas interativas violentas no domínio das plataformas digitais de redes sociais. Ademais, acreditamos que essa compreensão sistematizada do fenômeno é bastante útil para que se possa pensar e propor ações efetivas de prevenção e combate à proliferação dos discursos de ódio dentro e fora do universo digital.
Palavras-chave: discursos de ódio; redes sociais; paixões
ELISANGELA PEREIRA DA SILVA
[Formação de professores]
Escrevivências do professor: escrita e memória no processo formativo
Conceição Evaristo ao falar de escrevivência afirma que essa escrita “ traz a força motriz de mulheres negras escravizadas que nos antecederam'', destacando que o conceito supera a questão semântica. Desse modo, mais que a junção entre o verbo “escrever” e o substantivo “vivências”, "Escrevivências" são, não apenas a escrita individual de uma experiência vivida, mas o registro e as marcas da coletividade nessas experiências e dessas experiências para e na coletividade. Nesse sentido, pegamos emprestado o termo para pensar sobre a escrita dos nossos professores, entre os quais, muitas são as mulheres negras, que cresceram e se formaram em diferentes territórios do nosso país e hoje vivem e atuam profissionalmente em escolas da periferia na Zona Sul de São Paulo. Consideramos a escrita como parte do processo formativo, assim, convidamos essas professoras a escrever e a partir dessa escrita acessarem a memória, retomando experiências que tiveram com o texto e o ensino de produção textual durante o processo de escolarização. A pesquisa insere-se no âmbito da Formação de Professores, da Linguística Textual e do Ensino de Língua Materna e se fundamenta nas contribuições de Tardiff (2014), Freire ([1996]2024), Vygotsky(1988); (1999); (2001), Marcuschi (2009); (2010);(2011), Koch(2002) e Nóvoa (2013). Apresentamos a sequência formativa elaborada por mim como Coordenadora Pedagógica, além de trechos dos textos produzidos, a partir dessa proposta, por professores de três unidades escolares da rede municipal de São Paulo nas quais desenvolvemos a “Pesquisa- ação”. Esse trabalho é parte do estudo de Doutorado em andamento e nossa intenção é promover uma reflexão sobre as relações entre o ensino, a escrita e a memória e sua relevância para os processos formativos de professores de Língua Portuguesa que trabalham com produção de textos. Os resultados apontam para a importância da escrita individual no processo formativo e indicam que as professoras reconhecem as bases teórico-metodológicas que operam sob as suas práticas docentes e de seus colegas, o que não necessariamente garante que, ainda que tendo essa percepção, alterem suas próprias práticas pedagógicas. (Apoio:FAPESP 2022/05908-0)
Palavras-chave: Escrita; Ensino; Formação
EMANUELA RODRIGUES DA SILVA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Entre a norma e o uso: um estudo diacrônico da construção
“para–pronome–infinitivo” no português brasileiro Este trabalho investiga, em perspectiva diacrônica, a construção “para–pronome–infinitivo” no português brasileiro, com foco na variação entre as formas eu, mim e zero anafórico como sujeito de orações infinitivas introduzidas por para. O estudo parte da constatação de que, embora a forma “para mim fazer” seja amplamente estigmatizada por tradições normativas e por discursos de correção linguística, seu funcionamento efetivo no português brasileiro ainda demanda descrição histórica mais sistemática. Assim, o objetivo central da pesquisa é verificar se a distribuição dessas variantes ao longo do tempo configura um quadro de variação estável ou um processo de mudança em progresso. O trabalho fundamenta-se nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística Variacionista (Weinreich; Labov; Herzog, 2006 [1968]; Labov, 2008 [1972], 1994, 2001, 2010) e da Sociolinguística Histórica (Conde Silvestre, 2007), articulando a análise de condicionadores linguísticos e extralinguísticos com uma leitura historicamente situada dos dados. Como corpus, utilizam-se 85 peças teatrais brasileiras dos séculos XIX, XX e XXI, integrantes do Projeto Língua EmCena, selecionadas por sua relevância para o estudo sócio-histórico do português brasileiro e por sua proximidade com a oralidade representada. A análise considera, entre os fatores linguísticos, a correferencialidade entre os sujeitos, a função sintática e a posição da oração infinitiva, bem como a forma da preposição introdutora; entre os fatores extralinguísticos, consideram-se categorias associadas ao perfil social das personagens, como sexo/gênero, fase da vida, instrução, ocupação, classe social e etnia. Os resultados mostram que a variante zero é amplamente majoritária no corpus, correspondendo a mais de 94% das 354 ocorrências levantadas, com forte favorecimento em contextos correferenciais. As formas plenas eu e mim apresentam baixa produtividade ao longo de todas as sincronias analisadas. Além disso, eu tende a associar-se a contextos mais monitorados e a personagens socialmente prestigiadas, enquanto mim aparece de modo bastante restrito, ligado à caracterização ideológica de personagens femininas e socialmente subalternizadas, desaparecendo nas sincronias mais recentes do corpus. Esses achados apontam para um quadro de variação diacronicamente estável, e não para uma reconfiguração estrutural do sistema. Desse modo, o estudo contribui para a compreensão histórica do português brasileiro e para a discussão da relação entre variação linguística, representação social e preconceito linguístico
Palavras-chave: variação pronominal; sociolinguistica histórica;
EMERSON DE PIETRI
[Letramento(s)]
Inteligência artificial, mediação editorial e processos de subjetivação em práticas de letramento acadêmico-científico Os mecanismos de controle dos discursos ((F
(Foucault, 1996) se constituíram em associação à produção de dispositivos de ordenamento social das práticas discursivas, em que a mediação editorial (Chartier, 2002) se institui como o processo de gestão material fundamental. A função-autor é assim resultante de um conjunto de intervenções técnicas, econômicas e culturais centralizadas em torno da propriedade dos meios de produção necessários para o tratamento formal dos textos e para a formação de um mercado consumidor para os produtos. O advento dos meios digitais de produção e circulação de textos foi considerado a princípio como a possibilidade de suplantar a rarefação que caracterizou historicamente a posse dos meios de produção editorial. Os recursos de edição e publicação estariam amplamente disponíveis num contexto em que os instrumentos para o tratamento formal dos textos e os meios de sua divulgação se tornariam acessíveis a amplas parcelas da população e em que os textos seriam resultantes do trabalho coletivo de sujeitos anônimos. No entanto, mais recentemente a Inteligência Artificial Generativa, e, mais especificamente, os Large Language Models (LLM), atravessaram essas bases materiais concentrando novamente sob o controle de um número reduzido de proprietários os meios de produção editorial, desta vez controlando não apenas as condições de produção e de distribuição dos discursos, mas a própria produção dos enunciados, operando sobre sua materialidade linguística. Neste contexto, compõe o corpus de análise do presente trabalho textos produzidos por participantes de uma disciplina de pós-graduação, pesquisadores em formação no campo da educação e da linguagem, instados a elaborar um ensaio em que discutissem a noção de autoria em função do contexto de avanço da IA Gen e de seus interesses de pesquisa. Com base em elementos de análise do discurso de linha francesa, foram analisadas as concepções de linguagem, texto e discurso presentes nos textos produzidos. Os resultados evidenciam que, ainda que sejam problematizados os efeitos da IA Gen nas condições de controle dos discursos, não se questionam concepções de linguagem centradas no sujeito, mas se propõem meios de preservação da subjetividade, ameaçada pelos processos digitais, sem que seu estatuto seja problematizado. Espera-se que os resultados encontrados e a discussão realizada contribuam para a compreensão e o questionamento das concepções de linguagem, texto e discurso que orientam as práticas de letramento acadêmico-científico na Universidade e na escola básica. (Apoio: FAPESP 2022/05908?0)
Palavras-chave: Letramento acadêmico-científico; Inteligência
ERICK SOUSA LIMA
[Análise do Discurso]
Da praça pública ao vogue: análise dialógica do documentário “Paris Is
Burning”, de Jennie Livingston Este trabalho, parte de uma dissertação em andamento sobre a cultura ballroom no meio digital, analisa o documentário “Paris Is Burning”, de Jennie Livingston (1990). Tal obra é considerada pioneira na divulgação do movimento ballroom, um conjunto de práticas artísticas e performáticas protagonizadas pela comunidade LGBTQ+ que surgiu nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, como resposta a um contexto de segregação e discriminação daquele grupo social. Tal cultura organiza-se, primordialmente, a partir das houses (“casas”, em português), estruturas semelhantes a uma família com contornos mais afetivos do que propriamente biológicos ou consanguíneos; e das chamadas balls (“bailes”, em português), que representam o cerne da cultura ballroom: são nelas que seus membros, representantes de diferentes houses, participam e competem em categorias de performance, dança ou teatralidade. Paris Is Burning é responsável por levar essa cultura ao mainstream, apresentando os grandes ícones da cena ballroom na Nova York dos anos 1980, como Venus Xtravaganza e Willi Ninja. Entre os membros da cena, encontram-se gays, drag queens, mulheres transgêneros, trabalhadores e trabalhadoras sexuais, latinos, brancos e negros, que discorrem sobre suas histórias, sonhos e desejos. Com isso, procuramos, enquanto objetivo geral, compreender como a cultura retratada no documentário pode ser entendida como um fenômeno dialógico e carnavalizador. Enquanto aporte teórico, elegemos a Análise Dialógica do Discurso, desdobrando conceitos do Círculo bakhtiniano como carnavalização, cronotopo e relações dialógicas. Metodologicamente, adotamos o cotejo/correlacionamento para análise dos enunciados que compõem o corpus, como as cenas (frames) e trechos das entrevistas que aparecem ao longo do documentário, entendidos aqui enquanto um todo de sentido. Por fim, a análise aproveita-se das contribuições de teóricos sobre raça, gênero e cultura que se debruçaram sobre a obra fílmica mencionada, como hooks (2019) e Butler (2019), bem como as discussões de Sedgwick (2008) a respeito da epistemologia do armário.
Palavras-chave: Análise Diálogica do Discurso; Enunciado concreto;
FABIANA DE FREITAS BATISTA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O que dizem os alunos de um curso on-line do Português como Língua
Adicional (PLA)? Percepções e reflexões Este estudo busca conhecer, a partir das vozes, a percepção de alunos sobre o ensino de português língua estrangeira, de forma on-line. Apresenta-se uma reflexão conceitual entre Português Língua Estrangeira e Português Língua Adicional. Em seguida, no percurso histórico, Almeida Filho (2012) destaca a emergência de uma especialidade no ensino de português língua estrangeira. Apresenta-se uma primeira leitura analítica do contexto do Programa Português como Língua Adicional aplicado na Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. O curso tem como foco o ensino básico da Língua Portuguesa para estrangeiros buscando fortalecer a internacionalização da língua nacional. Este estudo está fundamentado em teorias relacionadas ao ensino do português para estrangeiros, pautadas em Rocha (2019, 2025) e o ensino de línguas estrangeiras mediado pelas tecnologias dialogados por Paiva (2008), Moran (2007), Buzato (2001). A investigação, de caráter qualitativo e interpretativista, é considerada um estudo de caso. Para a análise de dados utilizamos a técnica de Análise de Conteúdo de Bardin (2011). Analisa-se as respostas de estudantes de três Estados diferentes. Metodologicamente, utilizamos como instrumento de pesquisa, a aplicação do questionário on-line para estudantes concluintes e egressos do curso, no ano de 2025. Conforme Vieira-Abrahão (2006), a utilização dos questionários pode facilitar o trabalho dos pesquisadores devido ser de fácil aplicabilidade, os dados podem ser coletados em diferentes lugares e em diferentes ocasiões. Procura-se identificar o perfil dos alunos estrangeiros, as contribuições na aprendizagem da língua portuguesa e os desafios encontrados pelos alunos. Os resultados destacam esta modalidade como uma contribuição para aprendizagem da língua portuguesa em diversos aspectos: interação com o professor, crescimento do vocabulário, aulas ao vivo, atividades na plataforma, melhora da pronúncia. Contudo, persistem desafios tecnológicos, letramento digital, geográficos e linguísticos. Pretende-se que o estudo possa ir além de preencher uma lacuna na área de Português para estrangeiros, mas também trazer luz ao Programa PLA em Rede a fim de aprimorar o curso e contribuir no ensino de português para estrangeiros mediados por tecnologias.
Palavras-chave: Português para estrangeiros; Rede de Institutos
FABRÍCIO JOSÉ DA SILVA
[Letramento(s)]
Práticas de letramentos acadêmicos com uso de tecnologias no ensino superior: eventos de letramentos em planos de ensino
Com base em estudos de letramentos, de maneira particularizada, aqueles que se ocupam de práticas sociais letradas acadêmicas e digitais, este trabalho tem como objetivo investigar como tecnologias digitais são mobilizadas em práticas de letramentos acadêmicos, a partir de eventos registrados em planos de ensino de diferentes cursos de graduação de uma universidade pública estadual paulista. Interessa a este trabalho compreender a proposição de práticas sociais letradas acadêmicas em resposta a demandas contemporâneas com uso de tecnologias digitais, (i) no mapeamento de eventos de letramentos acadêmicos e digitais (gêneros, recursos, finalidades e critérios de avaliação), (ii) na análise de um perfil de estudante/profissional projetado nessas propostas, isto é, que competências, posturas e modos de atuação acadêmico-profissional são pressupostos e incentivados quando o digital aparece como mediador do trabalho universitário. Parte-se de uma conjuntura de intensificação do digital no ensino superior, que reconfigura modos de ler, escrever, produzir e validar conhecimentos constituídos por critérios de credibilidade e legitimação, o que torna o estudo relevante para o campo por explicitar como a instituição orienta a formação e a avaliação dessas práticas. O conjunto do material é formado de 153 planos de ensino de cursos de Ciência da Computação, Ciências Biológicas, Engenharia de Alimentos, Física, Letras, Matemática, Pedagogia e Química, de uma universidade pública do Estado de São Paulo. A seleção dos documentos seguiu um procedimento explícito: os planos foram triados por meio de busca de palavras- chave, sendo incluídos aqueles que apresentavam ocorrências dos termos “digital” e/ou “tecnologia” em seus campos descritivos, objetivos, conteúdos, metodologias, atividades, bibliografias ou critérios de avaliação. Esse recorte permitiu delimitar um conjunto documental em que o tema do digital é ao menos mencionado, possibilitando investigar não apenas presenças evidentes, mas também usos superficiais, ambiguidades e silenciamentos. A análise, de cunho documental, articula levantamento descritivo e quantitativo desses eventos e análise qualitativa interpretativista. Como resultados esperados, pretende-se identificar padrões (e também lacunas) na integração entre práticas letradas acadêmicas e digitais em cursos de ensino superior, considerando-se práticas pedagógicas situadas e responsivas a demandas sociotécnicas atuais.
Palavras-chave: letramentos acadêmico-científicos; letramentos digitais;
FERNANDA MUSSALIM GUIMARÃES LEMOS SILVEIRA
[Neurolinguística]
Uma abordagem da relação linguagem-cognição a partir dos conceitos de cena da enunciação e cognição distribuída
Analisando dados do Banco de Dados em Neurolinguística (BDN), referentes às sessões do Centro de Convivência de Afásicos (CCA), espaço criado, em 1989, por Maria Irma Hadler Coudry, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-UNICAMP), me proponho, neste trabalho, a demonstrar a viabilidade de assumir o conceito de cena de enunciação, tal como postulado por Dominique Maingueneau, como locus teórico-metodológico que permite delinear uma entrada observacional, operacional e analítica para a relação entre linguagem e cognição, que possa ser válida não apenas para a abordagem do fenômeno da afasia, mas para quaisquer pesquisas cujo objeto teórico de interesse seja esse espaço de relação linguagem-cognição. A partir da análise de alguns dados do BDN, busco ainda demonstrar que a cenografia – uma das instâncias da cena de enunciação – se constitui como uma embreagem discursivo-cognitiva, isto é, como um espaço de alçamento da relação linguagem-cognição. Como parte da fundamentação teórica do trabalho, mobilizo também a abordagem da cognição distribuída desenvolvida por Edwin Hutchins na década de 1990 (tal como ressignificada em trabalhos anteriores que desenvolvi, a partir da noção de dispositivo comunicacional postulada por Dominique Maingueneau), bem como parte da rede conceitual e metodológica que embasa as pesquisas e os trabalhos realizados no CCA, a partir da Neurolinguística Discursiva fundada por Maria Irma Hadler Coudry na década de 1980. O intuito com a pesquisa, da qual apresento parte dos resultados nesta comunicação, é descrever e analisar o trabalho realizado no CCA, a fim de delinear uma entrada teórico-metodológica de natureza discursiva que possa vir a produzir um impacto científico significativo, na medida em que se apresenta como um recurso interessante para sistematizações de metodologias de intervenção não apenas para situações em que se atua na reorganização de processos cognitivos e/ou linguísticos, mas também para contextos de aprendizagem, como o escolar. Em função disso, o impacto sociocultural que a pesquisa pode vir a produzir é também significativo, na medida em que poderá contribuir com a qualidade de vida e saúde daqueles beneficiados direta e indiretamente com seu desenvolvimento, seja em contextos reconhecidos como terapêuticos (e aqui se pode perceber a possível relação deste trabalho com setores da saúde e, nesse sentido, seu alcance interdisciplinar), seja em contextos educacionais (e aqui se percebe a possível relação da pesquisa com setores da educação, com destaque para a sua aplicabilidade numa escala multiplicadora e amplamente geradora de qualidade de vida social).
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Cena de enunciação;
FERNANDO LUIS ANTUNES SABATINI
[Psicolinguística]
Oscilações neurais: metodologia e aplicações na psicolinguística
Ao longo das últimas duas décadas, o campo da psicolinguística vem experienciando um aumento rápido no interesse pela análise de oscilações neurais (Prystauka; Lewis, 2019). O termo se refere à atividade rítmica do cérebro e às suas dinâmicas de sincronização em diferentes bandas, isto é, faixas de frequências (medidas em Hz), às quais foram atribuídas nomenclaturas (e.g., alpha, beta, gamma e delta) de acordo com correlações mapeadas entre os ciclos oscilatórios e fenômenos/processos cognitivos. Os estudos da linguagem, especificamente, são amplamente beneficiados por essa abordagem metodológica, cujos dados são coletados via M/EEG. Padrões de atividade oscilatória relativamente consistentes têm sido correlacionados a diversos subprocessos ou fenômenos psicolinguísticos, e.g., violações sintáticas, anomalias semânticas, composição estrutural sintática e semântica, predição lexical, entre outros (Prystauka; Lewis, 2019; Kazanina; Tavano, 2023). Além disso, transtornos relacionados à linguagem e outras condições clínicas como autismo, esquizofrenia e dislexia vêm sendo estudados em termos de padrões oscilatórios (cf. Benítez-Burraco; Murphy, 2019). As contribuições dessa nova frente de estudos são muitas. Um caso interessante é o dos estudos sobre o aspecto preditivo do processamento psicolinguístico (Kutas; Federmeier, 2011; Kim; Hendrickson; Wessel, 2022). Modelos que buscam explicar essa dinâmica costumam prever um mecanismo inibitório que cumpra a função de inibir representações distratoras ou que percam a competição pelo acesso lexical, por exemplo (Ness; Meltzer-Asscher, 2018). Há uma discussão sobre a natureza da inibição na linguagem: afinal, ela é parte de um mecanismo global ou estamos falando de um (ou mais) processo(s) especificamente linguístico(s)? Dado que a inibição é um dos fenômenos cognitivos mais correlacionados com certas bandas de oscilação, a análise desses dados pode contribuir bastante com essa linha de estudos. Nesse sentido, esta apresentação traz uma introdução ao uso de dados de oscilação neural na área da psicolinguística e uma discussão sobre avanços recentes, os benefícios dessa abordagem, o diálogo com outros paradigmas teóricos e as limitações impostas não só pela natureza dos dados, mas pelas ferramentas tecnológicas experimentais necessárias para o seu uso. Partindo deste ponto, trarei exemplos de como ele vem sendo utilizado em estudos da linguagem e detalharei uma pesquisa em andamento na qual investigo a natureza da inibição de processos linguísticos por meio de um experimento com oscilações neurais.
Palavras-chave: oscilações neurais; metodologia; inibição
FILIPO PIRES FIGUEIRA
[Análise do Discurso]
“Cenas de guerra”: cenografia bélica e hipervirilidade no discurso bolsonarista
Esta comunicação tem como objetivo de apresentar alguns resultados preliminares da pesquisa de pós-doutorado em andamento sobre a relação constitutiva entre virilidade e política no discurso bolsonarista (Figueira; Piovezani, 2025). Parte-se da premissa de que o bolsonarismo é uma manifestação brasileira dos neofascismos contemporâneos (Boito, 2020; Cox; Skidmore, 2025), inflexionado pela ideologia fascista antigênero (Butler, 2024). Nossa hipótese é a de que, analogamente à centralidade de uma virilidade guerreira nos fascismos históricos, subjacente à racialidade totalitária que animavam, determinado ideal neofascista de hipervirilidade estrutura o discurso neofascista bolsonarista. Esta centralidade se manifestaria globalmente no discurso bolsonarista, desde seus processos de significação até sua manifestação enunciativa. Apoiando-se na abordagem enunciativo-pragmática do discurso proposta por Dominique Maingueneau (2008, 2013), nesta apresentação busca-se analisar a construção de “cenografias bélicas” no discurso bolsonarista, isto é, no modo como o discurso bolsonarista manifesta sua hipervirilidade através da encenação de “combates públicos” ao dirigir-se a seus adversários, empregando um ethos masculino bélico como forma de atuar politicamente e de angariar legitimidade frente aos seus adeptos e correligionários. Para além do objetivo analítico, espera-se também dar início a uma reflexão sobre a relação entre o conceito de “cenografia” (Maingueneau, 2013) e a performatividade discursiva (Butler, 2021), na medida em que a cenografia implica em uma ritualidade repetida no tempo, cujo efeito de legitimidade “esperado” ou “pretendido” pode ou não ter sucesso em se concretizar. O corpus de análise consiste em enunciados coletados nas “lives de quinta”, transmissões semanais pelas quais, durante todo seu mandato (2019-2022), o então presidente Jair Bolsonaro dirigia-se aos seus seguidores do Palácio da Alvorada. Cotejaremos os seus pronunciamentos com os enunciados por outros políticos bolsonaristas no plenário. Como tal, esta apresentação se desenvolve a partir dos pressupostos da Análise do Discurso (Pêcheux, 2014; Maingueneau, 2015), em diálogo com teorias da performatividade de gênero (Zoppi-Fontana; Ferrari, 2017), também encontrando aporte, portanto, na Linguística Queer (Borba, 2020; Bagagli, 2020).
Palavras-chave: Cenografia; Bolsonarismo; Masculinidade
FLAVIA BEZERRA DE MENEZES HIRATA VALE
[Gramática Funcional]
Uma análise de construções insubordinadas, semi-insubordinadas e explicativo-causais sob a ótica da Gramática Discursivo-Funcional (GDF)
Este trabalho analisa as propriedades formais e funcionais de três tipos de construções introduzidas pelo "que" no português brasileiro (PB): insubordinadas, semi-insubordinadas e explicativo-causais. O objetivo central é descrever como essas estruturas operam em interações reais, superando o "desafio da irregularidade" imposto pela gramática tradicional, que muitas vezes marginaliza tais formas como anomalias por não atenderem aos critérios de completude da sintaxe escrita. A pesquisa fundamenta-se na Gramática Discursivo-Funcional (GDF) (Hengeveld e Mackenzie, 2008), modelo ideal para esta análise por não tomar a oração como unidade básica, mas sim o Ato Discursivo. A arquitetura em camadas da GDF permite integrar distinções formais e pragmáticas, tratando constituintes extra-oracionais a partir de sua função específica na interação. A metodologia baseia-se em dados de corpora como o Corpus do Português, IBORUNA e C-Oral Brasil. As construções insubordinadas (ex: "Que ninguém se engane") são definidas como orações que, embora pareçam formalmente subordinadas, são utilizadas de modo Independentes. Na GDF. Podem ser descritas como Atos Discursivos. No PB, essas estruturas manifestam atitudes (inter)subjetivas do falante, como desejos, pedidos ou ordens,funcionando com Ilocuções Abstratas como Optativa ou Hortativa. Formalmente, são marcadas pelo uso do modo subjuntivo e autonomia prosódica. As explicativo-causais (ex: "Silêncio, que a gente tá gravando!") são construções em que a oração introduzida por "que" fornece a justificativa para um conteúdo disponível no contexto situacional ou para um ato de fala anterior. Compreendem dois Atos de Discurso: um Nuclear e um Subsidiário. A oração com "que" exerce a função retórica de Motivação no Nível Interpessoal. Diferentemente das orações causais, apresentam uma relação lógica mais frouxa e separação entoacional. As semi-insubordinadas (ex: "Claro que as tarifas...") caracterizam-se pelo uso da partícula "que" precedida por um único elemento matriz (advérbio, adjetivo ou substantivo) sem a presença de um verbo de ligação. Este elemento inicial veicula a avaliação atitudinal ou epistêmica do falante sobre o conteúdo proposicional. Sob a ótica da GDF, elas funcionam como um Comentário com características formulaicas, construções téticas, em que matrizes originais se condensam em marcadores de posicionamento (stance). Os resultados demonstram que a validade da análise via GDF reside na capacidade de delimitar as fronteiras dessas construções a partir de sua independência ou dependência pragmática. A proposta reforça a importância de considerar a extra-oracionalidade para uma descrição gramatical que capture a realidade dos usos linguísticos no português brasileiro.
Palavras-chave: construções (semi)insubordinadas e explicativas-ca;
FLAVIA FURLAN GRANATO
[Semiótica]
Potencialidades silenciadas: representações femininas no material
"Aprender Sempre" e os limites do percurso gerativo de sentid Este trabalho analisa as atividades da sequência didática Leituras Expressivas I e II do fascículo Aprender Sempre de Língua Portuguesa, destinado ao 1º ano do Ensino Médio do Currículo Paulista, com foco na construção das representações femininas e em suas implicações para os discursos de diversidade. A investigação, desenvolvida no âmbito do Programa de Iniciação Científica do Centro Universitário Barão de Mauá, parte dos pressupostos da semiótica greimasiana — particularmente do percurso gerativo de sentido proposto por Greimas e sistematizado por Barros (2001) e Fiorin (2009) — para examinar em que medida as atividades propostas, ancoradas no conto "Às Escuras", de Artur Azevedo (1889), exploram — ou silenciam — os valores culturais constitutivos do texto. A análise revela que as questões e as orientações do Caderno do Professor operam predominantemente nos níveis discursivo e narrativo do percurso gerativo de sentido, mobilizando recursos de humor, caracterização de personagens e reconstrução do enredo. Contudo, o nível fundamental, onde se situam as oposições semânticas que sustentam o texto — jovem/velho, belo/feio, desejável/indesejável —, permanece sistematicamente não problematizado. Nessas oposições reside a construção patriarcal da feminilidade: a mulher jovem como objeto de desejo masculino e a mulher idosa como objeto de riso e de descarte afetivo, estrutura que o material reproduz sem interrogar. Argumenta-se que o texto de Azevedo oferece potencial semiótico-discursivo para provocar reflexões sobre etarismo, objetificação feminina e papéis sociais de gênero — dimensões explicitamente previstas pelas Competências 2, 4 e 5 de Linguagens da BNCC e pelo Currículo Paulista —, mas que as atividades e as orientações docentes convertem esse potencial em silêncio curricular. A ausência de mediação crítica sobre a produção de subjetividades femininas no texto constitui, assim, uma dissidência não assumida: o material declara querer formar para a diversidade, mas instrui para a reprodução dos mesmos valores que deveria interrogar.
Palavras-chave: material didático; percurso gerativo de sentido;
FÁBIO DE LIMA MOREIRA
[Gramática Funcional]
DIACRONIA DE CONECTORES DE FINALIDADE SOB UMA PERSPECTIVA CONSTRUCIONAL
Neste trabalho, buscamos analisar o percurso diacrônico de três conectores complexos de finalidade (a saber: a fim de, no intuito de e com o objetivo de) com base nos pressupostos teórico-metodológicos da abordagem construcional da gramática e da mudança linguística (Croft, 2001; Goldberg, 2006; Langacker, 2008, Traugott; Trousdale, 2021, entre outros). Partindo do pressuposto central de qualquer modelo construcionista, entendemos que as estruturas linguísticas são construções (pareamentos de forma e de significado), que se organizam em redes construcionais por meio de elos multidirecionais. Nesse contexto, defendemos que os conectores a fim de, no intuito de e com o objetivo de são microconstruções ligadas ao subesquema [prep (det) N de]finalidade, que, por sua vez, é uma instância do esquema geral [Xde]conect, proposto por Rosário (2022). A partir de dados extraídos de textos dos séculos XIII ao XX, nosso objetivo central é responder ao quando e ao como as microconstruções conectoras de finalidade surgiram no português e entender como a emergência dessas construções favoreceram a fixação do subesquema [prep (det) N de]finalidade na língua. Para isso, ancoramo-nos no modelo de mudanças construcionais (alterações de forma ou de significado) e construcionalização (alteração de forma e de significado, o que leva ao surgimento de uma nova construção) elaborado por Traugott e Trousdale (2021 [2013]). Um ponto central desse modelo é o entendimento de que as mudanças linguísticas por que uma construção pode passar envolvem transformações graduais nos graus de composicionalidade, esquematicidade e produtividade da construção. Em última instância, essas mudanças podem fazer com que a construção se consolide ou desapareça da rede construcional, processos graduais conhecidos como fortalecimento ou enfraquecimento da construção na rede. Os resultados revelaram que as três microconstruções aqui analisadas surgiram em momentos diferentes da história do português via construcionalização gramatical. Enquanto as primeiras ocorrências de a fim de datam do século XV, as ocorrências de no intuito de e com o objetivo de são mais tardias, remontando, respectivamente, aos séculos XVIII e XX. Além disso, esses conectores passaram por uma série de mudanças das propriedades de forma e de significado, que resultaram em perda de composicionalidade e aumento de produtividade e de esquematicidade, alterações que se estenderam ao nível do subesquema. Por fim, os resultados ainda revelaram que as microconstruções e o subesquema de finalidade foram sendo gradativamente fortalecidos na rede construcional de que fazem parte.
Palavras-chave: conectores de finalidade; abordagem construcional
GABRIELA ANDREOLLA LOCATELLI
[Linguística Aplicada]
Produção textual no Ensino Médio e inteligência artificial generativa: uma análise do percurso de escrita-revisão-reescrita com o uso do ChatGPT
O ensino da escrita tem enfrentado novos desafios e possibilidades em tempos de inteligência artificial generativa (IA Gen), com chatbots como o ChatGPT que auxiliam os estudantes na geração de ideias, na elaboração de rascunhos, na edição, na revisão e na criação de textos (Hutson, 2025). Nesse contexto, este trabalho discute o ensino de produção textual no Ensino Médio a partir da análise de dois textos produzidos por um aluno participante de uma proposta didática a respeito do gênero de texto relato pessoal, a fim de examinar o percurso de escrita-revisão-reescrita do estudante apoiado por atividades com o uso de IA Gen. Para tanto, propõe-se uma análise qualitativa das versões inicial e final dos textos, ancorada em princípios do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999; 2006; 2008). Assume-me, ainda, uma compreensão de IA Gen como uma ferramenta mediadora que fornece devolutivas ao longo do processo de (re)escrita do aluno (Schneuwly, 2025; Hutson, 2025). As análises preliminares indicam que, tanto na produção inicial, quanto na final, a IA Gen funcionou como uma mediadora por geração e por interlocução. Na produção inicial, a IA Gen gerou ideias e sugeriu uma organização do texto, mas não substituiu a autoria do estudante, responsável por orientar o estilo do seu relato. Antes de fazer a produção final, o aluno enviou a versão inicial para a IA Gen analisar, conforme prompt planejado na proposta didática, a qual ofereceu sugestões para orientar a reescrita do aluno. Entretanto, o estudante solicitou que o ChatGPT reescrevesse o texto para ele, limitando que a IA Gen mantivesse o estilo previamente construído pelo aluno na versão inicial. A partir desse recorte de pesquisa, pode-se concluir que o ChatGPT tem a potencialidade de funcionar como uma ferramenta mediadora nas práticas de escrita e reescrita na escola, ao gerar ideias para o estudante ou promover uma devolutiva sobre o texto do aluno, desde que integrado em uma proposta didática orientada pelo professor.
Palavras-chave: Produção textual escrita no Ensino Médio; inteligência
GIOVANNA LONGO
[Semiótica]
A construção do espaço passional nas Heroides: mito, retórica e tensividade
Este trabalho integra as reflexões desenvolvidas no projeto “A dinâmica do Sensível na construção da persuasão: um estudo retórico-semiótico das Heroides de Ovídio”, cujo objetivo é investigar os mecanismos de construção dos afetos na obra ovidiana a partir da articulação entre Semiótica, Retórica e Poética. Com base sobretudo na semiótica tensiva, busca-se compreender como a dimensão sensível do discurso participa da produção de efeitos de sentido e da construção da persuasão nas Heroides, conjunto de 21 cartas elegíacas compostas por Ovídio entre aproximadamente 20 e 8 AEC. Na obra, personagens femininas da tradição mítica greco-latina escrevem a seus amantes ausentes, deslocando-se da posição secundária que ocupavam em epopeias e tragédias para assumirem o papel de narradoras de suas próprias experiências passionais. Partindo da concepção greimasiana de mito como sistema semântico gerador de narrativas, o estudo considera que as Heroides instauram um espaço enunciativo singular no interior do contínuo narrativo mítico. Ovídio introduz um episódio ficcional – a escrita das cartas – sem alterar o desfecho conhecido das narrativas tradicionais, mas reconfigurando profundamente o perfil das heroínas. Por meio da debreagem actancial, essas personagens tornam-se narradoras-personagens que reinterpretam os acontecimentos a partir de sua vivência afetiva, marcada pela ausência, abandono, traição e espera amorosa. A análise proposta focaliza a suspensão do programa narrativo mítico em favor da dilatação do espaço passional. Nas cartas, o fazer é momentaneamente interrompido para que se intensifique o sentir. Tal suspensão produz um “zoom” sobre a relação juntiva, permitindo observar as modalizações afetivas, tensões e aspectualizações que constituem os estados de alma das narradoras. Nesse contexto, a carta deixa de ser mero artifício retórico ou monólogo repetitivo, como sugeriu parte da crítica tradicional, e passa a configurar-se como território discursivo de figurativização da paixão. À luz da semiótica tensiva de Zilberberg e dos desenvolvimentos de Bertrand, Fiorin e Fontanille, investiga-se como recursos argumentativos, tropológicos, sintáticos e figurativos modulam a intensidade do discurso e orientam a adesão do enunciatário. Busca-se demonstrar que a dinâmica persuasiva das Heroides decorre precisamente do jogo tensivo entre inteligível e sensível, entre convencimento e comoção. Assim, a obra de Ovídio não apenas reelabora a tradição mítica, mas inaugura novas possibilidades de representação da subjetividade feminina e da experiência passional, revelando a força estética e persuasiva da linguagem poética.
Palavras-chave: Semiótica tensiva; Paixões; Heroides
GLADIS MASSINI-CAGLIARI
[Linguística Histórica]
Estudar a entoação do ancestral medieval do português é possível?
O objetivo desta comunicação é investigar a prosódia do ancestral medieval do português (séculos XIII-XIV), em busca de uma metodologia que viabilize o estudo da entoação de um período passado, no qual não havia ainda tecnologia disponível para a gravação e armazenamento da voz humana. O foco desta comunicação é a densidade tonal, definida por Fernandes Svartmann (2024, p. 29-30) como “a proporção de acentos tonais por palavra prosódica (PW) em um enunciado, calculada da seguinte maneira: número de acentos tonais dividido pelo número de PWs”. A pesquisa considera como corpus uma seleção de 10% das Cantigas de Santa Maria (as 42 cantigas iniciais), de Afonso X (1221-1284). Em estudos anteriores, buscou-se investigar o direcionamento da melodia (Massini-Cagliari, 2019) e a constituência prosódica de níveis superiores (sintagma entoacional e enunciado fonológico), vista a partir da análise de parâmetros apurados a partir da notação musical (duração, proeminência rítmica, aspectos melódico-rítmicos) (Massini-Cagliari, 2023). A partir da interface com a Música, buscou-se verificar se há marcas na notação musical, considerando a(s) nota(s) correspondente(s) à sílaba tônica do constituinte considerado, que possam indiciar tanto a segmentação dos enunciados em constituintes prosódicos superiores, quanto a marcação da proeminência nesse nível. Nesta comunicação, avança-se na exploração da relação entre a letra e a música das cantigas medievais, investigando quais proeminências de palavra prosódica apresentam marcas na notação musical correspondentes a proeminências musicais (em termos de duração, proeminência rítmica e movimento melódico), que podem ser consideradas para o cálculo da densidade tonal. Os resultados obtidos apontam para a viabilidade da metodologia proposta, que se baseia em confrontar a construção dos constituintes prosódicos (cf. Nespor e Vogel, 1986) com o movimento melódico/rítmico musical, focalizando os agrupamentos formados, como uma possibilidade de averiguação de indícios da entoação do ancestral medieval do português. Desta forma, acreditamos que a análise da relação entre letra e música pode contribuir para a caracterização da prosódia, em períodos passados da língua, dado que as músicas cantadas se baseiam em uma relação entre os níveis musical e linguístico, mediada pelo nível poético (Massini-Cagliari, 2010).
Palavras-chave: entoação; Fonologia; Linguística Histórica
GUSTAVO BONIN
[Semiótica]
Práticas conectoras nos fluxos migratórios: a oficina-ateliê-templo de
Walter Smetak Walter Smetak, violoncelista de formação, nasceu na Suíça em 1913 e emigrou para o Brasil em 1937. Viveu na Bahia entre 1958 e 1987, período em que atuou como professor de música e, sobretudo, se consolidou como luthier experimental ao criar inusitadas esculturas-instrumentos musicais, cuja execução sonora se dava de maneiras bastante singulares. Seus instrumentos eram utilizados em performances ligadas às práticas de música contemporânea da cena brasileira da segunda metade do século XX e, muitas vezes, chegavam mesmo a perder sua função musical para assumir uma atuação totalmente imagética no universo das práticas expositivas das artes visuais. Propomos mostrar que, em um primeiro momento de sua trajetória, a prática (Fontanille, 2008) de construção dessas esculturas sonoras em sua oficina de luthieria (ofício que aprendera na Suíça) funciona como um conector (Greimas & Courtés, 2008) entre a forma de vida (Fontanille, 2015) musical e a das artes visuais, tendo em vista que sua oficina ganha também o caráter de um ateliê e ele passa atuar como um escultor. Em um segundo momento, o papel de conector dessa prática se amplia ao tornar permeáveis o universo das Artes e o horizonte mítico-profético do pensamento teosófico e eubiótico, no qual o artista passa a conceber sua produção estética como instrumento de transformação espiritual e de reintegração do homem ao cosmos. Inspirado pelas concepções da Eubiose do brasileiro Henrique José de Souza, Smetak projeta em suas Plásticas Sonoras — nome dado às suas esculturas-instrumentos — a busca por uma nova humanidade fundada na intuição e na experiência coletiva e ritualística. Seu ateliê-oficina passa, assim, a assumir uma função próxima à de um templo, na medida em que o artista promovia encontros nos quais se refletia sobre os princípios da Eubiose e se realizavam sessões de improvisação musical a partir de suas esculturas sonoras: Smetak chegou a dizer que o instrumentista se tornava uma espécie de sacerdote que fazia a mediação do antigo homem com o novo homem. Buscaremos refletir sobre como o papel semiótico de conector desempenhado por certas práticas — entendidas como cenas predicativas mais ou menos indiferenciadas e amplamente compartilhadas entre comunidades humanas, como as práticas de alimentação, transporte, guerra ou transmissão de conhecimento — pode explicitar confluências e conflitos nos fluxos migratórios, interculturais e nos diferentes modos de contato entre formas de vida.
Palavras-chave: práticas conectoras; fluxos migratórios; Walter Smetak
HELCIUS BATISTA PEREIRA
[Linguística Histórica]
Os baianos no sul do Brasil: o português brasileiro em Maringá-PR na década de 1950
Esta apresentação tem por objetivo expor resultados de pesquisa sobre a contribuição de baianos para a formação linguística de Maringá-PR. Esse município foi fundado oficialmente em 1947, a partir de empreendimento levado a cabo pela Companhia de Melhoramentos Norte do Paraná, empresa privada que adquiriu do Estado do Paraná, nos anos 1930, o direito de explorar economicamente uma larga região no norte/noroeste paranaense, comercializando terras e lotes urbanos das cidades que fundaria (Luz, 1997). O empreendimento atraiu brasileiros de diferentes regiões e, inclusive, comunidades de estrangeiros e seus descendentes, como a dos nipo-brasileiros. Dentre os nacionais, é bastante conhecida a contribuição de paulistas, dada a proximidade da cidade com São Paulo. Além disso, migrações de paranaenses de outras regiões do Paraná e de mineiros também foram relevantes para formação da cidade. Entretanto, a história social e linguística maringaense foi também construída por baianos, hoje invisibilizados pelos discursos oficiais da cidade. Segundo Luz (1999, p. 132-133), que realizou um estudo de demografia histórica por meio do mapeamento da naturalidade de cônjuges casados nos cartórios da microrregião de Maringá, de 1944 a 1980, 4,6% dos noivos – um total de 6.903 indivíduos – eram da Bahia. Além dos dados sócio-históricos sobre a presença desses falantes na formação da cidade de Maringá, focalizou-se o perfil e os usos linguísticos de amostragem de 50 baianos transferidos para a cidade de Maringá até 1956. O corpus da pesquisa linguística foi constituído por documentos constantes do Processo de alistamento eleitoral vigente até a constituição de 1988, que exigia um preenchimento de próprio punho para comprovação da alfabetização do eleitor, conforme legislação vigente na época. Esse material foi coletado no Patrimônio Histórico de Maringá que preservou tais documentos após a mudança na lei. Nossa investigação procurou traçar o perfil social desses “pioneiros” baianos e procurou identificar fenômenos variáveis fonéticos e morfossintáticos de uso mais comum na fala dos pioneiros. Do ponto de vista teórico, o trabalho se baseou na Sociolinguística Variacionista (Labov, 2008; Weinreich, Labov e Herzog, 2006) e no conceito de História Social da Língua discutido por Burke (1995). Os resultados evidenciam a presença constante dos baianos no panorama sociolinguístico de Maringá e apontam para traços de fala estigmatizados que ainda persistem pela cidade.
Palavras-chave: História do Português Brasileiro; Sociolinguística;
HIGOR ALVES SENA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Ouvindo um homem transgênero: percepções associadas a pitch médio
A principal questão que motiva este estudo é: quando ouvimos um homem transgênero, temos percepções semelhantes ou diferentes, relativamente a quando ouvimos um homem cisgênero – no que toca a variações no pitch médio? Temos alguns trabalhos em português (e.g. Sene 2022, Pie 2023) que evidenciam que vozes de homens com pitch médio mais alto tendem a ser percebidas como menos masculinas e mais gay. Entretanto, tais pesquisas têm lidado apenas com homens cis; ainda não se investigaram efeitos de variações no pitch médio (doravante, F0) nas percepções acerca da voz de um homem trans. Para começar a explorar tais percepções, desenvolvemos um experimento no qual 51 ouvintes foram estimulados com trechos da fala de um homem trans (pseudonomeado Alex) e de um homem cis (Túlio). Cada voluntário ouviu Alex e Túlio em três disfarces: um trecho com pitch médio original (F0o); outro com F0o+20Hz e outro F0o-20Hz. Após cada trecho, os ouvintes descreveram a pessoa que imaginaram primeiramente por meio de características discretas, agrupadas em estilísticas, psicológicas, sociais e fenotípicas. Em seguida, descreveram-na também por meio de diferenciais semânticos, dentre os quais estão "soar (nada a muito) gay e masculino". Aqui, discutimos as semelhanças e diferenças nas percepções acerca de Alex e Túlio nas características discretas e nessas duas escalas. As comparações são apresentadas em dois momentos: (i) cada falante consigo mesmo, a depender de F0 (e.g. Alex F0o vs. Alex F0-20) e (ii) Alex vs. Tulio, em cada um dos disfarces (e.g. Alex F0o vs. Tulio F0o). No geral, em (i), as respostas dos ouvintes sugerem que Alex (trans) é percebido como “menos gay” e “mais masculino” em F0-20, comparativamente aos demais disfarces; Túlio soa “mais gay” em F0-20 (uma correlação inesperada) e “mais masculino” em F0o. Em (ii), nossos dados mostram que os efeitos de F0 na percepção acerca de Alex (trans) não são muito diferentes dos seus efeitos na percepção de Tulio (cis), principalmente no que toca a soar "menos masculino/mais gay" no disfarce F0+20, relativamente a F0o. Além de explorar efeitos de F0 na percepção da voz de um homem trans, nossa apresentação permite também discutir métodos na descrição experimental de falantes por meio de características discretas apresentadas inicialmente e em blocos (diferentemente do que se tem feito na maioria dos experimentos de percepção).
Palavras-chave: Percepção sociolinguística; pitch médio; homem
INGRID LILIAM DA SILVA
[Filosofia da Linguagem]
Leitura e escrita na escola: um estudo dialético-dialógico verbivocovisual
O presente trabalho insere-se no campo da análise dialógica do discurso e busca refletir sobre práticas de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa no Ensino Médio, considerando os desafios contemporâneos da cultura digital. O objetivo central é apresentar uma proposta de protótipo de ensino voltado à leitura e produção de gêneros jornalísticos na escola, em especial a notícia, como forma de estimular a criticidade e desenvolver a identidade autoral dos estudantes. Fundamentada nos pressupostos bakhtinianos, a pesquisa parte da concepção de linguagem como prática social, em que os enunciados refletem e refratam o solo histórico e cultural de sua produção. Nesse sentido, o estilo autoral é compreendido como assinatura identitária do sujeito que enuncia, essencial para a formação de vozes críticas e criativas na escola. Metodologicamente, a proposta caracteriza-se como pesquisa-ação de cunho interventivo analítico-interpretativo, com foco na construção, por parte dos estudantes, de um Jornal Digital voltado à elaboração de gêneros da esfera jornalística. A ênfase recai sobre a verbivocovisualidade, conceito que remete à integração de elementos verbais, vocais e visuais nos enunciados, a partir dos estudos de Bakhtin e o Círculo. Tal perspectiva permite compreender os enunciados jornalísticos (digitais) como unidades explicitamente sincréticas, constituídas pelo entrelaçamento verbivocovisual na e para a produção de sentidos. A exploração dos letramentos jornalísticos, acadêmico e digital amplia a criticidade dos estudantes diante da circulação de notícias, especialmente em tempos de fake news e de uso intensivo de inteligências artificiais. O quadro teórico-metodológico articula os estudos bakhtinianos sobre gêneros do discurso e estilo autoral com as contribuições de autores contemporâneos que discutem multiletramentos e práticas pedagógicas dialógicas. A proposta busca demonstrar, na prática escolar, como o trabalho com notícias e outros gêneros jornalísticos pode favorecer o despertar do questionamento, da reflexão, da criticidade e estimular o processo de construção da autoria criadora, como parte do processo educativo comprometido com a participação cidadã. Ao final, espera-se que o protótipo de ensino elaborado em conjunto com um grupo de estudantes contribua para a construção de uma educação democrática. Ademais, almeja-se estimular o trabalho com a pesquisa-ação na área da educação linguístico-discursiva, em especial no que tange à prática da leitura e da escrita na escola.
Palavras-chave: Analise dialógica; discurso; verbivocovisualidade
IRENILZA OLIVEIRA E OLIVEIRA
[Linguística e interfaces]
Linguagens e culturas do Brasil vividas em africano
Estudos sobre línguas-culturas em contato têm contribuído de forma muito significativa para o entendimento sobre como a interação entre povos de distintas procedências conformam os contornos das expressões de uma comunidade. No caso específico do português utilizado no Brasil, esses trabalhos têm mostrado como as relações sociais e etno-históricas estabelecidas pelo tráfico de pessoas negras africanas para o Brasil favoreceram o surgimento de uma nova variedade da língua europeia. Referência para os estudos da presença linguística africana no Brasil, Castro (1980) analisa as influências das línguas africanas no português do Brasil, apontando as marcas morfofonológicas deixadas pelas línguas dos povos banto, numericamente superiores no território brasileiro no período colonial, e as permanências de lexemas de línguas africanas. São exemplos dessas heranças lexicais termos como muxoxo < mushoshu; marimbondo < ma = prefixo de plural + rimbondo = vespa, quitanda < kitanda (grupo banto); acarajé < akará = bola de fogo+ jé =comer; vatapá < ewatapá; orixá < Orí = cabeça + xá = dono/energia (origem iorubana); e acaçá < kasaka; faca < faka; zumbi < zumbi = pessoa morta-viva, fantasma, imortal (grupo ewe). No entanto, essa presença linguística negro-africana no Brasil não se restringe aos aspectos estruturais da língua. Expressões culturais brasileiras são fortemente marcadas pelas culturas dos povos negros das diferentes etnias que foram trazidos para o Brasil. Nessa perspectiva, o presente trabalho, parte de um estudo em andamento, aborda tradições relativas às línguas-culturas de povos originários do continente africano que emergem nas interações cotidianas brasileiras. Tendo como suporte a linguagem fílmica, pretende-se discutir, em diálogo com Hall (2006) e Benjamin (1985), como as formas de expressões comuns aos brasileiros recombinam línguas-culturas deixadas pelos antepassados vindos de África e reconfiguram padrões interacionais num formato afrodiaspórico. A partir de depoimentos de linguistas que estudam a formação do português brasileiro e de diversos agentes de cultura afro-brasileira, conclui-se que, de forma consoante com as marcas de natureza estrutural de línguas africanas que fundaram a variedade brasileira do português, expressões e saberes culturais brasileiros se entrecruzam com valores civilizatórios africanos.
Palavras-chave: Línguas-culturas em contato; Línguas/Linguagens
ISABELLA DE CÁSSIA NETTO MOUTINHO
[Neurolinguística]
Intervenções na leitura em contexto clínico: para além do treino, ainda.
Este trabalho, fundamentado nos princípios teóricos e metodológicos da Neurolinguística de orientação discursiva (ND), tem como objetivo problematizar intervenções clínicas voltadas à leitura realizada tanto com crianças que apresentam dificuldades escolares, quanto crianças atravessadas por alguma patologia. Os estudos discursivos conduzidos na ND têm destacado a complexidade do ensino de leitura e escrita, marcado sobretudo pelo estabelecimento dos sentidos de ler e escrever (Gontijo, 2014) - força motriz (Vigotski 1934) da aprendizagem, pela alteridade (Bakhtin, 1997) e pela a formação do leitor norteada pela singularidade dos processos de apropriação da leitura. A ND, assim, dá relevo ao trabalho linguístico-cognitivo diante do texto, às relações discursivas que se apresentam e à interlocução entre leitor e autor mediada pelo texto (Geraldi 1995), como fundamentos para o processo de leitura, entendido, portanto, de maneira a transcender a mera associação entre grafemas e fones em um ritmo entendido como fluente. Partindo desta perspectiva, este trabalho buscou investigar, lançando mão da categorização pela Análise de Conteúdo (Bardin, 2016) os materiais padronizados de intervenção clínica voltados à psicopedagogos, neuropsicopedagogos e fonoaudiólogos. As categorias analisadas nas atividades e nos textos introdutórios dos materiais são: os sentidos da leitura (Gontijo, 2014); a alteridade (Bakhtin, 1997); o conceito de fluência leitora (Kleiman, 1997) a formação do leitor (Geraldi, 1995) e o tipo de texto disponibilizado para que as crianças leiam. Os resultados apontam que a leitura tem sido entendida como mera associação entre grafemas e fones, de modo a privilegiar o que se entende por treino motor de fluência, apartado dos sentidos (tanto do texto quanto do prórpio ato de ler). Para tal, são utilizadas frases curtas atreladas à imagens, apartadas de um texto, escritas com o objetivo de reunir palavras cujas letras iniciais sejam as mesmas, reforçando o caráter de treino pela repetição. Este trabalho alerta, portanto, para o fato de que estas atividades conduzidas na clínica colaboram para o que Soares (1988) e Massini-Cagliari (2004) chamam de desaprendizagem da leitura e da escrita, processo de frustração infantil no período da alfabetização em que a criança percebe que não irá ler e escrever textos que efetivamente comprem um papel social, mas sim o que Paulo Freire entendia por palavreria ou blá-blá-blá (1977), obstáculo na formação do leitor que estabeleça interlocuções a partir da leitura.
Palavras-chave: leitura; alfabetização; neurolinguística
ISABELLA LOURENCI KOJIMA
[Filosofia da Linguagem]
O amor na palavra romanesca de Carla Madeira: uma análise dialógica da relação afetivo-amorosa de
Dalva e Venâncio, de “Tudo é rio” . Um fio condutor atravessa a poética de Carla Madeira em seus três romances: a complexidade das relações humanas. Em?Tudo é rio (2014), o amor se manifesta como corrente, pelo ciúme. Com a relação dos protagonistas Dalva e Venâncio, a autora-criadora instiga a reflexão sobre como os afetos marcam a existência e sobre como o discurso literário, com seu acabamento estético, reflete e refrata embates sociais da vida. Por meio de um movimento metodológico dialético-dialógico, esse corpus foi delimitado tendo em vista uma construção de concepção e relação afetivo-amorosa específica nesse objeto de pesquisa. Nesta comunicação, a proposta se volta à representação de “amor” como elemento constitutivo das personagens Dalva e Venâncio, de Tudo é rio (2014), tendo em vista a interação entre eles, calcada na especificidade da sexualidade enquanto o desejo e prazer de degustar a liberdade, em embate com o “amor” romântico interrelacionado com a dor e o silenciamento feminino, marcado pela posse e pelo ciúme. Para esta apresentação, o objetivo é analisar, fundamentado na amorosidade bakhtiniana, como a relação entre os personagens-protagonistas (Dalva e Venâncio) de Tudo é rio explicitam um embate entre a liberdade e o aprisionamento da obrigatoriedade romantizada pela fantasia, em contrapartida à compulsoriedade cotidiana da relação afetivo-amorosa contratada e consolidada a longo prazo. Os resultados iniciais revelam perfis de gênero (de homem e mulher), que refletem e refratam valores sociais específicos, respectivamente, de superioridade (masculina) e submissão (feminina), conforme os estudos de Beauvoir, Saffioti, Studart, hooks e Davis. As considerações finais confirmam a hipótese inicial de que o enunciado, como reflexo e refração de práticas sócio-histórico-culturais (Volóchinov, 2017), de modo ético-estético (Bakhtin, 2010), reacentua as relações afetivo-amorosas ao enfocá-las de modo plurissignificativo, pois a partir de pontos de vista de personagens de gêneros distintos que viabilizam o prazer pela e com a presença de um terceiro sujeito, o que subverte o cânone ao “desromantizar” o amor como contrato social e de posse do outro.
Palavras-chave: Estudos bakhtinianos; Vozes sociais; Ética-Estética
ISABELLI CORDEIRO CAMOLEZI
[Gramática Funcional]
A ORDENAÇÃO DOS ELEMENTOS CONFIGURACIONAIS DA ORAÇÃO COM PROPRIEDADE
VERBAL DE UM LUGAR NO ESPANHOL SOB O PRISMA DA GRAMÁTICA DISCURSIVO-FUNCIONAL Greenberg (1963), com base nas categorias sintáticas S (sujeito), V (verbo) e O (objeto), propõe a existência de seis possibilidades de ordenação dos constituintes elementares da oração: SVO, SOV, VSO, VOS, OVS e OSV. Martínez Caro (2006), no entanto, observa que, ainda que o espanhol seja considerado uma língua SVO, nas orações intransitivas com propriedade verbal de um lugar, a ordem VS é bastante comum, sendo, por muitas vezes, a ordem não marcada. Este estudo pretende analisar, com base no modelo da Gramática Discursivo-Funcional (GDF) de Hengeveld e Mackenzie (2008), a ordenação de constituintes não hierárquicos da oração declarativa e independente em propriedade verbal de um lugar no espanhol peninsular falado. São exemplos dessas construções: Murió mi pobre padre (PRESEEA_AH_M57_38) [Morreu meu pobre pai] e Habían crecido rastrojos (PRESEEA_AH_M41_26) [Tinham crescido os restolhos]. De acordo com a GDF, em propriedade de um lugar, o esquema de predicação geral apresenta um Subato Atributivo e um Referencial, mas as categorias semânticas podem variar. Como universo de pesquisa utilizamos o PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América - https://preseea.uah.es/), especificamente os inquéritos do corpus que correspondem às cidades de Alcalá de Henares e Granada, Espanha. Para alcançar nossos objetivos de pesquisa, investigamos, de acordo com os níveis da GDF, os seguintes critérios: (1) Funções pragmáticas do subato (Tópico, Foco e Contraste); (2); Tipo de Subato (Atributivo (T), Referencial (R)); (3) Identificabilidade do argumento (+/- id); (4) Moldes de predicação (tético, apresentativo e categorial); (5) Função semântica do argumento (Ativo, Inativo e Locativo); (6) Tipologia do Estado-de-Coisas de Dik (1997, p. 292); (7) Posição dos constituintes na oração, considerando as quatro posições absolutas e suas relativas, são elas: PI, posição inicial, P2, que segue a inicial, PM, posição medial, e PF, posição final; (8) Forma de manifestação do argumento (lexical ou pronominal). Os dados indicam que o único Subato Referencial da oração com propriedade verbal de um lugar não possui traços de agentividade, por isso, no Nível Representacional, configura Inativo. Não observamos moldes de conteúdo Categoriais, apenas Téticos ou Apresentativos. Quanto à ordenação, o único constituinte tende a ocorrer posposto ao predicado. (Apoio: Fapesp - Processo 2025/09606-6)
Palavras-chave: Gramática Discursivo-Funcional; Ordenação de
IZABELLA LARISSA DOS SANTOS SANTIAGO
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O papel do intercâmbio virtual no desenvolvimento da competência conversacional na formação de futuros professores de espanhol
Este trabalho apresenta um estudo sobre o desenvolvimento da competência conversacional em espanhol de aprendizes brasileiros em formação docente, a partir de um projeto de telecolaboração realizado em contexto acadêmico. A pesquisa se insere nas interseções entre linguística aplicada, formação de professores e análise da conversação. Parte-se da compreensão da conversa como um tipo específico de interação e, também, como objeto de ensino e aprendizagem em línguas estrangeiras, contrapondo-se à tendência de reduzi-la a um espaço de prática oral voltado à mobilização de outros conteúdos linguísticos. Nesse sentido, o estudo analisa como a participação em projetos telecolaborativos pode contribuir para o desenvolvimento da competência conversacional. A proposta envolveu a participação de 20 estudantes: 10 graduandos brasileiros do curso de Letras da Unesp e 10 estudantes espanhóis de mestrado em ensino de espanhol na Universidade de Valladolid. Metodologicamente, foram oferecidos aos participantes encontros de telecolaboração, estruturados a partir das características que compõem os intercâmbios virtuais (Rampazzo; Moore, 2024) e da abordagem mista de ensino de conversação (Cestero, 2012). As conversações ocorreram por meio de videoconferências síncronas, em duplas formadas por um participante brasileiro e um espanhol. Os dados incluem tanto as interações gravadas (encontros de conversação, mediação e grupo de discussão final) quanto as percepções dos participantes, obtidas por meio de questionários. Os resultados preliminares indicam que o intercâmbio virtual favorece a participação dos aprendizes, na medida em que possibilita a articulação entre a formação linguística e a formação docente. Por um lado, a telecolaboração cria condições para que os participantes mobilizem, em práticas espontâneas de uso linguístico, conhecimentos trabalhados previamente em sala de aula. Por outro lado, por se tratar de uma interação tecnologicamente mediada, observou-se que algumas barreiras emocionais frequentemente associadas à participação oral foram atenuadas, favorecendo maior envolvimento dos estudantes na atividade conversacional. Além disso, os dados revelam processos de autorreflexão sobre as dificuldades enfrentadas durante a interação, o que permite aos futuros professores reconhecer obstáculos que também poderão emergir nas experiências de aprendizagem de seus próprios alunos.
Palavras-chave: telecolaboração; competência conversacional; formação
JAYANE CAROLINE QUEIROZ SAMPAIO
[Retórica e Estilística]
Materialidade sonora e ordenação fonica: o eixo da Compositio como fundamento da
Oratio Numerosa em D. Joan Garcia de Guilhade O seguinte trabalho propõe-se a apresentar, em chave analítica e com delimitação metodológica explícita, um recorte de uma investigação mais ampla dedicada ao exame do funcionamento da oratio numerosa no corpus lírico do trovador galego-português D. Joan Garcia de Guilhade. No escopo da pesquisa integral, o sistema rítmico-estilístico é apreendido a partir da articulação entre compositio, concinnitas e numerus, concebidos como dimensões interdependentes da organização do discurso. Para os fins desta exposição, delimita-se o foco à compositio, entendida como a instância responsável pelo ajustamento eufônico e pela ordenação da materialidade sonora, incidindo diretamente sobre a qualidade acústica e sobre a configuração fônica das letras e palavras, com vistas à produção de uma sonoridade simultaneamente elegante, eficaz e persuasiva. Parte-se da premissa de que o ritmo poético não se reduz a uma métrica fixa e abstrata; ao contrário, configura-se como uma rede de fenômenos fonológicos interdependentes, cuja atuação participa tanto da construção do páthos quanto da produção de sentido. Nesse quadro, a compositio constitui o fundamento técnico que permite ao trovador modelar o discurso segundo critérios artísticos, por meio da exploração de sonoridades, cadências e simetrias, aproximando a lírica medieval de um ideal de harmonia e persuasão. Questiona-se, assim, a leitura que relega tais elementos a um estatuto meramente ornamental, ao se demonstrar que a organização da materialidade sonora configura um princípio ativo da eficácia expressiva na lírica de Guilhade. Propõe-se uma releitura que não se estabelece como oposição aos modelos antigos, mas como reconfiguração interpretativa: a oratio numerosa não se ausenta, antes se mantém sob formas reformuladas no corpus das cantigas. Reconhece-se, desse modo, uma continuidade transformada, na qual seus princípios são remodulados em função das mudanças históricas, linguísticas e culturais. Metodologicamente, realiza-se uma análise fono-estilística da tessitura fônica das cantigas, entendida como o espaço em que a disposição sonora produz efeitos estéticos, cognitivos e afetivos no receptor. À luz da retórica ciceroniana, a compositio é concebida como uma estilística da sonoridade que organiza tempo e som segundo princípios de proporção e encadeamento. Em termos conclusivos, sustenta-se que a harmonia da lírica de Guilhade resulta da convergência entre padrões sonoros coordenados pela compositio e a realização do numerus, evidenciando o papel central da organização fônica na “arte do bem dizer” medieval.
Palavras-chave: cantigas medievais; oratio numerosa; compositio
JEAN CARLOS DA SILVA GOMES
[Psicolinguística]
Linguística Experimental em estudos sobre patologias da linguagem
As primeiras relações estabelecidas entre linguagem e cérebro na ciência decorreram de evidências obtidas a partir de patologias associadas a lesões cerebrais, especialmente dos casos de afasia (Ahlsén, 2006). Com os avanços da neurociência, novas técnicas passaram a ser empregadas nessas investigações, possibilitando compreender o funcionamento da linguagem na mente e no cérebro em tempo real, sem a necessidade de vinculá-lo exclusivamente a quadros lesionais. Entre esses métodos, destacam-se o Rastreamento Ocular, a Eletroencefalografia (EEG), a Ressonância Magnética Funcional (fMRI), a Magnetoencefalografia (MEG) e a Estimulação Magnética Transcraniana (TMS). De forma complementar, esses métodos, que articulam Linguística Experimental, Psicolinguística e Neurolinguística, também desempenham papel fundamental na compreensão das patologias da linguagem. Neste trabalho, objetiva-se discutir a contribuição desses para a investigação do processamento de compreensão de sentenças em pacientes diagnosticados com afasia, com enfoque específico nos achados provenientes de estudos com Rastreamento Ocular, EEG e MEG. Os resultados obtidos por pesquisas dessa natureza convergem para a proposição de que o conhecimento linguístico de indivíduos afásicos pode ser compreendido para além dos dados obtidos em tarefas comportamentais off-line. Embora tais tarefas forneçam informações relevantes sobre o estado linguístico do indivíduo, elas podem ser complementar com evidências acerca dos mecanismos de processamento que conduzem ao resultado observado. Hanne, De Bleser e Vasishth (2015), por exemplo, demonstram que, apesar de os resultados off-line indicarem prejuízos na compreensão de sentenças ambíguas, dados de Rastreamento Ocular revelam que pacientes afásicos apresentam sensibilidade a marcadores de concordância, ainda que não consigam integrá-los de forma tão incremental quanto sujeitos sem afasia, o que impacta negativamente seu desempenho em tarefas de resposta. De modo semelhante, Chang et al. (2016), com base em dados de EEG, mostram que alterações na janela temporal e na distribuição topográfica do componente N400 podem servir como instrumento para avaliar a gravidade de déficits relacionados à interpretação semântica de sentenças em pacientes com déficits graves que impedem a realização de testes neuropsicológicos tradicionais. Já Meltzer et al. (2013), por meio de dados de MEG, mostram como é possível associar déficits na compreensão de sentenças que demandam conhecimento sintático à reorganização neurofuncional do cérebro, evidenciando como o recrutamento estratégico de redes alternativas pode explicar alguns achados de ativação da linguagem no hemisfério direito em casos de afasia. Desse modo, considera-se que os métodos experimentais ampliam significativamente a compreensão do processamento linguístico em indivíduos afásicos.
Palavras-chave: Linguística Experimental; Neurolinguística; Afasias
JEAN CRISTTUS PORTELA
[Semiótica]
Sobre o espectro do identitarismo: reflexões semióticas
O debate sobre a questão da identidade não apenas retornou ao centro das reflexões nas ciências humanas e sociais e nas ciências da linguagem, como também conquistou, mais recentemente, espaço significativo na mídia, na mobilização da opinião pública e, especificamente, nos textos e discursos políticos ditos de (extrema) direita, de centro e de (extrema) esquerda nas redes sociais. Com base na semiótica do discurso, compreendemos aqui identidade não como algo dado e estabilizado, um resíduo cristalizado de subjetividade ou actorialidade, mas como um conjunto de traços mobilizados em contraste, em contraprograma a um dado percurso narrativo. Assim, as identidades produzem narrativas e por elas são produzidas, constituindo um vasto campo de estudo para os desdobramentos polêmico-contratuais e modais do discurso. A alegada “crise das identidades”, expressão cara a Claude Dubar (2009), se configura, segundo esse princípio, como uma bem-vinda crise de agência e, portanto, de destinação: a ação segundo as identidades hegemônicas é sancionada negativamente, confrontada por outras identidades em disputa pela vida ou “presença”, em sentido semiótico, social e de direitos humanos. Neste trabalho, propomos o recenseamento e a análise de postagens e comentários sobre identitarismo no Instagram, com foco nas hashtags #identitarismo, #identitarismotóxico e #identitarismoliberal, veiculadas em perfis pessoais e institucionais. Nosso objetivo é compreender semioticamente os discursos sobre identitarismo – aqui definido como exacerbação e moralização da identidade – produzidos no campo político da esquerda, que, muitas vezes, o tem entendido como uma espécie de ameaça ou obstáculo à ação política. Nas redes sociais, concepções acerca do que sejam sexismo, racismo, classismo, LGBTfobia, capacitismo, etarismo, entre outras formas de violência e segregação, inflamam atores moderados e extremados de diferentes nuanças ideológicas, supostamente assombrados pelo espectro do identitarismo. Nesse contexto, identidade e identitarismo passam a figurar discursivamente como causas ou efeitos dos mais variados cenários: da decadência moral à crise do nacionalismo, da adesão ao neoliberalismo à conspiração contra a luta de classes.
Palavras-chave: Identidade; Identitarismo; Semiótica
JOCELI CATARINA STASSI SÉ
[Gramática Funcional]
Correlativas Porporcionais
Este estudo analisa, à luz da Gramática Discursivo-Funcional (Hengeveld; Mackenzie, 2008), a gramática da correlação proporcional, compreendendo-se tanto a construção diretamente proporcional quanto a relação inversamente proporcional. Esse arranjo morfossintático é conhecido como “oração subordinada proporcional” pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB 1958). Mateus et al. (2003, p. 732) identificam como proporcionais as orações que comportam ou conectores correlatos, como quanto mais/menos... (tanto) mais/menos, ou conectores isolados, como à medida que, à proporção que, enquanto. Nesse tipo de construção, segundo as autoras, “confrontam-se graus de intensidade de duas propriedades ou de dois estados de coisas [...], estabelecendo-se entre eles uma relação de proporcionalidade” (Mateus et al., 2003, p. 765). Aqui nos limitamos às propriedades e estados de coisas conectados por pares correlativos. Similarmente às comparativas, os pares correlativos que encabeçam as proporcionais correlativas são quantificadores/intensificadores mais e menos, precedidos de quanto e, em menor escala, de tanto, como em “quanto mais pessoas falarem sobre isso, menos tabu isso vira”. O universo de investigação compreende o Corpus do Português Oral, o Corpus do Projeto da Norma Linguística Urbana Culta (NURC) e uma amostragem do Corpus do Português Now. Os parâmetros de análise compreendem as camadas dos níveis Interpessoal, Representacional, Morfossintático e Fonológico das construções correlatas, a interface entre os níveis e a identificação das funções pragmáticas Tópico, Foco e Contraste. Em termos discursivo-funcionais, busca-se responder se a relação proporcional do tipo correlativo é um caso de Equiordenação no português, o que daria ao tratamento dela uma expressão formal diferente do que se vê nas gramáticas normativas, bem como verificar se a construção proporcional privilegia, na qualidade de verdade geral, a camada do Conteúdo Proposicional. Como resultado, foi observado que o Movimento envolvido é constituído por pelo menos dois Atos Discursivos, sendo que um deles, o que representa a construção correlativa, atua como Ato Discursivo Subsidiário de Motivação e de Concessão em relação ao Nuclear. Ademais, se confirma a hipótese de que o principal traço da correlação proporcional é essencialmente o de caráter semântico, tendo o valor de um Conteúdo Proposicional genérico, mesmo que suas duas unidades sejam Episódios. Em termos de codificação, confirma-se também que, no Nível Morfossintático, a relação proporcional consiste num caso de Equiordenação, por incluir duas unidades em relação de interdependência, que constituem duas Orações, dois Sintagmas e a combinação de Oração e Sintagma. Por fim, no Nível Fonológico, essas construções são majoritariamente codificadas como Frases Entonacionais.
Palavras-chave: Correlação no Português; Correlativas Proporcionais;
JORDÃO ANONA SÁ
[Análise do Discurso]
DISCURSOS DOS GOLPES EM GUINÉ-BISSAU: UMA ANÁLISE DO PRONUNCIAMENTO
GOLPISTA DE 2025 No quadro de nosso Mestrado em Linguística na UFSCar, desenvolvemos atualmente uma pesquisa sobre os discursos que justificam os golpes ocorridos em Guiné-Bissau entre 1980 e 2025. Sua base teórica e metodológica é a Análise do Discurso desenvolvida por Michel Pêcheux (1995) e seu grupo, com contribuições de Michel Foucault (2012) consagradas à ordem do discurso e de Patrick Charaudeau (2011) e Carlos Piovezani (2009) dedicadas ao discurso político. O objetivo consiste em analisar enunciados produzidos por lideranças militares golpistas, quando dos golpes de Estado em Guiné-Bissau em 1980, 2012 e 2025, no intuito de descrever e interpretar seu funcionamento discursivo. Mais precisamente, o propósito consiste em considerar quais são e como se formulam os discursos que justificam as intervenções dos militares na política nacional e que buscam lhes outorgar legitimidade para o exercício do poder. Diferentemente do que prescrevem a Constituição de Guiné-Bissau, os poderes militares não têm servido apenas à defesa da Nação, uma vez que os golpes de Estado por eles efetuados não foram raros na recente história do país. De modo geral, quando da execução dos golpes, os militares guineenses proclamam seu suposto direito e sua pretensa legitimidade para determinar quem deve ser eleito e quem deve permanecer no poder. Nessas circunstâncias, cada intervenção militar tem sido frequentemente justificada como solução para a instabilidade política. No cerne dessa justificativa, se dá a construção da imagem das Forças Armadas como heróis da pátria ou salvadores da Nação nesses momentos de graves crises institucionais. Diante desse quadro, nosso material de análise é composto de declarações, documentos e pronunciamentos dos militares golpistas lançados a público por ocasião de cada um dos três golpes acima mencionados. Além do mais, para melhor compreensão das condições históricas de produção dos discursos materializados nessas declarações, documentos e pronunciamentos, o desenvolvimento da pesquisa contempla ainda seleção, leitura e apropriação de textos e obras da literatura especializada na história, na sociedade e na política guineense Para nossa exposição no no 71º Seminário do GEL, além do atual estado da pesquisa, pretendemos apresentar alguns resultados de análises que realizamos do pronunciamento dos líderes do golpe militar de 2025. Nas análises desse documento, examinamos os discursos de justificativa do golpe, da necessidade da intervenção militar e da legitimidade da ação golpista para contornar a instabilidade política, considerando a constituição histórica, a formulação linguística e a circulação social de seus enunciados.
Palavras-chave: Golpes de Estado; Guiné-Bissau; Discurso político
JOSY MARIA ALVES DE SOUZA
[Semiótica]
Travestilidade em discurso: uma autoetnografia da retificação civil de nome e gênero como ato de resistência, subjetivação e produção de sentido.
Nosso estudo investiga as formas de vida travesti a partir de uma abordagem autoetnográfica centrada na experiência de retificação civil de prenome e gênero da pesquisadora-pesquisada. Ancorado teoricamente na autoetnografia, na semiótica discursiva e nos estudos de gênero, o trabalho analisa o nome de pessoas trans como signo de reconhecimento social, operador simbólico de pertencimento e dispositivo de regulação identitária. Metodologicamente, parte de relatos situados da experiência da pesquisadora-pesquisada e toma como material de reflexão crítica, articulando memória, enunciação e análise discursiva para compreender como os processos de nomeação, renomeação e retificação civil mobilizam disputas de sentido, atravessamentos institucionais, violências simbólicas e estratégias de resistência que incidem sobre a constituição subjetiva e sobre os modos de aparecer no mundo. Ao recusar a separação rígida entre sujeito e objeto de pesquisa, a escrita assume uma dimensão política, estética e epistemológica, afirmando a experiência encarnada como lugar legítimo de produção de conhecimento e como gesto de enfrentamento ao transepistemicídio. A análise evidencia que o nome de pessoas trans não se restringe a uma marca jurídica ou administrativa, mas opera como figura discursiva capaz de condensar afetos, memórias, tensões, regimes de visibilidade e lutas por legitimidade. Nesse percurso, a retificação civil é compreendida não apenas como procedimento burocrático, mas como ato de resistência, inscrição simbólica e reconfiguração dos contratos sociais de gênero, uma vez que tensiona normas cisgenerificadas e produz novos modos de inteligibilidade para existências dissidentes. O artigo também discute como o corpo travesti se constitui como arquivo sensível e superfície de inscrição de violências, silenciamentos, negociações e insurgências, tornando visíveis os efeitos subjetivos, sociais e políticos das normas que regulam o reconhecimento. Ao final, o trabalho propõe uma reflexão situada sobre linguagem, reconhecimento, performatividade e travestilidade, contribuindo para o fortalecimento de epistemologias transcentradas e para a crítica aos dispositivos que historicamente marginalizam e silenciam existências dissidentes.
Palavras-chave: Travestidade; discurso; retificação civil
JOSÉ MANUEL PÉREZ ADÁRRAGA
[Semiótica]
Dinâmica identidade-alteridade da migração colombiana no Brasil: uma abordagem semiótica
Historicamente, o Brasil tem consolidado uma autoimagem de país aberto e receptivo à imigração, ao receber, durante os últimos dois séculos, um grande número de migrantes internacionais de diferentes origens e nacionalidades, como europeus, asiáticos, africanos e latino-americanos. Dentre esses grupos, destacam-se os colombianos, cuja presença no país, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, tem crescido significativamente nas últimas décadas (Baeninger; Fernandes, 2018; Baeninger et al, 2020). Neste estudo, buscamos descrever, à luz da semiótica francesa, a dinâmica identidade–alteridade entre migrantes colombianos e a sociedade receptora no Brasil, considerando como essas relações se constroem discursivamente. A pesquisa baseia-se na análise de relatos de imigrantes e refugiados colombianos residentes na Região Metropolitana de São Paulo, a partir dos quais assumimos a constituição do Outro como a sociedade de acolhida, na figura do “brasileiro”. Analisa-se, assim, a discursivização tanto da identidade do imigrante colombiano quanto das representações de sua alteridade nas experiências migratórias. Para tanto, mobilizamos dois eixos teóricos complementares: de um lado, a semiótica narrativa, de inspiração greimasiana (Greimas; Courtés, 2021; Barros, 2002, 2005; Fiorin, 2009; 2018), que orienta o mapeamento dos programas narrativos que estruturam as trajetórias migratórias e a identificação das figuras envolvidas. De outro lado, a sociossemiótica, especialmente a partir de Landowski (1992, 2012) e Bueno (2006, 2011), que permite refletir sobre os regimes de interação e a construção de simulacros do Outro. Os resultados indicam que a dinâmica entre identidade e alteridade é predominantemente regida por uma lógica de “admissão”, na qual se articulam o desejo de inserção do imigrante colombiano e a disposição da sociedade receptora em admiti-lo. Tal configuração favorece relações de aproximação e afinidade cultural. Contudo, emergem também marcas, ainda que sutis, de xenofobia, preconceito e intolerância, que tensionam essa lógica em direção a processos de segregação e exclusão. Nesse contexto, a figura do brasileiro revela-se ambígua, oscilando entre práticas de hospitalidade e práticas de exclusão, evidenciando a complexidade das relações nas experiências migratórias contemporâneas.
Palavras-chave: Migração colombiana; Identidade-alteridade; Semiótica
JUAN PRETE TOJEIRA RAMOS
[Fonética e Fonologia]
Representatividade sociolinguística da variação entoacional do português brasileiro no desenvolvimento de sistemas de síntese de fala: uma proposta de valorização da diversidade prosódico-acústica
Este estudo tem como objetivo geral discutir a representatividade sociolinguística da variação entoacional do português brasileiro (PB) no desenvolvimento de sistemas de síntese de fala. Como objetivos específicos, propõe-se sistematizar os principais padrões entoacionais descritos para as variedades do PB e analisar suas implicações para a modelagem prosódico-acústica em tecnologias de fala. Metodologicamente, a pesquisa é de natureza teórico-propositiva, fundamentada na revisão e na articulação da literatura linguística e tecnológica sobre o PB, com ênfase na interface entre a prosódia, a variação dialetal e a fala sintética. Parte-se do pressuposto de que o PB é uma língua entoacional, em que a melodia distingue significados pragmático-discursivos (Massini-Cagliari; Cagliari, 2001). Nesse contexto, a variação linguística se manifesta em diversos cenários regionais, como o baiano (Salvador), o mineiro (Belo Horizonte) e o sulista (São Paulo e Porto Alegre), cuja caracterização entoacional é objeto de pesquisa (Frota et al., 2015). Estudos empíricos evidenciam distinções entre variedades urbanas, como as de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, sobretudo na relação entre as sílabas pretônicas e tônicas: por exemplo, nas variedades nordestinas, observa-se uma maior proeminência das pretônicas, enquanto, na fala porto-alegrense, verifica-se uma elevação da frequência fundamental (F0) na sílaba tônica (Cunha, 2000). Investigações vinculadas ao Projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) revelam configurações entoacionais distintas em enunciados declarativos, interrogativos e imperativos, o que corrobora a variação melódica como um traço regional (Castelo; Cunha, 2011, 2012; Silvestre; Cunha, 2013; Gomes da Silva et al., 2016). Outros trabalhos demonstram que o PB apresenta uma alta densidade tonal (Fernandes-Svartman, 2024a, 2024b), além de variações nos contornos nucleares, com a configuração de duas regiões dialetais diferenciadas, em especial, pelos padrões do contorno nuclear interrogativo total: ascendentes no Norte e ascendentes-descendentes no Centro-Sul (Castelo, 2016). No campo da fala sintética, destacam-se as limitações de recursos para o PB e o impacto de abordagens baseadas em Inteligência Artificial (IA) na produção de resultados mais naturais (Casanova et al., 2024), embora ainda pouco sensíveis à diversidade identitária. Nesse cenário, investigações recentes sobre a fala sintética indicam a presença de regularidades entoacionais que se aproximam das descrições da fala natural do PB, particularmente quanto à organização melódica no domínio gramatical (Tojeira-Ramos; Massini-Cagliari, 2024; Tojeira-Ramos, 2025). Argumenta-se, por conseguinte, que a inclusão da diversidade entoacional em sistemas de síntese de fala configura um desafio técnico e uma demanda sociolinguística para a valorização da pluralidade cultural brasileira.
Palavras-chave: síntese de fala; português brasileiro; variação
JULIA CATALDO LOPES
[Neurolinguística]
Magnetoencefalografia e linguagem: vantagens, aplicações e desafios metodológicos
Para compreendermos como o cérebro humano sustenta a faculdade da linguagem, é necessário investigar quando e onde os estímulos linguísticos são processados. O eletroencefalograma (EEG), com sua precisão temporal em milissegundos, permite investigar o quando, ao passo que a ressonância magnética funcional (fMRI), com sua alta resolução espacial, permite investigar o onde. No entanto, a fMRI impõe restrições temporais e de desenho experimental que podem limitar os tipos de perguntas linguísticas. Nesse contexto, a magnetoencefalografia (MEG) combina vantagens de ambos os métodos: oferece alta precisão temporal e, ao mesmo tempo, uma resolução espacial que, embora não tão acurada quanto a da fMRI, permite localizar com maior precisão os correlatos neurais de processos linguísticos. Além disso, trata-se de um método não invasivo, que pode ser utilizado com indivíduos saudáveis, permitindo a investigação da linguagem em condições de funcionamento típico, i.e., sem a necessidade de recorrer a populações clínicas, como indivíduos com afasias. Outro ponto relevante é que dados de MEG podem ser produtivamente comparados a dados de EEG e fMRI, desde que sejam consideradas as especificidades de cada modalidade, como a sensibilidade à orientação das correntes neurais. Um exemplo clássico é a relação entre a assinatura neural N400, observada em EEG, e a M350, observada em MEG (Pylkkänen & Marantz, 2003). A presente comunicação destacará as vantagens de investigar os correlatos neurais da linguagem por meio de MEG, apresentando e exemplificando diferentes possibilidades de análise de dados e os tipos de perguntas que elas permitem responder. A discussão contemplará descobertas centrais da neurociência da linguagem realizadas com MEG, incluindo o acesso a categorias fonológicas no córtex auditivo (Phillips et al., 2000), a decomposição morfológica durante o reconhecimento visual de palavras (Solomyak & Marantz, 2010), e a combinação sintático-semântica (Friederici et al., 2000; Matchin et al., 2018; Pylkkänen, 2019), inclusive em estudos com estímulos naturalísticos (Li, Lai & Pylkkänen, 2024). Por fim, serão consideradas algumas limitações do método, como os limites inferenciais de testes estatísticos não paramétricos baseados na formação de clusters com múltiplas permutações (Maris & Oostenveld, 2007; Sassenhagen & Draschkow, 2019), bem como o alto custo de aquisição e manutenção do equipamento. Esse custo restringe a presença de MEG sobretudo a instituições localizadas em países de alta renda, o que limita a diversidade de línguas e populações investigadas e, consequentemente, reduz o potencial de comparação e replicação dos achados quando comparado a métodos mais amplamente disponíveis, como EEG e fMRI.
Palavras-chave: MEG; neurolinguística; processamento linguístico
JULIA LOURENÇO COSTA
[Semiótica]
Contrastes de gênero na Linguística: Perspectivas semiótica e historiográfica sobre as mulheres linguistas brasileiras
A demanda por compreender o papel das mulheres na ciência impulsiona debates em diferentes esferas sociais, inclusive na academia. Nesse contexto, as ciências da linguagem têm contribuído para as discussões de gênero por meio de variadas perspectivas teóricas. Entre elas, destacam-se a Historiografia Linguística e a Semiótica Discursiva, cujas pesquisas recentes vêm ampliando a abordagem do tema (Ayres-Bennett; Wendy; Sanson, 2020; Altman; Lourenço, 2023; Moreira; Santos; Portela, 2021). A Historiografia Linguística busca descrever e interpretar a evolução do conhecimento linguístico em determinado contexto histórico e social (Altman, 2003). Já a Semiótica investiga os mecanismos de construção e apreensão de sentido nos mais diversos textos e discursos (Greimas; Courtés, 2008). Este trabalho propõe um diálogo entre essas duas perspectivas para analisar a função das mulheres na Linguística brasileira, especialmente nos processos de institucionalização da disciplina no país. Com recorte temporal entre 1960 e 1990, examinamos textos de autoria feminina e masculina publicados em seis periódicos científicos do período. A análise articula parâmetros internos e externos aos textos, buscando identificar contrastes relacionados ao gênero dos(as) autores(as), tanto no valor semântico assumido em seus contextos de enunciação quanto nas funções exercidas em seus contextos sociais. Com base, sobretudo, no conceito de influência (Koerner, 2014), busca-se suprir uma lacuna de análise discursivo-textual mediante o uso de elementos da metodologia semiótica (Zilberberg; Fontanille, 2001). No caso específico da influência, a elaboração de uma tipologia de citações tensivas possibilita a criação de horizontes retrospectivos. Assim, o principal objetivo deste estudo é levantar a participação de mulheres linguistas do século XX por meio das citações: tanto pela maneira como citam outros autores quanto pela forma como são citadas nos textos do corpus analisado. A aproximação entre Historiografia e Semiótica permite, a partir da análise dos traços deixados nos enunciados, quantificar e qualificar elementos citacionais, evidenciando também contrastes de gênero. Dessa forma, propomos categorias interpretativas para a construção de uma Historiografia Linguística feminina no Brasil, reposicionando pesquisadoras e professoras que participaram e ainda participam ativamente do desenvolvimento das ciências da linguagem no país. Além de mapear a presença feminina nos periódicos analisados, a pesquisa busca compreender como essas autoras construíram redes de circulação de saberes e reconhecimento acadêmico. Ao investigar os modos de citação, pretendemos evidenciar relações de legitimidade, apagamento e valorização intelectual, contribuindo para ampliar a visibilidade histórica das mulheres na Linguística brasileira e fortalecer debates sobre memória científica, gênero e produção do conhecimento.
Palavras-chave: Mulheres linguistas brasileiras; Institucionalização da
JULIANA ALVES ASSIS
[Linguística Aplicada]
Representações sobre a escrita acadêmica e o fazer científico no discurso de estudantes universitários em contexto de avanço da inteligência artificial
Em relatório publicado pela Unesco em 2025, intitulado “Marco referencial de competências em IA para professores”, as atuais transformações na tradicional relação envolvendo professor, estudante e práticas de ensino/aprendizagem são assumidas como desafios decorrentes tanto da forte presença da Inteligência Artificial (IA) no mundo contemporâneo quanto também de uma compreensão ainda limitada acerca do funcionamento da IA, suas potencialidades e limites. Com base em um quadro teórico inspirado na tradição socioantropológica dos estudos sobre Letramento, em diálogo com abordagens de base discursiva e com estudos sobre IA, ocupamo-nos, neste trabalho, da reflexão sobre representações sobre a escrita acadêmica e sobre o fazer científico no discurso de estudantes universitários, chamados a refletir sobre o uso da IA em suas práticas de leitura e de escrita no ensino superior. O material analisado são respostas de 173 estudantes brasileiros da graduação, mestrado e doutorado, de diferentes áreas de conhecimento e de universidades brasileiras. Trata-se de respostas a uma questão aberta, integrante de questionário aplicado entre abril e setembro de 2025, voltada à apreensão de respostas sobre os seguintes aspectos: (i) uso de IA para escrita e (ii) impactos atuais e futuros no ensino superior, tendo em conta o uso da IA. A partir de uma abordagem qualitativo-interpretativa, as respostas a essa questão foram analisadas com o apoio do MAXQDA (2024), um software que apoia a codificação e apresentação de dados, dentre outros recursos. Para a análise, levamos em conta pistas linguísticas e discursivas que permitissem uma interpretação de valores e papéis atribuídos à escrita acadêmica, ao fazer científico e à IA. Os resultados permitem identificar um conjunto variado de tensões envolvendo a relação entre o fazer científico, a prática de escrita e a mobilização da IA no ensino superior. Trata-se de resultados que podem oferecer contribuições para compreensão das dinâmicas implicadas na formação universitária contemporânea, considerados ainda seus impactos na formação de pesquisadores e futuros profissionais. (Apoio: FAPESP 2022/05908?0; FAPEMIG 05058-23; CAPES-COFECUB 88887.712049/2022-00; CNPq 409249/2023-8; 312852/2022-3 e 301678/2025-1.)
Palavras-chave: representações; escrita acadêmica; inteligência
JULIANA APARECIDA BARBOSA DA SILVA
[Análise do Discurso]
MULHERES ESCRITORAS: PRESENÇA/AUSÊNCIA DE AUTORAS NAS LISTAS
OBRIGATÓRIAS DA FUVEST DE 2026 A 2028 Os papéis sociais das mulheres vêm se transformando ao longo da história assim como suas vozes trazem impacto e materializam-se enquanto resistência na atualidade. A literatura é um espaço essencial para a emergência dessas transformações, em obras carregadas de luta e de representatividade. A voz feminina, ao longo da história, perpassou por resistências, transformações e (res)significações. A ausência da mulher e de sua voz não só na literatura, mas também em outros espaços sociais, evidencia o silenciamento e o apagamento da figura da mulher ao longo da história. Com o crescimento de obras escritas por mulheres, listas de leituras obrigatórias como a do vestibular da Fuvest tem trazido mais autoras em sua composição, tecendo assim um diálogo com a atualidade. As listas de leituras obrigatórias, cujas obras são majoritariamente escritas por homens, evidenciam relações de poder patriarcalistas que formam e constroem cânones. Assim, apesar de existirem muitos livros importantes na literatura brasileira escritos por mulheres, estas, ainda, continuam sendo consideradas marginalizadas em detrimento de uma hegemonia masculina na literatura. A partir disso, espera-se, nesse trabalho, analisar a representatividade das listas do vestibular da Fuvest a partir do discurso midiático no que diz respeito a livros escritos por mulheres . Para tanto, será recolhido o material através de artigos de opiniões, posts e comentários do Instagram, mensagens do X (Twitter), que tragam discursos referentes ao trabalho. Nesses materiais será analisado como a mudança das listas estão impactando na opinião popular. Tomamos como aporte teórico os estudos discursivos foucaultianos desenvolvidos no Brasil por pesquisadoras brasileiras como Maria do Rosário Gregolin, Denise Witzel e Ivania Neves, utilizando uma analítica-metodológica pautada na arqueogenealogia foucaultiana postulada por Neves e Gregolin (2021). De acordo com esses pressupostos teóricos, temos uma intersecção entre arqueologia e genealogia, adotando uma posição de questionamento sobre as condições históricas e sobre as mudanças da prática discursiva, analisando-as por meio das relações de saber e poder no discurso. Consoante à caixa de ferramenta teórica proposta por Michel Foucault, nossas análises se pautarão pelos seguintes conceitos: Discurso em “A Ordem do discurso” (2014), Saber em “Arqueologia do Saber” (2020) e Poder em “Microfísica do Poder” (2025). Espera-se que esta pesquisa contribua para a adesão das mudanças de forma efetiva nas listas de leituras de outros vestibulares, além da Fuvest, e viabilize que as vozes dessas autoras possam ser ouvidas e que seu papel de agente histórico possa ser reconhecido.
Palavras-chave: Discurso; Autoras mulheres; Fuvest
JULIANA BERTUCCI BARBOSA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Luz, câmera, ação: percepções sociolinguísticas de estudantes de PLE sobre novelas brasileiras na aprendizagem do português
O presente trabalho apresenta um recorte de uma pesquisa de mestrado que investigou a influência de mídias brasileiras na aprendizagem de Português como Língua Estrangeira (PLE). O objetivo central desta comunicação consiste em analisar as percepções sociolinguísticas de aprendizes estrangeiros acerca da variação linguística e das representações culturais mobilizadas em cenas de novelas brasileiras. Parte-se do pressuposto de que a exposição ao insumo audiovisual televisivo oferece um campo rico para o desenvolvimento da competência sociolinguística e intercultural. A pesquisa ancora-se nos estudos da Sociolinguística da Percepção, especialmente nas discussões de Freitag et al. (2016), Oushiro (2018) e Ghessi-Arroyo (2024), articulados ao campo do ensino de PLE e às reflexões sobre aprendizagem informal e competência intercultural. Além disso, reconhecemos a telenovela como um produto que, embora apresente um viés frequentemente estereotipado, especialmente quanto aos sotaques e à caracterização regional, constitui uma representação linguística relevante do país. Consideramos que tais produções funcionam como um panorama da realidade linguística brasileira, servindo de base para o julgamento social de falares. A metodologia, de abordagem qualitativa, utilizou como corpus cenas selecionadas das telenovelas Amor de Mãe (2019–2021) e Terra e Paixão (2023–2024), ambas exibidas pela Rede Globo. Os participantes da pesquisa - estrangeiros vinculados ao Núcleo de Línguas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) - assistiram aos trechos audiovisuais e responderam a um Teste de Percepções Sociolinguísticas (TPS). As questões abordavam, entre outros aspectos, o reconhecimento de variedades regionais do português brasileiro, a percepção de formalidade e informalidade nas falas dos personagens, a identificação de usos pronominais, a relação entre língua e contexto social, bem como as possíveis contribuições das novelas para a aprendizagem do idioma na opinião dos informantes. Os resultados indicam que os participantes associam determinadas formas de falar a regiões específicas do Brasil e reconhecem diferenças de registro e adequação linguística em contextos distintos. Além disso, as respostas revelam que as novelas são percebidas como importantes instrumentos de aprendizagem do “português real”, especialmente no desenvolvimento da compreensão oral, do repertório lexical e da familiarização com expressões coloquiais e variedades linguísticas. Conclui-se que a teledramaturgia brasileira, ao mesmo tempo em que pode reforçar estereótipos sociolinguísticos, também constitui um recurso autêntico e potente para o ensino de PLE, favorecendo reflexões críticas sobre diversidade linguística, identidade cultural e usos sociais da língua portuguesa. Palavras-chave: Português Língua Estrangeira. Novelas brasileiras. Aprendizagem informal. Recursos autênticos.
Palavras-chave: Português Língua Estrangeira; Aprendizagem informal;
JULIANA DI FIORI PONDIAN
[Semiótica]
A paixão da angústia na poesia inicial de Augusto de Campos
Este trabalho busca investigar a configuração da paixão da angústia nos primeiros poemas de Augusto de Campos, desde a coletânea O rei menos o reino (1949-1951), em que ela se apresenta como tema recorrente, até a série poetamenos (1953), à luz dos pressupostos da semiótica discursiva e de seus desdobramentos na semiótica das paixões e na teoria tensiva. Pretende-se analisar de que maneira a angústia se manifesta não apenas como tema ou conteúdo representado, mas também como efeito de sentido produzido pelas relações entre plano de expressão e plano de conteúdo dos textos. Partindo da compreensão de que a dimensão passional dos enunciados se constrói tanto em manifestações verbais quanto não verbais, e de que a experiência sensível do sentido participa da emergência dos efeitos de afetividade e estesia, busca-se observar como os poemas produzem modos de sentir inscritos nas dinâmicas sensíveis da enunciação. Tomando como corpus poemas publicados entre 1949 e 1953, podemos verificar como essa temática é abordada na passagem da poesia inicial de Augusto de Campos, ainda organizada em versos, para a sintaxe gráfico-espacial da poesia concreta, inaugurada com a série poetamenos. A análise parte da hipótese de que a angústia se organiza segundo uma configuração tensiva marcada pelo fechamento, pela concentração e pela descontinuidade. Tal hipótese encontra respaldo tanto na etimologia de angusta — associada às ideias de estreitamento, brevidade e clausura — quanto nas próprias definições dicionarizadas da paixão, frequentemente vinculadas à redução do espaço e do tempo. Assim, pretende-se observar como a angústia projeta, no campo de presença do sujeito, uma percepção circunscrita e saturada, caracterizada por ritmos sincopados, interrupções, acelerações e estados de falta. Nessa perspectiva, a paixão pode ser compreendida menos como relação objetiva entre sujeito e objeto do que como modulação perceptiva e estésica do próprio campo sensível, na qual o sujeito experimenta um “aperto” simultaneamente corporal, espacial e temporal. Desse modo, o trabalho propõe, de um lado, compreender as articulações discursivas da paixão da angústia por meio de correlações fórico-modais e tensivas; de outro, observar como essas articulações passionais se manifestam em textos poéticos, inclusive materialmente, na organização visual, sonora e verbal dos poemas, a fim de compreender as condições de emergência da afetividade enquanto experiência estética e estésica.
Palavras-chave: Semiótica das paixões; Angústia; Poesia concreta
JÉSSICA GABRIELLI DE GODOY
[Aquisição de Linguagem]
Argumentação Infantil na Escola: um olhar dialógico-discursivo para os dados de uma criança
Este trabalho busca analisar como se dá a participação de um menino brasileiro monolíngue (H., 4;7 a 4;11 anos) na unidade triádica do discurso argumentativo (argumento, contra-argumento e resposta) proposta por Selma Leitão (2006, 2007(a), 2007(b), 2008), em contexto escolar. O estudo parte de uma abordagem dialógico-discursiva de base bakhtiniana (Bakhtin, 2016; Volóchinov, 2017, 2019), que considera os pressupostos de Vygotsky (2005) e Bruner (2007) no que tange à importância da interação entre a criança e o outro para o desenvolvimento da linguagem, e serve de base para os trabalhos de Aquisição da Linguagem (Salazar Orvig, 2003; Salazar Orvig et al., 2005; Salazar Orvig; De Weck; Hassan, 2020; François, 1994, 2006; Del Ré; Hilário, 2014; Del Ré; Hilário; Vieira, 2020; Del Ré; Salazar Orvig, 2020; entre outros). Essa perspectiva entende a linguagem como um fenômeno de ordem social que se desenvolve a partir das interações entre os sujeitos. Este trabalho compartilha do aporte teórico incorporado a pesquisas referentes à argumentação infantil em contextos naturalísticos (Leitão, 2007a; Leitão, 2007b; Vieira, 2011; 2015; Vasconcelos, 2017; Ricci, 2020, 2025, no prelo; Gianesella-Ferreira et al., 2024; Gianesella-Ferreira, 2025), mas desloca o foco, agora, para a argumentação infantil em contexto escolar, utilizando a Metodologia de Inferência de Predição (Almeida, 2009; Vasconcelos; Barbosa, 2020; Vasconcelos et al., 2020), que busca sugerir possíveis desdobramentos discursivos das narrativas das crianças, a partir da compreensão textual e dos indícios já apresentados, objetivando favorecer a negociação de ideias - e a argumentação - entre os participantes. Esta pesquisa, de caráter longitudinal, qualitativo e experimental, utiliza dados coletados em uma intervenção realizada com uma turma da quarta etapa da Educação Infantil (4 a 5 anos) de uma Escola Pública Municipal de Araraquara-SP, durante 15 sessões mediadas por pesquisadoras-interventoras, voltada para leitura de histórias e inferências direcionadas a partir dela. O corpus foi delimitado considerando as situações argumentativas das quais H. participa, visando analisar os movimentos argumentativos entre H. e os demais sujeitos da intervenção, já que olhar para uma criança específica possibilita maior gerência de como aquele contexto propiciou o desenvolvimento da (sua) argumentação, e H. possui uma produção robusta, sobressaindo-se como um interlocutor ativo de muitos processos argumentativos durante as sessões, o que nos garante um corpus consistente. Os resultados iniciais apontam para uma produção diversificada de H., composta por argumentos, contra-argumentos, respostas, com ou sem justificativas, a partir de elementos linguístico-discursivos e multimodais, possibilitando um estudo produtivo.(Apoio: Capes/PROEX-Processo 88887.182271/2025).
Palavras-chave: Aquisição da Linguagem; Argumentação; Contexto escolar
JÚLIO MÁRIO SIGA
[Análise do Discurso]
Políticas de identidade e colonialidade em discursos políticos de presidentes da Guiné-Bissau e Cabo Verde
Esta comunicação propõe apresentar, de uma forma analítica, as políticas de identidade e colonialidade em discursos políticos de presidentes da Guiné-Bissau e Cabo Verde, entre 2020 e 2026, analisando como os reflexos de políticas de identidade (de pertença étnica, religiosa e de status social/coloração) contribuem na influência das formações discursivas e ideológicas em discursos políticos para a ascensão aos cargos políticos e na manutenção do poder. Em outros termos, propomos analisar o funcionamento das ideologias políticas no cenário político guineense e cabo-verdiano. Trata-se de dois países com uma ligação cultural e orgânica histórica, como se pode constatar na “História concisa de Cabo Verde” (SANTOS, et al, 2007), resultante de um contexto histórico-político em que o Dispositivo Colonial, através da rede de outros dispositivos, como o bélico-militar, o pedagógico, o religioso, o jurídico, o escolar, o midiático etc., tem uma forte confluência na formação sócio-político dos dois países (NEVES; GREGOLIN, 2021), tendo os dois realizado uma longa luta armada comum que resultou nas suas independências (LOPES, 1996; SOUSA, 2017). Ademais, após a independência, todo esse dispositivo colonial é assumido pelos sujeitos políticos locais colonizados (CABRAL, 2020; NEVES; GREGOLIN, 2021), em uma sociedade fortemente dividida entre a Modernidade Líquida e Modernidade Sólida, conforme teorizado por (BAUMAN, 2021b; 2021a), face a uma luta pela construção da identidade nacional na perspectiva de (HALL, 2024) e unidade na diversidade, defendida por Amílcar Cabral, líder da independência dos dois países. Recorremos à metodologia qualitativa foucaultiana denominada arqueogenealogia. Pois consideramos que essa metodologia é adequada ao nosso objeto de análise, na medida em que preserva a estrutura da arqueologia foucaultiana, voltada para identificar regularidades e rupturas nos discursos numa história descontínua e problematizar a verdade, incorporando novos conceitos de Foucault, às análises, para evoluir de uma arqueologia do saber para arqueogenealogia do saber-poder (FOUCAULT, 2014; NEVES; GREGOLIN, 2021). Nossas análises, que refletem um primeiro momento da tese em desenvolvimento, apontam que as ideologias de políticas de identidade são tidas nas práticas discursivas presidenciais e nos jogos de saber-poder nos dois países; e os dispositivos de status social/coloração resultantes das oportunidades coloniais são evocados como critérios para a afirmação da identidade cultural e ascensão ao poder político. Assim, os resultados parciais já obtidos evidenciam que esses discursos produzem efeitos de sentido a partir das formações históricas e ideológicas dos já ditos produzidos desde o período colonial.
Palavras-chave: Políticas de identidade e colonialidade em discurs;
KATHERINE FISCHER
[Línguas de Sinais]
Sinais antroponímicos em libras: padrões socioculturais de nomeação e autoapresentação
Libras: https://youtu.be/Cqvn-FTzJTM Os nomes próprios são objeto de estudo da onomástica, área da linguística que abrange diferentes campos, como a toponímia, a antroponímia e a zoonímia (Sousa, 2022). Este estudo dedica-se à análise da antroponímia na libras. Nas comunidades surdas, além do nome registrado oficialmente, os indivíduos utilizam um sinal antroponímico como forma de identificação e elemento associado à identidade cultural e social. Embora as pesquisas sobre sinais antroponímicos em libras tenham se desenvolvido mais recentemente, com destaque para os estudos iniciados por Barros (2018), o tema vem conquistando maior espaço nas discussões acadêmicas (Sousa et al., 2020; Rech, 2022; Fonseca e Xavier, 2024, entre outros). Nesse sentido, este trabalho busca analisar os sinais antroponímicos em libras a partir de aspectos socioculturais e das formas de autoapresentação presentes nas comunidades surdas. Para isso, foram investigadas questões relacionadas à identidade de quem atribuiu o sinal, às mudanças ocorridas ao longo do tempo, à existência de sinais idênticos ou semelhantes, aos sinais alternativos ou apelidos e à ordem de uso entre o sinal e o nome em português durante as apresentações pessoais. Os dados foram coletados por meio de entrevistas com dois grupos de participantes: 14 surdos e 14 ouvintes, selecionados a partir das redes de contato dos pesquisadores. Cada grupo foi composto igualmente por homens e mulheres, provenientes de dez estados brasileiros. As entrevistas buscaram compreender o perfil individual e coletivo dos participantes a partir das seguintes perguntas: “Você pode se apresentar?”; “Você conhece alguém com o mesmo sinal ou um sinal semelhante ao seu?”; “Você já teve outro sinal? Se sim, quando mudou e por quê?”; “Você possui apelido em libras?”; e “As pessoas costumam realizar seu sinal de forma diferente?”. Os resultados mostram que a maior parte dos sinais analisados foi atribuída por pessoas surdas. Observou-se também que os participantes ouvintes relataram com mais frequência mudanças em seus sinais, principalmente quando formados por letras manuais. Em relação aos sinais semelhantes, a maioria afirmou conhecer pessoas com sinais parecidos aos seus, enquanto poucos relataram sinais idênticos. Os sinais alternativos ou apelidos apareceram com maior frequência entre os participantes surdos. Por fim, os homens surdos tenderam a apresentar primeiro o sinal e depois soletrar o nome em português, enquanto entre as mulheres surdas e os participantes ouvintes predominou a ordem inversa.
Palavras-chave: Libras; Sinais Antroponímicos; Padrões Socioculturais
KATI ELIANA CAETANO
[Semiótica]
Imigração em projetos fotográficos: negociações de presença em articulações verbais e visuais
Nosso objeto de estudo compreende três projetos fotográficos sobre imigrantes, examinados a partir de suas articulações verbovisuais consideradas como escolhas políticas de mostração do olhar próprio sobre o outro. Como projetos que se dão a ver, seja por circulação impressa ou digital, implicam práticas de editoria justificadas, encarnadas em vozes, modos de olhar, de figurativizar e de enunciar, condicionadas às injunções e relações entre verbal e visual em distintas negociações de presença e dominância. Os projetos, de três momentos distintos – 2001, 2017 e 2023 – apresentam formas de existirem ao lado, juntos ou a partir de textos verbais. O primeiro, de Jodie Bieber, ‘Going home: Ilegallity and repatriation’, apresentado em plataformas digitais, traz imagens de imigrantes moçambicanos na África do Sul, desde suas detenções até o retorno à Moçambique. O segundo compreende o trabalho ‘Rékomanse’, de Brunno Covello, em sua convivência com imigrantes haitianos em Curitiba, imergindo tanto no contexto local quanto no cenário de origem no Haiti. Já o terceiro, intitulado ‘Exhibit-AI’, evoca a imagem, a partir do verbal com o intuito de agregar ao valor informativo o efeito de fazer sentir. As imagens são geradas, por meio de tecnologias de IA, a partir de depoimentos de imigrantes das ilhas de detenção na Austrália. Como ponto de partida, retomamos duas questões propostas por Jacques Rancière para examinar o que ele designa como frase-imagem, na obra A linguagem e os danos, e que em termos semióticos seria a relação entre discursos verbais e visuais: o que acontece quando “a linguagem invoca imagens, desdobrando sua capacidade mágica de convocar o invisível” e “quando a linguagem se cala, porque a imagem saturou o sentido, nos deixando atônitos”? Tais indagações nos colocam diretamente face aos projetos da África e da Austrália, que delineiam um eixo no qual o projeto brasileiro assume uma posição mediana nas relações discursivas. Este último leva-nos à noção de dissenso, também de Rancière, para quem a subjetivação política interrompe o jogo das identidades pré-fixadas em função de uma nova partilha do sensível. Entre palavras contidas e imagens saturadas, ou partindo de eloquentes testemunhos verbais que precisam ser traduzidos em imagens de pretensa suficiência sensível, os projetos permitem inferir os gestos políticos subjacentes a cada escolha estética. Vinculado a esse debate, o fato de mobilizar fotografias de base química ou acionar a inteligência artificial na produção de imagens demonstram relevância nas posturas adotadas pelos sujeitos do ato criativo.
Palavras-chave: textos verbovisuais; imigração
KELLY PRAXEDES PEREIRA DA CRUZ
[Semiótica]
Análise semiótica de estereótipos de pessoas negras na telenovela
Senhora do Destino Deve-se entender que, ao longo da história, foi-se associado à figura da pessoa negra características negativas, moldadas com o passar do tempo e reforçadas como estereótipos, sem levar em consideração o contexto em que esses indivíduos foram colocados e quem os impôs nessa condição. Essa padronização da condição social de uma pessoa negra, trataremos como estereótipo. O intuito desta pesquisa é analisar como são construídos esses estereótipos ruins associados a pessoas negras e como a mídia utiliza de seus materiais para evidenciar características ruins nessas personagens, para que elas sejam reconhecidas por esses papeis sociais que as foram condicionadas. É de grande importância expor essas práticas discriminatórias que, por muitas vezes, aparecem de forma “escondida” e quase imperceptível, para que assim possamos reconhecê-las e combatê-las. Utilizando os conceitos de tematização e figurativização, vamos examinar os discursos tanto das personagens negras, como também dos demais personagens ao se referirem a elas, entendendo as sutis marcas nessas falas que são utilizadas para desenvolvê-los (de forma ruim) dentro da trama, para apreender esse aspecto mais sub/objetivo presente no enunciado. A semiótica nos auxilia a encontrar essa imagem estereotipada, analisando não somente o campo discursivo, como também o visual da telenovela, observando a forma como o enunciador caracteriza os personagens, onde nos reforçam as questões raciais, ideológicas e sociais ali presentes. É necessário compreender o objetivo midiático, que é atingir ao máximo seus telespectadores. Portanto, nota-se a necessidade de colocar pessoas negras nesses papeis, com o objetivo de que seja aceito com mais facilidade pela sociedade, que assistirá a essa mídia e logo compreenderá os papeis passados pelo enunciador. Com isso, a sociedade consome o discurso (que, no caso do corpus analisado, se passa na emissora considerada como a maior do Brasil) e reproduz essas práticas discriminatórias como verdade única. Onde não somente pessoas brancas passam a reproduzi-las, como também as pessoas negras que, ao consumir esse conteúdo, acreditam nesses papeis trazidos como verdadeiros: “Ao mesmo tempo em que os papéis normalizam e estabilizam as relações entre as pessoas, também podem bloquear a espontaneidade e a liberdade de ação.” (BAGGIO, 2016). Assim, passam a colocar em sua consciência que esses são os únicos espaços em que elas podem pertencer, entendendo também essa verdade como única. Concluindo então, que não somente a mídia é um reflexo da sociedade, como também a sociedade é um reflexo da mídia.
Palavras-chave: racismo; estereótipo; semiótica
LARISSA PICINATO MAZUCHELLI
[Neurolinguística]
Desempenhar o bom envelhecer: práticas medicalizadoras e o contradiscurso da
Neurolinguística Enunciativo-Discursiva Esta apresentação integra uma pesquisa mais ampla, vinculada aos estudos da Neurolinguística Enunciativo-Discursiva (Coudry, 2001[1986]; Novaes-Pinto, 1999, 2025), sobre construções discursivas relacionadas a processos de transformação da linguagem e da cognição no desenvolvimento humano. Aqui, objetiva-se discutir como a racionalidade biomédica (Averkina, 2019; Pesotskaya et al., 2021), no âmbito da cultura do desempenho e aperfeiçoamento humano (Ball, 2013; Elliot, 2001), atualiza práticas de medicalização do envelhecimento por meio da educação. Para isso, analisa-se o fenômeno recente de incentivo ao acesso à graduação presente em nove instituições de ensino superior brasileiras. O corpus analisado é composto por notícias veiculadas nos sites dessas instituições, documentos oficiais, cartilhas e materiais informativos sobre tais programas. Conforme discutido em comunicação anterior (Mazuchelli, 2026), enquanto o ingresso no ensino superior para grupos geracionais mais jovens envolve argumentos de maior empregabilidade, salários mais elevados e melhores projeções de futuro econômico, os programas voltados à população idosa enfatizam, por um lado, a realização de sonhos e, por outro, os supostos benefícios relativos à saúde derivados da socialização e da atividade cognitiva promovidas pelo ensino superior. Para esta apresentação, argumento que a atenuação dos problemas históricos de acesso à universidade (barreiras financeiras, desafios de permanência, desigualdades regionais, desigualdades na educação básica, necessidade laboral etc.) por parte do que hoje é a população idosa brasileira, observada nas proposições de realização de sonhos, contribui para que o acesso ao ensino superior se descaracterize como movimento de reparação histórica. Associado a isso, a ênfase aos benefícios à saúde atualizam discursos de prevenção a doenças vinculadas ao envelhecimento - nesse caso, especialmente, retoma discursos de combate aos baixos níveis de escolaridade associados aos processos demenciais. Em diálogo, tais posicionamentos axiológicos transformam o acesso à educação em braço político de organização e qualificação da longevidade e de gerações mais jovens para aquilo que será compreendido socialmente como um bom envelhecimento (livre de doenças, autogerido, em constante aperfeiçoamento), aos moldes da cultura do desempenho (Ball, 2013; Elliot, 2001). Espera-se, com esta discussão, contribuir para a construção de contradiscursos aos processos medicalizadores que produzem sofrimento ético-político (Sawaia, 1990), aqui entendido como aquele que emerge da dialética entre necessidades humanas de reconhecimento e autonomia e as condições concretas de opressão, exclusão e normatização.
Palavras-chave: envelhecimento; ensino superior; medicalização
LAURA BRAGHINI ZAMPIERI
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Um olhar pragmático-relacional para relações interculturais em contexto de intercâmbio virtual
Tendo em vista a crescente demanda por estratégias de Internacionalização em Casa (IeC), os intercâmbios virtuais (IV) têm ganhado cada vez mais relevância no que concerne à ampliação do acesso a experiências internacionais e interculturais sem mobilidade física no ensino superior, bem como ao desenvolvimento de competências globais por parte dos participantes envolvidos. Nesse sentido, torna-se essencial refletir sobre questões linguísticas emergentes desse ambiente interacional mediado por tecnologias digitais, o qual reúne falantes de diferentes línguas e culturas. A partir de uma abordagem pragmática, o presente trabalho busca investigar a trajetória das interações interculturais on-line no contexto de um intercâmbio virtual, com foco para a construção e o gerenciamento do rapport. Esse conceito tem sido amplamente utilizado em diferentes áreas do conhecimento como forma de descrever a relação harmônica estabelecida entre pessoas de um mesmo contexto interacional. À luz de concepções linguísticas contemporâneas, as quais acompanham as transformações nas concepções sobre o uso e significado da linguagem, o termo é compreendido como um fenômeno pragmático-relacional, isto é, emergente e (co)construído nas interações sociais (Spencer-Oatey, 2008; Thomas, 1995; Watts, 2003). Nessa perspectiva, a investigação do rapport implica na análise de múltiplos domínios, tais como o ilocucionário, o discursivo, o participativo, o estilístico e o não verbal. Para tanto, foram analisadas interações entre estudantes universitárias participantes de uma colaboração feita entre uma Instituição de Ensino Superior localizada no interior do estado de São Paulo e outra situada na costa oeste do México, as quais integravam um programa de IeC intitulado BRaVE (Brazilian Virtual Exchange) (Salomão, 2020). O corpus foi gerado por meio de questionários (inicial e final), textos introdutórios e, principalmente, gravações de áudio e vídeo. Os resultados indicam que a construção e o gerenciamento de relações interpessoais colaborativas estão diretamente associados ao estabelecimento de um rapport positivo, contribuindo para a formação de comunidades de aprendizagem voltadas à empatia e à equidade.
Palavras-chave: Intercâmbio virtual; Pragmática; Rapport
LAURA RAMPAZZO
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
A dinâmica jornada emocional dos participantes no teletandem: uma investigação a partir do viés da complexidade
Esta comunicação parte do entendimento do conceito de autonomia como um construto multidimensional e complexo (Paiva, 2006; Stringer, 2025; Tassinari, 2012). A partir dessa concepção, discute-se sua dimensão emocional na trajetória de participantes de um teletandem institucional integrado (TTDii) (Aranha; Cavalari, 2014). Especificamente, propõe-se apresentar e discutir resultados de um estudo que mapeou a jornada emocional de participantes no teletandem conforme os aprendizes refletiam sobre a experiência de aprendizagem em seus diários escritos semanalmente. A investigação adotou uma abordagem de métodos mistos para analisar 59 diários de 10 aprendizes que participaram do TTDii em 2025. O foco da análise esteve na interação entre as emoções de realização (Pekrun, 2006, 2023; Shao et al., 2023) por eles expressas e os componentes do modelo complexo de autonomização (Borges, 2019, 2022, 2024). Em uma primeira etapa, adotando os procedimentos sugeridos por Ferro, Cavalari e Cappellini (2026), foram identificadas e etiquetadas as expressões de emoção, controle e valor nos diários dos aprendizes. Essa fase incluiu a classificação das emoções em quatro categorias, quais sejam positivas ativadoras, positivas desativadoras, negativas ativadoras e negativas desativadoras. Esse procedimento foi seguido pela etiquetação dos componentes de autonomização (Borges, 2019) em segmentos previamente codificados para emoção, controle e valor. Além disso, identificou-se a frequência de correlação entre as etiquetas e sua variação estatística, cujos resultados corroboram o entendimento do desenvolvimento da autonomia como um fenômeno orientado socialmente e, simultaneamente, individual, como evidenciado pela variação na distribuição das etiquetas. Nesta comunicação, enfatizam-se os resultados da descrição qualitativa das trajetórias emocionais a fim de responder a quais são as jornadas emocionais dos participantes nesta experiência telecolaborativa. Por meio de figuras que ilustram a trajetória emocional ora ascendente, ora descendente e ora estável dos participantes, enfatizam-se os padrões emocionais predominantes, isto é, de que maneira as emoções em suas quatro classificações se relacionam a outros elementos em seu processo de aprendizagem no teletandem.
Palavras-chave: telecolaboração; autonomização; sistemas complexos
LAURA VIANA DOS SANTOS
[Gramática Funcional]
Posição do objeto no espanhol peninsular falado: uma análise discursivo-funcional
Este trabalho tem por objetivo analisar a posição do objeto direto e indireto, lexical e pronominal, em orações simples declarativas de dois e de três lugares no espanhol peninsular falado sob a perspectiva da Gramática Discursivo-Funcional de Hengeveld e Mackenzie (2008) e Hengeveld e Keizer (2025). Para isso, analisamos, no Nível Interpessoal: Moldes de Conteúdo, tipo de Subato (Atributivo ou Referencial), no caso dos Subatos Referenciais, analisamos também sua identificabilidade (+id,-id) e especificidade (+s,-s), e as funções pragmáticas exercidas por eles (Tópico, Foco, Contraste); no Nível Representacional, investigamos os moldes de predicação (dois ou três lugares), a função semântica do argumento (Ativo, Inativo, Locativo) e a animacidade (força humana, força animada, força inanimada); no Nível Morfossintático, por fim, além das posições (PI, P2, PM, PF), analisamos sua forma (lexical ou pronominal). A análise revela que a forma de expressão do objeto (lexical ou pronominal) apresenta relações com sua posição: nos casos lexicais, quando engendra algum tipo de função pragmática, pode ocupar PI ou PF, se expressar Tópico ou Foco, respectivamente. Quando não apresenta nenhum realce pragmático, ocorre à direita do Predicado, em PM+n, e segue, portanto, os princípios de iconicidade e de proximidade do núcleo. Já no caso pronominal, dentro de nosso recorte de análise, a única possibilidade é à esquerda do Predicado, mais exatamente em PM-n. De modo geral, este trabalho mostra que, na maior parte das vezes, a força determinante para o posicionamento do objeto em espanhol é de natureza interpessoal, uma vez que a pragmática se sobrepõe às funções semânticas e morfossintáticas na atribuição de posições aos constituintes configuracionais. Esse condicionamento pragmático não se aplica somente nos casos dos pronomes átonos, que sempre têm sua posição determinada com relação ao Predicado. Além disso, a possibilidade de expansão da PI, bem como seu preenchimento não obrigatório demonstram que o espanhol é uma língua de três posições absolutas: PI, PM e PF, não sendo ativada a P2. (Apoio: CAPES – código de financiamento 001)
Palavras-chave: objeto; espanhol; Gramática Discursivo-Funcional
LAVINIA RODRIGUES DE JESUS
[Linguística e interfaces]
Acabar de, acabar por, acabar com: uma análise funcional das construções com acabar no português moçambicano
Moçambique, país localizado na costa sudeste da África, apresenta um cenário de multilinguismo e diversidade linguística decorrente da convivência e do contato entre diferentes línguas bantu e o português, o que favorece processos de variação e mudança linguística (Ngunga, 2012; Timbane, 2013). Diante desse cenário, este estudo busca descrever aspectos morfossintáticos, semânticos e pragmáticos do verbo acabar no português moçambicano (PM), a partir da análise de um fenômeno de mudança linguística, a gramaticalização, tomando como base pressupostos teóricos do Funcionalismo Norte-Americano (Hopper, 1991; Hopper; Traugot, 1991; Bybee, 2003), e de pesquisas sobre o verbo acabar (Travaglia, 2004; Hintze, 2013; Silva-Surer, 2014). Parte-se da noção de gramaticalização como um processo gradual pelo qual itens ou construções lexicais passam a desempenhar funções gramaticais impulsionados por fatores semânticos, sintáticos e pragmático-discursivos (Hopper; Traugott, 2003). Assim, quando uma palavra originalmente plena, como um verbo com significado lexical, começa a ser empregada em contextos específicos e recorrentes, pode passar a assumir funções mais gramaticais, como verbo auxiliar, operador argumentativo e outros. Esse deslocamento não ocorre de forma abrupta, mas em um continuum, que resulta de usos reiterados em contextos específicos, nos quais determinada forma vai perdendo parte de seu conteúdo semântico pleno e adquirindo maior dependência sintática e funcionalidade estrutural. A motivação para esses usos reside justamente nas necessidades comunicativas dos falantes, que, ao buscar maior eficiência, expressividade ou economia linguística, reanalisam e expandem os recursos já disponíveis no sistema. Quanto à metodologia, esta pesquisa tem um caráter qualitativo e busca analisar dados contemporâneos do PM, extraídos do Corpus do português (Davies; Ferreira, 2006). Os dados indicam que, no PM, acabar apresenta um alargamento funcional significativo, sendo tradicionalmente empregado como verbo pleno, além de atuar como verbo de ligação, verbo auxiliar marcador de tempo e aspecto, verbo auxiliar indicador de resultatividade e operador argumentativo. A análise de acabar no PM permite compreender como fatores socioculturais, discursivos e pragmáticos contribuem para a configuração dessa variedade, oferecendo subsídios para a descrição linguística e para a reflexão sobre a valorização das variedades do português em contextos africanos.
Palavras-chave: gramaticalização; verbo acabar; português moçambicano
LAÍS BRUSAMARELLO
[Psicolinguística]
Coerção Aspectual e Percepção do tempo no processamento linguístico
A ideia desta proposta é revisar tanto o trabalho de Sampaio (2015), como a monografia da autora defendida em 2025. Minha pergunta inicial é: a coerção aspectual é, de fato, aspectual? Na literatura, a coerção aspectual é descrita como um mecanismo de reinterpretação disparado por uma incompatibilidade formal entre o aspecto lexical do verbo pontual (ex. espirrar) e o aspecto de um modificador durativo (ex. por alguns minutos) que dispararia, via coerção, uma interpretação de repetição (ex. vários espirros ao longo de alguns minutos). No entanto, Sampaio (2015) aplicou experimentos de leitura automonitorada no Brasil e na França e identificou um efeito em sentenças com verbos durativos (ex. cantar) em diferentes contextos durativos mais ou menos compatíveis com a duração média do evento (ex. por alguns segundos / minutos / horas). O efeito foi descrito como um "susto semântico" e é bastante semelhante ao encontrado em experimentos sobre coerção aspectual (ex. espirrar por alguns minutos), o que o levou a discutir a natureza do fenômeno. A alternativa do autor foi a de se utilizar do Internal Clock Model, um modelo psicofísico de processamento de informação, como explicação para o fenômeno. Essa solução, além de ter poder explicativo sobre o “susto semântico” em seus estímulos [durativo+durativo], também teria poder explicativo sobre os resultados sobre coerção aspectual [pontual+durativo]. Nossa mente mantém uma média da duração dos eventos que experienciamos na vida. Assim, sempre que experienciamos ou somos expostos a sentenças que desafiam essa média, isso causaria um “susto semântico” por experienciar um evento com características novas. Assim, o autor passa a fazer uma integração entre modelos de percepção do tempo na psicologia com os de aquisição e processamento de linguagem na psicolinguística. Minha monografia, teve o objetivo de reproduzir os experimentos de Sampaio com pequenas adequações, além de aplicar os experimentos tanto em contexto de laboratório quanto em contexto remoto. A metodologia consistiu em quatro experimentos de leitura automonitorada (n=205), que manipularam a duração dos eventos e variáveis de controle metodológico (modalidade remota vs. presencial; tarefa de interpretação ou de memória). Os experimentos falharam em reproduzir o efeito reportado em Sampaio (2015). De todo modo, a ausência dos efeitos em sentenças [durativo + durativo] pode reabrir a discussão, visto que os efeitos da coerção aspectual – exceto pelo modelo de coerção aspectual via pragmática de Johannes Dölling (2014) –, só poderia ser encontrados em sentenças [pontual+durativo].
Palavras-chave: Coerção Aspectual; Psicolinguística Experimental;
LEANDRO LIMA RIBEIRO
[Semiótica]
Arte e estilo: por uma tipologia da arte contemporânea do carnaval do
Rio de Janeiro O desfile de escola de samba, objeto desta comunicação, tem sido amplamente abordado por perspectivas antropológicas, históricas e sociológicas, desde os estudos pioneiros de Roberto DaMatta ainda no século passado até as reflexões de Muniz Sodré e Carlos Sandroni sobre a significação do samba. Predomina, nesses campos, a compreensão do desfile de carnaval como prática sociocultural, enquanto sua dimensão plástica e estilística tende a ser tratada de forma secundária ou dissociada. Diante disso, proponho-me aqui uma abordagem semiótica que seja capaz de dar conta das estruturas de significação de modo mais amplo à luz do quadro teórico-metodológico da semiótica greimasiana de linha francesa. Meu intuito é, mais precisamente, examinar as propriedades plásticas de alegorias carnavalizadas de quatro importantes artistas do carnaval do Rio de Janeiro na contemporaneidade. São eles: Leandro Vieira; Paulo Barros; Leonardo Bora e Gabriel Haddad; e Tarcísio Zanon. Resultados preliminares apontam que as alegorias produzem uma enunciação poética que incide no seu modo de enunciar de acordo com as funções de deslocamento (objetivo funcional), de projeção (materialização cênica); de interação com o público (experiência perceptiva do destinatário/observador em relação ao objeto); e de carnavalização da linguagem (através de técnicas de inversão, ridicularização, estilização, ambivalência, pluriestilismo, pluritonalidade etc.) A partir disso, estabeleceu-se quatro regimes de construção estética: a fragmentação em Leandro Vieira, pela recusa da monumentalidade totalizante, abrindo espaços vazados e recortes carnavalizados; a cinetização em Paulo Barros, representado pelo show dentro do show, com impacto visual imediato e de fácil leitura pelo público; a bricolagem em Bora e Haddad, que articula linguagens heterogêneas em tensão produtiva; e a compactação em Zanon, marcada pela predominância da simetria e da harmonia formal, muitas vezes evocando uma estética neobarroca ou rococó. Cada um desses regimes cria uma identidade de fácil reconhecimento do artista e da escola de samba em que se realiza.
Palavras-chave: Desfile de escola de samba; Samba; Significação
LEANDRO ROCHA RESENDE
[Semiótica]
A Redenção do Jeca: o homem rural e a sua emergência na cena semiótica com os marcadores sociais da diferença
Este estudo investiga a construção discursiva do Jeca Tatu como estereótipo e representação social do homem rural brasileiro na transição entre o atraso e a modernização durante a Primeira República. O Jeca Tatu, originalmente concebido como uma personagem literária que simboliza o trabalhador rural subalternizado, é analisado aqui como metáfora das tensões sociais e históricas que permeiam a relação entre homem rural, trabalho braçal e processos de construção da identidade nacional. Ao longo do século XX, essa figura cristalizou um imaginário social que naturaliza a precariedade e marginalidade do meio rural, deslocando para o indivíduo a responsabilidade por desigualdades estruturais. A pesquisa problematiza o papel dos discursos sanitaristas e das políticas públicas de saneamento como dispositivos políticos que associam saúde, produtividade e progresso, sustentando um projeto civilizatório centrado na racionalização da força de trabalho rural. Nesse contexto, o Jeca-tatu é ressignificado: de símbolo da passividade e improdutividade, transforma-se em figura de regeneração social, revelando a instrumentalização da identidade rural para legitimar as demandas do capitalismo agrário e do desenvolvimento econômico. Por meio de uma abordagem semiótica implicada, aliado a perspectivas antropológicas e praxiológicas, o trabalho evidencia como o ethos do trabalho subalternizado é construído e mantido, articulando saberes científicos, literários e ideológicos. Este ethos não apenas caracteriza uma personagem, mas projeta uma identidade coletiva negativa sobre o universo rural, perpetuando uma visão simplificada e moralizadora do trabalhador do campo. Finalmente, o estudo aponta os limites dessa reconfiguração discursiva, evidenciando que, apesar das tentativas de incorporar uma perspectiva classista, a força histórica do estereótipo original permanece predominante na memória social brasileira. A análise do Jeca Tatu, portanto, revela as complexas formas pelas quais o discurso do progresso configura a cultura, o poder e a desigualdade no Brasil rural, oferecendo subsídios para compreender as dinâmicas históricas que ainda incidem sobre as identidades sociais do campo.
Palavras-chave: Jeca-tatu; semiótica; cultura
LETICIA LORENA GONÇALVES
[Aquisição de Linguagem]
A representação do humor na escrita: um estudo qualitativo em contexto escolar
O trabalho propõe uma investigação entre a relação humor e oralidade na linguagem infantil, com foco em crianças entre 10 e 11 anos de idade que estejam em fase de leitura e escrita fluente. A pesquisa pretende compreender de que maneira recursos humorísticos utilizados na fala são reinterpretados na escrita, com foco na ruptura como um dos elementos fundamentais para esta produção. O estudo parte da compreensão de que o humor é um fenômeno social e linguístico que estimula o pensamento crítico, a criatividade e o engajamento nas práticas de leitura e escrita. Sendo assim, entre os principais aspectos que serão trabalhados, destacam-se os mecanismos de humor presentes na oralidade e na escrita, como ironia, exagero, ambiguidade, hipérbole, incongruência, trocadilhos e paródias. O projeto parte da compreensão de que o humor está hodiernamente presente no ensino de Língua Portuguesa, e irá considerar os gêneros textuais como tirinhas, memes, piadas e histórias em quadrinhos, além de sua relação com as competências previstas pela BNCC. Os objetivos da pesquisa concentram-se, portanto, em identificar quais mecanismos humorísticos permanecem ou se transformam na passagem da fala para a escrita, visto que as crianças utilizam estratégias discursivas para produzir efeitos cômicos e construir textos mais criativos. A metodologia adotada será qualitativa, baseada na análise de interações orais espontâneas e produções escritas de crianças dessa faixa etária. As falas serão gravadas, transcritas e analisadas, enquanto os textos escritos serão examinados para identificar elementos humorísticos. O estudo realizará um mapeamento detalhado de recursos linguísticos e discursivos presentes tanto na fala quanto na escrita, observando como esses elementos são adaptados no processo de retextualização. A presente pesquisa pretende ampliar os estudos sobre linguagem infantil e humor, evidenciando como este pode atuar como estratégia discursiva no desenvolvimento da oralidade e do letramento, com foco na produção escrita. Espera-se também oferecer contribuições pedagógicas para o ensino de Língua Portuguesa, propondo práticas que integrem humor, leitura e escrita de maneira significativa e motivadora no contexto escolar.
Palavras-chave: Humor; Escrita; Criança
LILIANE PEREIRA DA SILVA COSTA
[Filosofia da Linguagem]
Leitura de fruição e verbivocovisualidade: reflexões bakhtinianas nos multiletramentos escolares
Este estudo exploratório propõe uma reflexão crítico-analítica sobre a leitura de fruição nos anos finais do Ensino Fundamental, articulando gêneros textuais, multiletramentos e a filosofia da linguagem bakhtiniana. O objetivo é compreender como a experiência estética e responsiva dos estudantes pode ser potencializada quando se considera a complexidade dos textos contemporâneos, que se estruturam em múltiplas linguagens e demandam uma abordagem ampliada de leitura. A noção de verbivocovisualidade, desenvolvida a partir dos pressupostos do Círculo de Bakhtin, constitui o eixo central desta investigação. Essa categoria permite compreender os enunciados como arquiteturas híbridas em que palavra, voz e imagem se entrelaçam de forma indissociável, instaurando sentidos que não podem ser reduzidos a uma única dimensão semiótica. A leitura de fruição, nesse contexto, ultrapassa a mera decodificação verbal e se transforma em experiência dialógica, na qual o leitor é convidado a interagir com os diferentes planos expressivos que compõem o texto. A filosofia da linguagem bakhtiniana amplia essa discussão ao enfatizar que todo ato de leitura é também um ato de posicionamento ético e discursivo. O sujeito leitor não apenas apreende signos, mas responde a eles, produzindo réplicas que se inscrevem em uma cadeia comunicativa mais ampla. Assim, a fruição literária e multimodal não se limita ao prazer estético, mas envolve também a consciência crítica diante das vozes sociais que atravessam os textos. No cenário da cultura digital e da diversidade de gêneros textuais — como narrativas ilustradas, quadrinhos, videoclipes, memes e produções digitais — torna-se imprescindível reconhecer que os estudantes já estão imersos em práticas de leitura multimodais. Refletir sobre essas práticas a partir da verbivocovisualidade significa valorizar a literatura infantojuvenil contemporânea e os gêneros híbridos como espaços de formação integral. Expandir o conceito de letramento em direção à arquitetônica verbivocovisual bakhtiniana é fundamental para que a escola promova práticas que desenvolvam habilidades de leitura para formar leitores críticos, autônomos e sensíveis, capazes de atuar de forma ética e consciente na sociedade contemporânea.
Palavras-chave: Verbivocovisualidade; Filosofia da linguagem;
LINA CLARISSA ROCHA TRINIDAD
[Linguística Aplicada]
O ENSINO DE PORTUGUÊS LÍNGUA ESTRANGEIRA (PLE) NO BRASIL: O ESPANHOL
COMO PONTE PARA A APRENDIZAGEM Esta apresentação tem como objetivo brindar reflexões a partir da experiência pessoal de ensino de Português Língua Estrangeira (PLE) que fora dado a partir de aulas on-line síncronas e semanais ofertadas no Centro de Línguas e Desenvolvimento de Professores (CLDP) da UNESP "Júlio de Mesquita Filho" Ciências e Letras Modernas, Campus de Araraquara (FCLAr) nos anos de 2024 e 2025. Esta comunicação abordará como o uso da língua espanhola tem sido de maior facilidade, acesso e compreensão por parte dos alunos quando utilizada pela professora em sala de aula como ponte de aprendizagem ao aprender o português. Ainda que as aulas ocorram majoritariamente em língua portuguesa, é indubitável a importância da utilização de uma língua de apoio que auxilie os alunos, que são em sua maioria, neste contexto de PLE, hispano-falantes, a ter uma maior inteligibilidade durante o processo de aprendizagem de uma língua estrangeira. É nesta conjuntura que foram apresentados certos livros didáticos, da especificidade de espanhol para lusofalantes, portanto um livro de ELE (Espanhol Língua Estrangeira), durante sala de aula e que, assim, fora abordado sob outra ótica: para alunos de Português Língua Estrangeira, a partir de seu conhecimento nativo da língua espanhola. Tal abordagem deu-se principalmente pela versatilidade do livro didático: Gramática y Práctica de Español para Brasileiros (2014), que faz constantes comparações entre o espanhol latinoamericano e o português brasileiro, e, assim sendo, abre possibilidades para múltiplos usos didáticos. Neste caso, são trazidas à luz três perspectivas reflexivas: o emprego da língua espanhola no ensino de Português Língua Estrangeira (PLE); a aplicabilidade do material didático Gramática y Práctica de Español para Brasileiros, do linguista argentino Adrián Fanjul; e, por fim, a relevância da participação e intervenção didática no curso on-line de Português Língua Estrangeira (PLE) durante a graduação e, atualmente, como docente de português e espanhol como língua estrangeira.
Palavras-chave: Português Língua Estrangeira; Ensino-aprendizagem;
LINA CLARISSA ROCHA TRINIDAD
[Aquisição de Linguagem]
Aquisição de línguas próximas em sujeito bilíngue: enfocando a emoção
O bilinguismo no processo de aquisição de linguagem é um tema que tem despertado maior interesse da área nos últimos anos, considerando-se o avanço dos estudos e os diversos contextos de bilinguismo. Neste sentido, esta apresentação nasce da inquietação sobre o papel da emoção no processo de aquisição de um sujeito bilíngue de Português Brasileiro (PB) e Espanhol Argentino, na constituição da sua subjetividade. Ao investigar sobre as emoções do sujeito bilíngue em seu processo de aquisição, como estas emoções estão presentes no processo de aquisição e questões sobre subjetividade (Del Ré et al., 2012), constatamos a existência de estudos sobre o espanhol e o euskera, o holandês, e outros (na Espanha), e poucas investigações sobre o sujeito bilíngue e sua interface com línguas próximas. Assim, aqui focalizaremos o português brasileiro e espanhol argentino dentro da perspectiva dialógico-discursiva (Bakhtin, 2016; Bruner, 1983; Del Ré et al., 2021; Volóchinov, 2018; Vygotsky, 2005) e multimodal (Cavalcante, 2018). O objetivo desta apresentação é analisar/demonstrar brevemente a manifestação da(s) emoção(ões) no discurso de um sujeito bilíngue no processo de aquisição de português e de espanhol, a partir das relações de interação que permeiam tal aquisição e que constituem a subjetividade desse sujeito. Metodologicamente, os dados fazem parte do banco de dados do grupo NALingua (Hilário et al, 2024) e foram coletados por meio de situações “não-naturalísticas”. Os dados coletados serão transcritos pelo programa CLAN e ELAN. Desse modo, esta pesquisa dá continuidade aos estudos desenvolvidos pelo grupo GEALin-UNESP (Bueno, 2017; Moreira, 2024; etc) na área de aquisição da linguagem. Antecipadamente, os resultados desta pesquisa podem trazer à luz uma compreensão mais ampla e articulada à emoção sobre o processo de aquisição de sujeitos bilíngues, em especial, na manifestação das emoções discursivizadas e como estas podem influenciar ou não o processo de aquisição de linguagem(ns) de uma criança bilíngue. Espera-se que esta pesquisa de Mestrado traga relevantes reflexões sobre a constituição da subjetividade na linguagem do sujeito bilíngue focalizando suas emoções, ou como se dá a escolha linguística usada por este sujeito, e, portanto, contribuindo e enriquecendo futuras discussões que versem sobre esta temática.
Palavras-chave: Aquisição de Linguagem; Bilinguismo; Espanhol
LISÂNGELA APARECIDA GUIRALDELLI
[Fonética e Fonologia]
Configuração prosódica da subordinação predicativa nas variedades geográficas e sociais do português: regularidades fonéticas e fonológicas
Este estudo, vinculado às pesquisas de Tojeira-Ramos e Guiraldelli (2024, 2025), examina a codificação prosódica da subordinação predicativa nas variedades do português (africanas, asiáticas, brasileiras e europeias), sob a perspectiva discursivo-funcional (Hengeveld; Mackenzie, 2008; Keizer, 2015), que concebe a gramática como parte de um modelo de interação verbal orientado pela intenção comunicativa. Diante da limitada atenção conferida ao fenômeno na literatura (Rodrigues, 2001; Gonçalves, 2001; Ignácio, 2002), objetiva-se descrever suas propriedades prosódicas e identificar os fatores pragmáticos, semânticos e morfossintáticos condicionantes (Souza; Guiraldelli, 2016). A investigação aborda a influência da ordenação dos constituintes, especificamente a posição da oração subordinada em relação à oração principal, bem como do princípio da Complexidade Crescente (Dik, 1997), sobre a organização prosódica. A base de dados provém do Projeto “Português Falado: Variedades Geográficas e Sociais” e é complementada por leituras experimentais destinadas a suprir lacunas referentes a determinados arranjos morfossintáticos. Os métodos integram três etapas: (1) inspeção auditiva, a partir da identificação de padrões linguísticos perceptíveis e da categorização de contornos entoacionais, conforme estudos funcionalistas anteriores (Halliday, 1970; Cagliari, 1981; Massini-Cagliari; Cagliari, 2001; Córdula, 2013); (2) análise acústica por meio do programa computacional Praat (Boersma; Weenink, 2023), com a mensuração da frequência fundamental (F0) em Hertz (Hz) e sua posterior conversão em escala logarítmica (Galvão Passetti, 2021; Tojeira-Ramos; Pezatti, 2022; Tojeira-Ramos, 2024, 2025), além da aferição da duração em milissegundos (ms); (3) e interpretação fonológica dos aspectos prosódicos observados. Os resultados revelam diferenças prosódicas em função da posição da oração subordinada (anteposta ou posposta à oração principal), com a emergência de duas configurações básicas: uma única Frase Entoacional e a segmentação em duas Frases Entoacionais. Tais padrões dispõem de regularidade transversal às variedades analisadas. No Nível Fonológico, a primeira configuração é associada a um operador descendente, enquanto a segunda apresenta a combinação de um operador ascendente na primeira unidade e de um operador descendente na segunda. No Componente de Saída Acústico, a realização em uma única unidade entoacional é caracterizada por um movimento final de diminuição da F0, sem pausas internas entre as orações, enquanto a segmentação exibe um aumento da F0 na fronteira da primeira oração, seguido de um decréscimo no término da segunda oração, com pausas breves entre as unidades entoacionais e pausas longas ao final do Enunciado. Os achados evidenciam um diálogo entre a caracterização prosódica e a estrutura informacional e contribuem para a descrição funcionalista da subordinação predicativa no português.
Palavras-chave: subordinação predicativa; prosódia; português falado
LIVIA OUSHIRO
[Sociolinguística e Dialetologia]
O efeito de utilização de imagens em experimentos matched-guise
Esta comunicação visa a discutir o efeito da apresentação de ilustrações de falantes em experimentos do tipo matched-guise (Lambert et al, 1960), a partir de um estudo que analisou de que modo a concordância nominal (CN, p.ex. “os carrinhos” vs. “os carrinho”) se entrelaça com Gênero e Raça na formação das impressões que participantes paulistas têm sobre falantes. A hipótese inicial era a de que falantes brancos e homens seriam percebidos menos desfavoravelmente do que falantes mulheres, pretos e pardos ao utilizar CNØ, já que ocupam posições desiguais em termos de privilégio social. Para tanto, utilizaram-se estímulos auditivos pareados em dois experimentos, um em que os participantes (N = 28) apenas escutaram os áudio e outro (N = 36) em que os áudios foram acompanhados de ilustrações, geradas no site Picrew e que representam os dois gêneros e as três raças; em ambos, a tarefa foi a atribuição de características aos falantes. Os resultados mostram que o uso de imagens parece ter funcionado como uma “contenção perceptiva”, pois efeitos observados no experimento com estímulos em áudio não se repetiram no experimento com estímulos em áudio e imagens. O efeito da CN mostrou-se tão pronunciado que atenuou o efeito racial, sendo a CNØ associada a percepções de baixo status, independentemente da raça representada. A CNp suscitou noções de homossexualidade em estímulos com vozes masculinas no experimento com estímulos exclusivamente auditivos, de modo semelhante a Mendes (2018), e CNØ suscitou relativamente mais noções de dinamicidade, sobretudo quando associada a falantes pretos. Além disso, homens foram percebidos mais favoravelmente do que mulheres em aspectos intelectuais quando empregando CNp, além de terem sido menos associados a comentários negativos em comparação às locutoras femininas tanto em CNp quanto em CNØ. Por fim, a maioria dos participantes afirmou não ter percebido diferença entre os estímulos ao serem apresentados ao par de áudios CNp e CNØ ao final do experimento. Nesse sentido, a apresentação discute os mecanismos pelos quais certas formas linguísticas vêm a se atrelar a certos significados sociais (Eckert, 2008; Oushiro, 2019), considerando a multimodalidade dos estímulos, o que se aproxima de situações reais de interação social.
Palavras-chave: concordância nominal; raça; gênero
LUANA CRISTINA FELISBERTO ZACARIAS
[Neurolinguística]
Entre o diagnóstico e a linguagem: um estudo de caso à luz da
Neurolinguística Discursiva A Neurolinguística Discursiva (ND), fundamentada no arcabouço teórico da neuropsicologia soviética (como Luria, Leontiev e Vigotski), problematiza a patologização de crianças cujas características de leitura e escrita são precocemente rotuladas como “dificuldades” durante a alfabetização. Do ponto de vista da ND, falta, nas formações de professores e profissionais da área clínica, conhecimento básico de linguística, um dos fatores que geram tal patologização. Diante desse contexto, esta pesquisa tem como objetivo principal investigar como a abordagem da ND auxilia o processo de alfabetização, examinando o impacto de atividades discursivamente orientadas e contextualizadas na progressão escolar e linguística da criança. Para tanto, são considerados os seguintes objetivos específicos: produzir dados de escrita e fala de uma criança em período de alfabetização, que foi alvo de uma hipótese diagnóstica; analisar os dados obtidos e problematizar a patologização das particularidades relacionadas ao aprendizado de leitura e escrita dessa criança. O estudo configura-se como uma escrita de caso (COUDRY, 2018) de uma criança em acompanhamento longitudinal, no qual são analisadas atividades de leitura e escrita que fazem parte de seu processo de alfabetização escolar. Essa criança é M, aluno do 3º ano do ensino fundamental de uma escola pública, cuja hipótese diagnóstica de que ele teria dificuldades de aprendizagem de origem biológica foi levantada pela docente que lecionava em sua turma no ano anterior. As análises dos dados indicam que M não corresponde aos sintomas relacionados a tal diagnóstico, mas que apresenta processos intermediários (COUDRY, 1987) de aprendizado de leitura e de escrita. As conclusões apontam que a prática proposta pela ND favorece a progressão escolar, discursivamente orientada, de uma criança, indicando que ela não tem distúrbios de aprendizagem, mas sim apresenta características iniciais de sua escrita e fala, bem como que o caso M é representativo de um processo maior de patologização, que atinge muitas crianças em idade escolar.
Palavras-chave: alfabetização; patologização; neurolinguística
LUCAS FALVO MAYER
[Linguagem e novas tecnologias]
Inteligência Artificial Generativa, dialogismo e formação docente: reflexões a partir de grupos focais com professores de Linguagens e Comunicação
Este trabalho é fruto de meu doutorado em andamento, em que investigo os impactos da Inteligência Artificial Generativa (IAG) na formação docente e nas práticas pedagógicas na Educação Superior, com foco nos cursos de Comunicação e Linguagens. Partindo de uma abordagem qualitativa e dialógica, busco compreender quais caminhos professores universitários estão tomando na incorporação de sistemas de IAG em seu cotidiano profissional e quais desafios emergem desse processo em relação à autonomia docente, à formação de novos profissionais e à qualidade de vida no trabalho. Realizo este estudo por meio de grupos focais com oito docentes de uma universidade privada do interior paulista, cujas interações foram analisadas à luz de autores como Bakhtin (2011), Freire (2021), Tardif (2014), e Cope e Kalantzis (2022, 2024). Os dados revelam que a presença da IA nas práticas educativas é marcada por ambiguidades. Ao mesmo tempo em que os participantes reconhecem potencialidades relacionadas à produção de materiais e apoio ao planejamento pedagógico, também emergem preocupações ligadas à intensificação do trabalho docente, à padronização de práticas e à terceirização massiva de tarefas à IAG por parte dos estudantes. Nesse contexto, busco problematizar discursos tecnicistas que apresentam a IAG como solução inevitável para a educação, destacando que tais narrativas frequentemente ignoram as dimensões históricas, sociais e humanas do trabalho pedagógico. A perspectiva bakhtiniana contribui para compreender os grupos focais como espaços de produção coletiva de sentidos, nos quais as vozes docentes se constituem em relação umas às outras. Em diálogo com Bakhtin, entende-se que os discursos sobre IA não são neutros nem individuais, mas atravessados por disputas ideológicas, experiências profissionais e condições de trabalho. As falas dos participantes evidenciam processos de tensão entre inovação tecnológica e preservação da dimensão relacional da docência, reafirmando a educação como prática dialógica e não como mera operação técnica. Os resultados parciais apontam para a necessidade de uma formação docente crítica, contínua e contextualizada, que ultrapasse o domínio instrumental das ferramentas digitais e possibilite reflexões sobre linguagem, poder, algoritmos e produção de conhecimento. Defendo, assim, que pensar a formação de professores em tempos de IAG exige reconhecer a tecnologia como parte de disputas culturais e ontoepistemológicas mais amplas, reposicionando o professor como sujeito ativo na construção de práticas educativas.
Palavras-chave: Inteligência Artificial Generativa; Formação docente;
LUCIANE DE PAULA
[Filosofia da Linguagem]
A verbivocovisualidade de “Índios”, da Legião Urbana: embate bitonal/bivocal expressivo
Ao assumir a linguagem como processo interno cognoscível, como o afirma Volóchinov, no “Marxismo e Filosofia da Linguagem” que se explicita de modo sincrético ou não, sem deixar de expressar sua tridimensionalidade, este trabalho compreende como a verbivocovisualidade da linguagem pode se encontrar marcada pela figurativização linguística e pela entonação discursiva. A concepção de bitonalidade, que abarca a bivocalidade, trabalhada por Bakhtin (a primeira, especialmente, no livro em que Bakhtin escreve sobre Rabelais; e a segunda, em “O discurso no romance”), evidencia-se de modo privilegiado na oralidade. A bitonalidade, em música, é uma variação da politonalidade e esta germina a polifonia barroca (típica dos cantos), enquanto a bivocalidade ritmiza, de maneiras variadas, a arena discursiva, em que a luta de classes aparece de modo vivo. Este estudo parte de uma exemplificação delimitada, a canção “Índios”, da Legião Urbana, para demonstrar como contrários-contraditórios podem habitar o mesmo ser de linguagem, como o mítico Jano Bifronte. O estudo da modulação bitonal-bivocal objetiva compreender e demonstrar o funcionamento verbivocovisual da linguagem, com seus embates valorativos constitutivos. Em movimento metodológico dialético-dialógico, a análise da canção da Legião ilustra, de modo singular, em tom de ladainha ascendente, pela escala melódica típica de uma “escada Santos Dumont”, como a sobreposição valorativa é revelada pela ambiguidade, grafada entre aspas no título, atribuída aos outros-“Índios”, seja em processo histórico de colonização, seja pela mentalidade e pelo comportamento, já catequizado, flagrado pela repetição do canto estrófico do cantor-compositor, no cotidiano, em suas interações internas e externas, em embate, ora de orientação única, ora de orientação vária. Os resultados revelam o quanto a modulação bitonal/bivocal transforma a criticidade aguda em passividade (quase dócil) diante da selvageria da exploração humana em escala valorativa ascendente (do grave ao agudo) e constante. A instrumentalização, leve e como pano de fundo, desvela as violências pela sonoridade do teclado sintetizado. O anúncio do prelúdio barroco (de inspiração bachiana), (des)velado pela bitonalidade/bivocalidade polêmica, finalizada em cadência plagal, reflete e refrata uma mentalidade verbivocovisual “robótica”/”zumbi”, calcada em valores religiosos, políticos, econômicos e culturais do outro-explorador, incorporada pelo sujeito-eu da canção em sua denúncia reflexiva (a-passiva-da).
Palavras-chave: Estudos bakhtinianos; verbivocovisualidade;
LUIGI PARRINI
[Historiografia Linguística]
Sugestões para uma política da língua e Uma política do idioma: visões de Antonio Houaiss e Celso Cunha sobre políticas para a língua portuguesa
A partir da consideração da hipótese de que Sugestões para uma política da língua, de Antônio Houaiss (1960), e Uma política do idioma, de Celso Cunha (1975 [1964]), foram obras precursoras de uma reflexão voltada à construção de políticas linguísticas no Brasil (Castilho, 2022; Lagares, 2024; Sousa, Ponte, Sousa-Bernini, 2019), busca-se, neste trabalho, detectar continuidades e descontinuidades desses trabalhos com os estudos posteriormente estabelecidos no que se convencionou chamar Política Linguística nas ciências da linguagem nacionais, especialmente a partir dos anos 1980, com a publicação do livro Política Lingüística na América Latina (Orlandi (org.), 1988). Esta pesquisa se vincula à Historiografia Linguística (Swiggers, 2010) e procura constituir um aparato analítico consistente com propostas teóricas e metodológicas em circulação na área. Podem-se observar na obra supracitada de Houaiss (1915-1999) pontos de convergência com os trabalhos da fase inicial do planejamento linguístico (Cooper, 1989), por meio da noção do estabelecimento de uma língua comum de comunicação como fator de construção nacional; o “problema linguístico brasileiro”, calcado na ideologia monolíngue do português como idioma nacional, foi abordado pelo autor a partir da detecção da necessidade de aprofundamento de uma unificação linguística em todo o território. Já o livro de Cunha (1917-1989), espécie de manifesto de cerca de 30 páginas, priorizou críticas contundentes ao ensino de português à época e, em suas cinco páginas finais, apresentou uma proposta de política de idioma, na qual enxergou a possibilidade de congregação da língua portuguesa em uma “unidade superior” como “fator interno de unidade nacional do Brasil e de Portugal e [...] o elo mais forte da comunidade luso-brasileira” (1975 [1964], pp. 42-3). Apesar de evocar essa noção de “unidade superior”, o filólogo apresentou um teor menos homogeneizador e mais propositor da diversidade dos falares nacionais, em algum grau de antecipação às teorias críticas de Políticas Linguísticas (Oliveira, 2007) e ao estabelecimento institucional da Sociolinguística no país, enquanto Houaiss, mesmo que tenha proposto um aprofundamento dos estudos em dialetologia e etnografia, defendeu que o falar brasileiro é um “dos menos diferenciados do mundo do ponto de vista lingüístico” (1960, p. 40) e que a variedade fluminense seria a mais adequada para uma padronização na comunicação brasileira.
Palavras-chave: historiografia linguística; política de língua; política
LUIZ CARLOS CAGLIARI
[Fonética e Fonologia]
O projeto O Pulo do Sapo
O Projeto O Pulo do Sapo é um projeto de alfabetização que conta com a contribuição das ideias linguísticas da fonologia e da fonética para o ensino e a aprendizagem da decifração da escrita. É formado por três livros: O Pulo do Sapo, voltado para a decifração da escrita; O Pulo do Gato, que ensina conceitos básicos sobre o sistema de escrita; e O Canto do Galo, que é uma antologia que traz textos de diversos tipos de uso comum no processo de alfabetização, para ajudar a realização de atividades de ensino e de aprendizagem. As ideias linguísticas aparecem na metodologia, por exemplo, começando com a escrita de uma palavra (SAPO), introduzindo o alfabeto, a identificação das letras (SAPO), o significado do que está escrito, e a composição da palavra: SA-PO (sílabas) e letras (S+A+P+O). Em seguida, começam as discussões com pares mínimos: GATO, PATO, RATO, MATO: mudando uma letra, a palavra fica com significado diferente. Este projeto trabalha com as ideias de desafio, levando ao domínio de habilidades, numa sequência de conhecimentos que se acumulam. Esta metodologia desenvolve no aluno um modo de estudo. O livro O Pulo do Gato é voltado para o estudo dos sistemas de escrita, com especial destaque para o sistema alfabético. Nos dois livros, o uso da escrita maiúscula predomina e a escrita cursiva é a última a ser ensina. Leva o aluno a aprender a traçar as letras com gabarito e sem gabarito. Ensina o aluno a escrever copiando e escolhendo por conta própria o que ele quiser escrever. Nesse sentido, o projeto junta trabalhos para elaboração de livrinhos de textos produzidos pelos alunos, com sugestão de tema escolhido pela classe. O projeto trabalha também uma variedade de tipos de textos, incluindo poesias, mensagens, notícias, etc. O Projeto conta com Encartes especiais, onde o professor encontra para cada lição uma explicação das razões pelas quais as páginas foram planejadas, o que se espera que o professor ensine e o que se espera como resultado o que o aluno faz e aprende.
Palavras-chave: ALFABETIZAÇÃO; decifração; escrita
LUMA CLÉCIA DA SILVA
[Semiótica]
Agenciamento de suportes e regimes de visibilidade nas inscrições urbanas
Em diversas cidades ao redor do mundo, os espaços urbanos, sejam muros, paredes, postes, fachadas e diferentes superfícies da cidade, tornam-se suportes para manifestações que expressam revolta, esperança, pertencimento, crítica e identidade, funcionando como formas de inscrição das tensões e dos desejos que atravessam a vida coletiva. Esse tipo de manifestação é compreendido como inscrição urbana (Correa, 2016), caracterizada, muitas vezes, pelo anonimato e pela capacidade de interpelar o transeunte, seja provocando, denunciando, reivindicando ou ressignificando o espaço urbano. A partir da perspectiva da semiótica discursiva, é possível analisar como essas inscrições produzem sentido, evidenciando de que modo palavra, imagem e suporte se articulam na construção de identidades, valores e práticas semióticas (Fontanille, 2008), configurando a cidade como um espaço de enunciação e elaboração coletiva de sentidos. Neste estudo, propõe-se uma reflexão sobre as inscrições urbanas, sejam elas pichação, pixo, lambe-lambe, projeção, entre outras, a partir de fotografias dessas manifestações, publicadas no Instagram em perfis que se caracterizam pelo engajamento recorrente com esse tipo de texto em suas diversas variações. A análise concentra-se, portanto, nos processos de produção, circulação e recepção dessas imagens na plataforma, considerando como elemento central o agenciamento de suportes: o espaço urbano como superfície de inscrição, a fotografia como forma de registro, a rede social digital como meio de difusão e o dispositivo tecnológico do usuário como condição de acesso e experiência. A partir desse enquadramento, busca-se compreender de que maneira essas fotografias podem ser integradas ao campo das inscrições urbanas, configurando uma modalidade específica de produção textual. Tal perspectiva implica examinar três dimensões inter-relacionadas: a produção de sentido, que se constrói na relação entre inscrição e registro; a circulação, ampliada pela interação com públicos diversos e pela travessia entre diferentes dispositivos; e a multiplicidade interpretativa, que evidencia a sobreposição de camadas de significação nas práticas contemporâneas de inscrição urbana.
Palavras-chave: Inscrições Urbanas; Agenciamento de Suportes; Regimes de
LUYZA TOMAZ FERNANDES
[Neurolinguística]
Perimenopausa, Menopausa e Pós-menopausa: considerações iniciais sobre processos discursivos do envelhecimento da mulher
Esta comunicação apresenta uma discussão inicial de uma pesquisa de mestrado em andamento que investiga o envelhecimento da mulher a partir da fundamentação teórico-metodológica da Neurolinguística Discursiva (Coudry, 2001[1986]; Novaes-Pinto, 1999). Neste trabalho, objetiva-se explorar de que maneira os sentidos atribuídos à menopausa contribuem para a manutenção ou o deslocamento de práticas patologizantes, uma vez que a menopausa configura-se como um processo que acompanha mudanças nos modos de compreender o corpo e a saúde da mulher. Para tanto, analisa-se a versão preliminar do Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa (Brasil, 2025), o primeiro a propor a substituição do termo "climatério” (cujas primeiras abordagens foram incorporadas à polícia pública no início do século XX) por “transição para a menopausa”, “perimenopausa”, “menopausa” e “pós-menopausa”. Segundo o documento, a proposta alinha a “linguagem às diretrizes internacionais, evitando ambiguidades e permitindo uma abordagem mais personalizada do cuidado” (Brasil, 2025, p. 17). Ao inscrever-se na Neurolinguística Discursiva (Coudry, 1986; Novaes-Pinto, 1999), o estudo compreende que os fenômenos linguístico-cognitivos estabelecem uma relação indissociável com dimensões históricas, sociais e biológicas. Nessa perspectiva, a linguagem não é tomada como mero instrumento de representação, mas como lugar de constituição de sentidos e do próprio sujeito. Tal filiação permite analisar o fenômeno da menopausa para além de sua dimensão biológica, considerando, assim, os processos de significação que a atravessam e que também constituem o envelhecimento. De maneira geral, observa-se que a busca por uma maneira supostamente mais adequada de nomear e tratar a menopausa, como proposto pelo documento analisado, não indica apenas um movimento de redução de ambiguidades, necessidade de classificação, de descrição e de orientação clínica de um processo que marca o ‘início do envelhecimento da mulher’, como observado na história da medicina e da saúde pública. Revela, na realidade, uma disputa pelo processo de caracterização e consequente normatização da saúde da mulher, o que, por sua vez, indicia processos de medicalização e patologização do envelhecimento. Dessa maneira, considerar a menopausa não apenas como fenômeno biológico, mas como um processo sócio-histórico e culturalmente constituído, permite compreender a complexidade dessa experiência. Espera-se, com esta reflexão, contribuir para as discussões acerca do normal e do patológico no campo dos estudos do envelhecimento e da Neurolinguística Discursiva.
Palavras-chave: Envelhecimento; Menopausa; Neurolinguística Discursiva
LÍVIA DE MATTOS JULIANI
[Linguística Aplicada]
Internacionalização em casa e formação docente: uma experiência em CLIL e EMI na pós-graduação
A fim de promover a internacionalização das instituições de ensino superior, a oferta de disciplinas em língua estrangeira se torna uma possibilidade, em especial tendo em vista que, para alguns pesquisadores, o Ensino Superior sempre foi entendido como internacional (De Wit; Altbach, 2021). Contudo, tomando como base as demandas e dificuldades de docentes da pós-graduação, observa-se que esse processo não depende apenas da adoção do inglês como meio de instrução, mas também de uma formação que articule aspectos linguísticos, pedagógicos, metodológicos e institucionais. Nesse sentido, esta pesquisa toma como base a pesquisa de iniciação científica desenvolvida entre 2021 e 2022, que investigou as dificuldades enfrentadas por docentes do Ensino Superior para que oferecessem disciplinas em inglês e, consequentemente, pudessem promover a internacionalização de suas disciplinas, ao notar, naquele momento, que um dos maiores desafios para os professores era o conhecimento de estratégias, meios e fundamentos que os auxiliassem no processo de preparação e ministração das aulas. Disto, surgem duas possíveis abordagens teórico-metodológicas para a oferta de disciplinas neste contexto: Content and Language Integrated Learning (CLIL) e English as a Medium of Instruction (EMI). O presente estudo leva em consideração os dados coletados anteriormente, em que os docentes demonstraram reconhecer os benefícios acadêmicos do ensino em inglês, mas também argumentaram não se sentirem preparados para ensinar em outro idioma além de sua língua materna, o português. Por este motivo, esta pesquisa, de caráter qualitativo e interpretativista, buscou selecionar, aplicar e preparar um curso que contemplasse não apenas as abordagens CLIL e EMI, mas também didática, tecnologia e internacionalização, levando em consideração as lacunas apontadas pelos docentes, com o intuito de que o curso suprisse as necessidades específicas deste grupo. Após o curso, foram analisados questionários, materiais produzidos pelos participantes e gravações das aulas online, e foi possível identificar que os desafios enfrentados pelos docentes da instituição analisada não se resumem apenas ao conhecimento de abordagens teórico-metodológicas que os auxiliem na oferta de disciplinas em outro idioma, mas também à falta de confiança e sensação de falta de proficiência no idioma estrangeiro.
Palavras-chave: CLIL; EMI; Internacionalização do Ensino Superior
LÚCIA REGIANE LOPES-DAMASIO
[Letramento(s)]
Letramento acadêmico-científico e formação de professores: da análise linguístico-discursiva a proposições para o ensino da escrita
O trabalho parte de resultados do Projeto “Escrita e tradição discursiva no ensino: da delimitação conceitual ao seu papel nos aspectos ocultos do letramento acadêmico”, desenvolvido sob a linha de fomento Programa Nova Geração de Pesquisadores – Projeto Inicial (PI) (Fapesp, 2022/02850-0) e composto por uma parte teórica e por uma parte aplicada. Teoricamente, as investigações buscam um ponto próprio de observação de Tradições Discursivas (TDs), como matéria e produto de linguagem, propondo uma redefinição que abarca o conceito introduzido por Kabatek (2005). Para isso, focalizam a constituição de práticas discursivas, tomadas como TDs, partindo da ideia de que os elementos juntivos do texto, considerados em espaços determinados, na qualidade de espaços de repetibilidade, são sintomas de diferentes TDs, bem como da composicionalidade de uma TD. Esses espaços de repetibilidade têm mostrado diferentes tipos de circulação do escrevente pelo que imagina ser a gênese da escrita, o código escrito institucionalizado e o já-falado/escrito, os quais, para o analista, constituem três eixos de observação da heterogeneidade constitutiva da escrita (Corrêa, 1997). Esses eixos, ao lado de um critério bidimensional (sintático e semântico) de descrição da junção oracional, constituem os instrumentos metodológicos para a identificação das TDs. Em sua parte aplicada, os resultados fundamentam uma discussão relacionada ao ensino da escrita. Para tanto, sustentam a hipótese de que as TDs têm feito parte dos aspectos ‘ocultos’ do letramento acadêmico (Street, 2009), expressão utilizada para mostrar que certos aspectos da produção do texto, cobrados no momento da avaliação, não são explicitados no processo de ensino e aprendizagem. No Simpósio “Práticas de letramento acadêmico-científico e modos de fazer ciência na formação de pesquisadores e de professores”, serão apresentados resultados dessas investigações (cf. Oliveira; Lopes-Damasio, 2025; Lopes-Damasio; Silva, 2025; Lopes-Damasio; Gava, 2025; Carvalho, 2025; Lopes-Damasio; Cardoso, 2024), realizadas no escopo do PI (Lopes-Damasio, 2022), a fim de estabelecer um diálogo propositivo para as práticas de letramento acadêmico-científico na formação de professores e pesquisadores. Esse diálogo estará subsidiado nos resultados das análises linguístico-discursivas experimentadas no contexto teórico-metodológico sinteticamente delineado acima, a partir de textos produzidos por sujeitos do Primeiro Ciclo do Ensino Fundamental e do Programa de Educação de Jovens e Adultos. Trata-se, pois, de comunicar a proposição de estratégias didático-pedagógicas, a partir de (certos) aspectos da produção textual e da escrita movente, não explicitados no processo de ensino e aprendizagem, também situado na cultura universitária, enquanto espaço de formação de professores de língua materna.
Palavras-chave: escrita; ensino da escrita; letramento
MAGDA PUCCI
[Línguas Indígenas]
Léxico, fala e canto em músicas indígenas no Brasil
Este trabalho propõe uma reflexão interdisciplinar sobre léxico, tradução, transcrição e escuta de cantos indígenas, reunindo contribuições da linguística, da etnomusicologia e da antropologia da música a partir de dois estudos de caso: as cantigas de ninar Juruna, traduzidas e analisadas linguisticamente por AUTOR e posteriormente abordadas por AUTOR em suas particularidades musicais e procedimentos de transcrição; e os Cantos dos Bichos de Palob dos Paiter Suruí, traduzidos por AUTOR para o livro XXXXXXX (AUTOR, 2017), em colaboração com Uraan Paiter Suruí. A proposta busca discutir os limites da tradução textual convencional diante de repertórios em que o léxico da língua, sua musicalidade prosódica, recursos coesivos como repetição, inflexões vocais e zonas híbridas entre fala e canto possuem papel central na construção de sentido. Nos cantos Juruna, as relações entre música, linguagem e ambiente revelam formas complexas de percepção e organização sonora, nas quais as categorias “bicho” e “gente” atravessam as vocalizações e os processos de transmissão cultural (AUTOR; AUTOR, 2017). A música aparece integrada ao comportamento, ao corpo, à circulação do conhecimento e às temporalidades cíclicas do ambiente, articulando modos de vida, práticas agrícolas, memória e cosmologia. A partir das reflexões de AUTOR sobre a transcrição musical das cantigas Juruna — marcadas por assimetrias rítmicas, superposição de pulsos, circularidade modal e relações entre movimento corporal e estrutura melódica — o trabalho pretende discutir os desafios de registrar repertórios cuja lógica sonora frequentemente escapa às categorias da música tonal ocidental e às formas lineares de escrita. No caso dos Paiter Suruí, serão abordadas as dificuldades de tradução de cantos que articulam vocalizações, fala cantada, repetições e imitações sonoras associadas ao universo animal e cosmológico. Por meio de exemplos comentados, o trabalho propõe refletir sobre oralidade, vocalidade, performance e tradução intercultural, discutindo como transcrição e tradução podem também se tornar formas de escuta, preservação e mediação entre diferentes concepções de linguagem, música e mundo.
Palavras-chave: linguística lexical; vocalidade indígena; tradução
MAIRA SUECO MAEGAVA CORDULA
[Políticas Linguísticas]
Navegando em língua portuguesa como língua estrangeira na universidade
O objetivo deste trabalho é realizar uma reflexão sobre a política linguística e algumas práticas de integração e ensino de português como língua estrangeira em uma universidade federal do estado de Minas Gerais, Brasil. Este trabalho considera as práticas, sejam elas de ensino ou de avaliação, como política (Shohamy, 2006) e também considera o contexto de internacionalização do ensino superior em uma perspectiva abrangente (Hudzik, 2014) e a Internacionalização em casa (Beelen; Jones, 2015) no contexto universitário brasileiro (Souza; Freire Júnior, 2024). Trata-se de um relato de experiência reflexivo que focaliza ações em português como língua estrangeira para estudantes internacionais na universidade, considerando o acolhimento, a integração e a interação dos participantes em um contexto voltado para o plurilinguismo e para a interculturalidade. Serão relatadas oficinas culturais realizadas com os estudantes internacionais do convênio PEC-PLE (Programa de Estudantes-Convênio de Português como Língua Estrangeira) com estudantes da graduação e da pós-graduação na área de Letras e Estudos da Linguagem da referida universidade. Uma das oficinas, intitulada Café com PLE, é voltada para atividades culturais, sendo desenvolvida por meio de temática (como, vestuário ou o carnaval) e com o desenvolvimento de propostas que incluam produtos culturais, como música, e outros recursos audiovisuais e dinâmicas de integração com jogos. A outra oficina descrita é Tirando de letra, que tem o foco voltado para atividades que estimulem o letramento acadêmico e digital dos participantes, com o uso de recursos visuais, como apresentação de slides, e troca de informações sobre aspectos do Brasil e de Minas, com os aspectos trazidos dos países dos participantes. A terceira oficina é denominada PLE entre culturas e está na segunda edição, mas com um novo formato, em que as atividades trazem um momento para aprendizado de português, mas também de ensino de outras línguas (dos participantes) e de aspectos culturais. As três oficinas foram organizadas com estudantes da universidade e buscam proporcionar vivência acadêmico-cultural e maior integração dos estudantes PEC-PLE com a comunidade.
Palavras-chave: português como língua estrangeira; internacionaliz
MALIK ASBAHR NASSER
[Semiótica]
Entre a farsa e a fantasia: o caso de Luigi Mangione sob a luz da semiótica
O caso de Luigi Mangione que teve início no mês de dezembro de 2024, após o suposto assassinato do representante de uma empresa do ramo de planos de saúde dos Estados Unidos, foi o estopim para dois discursos mentirosos: uma farsa midiática, apoiada pelo conservadorismo estadunidense e disseminada às pressas por jornais e programas de TV, e uma fantasia popular, de cunho progressista, inspirada na adaptação para o cinema das histórias em quadrinho do Superman. Assim, alguns textos sincréticos, chamados de inscrições urbanas, alinhados à fantasia, que circulam entre as esferas política, jurídica e cultural, foram escolhidos para compor o corpus desta pesquisa e para ser analisados sob as lentes da semiótica, dando ênfase para elementos visuais e passionais, bem como para algumas questões a respeito dos suportes. A seleção desse objeto para essa pesquisa se deu devido ao espaço de disputa e resistência que as inscrições urbanas oferecem, tornando-se textos excepcionalmente contrastantes e impactantes frente aos disseminados pela farsa das mídias de massa. Assim, encontramos nosso corpus por meio de registros fotográficos disponibilizados em acervos virtuais dedicados ao caso de Mangione, o que levou à identificação de uma sequência de palavras (deny, defend, depose), que será aqui apelidada de trinca viral. Essa trinca apresenta semelhança com a replicabilidade tipicamente encontrada no meio digital a partir das hashtags e dos memes, mas agora passa a habitar os muros, os postes e as casas Além disso, a trinca é utilizada ao lado da polissemia do prenome Luigi, que traz à memória a famosa personagem dos jogos da franquia Mario da Nintendo, e atribui a ela um novo suporte, agora no plano material. Por fim, avaliamos os mecanismos que estruturaram e, agora, sustentam os discursos mentirosos presentes nas inscrições urbanas examinadas, como o discurso passional e as isotopias figurativas e temáticas que constroem, em conjunto, o perfil de um herói justiceiro incorruptível em busca de cumprir sua próxima execução.
Palavras-chave: inscrições urbanas; discursos mentirosos; semiótica
MANOEL LUIZ GONÇALVES CORRÊA
[Linguística Aplicada]
A importância da noção de língua na análise de perspectiva etnográfico-discursiva
No campo das ciências da linguagem, tem sido comum o tratamento dos dados de pesquisa por meio de recursos buscados em perspectivas teóricas vizinhas àquela que orienta o trabalho ou em disciplinas de domínios conexos, como mostram as discussões, já bem fixadas, sobre inter-, trans- e indisciplinaridade no campo aplicado. O presente trabalho, concebido no campo da Linguística Aplicada, procura estabelecer um território particular que, no campo das ciências da linguagem, articule uma perspectiva enunciativa com uma perspectiva discursiva, considerada, ao mesmo tempo, em viés transdisciplinar, sua articulação com o trabalho etnográfico. No caso desta apresentação, tomo a perspectiva etnográfica do modelo de letramentos acadêmicos (Lea & Street, 2006 / 2014), ela própria contendo já uma contribuição entre estudos linguísticos e etnográficos. O movimento teórico proposto visa apreender fatos linguístico-enunciativos perpassados por relações sociais de poder e identidade numa configuração sócio-histórica específica, ou seja, como fatos discursivos. A atenção se volta para duas direções: a) como apreender fatos discursivos sócio-historicamente concebidos e consolidar sua importância para o trabalho de análise do pesquisador iniciante? b) como apreendê-los no trabalho didático, particularmente, em atividades de sala de aula, sem desprezar o caráter linguístico de sua formulação e o papel da própria língua? O material utilizado é composto: a) por dois relatórios finais de iniciação científica (IC) e por duas dissertações de mestrado, cujas análises se ocuparam de material escrito coletado em disciplina de pós-graduação, ministrada em rede, em 2023, como oficina em letramentos acadêmico-científicos, como ação integrante do Projeto Temático Fapesp nº 2022/05908-0; e b) pelas atividades didáticas de produção textual propostas naquela disciplina, elaboradas conjuntamente pelos professores por ela responsáveis, as quais resultaram nos textos posteriormente analisados por pesquisadores de IC e por mestrandos. Tanto no percurso de análise dos pesquisadores, quanto na análise das atividades propostas pelos professores da disciplina, mostra-se a necessidade de distinguir fatos enunciativo-discursivos de fatos pragmático-discursivos, distinção proposta, nesta apresentação, a partir de uma noção particular de língua, fundamental no contexto teórico da perspectiva etnográfico-discursiva como elemento produtor de diferença. A contribuição esperada é a de lidar com a complexidade do fato discursivo tanto na prática de análise de textos (complexidade de natureza 1) quanto na prática didática (complexidade de natureza 2). (Apoio: FAPESP - Processo 2022/05908-0)
Palavras-chave: Análise de textos; Perspectiva etnográfico-discursiva;
MANUEL DA SILVA DOMINGOS
[Fonética e Fonologia]
Prosódia musical e organização rítmica da fala cantada no kuduro angolano (análise das músicas Liamba, de DJ Loló e Tá mal, de DJ Loló e Yannick Afroman)
Esta pesquisa procura entender as relações entre pródia musical e prosódia linguística nas músicas “Liamba”, de DJ Loló, e “Tá mal”, de DJ Loló e Yannick Afroman. O estudo busca fundamentos nos pressupostos da Fonética Prosódica e nos estudos desenvolvidos por Gladis Massini-Cagliari no que diz respeito às correlações entre ritmo musical e ritmo linguístico em canções e jingles televisivos. Parte-se da hipótese segundo a qual existe uma tendência para a coincidência dos tempos fortes do compasso musical com as silábas tônicas e monossílabos tônicos da língua, funcionando como pistas acústicas para a organização do ritmo linguístico. Com base nesse pressuposto, o objetivo central deste estudo é analisar de que modo a estrutura rítmica do kuduro contribui para a prosódia do texto cantado e como isto ajuda na focalização de determinados itens lexicais na canção. Do ponto de vista metodológico, combina-se análise auditiva e descrição acústico-prosódica, com recurso a parâmentros como tonicidade, acento, tessitura, distribuição silábica, andamento e alinhamento entre pulsação musical e proeminência silábica. O corpus da pesquisa é constituído por duas músicas. A primeira intitulada “Liamba” apresenta uma letra que explora episódios associados ao consumo de cannabis em contextos urbanos em Angola; a segunda, intitulada “Tá mal”, retrata da miséria do povo causada pela distribuição desigual da riqueza do país. Os resultados iniciais indicam forte coincidência entre ataques rítmicos e sílabas lexicalmente acentudadas, sobretudo na repetição dos núcelos temáticos dos itens “liamba” e “tá mal”, respetivamente, nas duas músicas. Há também a observância de mudanças no andamento e na tessitura. Essa mudança nos parâmetros musicais acompanham alterações prosódicas relevantes, produzindo maior saliência perceptiva em determinados segmentos da canção. Nesta perspectiva, a alternância entre aceleração e desaceleração de trechos e ou segmentos interfere diretamente tanto na duração vocálica, quanto na distribuição acentual assim como na percepção rítmica do enunicado cantado. Esses resultados preliminares conduzem à conclusão de que o kuduro apresenta uma organização prosódica altamente marcada, em que a estrutura musical atua como mecanismo de reforço do ritmo linguístico e da proeminência lexical. O estudo procura contribuir para as investigações sobre prosódia musical em variedades africanas do português, ampliando o diálogo entre fonética, música e estudos do Português de Angola.
Palavras-chave: Prosódia musical; Ritmo linguístico; kuduro
MARC BARRETO BOGO
[Semiótica]
Espacialidade e produção de sentido no objeto literário Poemóbiles
A espacialidade pode ser entendida como linguagem na medida em que produz determinados efeitos de sentido a partir de suas configurações significantes: dimensões, profundidade, densidade etc. Particularmente, no campo da produção de livros impressos, experimentações com a espacialidade e com a materialidade dos códices vêm sendo exploradas por criadores de diversos campos como recursos estéticos produtores de sentidos. A recente reedição de Poemóbiles, obra seminal da poesia concreta de Augusto de Campos e Julio Plaza, oferece uma oportunidade privilegiada para investigar o papel da espacialidade nos processos de produção de sentido dos objetos literários. Lançada originalmente nos anos 1970, essa publicação é uma espécie de escultura poética manuseável, reunindo uma dúzia de poemas em formato pop-up em que elementos gráficos ganham movimento e tridimensionalidade por meio de cortes e dobras. A nova edição, publicada em 2025 sob coedição pela Lote 42 e Selo Demônio Negro, preserva o projeto gráfico original, convidando-nos a reler esta obra à luz das reflexões atuais da semiótica discursiva e de seus desdobramentos na semiótica plástica, na semiótica do espaço e nos estudos sociossemióticos dos objetos e interações. O trabalho apoia-se principalmente, portanto, nas contribuições teóricas de Algirdas Julien Greimas, Jean-Marie Floch, Manar Hammad e Eric Landowski, autores do campo da semiótica discursiva que nos possibilitam, por meio do desenvolvimento de uma base teórico-metodológica de conceitos interdefinidos, observar os textos literários contemporâneos como objetos literários intersemióticos. A questão central do trabalho é: que papel cumpre a semiótica espacial nos processos de produção de sentido de Poemóbiles? A sistematização de certas categorias espaciais recorrentes ao longo do volume, como aberto versus fechado, expandido versus comprimido e volume versus superfície, revela a estreita articulação entre a materialidade tridimensional do objeto literário, os gestos cinéticos do leitor e os processos de produção de sentido da obra. Em Poemóbiles, a configuração espacial expansiva dos poemas, construída pela técnica de cortes e vincos, vincula-se diretamente à noção central de liberdade criativa, que constitui uma isotopia semântica ao longo da leitura.
Palavras-chave: Poemóbiles; espacialidade; semiótica plástica
MARCUS GARCIA DE SENE
[Sociolinguística e Dialetologia]
Campos indiciais de pitch médio na fala de homens
É recorrente a percepção de que homens soam menos masculinos em disfarces com pitch médio elevado – de acordo com resultados de diversos experimentos (Levon 2006, Drager 2021, Sene 2022, Pie 2023, etc). Aqui, adicionamos mais dados que evidenciam tal percepção em português e discutimos como ela se associa a outros significados sociais. Coletamos respostas de 488 ouvintes voluntários aos quais trechos da fala de oito homens foram apresentados alternativamente em duas condições experimentais: a 240 ouvintes, primeiro no disfarce com F0 médio original (F0o) e, depois, no disfarce com F0 acrescido de 30 Hz (F0+30); para os demais 248 ouvintes, os estímulos foram apresentados na ordem contrária (primeiramente, no disfarce F0+30, depois F0o). Após ouvir cada um dos 16 estímulos, cada ouvinte descreveu o falante que imaginou por meio de escalas de diferenciais semânticos (soa nada a muito: “gay”, “masculino”, “sério” e “inteligente”) e de características discretas, que poderiam assinalar ou não (“magrinho”, “alto”, “jovem”, “rico”, “bonito”, “simpático”). A associação desses significados sociais aos disfarces não variou significativamente de acordo com sua ordem de apresentação. Os falantes, na sua maioria (exceto um), foram percebidos como homens que soam menos masculinos e mais gay no disfarce F0+30. Árvores de distâncias mínimas (ADM) (Gower; Ross 1969; Oushiro 2019) mostram ainda que, no geral, F0+30 leva à percepção de que os falantes parecem jovens e magrinhos, ao passo que, no disfarce F0o, os falantes frequentemente parecem sérios. À percepção de seriedade associa-se à de beleza ("bonito"), classe ("rico") e altura ("alto") – sugerindo que esses significados se ligam indiretamente a F0o. "Simpático" e "inteligente" não foram associados a nenhum dos disfarces. Tais correlações não variaram significativamente de acordo com agrupamentos de ouvintes (segundo seu gênero, sua sexualidade ou sua rede de amigos – com muitas ou poucas pessoas gays), o que aponta para sua generalidade. Por outro lado, ADM plotadas para cada falante, individualmente, sugerem que, além do link F0+30 "menos masculino/mais gay", as associações que se observam para a maioria dos falantes são F0o > "alto" e F0+30 > "magrinho" (ou seja, estereótipos acerca do tamanho do corpo). As demais percepções variam mais de falante para falante, com destaque para F0o > "magrinho" (um falante), F0o > "bonito" (não observado para dois falantes) e F0+30 > "simpático" (um falante). Além de discutir associações estereotípicas a F0 médio, nosso trabalho avança na utilização do método das ADM para tratar de campos indiciais.
Palavras-chave: Campos indiciais; pitch médio; fala de homens
MARCUS VINICIUS BORGES OLIVEIRA
[Neurolinguística]
O Observatório do Idadismo e a responsabilidade intergeracional: um relato de experiência.
Introdução: Presente nas relações interpessoais, no âmbito institucional e também de forma autodirigida, o idadismo consiste em um conjunto de práticas e representações que envolvem discriminação, violência e estereótipos baseados na idade, incidindo especialmente sobre as pessoas idosas. Embora o fenômeno ainda seja pouco investigado, sua primeira referência remonta à década de 1960, nos Estados Unidos, a partir dos trabalhos de Robert N. Butler. No Brasil, o idadismo também é conhecido como ageísmo ou etarismo e se articula a outros marcadores sociais, como o racismo, o sexismo e a transfobia, potencializando diversas formas de violência. Objetivo: Este trabalho tem como objetivo refletir sobre o caráter intergeracional das atividades promovidas pelo projeto de extensão Observatório do Idadismo, que tem como mote enfrentar o preconceito etário, principalmente contra a pessoa idosa. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência realizado a partir da retomada da experiência vivida e da utilização de registros fotográficos, bem como de publicações em rede social. Para tanto, este relato contará com uma descrição detalhada da experiência de coordenação compartilhada do projeto de extensão e com uma reflexão enunciativo-discursiva sobre os efeitos e desafios inerentes ao que foi vivenciado. Quadro teórico: Este trabalho se baseia em pressupostos dialógicos bakhtinianos, principalmente nos conceitos de alteridade e responsabilidade presentes na filosofia do ato responsável, bem como na reflexão proposta por Motta sobre a ideia de sobre geração. O conjunto dessas ideias está na base do conceito de Responsabilidade Intergeracional (Oliveira e Mazuchelli, 2021), que consiste no principal eixo de análise deste relato. Discussão: Considerando que se trata de uma atividade de extensão, é importante enfatizar o papel formativo das ações antidadistas, que são eminentemente planejadas de forma dialógica, ou seja, que se contrapõe a uma pedagogia verticalizada em que o saber acadêmico é soberano. Considerando que o Observatório do Idadismo também se apresenta no campo da saúde, as ações ultrapassam o modelo preventivo e se constituem como promotoras, uma vez que tensionam as relações entre o normal e o patológico no envelhecimento. Conclusão: Espera-se que este relato possa traduzir, ou, ao menos, indicar o peso das experiências dialógicas intergeracionais, ético-responsáveis, vivenciadas na formação humanística voltada ao enfrentamento do idadismo.
Palavras-chave: idadismo; Intergeracionalidade; linguagem
MARIA ALICE FANUELE RIBEIRO
[Semiótica]
Juventude marginal e ideologia em Persona 5
Jogos digitais e videogames se tornaram extremamente comuns na atualidade, com uma infinidade de narrativas, gêneros e possibilidades para os jogadores. Dentre as produções atuais, nos interessa analisar como estes produtos, reconhecidos e relegados há muito como entretenimento banal, passaram a integrar a sociedade com discursos sobre gênero, raça, saúde mental e vêm, ao longo do tempo, ganhando estatuto social de arte e se tornando objeto de estudo de teóricos do campo das linguagens. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo analisar Persona 5, o quinto título da série japonesa de jogos Persona, da Atlus, que retrata a rotina escolar de um garoto que, após ser acusado e punido por um crime que não cometeu, busca justiça e vingança. No jogo, o jogador vivencia a rotina de um adolescente que precisa manter a aparência comum de estudante, vivendo “a honest student life” (Atlus, 2017), enquanto utiliza poderes sobrenaturais para enfrentar o que considera injustiças e expor crimes daqueles que não são punidos em razão de suas posições sociais privilegiadas. Nesse percurso, outros jovens passam a integrar o núcleo de personagens principais, trazendo à cena novas situações em que a moral e julgamento sobre justiça diverge em relação à sociedade e à sua declarada distorção. É a partir desse ponto que propomos, sob a perspectiva da semiótica discursiva, a análise das estratégias e cenas práticas do jogo Persona 5, a fim de identificar como o encadeamento de práticas cotidianas como a vivência escolar, familiar, o trabalho e as dinâmicas hierárquicas sociais, constantemente tensionadas faz emergir o sentimento de não pertencimento em um grupo de sujeitos marginalizados que confrontam, subjugam e questionam o funcionamento da sociedade, mostrando-se inconformados e insatisfeitos. Essa perspectiva é o que, no jogo, constrói a crítica social e justifica a necessidade de revolução e vingança, acentuando as tensões entre o sistema estabelecido e os modos de ser marginais que dele emergem.
Palavras-chave: Persona 5; Semiótica; Jogos Digitais
MARIA AMÉLIA SOUZA MOREIRA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Um estudo sociolinguístico dos vocativos no Universo do Funk: entre gênero e estilo.
Este estudo parte de uma pesquisa de mestrado acadêmico que investigou a capacidade do modelo ChatGPT (versão 5.2) em reproduzir marcas estilísticas e identitárias próprias do Universo do Funk, focando especificamente no uso dos vocativos. O objetivo central do trabalho foi comparar a fala artificial gerada pela inteligência artificial com a fala espontânea observada no podcast Podpah entre os anos de 2022 e 2025. Metodologicamente, a pesquisa alinhou-se aos pressupostos teóricos da Sociolinguística Variacionista e ao campo emergente da Sociolinguística Computacional. O Corpus de Referência de fala espontânea foi composto por quatro artistas de grande destaque no cenário nacional, divididos equitativamente por gênero (homem e mulher) e região geográfica (São Paulo e Rio de Janeiro). Os comandos e prompts fornecidos à inteligência artificial geraram o Corpus IApah (2025), correspondente à fala artificial. Utilizou-se o software TurboScribe para a transcrição automatizada e o Atlas.ti para a catalogação quantitativa e qualitativa dos dados. O aporte teórico central articulou a Sociolinguística, que define o estilo como construção ativa de identidade (Eckert, 2012; Silverstein, 2006), as discussões sobre os limites do aprendizado de máquina (Turing, 1950; Nguyen et al., 2016) e os importantes estudos antropológicos e sociológicos do movimento funk (Vianna, 1988; Siqueira, 2015). Os resultados empíricos apontaram uma disparidade significativa entre os dados: a análise da fala espontânea identificou 54 tipos de vocativos, categorizados por frequência, gênero e região; em contrapartida, os dados artificiais revelaram apenas 13 tipos, distribuídos em três fases de refinamento dos comandos (Genérica, de Vocativos e de Região São Paulo/Rio de Janeiro). Conclui-se que a Inteligência Artificial Generativa demonstrou limitações severas ao simular a fala humana. O modelo computacional tendeu a reproduzir uma linguagem artificialmente higienizada e reducionista, mostrando-se incapaz de alcançar a complexidade socioestilística que caracteriza a construção identitária de homens e mulheres no Universo do Funk. (Apoio: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Código de Financiamento 001)
Palavras-chave: Sóciolinguística Computacional; Universo do Funk;
MARIA DO PERPÉTUO SOCORRO DE OLIVEIRA SANTOS
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Autonomia e motivação na aprendizagem de línguas: quando as linhas se entrelaçam
Este trabalho busca investigar a relação entre os conceitos de autonomia e motivação em contexto de aprendizagem de línguas, seguindo a esteira de estudos anteriores (Ushioda, 2000, 2011; Ueki; Takeuchi, 2013). O interesse pela pesquisa surgiu como intento de revisar a literatura e bibliografia existentes na área nos últimos anos. Para tanto, adotou-se a metodologia da revisão bibliográfica narrativa, que permite uma compreensão mais ampla e interpretativa do conhecimento produzido sobre um tema específico e favorece a articulação entre diferentes perspectivas teóricas (Cavalcante; Oliveira, 2020). Os estudos sobre autonomia na aprendizagem de línguas revelam um consenso sobre a sua definição como a capacidade de se responsabilizar pela própria aprendizagem (Holec, 1979; Little, 2003). Holec (1979) englobou nessa definição todos os aspectos relacionados à aprendizagem: estabelecimento de metas, definição de conteúdos e progressões, seleção de métodos, monitoramento do processo e avaliação. O avanço dos estudos sobre autonomia evidenciou lacunas. Little (2012) e Benson (2022) propuseram que se repense o conceito de autonomia, pois existe a tendência de se pensar mais individualmente, por razões econômicas e sociais, inclusive na aprendizagem de línguas. Tassinari (2012) e Cavalari et al. (em andamento) abordaram as diversas dimensões da autonomia: a cognitiva, com a regulação da aprendizagem; a emocional, por meio da regulação das emoções; a social e sociocultural, por meio da interação dos aprendizes, de diferentes culturas, na língua-alvo; a tecnológica, com recursos que podem promover uma aprendizagem autônoma e, finalmente, a política, com a ideia de uma educação democrática. Em meio a essas dimensões e componentes, destaca-se, neste trabalho, a motivação, que pode ser caracterizada como um fenômeno complexo e multifacetado (Kami, 2011) e que tem como prioridade elementos influenciadores, a depender de um dado contexto e da forma pela qual será abordada. Os estudos sobre motivação, segundo Dörnyei (2000), buscam elucidar três aspectos relativos ao comportamento humano: (i) a razão pela qual as pessoas decidem realizar determinadas ações, (ii) por quanto tempo elas estão dispostas a sustentar tal atividade e (iii) quais estratégias serão utilizadas para alcançar essa meta estabelecida inicialmente. Ainda, segundo Ushioda (2011) a motivação e a metacognição estão altamente relacionadas, pois, segundo a autora, o exercício da metacognição e do controle sobre os processos de pensamento estratégico, só pode acontecer quando acompanhado de motivação ou vontade de fazê-lo. A análise dos estudos enfocados revela que eles estão imbricados e são interdependentes, posto que um é condição para o outro.
Palavras-chave: Autonomia; Motivação; Aprendizagem de línguas
MARIA DO ROSARIO GREGOLIN
[Análise do Discurso]
Ciberativismo e subjetividades: entre a fluidez e a espessura dos discursos insurgentes nas mídias digitais
Esta comunicação apresenta resultados de uma pesquisa em desenvolvimento, cujo objetivo é a análise do funcionamento discursivo das mídias digitais sob a lente da arqueogenealogia de Michel Foucault. A investigação focaliza práticas discursivas que tem como efeito a produção de subjetividades, visando, particularmente, analisar discursos de resistência política no ativismo digital em redes sociais. As análises buscam compreender a articulação entre esses discursos políticos, seus efeitos de sentido e a memória discursiva por meio da descrição de procedimentos discursivos utilizados no ativismo político digital para a produção da insurgência e da negociação em torno das problemáticas de gênero, em suas múltiplas temporalidades e espacialidades (heterotopias). Essas problemáticas tem em sua base algumas questões de pesquisa: a) Como a mídia digital funciona - articulada a outros dispositivos de saber e de poder - para a produção das subjetividades?; b) Quais transformações a mídia digital provoca nas formas de resistência política contemporâneas? c) Quais as especificidades do funcionamento das linguagens na mídia digital, ao serem mobilizadas por sujeitos para a ação política e produzirem a insurgência e a negociação identitárias (de gênero) no interior de jogos de produção das subjetividades contemporâneas? Propomos, portanto, discutir a produção de subjetividades na mídia digital, entendendo-a como dispositivo de saber e de poder, por meio do qual é construída uma “história do presente” como um acontecimento discursivo que tensiona a memória e o esquecimento. Trata-se, portanto, de analisar discursos de insurgência contra o governo da memória e da história, que são possibilitados pelos meios digitais e que criam subjetividades. Assim, o objetivo central de minha exposição é discutir, a partir de uma "análise de discursos com Michel Foucault", como memória e esquecimento funcionam nas mídias digitais para a construção de verdades sobre os sujeitos e suas identidades. Ao analisarmos esses jogos de verdade entre história e esquecimento, tomamos a concepção foucaultiana de discurso como luta, como batalha para instituição das subjetividades. Assim, pretendemos apontar o papel da mídia digital na formatação da historicidade que nos atravessa e nos constitui, das subjetividades históricas que nos ligam ao passado e ao presente.
Palavras-chave: Discurso; Subjetividade; Ciberativismo
MARIA EUGÊNIA ARANTES GONÇALVES
[Neurolinguística]
Neuroimagem funcional: há espaço para a ressonância magnética na pesquisa de base em linguística?
A linguagem humana envolve processos cognitivos altamente complexos e estruturados, capazes de expressar uma ampla gama de sentidos e de relações entre eles. Existem muitas hipóteses e modelos a respeito do funcionamento destes processos, e, atualmente, uma variedade de formas de testá-los. Enquanto medidas comportamentais, com valores de acurácia e de tempo, podem nos informar sobre custos de processamento e níveis de complexidade do processo como um todo, medidas neurofisiológicas como a eletroencefalografia – tradicional nos estudos da psicologia e da psicolinguística – permitem uma identificação mais precisa do estímulo exato que desencadeia tais mudanças de comportamento. Tecnologias como a ressonância magnética oferecem uma outra abordagem, privilegiando a acurácia espacial e registrando as estruturas do cérebro engajadas no processo em estudo. Apesar de fornecer dados acurados e novos, dificilmente alcançáveis por outros meios de neuroimageamento, a ressonância magnética funcional (fMRI) impõe obstáculos metodológicos e logísticos importantes. Metodológicos por sua natureza e sensibilidade, que limitam os desenhos experimentais e os contextos de estudo da linguagem em uso. Logísticos pelo alto custo de acesso e pela baixa disponibilidade das máquinas, mesmo nos grandes centros internacionais de pesquisa. Por esses motivos, esta não é uma técnica popular na pesquisa em linguística no Brasil, e tende a estar restrita a ambientes muito particulares. A despeito de todos os percalços que envolvem a sua aplicação na pesquisa, a fMRI ofereceu avanços importantes no que diz respeito às relações entre as funções da linguagem e as estruturas do cérebro, com um destaque especial para o estudo de patologias e para a aplicação em intervenções na área da saúde, uma vez que esse campo tende a ter mais acesso às máquinas de ressonância. A fMRI permite o acompanhamento do processamento linguístico a partir do caminho que este percorre no cérebro, e, combinada a outras abordagens comportamentais e/ou neurofisiológicas, nos aproxima de um retrato mais exato dos processos neurológicos e cognitivos que sustentam a linguagem. Essa fala abordará os princípios da fMRI, suas principais aplicações nos estudos da linguagem e os avanços por ela proporcionados, mas também abordará as suas limitações e o seu uso em pesquisas aplicadas, a partir dos quais discutiremos se ela é realmente adequada para pesquisas de base na área.
Palavras-chave: ressonância magnética funcional; neuroimagem;
MARIA PAULA NUNES CONEGLIAN
[Semiótica]
A figura em disputa: embates discursivos na construção da forma de vida
“mulher” nos esportes. A mais recente decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) proíbe a participação de atletas transexuais nos Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles. A justificativa apresentada pela instituição sustenta que modalidades esportivas femininas devem ser destinadas exclusivamente a mulheres biológicas “para garantir a equidade e proteger a segurança, principalmente em esportes de contato, a elegibilidade deve, portanto, ser baseada no sexo biológico” (COI, 2026). Assim, pretendemos investigar, com base em pressupostos da semiótica discursiva implicada às questões de gênero e sexualidade, o modo como a síncope semiótica ascendente entre os níveis de pertinência ‘texto-enunciado’ e ‘forma de vida’ (Fontanille, 2008), instâncias convocadas para regular a participação de mulheres no esporte, revela a prevalência de valores cispatriarcais na cultura (último nível de imanência das formas semióticas). Ao tratarmos da decisão do COI, queremos evidenciar que o termo “mulher” está em uma arena de disputas, na qual a figura-forma de vida “mulher” é reduzida a um essencialismo biológico. Segundo Schwartzmann (2021), isso ocorre devido à supressão das cenas predicativas que organizam leis e diretrizes sociais, na medida em que a síncope ascendente projeta virtualmente um mundo de valores (mundo natural) em que mulheres trans possuiriam uma suposta “vantagem de performance” (COI, 2026), por serem consideradas mais fortes e resistentes. A história dos Jogos Olímpicos desestabiliza, entretanto, essa projeção. Em 2021, a neozelandesa Laurel Hubbard tornou-se a primeira atleta trans a participar dos Jogos Olímpicos, sem sequer alcançar as finais de sua modalidade. Ou seja, a chamada “vantagem” atribuída às atletas trans não passa de uma projeção virtual sustentada pelos valores da cisgeneridade patriarcal. A disputa social em torno da figura-forma de vida (Schwartzmann) “mulher” permanece submetida a diferentes isotopias culturais como as da /delicadeza/ e /maternidade/, que recobrem a figura mulher. Embora a maternidade exija força e resistência, ela continua tematizada socialmente sob os signos da fragilidade, da pureza e da sensibilidade associados à /delicadeza/, uma vez que são atribuídos àquilo que a cisgeneridade patriarcal define como “mulher”. No campo esportivo, esses embates tornam-se ainda mais complexos. O esporte, enquanto prática de combate e desempenho físico, historicamente não foi destinado às mulheres justamente por confrontar atributos associados à feminilidade. Desde então, busca-se restringir a presença feminina nas práticas esportivas incompatíveis com a chamada “natureza feminina”. Há, portanto, um salto semiótico que, apoiado em valores cisgêneros tomados como naturais e legítimos, organiza e conforma a figura “mulher” no esporte.
Palavras-chave: Semiótica; Genero; Esportes
MARIANA LUZ PESSOA DE BARROS
[Semiótica]
Inscrições da memória em diferentes objetos: uma análise semiótica da
Covid-19 Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o surto de Covid-19 que se alastrava pelo globo, como uma pandemia. A vida das pessoas, no Brasil e no mundo, passava, então, por mudanças drásticas que afetaram as formas de interagir e de viver de toda a população mundial, ainda que de forma desigual de um país para o outro e também dentro de cada país, a depender das decisões governamentais e das condições socioeconômicas de cada lugar. Não exatamente nas mesmas datas, nem com o mesmo rigor, passaram a fazer parte de nossa experiência cotidiana: o distanciamento social, o uso de máscaras e a adoção de novas formas de higiene. Também não foi vivido exatamente da mesma maneira o medo — da morte, de ficar sem trabalho, de perder alguém próximo, de nunca voltarmos a alguma normalidade —, mas não é exagero afirmar que, ainda que em intensidades e com causas distintas, ele se fez presente em todas as casas. Diante dessa experiência de exceção, muitas pessoas sentiram a necessidade e o desejo de registrar esse “novo normal”, por meio de fotos, poemas, relatos pessoais, vídeos etc. Esses textos foram produzidos de forma espontânea em alguns casos e, em outros, como resposta ao chamado de projetos que procuravam justamente reunir em acervos, sobretudo digitais, esses retratos de um período que nos retirou do que entendíamos até então por cotidiano, obrigando-nos a criar novas rotinas e formas de enfrentar, em termos inclusive subjetivos, a pandemia. Este trabalho nasce da experiência de leitura dessas produções, especificamente das que foram realizadas no Brasil durante o período da pandemia de Covid-19, numa busca por compreender os sentidos ali produzidos, dando ênfase ao exame dos diferentes suportes nos quais foram postos em circulação: sites, redes sociais, muros, folhas de caderno, outdoors etc. Para dar conta dessa questão, investigamos, com base na semiótica discursiva, como a memória se inscreveu em distintos objetos-suportes ao longo da pandemia, mostrando o papel desses objetos na construção do sentido dos textos analisados e em suas práticas de produção e de interpretação.
Palavras-chave: Objeto-suporte; memória; Covid-19
MARIANA MOREIRA NUNES SANTA MARIA
[Linguística Cognitiva]
Frames e Esquemas de Imagem na saúde da mulher: a conceptualização do corpo feminino no discurso científico em língua portuguesa
Os textos científicos da área médica descrevem fenômenos biológicos, processos fisiológicos e condições clínicas por meio de padrões linguísticos relativamente estáveis. No campo da saúde da mulher, tais regularidades manifestam-se em expressões relacionadas ao ciclo menstrual, à gestação, à reprodução, ao equilíbrio hormonal e às intervenções médicas. A recorrência dessas formas de dizer sugere modos específicos de representação do corpo feminino no discurso científico, indicando a presença de frames conceptuais e esquemas de imagem que organizam a construção do conhecimento biomédico. Este estudo tem como objetivo investigar os frames e os esquemas imagéticos que estruturam a conceptualização biomédica do corpo feminino em artigos científicos da área da saúde publicados em português. A pesquisa fundamenta-se na Linguística Cognitiva contemporânea, articulando a Teoria dos Frames (Fillmore, 1976; 1982) e os estudos sobre esquemas imagéticos (Lakoff; Johnson, 1980) aos pressupostos da Linguística Cognitiva Crítica (Hart, 2017), partindo do pressuposto de que o significado linguístico emerge de experiências corporificadas e de estruturas cognitivas social e culturalmente moldadas. A metodologia adota uma abordagem quali-quantitativa baseada na Linguística de Corpus, utilizando a ferramenta Sketch Engine. A partir do CoPEP (Corpus de Português Escrito em Periódicos) será constituído um subcorpus temático homogêneo e representativo, composto por artigos científicos originais e de revisão das áreas de ginecologia, obstetrícia e saúde reprodutiva, publicados, na última década, em periódicos de alto impacto. Inicialmente, serão identificados padrões léxico-gramaticais recorrentes por meio de análises de frequência e coocorrência. Em seguida, os dados serão interpretados à luz da Linguística Cognitiva, com foco na identificação dos frames conceptuais e dos esquemas de imagem predominantes. Dentre as categorias sob análise, destacam-se os esquemas de imagem de CICLO, CONTÊINER, EQUILÍBRIO e FORÇA/INTERVENÇÃO. A hipótese central da pesquisa é que o discurso científico da saúde da mulher conceptualiza o corpo feminino como um sistema temporalmente regulado, um espaço de desenvolvimento biológico e um organismo submetido a parâmetros de normatividade, controle e intervenção. Espera-se que a pesquisa contribua para a descrição dos padrões linguísticos e cognitivos do discurso científico especializado em português, oferecendo, ainda, um modelo metodológico replicável para investigações na interface entre Linguística Cognitiva, Linguística de Corpus e cognição social aplicada à área da saúde.
Palavras-chave: Linguística Cognitiva; Esquemas de Imagem; Frames
MARIELA LUIZA SALVINI
[Semiótica]
Beleza, feminilidade e consumo: uma investigação semiótica do anúncio creme perfeito dagelle
Considerada uma revista de ampla circulação no Brasil ao longo do século XX, o Jornal das Moças desempenhou papel significativo na difusão de conteúdos voltados ao comportamento feminino, à beleza, ao casamento, à maternidade e à vida doméstica, atuando como importante veículo na consolidação e disseminação de modelos sociais de feminilidade. Suas páginas não apenas informavam, mas também educavam, orientavam e normatizavam condutas, colaborando diretamente para a construção de ideais de mulher alinhados às expectativas morais, sociais e culturais de sua época. Nesse sentido, a revista funcionava como espaço privilegiado de circulação de discursos que reforçavam papéis de gênero e legitimavam determinadas formas de ser mulher na sociedade brasileira. Nesse contexto, este trabalho tem como objetivo analisar uma peça publicitária do Creme Perfeito, da marca Dagelle, publicada em 1940, investigando de que maneira a articulação entre linguagem verbal e visual participa da produção de sentidos sobre a mulher, sua imagem e seu lugar social. A análise fundamenta-se no conceito de semissimbolismo, proposto por Jean-Marie Floch (1985), a partir do qual se observa como elementos cromáticos, formais e espaciais organizam relações de sentido que vinculam beleza, prestígio social, reconhecimento afetivo e validação masculina ao corpo feminino. A publicidade, nesse caso, ultrapassa sua função comercial de promover um cosmético, atuando também como prática discursiva e ideológica que reforça normas culturais, padrões estéticos e estruturas de gênero. Em diálogo com Simone de Beauvoir ([1949]2019), especialmente no que se refere à constituição da mulher em relação ao olhar do Outro, discute-se como a identidade feminina é construída sob parâmetros externos de legitimação social, simbólica e afetiva. Evidencia-se, assim, que a peça publicitária analisada participa de uma lógica cultural que associa beleza à aceitação, felicidade, sucesso social e realização pessoal, contribuindo para a manutenção de hierarquias de gênero e para a naturalização de papéis femininos socialmente prescritos. Desse modo, o estudo contribui para a compreensão crítica das relações entre mídia, consumo, publicidade e construção social da mulher no Brasil, evidenciando como discursos midiáticos atuam na reprodução de valores históricos e sociais.
Palavras-chave: semiótica; beleza; Jornal das Moças
MARINA CÉLIA MENDONÇA
[Análise do Discurso]
Manuais de uso inclusivo da língua nas redes sociais: considerações em torno dos gêneros do discurso e da alteridade.
Em projetos de pesquisa anteriores, com embasamento na Análise Dialógica do Discurso, discuti a problemática de políticas em torno do uso linguístico, relacionadas ou não a ensino/aprendizagem de língua e a instrumentos linguísticos. Esses estudos mostraram um movimento purista que está na base da memória do discurso sobre a “disciplinarização” do uso linguístico (Mendonça, 2007; 2008; 2023) e está presente na história da constituição dos instrumentos linguísticos como gramáticas e dicionários - é no interior dessa memória que se constituem o que estou chamando aqui de “manuais de uso linguístico”, nos quais se materializa um senso comum sobre língua no país, de tendência conservadora. Neste trabalho, tomo como ponto de partida tanto essas pesquisas anteriores como o movimento que a sociedade brasileira, nas últimas décadas, tem feito a favor da inclusão social, com pautas de valorização da diversidade. O objetivo é refletir, por um lado, sobre o caráter responsivo do corpus às pautas de movimentos sociais de inclusão da diversidade e, por outro, sobre a especificidade do gênero discursivo “manual de uso linguístico” quando afetado pelo tema da linguagem inclusiva antirracista. Parto de resultados de pesquisa anteriores, em que a análise de um manual de linguagem inclusiva, em forma de cartilha, revela a renovação do gênero quando em contato com um novo tema (no sentido que lhe atribui de Volóchinov, 2017), no contexto de polêmicas em torno do uso da linguagem neutra de gênero e de participação de ativistas na autoria de gêneros que tipicamente estiveram restritos à autoria dos estudiosos/cientistas da linguagem (Mendonça, 2025). O trabalho pretende ampliar essas reflexões, tomando por corpus manuais de linguagem antirracista indígena em forma de cartilha e carrossel no Instagram (enunciados em diferentes linguagens, com diferentes formas de veiculação e produzidos por ativistas). A base teórico-metodológica da pesquisa são escritos de Bakhtin e o Círculo, bem como de seus comentadores, tendo os conceitos de gênero do discurso, enunciado concreto como uma totalidade de sentido, alteridade e signo ideológico centralidade nas análises. O trabalho pretende contribuir com estudos sobre os gêneros discursivos e sua arquitetônica, em especial sobre o “manual de uso linguístico” produzido e veiculado em contexto de redes sociais, e com a discussão política do papel do linguista na produção de manuais de uso linguístico e de políticas linguísticas.
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; Alteridade; Enunciado
MARINA TOTINA DE ALMEIDA LARA
[Análise do Discurso]
Discursos sobre autoria em correções automatizadas de redações do Enem: uma análise dialógica
Esta comunicação analisa o discurso de duas inteligências artificiais, Cria e Glau, produzido como correção de redações do Exame Nacional do Ensino Médio de 2024. Essas plataformas são softwares nos quais estudantes enviam seus textos escritos e recebem um feedback imediato baseado nos critérios de correção do exame. O objetivo do estudo é investigar, sob a perspectiva bakhtiniana, como essas IAs respondem ao texto do participante e em que medida tais avaliações se aproximam ou se distanciam dos estudos linguísticos brasileiros sobre autoria e avaliação de textos escritos, lançando vozes que se colocam em diálogo com um caminho trilhado pela Linguística no Brasil no trabalho com produção de textos escritos na escola. Para isso, o trabalho coloca os autores do Círculo de Bakhtin e pesquisadores da Análise Dialógica do Discurso em diálogo com estudiosos como Michel Foucault, Eni Orlandi e Sírio Possenti, buscando compreender como o conceito de autoria vem sendo ressignificado no contexto escolar e, mais recentemente, nos discursos produzidos pelas IAs. A análise demonstra que, embora utilizem um formato aparentemente interativo, as IAs operam predominantemente com modelos padronizados de correção, e seus retornos aos estudantes são centrados, principalmente, em critérios de coerência, organização textual e adequação à forma composicional do texto dissertativo-argumentativo do Enem, não contribuindo para o reconhecimento do texto como acontecimento singular e estabelecendo diálogo com concepções de autoria ligadas à coerência textual. Além disso, observa-se que essas ferramentas reproduzem e ampliam discursos sobre produções escritas já consolidados no campo escolar, contribuindo para a retomada da noção de “texto como produto” e para a valorização de práticas avaliativas descontextualizadas, que não são construídas na relação entre sujeitos que respondem eticamente ao discurso do outro. Assim, o estudo aponta indícios de que o uso dessas tecnologias para correção de textos – amplamente usadas por estudantes e por escolas no Brasil – reforça concepções de autoria que são colocadas em tensão com perspectivas discursivas assumidas pelos estudos linguísticos sobre práticas de ensino e de aprendizagem de textos escritos na escola, que compreendem a escrita como espaço de alteridade, singularidade e construção ética do sujeito. Desse modo, o trabalho evidencia que a incorporação dessas tecnologias ao contexto educacional tende a fortalecer práticas avaliativas no campo escolar orientadas à homogeneização da escrita e à concepção de textos ligada à estabilidade do enunciado, reduzindo possibilidades de interpretação que considerem as dimensões dialógicas envolvidas no processo de ensino-aprendizagem da produção textual escolar.
Palavras-chave: Círculo de Bakhtin. Análise Dialógica do Discurso
MARINA VIEIRA CERVEZÃO
[Análise do Discurso]
"Você por acaso sabe ler?": Uma análise discursiva de injúrias culturais relativas à leitura
O projeto ora proposto, em consonância com as pesquisas realizadas pelo grupo LIRE, tem por objetivo analisar discursos sobre a leitura, mais especificamente abordar as formas de expressão dos sentimentos da ‘vergonha’ e do ‘orgulho’ relacionadas a essa prática, à condição de ser (considerado) ou não leitor, em enunciados provenientes de notícias da mídia brasileira, nas quais a leitura é convocada como meio de estabelecer hierarquias entre os sujeitos, sob a forma de insulto, de hostilização e de injúria cultural e/ou social. Ao longo desta pesquisa de Mestrado, levantamos e analisamos uma série de enunciados coletados juntos a textos de notícias em formato digital, de blogs pessoais e comentários nessas redes, que abordaram (ainda que breve e acessoriamente) a leitura, aludida como forma ao mesmo tempo para humilhar e rebaixar uns e enaltecer (social e culturalmente) outros. Com o objetivo de investigar esses acontecimentos discursivos em que se mobiliza a leitura como um argumento para a exibição de ‘orgulho’ de ser leitor com a consequente e imposta ‘vergonha’ ao outro por não sê-lo, nos propomos neste projeto de pesquisa a depreender os discursos consensuais sobre a leitura que são evocados nos enunciados que emergem em circunstâncias de ofensas e injúrias. Esse uso peculiar da leitura faz parte dos argumentos relativos ao gesto cultural do “sabe com quem está falando?”, também trabalhado e analisado por Roberto DaMatta, em seu livro Carnavais, Malandros e Heróis (publicado nos anos 90). Por ser uma prática cujo exercício pleno e restrito a poucos, a leitura se mantém entre nós como meio de distinção, a fim de elevar ou diminuir a posição dentro dos discursos. Com esse trabalho, cremos ter contribuído para a melhor depreensão das representações consensuais dessa prática, subsidiados por princípios da Análise do Discurso, da Sociologia e da História Cultural da escrita e da leitura e da História das sensibilidades/emoções.
Palavras-chave: Discurso; Leitura; Representação
MARLON CORREA AMARAL
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O PLA em Rede como política linguística em ação: narrativas de professores na Rede Federal
Este estudo insere-se no campo da Linguística Aplicada indisciplinar (Moita Lopes, 2008) e investiga o programa Português como Língua Adicional em Rede (PLA em Rede), desenvolvido no âmbito da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, tomando-o como uma instância de política linguística em ação. Partindo de uma concepção ampliada de política linguística, que considera não apenas dispositivos normativos, mas também práticas, ideologias e mecanismos institucionais (Spolsky, 2004; Shohamy, 2006), o estudo focaliza as narrativas de professores que atuaram no programa como espaço privilegiado para compreender como tal política se materializa na experiência docente. Nesse sentido, o objetivo é analisar de que modo o PLA em Rede se configura como espaço formativo e como mecanismo de política linguística, a partir das experiências narradas por professores participantes do programa. O viés metodológico da pesquisa é qualitativo (Paiva, 2019), de natureza narrativa (Barkhuizen, 2013), mobilizando entrevistas semiestruturadas organizadas em eixos que contemplam: trajetória docente, inserção no programa, experiências de atuação, dimensões formativas, aspectos institucionais e perspectivas de inclusão. Esses eixos operam como dispositivo analítico, permitindo mapear como práticas pedagógicas, orientações institucionais e experiências formativas se articulam na constituição do professor como agente de política linguística. Ainda que em fase inicial de geração de dados, o estudo propõe, como hipótese analítica, que as narrativas docentes evidenciam o entrelaçamento entre formação profissional, práticas pedagógicas e políticas linguísticas implícitas, revelando o PLA em Rede como espaço de produção e circulação de ideologias linguísticas. Nesse sentido, antecipa-se que categorias como agência docente, formação situada e políticas implícitas emerjam como centrais na análise. Espera-se, com esta pesquisa, contribuir para a compreensão do ensino de Português como Língua Adicional não apenas como prática pedagógica, mas como campo atravessado por ações, decisões e práticas que se configuram como políticas linguísticas em nível institucional e experiencial, especialmente no que se refere à formação de professores de línguas.
Palavras-chave: Português como Língua Adicional; Políticas Linguís
MARLUZA TEREZINHA DA ROSA
[Linguística Aplicada]
Função da escrita e tomada de posição do sujeito no ingresso ao ensino superior
O discurso sobre a ciência, pautado no ideal de racionalidade e logicidade, na exatidão de formas, fórmulas e métodos, bem como na determinação pela estrutura, está na base do pensamento logocêntrico ocidental, no qual se ancoram, ainda hoje, não apenas as representações acerca do que possa ser, ou não, científico, mas também algumas das noções que fundamentam os estudos da linguagem, tais como as de língua, texto e escrita. Nesta pesquisa, propomo-nos a investigar o imaginário sobre a escrita acadêmica do qual compartilham estudantes em fase de inserção no âmbito universitário (1º semestre) via Programa de Formação Interdisciplinar Superior na Universidade Estadual de Campinas (ProFIS/UNICAMP). O objetivo é compreender, com o auxílio de marcas discursivas, como se constrói uma posição subjetiva frente à escrita e sua função na formação superior. O corpus de análise se constitui de atividades diagnósticas realizadas em 25 turmas, ao longo de cinco anos, na disciplina de Leitura e Produção de Textos Acadêmicos I. Esta intervenção explora, mais precisamente, as produções textuais formuladas em resposta à pergunta: “Que funções e características da escrita acadêmica você já conhece?”. Para tanto, estabelecemos um diálogo teórico entre trabalhos que se voltam para a problemática da escrit(ur)a e do letramento acadêmico no campo da Linguística Aplicada. O estudo apresenta os primeiros movimentos de análise e aponta para o fato de que, embora haja uma heterogeneidade nas representações, reforça-se uma imagem idealizada do fazer científico, ancorada na transparência da linguagem, na formalização/padronização do texto e na busca pela verdade. Outra regularidade do corpus analisado consiste na sustentação de um não-saber sobre o que caracterizaria a escrita acadêmica e suas funções, o que sugere uma posição discursiva de distanciamento assumida pelos estudantes quando da inserção no discurso universitário como prática social. Tal posição concebe a escrita como técnica a ser aprendida, em vez de registro autoral que marca a participação do sujeito em seu próprio processo de formação.
Palavras-chave: Escrita acadêmica; Formação Superior; Constituição do
MATHEUX SCHWARTZMANN
[Semiótica]
De ne-uter: ensaio autoetnossemiótico sobre a ameaça não binária
Neste trabalho de caráter autoetnossemiótico, analiso narrativas autobiográficas produzidas a partir de memórias, registros discursivos e experiências situadas sobre a construção da minha identidade pública antes e após a adoção do nome social e da identificação não binária, assumindo uma posição implicada. Compreendo a autoetnossemiótica como articulação entre autoetnografia e análise semiótica das práticas de existência, tomando o próprio corpo (e o corpo-próprio) e suas inscrições sociais como campo de produção de conhecimento. Busco discutir a presença do meu corpo dissidente, aqui nomeado ne-uter (“nem, nem”), no espaço institucional acadêmico e em suas disputas de visibilidade no espaço público. O termo é entendido como posição existencial e semiótica que tensiona a inteligibilidade binária do gênero e, por isso, frequentemente é lido como ameaça à ordem simbólica cisnormativa. A análise parte do que denomino como “práticas semióticas de vivência no espaço público”, isto é, modos de habitação, circulação e interação partilhados que articulam dimensões simbólicas, sociais e políticas, produzindo dinâmicas de inclusão, exclusão, reconhecimento e resistência. Os objetivos específicos consistem em investigar os sentidos do nome social, enfatizando suas dimensões afetiva, simbólica e performativa; compreender como a não binariedade se constitui como prática de resistência e afirmação existencial, entendida como curso de ação e fluxo de existência (Fontanille), em permanente confronto com outras formas de vida; discutir o nome social como operador semiótico de reconhecimento, disputa política e performatividade pública; e refletir sobre a autoetnografia como método de produção de conhecimento transcentrado e contra-hegemônico. O quadro teórico-metodológico articula a semiótica autoetnográfica de Josy Souza (2025), a autoetnografia (Adams, Bochner e Ellis, 2011), os conceitos de formas de vida e práticas semióticas (Fontanille; Schwartzmann), além da transepistemologia (York, 2026), em diálogo com a produção da subjetividade (práticas de subjetivação) como efeito de forças hegemônicas e inconscientes (Guattari e Rolnik, 1986). O espaço público é mobilizado a partir da esfera pública (Habermas) e da noção de opinião pública como instância simbólica de produção de valores (Genette). Assim, a escrita não binária é compreendida como prática semiótica, política e transepistemológica que não apenas narra uma experiência dissidente, mas tensiona os regimes de inteligibilidade que regulam nome, corpo, reconhecimento e pertencimento. O corpo ne-uter, longe de ser apenas margem, emerge como operador crítico de leitura e disputa dos modos de existência no espaço acadêmico e público.
Palavras-chave: Semiótica; Autoetnografia; Não binária
MILENA APARECIDA DE ALMEIDA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Em defesa de uma Sociolinguística Histórico-Textual: o caso de onde
Pesquisas diacrônicas com base teórico-metodológica na Teoria da Variação e da Mudança Linguística (Weinreich, Labov, Herzog, 1968; Labov, 1972), ao longo dos anos, encontram o desafio de trabalharem com materiais escritos de diversos gêneros textuais e, muitas vezes, fragmentário (Biazolli, Berlinck, 2021). Apesar dessas limitações, consideramos que compreender as regras mobilizadas dentro de um gênero textual é extremamente importante para a compreensão dos processos de configuração, variação e mudança de padrões linguísticos; dado que “[...] a maioria das situações sociais terá uma arquitetura social preexistente e uma estrutura de gênero dentro da qual o significado social pode ser negociado” (Coupland, 2007, p. 41). Assim, nosso objetivo é demonstrar como o gênero textual não deve ser apenas um pano de fundo para a construção do corpus ou uma variável independente superficialmente analisada. Para tanto, investigamos a multifuncionalidade do pronome relativo onde (Souza, 2003; Braga, Manfili, 2004; Lima, 2007; Lima, Coroa, 2013; Almeida, 2020), por meio da Teoria da Variação e Mudança Linguística em conjunto com a Abordagem Diacrônica dos Textos (Jubran, 2010; Penhavel, Cintra, 2022). Desse modo, buscamos compreender se e como o gênero textual peça de teatro desempenha um papel na regulação de padrões variáveis ou de mudança linguística. O objetivo do estudo é defender a interface entre a Sociolinguística Histórica e o estudo de gêneros textuais. Assim, a análise é dividida em três quadros: (i) a busca por padrões de variação e mudança no fenômeno gramatical, por meio de descrições sintáticas e semânticas mobilizadas pelas construções-alvo; (ii) a análise dos processos de construção do texto, discutindo a organização tópica das cenas das peças teatrais e suas mudanças ao longo dos séculos investigados; e (iii) a intersecção, relacionando os dois primeiros níveis com o objetivo de argumentar sobre a funcionalidade do uso do pronome relativo no interior das peças teatrais dos séculos XIX, XX e XXI provenientes do banco de dados Língua EmCena (CNPq 405181/2021-3). Para a coleta dos dados, nos utilizamos de uma ETL criada dentro do projeto, e a quantificação foi produzida com o auxílio da plataforma R (Core Team, 2025). Como resultados preliminares, averiguamos a existência do uso de onde não locativo ao longo das sincronias, num total de 24 dados. Apesar da frequência não ser expressiva, mesmo no contexto de uma variável sintática, os dados confirmam que a multifuncionalidade de onde não se restringem ao uso presente da língua. (Apoio: FAPESP – Processo 2021/14900-0).
Palavras-chave: pronome relativo onde; sociolinguística histórico-
MIRELLA DE OLIVEIRA FREITAS
[Linguagem e novas tecnologias]
Mediação docente na produção escrita com apoio de IA generativa: dispositivos didáticos para o desenvolvimento da autonomia discursiva
O uso de inteligência artificial generativa (IA Gen) para a produção textual em contextos formativos tem representado um importante desafio, tendo em vista que demanda reconfiguração pedagógica. Nesse cenário, a escrita não é apenas um produto solicitado em disciplinas, mas funciona simultaneamente como instrumento de ensino-aprendizagem, para acesso a (e construção de) conhecimentos, para o desenvolvimento de competências técnicas, científicas e no uso da língua, além de servir como evidência avaliativa. Dada essa realidade, este trabalho discute as implicações dos usos de IA Gen para as práticas pedagógicas que requerem produções de textos escritos. O objetivo é investigar como a proposição ou a adoção de dispositivos didáticos específicos pode auxiliar no desenvolvimento da autonomia discursiva de estudantes universitários, quando usam tecnologia generativa. Realizada no campo de estudos da Linguística Aplicada, a investigação assume o desenho de um estudo de caso, de abordagem qualitativa e objetivo descritivo-explicativo, desenvolvida sob a ótica da pesquisa-participante e da análise documental. A coleta de dados ocorreu ao longo de um semestre acadêmico, acompanhando-se desde o planejamento até a entrega final de textos escritos, requeridos e produzidos no contexto de realização de uma disciplina. Diários de bordo elaborados pelos discentes ? com registros de conteúdos, percepções de aprendizagens e dúvidas, estratégias de regulação da aprendizagem, processos e decisões autorais a partir de usos de IA Gen, entre outros ? constituíram os documentos analisados neste estudo. Além desse material, em alguns momentos, foram acessados os logs de interação com sistemas de IA Gen e as diferentes versões de produções autorais dos estudantes. Os resultados apontam para a necessidade de uma avaliação que, diante desse novo cenário, desloque-se do produto final para os processos e etapas mobilizados ao longo da formação e das próprias práticas de escrita. O enfoque precisa recair, portanto, sobre o que, no campo de estudos dos letramentos, tem se denominado “práticas de designing” de sentidos, em que se pode dar evidência à agência humana. Para isso, são necessários instrumentos didático-metodológicos que mobilizem e registrem um processo de aprendizagem dialógico, processual e que coloque em ação uma meta-aprendizagem que desperte no estudante a consciência do próprio processo. Assim, a IA Gen pode ser integrada com responsabilidade nos contextos de ensino-aprendizagem, não como uma ferramenta de substituição, mas como um apoio e objeto de reflexão crítica.
Palavras-chave: tecnologia generativa; produção de textos escritos;
MYLLENA ARAÚJO DO NASCIMENTO
[Análise do Discurso]
A trollagem política transfóbica da extrema direita no Instagram: uma análise discursiva dos efeitos de humor na política brasileira
A ascensão da extrema direita no cenário político brasileiro, especialmente desde a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018, e o uso maciço das mídias sociais como ferramenta de comunicação política permitiram que o humor fosse usado como forma de autoproteção diante do discurso de ódio. Assim, desde a campanha presidencial brasileira de 2018, o humor, materializado principalmente pela prática da trollagem política, tem sido regularmente utilizado como forma de discurso de ódio pelo ex-presidente e seus respectivos aliados políticos. Neste trabalho, consideramos o conceito de trollagem política tal como cunhado por Lamerichs et al: “Definimos a trollagem política não apenas como o ato de postar mensagens e memes de ódio, mas como um fenômeno mais amplo através do qual os usuários se envolvem em um comportamento influente e tóxico” (2018, p. 182-183). Dessa maneira, este trabalho pretende analisar o funcionamento da trollagem transfóbica no discurso político brasileiro, focalizando particularmente seus usos na extrema direita, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022). Considerando sua inscrição em certo limiar entre o humor e o discurso de ódio e sua circulação digital, buscaremos identificar, descrever, categorizar e interpretar as principais propriedades da prática da trollagem transfóbica, a produção de seus efeitos, a materialização de seus afetos e as possíveis mutações discursivas que ela promove em modos de dizer do discurso de ódio no campo político. Mais precisamente, nosso objetivo consiste em responder às seguintes questões: quais as condições históricas que possibilitam a emergência da trollagem no discurso político brasileiro contemporâneo? Como se dá sua construção nos limites entre a produção do humor no interior de uma comunidade discursiva e a discriminação dos que lhe são exteriores? O que se trolla nos grupos e sujeitos trollados pela extrema direita e quais afetos se materializam em suas trollagens? Quais são as formas e os recursos discursivos mais recorrentes para que elementos do discurso de ódio possam circular dissimulados sob os efeitos de humor? Com vistas a responder a essas e a outras questões, analisaremos duas postagens veiculadas no perfil do Instagram do deputado federal Nikolas Ferreira (Partido Liberal), realizadas nos dias 26 de setembro de 2021 e 25 de agosto de 2022. Para fazê-lo, nosso trabalho se fundamentará em postulados, noções e procedimentos dos Estudos Discursivos Foucaultianos, mais especificamente aqueles referentes à fase arqueológica de Foucault (2000; 2010; 2014; 2016) e em recentes estudos sobre a trollagem no discurso político. (Apoio: FAPESP Processo 2023/03218-9)
Palavras-chave: Trollagem; Humor; Discurso de ódio
MÔNICA NUBIATO
[Filosofia da Linguagem]
As tensões bivocais no signo ideológico “soberania”: um estudo dialético-dialógico verbivocovisual
Este trabalho investiga a bivocalidade a partir de uma perspectiva ampliada da análise dialógica do discurso, ao assumir a linguagem como verbivocovisual. Parte-se da premissa de que o signo ideológico constitui um espaço de disputa no qual valores sociais se tensionam e se reorganizam continuamente, não apenas em sua materialidade externa, mas também como processo interno cognoscente. O estudo tem como objetivo analisar como diferentes orientações de sentido são produzidas em um mesmo signo ideológico, deslocado do foco das oposições para as tensões dialético-dialógicas. A hipótese que orienta a pesquisa é que a entonação expressiva, compreendida como dimensão constitutiva da materialidade verbivocovisual do signo, funciona como índice privilegiado de observação dessas tensões, ao evidenciar o sentido constituído pela e na articulação entre dimensões verbais, vocais e visuais. O corpus analisado é composto por dois discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, proferidos em 2024: (i) o pronunciamento oficial de lançamento da campanha “Brasil Soberano”, realizado em contexto nacional, e (ii) o discurso de abertura da 79ª Assembleia Geral da ONU, em contexto diplomático internacional. Ambos mobilizam o signo ideológico “soberania”, o que permite observar sua reconfiguração em diferentes condições de produção em um mesmo campo, o político. Metodologicamente, desenvolve-se uma análise qualitativa de recortes discursivos e frames visuais, ao considerar o signo ideológico soberania, bem como marcas entonacionais inferidas, gestualidade, enquadramento e elementos simbólicos dos sujeitos no ato de enunciação discursiva. Busca-se identificar como a materialidade verbivocovisual orienta a produção de sentido. Como resultado inicial, identifica-se que, no pronunciamento nacional, a soberania é construída como valor afetivo, político e mobilizador, articulado à defesa do povo, da economia e da ordem jurídica, com maior variação entonacional e expressividade gestual. No contexto da ONU, a soberania assume caráter mais normativo e jurídico, associada à capacidade estatal e à ordem internacional, com entonação mais controlada e gestualidade contida. Tais diferenças evidenciam que o mesmo signo ideológico se reconfigura no ato discursivo, o que torna perceptíveis tensões valorativas que envolvem o público/auditório a quem/ao qual o sujeito-presidente se dirige e os interesses em questão. Conclui-se que a bivocalidade se constitui na unidade verbivocovisual do enunciado, sendo a entonação um ponto privilegiado de observação das orientações valorativas da produção de sentidos.
Palavras-chave: Bivocalidade; soberania; verbivocovisualidade
NATALIA SILVA DO LAGO
[Análise do Discurso]
A construção discursiva de mulheres na política brasileira contemporânea: gênero, poder e colonialidade
As mulheres enfrentam diariamente obstáculos estruturais como a desigualdade de gênero, estereótipos, pressões sociais sobre corpo e aparência, além de diferentes formas de violência e assédio. Ainda assim, ocupam cada vez mais espaços de destaque na sociedade. Este estudo tem como objetivo analisar a construção discursiva de mulheres que ocupam ou ocuparam posições de destaque na política brasileira, tanto em posições de esquerda (como Erika Hilton, Duda Salabert, Manuela D’Ávila, Dilma Rousseff) quanto de direita (como Bia Kicis, Caroline de Toni, Julia Zanatta etc), em um contexto marcado pela intensa polarização política. Com base em Michel Foucault, o poder estabelece-se como uma rede de relações que atravessa discursos, práticas sociais e processos de subjetivação. Nesse sentido, esta pesquisa busca compreender como as subjetividades das mulheres em cargos e posições políticas se constroem discursivamente a partir de práticas que regulam o que pode ser dito e legitimado no campo político, assim como seus corpos e suas falas são produzidos nas relações de saber/poder. Considera-se que as concepções de gênero foram historicamente construídas e questionadas pelos movimentos plurais do feminismo. Por isso, nossa investigação traça um percurso histórico para entender como a violência de gênero na política se estabeleceu e se legitima constantemente, com base em discursos de ódio que circulam livremente nas mídias sociais a fim de deslegitimar a participação feminina na política brasileira. Para tanto, este trabalho também atenta para as teorias decoloniais desenvolvidas por Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Achille Mbembe que buscam problematizar como a colonialidade reflete no que entendemos como poder, saber e sujeito nas relações sociais atuais e que atravessam a construção discursiva dessas mulheres. Assim, a construção da identidade das mulheres políticas também se ancora na dimensão constitutiva das hierarquias históricas que organizam o espaço político e suas formas de visibilidade. O corpus da pesquisa será composto por postagens em mídias sociais das mulheres já mencionadas, que ocupam uma posição de maior visibilidade na política e utilizam seus perfis para tornar visíveis suas ações e posicionamentos políticos. Espera-se evidenciar que a participação de mulheres na política não supõe, necessariamente, uma ruptura com estruturas históricas de dominação, uma vez que seus discursos continuam sendo regulados por dispositivos que articulam gênero, poder e colonialidade. Ao mesmo tempo, busca apontar fissuras nessa rede de poder que contribuem para a reflexão sobre os limites e as ampliações da representatividade feminina em espaços historicamente marcados pela exclusão.
Palavras-chave: Mulheres na política; Colonialidade; discurso
NATASHA REGINATO MOURÃO
[Sociolinguística e Dialetologia]
“Eu preciso que você entenda”: performance e multimodalidade na produção textual pedagógica de Rita Von Hunty
Este trabalho investiga as condições de produção textual do canal do YouTube Tempero Drag (2015), da drag queen Rita Von Hunty, que atualmente é a maior influenciadora digital (Karhawi 2017, 2022) do campo progressista brasileiro em números de seguidores. O trabalho busca compreender os fatores que sustentam a popularidade e a relevância de Rita no cenário digital contemporâneo. A compreensão desse fenômeno passa por três dimensões articuladas: performance, temática e didatização. A primeira se mostra importante para a compreensão da produção do canal, já que constitui um modo especial de prática comunicativa situada, caracterizada pela reflexibilidade, pela teatralidade e pela hipérbole (Bell & Gibson 2011). Na arte drag, tais recursos são explorados de forma caricatural e subversiva, permitindo sinalizar características reconhecíveis pelo público e produzir efeitos críticos. Além disso, a performance de Rita implica um extenso trabalho estilístico (Eckert & Rickford 2001) a partir da mobilização de traços linguísticos, que contribuem para a construção de personas e projeção de significados sociais. Ao mesmo tempo, a performance implica uma tomada de posição, em que o sujeito, ao invocar o enquadramento performático, assume responsabilidade por sua eficácia comunicativa e alinhamento político (Bauman 2011). Com relação à temática, o canal organiza-se em torno da explicação de conceitos, sobretudo materialistas, abordando temas relacionados à política, cultura e crítica social. Esses eixos temáticos parecem tensionar discursos dominantes e criar espaço para a circulação de perspectivas contra-hegemônicas. A dimensão da didatização parece estar diretamente relacionada ao percurso da própria Rita, que transita entre campos distintos: o artístico, o acadêmico e o político/militante. Ao traduzir conceitos complexos de modo acessível, a produção textual de Rita não apenas divulga, mas também inspira a agir de certo modo pela linguagem no mundo social (Bentes 2024). Considerando que os vídeos pedagógicos (Mourão & Etulain) de Rita Von Hunty são construções textuais de natureza multimodal, o trabalho pretende descrever alguns recursos multimodais mobilizados, em relações de complementaridade e reforço (Bentes 2008), mas também de contraste e tensão. As observações sugerem que a popularidade do Tempero Drag decorre da convergência entre performance, temática e didatização; a partir da mobilização de traços linguísticos e estéticos para a construção de personas e da circulação de conteúdos críticos. Essa convergência está intimamente ligada à multissemiose que caracteriza o canal, pois articula semioses verbais e não verbais de forma a singularizar sua proposta comunicativa e conferir identidade à figura de Rita Von Hunty no espaço digital.
Palavras-chave: drag queen; performance; multimodalidade
NILDICÉIA APARECIDA ROCHA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Ensino de português para falantes de espanhol: proximidades e distanciamentos linguísticos e metodológicos
Esta comunicação tem o objetivo de (re)conhecer e problematizar algumas questões sobre a proximidade linguística e metodológica no ensino da língua portuguesa (foco maior) para falantes de espanhol e também do ensino da língua espanhola para falantes de português em cursos de formação de professores destas línguas no contexto do Mercosul. Os objetivos específicos tratam por um lado de verificar e analisar as abordagens de ensino e aprendizagem empregadas em aulas de Português Língua Estrangeira (PLE) e de Espanhol Língua Estrangeira (ELE) em cursos de formação de professores em Universidades da América do Sul; e, por outro lado, recuperar algumas questões linguísticas sobre a proximidade entre essas línguas, português e espanhol, como o conceito de língua empregado; considerando que o tratamento com a proximidade entre estas duas línguas pode tanto promover a aprendizagem e o ensino e/ou dificultar tal processo. O suporte teórico se apoia nas contribuições de Elizaincín (1996), de Fanjul (2017), de Medina (1997) e de Alonso Rey (2012, 2020, 2024), ao considerar que tais línguas têm uma relação de parentesco inicialmente na origem latina e na formação, a posteriori nos acontecimentos históricos, linguísticos e discursivos, como também especificidades e particularidades sociais, históricas e geograficamente construídas (Arnoux, 2010), fatores que por vezes parecem prescindir de um estudo sistematizado. Metodologicamente, analiso as estruturas dos cursos, especialmente os discursos presentes nos planos de ensino de cada um deles, e em seguida aplico entrevistas, que logo são analisadas, a professores formadores de professores de PLE e de ELE no Mercosul, nomeadamente em universidades da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, mobilizando para tal o conceito de memória discursiva que fundamenta a análise, de modo a recuperar o já dito presente nos respectivos discursos (documentos e entrevistas). A pesquisa desenvolvida tem revelado tanto uma recuperação da perspectiva comparada, por vezes constrativa, no tratamento da proximidade entre estas duas línguas, como também a presença de uma perspectiva teórica e entendimento a partir do conceito de língua como prática social, caminhando em consonância com os estudos atuais em linguística, linguística aplicada e ensino de línguas estrangeiras.
Palavras-chave: Ensino de Português para falantes de espanhol. Pro;
OFELIA REGINA BRAVIN MOREIRA
[Análise do Discurso]
GUERRA CULTURAL E VOZES FEMININAS NA LITERATURA: A RESISTÊNCIA AO
AUTORITARISMO DITATORIAL EM O PARDAL É UM PÁSSARO AZUL (HELONEIDA STUDART) A cultura é um campo de batalha onde discursos e instituições são usados para promover ideologias e influenciar a opinião pública. Neste sentido, conceitos discursivos são armas estrategicamente utilizadas para convencer, atacar pessoas. As artes e a literatura engajadas funcionam como formas de resistência pois permitem denunciar a opressão. Durante a ditadura militar de 1964, no Brasil, artistas, escritores, utilizaram suas obras para denunciar a perseguição do regime de exceção. Nesta comunicação, apresentamos resultados parciais de nossa pesquisa de doutorado, cujo objetivo é analisar o discurso de denúncia produzido por vozes femininas (escritoras e cineastas) atuantes na resistência contra esse regime político repressor. O arcabouço teórico-metodológico está alicerçado nos Estudos Discursivos Foucaultianos e nos estudos históricos sobre decolonialidade (Achille Mbembe e Walter Mignolo), em diálogo com textos sobre os feminismos no Brasil (Lélia Gonzales, Mary del Priore). Nosso corpus de análise é composto pela “trilogia da tortura” (Heloneida Studart), além de textos e vídeos memorialistas, como A Torre das Donzelas (Suzanna Lira). Neste momento, analisaremos a obra O pardal é um pássaro azul, de Heloneida Studart, embasando-nos em conceitos foucaultianos sobre poder, vigilância e punição. Um tema recorrente nessa narrativa é o clima de medo, de silêncio e de perseguição. De acordo com o pensamento foucaultiano, o poder não atua somente pela violência física, mas também pelo controle psicológico e social, levando as pessoas a vigiarem a si próprias por medo da punição. O poder funciona por meio da (auto)vigilância, da disciplina, do controle dos corpos e das ações. Para Foucault (1987, p. 119), “o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma anatomia política, que é também igualmente uma mecânica do poder”. Na Ditadura Militar de 1964, o governo exercia forte controle sobre comportamentos e relações sociais. Na obra analisada, a personagem Marina vive em um mundo que reproduz, metaforicamente, a repressão política, o silenciamento obrigatório e a falta de liberdade, evidenciando que o poder ditatorial agia pelo medo internalizado nas pessoas. Ao expressar essa situação, o romance confronta o poder do Estado ditatorial em um momento político em que, apesar de discursos apontarem para uma abertura política, ainda se mantinha todo o aparato repressivo. Ao enunciar e revelar as prisões, torturas e mortes de adversários políticos, esse texto se engaja na guerra cultural, lutando com as palavras para o restabelecimento da democracia em nosso país. (CAPES-PROEX)
Palavras-chave: Vozes Femininas; Ditadura Militar 1964; Estudos
OLÍVIA FERNANDES BOGO
[Aquisição de Linguagem]
Rastreamento ocular online em psicolinguística: aplicações e limitações metodológicas
Desde a década de 1980, com a formulação da Eye-mind Assumption (Just e Carpenter, 1980), o rastreamento ocular tem se consolidado como uma ferramenta central em pesquisas cognitivas experimentais. Trata-se de um método não invasivo, amplamente utilizado em psicolinguística para investigar o processamento linguístico em tempo real em participantes de diferentes faixas etárias, desde a primeira infância até a população idosa. O objetivo desta apresentação é discutir as aplicações e limitações do uso do rastreamento ocular online, especialmente na investigação do acesso lexical e do processamento linguístico. Nesse contexto, discute-se como esses fenômenos podem ser investigados por meio da análise dos movimentos oculares dos participantes, a partir do Paradigma do Mundo Visual (Tanenhaus et al., 1995), que se caracteriza pela apresentação simultânea de estímulos visuais e auditivos. A utilização de plataformas como o Lookit, desenvolvido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), apresenta vantagens metodológicas, sobretudo para estudos em aquisição de linguagem, uma vez que a coleta dos dados ocorre no ambiente domiciliar da criança, por meio do computador pessoal da família. Isso confere maior validade ecológica aos dados, sem comprometer a confiabilidade científica nem a eficácia do protocolo experimental (Oakes, 2017; Kaduk et al., 2023; Scott et al., 2017; Scott; Schulz, 2017b; Slim et al., 2024). As limitações da plataforma recaem na necessidade de desenvolver os experimentos em linguagens de programação como JSON (JavaScript Object Notation) e JavaScript, bem como na codificação manual dos movimentos oculares, realizada frame a frame, durante a análise dos dados. Ainda assim, o uso do Lookit e de plataformas similares configura-se como uma estratégia metodológica capaz de ampliar e diversificar as amostras em estudos de neurociência cognitiva, especialmente em populações provenientes de países classificados como WILD — Worldwide, In situ, Local, Diverse (Alves et al., 2022) — historicamente sub-representadas nas pesquisas cognitivas (Henrich et al., 2010; Singh et al., 2023), entre eles o Brasil.
Palavras-chave: aquisição de linguagem; psicolinguística; neurociência
PATRICIA ORMASTRONI IAGALLO
[Linguística Cognitiva]
Potência comunicativa na escrita de textos científicos: contribuições da
Linguística Cognitiva e da Estilística A forma como redigimos textos científicos influencia diretamente o modo como eles são processados pelo leitor. Nesse processo de o estudante universitário se constituir um leitor de textos acadêmicos, temos visto muitas fragilidades: dificuldade em sustentar a atenção, interpretar argumentos densos e construir sentido a partir de textos excessivamente abstratos. A leitura de textos científicos torna se cansativa e pouco significativa, limitando o acesso real ao conhecimento. O objetivo deste trabalho é discutir como um texto científico pode ser escrito com mais potencialidade, obedecendo a alguns princípios relativamente simples das figuras de linguagem. Para isso, foi feita uma breve revisão dos principais elementos estilísticos em obras clássicas de Estilística e teóricas como “O design da escrita” (Abreu, 2014) e “Pequeno manual de estilística” (Abreu, 2023), que apresentam argumentos e elementos para essa escrita mais poética. Uma escrita científica pode ser poética quando reconhece que rigor e imaginação não são opostos, mas parceiros cognitivos. Ela continua comprometida com a precisão conceitual, argumentação sólida e responsabilidade teórica, porém incorpora recursos que ativam imagens mentais, ritmo, metáforas e escolhas lexicais que despertam sensações. Não se trata de “embelezar” o texto, e sim de ampliar sua potência comunicativa, mais acessível e cognitivamente mais eficaz. A leitura mobiliza dois sistemas cognitivos: o sistema 1, intuitivo, imagético e emocional, ligado ao hemisfério direito do cérebro, e o sistema 2, analítico e racional, associado ao hemisfério esquerdo, trabalham juntos na construção de sentido. No entanto, a tradição acadêmica privilegia quase exclusivamente o sistema 2, produzindo textos excessivamente abstratos, pouco imagéticos e, portanto, menos acessíveis. Autores como McGilchrist (2019) defendem que a cognição humana depende da cooperação entre esses dois modos de interpretar o mundo. Estimular apenas o pensamento lógico empobrece a experiência cognitiva e reduz o potencial de compreensão e engajamento. Assim, tornar textos científicos mais atraentes — incorporando metáforas, narratividade, imagens mentais e recursos estilísticos — não é um mero adorno, mas uma estratégia fundamentada em evidências neurocientíficas.
Palavras-chave: linguística cognitiva; estilística; texto científico;
PATRICIA SILVA DE CAMARGO
[Neurolinguística]
Eletrocorticografia (EcoG) para avaliação de linguagem durante cirurgia de tumor cerebral com o paciente acordado
Atualmente, o padrão-ouro de mapeamento de linguagem intraoperatório é a estimulação elétrica direta, devido à sua precisão e confiabilidade na detecção de áreas eloquentes durante a remoção de tumores cerebrais com o indivíduo acordado. Uma técnica alternativa utilizada para o mapeamento de linguagem é a Eletrocorticografia (ECoG). Esta técnica eletrofisiológica utiliza um grid de eletrodos colocados diretamente sobre a superfície do córtex cerebral para monitorar a atividade elétrica de áreas específicas, sem a necessidade de aplicação de estimulação elétrica direta. ECoG é uma ferramenta eficaz por apresentar boa resolução temporal e espacial, permitindo capturar a atividade de gama alta (70-150 Hz), associada à produção da fala, além de possibilitar a identificação de áreas de linguagem no cérebro. Nesse contexto, a avaliação funcional da linguagem durante cirurgias de tumor cerebral com o paciente acordado é essencial para identificar áreas corticais que devem ser preservadas. Entretanto, os protocolos atuais costumam ser extensos, aumentando o tempo cirúrgico e o risco de complicações. Para enfrentar esse desafio, desenvolvemos o Mini-Intraoperative Language Test (MILT), uma bateria breve de linguagem integrada a uma escala de decisão baseada em valor para orientar a ressecção de áreas relacionadas à linguagem. O MILT contribui para o desenvolvimento de uma escala de risco de afasia e estabelece um mapa que correlaciona regiões corticais estimuladas com déficits específicos de linguagem, servindo como guia para futuras cirurgias. A eletrocorticografia intraoperatória complementa essa abordagem ao aprimorar a precisão do mapeamento da linguagem, reduzir o tempo cirúrgico e minimizar o risco de afasia pós-operatória. Em nossos estudos, utilizamos registros eletrocorticográficos intraoperatórios para identificar áreas corticais que apresentam modulação na banda gama durante tarefas de linguagem, permitindo o reconhecimento de áreas eloquentes da linguagem sem a necessidade de estimulação elétrica direta. Correlacionar a atividade na banda gama em regiões corticais relacionadas à linguagem com o desempenho na bateria intraoperatória MILT pode reforçar o uso do ECoG como uma ferramenta eficaz para a identificação de áreas eloquentes. A modulação da banda gama é reconhecida como um importante marcador eletrofisiológico da linguagem, e sua análise mais aprofundada pode avançar significativamente os estudos de decodificação da fala em pacientes com lesões neurológicas e afasia.
Palavras-chave: eletrocorticografia; mapeamento de linguagem;
PAUL FERNAND DA CUNHA LEITE
[Análise do Discurso]
“POESIA ERA COISA DE MULHER”: VERGONHA E GÊNERO EM DISCURSOS SOBRE A
LEITURA Nesta comunicação apresentaremos algumas reflexões iniciais derivadas da pesquisa de Mestrado “A vergonha e o orgulho quando (não) se é leitor: discurso, emoções e leitura” (FAPESP 2025/04937-4), inscrita na pesquisa geral “O orgulho, a vergonha e outros afetos: uma análise das emoções em discursos sobre a leitura”, coordenada pela docente Luzmara Curcino (CNPq 305682/2022). Tendo em vista nosso objetivo geral de analisar discursos sobre a leitura com foco no papel desempenhado pelas emoções da “vergonha” ou do “orgulho” relacionadas a essa prática, analisaremos uma amostra de 2 enunciados de um corpus de textos coletados nos acervos digitais dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, que foram organizados em 5 categorias, em função do modo como evocavam, de forma direta ou indireta, essas emoções em referência à leitura ou a leitores: 1) leitor orgulhoso; 2) leitor com orgulho alheio; 3) (não) leitor envergonhado; 4) (não) leitor com vergonha alheia; 5) leitor cuja condição orgulhosa é afirmada por meio de alusão a comportamentos ou escolhas normalmente consideradas vergonhosas quando o assunto é a leitura. Os 2 enunciados, tanto em sua materialidade linguístico-discursiva, quanto em sua condição de acontecimento (Foucault, 1999), fazem parte do conjunto de enunciados desse nosso corpus relacionados à evocação da “vergonha”. No primeiro, em relato em 1ª pessoa, estamos diante de um dado da categoria 3, relativo a um jovem que temia ser flagrado lendo poesia. No segundo, em 3ª pessoa, faz-se referência a leitores que não estão ainda familiarizados com o uso da linguagem neutra em obras ficcionais literárias. Além da atualização de consensos sobre a leitura, é possível observar nesses dois enunciados, por parte de seus enunciadores, uma antecipação de julgamentos sociais relacionados ao tema do gênero, o que os compele a se manifestarem de forma precavida, modalizada, como se confessassem práticas, escolhas, traços de seu perfil leitor ou do perfil leitor alheio marcados por nuances relacionadas à vergonha, por não coincidirem com representações idealizadas do que é ser leitor (Curcino, 2019; Silva & Curcino, 2023). Em nossa análise, nos baseamos em princípios da Análise do Discurso, em especial a partir de Michel Foucault, da História cultural da leitura, segundo Roger Chartier, da Sociologia da distinção cultural segundo Pierre Bourdieu e da História das sensibilidades, conforme Jean-Jacques Courtine.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Leitura; Emoções;
PAULA CRISTINA CORREA CAPELOZZA
[Semiótica]
Estratégias discursivas nos materiais didáticos digitais de Língua
Portuguesa: uma abordagem semiótica na educação básica A crescente presença de tecnologias digitais no contexto educacional tem impactado não apenas os conteúdos e formatos dos materiais didáticos, mas também os modos de leitura e produção de sentidos neles inseridos. No ensino de Língua Portuguesa, essas mudanças afetam não apenas os conteúdos e os gêneros textuais selecionados, mas também as formas de apresentação e exploração desses textos, uma vez que, hoje, coexistem em diferentes suportes: o impresso e o digital. Nesse cenário, observa-se a circulação de textos originalmente digitais que, ao serem incorporados aos materiais didáticos, passam por processos de adaptação para o suporte impresso no livro do estudante. Tal movimento suscita a seguinte questão: de que modo as mudanças de suportes interferem na organização textual, nos processos de enunciação e nas estratégias discursivas que orientam a leitura? Diante disso, o objetivo principal deste trabalho é investigar as estratégias discursivas mobilizadas em materiais didáticos de Língua Portuguesa na Educação Básica, considerando as diferentes construções de sentido que emergem do uso dos suportes digital e impresso. Parte-se da hipótese de que a transposição do digital para o impresso não é neutra, implicando reconfigurações discursivas relevantes. Enquanto o ambiente digital favorece a hipertextualidade, a interatividade e a integração de múltiplas linguagens, o suporte impresso tende à linearidade e à estabilidade, o que impacta os modos de leitura e os efeitos de sentido produzidos. Para fundamentar esta pesquisa, mobilizam-se as teorias do texto e do discurso, em especial a Semiótica Discursiva, com base em Barros (2005) e Fiorin (2000; 2024). Articula-se, ainda, às noções de práticas semióticas, segundo Fontanille, (2008) e Schwartzmann, (2018), permitindo compreender os materiais didáticos como modos de produção e circulação de sentidos socialmente situados. Complementam essa abordagem os estudos sobre discurso digital, Paveau (2022), e multiletramentos Rojo (2012), que evidenciam a centralidade da multimodalidade na contemporaneidade. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa e se desenvolve por meio da análise pontual da reportagem jornalística intitulada “Com a maior câmera digital do mundo, Observatório Vera Rubin promete revolucionar os estudos sobre a matéria escura”, publicada em 2024 no site Jornal da Unesp e incorporada nos materiais didáticos do Estado de São Paulo, com alunos do 6º ano do Ensino Fundamental.
Palavras-chave: Semiótica Discursiva; Enunciação; Material didático.;
PEDRO HENRIQUE CAMARGO FREIRE
[Historiografia Linguística]
Uma análise historiográfica sobre o ensino de linguística no ensino superior: os manuais de introdução como material de formação científica
O uso de manuais para a formação científica é recorrente nos anos iniciais do ingresso nas Instituições de Ensino Superior (IES). Essa prática, apesar de comum, acarreta problemas na interpretação do fazer científico pelos estudantes que, no inicio da sua formação, tomam muitas vezes aquele conteúdo como verdadeiro, apesar de serem, de maneira geral, bem reduzidos no escopo do que é considerado como ciência. Na visão de Kuhn (1968), os manuais de introdução à ciência frequentemente apresentam apenas os últimos avanços e reconstroem sem veracidade a história do desenvolvimento da área, produzindo uma historiografia cumulativa do conhecimento e apagamentos históricos. Com o objetivo de analisar se as proposições de Kuhn aplicam-se à área de linguística no Brasil, principalmente no momento de institucionalização da disciplina (1960-1970), examinamos os primeiros manuais de introdução geral à linguística publicados nessa época. Para realizar tal exercício, ancoramos nossa metodologia e arcabouço-teórico na área da Historiografia Linguística, seguindo os parâmetros gerais de Swiggers (2012), Koener (2014), Altman (2004) e Coelho (2024) e a análise do caráter social dos grupos científicos, conforme argumentado por Murray (1994). Nesse sentido, verificamos a circulação desses livros nos ementários dos quatro cursos de linguística do Brasil (Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Federal de Goiás e Universidade Federal de São Carlos, seguindo as proposições da construção de um material epi-historiográfico como corpus para análise historiográfica e identificamos o modo como esses materiais construíram a narrativa a respeito da história de sua disciplina. Para isso, as quatro categorias definidas por Koener (2014) sobre as narrativas historiográficas foram basilares para a interpretação desses textos. Como resultado, constatamos que há certa coerência entre os apontamos de Kuhn (1968) e que, além da função de transmitir conhecimentos da área, esses manuais também exerceram uma função social de corroborar para a sedimentação de agendas de pesquisa específicas da ciência da linguagem no Brasil.
Palavras-chave: Ensino de Linguística; Ensino Superior; Historiogr;
PEDRO HENRIQUE SOUSA DOS SANTOS
[Neurolinguística]
Processamento automático da linguagem: o que (não) fazemos sem perceber que fazemos?
Desde seu surgimento, o campo da linguística experimental conhecido como Neurociência da Linguagem se dedicou a entender como a linguagem é processada no cérebro durante tarefas de produção e, principalmente, compreensão (Brennan, 2022). Na subárea da eletrofisiologia (França, 2002; Gesualdi; França, 2011; Luck, 2014), estudos com eletroencefalograma (EEG) começaram a detectar respostas do cérebro à incompatibilidade semântica (Kutas; Hillyard, 1980) e morfossintática (Gouvea, 2011) em diversas tarefas, como priming, decisão lexical, leitura automonitorada, entre outras. Essas tarefas, contudo, tocam num nível de processamento mais consciente, visto que os sujeitos direcionam a atenção aos estímulos. Porém, mais recentemente, têm sido desenvolvidos estudos que analisam o processamento da linguagem quando não há atenção direcionada ao estímulo, os quais reportam um componente mais precoce conhecido como Mismatch Negativity (MMN; Näätänen et al., 2001), sensível a diversos níveis linguísticos (Duncan et al., 2009; Fitzgerald; Todd, 2020). Para discutir como o MMN pode contribuir para entender o processamento linguístico automático, este trabalho visa detalhar como o componente é elicitado, quais suas bases neurofisiológicas e quais níveis linguísticos podem ser avaliados na pesquisa com EEG (Pulvermüller; Shtyrov, 2006; Monahan et al., 2022; Cabral, 2026). Além disso, são discutidas potencialidades e limitações do componente. Por exemplo, uma recente aplicação dele é na discriminação de variedades linguísticas (Santos, 2026): a palavra “tio” era apresentada auditivamente variando entre a forma de falar oclusiva ['ti.?] e a palatalizada ['t?i.?], enquanto o participante assistia a um filme mudo que demandava a sua atenção. Com isso, foi possível identificar se a informação sobre “quem diz”, ou seja, sobre formas de falar de outra comunidade de fala (Labov, 2008[1972]), é percebida automaticamente durante o processamento do item lexical, i.e., a informação sobre “o que é dito”. Desse modo, busca-se expandir a discussão sobre experimentos na linguística, partindo para um nível cognitivo fora dos paradigmas mais comumente utilizados.
Palavras-chave: Mismatch Negativity; Percepção Sociolinguística;
PEDRO HENRIQUE TRUZZI DE OLIVEIRA
[Gramática Funcional]
Representação de Construções de Voz na Gramática Discursivo-Funcional
As construções de voz recebem tratamento amplo na literatura, o que inclui discussões sobre sua origem nas gramáticas clássicas do grego (Lyons, 1968; Benveniste, 1976), explicações formalistas (Faltz, 1977) e explicações funcionalistas (Givón, 1984; Geniušieme, 1987; Haspelmath, 1993). Na esteira da linguística funcionalista de linha holandesa, a Gramática Discursivo-Funcional (Hengeveld e Mackenzie, 2008, doravante GDF) propõe um arcabouço de análise linguística que parte das formulações pragmáticas e semânticas, dos níveis Interpessoal e Representacional, para explicar as codificações morfossintáticas e fonológicas, compreendidas pelos níveis Morfossintático e Fonológico. A GDF postula a existência de primitivos interpessoais e representacionais, entre os quais estão moldes semânticos de predicação e as funções pragmáticas e semânticas. Giomi (2020, 2021) propõe moldes de predicação para a voz reflexiva em uma perspectiva tipológica. Keizer (2014) faz uma análise detalhada e propõe cinco motivações funcionais e uma afuncional para a diátese passiva ao invés da ativa na língua inglesa. A teoria da GDF em Hengeveld e Mackenzie (2008) explica construções de voz utilizando-se de razões contextuais e regras de alinhamento interpessoal, representacional e morfossintático. O objetivo deste trabalho é refinar os mecanismos de representação de voz dentro da teoria discursivo-funcional de gramática. Para isso, buscou-se, em um amplo banco de dados de línguas indígenas do Brasil, materiais descritivos (dissertações, teses e gramáticas) com informações sobre construções de voz de redução valencial – reflexiva, recíproca, passiva, antipassiva e anticausativa – a partir dos quais foi composto um corpus de 80 línguas. Com base em análises preliminares, propõe-se moldes de predicação e distribuição de funções pragmáticas e semânticas em elementos de morfossintaxe e morfologia para cada voz. Em vista do detalhado trabalho de Giomi (2021) para os moldes de predicação da voz reflexiva, este trabalho foca em propor representações para a voz recíproca, a voz passiva, a voz antipassiva e a voz anticausativa. O tratamento de cada voz parte da literatura funcionalista e de viés tipológico sobre o assunto (Shibatani, 2004, 2006; Dixon, 2010; Givón 2001; Sansò, 2017; Zúñiga; Kittilä, 2019, Creissels, 2024).
Palavras-chave: tipologia; gramática discursivo-funcional;
POLIANA MAGALHÃES OLIVEIRA
[Semiótica]
A função de conceptualização no arranjo sintagmático da linguagem cinematográfica
Nossa pesquisa tem como objetivo central compreender como se dá a construção da dimensão estética do filme enquanto objeto artístico. Partimos da abordagem da linguagem cinematográfica enquanto semiótica sincrética (Beividas, 1983) e consideramos o filme um enunciado cuja interface sensível pode ser mapeada por meio do aparato teórico oferecido pela teoria semiótica de linha francesa. Objetiva-se mapear quais estratégias de textualização são mobilizadas e como a superfície sensível do filme (enquanto texto) entra na constituição final de significação prevista por ele. Nosso empreendimento teórico e analítico parte do conceito hjelmsleviano de sincretismo, definido como “a categoria estabelecida por uma superposição (nos dois planos da língua)” (Hjelmslev, 2013, p. 93). Ainda que seus exemplos sejam mais fonológicos, o linguista dinamarquês traz contribuições para um conceito mais geral e sua manifestação por fusão ou implicação: quando ocorreria a “manifestação de um sincretismo que, do ponto de vista da hierarquia da substância, é idêntico à manifestação de todos ou de nenhum dos funtivos que entram num sincretismo” ou "a manifestação de um sincretismo que, do ponto de vista da hierarquia da substância, é idêntico à manifestação de um ou vários funtivos que entram no sincretismo, mas não de todos” (idem, p. 95). Além de fundamentarmos o conceito de sincronia em Hjelmslev, consideramos o modelo hipotético de Beividas em prol de uma significação global, elaborado para dar conta do arranjo das variadas formas de expressão que os diferentes códigos assumem em uma semiótica sincrética como o cinema. Esse arranjo seria então responsável por instaurar o “sentido da expressão” ou o efeito de sentido específico da linguagem em exame e sua constituição enquanto objeto semiótico. Sendo assim, Beividas concebe o código “como uma competência semiótica (do destinador e do destinatário), capaz de gerar e de articular a significação, cada vez mais refinadamente, em diferentes níveis de profundidade” (Beividas, 2006, p. 74). Como parte da pesquisa em desenvolvimento no doutorado, buscamos neste trabalho apresentar nossa investigação em Pottier (1974; 1978) do conceito de conceptualização, fenômeno fundamental de apreensão mental para seleção de elementos da percepção, segundo o qual seria possível criar simulacros metodológicos de construção desse mecanismo a partir do texto. Com isso, avançamos para um melhor entendimento e descrição do que propôs Beividas (1983) chamar de função de conceptualização, função esta que operaria a conversão sintagmática do arranjo pluricódico do filme em nosso estudo sobre a linguagem cinematográfica.
Palavras-chave: semiótica discursiva; linguagem cinematográfica; função
PRISCILA MARA SIMÕES
[Línguas de Sinais]
A DISTRIBUIÇÃO SINTÁTICA DE MODALIZADORES NA LIBRAS SOB A PERSPECTIVA
PROSÓDICA Este trabalho investiga a distribuição sintática dos modalizadores em enunciados da língua brasileira de sinais (libras), com o objetivo de determinar se esses itens ocupam preferencialmente as posições inicial, medial ou final das unidades entoacionais. A pesquisa fundamenta-se na tipologia de van der Auwera e Plungian (1998), que categoriza a modalidade em epistêmica (certeza e dúvida) e não epistêmica (deôntica e capacidades internas/externas ao participante). No âmbito da segmentação linguística, adotam-se os critérios de Leite (2007) e Leite e McCleary (2011), que estabelecem pistas prosódicas visuais (manuais e não manuais) como determinantes para a identificação das fronteiras das unidades gramaticais em línguas sinalizadas. A metodologia consistiu na análise de vídeos de sinalização espontânea extraídos do canal Is Flocos, selecionados pela qualidade da imagem e visibilidade dos articuladores. Os dados foram anotados no software ELAN, considerando nove trilhas de análise, incluindo glosa, movimentos das sobrancelhas, olhos, piscadas, boca, cabeça e tronco. Foram analisados oito modalizadores específicos, a saber: POSSÍVEL-S, POSSÍVEL-L, POSSÍVEL-A, IMPOSSÍVEL-U, IMPOSSÍVEL-V, OBRIGATÓRI@, NECESSÁRI@-A e INCERTO-2. A identificação das unidades prosódicas baseou-se em marcas como a redução fonética (sinal de junção e coesão interna) e o alongamento final ou repetição de movimentos (sinais de disjunção e fronteira), além de marcadores pontuais como piscadas e acenos de cabeça. Os resultados demonstram que os modalizadores na libras podem ocorrer em todas as posições da unidade entoacional, ou seja, final e não final, utilizando marcas variadas de segmentação prosódica. Notavelmente, observou-se que um mesmo item lexical pode ocupar diferentes posições, o que sugere que a distribuição dos modalizadores não é fixa. Tais resultados divergem de descrições anteriores da literatura, como as de Shaffer e Janzen (2016) para a ASL e Ferreira-Brito (1995) para a Libras, que apontavam uma tendência de modalizadores epistêmicos se concentrarem na posição final do enunciado. Conclui-se que a distribuição sintática desses elementos é flexível e sensível à organização informacional e à intenção discursiva do sinalizante, reforçando a importância da prosódia para a compreensão da estrutura gramatical das línguas de sinais.
Palavras-chave: libras; modalizadores; prosódia;
PÂMELA DA SILVA ROSIN
[Análise do Discurso]
Práticas de leitura e escrita em notas: uma análise discursiva da técnica de seleção e citação de frases de intelectuais brasileiros
Este trabalho é um recorte de nosso projeto de pós-doutorado, em fase inicial, em que buscamos dar continuidade a nossas análises de práticas de leitura e escrita relativas à composição de cadernos de notas, particularmente, no que diz respeito ao estudo da técnica de seleção de frases cujo objetivo é empreender uma “leitura-seleção” para uma “escrita-coleção”, isto é, da leitura com vistas à seleção do que foi lido para guardar os “melhores” enunciados em “repositórios” (textos-intermediários a fim de ganhar ou não uma nova circulação em novos textos). Trata-se de uma técnica há muito empregada, que faz parte da história da leitura e da escrita. No entanto, ela guarda especificidades em contextos de escrita complexa, como é o caso para escritores profissionais e para a escrita acadêmica, como constatamos em pesquisa anterior, dedicada à análise de cadernos de notas de dois intelectuais brasileiros que também desempenharam funções políticas de destaque. De modo a dar continuidade a esse estudo, nesta pesquisa visamos estudar cadernos de notas de uma intelectual brasileira, socióloga e militante Heleieth Saffioti cujas anotações e os cadernos de notas se encontram em seu acervo pessoal “a biblioteca Heleieth Saffioti” na Chácara Sapucaia na UNESP – FCLAR. Para tal, nos apoiamos em princípios e conceitos da Análise do Discurso e da História Cultural da leitura. Como todo e qualquer objeto cultural, esses cadernos indiciam discursos e representações que estão na origem de sua produção e na determinação das suas condições culturais de existência. No caso específico dos cadernos de notas, interessamo-nos pelas práticas leitoras de intelectuais, pois a forma como leem, selecionam frases, as preservam, as colecionam e as classificam, isto é, a forma como preveem escrever seus textos e com eles constituir sua obra é em razão, em grande medida, de discursos e representações do que é a leitura, a escrita, do que é ser intelectual, escritora e autora em nossa sociedade, em um determinado momento histórico.
Palavras-chave: Discurso; Leitura e escrita; Cadernos de notas;
RACHEL FERREIRA OLIVEIRA SANTOS
[Formação de professores]
Formação docente inicial e tecnologias digitais
Esta comunicação apresenta resultados parciais de uma pesquisa em desenvolvimento que investiga como estudantes universitários veteranos, em formação docente inicial, compreendem e mobilizam tecnologias digitais em suas práticas acadêmicas. O objetivo consiste em compreender como esses sujeitos significam, incorporam e problematizam o uso de tecnologias em práticas acadêmicas e cotidianas, tendo em vista suas implicações sobre as formas de estudar, elaborar textos e atuar em distintos contextos. Parte-se da compreensão do digital para além de sua dimensão instrumental, situando-o como parte de ecologias sociomateriais e de mediações algorítmicas que atravessam a experiência formativa. Trata-se de uma pesquisa de abordagem mista, baseada em questionário aplicado a estudantes de diferentes licenciaturas (n=128), complementado por entrevistas semiestruturadas (n=12). Os resultados parciais indicam a naturalização do uso das tecnologias digitais nas práticas acadêmicas, bem como a coexistência de práticas online e offline, articuladas nos processos de busca de informações, leitura, escrita, consumo de vídeos educacionais e organização dos estudos. Observa-se ainda uma criticidade incipiente frente às mediações algorítmicas e à inteligência artificial, configurando um perfil pragmático, orientado por critérios de funcionalidade. Nesse contexto, emergem questões como menor aproveitamento na leitura em ambientes digitais, avaliações dos vídeos educacionais como apoio ao estudo e a adequação do suporte ao local e ao tipo de atividade acadêmica. Verifica-se também o uso naturalizado de ferramentas de IA quando as mediações são mais implícitas, como corretores e tradutores, e maiores questionamentos quando se trata de mediações mais explícitas, como ChatGPT e Gemini, além de preocupações com confiabilidade, autoria e impactos do uso de tecnologias, especialmente da inteligência artificial, na aprendizagem. Tais aspectos evidenciam uma relação ambivalente com o digital, marcada pela coexistência entre uso recorrente de caráter instrumental e níveis ainda incipientes de problematização dessas tecnologias. Assim, a formação docente inicial ocorre em um cenário no qual o uso intensivo de ferramentas digitais não é acompanhado, na mesma medida, por processos formativos que considerem suas implicações pedagógicas, epistemológicas e sociais. Nesse sentido, o estudo contribui com esse campo, ao evidenciar a necessidade de compreender as tecnologias digitais como estruturantes das práticas acadêmicas e dos modos de produzir conhecimento no ensino superior.
Palavras-chave: formação docente inicial; tecnologias digitais; práticas
RAFAEL CAVICHIOLLI TEIXEIRA
[Línguas de Sinais]
Língua de sinais de hoje e de ontem: para o registro da sociohistória do
Instituto Santa Terezinha Este trabalho tem como objetivo apresentar um projeto, a ser desenvolvido em nível de doutorado, de documentação e análise sobre a evolução e a preservação da língua de sinais usada por alunas surdas do Instituto Santa Terezinha, na cidade de São Paulo. O projeto visa investigar, considerando tanto aspectos sociohistóricos da comunidade surda quanto experiências de vida dessas ex-alunas do instituto, registros e evidências do uso de línguas de sinais antes da instituicionalização e reconhecimento oficial da Língua Brasileira de Sinais, em 2002. Esses registros podem revelar estruturas linguísticas que emergiram e passaram a ser compartilhadas de forma natural a partir da convivência regular de pessoas surdas num mesmo espaço. Esta pesquisa tem interesse linguístico, histórico e social, ao se voltar para uma observação sincrônica do uso da língua de sinais com vista a acessar usos que remontam a sincronias pretéritas. Nossa metodologia se apoia na proposta laboviana de "mudança em tempo aparente”. Labov (2008 [1972]) propõe que a mudança em progresso pode ser atestada no confronto entre dados de sujeitos de diferentes faixas etárias, pois haveria uma tendência à manutenção de padrões de usos linguísticos fixados até mais ou menos os 15 anos de idade. Desse modo, dados produzidos por um sujeito de 70 anos representariam um estágio de língua de 55 anos atrás. A realidade do nosso grupo linguístico e os objetivos da pesquisa se diferem das pesquisas sociolinguísticas clássicas que se apoiam nos pressupostos labovianos. Todavia, nos valemos dessa hipótese para tentar acessar um estágio de uso de língua de sinais anterior ao seu processo de institucionalização no Brasil. O estudo apoia-se em uma abordagem qualitativa, de caráter descritivo e analítico, com enfoque histórico e etimológico. O quadro teórico-metodológico articula contribuições da Linguística das Línguas de Sinais, da Sociolinguística e da Linguística Histórica, considerando as línguas de sinais como sistemas linguísticos naturais, dotados de estrutura própria e sujeitos a processos de variação e mudança. A pesquisa dialoga com estudos sobre documentação linguística e preservação de línguas ameaçadas, especialmente no contexto das línguas de sinais. A metodologia de coleta de dados será realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, entrevistas sociolinguísticas e tarefas de elicitação lexical. Os dados serão organizados, anotados e analisados com o auxílio do software ELAN, permitindo a descrição de aspectos fonológicos, morfológicos e semânticos dos sinais, bem como a investigação de sua etimologia.
Palavras-chave: sóciohistória da língua de sinais; variação e mudança
RAFAEL MARCURIO DA COL
[Análise do Discurso]
“Nós vamos sorrir. Sorriam!”: um estudo discursivo foucaultiano das resistência no cinema sobre a ditadura civil-militar brasileira
Este trabalho tem como objetivo divulgar os resultados da pesquisa de doutoramento intitulada “As resistências em filmes nacionais sobre a ditadura civil-militar (1979-2018): o método arquegenealógico na análise do discurso cinematrográfico” e ampliar o escopo estudado para obras cinematográficas lançadas recentemente que tocam nessa temática. Verificamos, com isso, diferentes formas de resistências ao longo da história do cinema brasileiro, desde o ano de 1979 até os dias atuais, contando com filmes recentes como: “Ainda Estou Aqui” (2025) e “O Agente Secreto” (2026). Esta ampliação se dá por conta da relevância social e estética de como estes filmes retratam as memórias deste período da história do Brasil. Analisamos este corpus a partir dos Estudos Discursivos Foucaultianos que consideram, pelo menos, três níveis de análise: o primeiro leva em conta as construções dos enunciados em seus mecanismos, no caso, temos o desenvolvimento da linguagem cinematográfica que pode levar a múltiplos efeitos de sentido; o segundo trata as relações microfísicas de poderes, saberes e resistências que envolvem estas produções; e, por fim, o terceiro discute as posições dos sujeitos nestes enunciados e analisa as subjetividades revolucionárias no cinema e seus enfrentamentos. As análises evidenciam que aquilo que emerge em determinado momento histórico sobre a ditadura civil-militar é fruto de lutas e de políticas de memória que acabam culminando em produções cinematográficas que retratam determinadas subjetividades e verdades em circulação naquele período. No entanto, muitos acontecimentos ainda permanecem apagados e esquecidos em relação às ações repressivas da ditadura e estas produções desempenham a função primária de lançar luz nesse tema para, como consequência, informar, instigar e educar as novas gerações sobre aquilo que aconteceu durante os anos de chumbo no Brasil. Nesse sentido, um dos principais resultados obtidos com a pesquisa é que a instauração, bem como os relatórios da Comissão Nacional da Verdade, conjuntamente com novos estudos historiográficos, foram responsáveis por trazer novas subjetividades ao centro das discussões e fomentar novas produções cinematográficas. Assim, buscamos demonstrar que o cinema brasileiro é um lugar efetivo para manifestação das memórias que buscam mostrar as diversas formas de levantes e insurgências contra os governos autoritários que se instauraram no Brasil desde 1964.
Palavras-chave: arquegenealogia; cinema brasileiro; ditadura
RAFAELA DE MEDEIROS ALVES KOROSSY
[Línguas de Sinais]
A variação lexical, morfossintática e fonológica na incorporação de numeral na libras
A presente pesquisa analisa a variação morfossintática, lexical e fonológica no processo de incorporação de numeral na língua brasileira de sinais (libras). Esse processo morfológico consiste na modificação de sinais relacionados a conceitos como tempo, ordem e valores monetários, substituindo suas configurações de mão pelas utilizadas nos numerais cardinais. Tal processo permite quantificar diretamente o significado do sinal base, como no caso da adaptação do sinal SEMANA para UMA-SEMANA ou DUAS-SEMANA. Pesquisas com surdos sinalizantes de São Paulo indicaram variações nesse processo, tanto no número até o qual a incorporação é possível quanto na aplicação consistente ou não da modificação entre os sinalizantes. Com base nisso, esta investigação analisa dados do mestrado da primeira autora, realizado em 2024, a partir de duas variedades regionais da libras em Pernambuco e Paraná. O objetivo desta pesquisa é identificar possíveis diferenças na incorporação de numerais, considerando três níveis de variação - (a) morfossintático, (b) lexical e (c) fonológico, nos sinais ANO, MÊS, SEMANA, DIA, DURAÇÃO-EM-HORAS, VEZ, ORDINAL, SÉRIE-ESCOLAR e REAL. A análise considera a produção de oito surdos sinalizantes: dois casais (homem e mulher) do Pernambuco e do Paraná. Os resultados mostram, em relação à morfossintaxe, variação no número até o qual a incorporação ocorre. Essas variações foram observadas tanto na produção de um mesmo sinal por diferentes sujeitos (variação intersujeito) quanto por um mesmo sinalizante (variação intra-sujeito). Entre os exemplos observados, destaca-se a variação no uso do sinal REAL nas diferentes variedades analisadas. Para dois participantes de Pernambuco e um do Paraná, a incorporação de numerais nesse sinal foi até nove, enquanto em outro participante paranaense, apareceu apenas até o quatro. No sinal SEMANA, sua produção seguiu padrão inverso: embora a incorporação de numerais até quatro seja possível, apenas um participante do Paraná não apresentou esse registro. Em relação à variação lexical, verificou-se que o sinal VEZ apresenta o maior número de variantes entre os sinais analisados, totalizando quatro formas distintas. Por fim, no que diz respeito à variação fonológica, foram observadas mudanças principalmente na localização, no movimento e na orientação da palma, como no sinal DIA. Além disso, observaram-se formas analíticas, ou seja, sem incorporação, apresentando ou não assimilação da configuração do numeral durante a produção do sinal seguinte.
Palavras-chave: libras; incorporação numeral; variação;
RAIANE DOS ANJOS PEREIRA
[Fonética e Fonologia]
Pausas, ritmo e fraseamento prosódico em batalhas de rima
Este trabalho tem como objetivo analisar as relações entre ritmo musical e ritmo linguístico no gênero rap, focalizando a ação das pausas na manutenção das coincidências e não coincidências entre proeminências, a partir de dados extraídos de batalhas de rima. Parte-se da hipótese de que proeminências musicais combinam-se prioritariamente com proeminências linguísticas e de que as não coincidências, embora possíveis, tendem a se restringir a usos estilísticos, uma vez que a manutenção de um padrão rítmico depende da recorrência de estruturas. O corpus é constituído por dados coletados em campo, provenientes da etapa final do Circuito Paulista de Batalhas de MCs, realizada no estado de São Paulo, totalizando aproximadamente uma hora de gravações, com a participação de 16 MCs. Trata-se de um contexto de produção espontânea de fala, com alternância de turnos entre os participantes, o que intensifica a aproximação entre fala e música característica do rap, gênero que se configura como um “canto falado”. Após a coleta, os dados são segmentados por turnos de fala, transcritos e analisados inicialmente a partir da observação das coincidências e não coincidências entre proeminências musicais e linguísticas e, posteriormente, segundo a Fonologia Prosódica no que diz respeito ao fraseamento. As pausas são identificadas e marcadas no software Praat, a partir do qual se extraem medidas de duração e parâmetros entoacionais, especialmente relacionados à frequência fundamental (F0), com atenção às regiões de fronteira prosódica, verificando-se a qualidade das pausas e se estas ocorrem em ambientes previstos ou não pela literatura. A pesquisa encontra-se em andamento, com análises já sendo realizadas. Resultados preliminares indicam que as pausas atuam na organização do fraseamento prosódico e na delimitação de unidades rítmicas, podendo exercer tanto função estrutural quanto estilística nas performances dos MCs. Espera-se, ao término da investigação, contribuir para a compreensão do ritmo no português brasileiro, no que diz respeito à interface entre fala e música em contextos de produção espontânea.
Palavras-chave: Pausa; ritmo; rap;
RAIANE DOS ANJOS PEREIRA
[Fonética e Fonologia]
O rap como laboratório para o ritmo linguístico
O rap, gênero musical constituinte do contexto cultural do hip-hop, caracteriza-se como uma forma de “canto falado” em que a articulação entre fala e música não é acessória, mas constitutiva do próprio gênero. Nesse contexto, a produção linguística se organiza em função de uma base rítmica pré-estabelecida, o que impõe ao falante a necessidade de sincronizar sua enunciação aos tempos fortes da música, prática frequentemente descrita como “encaixar no beat”. Considerando essa especificidade, este trabalho propõe a hipótese de que o rap constitui um espaço particularmente produtivo para a investigação do ritmo linguístico, na medida em que explicita mecanismos de organização temporal da fala que, em outros contextos, tendem a se manifestar de forma menos evidente. A análise baseia-se em dados extraídos de faixas do grupo Racionais MC’s, incluindo produções com e sem acompanhamento musical, o que permite observar diferentes configurações de realização rítmica. A partir da observação da distribuição de acentos e do encadeamento da fala, são examinados fenômenos que contribuem para a construção do ritmo, com atenção especial ao modo como os falantes ajustam sua produção às exigências da base musical. Os dados evidenciam que a necessidade de alinhamento com a estrutura métrica da música torna mais visíveis estratégias de organização temporal da fala, como a alternância de sílabas fortes e fracas, o gerenciamento de unidades maiores do enunciado e o uso de processos fonológicos como recursos de ajuste rítmico. Observa-se, assim, que o funcionamento do rap não apenas responde às demandas do gênero, mas também permite evidenciar regularidades na organização do ritmo no português brasileiro. Nesse sentido, argumenta-se que o rap pode ser compreendido como um laboratório para o estudo do ritmo linguístico, por tornar observáveis, de forma ampliada, mecanismos que estruturam a fala no tempo. Ao tomar como objeto um gênero historicamente marginalizado e frequentemente deslegitimado como prática linguística e cultural, este trabalho também aponta para a importância de ampliar os horizontes da investigação acadêmica, incorporando produções periféricas que, apesar de sua relevância social e complexidade estrutural, ainda ocupam espaço reduzido nos estudos linguísticos.
Palavras-chave: rap; ritmo; prosódia;
RAQUEL DUARTE HADLER
[Análise do Discurso]
Do gênero do discurso à cenografia: uma análise do discurso em torno da construção do autor nas mídias sociais
Noções tradicionais da Análise do Discurso são desafiadas com as dinâmicas que marcam a circulação de conteúdos, as possibilidades de conexão e o desenvolvimento das inovações técnicas que passam a configurar dispositivos comunicacionais no contexto sócio-histórico contemporâneo. Análises antes realizadas em corpus estáveis, precisam ser adaptadas no universo digital, onde a textualidade ganha plasticidade e novas relações começam a ser estabelecidas entre a oralidade e a escrita, o texto e a imagem, o locutor e o interlocutor. Um exemplo destacado por Maingueneau (2025) é a noção de gênero do discurso, um dos componentes da cena da enunciação, que tradicionalmente detinha sua centralidade por definir os papéis dos participantes da cena e demais regras que a estruturam. Em ambientes digitais, que demandam uma textualidade interconectada, fragmentada por módulos, passíveis de serem alterados de acordo com a lógica algorítmica, há uma recorrente necessidade de adaptação do discurso e o enfraquecimento das coerções impostas pelo gênero do discurso. Com isso, o gênero do discurso cede espaço ao hipergênero (Maingueneau, 2016), a cenografia passa a ser a fonte principal da encenação da comunicação e o sujeito que enuncia demonstra mais liberdade, atuando não simplesmente como um locutor, mas como uma autoridade, cuja fala não fica restrita a um destinatário e a um dispositivo. Observa-se, assim, que esse sujeito se porta como um autor, dirigindo-se a “um auditório interminável”, cuja fala não se enquadra em uma atividade situada, “mas como expressão de um sujeito extraordinário” (Maingueneau, 2025, p. 28), que demonstra interesse em marcar a memória coletiva. Logo, a partir do suporte teórico e metodológico da Análise do Discurso de linha francesa, apresento neste trabalho uma análise do discurso que circula em diferentes plataformas de mídias sociais de um mesmo sujeito, com o suposto propósito de constituir sua presença digital e respectiva influência. Nesse processo, analiso como o enfraquecimento do gênero do discurso e o fortalecimento da cenografia contribuem para a construção desse sujeito, que se porta como um autor e busca construir a sua “obra” nos ambientes digitais por onde o seu discurso circula.
Palavras-chave: gênero do discurso; cenografia; autor;
REBECA CRESPO MASSON
[Aquisição de Linguagem]
AQUISIÇÃO/APRENDIZAGEM DE LÍNGUA INGLESA em contexto escolar: reflexões sobre o papel da argumentação na produção de crianças entre 5 e 6 anos
Partindo da concepção de Grosjean (2017) sobre o sujeito bilíngue, como aquele que utiliza duas ou mais línguas diariamente, independente do contexto social e da fluência, este estudo busca observar a relação entre a argumentação e a aquisição/aprendizagem do inglês dentro de um contexto escolar bilíngue (português/inglês). Tomamos como base, para isto, os movimentos discursivos argumentativos de argumento – contra-argumento – resposta (Leitão, 2006, 2007a, 2007b, 2008), entendendo a argumentação como um discurso privilegiado no processo de formação cognitiva-social da criança, já que permite uma reflexão e revisão acerca de um determinado assunto, a partir de um posicionamento. Este trabalho parte de uma perspectiva dialógico-discursiva e multimodal (Bakhtin, 2016; Bruner, 1983; Del ré et al. 2006, 2014a, 2014b, 2016, 2021; Voloshinov, 2018; Vygotsky, 2005) e dá continuidade a diversos estudos que dialogam com os temas (Vieira, 2011; Falasca, 2017; Grecco, 2017; Ricci, 2020; entre outros). Os dados a serem analisados foram coletados numa escola bilíngue no interior de SP, em uma turma de crianças entre 5 e 6 anos de idade. A coleta está estruturada a partir da metodologia “Inferência de Predição”, proposta por Almeida, 2009; Vasconcelos; Barbosa, 2020 e Vasconcelos et al., 2020, a partir das reflexões de Leitão (2006, 2007a, 2007b, 2008, 2011, 2012). Essa metodologia utiliza a literatura infantil como base para a fomentação de ideias no discurso infantil acerca de um tema específico, possibilitando, aos sujeitos participantes da pesquisa, a contraposição de ideias. Trata-se, então, de um estudo de caráter longitudinal e qualitativo, cujo corpus integrará o banco de dados do grupo NALíngua (Del ré et al., 2016, Hilário et al., 2024). Os dados foram transcritos nas normas CHAT, do programa CLAN, fornecido gratuitamente pela base de dados CHILDES (Macwhinney, 2000), a partir de manual traduzido e adaptado (Del Ré, Hilário e Mogno, 2012) e serão analisados considerando as seguintes categorias: produção da tríade argumentativa, produção da criança na língua inglesa, intersecção entre argumentação e produção do inglês. Com isso, busca-se contribuir para discussões acerca da argumentação (infantil), dentro de uma perspectiva dialógico-discursiva e multimodal, assim como para as reflexões a respeito do bilinguismo e educação bilíngue no Brasil, sendo o último uma área ainda pouco estudada do ponto de vista da Aquisição da Linguagem.
Palavras-chave: Aquisição da Linguagem; Argumentação; Bilinguismo;
REGINA SOUZA GOMES
[Semiótica]
As interações patêmicas de comentários sobre as manifestações contra a
PEC da Blindagem nas redes sociais O objetivo da comunicação é discutir e compreender os modos de construção do sentido de discursos polêmicos que circulam nas redes sociais, caracterizados, principalmente, pelas altercações políticas, pelas polarizações e pelos excessos patêmicos nas relações enunciativas (Barros, 2014; 2015; 2016), sob a perspectiva teórica da Semiótica Discursiva. As posições ideológicas arraigadas e apaixonadas desses enunciados acabam por dificultar o diálogo e reafirmar os discursos intolerantes e preconceituosos, levando aos discursos de ódio e a consequências pragmáticas imprevisíveis na sociedade. Esses discursos são modulados por diferentes graus de intensidade (Zilberberg, 2011), a depender das formas de adoção de posições ideológicas e dos papéis temáticos assumidos pelo enunciador, o que buscamos caracterizar. Analisamos, para tanto, comentários de postagens e matérias que circularam nas diversas redes sociais (Facebook, Youtube, Instagram) sobre as manifestações do dia 21 de setembro do ano passado (2025), em várias cidades do país, contra a aprovação, pela Câmera dos Deputados em Brasília, da PEC da Blindagem, que modificaria o art. 53 da Constituição Federal. Levamos em conta, para a análise, principalmente, as relações patêmicas que caracterizam as redes sociais, observando as várias formas de modulação dos afetos e da intensidade (Zilberberg, 2012), geralmente relacionadas às posições ideológicas assumidas pelo enunciador do comentário, e o grau de permeabilidade ou impermeabilidade nas contendas. A análise aponta para convergências entre os iguais e divergências apaixonadas, com diferentes graduações de andamento e intensidade, a depender do espectro político assumido. O emprego de recursos como a ironia e o sarcasmo encaminham as interações mais para a derrisão e a provocação que para a manifestação de discordância clara ou diálogo polêmico, como já é esperado, além da presença marcante, de um lado, das paixões benevolentes da admiração e o engajamento ético, estésico e estético e, de outro, as paixões malevolentes da vergonha, do desprezo e do desdém, reafirmando hiperbolicamente cada posição ideológica assumida.
Palavras-chave: semiótica; paixões; redes sociais;
REINALDO RODRIGUES MONÇÃO JUNIOR
[Linguística Aplicada]
As formas metaenunciativas de representação do dizer outro
O objetivo deste trabalho é investigar a ocorrência de formas metaenunciativas empregadas em resenhas produzidas por pós-graduandos de três universidades brasileiras. O corpus é um conjunto de 41 resenhas críticas produzidas em oficinas integradas de letramento acadêmico realizadas em 2023 desenvolvida por docentes dos programas de pós-graduação em Letras (PUC-Minas), em Estudos Linguísticos (Unesp) e em Filologia e Língua Portuguesa e em Educação (ambos da USP). A investigação se justifica por procurar compreender quais recursos enunciativos os escreventes utilizam para representar o discurso do outro em suas resenhas, bem como para classificar, inclusive em termos quantitativos, os recursos metaenunciativos empregados na escrita de resenhas. A pergunta central desta apresentação é: o que o fenômeno metaenunciativo pode revelar sobre a maneira como escreventes representam o dizer do outro na produção de suas resenhas? A fundamentação teórica baseou-se na articulação entre a proposta teórica de representação do dizer do outro de Authier-Revuz (1990; 1998; 1999) e a Análise do Discurso de linha francesa, representada, sobretudo, por Pêcheux (1997). A metodologia de trabalho consistiu, a partir da tipologia de formas de modalização autonímica proposta por Authier-Revuz (1999), na identificação, quantificação e interpretação dessas ocorrências no material estudado, a fim de observar os recursos adotados pelos resenhistas para retomar o dizer presente no discurso resenhado. A hipótese testada é a de que as marcas de retomada se fazem presentes na medida em que os escreventes buscam ou não traçar fronteiras entre a linearidade do próprio dizer e o dizer exterior trazido para a resenha, revelando, dessa forma, o grau de identidade ou de alteridade do escrevente com as palavras do outro em seu dizer. Como contribuição, apresenta-se a descrição, quantificação e interpretação – ainda em andamento – produzidas para aprofundar a compreensão crítica quanto à produção da escrita acadêmica por professores e pesquisadores em formação quando vista de uma perspectiva enunciativa e discursiva, bem como mostra aspectos relevantes no que diz respeito à produção do gênero resenha crítica.
Palavras-chave: Resenha Crítica; Representação do Dizer Outro;
RENAN BELMONTE MAZZOLA
[Análise do Discurso]
DISCURSO E ARGUMENTAÇÃO: A POLÊMICA EM TORNO DO CONFLITO ISRAEL X
PALESTINA EM ARTIGOS DE OPINIÃO BRASILEIROS Em 17 de fevereiro de 2024, Lula participou da 37a cúpula da União Africana em Adis Abeba, na Etiópia. Em seu discurso, condenou as ofensivas israelenses na Faixa de Gaza. No dia seguinte, 18, falou com a imprensa e fez uma afirmação que iria repercutir na imprensa nacional e internacional nos próximos dias. Lula disse: "O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus". Essa afirmação foi matéria de jornais, tema de colunas e artigos de opinião, objeto de disputa em debates na tevê, tópico de entrevistas com especialistas, etc. Enfim, essa afirmação gerou polêmica em função de sua natureza controversa. A afirmação de Lula (proposição) e a crítica de Netanyahu (desacordo em relação à proposição) fundaram a questão retórica (chamada de quaestio) a ser debatida, que pode ser formulada da seguinte forma: a comparação de Lula foi adequada? Essa quaestio gera posicionamentos distintos e divergentes, inscrevendo a polêmica no interior dessas interações. Nesse cenário, o objetivo desta comunicação é analisar a configuração da polêmica desta comparação a partir de quatro mirantes: a) o gênero epidítico, b) os conflitos entre Israel x Palestina na história, c) as técnicas argumentativas empregadas no artigo de opinião, d) a dimensão discursiva dessa polêmica. A relevância do tema se justifica pelo importante papel da polêmica político-diplomática na esfera pública, sobretudo nas interações digitais, redefinindo posicionamentos entre atores políticos, mídia e cidadãos. A fundamentação teórica desta pesquisa ancora-se nos trabalhos de Aristóteles (2011) e Perelman e Tyteca (2014) sobre os discursos epidíticos, e nos trabalhos de Angenot (2013) sobre a compreensão da retoricidade dos discursos contemporâneos. Metodologicamente, propomos coletar um corpus de artigos de opinião, notícias, posts em redes sociais, pronunciamentos e debates que comentam/debatem o fato, expondo uma opinião argumentada. Desse modo, nosso corpus será composto por textos que avaliarão se a comparação realizada por Lula foi justa ou injusta. Os resultados preliminares apontam para a fecundidade do tema do conflito como combustível para opiniões exaltadas na mídia, e para a confirmação da natureza polêmica em torno da comparação entre o povo judeu e seu algoz, Hitler.
Palavras-chave: Opinião; Técnicas argumentativas; Discurso;
RENAN BRISOLA DA SILVA
[Aquisição de Linguagem]
Educação bilíngue de crianças pequenas: mapeamento de conceitos a partir do discurso de professores recém-formados
Nos últimos anos, tem crescido a demanda por modalidades de educação bilíngue desde a Educação Infantil, o que implica um alto fluxo de professores de língua adicional ingressando nesse campo de atuação. Nesse contexto, porém, é possível questionar se os professores recém formados estão sendo preparados para lidar com essa nova realidade linguística no ambiente escolar. Pensando nisso, urge a necessidade de investigação dos conceitos tangentes ao bilinguismo e à subjetividade do sujeito bilíngue que constituem o discurso de professores recém egressos dos cursos de licenciatura em Letras e atuantes em escolas bilíngues de Educação Infantil, visto que não existem leis brasileiras que definem a oferta de formação específica no ensino superior que debata esses temas, indispensáveis a esse campo de estudo e de atuação, o que, supõe-se, pode gerar uma multiplicidade de interpretações sobre o que se entende por cada termo. Nessa investigação, pretende-se mapear conceitos, tais como “bilinguismo”, “sujeito bilíngue”, “identidade”, “subjetividade”, “língua materna” e “língua adicional”, “ensino e aprendizagem de língua adicional”, entre outros, que circulam nos discursos desses professores, a fim de compará-los entre si e, também, com o que os textos científicos dizem sobre o tema, como forma de verificar se há semelhança entre essas diferentes esferas de circulação de enunciados. Aqui, serão investigados professores de escolas bilíngues de educação infantil formados em letras no período pós-pandêmico (2022 até 2025), considerando o ingresso num mercado de trabalho concomitante à retomada ao ritmo regular da expansão das escolas bilíngues. Num primeiro momento, pretende-se agrupar por volta de 20 respostas em formulários on-line a serem preenchidos por esses professores, formados em universidades do estado de São Paulo, com perguntas amplas sobre o tema. Em seguida, a partir das respostas obtidas, almeja-se selecionar aleatoriamente alguns professores do formulário para que possam fazer entrevistas mais aprofundadas sobre o assunto. Na perspectiva dialógica-discursiva bakhtiniana e sociointeracionista da linguagem adotada pelo GEALin (UNESP Araraquara), o discurso dos professores bilíngues sobre sua prática pedagógica enquanto profissionais em contexto bilíngue pode revelar concepções teóricas linguísticas que fundamentam esses enunciados e práticas discursivas. Desse modo, tem-se como objetivo identificar como essas concepções refletem e refratam enunciados assimilados em sua subjetividade ao passo que regem o trabalho com aprendizagem/aquisição de língua em contexto bilíngue.
Palavras-chave: Bilinguismo; Educação Bilíngue;
RENATA CIAMPONE MANCINI
[Semiótica]
Processos sincréticos e linguagens híbridas: o contato entre literatura e quadrinhos na obra de
Lourenço Mutarelli Os processos de criação artística e midiática parecem responder, de maneira cada vez mais evidente, ao contato entre linguagens distintas, seja ele mais intenso e explícito, seja mais difuso e sutil. Mais do que simples justaposições, os objetos de interface mobilizam modos complexos de articulação entre linguagens, instaurando zonas de contato nas quais as fronteiras antes relativamente estáveis tendem a se tornar fluidas e porosas. Justamente por emergirem em um contexto marcado pela intensificação de trocas intermidiáticas, os objetos híbridos frequentemente ocultam uma complexidade estrutural de base, cuja apreensão exige uma reflexão mais cuidadosa sobre os modos de organização, integração e transformação das linguagens em jogo. A acepção de linguagem com a qual trabalharemos neste caso é a de que a prática semiótica, enquanto gesto enunciativo, quando reiterada em uma práxis coletiva, estabiliza e cristaliza um modo prototípico de dispor expressão e conteúdo, que se sedimenta numa “linguagem” ou numa forma de vida (Fontanille, 2015). Daí falarmos em linguagem cinematográfica, linguagem teatral, linguagem literária, linguagem dos quadrinhos, para citar apenas alguns exemplos. Trazendo o modus operandi da enunciação sincrética para agora pensar o processo de hibridização de linguagens, diremos que uma forma geral tensiva da expressão subjuga diferentes linguagens (e não mais apenas substâncias e formas específicas distintas da expressão, como no texto sincrético). Ou seja, no caso da formação do híbrido, o processo de sincretização se mantém, mas o que muda é onde ele incide. Nessa linha, propomos analisar três obras que tensionam a relação entre quadrinhos e literatura, todas do autor Lourenço Mutarelli: a HQ “Mundo pet”, o livro-quadrinho “A caixa de areia” e o romance “O cheiro do ralo”, no qual a prática de quadrinista do autor do romance leva para a escrita literária uma lógica de composição dos quadrinhos. Com essas três obras, procuraremos mostrar que a dinâmica de interpenetrações e ajustamentos entre linguagens engendra processos de rarefação e adensamento dos traços que as caracterizam no objeto híbrido, instaurando um jogo de presenças e ausências das linguagens envolvidas.
Palavras-chave: Linguagens híbridas; Sincretização; Lourenço Mutarelli;
RENATA PALUMBO
[Letramento(s)]
Níveis de análise de textos de aprendizes universitários com apoio de
IAGen: um estudo metodológico Em nossa pesquisa, voltamo-nos para a aplicação de um protocolo de codificação para exame de textos de aprendizes universitários com vista à identificação das possibilidades e dos limites de uma Inteligência Artificial Generativa (IAGen) no que diz respeito às análises textuais de resenhas críticas. Para tanto, a partir dos trabalhos de Bezerra e Reinaldo (2020) e de Adam (2011), temos considerado cinco níveis analíticos: (1) nível sequencial-composicional; (2) nível semântico; (3) nível enunciativo; (4) nível argumentativo; e (5) nível formal. Nosso objetivo central consiste no desenvolvimento posterior de um procedimento metodológico de análise quali-quantitativa de corpora extensos, que também possa colaborar para o exercício docente no ensino superior e para o processo de ensino-aprendizagem da escrita de textos acadêmicos. Nosso corpus inicial, de caráter exploratório, é composto por duas resenhas produzidas, em 2021, por dois estudantes do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS), ofertado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Para este simpósio, descrevemos e examinamos um experimento, no qual é utilizada uma estrutura baseada em prompts, executados no ChatGPT, para análise das produções textuais dos alunos, especificamente do nível argumentativo e de seus subníveis – (1) atos de discurso e (2) articulação com o gênero –, com atenção ao modo como tais elementos colaboram com a orientação argumentativa da resenha crítica, da avaliação de uma obra. Tais análises produzidas por essa Inteligência Artificial Generativa são acompanhadas de um diagnóstico pedagógico e de sugestões voltadas para professores. Além do protocolo de codificação, a elaboração dos prompts apoiou-se no exame do corpus previamente desenvolvido pelos pesquisadores e no modelo de atividade de resenha crítica que foi apresentada aos estudantes do ProFIS. Como referencial teórico, nossa pesquisa fundamenta-se nos trabalhos de Adam (1992, 2011), Bezerra e Reinaldo (2020), Koch (1984, 2005), Koch e Elias (2016), Palumbo, Azevedo e Carnin (2025), Motta-Roth e Hendges (2010), entre outros.
Palavras-chave: Letramento acadêmico; Procedimento metodológico;
RICARDO BOONE WOTCKOSKI
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
Inserção da IA Gen no Ensino Superior: percepções, uso e perspectivas de docentes e discentes de uma faculdade de tecnologia pública do
Estado de São Paulo A inserção da inteligência artificial generativa (IA Gen) no Ensino Superior tem provocado transformações significativas no letramento e na produção acadêmica, desafiando a exclusividade humana na enunciação. Nesse cenário, as fronteiras da autoria e da responsabilidade tornam-se difusas diante da mediação algorítmica. Este trabalho analisa as implicações socio-discursivas do uso contínuo da IA Gen na formação tecnológica, investigando percepções, finalidades de uso, temores epistêmicos e perspectivas de docentes e discentes de uma faculdade de tecnologia pública paulista. O aporte teórico fundamenta-se na linguagem como interação social (Bakhtin, 2011) e na concepção da IA Gen como um simulacro de autoria (Buzato, 2023; Fernandes, 2024), que reproduz a estrutura dos gêneros discursivos, mas carece de plasticidade retórica, valoração ética e responsabilidade histórica. Trata-se de uma pesquisa qualitativa exploratória, cujos dados preliminares foram coletados entre fevereiro e março de 2026, por meio de questionário, com 24 docentes e 127 discentes participantes. Os dados foram analisados sob a ótica da análise dialógica do discurso para mapear as tensões e os posicionamentos axiológicos. Os resultados indicam a consolidação da versão gratuita do ChatGPT como interface hegemônica na rotina acadêmica, utilizada predominantemente para revisões ortográficas, adequações estilísticas e ideação de conteúdo. Evidenciam-se tensões autorais e uma crise de exotopia: parte dos usuários preserva o controle crítico como autores-revisores, enquanto outra delega a formulação do raciocínio à IA Gen, o que tende ao apagamento enunciativo. Sob a perspectiva docente, a tecnologia atua como um apoio estratégico ao planejamento. Contudo, os professores declaram não alterar suas avaliações, embora concordem com a necessidade de reformulá-las. O maior temor discente concentra-se na atrofia cognitiva, sobrepondo-se à preocupação com o plágio. Há consenso de que o distanciamento da IA Gen é inócuo e que o cenário exige novas abordagens. Conclui-se ser fundamental a transição do treinamento instrumental para o letramento crítico (Soares, 2009; Rojo, 2017; Wang et. al., 2024), capacitando a comunidade acadêmica para o exercício de uma autoria técnica, ética e socialmente responsável no ecossistema digital.
Palavras-chave: Inteligência artificial generativa; Ensino Superior
RICARDO MASSAO INOUE
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
A CONSTRUÇÃO DA AUTORIA EM PRODUÇÕES TEXTUAIS DE ESTUDANTES DO ENSINO
MÉDIO COM MEDIAÇÃO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA: UMA ANÁLISE DE RECURSOS LINGUÍSTICOS E DISCURSIVOS EM TEXTOS PRODUZIDOS NA REDE PÚBLICA DE SP E RS O ensino de Produção de Texto no Ensino Médio, componente da área de Linguagens e suas Tecnologias, desempenha papel central na ampliação da autonomia, do protagonismo e da autoria nas produções de diferentes linguagens (BRASIL, 2018). Nessa etapa, observa-se recorrentemente o foco do ensino na escrita de textos no formato proposto pelo ENEM, prática que em muitos contextos limita a potencialidade criativa dos estudantes ao incentivar a reprodução de modelos padronizados. Soma-se a popularização recente dos sistemas de Inteligência Artificial Generativa (IA Gen) que têm sido utilizados em produções escritas de diversas atividades escolares e substituído em algumas situações o desenvolvimento autoral dos textos propostos na escola. No campo da escrita, a construção da autoria (BARTHES, FOUCAULT e BAKHTIN) em textos gerados nesse novo contexto demanda reflexão teórica e investigação empírica para a qualificação do trabalho dos professores e melhoria da aprendizagem de competências e habilidades dos estudantes. Diante desse cenário, o objetivo geral deste projeto de pesquisa, inserido no campo da Linguística Aplicada, é analisar as estratégias discursivas e linguísticas que produzem marcas de autoria em textos de estudantes do Ensino Médio, produzidos no âmbito do projeto “Produção de Textos na Escola em Tempos de Inteligência Artificial Generativa: uma pesquisa-ação no contexto do Ensino Médio público brasileiro”, aplicada em dois contextos distintos: no estado do Rio Grande do Sul e no estado de São Paulo. A análise dos dados gerados seguirá orientação textual-discursiva, focalizando a materialidade textual por meio de categorias linguístico-enunciativas advindas do quadro interacionista sociodiscursivo (Bronckart, 1999; 2006; 2008). Espera-se contribuir com reflexões aprofundadas sobre a construção da autoria em textos produzidos por aprendizes do ensino médio das redes gaúcha e paulista com a mediação de inteligência artificial generativa e colaborar com a discussão mais qualificada sobre o ensino de produção textual nas escolas públicas do Brasil.
Palavras-chave: Ensino Médio; Produção de texto; Inteligência artificial
RITA DE FATIMA RODRIGUES GUIMARÃES
[Linguística Aplicada]
Análise linguística assistida por software de apoio à codificação qualitativa de textos: implicações para a automação
Este trabalho apresenta a construção e a testagem de uma grade de análise linguística de produções textuais de aprendizes, aplicada ao software ATLAS.ti e às possibilidades de automatização analítica. A grade foi elaborada com base em Bezerra e Reinaldo (2020) e organiza-se em cinco dimensões: organização textual, relações de sentido, gestão enunciativa, orientação argumentativa e aspectos formais da escrita Esse processo integra investigação mais ampla voltada ao desenvolvimento de uma aplicação de análise linguística automatizada e qualificada de textos de aprendizes, com Inteligência Artificial Generativa (IAGen), para orientar planos de aula coerentes com as dificuldades identificadas (Projeto FAEPEX n. 3348/24 na interface com o Projeto Temático FAPESP n.05908-0; Projeto CNPq n.409998/2025-7). O codebook produzido foi testado no ATLAS.ti pela codificação de textos de aprendizes, visando verificar a adequação dos descritores, a pertinência dos códigos e as possibilidades de sistematização e automatização das análises. Os resultados indicaram que a estrutura proposta favoreceu a análise qualitativa e a quantificação do corpus por dimensões e a visualização das pontuações atribuídas. Observou-se que etapas relacionadas a aspectos da forma podem ser parcialmente automatizadas, especialmente para fins de sugestão inicial de codificação. Por outro lado, dimensões relativas à organização textual, à construção de sentido, à gestão enunciativa e à orientação argumentativa demandaram interpretação contextualizada, mantendo-se mais dependentes da codificação manual do pesquisador. A criação de códigos auxiliares, durante o processo, evidenciou a possibilidade de refinamento da grade, permitindo ajustes às especificidades do corpus e aos objetivos da futura automação. Desse modo, os resultados apontam que, ao mesmo tempo em que se evidenciam limites da automatização e a necessidade do controle interpretativo humano (Williamson; Van Rooyen; Dry, 2025), a articulação entre (i) grade analítica, (ii) software de codificação manual e (iii) apoio de IAGen constitui uma estratégia relevante para a sistematização da análise linguística automatizada de textos de aprendizes. Referências: BEZERRA, Maria Auxiliadora; REINALDO, Maria Augusta. Análise linguística: afinal, a que se refere? São Paulo: Cortez, 2020. WILLIAMSON, Charmaine; VAN ROOYEN, Annelien; DRY, Rika. In tandem with artificial intelligence: a working framework for coding in ATLAS.ti™. International Journal of Qualitative Methods, v. 24, p. 1-13, 2025.
Palavras-chave: Análise linguística; Codificação manual assistida por
ROBERT LEANDRO SILVA FREITAS
[Análise do Discurso]
Os militares e a rodovia que corta a floresta: Discurso, Mídia e
Relações de Poderes Este trabalho tem o objetivo de analisar e compreender o funcionamento da memória discursiva em sua emergência na atualidade, a partir da forma como os discursos dos militares sobre a BR-230 e suas investidas na Amazônia, por meio de quatro “frentes de expansão” - Agricultura, Pecuária, Minério e Hidrelétrica- operam e se atualizam ao serem inseridos em veículos de mídia contemporâneos. Para isso, faremos um itinerário apresentando como o pensamento dos que idealizavam a construção da rodovia assentavam e ainda se consolidam a partir de práticas colonizatórias que são visíveis de serem observadas em seus discursos. Logo, é importante pontuar que desde o início das incursões dos colonizadores na Amazônia, ao tomarem conhecimento da dimensão de suas potencialidades, a região passou a ser alvo de diversos interesses econômicos, tanto nacionais, quanto internacionais. O espaço passou a ser objeto de conquista e de disseminação de poder. Um momento marcante da história dessas invasões ocorreu na década de 1970, com a construção da rodovia Transamazônica e a implantação de grandes projetos desenvolvimentistas. Assim, a ditadura militar brasileira impôs à floresta um sistema de domínio territorial que avança para dentro do espaço amazônico por meio da instalação de obras monumentais. O nosso movimento analítico focalizará três materialidades: a) os pronunciamentos de figuras políticas do governo militar na inauguração de trechos da rodovia; b) uma propaganda do governo militar e c) um episódio da série presente na plataforma de filmes HBO MAX denominada Transamazônica: uma estrada para o passado. O referencial teórico-metodológico que sustenta nossas reflexões apoia-se na arqueogenealogia foucaultiana pensada a partir de Neves & Gregolin (2021) e as noções de Discurso (2014) Saber (2020) e Poder (2021). Essas noções teóricas foucaultianas são articuladas com estudos de Michel de Certeau (2025) sobre os sentidos do espaço e, além disso, o foco de nossa atenção se dirige ao funcionamento desses discursos na mídia contemporânea a partir das contribuições de Gregolin (2003). Neste trabalho, há um duplo gesto de análise: a primeira situa-se no levantamento de temáticas que se inscrevem nos discursos e nas propagandas dos militares na década de 70 para em seguida, investigarmos como tais temas se apresentam na mídia contemporânea a partir da série presente na HBO MAX.
Palavras-chave: Discurso; Mídia; Militares;
RONALD BELINE MENDES
[Sociolinguística e Dialetologia]
Campos indiciais de pitch médio na fala de homens
É recorrente a percepção de que homens soam menos masculinos em disfarces com pitch médio elevado – de acordo com resultados de diversos experimentos (Levon 2006, Drager 2021, Sene 2022, Pie 2023, etc). Aqui, adicionamos mais dados que evidenciam tal percepção em português e discutimos como ela se associa a outros significados sociais. Coletamos respostas de 488 ouvintes voluntários aos quais trechos da fala de oito homens foram apresentados alternativamente em duas condições experimentais: a 240 ouvintes, primeiro no disfarce com F0 médio original (F0o) e, depois, no disfarce com F0 acrescido de 30 Hz (F0+30); para os demais 248 ouvintes, os estímulos foram apresentados na ordem contrária (primeiramente, no disfarce F0+30, depois F0o). Após ouvir cada um dos 16 estímulos, cada ouvinte descreveu o falante que imaginou por meio de escalas de diferenciais semânticos (soa nada a muito: “gay”, “masculino”, “sério” e “inteligente”) e de características discretas, que poderiam assinalar ou não (“magrinho”, “alto”, “jovem”, “rico”, “bonito”, “simpático”). A associação desses significados sociais aos disfarces não variou significativamente de acordo com sua ordem de apresentação. Os falantes, na sua maioria (exceto um), foram percebidos como homens que soam menos masculinos/ mais gay no disfarce F0+30. Árvores de distâncias mínimas (ADM) (Gower & Ross 1969; Oushiro 2019) mostram ainda que, no geral, F0+30 leva à percepção de que os falantes parecem jovens e magrinhos, enquanto, no disfarce F0o, os falantes frequentemente parecem sérios. À percepção de seriedade associa-se a de beleza ("bonito"), classe ("rico") e altura ("alto") – sugerindo que esses significados se ligam indiretamente a F0o. "Simpático" e "inteligente" não foram associados a nenhum dos disfarces. Tais correlações não variaram significativamente de acordo com agrupamentos de ouvintes (segundo seu gênero, sua sexualidade ou sua rede de amigos – com muitas ou poucas pessoas gays), o que aponta para sua generalidade. Por outro lado, ADM plotadas para cada falante, individualmente, sugerem que, além do link F0+30 > "menos masculino/mais gay", as associações que se observam para a maioria dos falantes são F0o > "alto" e F0+30 > "magrinho" (ou seja, estereótipos acerca do tamanho do corpo). As demais percepções variam mais de falante para falante, com destaque para F0o > "magrinho" (um falante), F0o > "bonito" (não observado para dois falantes) e F0+30 > "simpático" (um falante). Além de discutir associações estereotípicas a F0 médio, nosso trabalho avança na utilização do método das ADM para tratar de campos indiciais.
Palavras-chave: campos indiciais; pitch médio; percepção
RONALDY PAVÃO HEITKOETTER
[Línguas de Sinais]
Estudo de construções de listagem na libras acadêmica e não acadêmica: apresentação do embasamento teórico e procedimentos metodológicos
Esta apresentação objetiva apresentar os objetivos, o embasamento teórico e os procedimentos metodológicos da minha tese de doutorado. Precisamente, objetivo realizar um estudo de construções de listagem digital em Libras. Construções de listagem digital são aquelas em que sinalizantes e falantes usam os dedos da sua mão não dominante para representar itens de sua lista e, geralmente, o indicador de sua mão dominante para fazer essa associação e posterior referência. Estudos sobre esse tipo de construção vêm sendo desenvolvidos em diversas línguas de sinais, a saber, ASL, NSL, SSL, LSFB, LSQ, DGS, FinSSL e Libras. Embora a respeito desta última já haja trabalhos (Leite, 2007; Heitkoetter e Xavier, 2020, 2022, 2024), a presente pesquisa se embasará principalmente no trabalho de Wilcox et al. (2023), que investigou esse tipo de construções na libras e na língua de sinais sueco-finlandesa, bem como na pesquisa realizada por Xavier e Wilcox (2026) a respeito de construções de listagem digital que co-ocorrem com a fala em português brasileiro. Para isso, o estudo utilizará dados de dois sinalizantes em contexto acadêmico (teses) e de dois não acadêmicos, estes últimos coletados por meio de vídeos do Youtube. Para traçar um perfil de cada sinalizante, será realizada uma entrevista com perguntas sobre seu histórico pessoal e experiências linguísticas. A análise das construções de listagem digital abrangerá aspectos formais, como tipo de lista, ou seja, se são sequenciais, mistas ou fixas, se ocorre ou não perseveração da mão não dominante, qual dedo é associado ao primeiro item da lista (polegar, indicador ou mínimo), a extensão da lista, isto é, o número de itens listados e as ações da mão dominante,. Adicionalmente, ela também considerará funções discursivas, observando especificamente como essas construções de listagem digital organizam a estrutura do discurso e são usadas para fazer referências anafóricas. Em última análise, a metodologia visa categorizar as diversas formas pelas quais os sinalizantes utilizam as mãos para enumerar informações e manter a clareza espacial durante a comunicação.
Palavras-chave: construções; Listagem; Libras;
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK
[Linguística Histórica]
Gêneros e processos de variação e mudança: notas para o aprofundamento da discussão teórico-metodológica
A pesquisa variacionista que incorpora a dimensão temporal enfrenta um desafio metodológico decisivo, já que o acesso a usos linguísticos de diferentes momentos depende, com frequência, de registros escritos. Tais registros, contudo, não refletem, de modo equilibrado, a heterogeneidade social das comunidades de fala, seja porque foram produzidos por segmentos socialmente restritos, seja porque resultam de práticas letradas submetidas a convenções normativas específicas. Desse quadro decorre a necessidade de discutir procedimentos capazes de ampliar a representatividade social e textual-discursiva dos corpora utilizados nesse campo de investigação, bem como de refinar a interpretação dos dados neles documentados. Neste trabalho, aprofundamos o debate teórico-metodológico sobre as correlações entre gêneros textuais-discursivos e processos de variação e mudança, para explicitar sua relevância para a interpretação de fenômenos linguísticos no âmbito da pesquisa variacionista. Partimos do pressuposto de que a consideração sistemática dos gêneros, de suas condições de produção, circulação e recepção, favorece a compreensão da distribuição de variantes linguísticas e dos processos de mudança, permitindo apreender as relações entre práticas sociais e textual-discursivas e o funcionamento da língua. A análise fundamenta-se em pressupostos da Sociolinguística Variacionista (Weinreich; Labov; Herzog, 2006[1968]; Labov, 2008[1972]) e Histórica (Romaine, 1982; Conde-Silvestre, 2007; Hernández-Campoy; Conde-Silvestre, 2012), especialmente quanto às relações entre língua e sociedade e aos desafios envolvidos na constituição de corpora, em diálogo com os estudos de gêneros textuais-discursivos (Bakhtin, 1997[1979]; Marcuschi, 2008, 2010; Biber; Conrad, 2009) e com debates acerca do papel dos gêneros na interpretação da variação e da mudança (Berlinck; Biazolli; Balsalobre; Bueno, 2012; Berlinck; Biazolli; Balsalobre, 2014; Biazolli, 2016; Vieira; Lima, 2019; Biazolli; Berlinck; 2021; Lima, 2022; Silva, 2023; Azevedo, 2024; entre outros). Do ponto de vista metodológico, realizamos uma análise teórico-interpretativa, baseada na revisão crítica de pesquisas que articulam variação/mudança e diferentes gêneros. O recorte privilegia estudos desenvolvidos com gêneros jornalísticos (editoriais, notícias e artigos de opinião – entre outros), com os gêneros artístico-literários peça teatral e roteiro de cinema, e com o gênero audiovisual legenda. Com base nos resultados já alcançados, esperamos demonstrar que o investimento analítico nos gêneros constitui via promissora para uma apreensão mais abrangente da complexidade dos fatos linguísticos, na medida em que a consideração articulada de suas especificidades ao longo das diferentes etapas da pesquisa permite enfrentar limites de representatividade e qualificar a interpretação dos condicionamentos sociais e estilísticos que incidem sobre os dados coletados. (Apoio: CNPq-Processos 405181/2021-3; 307524/2022-1)
Palavras-chave: Fundamentos teórico-metodológicos; Gêneros
ROSINEIDE DE MELO
[Filosofia da Linguagem]
Diálogos inconclusos entre Bakhtin e Freud
Propomos essa contribuição para os estudos da linguagem/do discurso e da psicanálise ao estabelecer diálogo (não inédito, uma vez que o próprio Bakhtin já o fizera, 2001) entre dois ícones do pensamento moderno do século passado: Bakhtin e seu Círculo (Volóchinov, 2017; Bakhtin, 2001; 2016) e Freud (2013). Esta reflexão tem por objetivo revisitar alguns pressupostos fundantes da Teoria/análise dialógica do discurso e estabelecer relações com concepções também basilares da Psicanálise, apontando articulações possíveis entre elas, teórica e aplicadamente a partir de vinhetas clínicas. Para isso, emprestamos também dos estudos linguísticos a metodologia dialético-dialógica (Paula, Figueiredo e Paula S, 2011) por considerá-la adequada ao tipo de percurso aqui escolhido. De Bakhtin e seu Círculo recortamos a concepção dialógica do discurso, o signo ideológico e a noção de enunciado, presumidamente invocando outros tantos conceitos constitutivos. Ressaltamos que para este diálogo não incluiremos a conceituação de significante na psicanálise introduzida por Jacques Lacan. Em relação à Psicanálise, destacamos o fato de Freud desenvolver a técnica terapêutica a partir do diálogo para tratar os pacientes, abandonando a hipnose até então método empregado. Nesse sentido, a sessão de psicanálise – como um gênero discursivo – privilegia enunciado verbal, no conjunto com a expressão corporal, facial e o gestual (visual) e ainda a entoação (vocal), além de considerar outros atos semiotizados, como o divã. Os aspectos linguístico-discursivos são inerentes, constitutivos e essenciais para que haja atividade humana e a clínica psicanalítica. O objeto da Psicanálise, enquanto prática e pesquisa – o inconsciente – revela-se na linguagem, seja pelos lapsos, pelos chistes e/ou pelos silêncios. Os sintomas também são manifestações semióticas além de somáticas. Em outras palavras, na materialidade linguístico-discursiva é que o inconsciente deixa seus rastros em situação de análise. Esta proposta coloca em inacabamentos alguns textos de Bakhtin e seu Círculo e de Freud, sem estabelecimento de síntese como fechamento epistemológico. Nesse sentido, a vinheta clínica, como estratégia de coleta empírica, ilustra as leituras interpretativas apresentadas à luz da Análise Dialógica do Discurso (ADD) e da Psicanálise. O estudo revela a inegável potência nas imbricações entre essas duas áreas do conhecimento.
Palavras-chave: Teoria/análise dialógica do discurso; psicanálise
ROSÂNGELA APARECIDA DANTAS DE OLIVEIRA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Translanguaging, reflexão metalinguística, metacognição e autonomia no teletandem: articulações teórico-metodológicas
Este trabalho é um recorte de uma pesquisa de pós-doutorado que tem como objetivo aprofundar o entendimento sobre o uso de translanguaging (García, 2009; García; Wei, 2014; Cenoz; Gorter, 2020) em parcerias de Teletandem (TTD) (Telles, 2009), explorando sua relação com a reflexão metalinguística (Swain; Lapkin, 2000) e com os processos metacognitivos ligados ao desenvolvimento da autonomia (Holec, 1979, 1981; Little, 2012; García, O’Connor e Cappellini, 2017). A amplitude das pesquisas sobre autonomia na aprendizagem de línguas apontam para sua complexidade e multiplicidade de dimensões. O tema vem recebendo atenção em projetos de intercâmbio virtual voltados para a aprendizagem de línguas. Nesses contextos, a presença de recursos que permitam aos aprendizes fazer registros sobre a experiência é um elemento-chave (Moon, 2004; Cappellini, 2015). Sob a forma de diários de aprendizagem, questionários, blogs etc, são eles que propiciam os processos metacognitivos tradicionalmente associados ao desenvolvimento da autonomia - definição de objetivos, seleção de recursos e estratégias e monitoramento e avaliação da aprendizagem -, e também reflexões ligadas às suas outras dimensões. As verbalizações dos aprendizes, portanto, são tanto ferramentas para eles mesmos, quanto fonte de dados para pesquisas que contribuirão para o aperfeiçoamento informado das práticas telecolaborativas. Little (2012) relaciona o desenvolvimento da autonomia ao desenvolvimento linguístico do aprendiz, o que nos lembra que, na aprendizagem de línguas, a linguagem é simultaneamente meio de comunicação e objeto de aprendizagem. Nesse cenário, até onde sabemos, há poucos trabalhos que exploram a interface entre reflexão metalinguística e metacognição no contexto de TTD. Nosso olhar sobre o tema recai sobre a mobilização do repertório linguístico dos interagentes nas negociações de significado durante as sessões orais síncronas, entendo-as como um potencial disparador de reflexões sobre o funcionamento da(s) língua(s) e, portanto, para um dos processos metacognitivos envolvidos no desenvolvimento da autonomia. Trabalhamos com dados do MulTeC (Aranha, Lopes, 2019) e investigamos verbalizações nos diários reflexivos e os episódios das sessões orais que lhes deram origem. Nesta comunicação, apresentaremos o percurso teórico-metodológico que articula os diferentes construtos que foram mobilizados no estudo. ( Apoio CAPES).
Palavras-chave: autonomia; teletandem; translanguaging;
ROSÂNGELA NOGARINI HILÁRIO
[Aquisição de Linguagem]
A aquisição da linguagem em perspectiva dialógico-discursiva: fonologia, morfologia e funcionamento discursivo na aquisição do plural em PB e em PE
Esta pesquisa teve como objetivo analisar as produções de duas crianças adquirindo o português do Brasil (PB) e duas adquirindo o português europeu (PE), com foco na interface entre fonologia e morfologia na produção da fricativa /s/ em coda. As análises voltaram-se para sintagmas nominais (SN) com marca de plural na fala dessas crianças, especialmente aqueles em que o morfema é realizado no elemento mais à direita (como “o meninos” ou “a casas”), bem como para ocorrências de não produção da fricativa /s/ em coda medial lexical (como em “e(s)cola”). Isso porque, no português, o morfema de plural é, na maioria dos casos, fonologicamente realizado como /s/ em coda (por exemplo, casas, meninos), o que se complexifica na produção de SN plurais, uma vez que o determinante também pode apresentar essa realização em coda medial (por exemplo, as casas, os meninos). Desse modo, limitações na produção da fricativa em coda medial podem impactar diretamente a marcação do plural e, com isso, a (co)construção de referentes para esses SN. Por este motivo, a análise contempla, também, a negociação dos sentidos (co)construídos nos SN singulares e plurais, na relação entre a fala da criança e a de seu interlocutor adulto. Para isso, fundamentamo-nos em uma perspectiva dialógico-discursiva, que considera, para a análise da fala da criança, a aquisição dos aspectos formais (fonológicos e morfossintáticos) em relação às funções e aos usos da linguagem. Os dados analisados estão disponíveis no Banco de Dados NALíngua-CNPq (A., 1;11–2;07, e M., 2;02–2;11) e na base CHILDES (I. e T., 1;10–2;09). Nesses dados, em cada ocorrência prevista de /s/ em coda, observou-se sua presença, ausência ou modificação na produção de cada criança, distinguindo-se contextos morfológicos (plural) e lexicais (sem valor morfológico). Os resultados apontam uma relação entre a omissão da fricativa em coda medial e a ausência de marca de plural nos elementos mais à esquerda do SN, como em estruturas do tipo D(eterminante)singular+N(ome)plural. Essa relação sugere uma influência direta da fonologia na realização morfológica, embora sem gerar problemas relevantes de compreensão. A comparação entre o PB e o PE indica, ainda, que a variação na concordância de plural no PB pode resultar em maior heterogeneidade nas construções produzidas pelas crianças brasileiras, em contraste com o percurso de aquisição observado no PE.
Palavras-chave: Plural nominal; perspectiva dialógico-discursiva;
SABRINA EVELYN CRUZ OLIVEIRA
[Fonética e Fonologia]
Apagamento do -R em posição final na escrita escolar: uma análise quantitativa de dados de Rondônia
Este trabalho investiga o apagamento do -R em posição final de palavra na escrita de estudantes da educação básica de Rondônia, considerando a relação entre variação fonológica e produção escrita. Esse fenômeno, amplamente descrito na fala do português brasileiro e frequentemente analisado em contexto de final de infinitivos verbais, é aqui examinado a partir de um conjunto mais amplo de dados, com o objetivo de observar padrões de ocorrência na escrita escolar e buscando identificar os condicionamentos linguísticos do apagamento do -R, com base em uma análise quantitativa de suas ocorrências na escrita. Assim, esta pesquisa dialoga com pressupostos da Fonologia Prosódica (Nespor e Vogel, 1986), especialmente no que se refere à possível influência de aspectos estruturais na realização do segmento em posição final, ainda que, nesta etapa, a análise se concentre na descrição dos padrões de distribuição dos dados. A investigação baseia-se em um corpus de redações escolares do banco de dados do grupo NEFONO (UNIR), composto por aproximadamente 1620 produções escritas de estudantes de diferentes municípios de Rondônia. Para esta comunicação, apresenta-se uma análise piloto composta por 30 redações do ensino fundamental, selecionadas para a identificação e descrição inicial das ocorrências de palavras grafadas ou esperadas com -R em posição final. Os dados serão organizados em planilha e analisados com o auxílio da linguagem de programação “R”, considerando variáveis como classe morfológica (verbos e não verbos), contexto fonológico seguinte e extensão da palavra. Finalmente, espera-se observar que o apagamento do -R apresente distribuição variável na escrita, possivelmente sensível a fatores linguísticos, como a classe de palavra e o contexto fonológico. Tais resultados poderão indicar padrões iniciais que venham a ser explorados em análises posteriores, inclusive no que se refere à atuação de aspectos prosódicos. Acreditamos que este estudo possa contribuir para o avanço das discussões sobre a interface entre fonologia e escrita, ao evidenciar regularidades no comportamento do -R em posição final e ao oferecer subsídios para investigações futuras sobre o papel da prosódia na escrita.
Palavras-chave: fonologia; escrita; consoante rótica;
SANDERLEIA ROBERTA LONGHIN
[Linguística Histórica]
Ciclicidade semântico-pragmática na constituição de marcadores de concessividade
Os marcadores de relações de concessivas, dado o alto teor de (inter)subjetividade, são propensos a processos de renovação que tipicamente envolvem fortalecimento pragmático. Há um debate recente em torno da natureza cíclica desses processos, nos termos de Hansen (2018, 2020). A hipótese subjacente à existência de ciclos semântico-pragmáticos é a de que significados fonte similares devem favorecer inferências contextuais similares, em intervalos temporais maiores ou menores, na diacronia de uma língua ou mesmo de línguas geneticamente relacionadas. Nesta apresentação, exploramos dois fatos de mudança linguística que levaram à renovação dos sistemas de concessividade do latim clássico e do português moderno e que, tomados em conjunto, parecem se conformar a uma instância de ciclicidade. Trata-se dos processos de constituição dos marcadores concessivos quamvis, do latim, e por mais que, do português, exemplificados, respectivamente, em (1) e (2): (1) “nunc hoc propono, quod mihi persuasi, quamvis ars non sit, tamen nihil esse perfecto oratore praeclarius” ((...) por mais que a eloquência não seja uma arte, não há nada mais esplêndido do que um orador perfeito) (Cicero, de orat. 2, 33) (2) “A falta de documentos emperra qualquer tentativa de abrir um processo de canonização, por mais que se atribuam milagres à escrava.” ( NILC) A pesquisa se filia ao quadro teórico-metodológico da gramaticalização (Bybee, 2015; Narrog; Heine, 2021) e focaliza as relações que se estabelecem entre os significados fonte e os respectivos contextos de uso que predispuseram enriquecimentos inferenciais em direção à concessividade, com o propósito específico de evidenciar o modo como a noção de quantidade participa da construção dos significados concessivos. Para o estudo de quamvis, recorremos a estudos sobre gramaticalização de concessivos latinos (Martín Puente, 2002; Bertocchi; Maraldi, 2009) e, para as construções com por mais que, baseamo-nos em amostras diacrônicas, referentes ao português antigo e médio (séculos XIII a XV) e ao português clássico (XVI a XVIII). As análises de ambas as trajetórias de mudança permitiram capturar traços que se consolidaram gradualmente no tempo - indeterminação genérica, aumento de escopo, seleção de subjuntivo, fixação da posição e polaridade negativa - e que contribuíram nos dois casos para construção de uma estratégia argumentativa que consiste em atribuir grande importância a um argumento, tornando esperável uma consequência que, ao final, se mostra insuficiente e quebra expectativas. Fatos dessa natureza fortalecem a noção de ciclicidade enquanto retorno de uma trajetória de mudança da língua mãe na língua filha.
Palavras-chave: mudança linguística; concessividade; ciclicidade;
SANDRA DENISE GASPARINI BASTOS
[Gramática Funcional]
Os efeitos de sentido produzidos pela coocorrência de elementos modalizadores em obras de autoajuda em espanhol Os modalizadores, de modo geral, permitem ao falante expressar sua atitude ou seu grau de comprometimento com relação ao que está sendo enunciado.
A partir da clássica divisão tripartite de modalidade (alética, epistêmica e deôntica), diferentes classificações são propostas, muitas delas exemplificadas em Neves (2006). No âmbito de uma abordagem funcionalista da linguagem, Hengeveld (2004) propõe uma divisão da modalidade em cinco subtipos: modalidade facultativa (expressão de capacidades e habilidades), modalidade deôntica (expressão de obrigações, necessidades e permissões), modalidade epistêmica (expressão de conhecimento), modalidade volitiva (expressão de desejos) e modalidade evidencial (expressão da fonte da informação). Tal classificação é a base para a classificação das modalidades dentro do modelo teórico da Gramática Discursivo-Funcional (Hengeveld; Mackenzie, 2008) e foi posteriormente revista de modo a considerar a evidencialidade como uma categoria separada (Hengeveld, 2011; Hengeveld; Hattnher, 2015). Tomando como ponto de partida os valores modais facultativo, deôntico, epistêmico e volitivo e as diferentes representações lexicais que esses valores modais podem ter nas línguas naturais (Neves 1996; 2006), este trabalho pretende analisar contextos de coocorrência de elementos modalizadores presentes em duas obras de autoajuda escritas em língua espanhola: A mi amada, de María M. Vásquez, publicada em 2016 e La mujer interior: ¿Eres consciente del poder que tienes?, de Zulma Reyo Martínez publicada em 2011. De acordo com Gasparini-Bastos e Brunelli (2019), que analisaram elementos modalizadores em obras de autoajuda em português, a coocorrência de determinados subtipos modais pode contribuir para o reforço ou a atenuação de um valor semântico ou mesmo o ‘deslizar’ de uma modalidade a outra. Assim, o objetivo é investigar de que maneira a coocorrência de modalizadores que pertencem a domínios semânticos iguais ou diferentes pode contribuir para qualificar ou desqualificar o saber e o dever do falante. Como forma de delimitar os contextos analisados, consideramos o limite do parágrafo, que segundo Hengeveld e Mackenzie (2008) pode ser uma divisão estratégica do texto escrito equivalente a um Move (Movimento). Os resultados mostram que a coocorrência de elementos modalizadores que indicam certeza (epistêmicos) bem como a coocorrência de elementos modalizadores que expressam obrigação (deônticos) contribuem para reforçar a autoridade do falante no trabalho de convencimento do ouvinte/leitor e se revelam como estratégia eficaz no texto de autoajuda.
Palavras-chave: modalizadores; coocorrência; espanhol;
SARA WAGNER YORK
[Semiótica]
Do Percurso Gerativo ao Campo Político: Formas de Vida Dissidentes entre
Fontanille, Greimas e a Transepistemologia Do Percurso Gerativo ao Campo Político: Formas de Vida Dissidentes entre Fontanille, Greimas e a Transepistemologia Sara Wagner York GPS/UNESP | Bolsista FAPESP (2026–2028) sarawagneryork@gmail.com + Mathuex Shwartzmann Resumo Este trabalho propõe uma articulação teórica inédita entre a semiótica greimasiana das formas de vida (GREIMAS, 1993; FONTANILLE, 2008), a teoria hegemônica de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau (1985) e a transepistemologia (YORK, 2026), com o objetivo de construir um instrumental analítico capaz de descrever como corpos dissidentes — travestis, transexuais, mulheres negras e outros sujeitos que excedem a norma — constroem sentido, produzem identidade e disputam legitimidade dentro de ordens simbólicas que os excluem. O conceito greimasiano de forma de vida, entendido como deformação coerente que atravessa todos os níveis do percurso gerativo da expressão — do sensível e tensivo ao axiológico e discursivo —, é mobilizado como categoria central para descrever a construção identitária não como essência fixa, mas como regularidade estratégica de práticas, afetos e comportamentos. A articulação com a teoria hegemônica permite compreender como essas formas de vida se inserem em campos de disputa onde o poder decide quais existências são legítimas e quais são abjetas — e como a passagem do agonismo ao antagonismo no interior do campo progressista brasileiro, exemplificada pelo movimento Me Too da Psicanálise e pela fratura produzida pelo caso Silvio Almeida, produz o que nomeamos autocolisão feminista: o fenômeno pelo qual o dispositivo moral substitui a gramática política e transforma adversárias em inimigas. A transepistemologia é então convocada para nomear o que os dois campos anteriores tendem a invisibilizar: o transepistemicídio — a destruição sistemática da capacidade epistemológica dos corpos dissidentes, operada simultaneamente em todos os seis níveis do percurso gerativo da expressão. Introduzimos ainda o conceito de paralaxe trans (YORK, 2026) como operador semiótico capaz de descrever a impossibilidade de um ponto de vista único e universal sobre qualquer objeto político, articulando-o à noção fontanilliana de condensação/expansão entre figura e forma de vida. O trabalho conclui propondo que uma semiótica política dos corpos dissidentes é simultaneamente um projeto teórico e democrático: o de restituir às formas de vida dissidentes a riqueza isotópica que o transepistemicídio sistematicamente destrói. Tags: Formas de vida; Semiótica greimasiana; Transepistemologia; Corpos dissidentes; Travesti da/na semiótica
Palavras-chave: Formas de vida; Transepistemologia; Trans greimasiana;
SEBASTIAN DRUDE
[Lexicologia e Lexicografia]
Esta contribuição discute as transformações tecnológicas em curso na lexicografia das línguas indígenas e propõe o padrão CLDF (Cross-Linguistic Data Formats) como núcleo articulador de diferentes usos dos dados lexicais
Esta contribuição discute as transformações tecnológicas em curso na lexicografia das línguas indígenas e propõe o padrão CLDF (Cross-Linguistic Data Formats) como núcleo articulador de diferentes usos dos dados lexicais: (a) a publicação acadêmica, (b) o trabalho de coleta e edição de dados lexicográficos e (c) a integração com fluxos de pesquisa comparativa. Exemplos concretos de duas conversões realizadas pelo autor são apresentados como prova de viabilidade dessa arquitetura. O quadro teórico-metodológico parte da premissa de que a interoperabilidade dos dados lexicográficos é condição necessária para os avanços na linguística comparativa e para a colaboração entre os pesquisadores de línguas indígenas. Tal interoperabilidade só é viável por meio de formatos abertos, baseados em texto, com metadados explícitos (princípios "FAIR": Findable, Accessible, Interoperable, Reusable). O CLDF — baseado em arquivos CSV interligados, com metadados em JSON e identificadores estáveis vinculados a recursos como o Concepticon e o Glottolog — é o padrão que melhor atende a esses requisitos, e em torno dele se forma uma comunidade ativa de desenvolvimento de ferramentas e de publicação de dados. A primeira frente apresentada toma o banco lexical do Aweti (Tupi, família Maweti-Guarani, Mato Grosso) — atualmente desenvolvido em FLEx — como caso para demonstrar três caminhos distintos de conversão FLEx ? CLDF: (i) via exportação para o formato Toolbox e uso do módulo de conversão existente no Lexedata; (ii) via LIFT importado no Portal Japiim e exportado de lá para CLDF; (iii) via exportação em formato LIFT e conversão direta para CLDF (caminho ainda em desenvolvimento). Os três caminhos são comparados quanto a perdas e ganhos de informação, complexidade de implementação e adequação a diferentes perfis de usuário. A segunda frente é a conversão para CLDF do Dicionário Etimológico Tupi de Andrey Nikulin, elaborado em LaTeX desde 2022, que reúne mais de 250 conjuntos de cognatos com distribuição em mais de uma família do tronco. As duas conversões habilitam a publicação dos respectivos bancos como recursos citáveis e reutilizáveis, em particular pela submissão à revista Dictionaria, série de dicionários publicados em CLDF que já reúne mais de quinze títulos, notavelmente “Guarayu. A revised dictionary by Alfred Hoeller”. Em todas essas operações, o Lexedata (Kaiping, Steiger & Chousou-Polydouri 2022) atua como ponte prática entre o CLDF e os fluxos de trabalho reais — em especial para pesquisadores sem formação avançada em programação.
Palavras-chave: CLDF; Dados Lexicais; Ferramentas para
SHUANNY GONCALVES RAMIES
[Línguas Indígenas]
Dicionário Multimídia Karitiana-Português
Este trabalho busca elaborar um dicionário multimídia bilíngue Karitiana-português. O povo Karitiana habita a sua própria Terra Indígena, localizada a 95 quilômetros ao sul da capital Porto Velho, Rondônia. Trata-se de uma pesquisa que visa auxiliar no fortalecimento e escolarização da língua. Ferramentas e instrumentos linguísticos, como o dicionário multimídia, podem contribuir para os projetos pedagógico das escolas indígenas. Esta pesquisa tem como objetivo fornecer subsídios para as áreas da linguística e educação. O movimento pedagógico ocorre na projeção de que essas obras possam auxiliar o ensino-aprendizado da língua indígena nas escolas (Fargetti e Mondini, 2021). O diretor das escolas Karitiana tem participado de reuniões com a autora e sua orientadora para validar o trabalho. Os objetivos específicos incluem a criação de um dicionário multimídia com 400 palavras para ser usado pelo povo Karitiana em suas escolas. A metodologia utilizada na criação do dicionário adota a metodologia de um projeto do Museu Paraense Emílio Goeldi, intitulado “Dicionário indígena para línguas indígenas”, liderado pela pesquisadora Ana Vilacy Galucio. O projeto concerne conhecimento linguístico e inovações tecnológicas, apresentando capacidade de expandir domínios da circulação da língua, fortalecendo a vitalidade de línguas em situação de vulnerabilidade (Soares; Rodrigues; Galúcio, 2024). Para o seu desenvolvimento, utilizamos um script desenvolvido por Saulo Brito, que permite a criação de dicionários multimídia em formato HTML e PDF, a partir de arquivos ELAN e tabelas. O pesquisador Ivan Rocha, que trabalhou no Museu Emílio Goeldi, auxiliou a aplicação da metologia à base de dados do projeto. No dicionário, são indicadas a transcrição fonética e ortográfica de cada palavra em Karitiana, bem como sua tradução para o português e arquivos de áudio de cada palavra. O conhecimento da fonética e fonologia da língua foram baseados em trabalhos da orientadora (Storto 1996,1999, 2020). A bibliografia sobre lexicografia que embasa o trabalho inclui Biderman (2001); Welker (2008) e Fargetti (2012). O corpus da pesquisa foi constituído a partir do banco de dados lexicais em FLEX criado pela orientadora, bem como de gravações feitas em campo. Neste estudo, também discutiremos os desafios deste tipo de trabalho lexicográfico e sua contribuição para o projeto político-pedagógico da comunidade Karitiana.
Palavras-chave: Língua Karitiana; Dicionário multimídia; Léxico;
SIMONY ALVES DE OLIVEIRA
[Análise do Discurso]
SLAM BR 2017: Análise dialógica do enunciado “O leão do norte e seu rugido”, de
Bell Puã Poetry Slam, comumente conhecido no Brasil apenas como slam, diz respeito às batalhas de poesia falada que têm início em Chicago, em 1986, com Marc Kelly Smith e chegam ao Brasil, em 2008, com Roberta Estrela D’alva. Os grupos que organizam e realizam as batalhas de poesia falada são chamados de comunidades. Anualmente, cada comunidade elege o seu representante para o campeonato estadual de poesia falada e cada campeonato estadual elege, por sua vez, o representante do Estado para o campeonato brasileiro de poesia falada, o SLAM BR. O presente trabalho é parte de uma pesquisa maior, à nível de doutorado, que busca analisar, sustentada pelo quadro teórico-metodológico da Análise dialógica do discurso, o que caracteriza o Poetry Slam no Brasil nos 10 anos de SLAM BR – Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, que tem início em 2014 e realiza sua 10ª edição no ano de 2023. Por considerar o caráter efêmero do evento da batalha de poesia, a pesquisa toma como corpus os vídeos contendo as gravações da final do campeonato, especificamente o poema declamado pelo poeta campeão na 3ª rodada da final de cada ano (2014-2023). Cada vídeo é considerado um enunciado concreto com base no que propõe os estudos do Círculo de Bakhtin e chamado na pesquisa de “enunciado vídeo”. Este trabalho, em especial, é um recorte dessa pesquisa maior e pretende apresentar a análise de um dos enunciados vídeos que constituem o corpus da tese de doutorado, especialmente o enunciado vídeo em que é apresentado o poema “O leão do norte e seu rugido”, declamado pela poeta campeã do SLAM BR 2017, Bell Puã. O objetivo do trabalho é responder, calcado no quadro teórico-metodológico da Análise dialógica do discurso, que, por sua vez, se sustenta nos estudos do Círculo de Bakhtin, quais são as relações dialógicas, as vozes e os valores que constituem esse enunciado concreto e de que modo essas relações dialógicas, vozes e valores identificam esse poema campeão. Os resultados apontam que a voz social do eu-poeta defende o povo negro e o povo nordestino, além de questionar a sociedade racista e xenofóbica sobre os seus privilégios em detrimento do sofrimento daqueles que são social e historicamente marginalizados. Assim, há nessa relação de alteridade, presente no enunciado concreto, duas grandes vozes em embate: a voz defendida pelo eu-poeta e a voz do outro antagonista que se opõe aos valores por ele defendidos.
Palavras-chave: Análise dialógica do discurso; enunciado concreto; SLAM
SIRIO POSSENTI
[Análise do Discurso]
NOTA SOBRE AUTORIA: O PRIVILÉGIO DA PESSOA
Maingueneau argumentou que a dupla “escritor / autor” é insuficiente para dar conta da questão da autoria. Propôs que ela envolve três instâncias: a pessoa, o escritor e o inscritor, inseparáveis e sem hierarquia. O trio, ele propôs, compõe um nó Borromeu: se um cai, o nó desaparece. Inger Østenstad propõe, ou constata, na esteira de Maingueneau, que a análise literária privilegia ora um, ora outro desses três elementos: ou trata mais da pessoa, ou mais do escritor (da carreira) ou mais do “estilo”, da linguagem, da criação. Esta comunicação segue duas pistas. Ambas levam a dar razão a Østenstad, na medida em que privilegiam a pessoa. A primeira é a constatação de que comentários sobre obras literárias, em especial na mídia, têm privilegiado o autor como pessoa, isto é, sua vida, sua cor, seu gênero... e o efeito desses fatores na obra, principalmente em seu conteúdo. Livros tornaram célebres seus autores por razões que permitem relacionar a pessoa ao conteúdo da obra: relações familiares, vida difícil, um acontecimento na vida do autor, questões de gênero ou raça. Assim, tornou-se corrente a tese de que a literatura atual é em grande medida autoficção, por um lado, ou “defesa” de teses identitárias, por outro. A segunda é a seguida por José Miguel Wisnik em livro sobre Drummond de Andrade, no qual o autor pretende mostrar a estreita relação entre a obra do poeta e sua vida e suas tomadas de posição políticas, em especial no que se referem à mineração em Itabirito, sua terra natal. Neste caso, a análise privilegia a relação considerada constitutiva entre vida e obra, na medida em que a vida e o ambiente fornecem a matéria prima, sem que esta seja tratada como documento. Este exemplo será secundado com breves notas a um poema de Maria Lúcia dal Farra que trata de Ana Cristina César como pessoa e não de sua poesia. -
Palavras-chave: autoria; pessoa; maingueneau;
SOLANGE DE CARVALHO FORTILLI
[Gramática Funcional]
Entre parentético e marcador discursivo: uma reconfiguração de construções epistêmicas
Diferentes expressões linguísticas têm sido investigadas, no âmbito do Funcionalismo e dos estudos sobre mudança linguística, sob o rótulo de parentéticos epistêmicos. Tal classificação revela-se limítrofe em relação à noção de marcadores discursivos, uma vez que, em diversos estudos, as mesmas expressões são descritas ora como parentéticos, ora como marcadores, produzindo certa sobreposição analítica. Em trabalhos como os de Gonçalves (2003) e Fortilli (2013), o foco recai sobre as orações plenas que teriam dado origem a determinados parentéticos epistêmicos, especialmente aqueles nucleados por formas como parece (que) e (é) claro (que). Nessa perspectiva, processos como a gramaticalização e a dessentencialização seriam responsáveis pela transformação de estruturas oracionais complexas, como É claro que ele virá, em construções simples modificadas por parentéticos, como em Ele virá, claro! Barbosa (2023) amplia esse escopo ao investigar construções parentéticas epistêmicas de base nominal, adjetival e verbal, oriundas de esquemas de subordinação. Assumindo os pressupostos da abordagem construcional da mudança, formulada por Goldberg (2006), Traugott & Trousdale (2013) e Bybee (2016), o estudo parte da hipótese de que tais construções, submetidas a processos de construcionalização gramatical, consolidam-se na rede de construções epistêmicas do português brasileiro como um novo esquema construcional. Uma possível reconfiguração interpretativa desses dados emerge com Traugott (2024). Nessa obra, a autora propõe uma reclassificação dessas construções, intensificando o diálogo entre pragmática e Linguística Cognitiva. O objetivo é distinguir mais precisamente construções marcadoras com o potencial de serem responsáveis por conexões intraclausais e extraclausais daquelas que se afastam desse perfil, o que pode levar à reavaliação de formas tradicionalmente agrupadas sob os rótulos de parentéticos epistêmicos ou marcadores discursivos. Nesse sentido, a presente proposta consiste em revisitar os dados analisados por Fortilli (2013) e Barbosa (2023) à luz das reformulações teóricas propostas por Traugott (2024), buscando avaliar em que medida essa nova perspectiva pode contribuir para uma reconsideração das análises sobre construções parentéticas epistêmicas no português.
Palavras-chave: Marcador discursivo; Construções parentéticas; Conexão;
SUELEN SILVA DE OLIVEIRA
[Aquisição de Linguagem]
Aquisição da Libras por crianças surdas: humor e narrativa
A presente proposta de trabalho deriva de uma tese de doutorado em andamento que investiga aspectos linguístico-discursivos envolvidos na emergência do humor em narrativas de crianças surdas em processo de aquisição da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Inserida no campo da aquisição da linguagem, a pesquisa fundamenta-se na perspectiva dialógico-discursiva (Bakhtin, 1997; Bruner, 1983; Del Ré et al., 2011, 2021, 2022; Goldfeld, 2002) e busca compreender como a (co)construção do discurso, em interações familiares mediadas pela língua de sinais, contribui para a emergência do humor em narrativas de crianças surdas. A pesquisa caracteriza-se como um estudo longitudinal, uma vez que acompanha registros do desenvolvimento linguístico de duas crianças surdas, filhas de pais surdos, em contexto familiar. Os vídeos analisados documentam um longo período da infância de ambas as crianças, possibilitando observar, ao longo do tempo, aspectos do desenvolvimento discursivo e linguístico relacionados à construção narrativa e à emergência do humor em Libras. O corpus é composto por vídeos públicos disponíveis na internet que registram interações em Libras em ambiente familiar, caracterizando um contexto de aquisição linguística natural. Serão considerados para análise dados que apresentem narrativas com e sem elementos de humor, permitindo contrastar mecanismos discursivos mobilizados em ambas as produções. Os dados serão transcritos com o auxílio do software ELAN, possibilitando a anotação integrada de aspectos linguísticos, discursivos e multimodais da Libras. Posteriormente, os elementos identificados serão organizados em uma grade analítica elaborada no Microsoft Excel, visando à sistematização e quantificação de ocorrências relacionadas à construção do humor. De natureza exploratória e abordagem quali-quantitativa, o estudo focaliza a descrição de mecanismos linguístico-discursivos e multimodais envolvidos na construção do humor, como atenção conjunta, saber partilhado e incongruência. Ao considerar narrativas com e sem elementos humorísticos, busca-se compreender como a (co)construção de narrativas contribuem para a emergência de cenas com elemento de humor. A análise longitudinal permitirá observar as mudanças linguísticas das crianças surdas perante a Libras, destacando o percurso da criança ao desenvolver a compreensão e a produção de narrativas com e sem elemento de humor. Espera-se que os resultados ampliem a compreensão acerca do desenvolvimento narrativo e humorístico de crianças surdas adquirindo Libras, contribuindo para os estudos sobre aquisição da linguagem de diferentes modalidades (oral-auditiva e visoespacial) e oferecendo subsídios para a linguística e a educação de surdos.
Palavras-chave: Aquisição; Libras; Humor;
SUZI MARQUES SPATTI CAVALARI
[Linguística Aplicada]
Autonomia na aprendizagem de línguas: estado da arte e perspectivas
O objetivo deste trabalho é apresentar os resultados de uma revisão de escopo (scoping review), ou estado da arte, que, de acordo com Chong e Reinders (2022) se refere a um tipo de revisão sistemática da literatura que pode sintetizar dados qualitativos e/ou quantitativos. Neste estudo, adotamos abordagem qualitativa, com vistas a mapear a literatura existente sobre o conceito de autonomia e suas relações com a metacognição no contexto do ensino-aprendizagem de línguas (Cavalari et al., em andamento). Trata-se de uma revisão de caráter exploratório que mapeou 80 estudos teóricos e empíricos publicados em livros e jornais de alta relevância em três línguas (português, inglês e francês), no período de 2000 a 2025. O levantamento concentrou-se nas principais definições mobilizadas, nos quadros teórico-metodológicos mais recorrentes e nas implicações científicas e pedagógicas identificadas na literatura. A análise evidenciou que os conceitos de autonomia e metacognição estão frequentemente interligados e, em alguns casos, são empregados de forma intercambiável (Garcia et al., 2017). No âmbito das pesquisas sobre autonomia, a metacognição é, em geral, concebida como uma dimensão central, quando não a principal, para o desenvolvimento da aprendizagem autônoma, especialmente no que se refere à capacidade do aprendiz de planejar, monitorar e avaliar seus próprios processos de aprendizagem. Os resultados também apontam para uma ampliação e uma reconfiguração da noção de autonomia, que deixa de ser compreendida como um estado estático para ser concebida como um processo dinâmico e situado (Dam; Legenhausen, 2011; Benson, 2022). Do ponto de vista científico, os achados reforçam a relevância de abordagens integrativas que permitam investigar a autonomia a partir da intersecção entre fatores cognitivos, sociais, emocionais e políticos (Paiva, 2009; Tassinari, 2012). No plano pedagógico, destaca-se a necessidade de fomentar práticas que incentivem a reflexão e a verbalização, por parte dos aprendizes, acerca das relações que estabelecem entre esses diferentes elementos no processo de aprender línguas.
Palavras-chave: autonomia; aprendizagem de línguas; estado da arte;
TALITA STORTI GARCIA
[Gramática Funcional]
Expressão e posição do sujeito no espanhol peninsular: uma análise discursivo-funcional
Este trabalho apresenta uma análise da expressão do sujeito lexical e pronominal no espanhol peninsular falado sob a perspectiva da Gramática Discursivo-Funcional (doravante GDF), de Hengeveld e Mackenzie (2008) e Hengeveld e Keizer (2025). Considerando que a marcação do sujeito em espanhol não é obrigatória devido à rica morfologia verbal que a língua preserva, objetiva-se determinar as motivações subjacentes a sua expressão, bem como determinar as possíveis posições que pode ocupar na Oração, tendo em vista o esquema proposto pela Gramática Discursivo-Funcional (PI, P2, PM, PF). Utiliza-se, como universo de pesquisa, o PRESEEA (Proyecto para el Estudio Sociolingüístico del Español de España y de América), de modo especial os inquéritos do corpus correspondentes à cidade de Alcalá de Henares, Espanha. Os resultados mostram que é a atribuição das funções pragmáticas Tópico, Foco e Contraste que leva à realização do constituinte como um Subato Referencial dentro do Conteúdo Comunicado. Em termos de posições, o sujeito ocorre em dois domínios: PI e PF, as duas posições psicologicamente salientes da Oração, o que se deve justamente à motivação pragmática de sua expressão. O sujeito ocupa a PI e seus domínios quando expressa Tópico; ocupa a PF quando expressa Foco ou Contraste. Com relação à forma de expressão, é interessante observar que há uma forte relação entre função pragmática e realização lexical ou pronominal. De modo geral, os pronomes sujeito ocorrem quando sua identidade já está estabelecida dentro do contexto comunicativo, dada sua natureza dêitica. O que se percebe, nesse sentido, é que o sujeito que expressa Foco é sempre lexical, enquanto o que expressa Contraste é sempre pronominal. Essa relação intrínseca pode ser explicada pela própria definição dessas funções pragmáticas segundo a GDF, uma vez que o Foco está relacionado à estratégia do Falante de selecionar informações novas, que atualizam ou preenchem lacunas no conhecimento do Ouvinte, e o Contraste, por seu turno, se relaciona à estratégia de trazer à tona diferenças ou semelhanças entre dois ou mais Conteúdo Comunicados e informações disponíveis contextualmente.
Palavras-chave: Espanhol; Sujeito; Funcionalismo;
TASSIANE CORRÊA FONTOURA
[Neurolinguística]
A intervenção do professor diante das condições impostas pelo laudo
As legislações brasileiras atuais, como o Estatuto da Pessoa com Deficiência (LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015) e a Lei de Diretrizes e Bases (Lei nº 9.394/1996), dispõem acerca do dever do Estado, da sociedade e da família garantirem educação de qualidade para a pessoa com deficiência. Um dever que será garantido, dentre outros recursos, mediante o atendimento educacional especializado na rede regular de ensino. No âmbito do estado do Paraná, a Instrução Normativa N.º 001/2016 – SEED/SUED afirma que os professores devem ser instruídos da necessidade de adaptações/flexibilizações curriculares necessárias que oportunizem ao estudante o acesso à aprendizagem. Dessa forma, Professor (Pedagogo ou Especialista, conforme a etapa escolar) e Professor de Apoio Educacional Especializado (PAEE) são responsáveis pela condução das atividades escolares e pela avaliação do aprendizado formal dos alunos laudados. Isto é, dos alunos que atestam essa necessidade funcional a partir da apresentação de um laudo psiquiátrico ou neurológico. O objetivo desse trabalho, portanto, é analisar as adaptações/flexibilizações das atividades escolares e as intervenções do professor especialista nas produções textuais de alunos regularmente matriculados no Ensino Médio Regular que apresentam laudos médicos como Transtorno de Aprendizagem, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Deficiência Intelectual (DI). Considerando, nessa análise, como parte da fundamentação teórica, o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) (Vygotsky, 1986), os pressupostos teórico-metodológicos da Neurolinguística Discursiva (ND) (Coudry, 1988), os critérios para a constituição de situações comunicativas reais na produção escolar (Geraldi, 1990) e as tensões entre o atípico, o natural e o patológico (Canguilhem, 1966). Compreendemos, assim, a ZPD como aquilo que interlocutor leva o sujeito a fazer e, consequentemente, tomamos a figura do professor como um interlocutor/mediador que pode constituir-se como um outro que intervém e promove mudanças na escrita (desenvolvimento/aprendizado) de seus alunos, desafiando as condições impostas não só pela neurodiversidade, mas, sobretudo, pela identidade que o laudo impõe. Isto é, espera-se por fim problematizar como a adaptação/flexibilização das atividades e a intervenção docente podem convocar o sujeito da linguagem e promover mudanças na escolarização formal e no desenvolvimento, sem reduzir o sujeito-aluno a um resto patológico de sua própria história.
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Zona Proximal de
TAYNÁ POVIA DE OLIVEIRA BERGAMASCHI
[Neurolinguística]
A linguagem para além do comportamento: normalização, significação e sujeito na Neurolinguística Discursiva
O presente trabalho propõe uma reflexão sobre práticas com a linguagem na fala, na leitura e na escrita em contextos considerados normais e patológicos, tomando como eixo de discussão a relação entre linguagem, diagnóstico e constituição do sujeito. Ancorada no campo da Neurolinguística Discursiva, desenvolvida por Maria Irma Hadler Coudry na Universidade Estadual de Campinas, a discussão busca problematizar o modo como determinadas práticas terapêuticas e educacionais, sobretudo aquelas orientadas por perspectivas biomédico-comportamentais, tendem a reduzir a linguagem ao comportamento observável, deslocando para o campo do déficit processos singulares de significação. A reflexão retoma questões desenvolvidas em minha dissertação de mestrado, especialmente no que se refere aos efeitos de normalização produzidos quando a linguagem passa a ser concebida prioritariamente em termos de adequação e desempenho. Mobilizam-se contribuições de Lev Vygotsky, Alexander Luria, Carlos Franchi, Michel Foucault, Byung-Chul Han e Georges Canguilhem para pensar: a partir de que concepção de sujeito determinadas dificuldades passam a ser definidas? O que é tomado como erro? O que é considerado desenvolvimento adequado? Em que medida práticas centradas na correção e na adaptação contínua podem transformar hipóteses de significação em comportamentos inadequados a serem eliminados? Metodologicamente, o trabalho se apoia no conceito de dado-achado, compreendido não como evidência estatística, mas como operador teórico capaz de iluminar o funcionamento da linguagem em situação interlocutiva. A análise toma como dado um episódio em que uma criança interpreta literalmente a palavra “meia” em um ingresso de cinema, compreendendo que teria assistido apenas “metade” do filme. O episódio evidencia operação semântica coerente e um percurso interpretativo singular, cuja ampliação depende da interlocução e da partilha cultural. O que se revela ali é déficit linguístico ou fidelidade ao sentido literal? Rigidez cognitiva ou um processo de significação ainda em construção? Defende-se, assim, a necessidade de deslocar o olhar do déficit para o processo, recolocando a linguagem como espaço de constituição do sujeito. Em contraposição a perspectivas centradas exclusivamente na adequação comportamental, a Neurolinguística Discursiva permite compreender o erro como movimento constitutivo da significação. Se a linguagem é constitutiva do sujeito, reduzi-la ao desempenho não significaria também reduzir as possibilidades de existência?
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Autismo; Dispositivo;
THAINÁ CRISTINA DA SILVA FERREIRA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
As vogais médias-baixas do português brasileiro no contexto de PFE: uma análise acústica preliminar
O ensino de português para falantes de espanhol (PFE) apresenta especificidades decorrentes da proximidade linguística entre português e espanhol, incluindo aspectos fonético-fonológicos. Ainda que essa proximidade favoreça a compreensão inicial da língua-alvo, autores como Almeida Filho (1995), Grannier (2002; 2015) e Alonso Rey (2020) apontam que ela também pode dificultar a percepção das diferenças entre os sistemas linguísticos, favorecendo o aproveitamento de padrões da língua espanhola para a produção oral em português. Dentro do sistema vocálico da língua portuguesa, as vogais médias-baixas configuram uma potencial área de dificuldade para aprendizes hispanofalantes, uma vez que esses segmentos exercem função distintiva no sistema vocálico do português e não encontram correspondência direta no espanhol. Nesse contexto, este trabalho apresenta resultados preliminares de uma análise acústica das vogais médias-baixas do português brasileiro produzidas por aprendizes hispanofalantes, buscando verificar em que medida os valores obtidos se aproximam dos padrões descritos na literatura para o português brasileiro e se evidenciam tentativas de afastamento em relação aos padrões vocálicos do espanhol. A pesquisa adota uma abordagem metodológica mista, articulando análise quantitativa e interpretação qualitativa dos dados. O corpus preliminar é composto por dados orais de quatro aprendizes hispanofalantes, coletados por meio de tarefas de leitura e produção guiada, contemplando diferentes contextos prosódicos. As amostras foram segmentadas e analisadas acusticamente no software Praat, com foco nos valores de F1 e F2 das vogais investigadas, posteriormente comparados a intervalos de referência descritos para o português brasileiro. Os resultados preliminares indicam diferenças entre os valores produzidos pelos aprendizes e os intervalos acústicos descritos para o português brasileiro, bem como oscilações entre produções mais próximas aos padrões vocálicos do português e do espanhol. Assim, os dados analisados reforçam empiricamente dificuldades fonético-fonológicas frequentemente observadas por professores no contexto de PFE e discutidas na literatura da área. Espera-se que os resultados contribuam para as discussões sobre ensino de pronúncia no contexto de PFE, especialmente no que se refere à elaboração de estratégias didáticas voltadas à conscientização fonológica e à percepção das diferenças entre os sistemas vocálicos do português e do espanhol.
Palavras-chave: português para falantes de espanhol; vogais
THIAGO EVERTON AYABE FERRARESSO DE SIQUEIRA
[Semiótica]
Direitos e prazeres: representações das práticas de liberdade sexual no jornal "Lampião da Esquina"
na perspectiva da semiótica do discurso Os discursos sobre as práticas de liberdade sexual ainda são, frequentemente, reproduzidos por um viés censurado, conservador e intimista. Em Chauí (1984), a filósofa brasileira afirma que repressões sexuais são construídas a partir de valores ideológicos a fim de controlar o exercício da sexualidade, uma vez que são vistas como perigo para uma sociedade conservadora. Esta pesquisa, inserida no simpósio temático intitulado “Semiótica, práticas e vida social”, preocupada com a vida, práticas identitárias e corpos de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, historicamente marginalizados pela sociedade, busca compreender como as práticas de direito à liberdade sexual (sexo grupal, nudez, prostituição, entre outros temas) são representadas no periódico LGBTQIAPN+ Lampião da Esquina (1978-1981), publicado durante o período da ditadura civil-militar brasileira. Procuramos entender igualmente como os discursos acerca das práticas da liberdade sexual constroem os aspectos da identidade, com base nas discussões de Portela et al. (2025) e Portela; Schwartzmann (2017). O presente estudo, tendo como fundamentação teórica a semiótica do discurso, parte do seguinte quadro teórico-metodológico: os planos de expressão e conteúdo do percurso gerativo do sentido, assim como as formas de vida, baseando-se em Fontanille (2008). Serve-se também de conceitos como semissimbolismo, figuratividade e plasticidade (Floch, 2004; Pietroforte, 2007; Teixeira e Oliveira, 2009). O córpus deste trabalho consiste em duas edições do periódico, respectivamente uma do ano de 1979 e outra de 1981, com destaque em uma capa e uma reportagem, focando em elementos verbovisuais que remetem às práticas de liberdade sexual mencionadas anteriormente. Partindo da ideia de Gomes (2009) de que o jornal é um texto sincrético, isto é, a fusão de diferentes linguagens, analisamos, além dos enunciados, elementos plásticos, como cores, composição de páginas, espaçamento das figuras presentes, diagramação e entre outros aspectos. Mesmo em andamento, as análises deste estudo levam a reflexão de dois pontos importantes: (I) o direito ao prazer é fundamental para a construção das formas de vida da comunidade LGBTQIAPN+; e (II) a liberdade do corpo é representada como um ato de resistência.
Palavras-chave: semiótica; identidade; Lampião da Esquina;
THIAGO HENRIQUE NASCIMENTO VERGARA
[Análise do Discurso]
“Diversidade” como signo ideológico nas temáticas da Parada do Orgulho
LGBT: questões sobre alteridade e produção da diferença Este trabalho, fruto de um recorte de meu projeto de doutorado, tem como base teórico-metodológica a Análise Dialógica do Discurso, explorando concepções como alteridade, enunciado concreto, signo ideológico, e se insere em um contexto mais amplo que trata das relações entre sujeitos quando do acontecimento da Parada do Orgulho LGBT no Brasil e em especial da apreensão de questões de diversidade e alteridade também na vida, em que “[...] a diversidade é pensada e produzida como [...] um problema que começa no outro, na sua existência, ou melhor dito, na sua experiência de ser outro” (Skliar, 2003, p. 42). Não por acaso, em duas das acepções dicionarizadas de “diversidade”, tem-se que essa se trata da “ausência de acordo ou de entendimento; desacordo, divergência” ou ainda da “qualidade daquilo que é diverso, diferença [...]” (Michaelis, on-line). Ao tratar desse signo ideológico a proposta é dar enfoque portanto ao aspecto de desacordo, divergência e diferença que habita em “diversidade” e especialmente no entendimento disperso que se vê materializado; a diversidade, ao ser produzida como um problema que surge a partir da existência do outro, “o mesmo problema que aquele da heterogeneidade já antes indesejável” (Skliar, 2003, p. 42), também gera o movimento contrário, de reafirmá-la enquanto parte da alteridade, da diferença que identifica. Neste trabalho, proponho uma série de análises das edições de 2000 a 2002 da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em diálogo com discursos outros que vêm tomando forma a partir de 2018, na esfera política, em tons de polêmica, a partir do sintagma “políticas afirmativas” (em alguns casos, também “ações afirmativas”). O objetivo é refletir, por um lado, sobre a questão da produção da diferença, e por outro, sobre o uso de signos ideológicos, como “diversidade”, “políticas afirmativas” etc., quando estes passam a habitar diferentes esferas da vida social – condensando ou expandindo seus sentidos. Assim, procuro defender a hipótese de que a emergência de discursos que traziam, nominalmente, menções à “diversidade” já no início dos anos 2000, também tinham a ver com “políticas afirmativas” (vide reconhecimento jurídico de uniões de casais homoafetivos). (Apoio: FAPESP – Processo 2025/14752-1).
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; Alteridade; Signo
THIAGO MOREIRA CORREA
[Semiótica]
Suporte, multimodalidade e produção de sentido na atualização curricular de
Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo A versão atualizada do Currículo da Cidade de São Paulo para o componente de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental incorpora, de modo sistematizado, o conceito de suporte como elemento constitutivo da análise linguística e multimodal (São Paulo, 2026). Este trabalho apresenta os fundamentos teórico-metodológicos que orientam essa escolha e os situa no campo da semiótica discursiva e dos estudos do letramento. No que diz respeito à mudança, o currículo passa a distinguir, de modo articulado, as noções de texto e discurso. O texto é compreendido como "unidade de sentido, dada por recorrência daquilo que é dito e de um modo próprio de dizer" (Discini, 2005), enquanto o discurso corresponde a uma instância mais abstrata — uma enunciação socialmente situada e orientada por diversos fatores como gênero, finalidades comunicativas e papéis temáticos. Essa distinção desloca o texto de uma centralidade autorreferente e o insere em uma cadeia discursiva mais ampla, com consequências diretas para o escopo da análise e do ensino. A inserção do suporte como categoria de análise decorre dessa ampliação do olhar sobre o texto. Definido como o objeto de inscrição do texto, o suporte deixa de ser entendido como meio neutro e passa a integrar a construção de sentido. As discussões sobre paratextualidade (Genette, 2009), sobre as práticas de leitura do objeto livro (Portela, Schwartzmann, 2012) e sobre mudanças de suporte na história das inscrições urbanas (Correa, 2024) evidenciam que aspectos como gramatura do papel, tipo de capa, plataforma digital ou superfície urbana participam da organização das práticas de leitura, produção e circulação. O currículo reconhece que os textos são constituídos por múltiplos sistemas semióticos, verbal, visual, musical, etc., e que a atribuição de sentido exige do leitor a mobilização articulada de diferentes capacidades. A análise multimodal, assim, não se encerra na relação entre as linguagens em si, mas se estende ao suporte que as organiza e condiciona. A mudança responde a uma demanda social: as transformações técnicas, midiáticas e culturais reconfiguram os modos de produção, circulação e recepção dos textos e impõem à escola a tarefa de formar leitores(as) e produtores(as) capazes de operar em contextos de crescente sincretismo de linguagens. Ao incorporar o suporte como elemento de análise em consonância com a semiótica discursiva, o Currículo da Cidade de São Paulo propõe uma educação linguística que articula língua, texto, discurso e materialidade como dimensões indissociáveis da significação.
Palavras-chave: Suporte; Ensino; Currículo;
THIAGO OLIVEIRA DA MOTTA SAMPAIO
[Psicolinguística]
Coerção Aspectual na Psicolinguística Experimental
Até onde alcança o meu conhecimento, todas as propostas de coerção aspectual tem como base uma classificação de eventos, independente de sua natureza ser mais semântica, pragmática, ou original da filosofia da linguagem. A partir dessas classificações, a maioria dos autores destacam o aspecto lexical (aktionsart / modo de ação) dos verbos como o principal responsável pela coerção. Tomando como base a classificação de Vendler (1967) e adicionando os semelfactivos de Smith (1991), a coerção aspectual pode ser explicada ao se levantar a pontualidade/duratividade do verbo e do contexto. Caso o verbo seja pontual (ex. piscar) e o contexto durativo (ex. por alguns minutos), estaríamos diante de uma incompatibilidade aspectual que demandaria de ajustes. Esse ajuste não seria possível em caso de verbos resultativos (ex. quebrar o vaso por alguns minutos), mas seria no caso de verbos não-resultativos (ex. piscar por alguns minutos). Um ponto importante a se levantar é que existem dezenas de classificações de eventos no mercado (cf. Sampaio e França, 2010), inclusive aquelas como a de Dölling (2014) em que são elencados diferentes tipos de coerção aspectual de natureza pragmática, resultantes não da incompatibilidade de traços aspectuais, mas sim da simples mudança de tipo de evento. Devemos, então, tomar partido de uma classificação de eventos em especial? Em caso positivo, quais características tornam uma mais adequada que as demais em termos descritivos? Somamos a essa dúvida o fato de que diferentes experimentos psicolinguísticos trazem resultados positivos (ex. Piñango et al. 1999) utilizando verbos que não se encaixam perfeitamente nas definições de um evento pontual podem nos fazer duvidar que o fenômeno se trate de uma coerção, ou mesmo de sua natureza ser, de fato, aspectual. Essa apresentação tem o objetivo de levantar esses questionamentos e trazer uma proposta de explicação dos resultados experimentais mais consistente com as discussões correntes na psicologia cognitiva, aproximando o fenômeno da percepção do tempo.
Palavras-chave: coerção aspectual; psicolinguística; classificação de
TIAGO RUAS DIEGUEZ
[Análise do Discurso]
A análise do discurso de divulgação científica em Que Bobagem!: modulações e limites da semântica global
Nesta pesquisa de doutorado em andamento, investigo o funcionamento polêmico do discurso de divulgação científica contemporâneo a partir do livro Que bobagem! (Pasternak; Orsi, 2023). A análise busca questionar a representação comum da divulgação como mera tradutora neutra e facilitadora de saberes, compreendendo-a em um espaço discursivo em que distintas posições lutam por hegemonia e pela legitimidade de dizer o que é ou não ciência. Esse embate ocorre tanto contra áreas rechaçadas (pseudociência), quanto contra outras posições dentro da própria esfera do que se intitula divulgação científica. O quadro teórico-metodológico basilar apoia-se na semântica global de Dominique Maingueneau. Nesse primeiro movimento analítico sobre o corpus, busquei mapear pares de semas positivos e negativos projetados pelos enunciadores. Essa abordagem indutiva, contudo, resultou num impasse, produzindo a identificação de temas em oposição, em vez de semas estruturais profundos. Tal impasse metodológico exigiu um recuo historiográfico para compreender as raízes da própria aplicação da teoria de Maingueneau no Brasil. Ao fazê-lo, observei que parte da tradição nacional vivenciou um desvio prático semelhante, operando a semântica global já num cenário em que essa teoria convivia com visadas pragmáticas e enunciativas do próprio autor, e, muitas vezes, também realizando certa deriva terminológica (de sema para tema). Apesar de esse resultado inicial ter me levado à reconsideração da metodologia adotada, pude perceber, ao aplicar a teoria da semântica global, que os enunciadores constroem sua identidade num espaço discursivo ternário, e não estritamente binário. Por um lado, projetam semas negativos sobre o Outro rejeitado (pseudociência); de outro, relacionam-se com um Outro privilegiado (o discurso científico institucional), replicando positivamente seus semas. A esse fenômeno de incorporação corresponde um simulacro de valorização, cuja dinâmica articula tradução e interincompreensão regrada, em regime próximo ao dos simulacros descritos por Maingueneau, mas com inversão de valência. Em vez de produzir um Outro rejeitado, constrói-se um Outro valorizado e funcional à legitimação do discurso. A apresentação desse primeiro caminho metodológico visa a debater as dinâmicas de tradução e interincompreensão em um campo discursivo no qual se relacionam distintos atores, bem como a apontar a necessidade de uma aplicação da semântica global que incorpore conceitos da pragmática enunciativa (cenografia e ethos) e da teoria da polêmica argumentativa de Ruth Amossy.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Semântica global; Divulgação
TRICIANE RABELO DOS SANTOS DE ALMADA
[Letramento(s)]
O paradoxo da autonomia do estudante em termos da definição acadêmica na escrita de Trabalhos de Conclusão de Curso
Este trabalho analisa um paradoxo presente na construção de definições na escrita acadêmica de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), buscando mostrar que quanto mais uma definição se apresenta como autônoma, mais ela se ancora em redes invisíveis de memória discursiva; e, inversamente, mesmo definições alinhadas aos modelos científicos carregam marcas de subjetividade e reinscrição. Nesse espaço de tensão, a escrita do TCC se constitui entre exigências institucionais de legitimidade científica e modos singulares de apropriação do conhecimento. O estudo investiga o funcionamento discursivo das reformulações parafrásticas de definições presentes na fundamentação teórica de TCCs produzidos por estudantes de graduação. Inscrita em uma perspectiva aplicada de base discursiva, a pesquisa articula pressupostos da Análise do Discurso de linha francesa com os Novos Estudos do Letramento. Do ponto de vista teórico-metodológico, busca contribuir para os estudos do letramento acadêmico ao propor uma leitura que reconhece a escrita como prática social, histórica e ideológica, deslocando o enfoque da correção normativa para os processos formativos na academia. O corpus foi constituído por 25 TCCs, dos quais foram selecionadas sequências definicionais reformuladas parafrasticamente. Foram identificados três tipos recorrentes de reformulação de definições: (i) com remissões explícitas a textos citados; (ii) com traços citacionais, porém sem referência direta; e (iii) formuladas sem marcas mostradas de filiação a fontes teóricas. A predominância do terceiro tipo indica um padrão dissonante, uma vez que, em tese, essas formulações deveriam estar ancoradas em suas referências teóricas. Os resultados indicam que a definição nos TCCs obedece a uma gradação entre a remissão explícita a fontes teóricas e as formulações sem marcas mostradas de filiação. Constitui-se, portanto: (i) pela execução mais, ou menos, competente, de uma norma de citação direta e explícita; (ii) pela exploração mais, ou menos competente, da palavra alheia, feita de forma explícita, ainda que indireta; ou (iii) pela apropriação, mais, ou menos, competente, fazendo supor, mas sem marcas, fontes institucionalizadas. O paradoxo se situa no fato de que a definição sempre se constitui na tensão entre efeitos de autonomia enunciativa e a sua inscrição inevitável no interdiscurso em qualquer dos três casos. Como contribuição, propõe-se ampliar o olhar sobre o letramento acadêmico, favorecendo práticas pedagógicas que levem em conta a inscrição no interdiscurso como forma de iluminar a questão da autonomia do estudante no que se refere a sua escrita acadêmico-científica.
Palavras-chave: Definição. Escrita Acadêmica. Interdiscurso. Parad;
VALQUIRIA MIQUELINO DE OLIVEIRA
[Neurolinguística]
Jogos e trabalho com a linguagem na internet em análise pela
Neurolinguística Discursiva A criação dos ambientes digitais tem colaborado para o surgimento de grupos, perfis e plataformas voltadas para determinados campos e práticas que neles ocorrem. Nesse cenário, algumas empresas, profissionais da área clínica e da educação têm se dedicado a compartilhar conteúdos em seus blogs, canais do Youtube e redes sociais, dentre os quais se destacam jogos para “desenvolver”, “incentivar” e/ou “estimular” a linguagem em crianças. Este trabalho, ainda em desenvolvimento, tem como objetivo analisar, com base nos princípios teóricos e metodológicos da Neurolinguística Discursiva (ND), as propostas de jogos divulgados voltados ao trabalho com a linguagem, bem como sugerir possibilidades de (re)adaptação de suas abordagens. Para a análise, foram selecionadas propostas de jogos compartilhadas em perfis com alta popularidade e que são exibidos como primeiros resultados no Google, Youtube e Tik Tok: a) 2 jogos em um blog, b) 2 jogos em canal do Youtube, c) 2 jogos em um perfil do TikTok. Partindo da ND, este trabalho está fundamentado no conceito de linguagem como atividade constitutiva (Franchi, [1977]/1992). Assim, a linguagem não é concebida estritamente como um sistema de formas ou transmissão de conteúdos, mas como uma sistematização aberta de recursos expressivos (Geraldi, 1990), que assume a sua concretude significativa na singularidade da interação com o outro (Benveniste, 1976). Concomitantemente também se considera a potencialidade de tais jogos para possibilitar, através da linguagem, um processo de assimilação (Leontiev, 1986) e de favorecimento da experiência incompleta que os sujeitos falantes de uma língua tem na e pela linguagem (Coudry e Novaes-Pinto, 2023). Os dados preliminares indicam que, em uma abordagem contrária a da ND, as propostas com os jogos utilizados se restringem ao favorecimento de propostas metalinguísticas, nas quais a repetição, a nomeação e a conceituação ocupam um espaço central em detrimento do uso da linguagem. Espera-se que este trabalho contribua para os campos clínico e educacional ao promover um olhar discursivo sobre o uso de jogos como recurso no trabalho com a linguagem, inspirando novas práticas e possibilidades dialógicas entre os sujeitos.
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Jogos; Linguagem;
VANESSA DOS SANTOS ARAUJO
[Letramento(s)]
A produção de material didático para o letramento acadêmico-científico como uma prática de formação docente
No presente trabalho busca-se apresentar resultados obtidos com a análise do processo de produção de material didático a ser utilizado em pesquisa-ação voltada à formação continuada de professores de língua portuguesa. No contexto brasileiro atual, a produção de material didático contribui para necessária autonomia docente na prática educativa, que se justifica frente ao avanço da “plataformização da educação” adotada em algumas redes de ensino. A perspectiva teórica a partir da qual é analisada a relação entre a produção de material didático e a formação docente continuada pauta-se em Tardif (2014), para quem os saberes dos professores são plurais e estão intimamente relacionados a seu trabalho na sala de aula, e ainda, em Freire (2022), que defende que a prática docente exige uma reflexão crítica permanente desde o princípio da experiência formadora. O material didático produzido no âmbito da pesquisa volta-se ao letramento acadêmico-científico de professores e estudantes da educação básica. Nesse contexto, Komesu e Fisher (2014) entendem o letramento acadêmico-científico como uma prática social, cuja concepção supera o âmbito do nível superior e também se aplica aos demais níveis da escolaridade. No material didático produzido, o objeto de estudo principal é um gênero discursivo da divulgação científica, que é concebido em perspectiva bakhtiniana (Bakhtin, 2016), assim como a divulgação científica, que, para Grillo (2013), é compreendida como uma modalidade particular de relação dialógica. A organização formal do material se realiza em torno de sequências didáticas, de acordo com Dolz; Noverraz e Scheneuwly (2004) e de projetos de trabalho, tais como concebidos por Hernández (1998). Espera-se que os resultados contribuam para a compreensão dos modos de produção de materiais didáticos em suas relações com contextos específicos de formação e atuação docente, e para a promoção do letramento acadêmico-científico de docentes e discentes em aulas de linguagem dos anos finais do ensino fundamental, para que assim o acesso ao conhecimento científico seja ampliado, contribuindo para a redução das desigualdades. Apoio: FAPESP 2022/05908-0
Palavras-chave: letramento científico; gêneros de divulgação científica;
VINÍCIUS DOS SANTOS RIBEIRO
[Semiótica]
Práticas e estratégias científicas: saberes científicos e saberes divulgados sobre a Covid-19
O presente trabalho tem como temática central a construção e a circulação da divulgação científica, compreendida como uma prática discursiva que envolve a mediação do saber entre a esfera acadêmica e a esfera pública. Nosso corpus é formado por textos da Revista Pesquisa FAPESP e por postagens em redes sociais sobre a pandemia de Covid-19, selecionados a partir de um recorte temporal específico (de março de 2020 a fevereiro de 2021) e analisados considerando seu caráter sincrético, que articula diferentes linguagens (verbal, visual, diagramática etc.). O objetivo desta pesquisa de Doutorado, ainda em fase inicial, é identificar e descrever os mecanismos de construção do discurso de divulgação científica, bem como compreender as estratégias por meio das quais o saber científico é transposto, reconfigurado e colocado em circulação para públicos não especializados. Com isso, pretendemos contribuir para a compreensão da divulgação científica enquanto prática semiótica, além de propor reflexões, no âmbito da semiótica discursiva, sobre os modos de produção de sentido, de veridicção e de mediação do conhecimento. Nosso trabalho tem como fundamento a teoria semiótica de base greimasiana e seus desdobramentos contemporâneos, especialmente as contribuições de Fontanille (2005; 2008) acerca das práticas e estratégias semióticas e de Zilberberg (2004) sobre a sintaxe da mestiçagem. A pesquisa dialoga também com a teoria da transposição didática proposta por Chevallard (1991 [1985]), na medida em que considera a divulgação científica como um processo de transformação e recontextualização do saber. A análise dos textos selecionados buscará examinar tanto o plano do conteúdo, a partir do percurso gerativo do sentido, quanto o plano da expressão, considerando aspectos como organização visual, disposição dos elementos e recursos multimodais. O enfoque recai, sobretudo, sobre o nível discursivo, com atenção às estratégias de veridicção, à construção das imagens de enunciador e enunciatário e aos modos de dizer a ciência em diferentes esferas de circulação. Por se tratar de uma pesquisa em desenvolvimento, ainda não apresentamos resultados conclusivos; contudo, esperamos que as análises permitam evidenciar diferentes modos de construção da divulgação científica, contribuindo para o avanço das discussões sobre linguagem, ciência e sociedade, bem como para o fortalecimento do letramento científico em contextos contemporâneos.
Palavras-chave: Semiótica; Divulgação Científica; Covid-19;
VITOR MAGALHÃES DIAS
[Semiótica]
ENTRE LIBERDADE E OPRESSÃO: uma abordagem semiótica da estética distópica
Nas mais diversas sociedades e nos mais variados períodos, a História foi espectadora confiável da busca humana pela utopia comunitária, vendo, em repetidas ocasiões, o constante fracasso dos grupos sociais em atingi-la. Se por um lado tais discussões já ressoavam no campo literário-filosófico desde a Antiguidade, o advento do mundo moderno promove uma reconfiguração desses entendimentos, opondo o conceito de ‘utopia’, de certa forma estabilizado na cultura ocidental, com uma versão disfórica da realidade projetada, isto é, a ‘distopia’, cuja difusão se dá, principalmente, durante o século XX. Pensando nessas questões, o presente trabalho, amparado pela teoria semiótica de vertente greimasiana, busca aproximar a noção de uma ‘estética da distopia’ com o quadro conceitual da disciplina francesa, sobretudo observando as dimensões narrativas e discursivas pertinentes ao cerne do paradigma supracitado, além de esquadrinhar como a apreensão estética viabiliza uma projeção ético-ideológica do sujeito que enuncia. Assim sendo, recorremos às contribuições semióticas de Barros (2002; 2011), Fiorin (2004; 2021), Fontanille (2007) e Discini (2006), a fim de refletir como o programa narrativo de disjunção de uma determinada comunidade em relação ao objeto-valor ‘liberdade’ i) reverbera a apreensão de temas e figuras recorrentemente suscitados em obras da referida vertente literária e ii) possibilita o estabelecimento de um escopo enunciativo que, através do texto-enunciado, revela uma postura ideológica do enunciador. Para além, os trabalhos de Carpio (2022), Clayes (2011) e Moylan (2000) são fundamentais para firmar o diálogo entre o campo da teoria semiótica com os estudos do utopismo na literatura e no cinema, uma vez que tais produções propõem elementos mínimos para a compreensão da distopia enquanto conceito decorrente da ficção científica. Em nível último, a discussão contribuirá para um olhar analítico da série de romances Jogos Vorazes, cujo direcionamento para o público juvenil adiciona uma outra dimensão de significação e pertinência aos problemas teóricos previamente descritos.
Palavras-chave: Semiótica; Literatura; Distopia;
WAGNER OLIVEIRA
[Linguística Aplicada]
METODOLOGIAS HÍBRIDAS DE ANÁLISE TEXTUAL: UMA ARTICULAÇÃO ENTRE
FERRAMENTA COMPUTACIONAL E IAGen Esta comunicação oral apresenta uma pesquisa cujo objetivo é investigar a articulação entre o uso de uma ferramenta computacional de análise textual e de uma ferramenta de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) em uma prática de análise de textos acadêmicos produzidos por ingressantes no ensino superior de uma universidade pública brasileira. Essa investigação parte de uma pesquisa anterior (Menegaldo & Oliveira, 2025) desenvolvida com o auxílio do software AntConc, que seguiu o procedimento metodológico descrito por Menegaldo (2024), cuja proposta é usar ferramentas de análise de corpus de maneira exploratória, em uma abordagem quali-quantitativa, em adaptação à metodologia Data Driven Learning, para analisar o emprego de operadores argumentativos e de mecanismos de coesão em textos produzidos por estudantes do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS) da Universidade Estadual de Campinas (São Paulo, Brasil), nos anos de 2012 e 2022. A partir dos resultados obtidos nessa pesquisa, a investigação tema desta comunicação propõe discutir as possibilidades de integração entre essa experiência metodológica anterior e o processamento interpretativo realizado por uma ferramenta de IAGen, o Chat GPT, confrontando os resultados quali-quantitativos obtidos por meio do uso de ambas as ferramentas. Especificamente, o método proposto consiste em combinar os recursos gerados pelo AntConc, como: listas de frequência, concordâncias e padrões de coocorrência; com os outputs gerados pelo Chat GPT, como: análises discursivas, interpretações textuais e sugestões de intervenção. Dessa forma, busca-se verificar o uso dessas tecnologias como apoio à análise textual no âmbito acadêmico, especificamente no que se refere às relações de coesão e, por consequência, à identificação de padrões argumentativos. Os resultados contemplam uma reflexão acerca do que pesquisadores da análise textual podem esperar da aplicação de metodologias que usam ferramentas computacionais tradicionais e/ou tecnologias mais atuais, contribuindo para as discussões vigentes sobre o tema no campo da Linguística Aplicada e áreas correlatas.
Palavras-chave: análise textual; ferramenta computacional; ferramenta de
WELLINGTON SANTOS DA SILVA
[Línguas Africanas]
Foco e Tópico na Língua Geral de Mina: um caso de transmissão de traço
O presente trabalho aborda a sintaxe do foco e do tópico na língua geral de mina (LGM), interpretando-a como resultante dos processos de competição e seleção de traços na ecologia de contato do ciclo do ouro, à luz da noção de transmissão de traço, proposta por Aboh (2015). A LGM consiste numa língua afrodiaspórica que foi falada no Brasil ao longo do século XVIII, registrada no documento Obra Nova de Lingoa Geral de Mina, escrito pelo português António da Costa Peixoto (1741). Do ponto de vista sintático, a LGM pode ser caracterizada como uma língua gbe na diáspora brasileira, dada a presença de uma série de traços gramaticais identificados com esse grupo de línguas africanas, como serialização verbal, verbos de complementação inerente, marcadores pré-verbais para tempo, modo e aspecto, adjetivos verbais reduplicados etc. Porém, também é possível observar que a língua apresenta algumas diferenças em relação às línguas gbe modernas e aos demais documentos diacrônicos no que diz respeito a determinados domínios gramaticais, como nas construções de foco e tópico. Nas línguas gbe modernas e em seus registros diacrônicos, as construções sintáticas destacadas se caracterizam por duas propriedades: (i) movimento do constituinte focalizado e/ou topicalizado para a periferia esquerda da sentença; (ii) presença de um marcador morfofonologicamente aberto de foco e/ou tópico na posição imediatamente após o constituinte deslocado (Aboh, 2004, 2015). Tais propriedades confirmam a generalização de Ameka (2010), que caracteriza as línguas gbe como discourse configurational languages. Na LGM, entretanto, embora haja o movimento para a periferia esquerda – propriedade percebida, por exemplo, nas interrogativas-wh –, não há morfemas abertos para a marcação das categorias sintático-discursivas aqui trabalhadas. Não obstante a ausência desses marcadores, argumentamos que a LGM apresenta as construções de foco e tópico características das línguas gbe, ancorando-nos sobretudo na descrição sintática dos diálogos apresentados por Costa Peixoto. defendemos, então, que a estrutura da periferia esquerda da LGM é marcada pela atuação dos processos de competição e seleção de traços na ecologia de contato (Mufwene, 2008), mais especificamente, por aquilo que Aboh (2015) caracteriza como transmissão de traço, processo no qual a variedade emergente do contato seleciona o traço semântico de uma dada língua da ecologia, mas fixa sua sintaxe de outro modo.
Palavras-chave: periferia esquerda; língua afrodiaspórica; contato
WENDELL LOPES DE AZEVEDO BRAULIO
[Semiótica]
A forma de vida hollywoodiana e a gramática da moda “universal”. Ou gramática da Branquitude?
Pretendemos refletir sobre a problematização das diferenças raciais no âmbito das análises de estilo na moda. Nesse sentido, a investigação é orientada pelas seguintes questões: qual é a “cor” das análises de moda? Em outra formulação: qual é a “cor” da própria moda? Para tratar dessas questões, realizamos uma análise do uso do vestido da grife paraense Normando pela atriz Alice Carvalho na cerimônia do Oscar. A peça foi confeccionada com tecido sustentável composto por fibras naturais de juta e malva amazônica, cultivadas de forma orgânica e artesanal, sem o uso de agrotóxicos ou pesticidas, irrigadas naturalmente pelos rios da região e trabalhadas pela iniciativa @somoscastanhal. Elaborado sob medida, com técnicas de alfaiataria e cauda sereia, o vestido constitui um exemplar de alta moda que celebra a bioeconomia amazônica. O presente estudo de caso da atriz Alice Carvalho tem como principal objetivo refletir semioticamente sobre duas análises de estilo no campo da moda, realizadas a partir de perspectivas distintas por duas profissionais de estilo: a primeira postagem, de Carol Berto (@carolbberto), realizada em 16 de março (https://www.instagram.com/p/DV9QjWcEVcF/?img_index=1), ela se descreve como uma profissional negra, situada fora da normatização dos corpos; a segunda e de Ana Rodrigues (@ana.estiloecoroutro), realizada em 17 de março (https://www.instagram.com/p/DWABWmSESwJ/), ela é uma profissional branca, comprometida com a normatização de corpos, mentes, cores e do status quo presente na moda. O estudo mobilizará conceitos da semiótica francesa (Floch, 1995; Fontanille & Greimas, 1993; Fontanille, 2008, 2014, 2017; Stange, 2018, 2024, 2025) e da escola semiótica brasileira (Barros, 2011; Fiorin, Portela & Schwartzmann, 2008; Fiorin, 1988, 2001a e 2001b, 2019; Schwartzmann, 2009, 2017, 2022). Como hipótese, sustenta-se que aquilo que se apresenta como uma suposta universalidade no campo da moda revela-se como uma construção situada, historicamente marcada e atravessada por relações de poder. Isso aparece no caso em questão, pois, ao tensionar essa normatividade no espaço altamente codificado do Oscar, a presença de Alice Carvalho instaura novas possibilidades de significação, contribuindo para a problematização dos regimes de visibilidade que estruturam o campo da moda. A análise comparativa de uma perspectiva racializada em detrimento de uma perspectiva universalizada poderá revelar que a chamada “gramática universal” da moda tende a operar como uma gramática da branquitude, ao naturalizar determinados corpos e repertórios simbólicos em detrimento de outros.
Palavras-chave: forma de vida; moda; branquitude;
WILLIAM PINHEIRO DA SILVA
[Linguística Aplicada]
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA NO ENSINO MÉDIO: UM MAPEAMENTO
SISTEMÁTICO Este artigo, situado no campo da Linguística Aplicada (LA), lança luz sobre as relações entre produção textual no ensino médio e Inteligência Artificial Generativa (IAGen). O objetivo geral é mapear a produção científica recente sobre o tema no Brasil, no período de 2015 a 2025, buscando compreender como a IAGen vem sendo discutida e investigada no contexto acadêmico brasileiro. A pesquisa se fundamenta principalmente em Hockly (2023), que evidencia a urgência de reavaliação das práticas de escrita diante da rápida incorporação das IAGens, tendência intensificada no cenário pós-pandemia de COVID-19 e suas profundas repercussões educacionais e sociais. O estudo adota abordagem qualiquantitativa, com base teórica em Minayo (2001) e Creswell (2007), e utiliza o mapeamento sistemático como procedimento metodológico central, conforme proposto por Richter (2022). A geração de dados ocorreu por meio de buscas em quatro bases acadêmicas: SciELO, Banco de Teses e Dissertações da CAPES, Google Acadêmico e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, envolvendo artigos, dissertações e teses diretamente relacionados ao tema investigado. A pesquisa se encontra atualmente em fase de análise dos dados coletados. Até o momento, a análise quantitativa identificou um corpus composto por 84 trabalhos, distribuídos entre 49 artigos (58,3%), 27 dissertações (32,1%) e 8 teses (9,5%). Os resultados indicam crescimento expressivo do interesse acadêmico pelo tema a partir de 2023, com pico de publicações registrado em 2024, evidenciando a emergência, expansão e consolidação dessa área de investigação no cenário brasileiro contemporâneo. Na análise qualitativa, ainda em caráter preliminar, observa-se que a IAGen é frequentemente compreendida como ferramenta de apoio à produção textual, sendo associada a novas práticas de escrita no contexto educacional. Os estudos mapeados apontam a necessidade de desenvolvimento de letramentos em IAGen, do uso crítico dessas tecnologias digitais e da ampliação dos debates sobre implicações éticas, autoria, avaliação e responsabilidade no uso dessas ferramentas em ambientes educacionais contemporâneos.
Palavras-chave: inteligência artificial; generativa; produção textual;
YAN MASETTO NICOLAI
[Semântica]
Do Desejo à Ação: O Processo de Atualização da Propriedade e o
Engajamento do Interlocutor em Atos de Fala Imperativos A presente investigação aborda a interface entre Semântica e Pragmática no domínio da diretividade, com foco específico na natureza dos enunciados imperativos e no mecanismo de engajamento do interlocutor (Ad). O objetivo central é analisar como a força diretiva transcende a decodificação lexical, operando como um atualizador dinâmico do contexto interacional. Partindo da revisão crítica das teorias da performatividade e modal, o trabalho sustenta que tais abordagens falham ao não explicar fenômenos como o consentimento ou a compatibilidade de imperativos com expressões de descomprometimento da consequência. Propõe-se, em conformidade com os trabalhos de Masetto, um modelo de análise fundamentado na Teoria da Propriedade, no qual o imperativo é definido não por um valor de verdade, mas pela denotação de uma propriedade que visa modificar o estado atual do mundo. O núcleo da proposta reside no processo de atualização que ocorre entre dois módulos contextuais distintos: o 'Speaker Wishlist' (SWL), que armazena as proposições desejadas pelo falante, e a 'Addressee’s To-Do-List' (AdTDL), que organiza o conjunto de afazeres do ouvinte. Demonstra-se que a diretividade bem-sucedida consiste na transferência de uma proposição 'p' do SWL para a AdTDL, transformando um desejo do emissor em uma tarefa de execução obrigatória para o destinatário.Nesse processo, o engajamento de Ad é condicionado pela Contingência de Engajamento Contextual (CEC) e pelo traço de CONTROLE (CTRL). O CTRL atua como um sintonizador da força ilocucionária, permitindo que a mesma estrutura linguística transite entre a ordem e o conselho, dependendo da autoridade e da hierarquia social validada no 'Common Ground'. Exemplos como 'Sai daqui' ou 'Estuda mais' ilustram como o engajamento depende da agentividade atribuída a Ad e do traço de futuridade aproximativa, denominado 'As-Soon-As-Possible' (ASAP). Conclui-se que o sucesso do imperativo, sob a ótica dos trabalhos de Masetto, não reside necessariamente na execução física da ação, mas no reconhecimento linguístico e pragmático da propriedade que vincula o ouvinte à tarefa, consolidando o 'shift' pragmático essencial para a interação diretiva.
Palavras-chave: Semântica; Pragmática; Diretividade;
ZEFERINO RAÚL DUARTE
[Gramática Funcional]
Funcionamento das construções [dizer que], [lembrar que] e [realçar que] na variedade angolana do português
Apresento neste trabalho construções de base verbal dicendi que, por não se ajustarem a funções apreendidas na relação argumental entre oração matriz e subordinada (Gonçalves, 2024), ainda que se trate de recursos sintácticos de marcação de relevo (Travaglia, 2015), têm sido rotuladas como “modismos” ou “muletas linguísticas” na tradição gramatical portuguesa. Sob a hipótese de que elas desempenham a função de marcadores discursivos (MD) textuais-interactivos (Risso, 2015) e se consubstanciam na construção abstracta [[Vinf]elocução]impessoal + [que]], o objectivo aqui é apresentar propriedades formais e funcionais que confirmem a função dessa construção do ponto de vista dos traços definidores dos MDs. Embasam esta pesquisa os “Modelos Baseados no Uso” (Langacker, 1987; 2008; Goldberg, 2003; Croft, 2001; 2007; Bybee, 2001; 2016; Traugott; Trousdale, 2021; Rosário; Lopes, 2019; 2023) para os quais a unidade básica de análise é a construção — um pareamento de forma-função — e da Gramática Textual-interactiva (Risso et. al., 2015; Jubran, 2015), que se abstém do carácter de exclusão ou inclusão do paradigma formal de língua como competência linguística e entende a linguagem como um acto de interacção ou uma acção verbal. Tendo como objecto de estudo um recorte de textos recolhidos de jornais angolanos, entre 2018 e 2026, os procedimentos são feitos com base na análise sistemática, a fim de atestar as propriedades formais e funcionais das construções (Croft, 2001), e na análise das funções textuais-interactivas, através da análise tópica do discurso, pois que a segmentação tópica permite operacionalizar os traços de relevância, concernência e pontualização, que caracterizam a centração, no recorte textual (Jubran, 2015). Os resultados mostram que há um novo pareamento de forma e função que advém de uma reinterpretação dos usuários da língua. Significa que há uma inovação no estágio actual da língua portuguesa, repetida e convencionalizada. Essa dedução é feita com base na interpretação dos dados investigados de Santos (2024) tendo como critério aplicação a abordagem contextual de Diewald (2002, 2006) adaptada aos factores de construcionalidade (Rosário; Lopes, 2019; 2023).
Palavras-chave: construção; MD; construcionalidade;
Apresentação de Trabalhos – Comunicações
ADRIANO CLAYTON DA SILVA
[Letramento(s)]
“A gente existe!”: Letramento acadêmico e cidadania através de cartas argumentativas na região norte do país
Trabalhar os letramentos em sala de aula sempre deve ser feito no sentido de tornar alunos e alunas conscientes tanto das redes sociopolíticas nas quais os textos circulam quanto do “poder” de se conseguir criar e manipular criticamente tais textos dentro das mencionadas redes para atingir objetivos específicos. Nesse sentido, saber quais textos redigir, e de que forma, bem como para quem dirigi-los, pode fazer diferença nas esferas sociais em que uma pessoa esteja inserida, especialmente quando esta é socialmente vulnerável e vive numa cidade com baixo IDH. Neste caso, qualquer atenção que a pessoa receba das esferas governamentais pode fazer muita diferença para a melhoria de suas condições de vida. Este trabalho buscou refletir sobre os resultados de estratégias de letramentos aplicadas durante aulas de produção textual num campus do interior de uma universidade pública da região Norte do pais. Durante uma sequência didática que visava construir conhecimentos sobre textos dissertativos-argumentativos, parte do processo de aprendizagem incluía a criação de cartas dissertativas-argumentativas direcionadas a alguma autoridade local ou do poder executivo (reitor, prefeito, governador, etc.), apresentando um determinado problema social da cidade ou da universidade, suas causas e consequências, possíveis soluções e um apelo para que tal problema recebesse atenção. Tais cartas foram revisadas, reescritas e efetivamente enviadas, tendo em muitos casos recebido respostas das autoridades, o que deixou alunos e alunas entusiasmados e cientes de que foram suas ações que os tornaram, bem como suas comunidades, visíveis aos poderes públicos. A metodologia da pesquisa aqui aplicada é ação-reflexão-ação, englobando um período de três anos de aulas com diferentes turmas de produção textual, investigando como a sequência didática aplicada na produção das cartas ajudou na formação crítica das turmas, com eventuais ajustes na turma subsequente. Como resultado, observamos que as construções das cartas e de todo conhecimento envolvido para tal, bem como as respostas recebidas, mesmo que não tenham solucionado de imediato os problemas indicados, mostrou às turmas participantes das atividades de escrita que compreender a fundo como um texto funciona dentro de uma rede sociopolítica é uma estratégia poderosa de transformação social, além de melhorar a noção de cidadania das partes envolvidas. Esse tipo de estudo é fundamental na formulação de estratégias de estímulo à leitura e à escrita em ambientes universitários.
Palavras-chave: Linguística aplicada; Letramento acadêmico; Cidadania
ADRIANO LOPES RODRIGUES
[Letramento(s)]
“A gente existe!”: Letramento acadêmico e cidadania através de cartas argumentativas na região norte do país
Trabalhar os letramentos em sala de aula sempre deve ser feito no sentido de tornar alunos e alunas conscientes tanto das redes sociopolíticas nas quais os textos circulam quanto do “poder” de se conseguir criar e manipular criticamente tais textos dentro das mencionadas redes para atingir objetivos específicos. Nesse sentido, saber quais textos redigir, e de que forma, bem como para quem dirigí-los, pode fazer diferença nas esferas sociais em que uma pessoa esteja inserida, especialmente quando esta é socialmente vulnerável e vive numa cidade com baixo IDH. Neste caso, qualquer atenção que a pessoa receba das esferas governamentais pode fazer muita diferença para a melhoria de suas condições de vida. Este trabalho buscou refletir sobre os resultados de estratégias de letramentos aplicadas durante aulas de produção textual num campus do interior de uma universidade pública da região Norte do país. Durante uma sequência didática que visava construir conhecimentos sobre textos dissertativos-argumentativos, parte do processo de aprendizagem incluía a criação de cartas dissertativas-argumentativas direcionadas a alguma autoridade local ou do poder executivo (reitor, prefeito, governador, etc.), apresentando um determinado problema social da cidade ou da universidade, suas causas e consequências, possíveis soluções e um apelo para que tal problema recebesse atenção. Tais cartas foram revisadas, reescritas e efetivamente enviadas, tendo em muitos casos recebido respostas das autoridades, o que deixou alunos e alunas entusiasmados e cientes de que foram suas ações que os tornaram, bem como suas comunidades, visíveis aos poderes públicos. A metodologia da pesquisa aqui aplicada é ação-reflexão-ação, englobando um período de três anos de aulas com diferentes turmas de produção textual, investigando como a sequência didática aplicada na produção das cartas ajudou na formação crítica das turmas, com eventuais ajustes na turma subsequente. Como resultado, observamos que as construções das cartas e de todo conhecimento envolvido para tal, bem como as respostas recebidas, mesmo que não tenham solucionado de imediato os problemas indicados, mostrou às turmas participantes das atividades de escrita que compreender a fundo como um texto funciona dentro de uma rede sociopolítica é uma estratégia poderosa de transformação social, além de melhorar a noção de cidadania das partes envolvidas. Esse tipo de estudo é fundamental na formulação de estratégias de estímulo à leitura e à escrita em ambientes universitários.
Palavras-chave: Linguística aplicada; Letramento acadêmico; Cidadania
ALAN CASTRO SILVA
[Semântica]
‘Simplesmente’, ‘sozinho’ e ‘do nada’: desconhecimento de causa no português brasileiro
Os itens ‘simplesmente’, ‘sozinho’ e ‘do nada’, apesar de distintos, podem atuar de forma similar dependendo do escopo. Segundo a teoria de Roberts (1998) sobre as Perguntas em Discussão (Question Under Discussion - QUD, do inglês), esses itens têm relação direta na arquitetura do discurso por serem todos elementos possíveis de respostas para a mesma pergunta “O que aconteceu com a TV?”. Exemplos como “A TV simplesmente ligou”, “A TV ligou do nada” e “A TV ligou sozinha” são todas respostas plausíveis para a mesma pergunta que subjaz a conversação, visto que as expressões mencionadas sinalizam ao ouvinte que o falante, de certa forma, desconhece as razões que ocasionaram o fato; e podem carregar um elemento de surpresa quando observadas as formas de proferimento. Todavia, não são todos os escopos que permitem essa permuta, pois individualmente cada um deles possui nuances distintivas. Sentenças como “Ele é simplesmente bonito” não permite trocas com as expressões ‘sozinho’ e ‘do nada’, pois não veiculam o mesmo significado. Da mesma forma, há contextos em que ‘sozinho’ e ‘do nada’ não são intercambiáveis, como em “Ele apareceu do nada”, ‘do nada’ não pode ser substituído por ‘sozinho’ mantendo interpretação similar; enquanto a primeira carrega um aspecto de surpresa, a segunda apresenta que o indivíduo apareceu sem companhia. Ainda nesse exemplo, é possível mesclar todos os itens em uma única sentença: “Ele simplesmente apareceu sozinho do nada”. Para tal possibilidade, argumentamos que cada uma das expressões carrega um traço distintivo: ‘simplesmente’ atua na exclusão de proposições que justifiquem e/ou detalham as respostas da QUD, indicando desconhecimento e/ou desinteresse do falante ao respondê-la completamente (Rodrigues & Basso, 2026). Já ‘do nada’ carrega consigo um traço de surpresa (mirativo), ou seja, ela adiciona um elemento informativo na proposição, como o contraste entre “ele apareceu” e “ele apareceu do nada”. Por fim, o elemento ‘sozinho’ atua na exclusão de eventos de acompanhamento/auxílio, ou seja, ele indica ao ouvinte que a ação foi realizada de forma independente, excluindo uma causa da interpretação (Basso & Rodrigues, 2024). Nesse sentido, argumentamos que ‘simplesmente’, ‘do nada’ e ‘sozinho’ podem atuar de forma similar a depender do contexto e entonação, indicando que um evento aconteceu sem uma causa conhecida pelo falante; mas que são resguardados os traços distintivos de cada um, em especial quando analisados em conjunto. São expressões que indicam desconhecimento da causa de um dado evento, mas por mecanismos semânticos diferentes.
Palavras-chave: QUD; Simplesmente; Causalidade
ALBA VERONA BRITO GIBRAIL
[Lingüística Aplicada]
Leitura e interpretação no material “Revisa Goiás”: aproximações com a matriz de Linguagens do ENEM
Esta comunicação é o recorte de uma pesquisa em fase inicial, desenvolvida no mestrado em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Jataí. O principal objetivo desta pesquisa é analisar as atividades de leitura e interpretação de texto escrito do material didático ‘Revisa Goiás’ – Ensino Médio –, utilizado pelos alunos do Colégio Estadual Frei Domingos, verificando se e de que forma contemplam algumas das competências e habilidades da matriz de referência da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias do ENEM, dada a sua ampla adoção na rede pública de ensino do estado e sua relevância na organização das práticas pedagógicas desenvolvidas nas escolas. O estudo fundamenta-se em discussões sobre gêneros do discurso, a partir de Bakhtin (1997), e em estudos sobre estratégias de leitura e compreensão leitora, especialmente em Solé (1998), Koch (2006), Viana (2017) e Corso (2023), no que diz respeito à compreensão da leitura como prática social desenvolvida em contextos de interação e produção de sentidos. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, de caráter documental e analítico-descritivo, os procedimentos metodológicos iniciais envolvem a caracterização do material didático selecionado e as atividades de leitura e interpretação de texto escrito propostas no ‘Revisa Goiás’. Nesta comunicação, será apresentada uma dessas categorias analíticas, construída com a finalidade de identificar aproximações entre as atividades do material didático e as competências exigidas pela matriz de referência do ENEM, a saber: identificação de informação explícita. Sendo assim, serão discutidas as premissas teóricas que orientaram a elaboração da categoria, os critérios utilizados em sua aplicação e exemplos de atividades do material didático em que essa categoria pode ser observada. Espera-se, assim, ser possível apresentar a construção e aplicação de uma das categorias de análise elaboradas para esta pesquisa, evidenciando de que maneira as atividades presentes no ‘Revisa Goiás’ podem se aproximar das competências e habilidades previstas na matriz de referência da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias do ENEM.
Palavras-chave: Leitura e Interpretação textual; Material didático; Matriz de Linguagens do ENEM
ALEXANDRE MENEZES BARROSO
[Lingüística Histórica]
uso do português popular brasileiro em consagradas peças teatrais dos séculos XIX e XX.
O objetivo deste trabalho é apresentar a evolução de uso do português popular brasileiro no teatro dos séculos XIX e XX, registrada, especificamente, nas falas das personagens de “O demônio familiar: comédia em quatro actos” de José de Alencar”, “O tribofe: revista fluminense do ano de 1891”, de Arthur Azevedo, “Eles não usam black-tie”, de Gianfracisco Guarniere, “A partilha”, de Miguel Falabella e “Minha mãe é uma peça”, de Paulo Gustavo, peças estreadas, respectivamente, nos anos de 1857, 1892, 1958, 1990 e 2006, com os dados levantados junto ao Corpus Histórico do Português Tycho Brahe. Focamos nosso trabalho nas construções que não seguem a concordância verbal da variedade culta padrão do português brasileiro (PB), nas que dispõem do clítico lhe na função do clítico acusativo o/a e nas que fazem uso de pronomes pessoais que expressam o sujeito na oração realizados como objeto direto. Focamos também nossa pesquisa na mudança que ocorre na diacronia de uso de estruturas dativas com a preposição para e concomitante queda no uso do clítico dativo lhe. (1) Sabe, Chiquinho, nós vai ficá noivo daqui dez dias. (Eles não usam black-tie, Gianfracisco Guarniere, 1958) (2) Demorou-se muito, mano; eu lhe esperei. (O demônio familiar: comédia em quatro actos”, José de Alencar, 1857) (3) Eu já vi ele assim uma porção de vez, (Eles não usam black-tie, Gianfracisco Guarniere, 1958) (4) Ninguém não disse nada com medo do papai matar ele. (A partilha”, Miguel Falabella, 1990) (5) Botei a boneca no outro canto da sala e mostrei pra ele. (Minha mãe é uma peça, Paulo Gustavo, 2006) Nossa pesquisa mostra a coerência dessas peças na representatividade das mudanças morfossintáticas apontadas nos estudos voltados à investigação do PB a partir do século XIX (GALVES, 1989, 1991, 1993; KATO, 2004, 2022; CYRINO, 1994, 2017; DUARTE, 1993, 1995, 2003; LOPES E RUMEU, 2007; BERLINCK, 1996, 1997; TORRES MORAIS E BERLINCK 2006, 2007; TORRES MORAIS E SALLES, 2010; entre outros). Considerando que essas construções são licenciadas no português L2 de países africanos, como Angola e Moçambique (GONÇALVES, 2005, 2010; MINGAS, 2000; entre outros), pretendemos com este trabalho contribuir com os estudos que investigam o papel do contato do português com as línguas africanas na formação do PB (GALVES, 2008, 2020; AVELAR E GALVES, 2014; GALVES E AVELAR, 2018; AVELAR E CYRINO, 2008; CASTRO, 1983, 2022; LUCCHESI, 2009; LUCCHESI E BAXTER, 2009; PETTER, 2009; FIORIN E PETTER, 2022; entre outros).
Palavras-chave: Evolução de uso do português popular brasileiro; teatro dos séculos XIX e XX; mudanças morfossintáticas
ALINE DE LIMA BENEVIDES
[Lingüística Computacional]
Caminhos Discursivos Geométricos e a Geometria do Discurso
Este trabalho investiga como discursos politicamente densos organizam as conexões entre conceitos centrais em contextos comunicativos distintos. Seu objetivo é descrever, de modo teoricamente orientado e metodologicamente controlado, como pares de conceitos politicamente relevantes são ligados por sequências intermediárias de palavras em dois campos discursivos contrastivos: o corpus dos debates eleitorais para a prefeitura de São Paulo em 2024 e um corpus de comentários públicos de brasileiros no Reddit. Para isso, o artigo propõe a métrica dos caminhos discursivos geométricos, definida como a identificação de intermediários lexicais robustos entre conceitos-âncora em espaços vetoriais treinados separadamente. O quadro teórico articula Linguística Textual e Análise do Discurso com a noção de texto como campo relacional. A proposta dialoga com Bühler, ao tratar o sentido como efeito de uma rede sinsemântica; com Fairclough, ao considerar que o discurso não apenas representa, mas reorganiza relações de poder; e com a hipótese de tecnocratização discursiva, decisiva para interpretar a mediação técnico-administrativa de conflitos sociais no debate institucional. Metodologicamente, o estudo combina vetores fastText e ajuste com Word2Vec em dois espaços independentes, examinando cinco pares de conceitos-âncora: democracia–ditadura, dinheiro–elite, governo– população, pobres–elite e população–desemprego. O diferencial do procedimento está no critério de persistência dimensional: um termo só integra o caminho quando se mantém como intermediário em múltiplas projeções do espaço vetorial, o que reduz aproximações fortuitas e confere maior robustez interpretativa aos resultados. Os achados revelam um contraste recorrente e teoricamente produtivo. No corpus dos debates, as transições semânticas tendem a ser mediadas por vocabulário de gestão, institucionalidade, legitimação técnico- burocrática e soluções gerenciais, reencaminhando conflitos para uma gramática administrativa. No corpus online, ao contrário, as passagens entre os mesmos conceitos são frequentemente estruturadas por memória histórica, antagonismos de classe, atores políticos nomeáveis, violência e cadeias da economia cotidiana. O artigo sustenta, assim, que a geometria relacional do léxico permite tornar visíveis formas distintas de mediação discursiva sem reduzir a interpretação a uma operação computacional. Ao oferecer uma ferramenta nova para descrever percursos semânticos entre conceitos politicamente sensíveis, o trabalho contribui tanto para o debate metodológico quanto para a compreensão contemporânea das formas de organização do discurso político. (Apoio: CAPES - Processo 88887.186643/2025-00)
Palavras-chave: discurso político; debate eleitoral; semântica vetorial
ALINE GOMES GARCIA
[Fonética e Fonologia]
O papel da estrutura silábica na atribuição do acento primário no PB
Este trabalho apresenta os resultados de um estudo experimental que investigou o papel que a estrutura silábica desempenha na atribuição do acento primário a partir de produções de pseudopalavras produzidas por falantes nativos do Português Brasileiro (PB). Algumas propostas acentuais, como as baseadas na perspectiva da Teoria Métrica (BISOL, 1994; MAGALHÃES, 2004; WETZELS, 2007), defendem que o acento é sensível à quantidade silábica, tal como ocorria no latim, de forma que palavras terminadas com sílaba final pesada receberiam o acento, do contrário o acento recuaria para a penúltima sílaba. Outras propostas de análise, no entanto, são contrárias a tal proposição (LEE, 1995; CANTONI, 2013; BENEVIDES, 2022). Diante dessa problemática, esta pesquisa expõe os resultados de um estudo experimental comparativo que contrastou três grupos de pseudopalavras: i. pseudopalavras criadas aleatoriamente, a partir do script word generator de Garcia (2014); ii. pseudopalavras formadas a partir do controle de morfemas derivacionais por sufixação (-lise, -ic-, -ero, por exemplo); e iii. pseudopalavras formadas a partir do controle de similaridade com palavras reais (dara ter em semelhança a caráter). Todas elas tinham três sílabas de extensão com as seguintes estruturas: CV-CV-CV e CV-CV-CVC. A hipótese investigada consistia em se a sílaba final poderia ser preditora do local em que o acento incide, de forma que as fortes conexões fonológicas entre sílaba e padrão acentual, que se fazem presentes nas representações linguísticas, fariam com que o acento oxítono fosse o preferido em sílabas finais CVC e o paroxítono em sílabas finais CV. Esperava-se que essa tendência fosse mais expressiva no grupo de pseudopalavras aleatórias do que nos demais grupos. Os resultados obtidos foram: para (i), 85,9% de produções oxítonas com CVC e 68,5% de paroxítonas com CV; para (ii), 94,3% de oxítonas com CVC e 93,9% de paroxítonas com CV; e, para (iii), 79,4% de oxítonas para CVC e 84,4% de paroxítonas para CV. Esses dados demonstram que, embora a sílaba possa desempenhar um papel relevante na determinação do local em que o acento incide, ela não é a única. Informações segmentais e morfológicas são acessadas e utilizadas pelos falantes no momento em que atribuem tonicidade a um vocábulo.
Palavras-chave: Acento; Sílaba; Pseudopalavras; Português Brasileiro
AMANDA ARAUJO GATTO
[Linguística Aplicada]
Plataformização do ensino público paulista e sociedade do cansaço: afetos docentes em comentários de redes sociais
A plataformização do ensino público paulista vem se tornando notícia em diversas mídias: por um lado, há o discurso da Secretaria da Educação de São Paulo (2025), que atribui a melhora nos índices de educação dos estudantes ao investimento em plataformas digitais; por outro, há a voz dos docentes da rede, que criticam a adoção arbitrária dessas ferramentas, alegando, dentre outros aspectos, a perda de autonomia em seu trabalho e no dos estudantes (Cássio, 2025). Investigações recentes ainda apontam que a adoção dessa política pública de educação não partiu do diálogo entre poder público, gestores, docentes e estudantes, mas foi motivada por vieses mercadológicos (Maldonado; Jacomini, 2025; Alves; Souza, 2025; Normanha; Aroni, 2025). Partindo deste conflito entre o discurso oficial e o discurso dos docentes, bem como de pesquisas que evidenciam o caráter impositivo e empresarial da implementação dessas plataformas nas realidades escolares paulistas, apresentamos como objetivo principal deste trabalho refletir sobre a plataformização da educação paulista, à luz da filosofia de Byung-Chul Han, considerando-se a perspectiva de docentes e discentes, manifesta linguisticamente em comentários de redes sociais sobre a adoção dessas plataformas na rede do Estado de São Paulo. Com base na descrição filosófica que o autor faz da sociedade contemporânea, procuramos estabelecer um paralelo entre os afetos discursivizados pelos docentes e a dinâmica daquilo que o autor denomina sociedade do cansaço (Han, 2024). Metodologicamente, mobilizamos a leitura de Baruch Spinoza proposta por Gilles Deleuze (Deleuze, 2002) para analisar a discursivização dos afetos. A análise qualitativa, de inspiração cartográfica, ocorreu em três fases: (i) mapeamento dos afetos emergentes nos comentários de estudantes e docentes; (ii) categorização dos afetos emergentes em paixões tristes e paixões alegres; e, por fim, (iii) cartografia desses agenciamentos afetivos. Como resultados parciais do estudo, destacamos a assunção tanto de paixões tristes quanto de paixões alegres, com predominância das paixões tristes nos comentários analisados, a exemplo da indignação em relação ao volume de atividades exigidas pelas ferramentas. Os resultados sugerem que a lógica produtivista característica da sociedade do cansaço também atravessa os espaços escolares.
Palavras-chave: plataformização do ensino; afetos; comentários em
AMANDA CLEMENTE CAVALCANTE UCHOA
[Gramática Funcional]
A construção conectiva causal "por conta que" no português brasileiro: uma análise centrada no uso.
Este estudo tem como propósito analisar o uso da construção “por conta que” enquanto conector causal no português brasileiro contemporâneo, adotando uma perspectiva baseada no uso. A investigação parte da análise de que tal construção é recorrente em variados contextos comunicativos, sobretudo na oralidade e em ambientes digitais, como redes sociais, embora ainda não disponha de uma descrição sistemática quanto ao seu funcionamento linguístico. O trabalho fundamenta-se em três vertentes teóricas principais: o Funcionalismo, a Linguística Cognitiva e a Gramática de Construções. Essas abordagens convergem na compreensão de que a língua se configura a partir do uso, sendo influenciada por fatores cognitivos, discursivos e interacionais. Desse modo, entende-se que as construções linguísticas emergem de padrões recorrentes e podem passar por processos de expansão, especialização e mudança ao longo do tempo. A análise concentra-se na construção “por conta que”, investigando suas características estruturais, semânticas e contextuais. Parte-se da hipótese de que essa forma integra uma rede construcional específica, a rede ([XQUE conect]), e que seu desenvolvimento está relacionado a mecanismos cognitivos, como a analogia, especialmente em relação a padrões já estabelecidos, como “por causa que”. Assim, busca-se compreender de que maneira “por conta que” se consolida no uso, quais significados aciona e em quais contextos apresenta maior produtividade, considerando sua função na organização discursiva e na expressão de relações causais. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa e descritiva, baseada em dados reais de uso. O corpus será constituído por dados provenientes do Twitter, que permite observar usos espontâneos e informais, e do Corpus do Português, que contempla diferentes gêneros textuais e níveis de formalidade. A análise levará em consideração aspectos como o tipo de construção, o perfil da unidade encaixada, o contexto de ocorrência, o gênero textual e o grau de formalidade, além de parâmetros como composicionalidade e esquematicidade. Observa-se, ainda, a possibilidade de especialização da construção “por conta que” em determinados gêneros, nos quais tende a ocorrer com maior frequência e a desempenhar funções discursivas mais específicas. Tal olhar poderá esclarecer de que forma sua consolidação é orientada por práticas discursivas peculiares. Espera-se que os resultados contribuam para a descrição do português brasileiro contemporâneo, ampliando a compreensão sobre o funcionamento dos conectores causais e evidenciando os processos pelos quais novas construções se estabilizam na língua a partir do uso.
Palavras-chave: conectivos causais; construcionalização; português brasileiro
AMANDA COSTA DA SILVA
[Linguística Textual]
LINGUAGEM, FEMINISMOS E POLÍTICA: UMA ANÁLISE DA ATUAÇÃO DE SITES FEMINISTAS NAS ELEIÇÕES DE 2022
Esta pesquisa tem como objetivo compreender as formas de atuação política de importantes sites/páginas feministas durante as eleições gerais de 2022, considerando a influência dos ativismos e movimentos feministas brasileiros no campo político. A análise parte da compreensão da linguagem como semiestruturada, accional e ideológica (HANKS, 1996; 2008), buscando enfocar os modos de exploração da linguagem, especialmente da tematização discursiva, por organizações feministas nas redes e mídias sociais em um contexto de alta voltagem política marcado pelo acirramento das polarizações ideológicas. O trabalho fundamenta-se na noção de projetos temáticos (BENTES, 2017; FERREIRA-SILVA; SANTOS, 2020), entendidos como roteiros ideológicos que estruturam os gêneros discursivos e organizam a produção de sentidos. Também dialoga com a perspectiva de Agha (2007), segundo a qual os usos linguístico-discursivos se constituem como registros historicamente situados, disseminados em trajetórias sociais identificáveis e constantemente reavaliados por processos de valorização e contra-valorização. A investigação toma como base empírica o corpus constituído no âmbito do AFEMIS (Acervo de Feminismos nas Mídias Sociais) e analisado no OLFEMIS (Observatório de Linguagem e Feminismos nas Mídias Sociais). Foram examinados 235 textos publicados entre agosto e dezembro de 2022 pelos sites Cfemea, Portal Geledés e Agência Patrícia Galvão. Os textos foram sistematizados em planilhas e classificados segundo critérios como autoria, gênero textual, supertópico e projeto temático, permitindo uma análise qualitativa fundamentada nos referenciais teóricos do estudo. Nossos objetivos específicos são: (a) levantar os principais projetos temáticos dos textos dos sites que estão relacionados ao contexto político-eleitoral de 2022; e (b) buscar refletir, a partir dos achados temáticos dos textos publicados nos sites, sobre as relações dos ativismos digitais feministas com as eleições gerais de 2022. Os resultados indicam que essas iniciativas operam na interseção entre práticas jornalísticas e práticas políticas, atuando como produtoras de discursos ancorados em perspectivas interseccionais e contribuindo para a disputa de sentidos no campo político-midiático durante o período eleitoral de 2022.
Palavras-chave: campo social; tematização discursiva; sites feminí
AMANDA DA COSTA CARVALHO
[Lexicologia e Lexicografia]
Léxico agrícola amazônico e lexicografia: um estado da arte sobre linguagem, território e saberes rurais
Este trabalho apresenta um estado da arte sobre pesquisas lexicográficas, lexicológicas e terminológicas voltadas ao léxico agrícola em contextos amazônicos, com foco em comunidades rurais e tradicionais da Amazônia brasileira. A proposta parte da compreensão de que o léxico constitui não apenas um conjunto de unidades vocabulares, mas um espaço de inscrição de experiências históricas, relações sociais, práticas de trabalho e modos de produzir conhecimento sobre o território, conforme discutem Biderman (2001), Sapir (1969), Calvet (2002) e Isquerdo (2020). Na Amazônia, os modos de nomear instrumentos de cultivo, técnicas agrícolas, ciclos produtivos, variedades vegetais e práticas de manejo revelam formas locais de organização da vida e da memória coletiva. Apesar da relevância dessas práticas linguísticas, observa-se que os estudos do léxico amazônico concentram-se, em grande medida, em glossários gerais, regionalismos urbanos, nomenclaturas da fauna e flora ou documentação de línguas indígenas, havendo ainda reduzida sistematização lexicográfica do vocabulário relacionado ao trabalho agrícola e às experiências rurais amazônicas. Além disso, instrumentos lexicográficos centrados em variedades hegemônicas da língua frequentemente marginalizam repertórios produzidos em territórios rurais e periféricos, especialmente aqueles vinculados às práticas do campo amazônico. Nesse sentido, o estudo busca mapear teses, dissertações, artigos científicos, dicionários e glossários produzidos nas últimas décadas que abordem o campo semântico da agricultura na Amazônia, analisando fundamentos teóricos, metodologias de coleta e formas de organização lexical. O levantamento dialoga com discussões da metalexicografia contemporânea (Rey-Debove, 1971; Haensch et al., 1982; Welker, 2006) e da lexicografia pedagógica (Xatara; Bevilacqua; Humblé, 2011; Duran; Xatara, 2007). Mais do que identificar produções existentes, interessa compreender de que maneira esses estudos representam ou silenciam os saberes linguísticos produzidos no cotidiano do trabalho rural amazônico. Ao discutir recorrências, lacunas e possibilidades metodológicas, o trabalho busca fundamentar uma proposta de pesquisa doutoral voltada à documentação e à aplicação didática do léxico agrícola de comunidades rurais do Amapá na Amazônia brasileira.
Palavras-chave: Lexicografia; Amazônia; Territorialidade
AMANDA DE OLIVEIRA RODRIGUES
[Análise do Discurso]
Entre números e silêncios: o preso negro no discurso da imprensa brasileira
Este trabalho investiga a construção discursiva do preso negro na imprensa brasileira a partir do quadro teórico- metodológico da Análise do Discurso materialista, tal como desenvolvida por Michel Pêcheux e introduzida no Brasil por Eni Orlandi. A questão central que orienta a pesquisa é: de que modo os discursos midiáticos sobre encarceramento produzem e reproduzem sentidos racializados sobre o sujeito preso, naturalizando estruturas de dominação historicamente constituídas? Para respondê-la, mobilizei o conceito althusseriano de ideologia como interpelação, articulado às formulações de Silvio de Almeida (2018) sobre racismo estrutural e institucional e à noção de necropolítica elaborada por Achille Mbembe (2018), a fim de iluminar as condições materiais e simbólicas que governam a produção desses discursos. O corpus é composto por três matérias jornalísticas selecionadas mediante gesto de leitura que é, ele próprio, constitutivo do objeto de análise: uma reportagem do G1/Monitor da Violência sobre superlotação carcerária; uma matéria do G1 sobre um jovem negro preso por reconhecimento fotográfico; e uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre as falhas sistemáticas no reconhecimento facial e visual que alimentam prisões injustas de negros e pobres. A seleção não é prévia ao gesto interpretativo, mas emerge dele, na medida em que a própria identificação das regularidades discursivas orienta a constituição do arquivo. Essa opção metodológica assume como pressuposto que o corpus não existe antes da análise, mas se forma no interior das condições de produção que o pesquisador habita e problematiza. As condições de produção são consideradas tanto em sentido estrito — a conjuntura imediata de publicação, os veículos, os enunciadores e os interlocutores presumidos — quanto em sentido amplo, que abrange o contexto sócio-histórico do encarceramento em massa no Brasil, a herança colonial da criminalização da negritude e o funcionamento do racismo como estrutura que organiza instituições, inclusive a imprensa. Os resultados parciais apontam três gestos discursivos distintos: na primeira matéria, observa-se uma burocratização estatística do sujeito preso, que se dissolve em cifras e porcentagens, apagando sua singularidade e historicidade; na segunda, identifica-se um fechamento ideológico que, ao individualizar o caso, blinda o sistema de qualquer questionamento estrutural; na terceira, emerge uma denúncia que, embora crítica, permanece contida dentro de um horizonte reformista, incapaz de romper com a formação discursiva dominante que naturaliza a seletividade penal racializada. A análise, ainda em curso, aponta para a necessidade de compreender a mídia não como espelho do real, mas como dispositivo ideológico de produção de sujeitos e sentidos.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Racismo estrutural; Sistema prisional
AMANDA HENRIQUES MACHADO
[Sociolinguística e Dialetologia]
Variação e mudança em tempo real nas revistas da Turma da Mônica: o avanço de ter existencial e de outras variantes inovadoras
Esta pesquisa investiga a variação dos verbos existenciais ter e haver a partir de uma análise em tempo real, com foco nas mudanças ocorridas ao longo de cinco décadas (1970 a 2010) nas revistas da Turma da Mônica. A partir do referencial teórico-metodológico da Sociolinguística Variacionista (LABOV, 2008), este trabalho analisa as ocorrências em décadas distintas, considerando fatores linguísticos, semânticos e extralinguísticos. Neste estudo, contudo, privilegia-se a variável década, selecionada pelo GoldVarb X como a mais significativa. A natureza seriada do corpus, com personagens recorrentes e situações comunicativas relativamente estáveis, permite acompanhar de forma contínua a representação da fala e a distribuição das variantes em um mesmo universo discursivo ao longo de quarenta anos. Nos quadrinhos, a linguagem é construída para se aproximar da fala cotidiana. No caso específico da Turma da Mônica, criada por Maurício de Sousa, essa característica é potencializada pela diversidade sociocultural dos personagens, que incluem desde figuras infantis urbanas até moradores de zonas rurais, personagens de núcleos populares, adultos, crianças, além de figuras ficcionais como pré-históricos e animais. Essa variedade de perfis sociais e estilos de fala representados torna a revista um corpus especialmente rico para a investigação sociolinguística, permitindo observar como diferentes variantes linguísticas são selecionadas na construção de vozes sociais e no espelhamento do uso real da língua. Os resultados evidenciam uma mudança expressiva entre as décadas de 1970 e 1980. Enquanto haver predominava nos anos 1970, com cerca de 71% das ocorrências, ter torna-se majoritário já na década seguinte, alcançando aproximadamente 76% dos dados e chegando a 90% na década de 2010. A virada mais significativa ocorre a partir de 1983, quando ter passa a representar entre 75% e 100% das construções existenciais em diversas edições. Esses resultados dialogam com outras pesquisas realizadas no mesmo corpus. Pinheiro (2024), ao investigar as formas do verbo estar, identifica crescimento contínuo da variante inovadora entre as décadas de 1970 e 2010, passando de 5,4% para 56,4% das ocorrências. De modo semelhante, Zanellato (2021) demonstra a queda progressiva do clítico acusativo e o aumento de variantes mais próximas da oralidade no objeto direto anafórico. Esses resultados sugerem que diferentes fenômenos linguísticos acompanham um mesmo movimento de aproximação da linguagem dos quadrinhos ao português brasileiro falado. Além dos fatores estruturais da língua, a mudança observada parece relacionar-se a transformações socioculturais mais amplas, como o processo de redemocratização brasileira e a valorização de variedades não padrão.
Palavras-chave: Variação linguística; Tempo real; Histórias em quadrinho
ANA BEATRIZ MAIA BARISSA
[Filosofia da Linguagem]
Branca de Neve: uma análise dialógica da proposta de um discurso familiar em produção fílmica
O presente trabalho busca refletir sobre o discurso familiar Disney, com foco na maternidade, a partir da produção cinematográfica Branca de Neve (2025), embasado na versão animada, Branca de Neve e os sete anões, lançada em 1937. Assim, a fim de compreender como se constitui a mulher-mãe nesse enunciado fílmico, temos como centro da nossa análise a personagem de Branca de Neve em relação com a Rainha Má, que fundamenta nossa discussão sobre as construções maternas presentes na produção e de que forma essa maternidade revela as valorações sociais regentes sobre modelos diversos no que diz respeito à imagem de feminino – como, justamente, o fato de ainda estar intrinsecamente ligado à figura materna. Para tanto, esse sujeito é observado por nós como sujeito de linguagem e se constitui como tal devido às suas relações com outros sujeitos. Para desenvolvimento do trabalho, nosso embasamento teórico está fundamentado nos estudos de filosofia da linguagem do Círculo de Bakhtin, com destaque para alguns de seus conceitos: diálogo, enunciado, ideologia e voz social. Como fio condutor da nossa reflexão, traremos o método dialógico, proposto pelo Círculo e realizado por cotejo. A relevância que justifica este estudo se volta à importância de se analisar o discurso familiar Disney, tão presente em diversas produções contemporâneas que, de certa forma, perpetua valorações estratificadas acerca do que se compreende por maternidade e pelo ser-mulher como forma de inculcação ideológica de naturalização de um mito cultural: o “desejo” de ser mãe como maior desejo da mulher (surgida desde eras mitológicas) e sua principal realização e função sociais, o que se pode observar nas constantes revisitações aos contos de fada clássicos por parte da indústria Disney. Essas relações são importantes para compreendermos o desenvolvimento de um discurso familiar que orienta a tradição Disney e seu fazer cinematográfico. Ao nos propormos analisar Branca de Neve e a Rainha Má e observar como o discurso Disney influencia na construção da série, sugerimos a hipótese de que valorações axiológicas, presentes em mitos e contos seculares, mostram-se fortes nas produções contemporâneas da indústria. Para nós, sugere-se a ideia de desconstrução da personagem vilã, mas as imagens de mulher continuam similares às produções Disney desde sua primeira produção, Branca de Neve e os sete anões.
Palavras-chave: Branca de Neve; Discurso familiar; Filosofia da Linguagem
ANA BEATRIZ SILVA DE SOUZA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Apagamento de preposição entre verbos na fala de Tietê/SP: um estudo de variação sintática
Esta pesquisa de iniciação científica tem por objetivo analisar o apagamento de preposição entre verbos (doravante, CEV) na fala de Tietê, cidade do interior paulista. A investigação, centrada em um fenômeno de variação sintática, propõe a utilização de dois instrumentos de coleta empregados para a elicitação de dados de CEVs. O fenômeno caracteriza-se pela alternância entre preenchimento (“Todo dia eu desço para comprar pão”) e apagamento (“Todo dia eu desço comprar pão”) do conectivo entre verbos. Do ponto de vista sintático, pode ocorrer em três contextos: (i) construções de auxiliaridade (“Desde que comecei [a] namorar”) (Brito, 2003; Castilho, 2010); (ii) construções hipotáticas (“Eu saí [para] passear com ele”) (Neves, 2016); e (iii) construções de encaixamento do complemento verbal (“Consigo nem pensar [em] torcer pra outro time”) (Neves, 2016). Tem-se por hipóteses que: (a) verbos de movimento tendem a favorecer o apagamento quando ocupam a posição precedente ao conectivo; e (b) preposições semanticamente menos “esvaziadas” (Cunha; Cintra, 2017) apresentam maior resistência à queda. Por tratar-se de um fenômeno de variação sintática cuja realização seria de difícil previsão em entrevistas sociolinguísticas tradicionais, propôs-se o uso de instrumentos alternativos de coleta de dados: (i) tirinhas com sequências de ações; e (ii) trechos narrativos contendo lacunas. Ambos os instrumentos foram testados em uma amostra-piloto composta por 6 participantes. A amostra final, pelo menos a princípio, será estratificada segundo as variáveis faixa etária (18 a 35 anos, 36 a 59 anos e acima de 60 anos), escolaridade (ensino fundamental completo, ensino médio completo e ensino superior completo) e sexo (feminino e masculino). Espera-se, com este estudo, contribuir para a discussão das estratégias metodológicas acerca da coleta de dados em estudos de variação sintática, bem como para a descrição sociolinguística do português falado em comunidades pequenas do interior paulista.
Palavras-chave: apagamento de preposição entre verbos; variação sintática; Tietê/SP
ANA CAROLINE LOPES GOMES GUERRA
[Linguística e interfaces]
Estudos da interação humana: uma linguística baseada no vídeo
O presente trabalho é um convite à reflexão a respeito dos impactos, efeitos e implicações do vídeo no campo da linguística e as formas pelas quais as práticas de videodocumentação no campo linguístico podem ou têm sido entendidas. Teoricamente, ele se inscreve no campo da videoanálise, que abriga áreas como a Linguística, a Sociologia e a Antropologia. Metodologicamente, o presente trabalho percorre: a) um breve histórico do desenvolvimento tecnológico conjuntamente com o barateamento dos recursos audiovisuais, o que possibilitou a inserção do vídeo como uma ferramenta metodológica para análise de dados (Garcez, 2008); b) as práticas de videodocumentar interações humanas e as reflexões sobre tais práticas feitas por estudiosos do campo da videoanálise (Heath; Hindmarsh, 2002; Knoblauch; Schnettler; Tuma, 2014; Mondada, 2008); c) a sistematização do debate que nos permite fazer um deslocamento da concepção de vídeo como suporte ou ferramenta metodológica de captura e preservação da interação para a concepção do vídeo como uma ferramenta que configura, de forma situada e reflexiva os dados interacionais (Broth; Laurier; Mondada, 2014; Mondada; Monteiro; Tekin, 2024; Knoblauch et. al, 2012). Após o desenvolvimento destes itens, esta pesquisa se volta especificamente para o campo dos estudos linguísticos multimodais inscritos no campo da Análise da Conversa Etnometodológica, que investiga a construção e organização material, espacial e corporal da interação a partir da geração de dados audiovisuais, inserindo no enquadramento analítico da linguística os recursos corporais e materiais que são possíveis de observar, congelar e ampliar através de imagens geradas pela retina da lente da câmera. Para além dos avanços na teorização sobre a corporalidade, a materialidade e o espaço na agenda dos estudos linguísticos (Goodwin, 1981; Streeck; Goodwin; Lebaron, 2011), esse campo disciplinar também incorpora o próprio vídeo como uma problemática (Mondada, 2006; Mondada, 2022; Broth; Laurier; Mondada, 2014). Consideramos que a identificação e a sistematização dessas questões situadas no campo das pesquisas linguísticas de orientação empírica, sobretudo aquelas baseadas em dados audiovisuais, permitem preencher uma lacuna deste debate relativamente pouco explorado na literatura linguística no Brasil. Este trabalho insere-se na pesquisa de doutorado em andamento (2024 a 2028), realizada com apoio e financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES - Processo 88887.159526/2025-00).
Palavras-chave: Videodocumentação; Análise da Conversa Etnometodológica; Geração de dados
ANA LAURA CHIEREGATI DE SOUSA
[Análise do Discurso]
A reconstrução da identidade feminina na literatura: análise discursiva de "Sete contos que nunca me contaram"
O presente trabalho analisa, no campo dos Estudos Discursivos Foucaultianos, os processos de construção da identidade feminina nos contos que compõem a obra Sete contos que nunca me contaram, de Susana Ventura. Partimos do pressuposto de que a literatura constitui um espaço privilegiado de produção, circulação e ressignificação de discursos sociais, permitindo investigar como diferentes relações de saber-poder atravessam e constituem representações do feminino na contemporaneidade. Ao revisitar narrativas tradicionais e deslocar perspectivas historicamente cristalizadas, a obra problematiza discursos hegemônicos sobre a mulher, produzindo tensionamentos em torno das formas socialmente legitimadas de representação do feminino. A pesquisa tem como objetivo compreender de que maneira os contos articulam discursos tradicionais e discursos de ruptura, evidenciando processos de subjetivação, marcas identitárias, resistências e disputas de sentido que envolvem a constituição simbólica da identidade feminina. Buscamos analisar como as personagens femininas são construídas discursivamente, bem como os mecanismos pelos quais a narrativa literária retoma, desloca e ressignifica memórias discursivas relacionadas ao imaginário social sobre a mulher. O quadro teórico- metodológico fundamenta-se na perspectiva foucaultiana de discurso, especialmente a partir das contribuições de Michel Foucault em A ordem do discurso e A arqueologia do saber, compreendendo o discurso como prática histórica produtora de saberes, sujeitos, verdades e relações de poder. Tal perspectiva possibilita analisar os mecanismos discursivos de controle, exclusão, legitimação e circulação dos sentidos que regulam os modos de dizer e representar o feminino. No contexto brasileiro, mobilizam-se as contribuições de Maria do Rosario Gregolin acerca da identidade como construção discursiva instável e atravessada por relações de poder e memória. A pesquisa dialoga ainda com autoras do campo da História das Mulheres e dos Estudos Feministas, como Michelle Perrot, Mary Del Priore e Margareth Rago, além de Marisa Gama Khalil, cujas reflexões sobre literatura infantojuvenil, memória e representação do feminino contribuem para a compreensão histórica e discursiva das identidades femininas. Espera-se que o estudo contribua para os Estudos Discursivos Foucaultianos ao ampliar as discussões sobre literatura, memória discursiva e constituição identitária, evidenciando o papel do discurso literário na problematização de práticas sociais, culturais e simbólicas relacionadas ao gênero.
Palavras-chave: identidade feminina; Estudos Discursivos Foucaultianos; literatura infantojuvenil
ANA LAURA PACHECO FELIX
[Análise do Discurso]
Performances da ciência nas redes sociais: dialogismo, ideologia e divulgação científica no TikTok e Instagram
A sociedade contemporânea brasileira foi marcada por um grande fenômeno crescente de disseminação de fakes news e pseudociência nas redes sociais. De acordo com Grillo (2006), a divulgação científica é vista como uma prática discursiva em intensa expansão na sociedade brasileira moderna. Há, portanto, uma dificuldade em determiná-la de forma fundamental tanto no que se refere à sua caracterização enquanto gênero discursivo, quanto à sua compreensão como um discurso derivado do saber científico. Este estudo, inserido na modalidade de Comunicação movida pela problemática vigente sobre a disseminação de fake news na sociedade brasileira, propõe uma compreensão desta temática no âmbito de divulgação científica, especificamente em relação aos conteúdos da influenciadora digital Mari Krüger, personalidade atuante nas plataformas digitais Instagram e TikTok com conteúdos produzidos para com o combate à desinformação, fake news e pseudociências. Busca- se compreender semelhantemente como os discursos acerca das práticas de divulgação científica constroem os aspectos de sujeito, formação dos saberes e características verbais e visuais com base nas formulações teóricas da Análise do Discurso presentes nas obras de Mikhail Bakhtin e nas discussões de comentadores do Círculo de Bakhtin como Grillo (2006) e Volóchinov (2017). O córpus deste trabalho consiste em vídeos publicados nas redes sociais Instagram e TikTok pela influenciadora digital Mari Kruger, entre os anos de 2021 e 2025, priorizando os elementos discursivos e verbovisuais que expõem às práticas de divulgação científica, o combate a fake news e pseudociência. Seguindo as teorias de Bakhtin (2016), observa-se o reconhecimento da linguagem como ação social, à semelhança do enunciado de caráter responsivo e responsável e do discurso como espaço marcado por conflitos ideológicos e pelo desenvolvimento de subjetividades. Partindo dessa perspectiva, pode-se dizer que os enunciados de Mari Kruger encontram-se inseridos em uma cadeia discursiva, uma vez que se manifestam em resposta a outros enunciados. Assim, caso não existisse a interação entre os enunciados, haveria a perda de seus fundamentos e de sentido, dado que a linguagem é compreendida como social, histórica e dialógica.
Palavras-chave: Divulgação científica; Redes sociais; Análise do Discurso
ANA LETICIA CARNEIRO DE OLIVEIRA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Considerações sobre a emergência de um modelo caótico de desempenho na linguagem.
No artigo pioneiro de Larsen-Freeman (1997), no qual se discute a visão do processo de aquisição de segunda língua (ASL) como um sistema caótico (SC), a autora enfatiza a importância e a necessidade de se desenvolver um modelo dinâmico de desempenho, tendo em vista a não-linearidade do processo que subentende o desempenho como um SC. Esse olhar representa uma ruptura significativa com perspectivas mais tradicionais, que tendem a tratar o processo de aquisição de forma linear e previsível, desconsiderando a natureza intrinsecamente caótica e dinâmica do uso real da linguagem. Na mesma vertente, Borges e Paiva (2011) e Borges (2015), no desenvolvimento da Abordagem Complexa de Ensino e de Aprendizagem de Língua (ACEAL), reiteram a relevância de se focar o desempenho e não mais a competência no processo de ensino e de aprendizagem de uma língua adicional (LAd), como acontece em outras abordagens. Para a ACEAL, o desempenho do aprendiz, situado em contextos reais e dinâmicos, é o elemento central a ser observado e compreendido, substituindo a ênfase tradicional na competência como construto abstrato e estático. Dentro dessa perspectiva, este trabalho tem como principal objetivo o estudo e a reflexão sobre o que Larsen-Freeman (1997) postulou como modelo dinâmico de desempenho. Para tanto, propomos um estudo teórico-reflexivo de diferentes correntes que discutem o desempenho — mesmo que com o uso de outras terminologias similares — na grande área da Linguística, da Linguística Aplicada e da Linguística Aplicada Complexa (BORGES, 2021). Partimos da compreensão de um desempenho caótico da linguagem, enquanto um SC, para, então, refletir sobre as possíveis emergências desse desempenho e suas manifestações concretas no processo de aprendizagem. Entendemos que esta pesquisa se faz importante uma vez que um dos elementos considerados primordiais da ACEAL — o foco no desempenho individual do aprendiz para se alcançar as competências da linguagem — ainda não teve um desenvolvimento amplo na literatura da área. Do mesmo modo, não há discussões e reflexões aprofundadas a respeito do modelo dinâmico de desempenho, enfatizado por Larsen- Freeman, dentro dos estudos da Linguística Aplicada nos moldes propostos neste trabalho.
Palavras-chave: Teoria da Complexidade.; ACEAL; Desempenho Caótico
ANA LÚCIA DA SILVA KFOURI
[Tradução]
Estilo, literatura, tradução: uma análise estilística comparativa entre Vidas Secas de Graciliano Ramos e Barren Lives de Ralph Edward Dimmick
O estilo literário sendo subjetivo e característico do autor torna-se um conceito abstrato ao se tentar definir. No entanto, é possível reconhecer um autor pelo seu estilo, pois este é “tudo aquilo que individualiza obra criada pelo homem, como resultado de um esforço mental, de uma elaboração do espírito, traduzido em ideias, imagens ou formas concretas.” (Garcia, 2010). Graciliano Ramos particularmente pode ser reconhecido por seu estilo “conciso, direto, fulminante” (Nejar, 2011). Considerando-se o estilo na tradução, o objetivo desta pesquisa é investigar se e até que ponto o autor do texto de chegada, Ralph E. Dimmick, respeitou e refletiu o autor do texto de partida, Graciliano Ramos, ou seja, analisaremos se Dimmick traduziu não somente a palavra de Ramos, em Vidas Secas, mas também o estilo e a sua intenção peculiar em utilizar-se da linguagem criativa e literária. Para isso a metodologia adotada foi, em primeiro lugar, entender o estilo literário da obra original para posteriormente compará-la com a tradução. Utilizou-se, em um primeiro momento, a Linguística de Corpus para extrairmos as palavras-chave de Vidas Secas, uma vez que tais palavras dizem o que é “peculiar” (Tagnin, 2015) ao texto. A partir dessas palavras, foi possível fazer uma análise estilística de Vidas Secas na Estilística da Palavra, da Frase e da Enunciação (Martins, 2008). Uma vez obtido o raio-X do estilo em Vidas Secas foi possível dar início à análise comparativa entre as duas obras norteada pelos mesmos conceitos da Estilística, além de outros complementares da Estilística de Corpus, pois esta “revela significados e características estruturais” (Fischer-Starcke, 2009) do objeto de estudo. Por último, mas não menos importante, conceitos dos Estudos da Tradução auxiliaram na análise dos resultados, que mostram, por um lado, uma leve tendência a tradução facilitadora e domesticada (Venuti, 2002), mas por outro, boas opções tradutórias para compensar algumas perdas (Eco, 2007), sem causar grandes deformações (Berman, 2007).
Palavras-chave: Estilo; Tradução; Literatura
ANGEL H. CORBERA MORI
[Línguas Indígenas]
A tipologia morfológica e a descrição de línguas indígenas
Os linguistas dedicados à descrição e à análise das estruturas gramaticais de línguas sem tradição escrita, ou mesmo de línguas com estudos ainda muito iniciais, precisam coletar dados linguísticos primários. De fato, os linguistas que focalizam esse tipo de pesquisa precisam coletar dados linguísticos primários junto aos falantes da língua objeto do estudo. O linguista envolvido nesse tipo de pesquisa deve ter um bom domínio de várias subáreas da linguística, sobretudo: fonética-fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática. Partindo desse contexto, nesta comunicação se realça a importância da tipologia morfológica na descrição das línguas indígenas, pois, como se sabe, a tipologia linguística desempenha um papel importante no reconhecimento da estrutura morfológica das línguas, tendo como foco principal a estrutura das palavras, isto é, como as palavras de uma língua específica se estruturam. Nesse sentido, surge a seguinte questão: as palavras da língua em estudo apresentam estrutura interna ou não? Para poder responder à questão levantada, levar-se-ão em conta os aportes da tipologia morfológica clássica, em termos de Comrie (1989), Moravcsik (2013), Velupillai (2012), Whaley (1997), entre outros. Com base no índice de síntese, ou seja, o número de morfemas que ocorrem na formação de uma palavra (Comrie, 1989), reconhece-se a existência de três tipos morfológicos importantes que caracterizam a estrutura morfológica das línguas, em termos de: (i) isolantes, (ii) aglutinantes e (iii) fusionais. Como um possível quarto tipo de estrutura morfológica na organização da palavra, podem ser incluídas as línguas definidas como polissintéticas, isto é, línguas que apresentam um altíssimo grau de síntese morfológica. A partir de uma breve definição dos tipos encontrados na descrição morfológica das línguas naturais, mostraremos dados linguísticos específicos da morfologia de várias línguas indígenas, principalmente amazônicas faladas no Brasil, mas também em outros países da América do Sul. Espera-se com esta apresentação motivar o interesse dos alunos de linguística para desenvolver projetos de pesquisa que abordem a tipologia das línguas indígenas, não apenas na morfologia, mas também em outros campos da gramática de uma língua.
Palavras-chave: Tipologia; Morfologia linguística; Línguas indígenas
ANGELICA TEREZINHA CARMO RODRIGUES
[Línguas de Sinais]
Línguas de sinais naturais e interação multimodal em contexto social e familiar na França e no Brasil
Neste trabalho, discutimos a emergência natural das línguas de sinais (LS) e da multimodalidade em contextos familiares e microcomunitários no Brasil e na França, a partir de uma abordagem semiológica e da linguística funcional. Os principais objetivos são: 1) analisar as estruturas linguísticas comuns às línguas de sinais e à interação multimodal; 2) examinar como essas estruturas se desenvolvem no contexto familiar e podem ser valorizadas como recursos pedagógicos na escola. Nossas análises partem de três córpus construídos colaborativamente em três contextos de pesquisa: (i) Corpus Estrela (2018), contendo interações entre duas pessoas idosas (uma surda e uma ouvinte) que praticam uma língua de sinais familiar/amigável desde a infância, no vilarejo de Estrela, em Santa Catarina (sul do Brasil); (ii) Córpus do Projeto Lucinda (2022), especificamente dados referentes a coletas realizada na Vila de Fortalezinha, Ilha de Maiandeua, no Pará, e na cidade de Tiros, em Minas Gerais; e (iii) Corpus DinLang (2021-2026), especificamente dados coletados a partir de interação familiar entre membros ouvinte de uma família usuária do francês falado na França (pais e filhos), durante um jantar. Nossos resultados confirmam o papel central da multimodalidade e da iconicidade através das estruturas de transferência (formas, situações, pessoas) e de uma gramática visuo-espacial que explora o corpo, o espaço, a expressão facial, o olhar e os apontamentos na construção do signo linguístico. Serão estabelecidos paralelos entre as estruturas dos sinalizantes surdos/ouvintes e os gestos ilustrativos dos falantes, revelando uma competência corporal e comunicativa compartilhada. Nossos resultados vinculam-se a uma proposta de pedagogia inclusiva que valoriza o papel das práticas comunicativas corporificadas, produzidas naturalmente em contextos sociais e familiares, e problematiza seu uso como recursos linguísticos no processo de escolarização. Assim, este trabalho sustenta uma perspectiva não deficitária da surdez, ancorada na criatividade corporal, na diversidade linguística e no bilinguismo bimodal enquanto manifestações da potência comunicativa humana.
Palavras-chave: língua de sinais; gestos; multimodalidade
ANNA LÍRIA SANSALONI BARBOSA
[Filosofia da Linguagem]
A adolescência no Aranhaverso: análise bakhtiniana das ideologias sobre o adolescente no filme
A autossignificação de um sujeito é completamente dependente do contexto histórico-cultural e vivências em que ele se insere, porém, atribuímos maior importância a algumas vivências conforme o momento e forma em que elas se dão na vida de uma pessoa. No ocidente, consideramos que a adolescência é um momento do desenvolvimento humano em que o jovem tem oportunidades únicas de autoformação, devido à expansão da participação social do sujeito e da mudança das relações com pares (Brustolin; Alves; Superti, 2018; Brum; Paiva, 2021). Assim, muitos carregam a percepção de que vivências na adolescência são grandes determinantes para a identidade e autossignificação. Nesse caso, é crucial que olhemos para os discursos que constituem as ideologias do adolescente sobre si mesmo, particularmente frente às experiências sociais dessa população enquanto minoria socialmente vulnerável (Pessoa, 2015; IPEA, 2015; Barbosa; Facci, 2018). Esses discursos estão em toda vivência do sujeito, visto que, segundo Volóchinov (2021), ele é constituído de linguagem e está completamente rodeado dela, todavia, dentre os diversos possíveis enunciados, nos interessa analisar os discursos midiáticos que geram uma visão hegemônica da adolescência, como o filme Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), pois é um produto cultural de grande impacto e que reflete e reforça valores atribuídos ao adolescente na contemporaneidade.
Palavras-chave: (Não disponível no arquivo original)
BEATRIZ HABARA MORGON
[Linguística e interfaces]
O método comparativo na análise de práticas pedagógicas com conlangs
Este trabalho insere-se no projeto de mestrado intitulado “Conlang na escola: análise, comparação e adaptação ao contexto brasileiro”, vinculado ao projeto “Conlang na escola: língua inventada e conhecimento da linguística”, que analisa práticas pedagógicas que mobilizam a criação de línguas inventadas (conlangs) como ferramenta de ensino. A pesquisa propõe uma análise crítica comparativa entre a Oficina de Língua Inventada (OLI), desenvolvida no contexto brasileiro, e experiências internacionais, com o objetivo de auxiliar em seu (re)planejamento, (re)aplicação e (re)formulação de materiais. Neste recorte, o foco desloca-se para o método comparativo, com o objetivo de discutir seus fundamentos teóricos e suas implicações na análise de práticas pedagógicas. Parte-se de uma recapitulação de diferentes abordagens da Educação Comparada, desde modelos tradicionais a práticas mais recentes, de modo a situar a pesquisa no interior desse campo, especialmente em práticas mais contemporâneas, que ampliam a comparação para além de sistemas educacionais e incorporam a análise de práticas pedagógicas em contextos distintos. Nesse sentido, busca-se demonstrar a comparação não apenas como identificação de semelhanças e diferenças, mas como um procedimento analítico que permite estabelecer relações interpretativas entre fenômenos situados. A partir disso, o estudo discute possibilidades e limites do método comparativo aplicado à educação, especialmente em pesquisas de caráter qualitativo, como é o caso do presente projeto. Evidenciam-se, assim, suas aproximações com abordagens interpretativas da Educação Comparada e suas especificidades ao privilegiar práticas de ensino de Linguística ainda pouco exploradas. Por fim, mobiliza-se na prática os conceitos e procedimentos da Educação Comparada ao analisar as práticas pedagógicas de conlang em contextos internacionais e no contexto brasileiro. Serão abordados aspectos como a definição de critérios de comparação, o papel do contexto na análise e os desafios envolvidos na articulação entre casos distintos. Busca-se compreender, além de suas semelhanças e diferenças, como essas práticas podem ser apropriadas, transformadas e reinterpretadas. Ao privilegiar o debate metodológico, pretende-se contribuir para a reflexão sobre os usos do método comparativo em estudos educacionais, bem como para o desenvolvimento de análises mais rigorosas e contextualizadas.
Palavras-chave: Método Comparativo; Práticas Pedagógicas; Conlangs
BENTO ORLANDO MUTOBA
[Sociolinguística e Dialetologia]
A intraposição do clítico em complexo verbal sem elemento interveniente no Português Moçambicano: uma análise acústica
A intraposição do clício em complexo verbal (CV) sem elemento interveniente no que diz respeito à definição do seu hospedeiro, se à esquerda ou à direita (Vai-se arrepender/vai se arrepender), é uma problemática assumida na língua portuguesa, sendo quase impossível definir pela simples audição na fala. No português europeu (PE), generaliza-se que a ligação do pronome se efetiva em relação a V1 e não a V2 (Vieira, 2016; Biazzolli, 2016), enquanto a ligação fonológica do pronome átono no português brasileiro (PB) ocorre para a direita (Corrêa, 2012; Vieira, 2016;). Já no português falado em Moçambique, variedade cuja identidade linguística está em construção e que tem a variedade do PE como norma-padrão, a problemática sustenta-se ainda mais. Mutoba (2025), com base na análise morfossintática de dados de fala da variedade do português moçambicano (PM), observou que em CV com a partícula “a” em seu interior e com verbo pleno infinitivo, o clício pronominal hospeda-se sempre a V2 (estou a te falar); em casos de V1 flexionado na 1ª. pessoa do plural (-mos), a consoante fricativa alveolar desvozeada, [?] não é suprimida na articulação (vamos nos alimentandos), o que contraria o modelo formal da variedade do PE. O autor, porém, não traz interpretações categóricas sobre CV com intraposição do clício e sem elemento interveniente. Assim, nesta proposta, utilizando o PRAAT, foi realizada uma análise acústica de CV com clício em seu interior e sem elemento interveniente com base nos dados de fala de Mutoba (2025) da variedade do PM, com foco na duração e intensidade da propagação das ondas sonoras. O aporte teórico para a análise toma por base a Teoria da Variação e Mudança Linguística (Weinreich, Labov; Herzog, 1968; Labov, 1972) e a Teoria da Hierarquia Prosódica de Nespor e Vogel (1986). O objetivo é identificar a posição exata do clício no interior do CV sem elemento interveniente no PM. Os dados apontam que existe uma pausa marcada por uma breve ausência da voz (breve duração e sem intensidade) entre a articulação da forma do V1 e da forma clítica pronominal sugerindo a separação entre elas e a aproximação do clício a V2 para formar um Clitic Group (Nespor e Vogel, 1986). Portanto, os parâmetros acústicos (duração, intensidade) analisados permitem-nos aventar a hipótese de que a variante próclise a V2 aparece como inovação no PM, tal como observado em dados escritos (Mapasse, 2005) e de fala (Mutoba, 2025) do PM. (Apoio:CAPES–Processo 88887.149550/2025-00)
Palavras-chave: Posição de clíticos pronominais; complexos verbais; análise acústica
BHIANCA MORO PORTELLA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O plano de aula como elemento dinamizador na emergência do professor complexo
No âmbito da Linguística Aplicada (LA) e da formação inicial de professores de línguas adicionais, esta pesquisa investigou o papel dinamizador do plano de aula no processo de emergência do professor complexo. O ponto de partida foi uma lacuna identificada nos estudos de Borges e Magno e Silva (2019), nos quais, embora se discutisse a importância do plano de aula como mediador das interações reflexivas entre teoria e prática no ensino de línguas em ação, resultados empíricos que embasassem o uso efetivo desse recurso no desenvolvimento do professor complexo não foram apresentados. Diante disso, o objetivo central deste trabalho foi compreender o papel do plano de aula como elemento dinamizador da sala de aula e do sistema ensino no contexto de formação inicial do professor complexo. O referencial teórico articulou a Teoria da Complexidade (TC), ancorada em Larsen-Freeman e Cameron (2008), com elementos da Abordagem Complexa de Ensino e de Aprendizagem de Línguas (ACEAL) — em especial o conceito de professor dinamizador e o Planejamento Semiótico-Ecológico de ensino de língua (PSE) (Borges, 2014b) — e com a concepção de Professor Complexo de Borges e Magno e Silva (2019). A investigação teve caráter qualitativo e retrospectivo, com a pesquisadora assumindo simultaneamente os papéis de sujeito e objeto de análise. O corpus foi composto por oito Planos de Aula Iniciais (PAIs), elaborados durante o Estágio Supervisionado em Língua Inglesa em um curso de Licenciatura em Letras de uma universidade estadual paranaense em 2019, e pelos respectivos Planos de Aula Modificados (PAMs), refaccionados durante as regências em função das emergências do sistema aprendizagem. A análise comparativa entre PAIs e PAMs identificou as naturezas e motivações das modificações, descrevendo retrospectivamente como as escolhas teórico-metodológicas foram sendo redirecionadas ao longo do percurso. Os resultados evidenciaram que o processo de facção e refacção dos planos de aula revelou a impossibilidade de utilização de um único método ou tipo de planejamento, configurando a materialização do PSE em ação. Concluiu-se que o plano de aula constitui um elemento analítico privilegiado para tornar visíveis os espaços de fase percorridos pelo sistema ensino, os processos de bifurcação e adaptação e o percurso de emergência do professor complexo como agente dinamizador, apontando para a necessidade de maior aprofundamento investigativo sobre essa relação na LA.
Palavras-chave: Professor Complexo; Plano de Aula; Planejamento Se
BRUNA DE PAULA SILVA
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
A relação com a escrita: uma análise dos mecanismos de junção em narrativas de idosas
Este trabalho investiga a transformação na relação com a escrita, no contexto de uma Sequência de Ensino (SE), a partir do funcionamento dos mecanismos de junção (MJs), em textos da tradição discursiva (TD) narrativa, produzidos por idosas do Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA/Unesp Assis). Parte-se da hipótese de que a relação com a escrita (Cardoso, 2009) é transformada pelas condições que uma SE, enquanto dispositivo didático de intervenção, proporciona no processo de ensino e aquisição da escrita. O objetivo geral é descrever e analisar, sob uma abordagem linguístico-discursiva, as transformações no funcionamento dos MJs, em textos escritos da TD narrativa, descrita como relato de experiência, produzidos pelas idosas do PEJA/Unesp Assis, considerando versões iniciais (T1) e finais (T2), decorrentes da aplicação da SE. Especificamente, objetiva-se: (i) descrever e analisar, sob uma abordagem linguístico-discursiva, o funcionamento dos MJs em T1 e T2; (ii) comparar o funcionamento linguístico-discursivo dos mecanismos em T1 e T2; e (iii) discutir de que modo as intervenções da SE incidem na transformação do funcionamento linguístico-discursivo dos mecanismos, de T1 para T2. Fundamenta-se teoricamente na articulação entre a noção de relação com a escrita (Cardoso, 2009), o paradigma das TDs (Kabatek, 2006; Lopes-Damasio, 2025) e a abordagem linguístico-discursiva da aquisição da escrita, compreendida como processo de subjetivação do sujeito na/pela linguagem (Lemos, 1998). Metodologicamente, realiza-se uma análise qualitativo-quantitativa dos aspectos sintáticos e semânticos dos MJs (Koch, 2018; Halliday, 1985; Kortmann, 1997). Os resultados apontam para uma transformação da relação com a escrita, conforme o funcionamento dos mecanismos de T1 para T2, principalmente em relação: (i) ao aumento das frequências token e type; e (ii) à utilização dos mecanismos como recursos funcionais para narrar as experiências no texto, com maior precisão de progressão temática e organização temporal, conforme evocado pela TD e motivado pelos Textos Mentores da SE. As intervenções da SE favoreceram uma relação mais positiva e produtiva das idosas com a escrita, devido ao movimento de fortalecimento da dimensão epistêmica, sem o apagamento da dimensão identitária, mediado pela reflexão metalinguística sobre a prática escrita, de modo a ampliar as formas de participação das idosas do PEJA/Unesp Assis em práticas letradas. (Apoio: CAPES - processo 88887.149615/2025-00)
Palavras-chave: Relação com a escrita; Tradição discursiva narrativa; Mecanismos de junção
BRUNO TAVARES COSTA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Práticas linguísticas e distinção social entre intelectuais negros maranhenses no início do século XX
Sob perspectivas sócio-históricas e sociolinguísticas, analisamos a produção escrita de dois intelectuais negros maranhenses: Astolfo Marques (1876-1918) e Nascimento Moraes (1882-1958). Ambos integraram os chamados Novos Atenienses, grupo que, em São Luís, nas primeiras décadas do século XX, buscou reposicionar o Maranhão como espaço de prestígio intelectual, cultural, linguístico e literário. O corpus é composto por textos publicados entre 1900 e 1930 em jornais diversos (Pacotilha, Diário do Maranhão, A Campanha, Diário de S. Luiz, Correio da Tarde e A Tarde). À luz dos estudos sobre comunidades de prática, paradigma indiciário e usos sociais da língua, investigamos a ordenação dos clíticos pronominais em orações infinitivas preposicionadas e em grupos verbais, bem como o seu alinhamento às normas do português brasileiro e do português europeu, tomando tais fenômenos em variação como indícios de experiências sociais, raciais e intelectuais distintas. Do ponto de vista metodológico, nas orações infinitivas preposicionadas, organizamos as ocorrências de ênclise e próclise em função do tipo de pronome e da preposição que introduz a sentença não finita; nos grupos verbais, analisamos a distribuição dessas variantes diante da existência ou não de vocábulos atratores. Além disso, utilizamos o modelo sociológico das escalas de comparação para refinar o tratamento sociolinguístico e evidenciar aproximações e distanciamentos entre formas de atuação intelectual, repertórios linguísticos e posições sociais ocupadas por esses escritores na rígida hierarquia social e racial da São Luís do início do século XX. Com isso, em diálogo com o conceito de Jaula Flexível, do historiador Carlo Ginzburg, argumentamos que esses letrados mobilizaram diferentes repertórios linguísticos como recursos de distinção social e de construção de legitimidade intelectual em um Maranhão representado como economicamente decadente após a Independência e a Abolição. Sustentamos, ainda, que suas práticas linguísticas refletiram diferentes formas de alinhamento a modelos de civilização e de prestígio linguístico em circulação no Brasil republicano.
Palavras-chave: História Social do Português; Sociolinguística; Colocação Pronominal
BÁRBARA PEREIRA THOMAZ
[Semiótica]
A solidão da mulher negra: discurso musical e afetivo nas canções de Alcione e IZA
O trabalho tem como objetivo geral realizar uma análise semiótica discursiva das relações de raça e gênero presentes nas canções de Alcione e IZA, artistas negras de diferentes gerações, investigando como seus discursos representam a solidão afetiva da mulher negra e sua relação com processos históricos, culturais e sociais de exclusão. Especificamente, busca-se analisar músicas e entrevistas das cantoras para identificar a recorrência do sentimento de não pertencimento nas relações amorosas, compreender sua associação aos marcadores de raça e gênero e responder à seguinte questão: qual o processo de significação presente nessas canções e sua correspondência histórico-cultural com a solidão da mulher negra? A pesquisa parte da definição de população negra adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que engloba pessoas autodeclaradas pretas e pardas, reconhecendo as particularidades de suas vivências. O estudo fundamenta-se na semiótica discursiva de Greimas (1973) e Fontanille (2007), compreendendo a significação como resultado de um percurso gerativo de sentido que articula os níveis fundamental, narrativo e discursivo. Também dialoga com Landowski (2020), ao considerar Alcione e IZA não apenas como intérpretes, mas como participantes da construção discursiva. A relação entre discurso e cultura é abordada a partir de Fiorin (1988), que demonstra como a linguagem reproduz e naturaliza estereótipos sociais e raciais, refletindo práticas históricas de discriminação. O corpus é composto pelas canções Exclusiva e Nunca Mais, de IZA; Ou Ela Ou Eu, Você Me Vira a Cabeça e Desacostumei de Carinho, de Alcione; além da interpretação conjunta de Chain of Fools, originalmente gravada por Aretha Franklin. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de estudo de caso voltada à compreensão dos sentidos produzidos por mulheres negras em suas experiências afetivas. Espera-se contribuir para os estudos discursivos sobre raça e gênero, ampliando a presença dessas temáticas na semiótica e fortalecendo a representatividade de grupos historicamente marginalizados dentro e fora da produção científica-acadêmica. (Apoio: CAPES - Processo 88887.953967/2024-00)
Palavras-chave: semiótica; canção; raça e gênero
CAROLINA FELIX PROVIDELLO
[Tradução]
Desafios na tradução de instrumento padronizado para avaliação do desenvolvimento comunicativo- linguístico: palavras e sentenças do inglês ao português brasileiro
Este trabalho tem como objetivo discutir as dificuldades inerentes à tradução de materiais voltados à avaliação de vocabulário e morfossintaxe, tomando como objeto o MacArthur-Bates Communicative Development Inventories (CDI), e, mais especificamente, o CDI II (Words and Sentences), construído para crianças de 16 a 30 meses. O estudo considera as implicações do processo tradutório para a prática clínica, especialmente no campo da Fonoaudiologia, bem como para a validade e a confiabilidade dos instrumentos de avaliação linguística. Parte-se do pressuposto de que instrumentos originalmente elaborados em inglês refletem propriedades estruturais e funcionais específicas dessa língua, o que impõe desafios à sua adaptação para o português brasileiro (PB), envolvendo tanto aspectos linguísticos quanto particularidades do desenvolvimento da linguagem e aspectos culturais relacionados ao contexto de uso do instrumento. Nesse sentido, a tradução de instrumentos de avaliação é compreendida como um processo de adaptação transcultural, no qual devem ser articulados conhecimentos linguísticos, tradutórios e clínicos, favorecendo uma atuação multidisciplinar. Adota- se como quadro teórico-metodológico uma interface entre os estudos da tradução de orientação funcionalista e da linguística, considerando especificidades da aquisição lexical e morfossintática. As análises evidenciaram: i) reformulações motivadas por diferenças estruturais entre as línguas, especialmente no domínio da morfossintaxe, já que o PB apresenta um sistema flexional mais complexo em relação às marcações de gênero, número e concordância verbal, além de não apresentar correspondência direta para determinadas estruturas frequentes no inglês, como o uso de auxiliares e certas construções interrogativas; ii) adaptações decorrentes de especificidades culturais, observadas sobretudo na seleção de itens lexicais, pois palavras recorrentes em contextos anglófonos nem sempre possuem o mesmo grau de familiaridade para crianças brasileiras; e iii) ajustes relacionados à interpretabilidade do instrumento pelos respondentes, envolvendo decisões tradutórias voltadas à preservação da funcionalidade do instrumento e à garantia de que as habilidades originalmente avaliadas fossem mantidas no contexto do PB. Os resultados indicam, assim, que a adaptação linguística e a validação desses instrumentos requerem procedimentos criteriosos, para além da equivalência lexical, aplicados por equipe multidisciplinar, contribuindo para a elaboração de materiais mais adequados ao contexto brasileiro e para avaliações mais precisas no campo da linguagem de crianças pequenas. (Apoio: CAPES - Processo: 88887.103444/2025-00)
Palavras-chave: Tradução; Linguagem Infantil; Desenvolvimento da Linguagem
CASSIANO BUTTI
[Lexicologia e Lexicografia]
A construção do conceito de sinonímia na perspectiva da lexicologia
A sinonímia tem sido objeto de investigação desde a Antiguidade, despertando o interesse de retóricos, filósofos, gramáticos, semanticistas, estilistas e lexicógrafos. Apesar dessa constatação, os tratamentos dados ao fenômeno não foram consensuais ao longo do tempo: alguns estudiosos relativizam suas funções e usos, enquanto outros negam sua existência. Considera-se, contudo, que a sinonímia constitui uma das principais relações léxico-semânticas abordadas na pesquisa lexicológica. Nesse sentido, este estudo tem como objetivo discutir as diferentes concepções de sinonímia presentes em dezoito obras de referência na área da lexicologia. A investigação insere-se em um projeto coletivo mais amplo de revisão crítica dos principais temas e objetos dessa ciência. Para tanto, realizou-se levantamento e análise do conceito de sinonímia em manuais de lexicologia publicados em diferentes línguas: seis em francês, quatro em português, três em espanhol, três em inglês e dois em italiano. A análise fundamentou-se na abordagem linguístico-historiográfica de Swiggers (2010), buscando identificar continuidades e descontinuidades nas ideias lexicológicas sobre o fenômeno. Os resultados obtidos revelam diversidade de posicionamentos na constituição da terminologia e da conceituação do tema. A maioria dos autores entende a sinonímia como relação de identidade e/ou similaridade entre unidades léxico- semânticas (Carvalho; Lehmann e Martin Berthet; Mortureux; Niklas Salminen; Picoche; Polguère; Vilela). Entretanto, vários estudiosos negam a existência de sinônimos em sentido estrito, ressaltando que a equivalência absoluta de significado é rara ou inexistente, devido às nuances introduzidas pelo uso contextual e pelos valores pragmáticos (Bauer; Clemente e Moreira; Gardes-Tamine; Jackson e Amvela; Papini; Salvador; Stati). Outros enfoques destacam critérios específicos: a sinonímia como relação escalar (Perez e Pascual), como efeito de sentido marcado pela intencionalidade discursiva (Lara). Há também quem associe a sinonímia à identidade de referentes (Bauer; Lara; Vilela). Conclui-se que, mesmo diante da negação da sinonímia em sentido absoluto, o tema permanece como tópico central nos manuais de lexicologia, razão pela qual merece ser revisitado, problematizado e sistematizado. O estudo, portanto, deve contribuir para a reflexão sobre os limites e possibilidades da sinonímia na descrição lexicológica.
Palavras-chave: ciências do léxico; lexicologia; sinonímia
CAUÉ GARCIA SOARES
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
A legitimidade ecológica de participação em aulas de inglês: cálculo de segurança e invisibilidade linguística
(O resumo para esta entrada está parcialmente ilegível no arquivo original)
Palavras-chave: Identidade sociolinguística; aprendizagem de língua adicional; ecologia discursiva
CAUÊ GARCIA SOARES
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
A legitimidade ecológica de participação em aulas de inglês: cálculo de segurança e invisibilidade linguística
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa de mestrado em andamento que investiga a construção de identidades sociolinguísticas e o processo de aquisição de língua adicional em perspectiva sociocultural. O estudo foi realizado em duas turmas de primeiro ano do ensino médio de uma escola técnica privada do interior do estado de São Paulo, reunindo 42 participantes. O corpus é composto por 42 entrevistas semiestruturadas com estudantes, uma entrevista com o professor, 12 sessões de observação de sala de aula e uma avaliação diagnóstica de proficiência referenciada pelo Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (QECR). O objetivo central desta comunicação é descrever dois processos articulados que organizam a participação linguística em sala de aula: (i) a ecologia de sala como campo de distribuição desigual da tolerância ao erro e (ii) o cálculo de segurança como mecanismo pelo qual cada estudante responde a essa estrutura antes de se expor. Parte-se da hipótese de que a participação linguística visível não é função direta do capital linguístico dos estudantes, mas resultado de uma negociação ecológica da legitimidade para aparecer como falante de língua inglesa. O referencial teórico-metodológico articula a Teoria Fundamentada construtivista (CHARMAZ, 2014), adotada como método de geração e análise de dados, com conceitos da sociolinguística e da linguística aplicada de perspectiva sociocultural. O conceito de investimento (NORTON, 2000; DARVIN; NORTON, 2015) ancora a análise da relação entre identidade, capital e participação. A noção de ecologia da aprendizagem (VAN LIER, 2004) fundamenta a leitura do ambiente de sala como campo de distribuição de recursos simbólicos, enquanto o conceito de repertório linguístico (BUSCH, 2015) orienta a análise da distância entre o que os estudantes sabem e o que a ecologia torna acessível. Os dados revelam que as duas turmas constituem ecologias distintas em sua superfície, mas compartilham uma estrutura profunda: a tolerância ao erro opera como recurso distribuído segundo hierarquias sociais que organizam de forma desigual o acesso à participação. O cálculo de segurança, entendido como o processo que integra grau de certeza sobre a resposta, composição da audiência e trajetória acumulada de exposições anteriores, funciona como mecanismo que traduz essa estrutura ecológica em padrões individuais de participação ou silêncio. Os resultados indicam que participantes com alto capital linguístico podem ser sistematicamente invisíveis na aula, enquanto participantes de capital médio podem apresentar alta visibilidade, evidenciando que visibilidade e competência constituem processos dissociados nas condições ecológicas investigadas.
Palavras-chave: Identidade sociolinguística; aprendizagem de língua adicional:; ecologia discursiva
CHEILA APARECIDA BRAGADIN
[Lingüística Aplicada]
O temperamento do jabuti na literatura nheengatu
Neste trabalho, tomamos a compreensão da narrativa no campo de estudo da oralidade como forma primordial de transmissão que se aproxima diretamente das reflexões sobre o folclore (Cascudo, 2006; 2012; 2002, e Fernandes, 2003; 2004) como manifestação da memória coletiva. O objeto analisado é a narrativa tradicional nheengatu “O jabuti e a anta do mato” (Magalhães, 2019), e o contexto de abordagem empreendido se situa nos estudos da Tradição Oral, domínio estudado por Ferreira Netto (2008; 2017). Assim, compreendemos a narrativa do jabuti e da anta como narrativa tradicional considerando a persistência dessas formas narrativas típicas de sociedade de tradição oral no interior da sociedade letrada. Ou seja, mesmo com a transição para o registro escrito, as narrativas tradicionais continuam a circular de maneira ampla, por meio de livros e outras formas de mídia de modo que mantém sua estrutura: a narrativa mínima (Labov, 1997), que permanece inalterada. Especificamente, analisamos o texto a partir dos tipos estruturais das sentenças de Labov (1997), determinamos as sentenças de ação complicadora (Sac), que ordenam a sequência dos eventos narrativos na ordem diacrônica de ocorrência desses eventos na narrativa, e atrelamos essa dinâmica não só à diacronicidade e à normatividade narrativas de Bruner (1991) como também à normalidade de Durkheim (2014). As narrativas se repetem no nível da locução (Austin, 1990) e podem assumir formas variadas, portanto, propomos que a narrativa tradicional seja tomada como “encarnação individual” de um “fato social” (Durkheim, 2004). Em termos gerais, depreendemos a necessidade de compreender tais narrativas mais a fundo e buscar a coerência desses enredos cuja origem se perde no tempo e cujo contexto de situação nem sempre é facilmente acessível. Para dar conta de desvelar a interpretação desses enredos para além de sua folclorização, as narrativas tradicionais são vistas como encarnações individuais durkheimianas, ou seja, expressões de experiências individuais de fatos sociais (Durkheim, 2014) donde afirmamos que podem servir como instrumentos de educação escolar. Desse modo, objetivamos compreender a narrativa tradicional em sua capacidade efetiva de ilustrar desafios da vida contemporânea em sociedade, o que chamamos de funcionalidade das narrativas tradicionais. Como resultado, verificamos a humilhação moral como fato social representado. O jabuti recebe prontamente a resposta ágil da anta diante de sua provocação defensiva, porém, adiante, o jabuti executará a vingança prometida.
Palavras-chave: jabuti; narrativa tradicional; literatura nheengatu
CHRISTIANE DE SALES FERREIRA
[Línguas de Sinais]
Perseveração fonológica: análise de dados da Libras
Esta pesquisa, desenvolvida no âmbito das atividades acadêmicas do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), investiga os processos fonológicos na Língua Brasileira de Sinais (Libras), com enfoque nos fenômenos de perseveração, buscando compreender seus contextos de ocorrência e seus efeitos no continuum articulatório da sinalização. A pesquisa fundamenta-se nas discussões sobre processos fonológicos para línguas orais propostas por Stampe (1973), nos estudos da fonologia das línguas de sinais desenvolvidos por Frishberg (1975) e Friedman (1975) e, especialmente, nos trabalhos de Silva e Xavier (2020) e Silva (2024), que analisaram esse fenômeno em dados de Libras. O objetivo geral da pesquisa consiste em analisar os processos fonológicos em um corpus de Libras, a partir da categorização proposta por Silva (2024). Como objetivos específicos, busca-se: i) identificar os tipos de perseveração presentes nos dados; ii) descrever seus contextos de ocorrência; e iii) discutir sua relação com a dinâmica articulatória e com mecanismos de esforço biomotor. A pesquisa apresenta abordagem qualitativo-quantitativa. Foram analisados quatro vídeos de sinalização semi-espontânea, produzidos por uma informante surda, compreendendo o período de 2018 a 2025, totalizando 13 minutos e 56 segundos de gravação e aproximadamente 340 ocorrências de processos fonológicos identificados na amostra. A metodologia consistiu na construção de uma matriz de dados para a identificação e descrição dos processos, associando cada ocorrência ao respectivo timestamp dos vídeos analisados. Os resultados parciais demonstram ocorrência expressiva do processo de perseveração, correspondendo a 58% dos dados analisados, seguido por assimilação (21%), acréscimo (13%), apagamento (4%), seguido de metátese (4%). Observou-se maior frequência de perseveração de uma das mãos em sinais bimanuais, sendo assimilada a sinais adjacentes. Os dados demonstram que determinados casos de perseveração podem estar associados a resquícios de esforço motor no fluxo articulatório da sinalização (Napoli; Sanders; Wright, 2014). Contudo, torna-se necessário distinguir os casos em que essa perseveração mantém força biomotora suficiente para integrar a estrutura fonológica daqueles em que há perda dessa força articulatória, configurando apenas um resíduo gestual sem função fonológica. Os dados também evidenciam que, embora recorrente, a perseveração ainda aparece como um processo não categorizado em Silva (2024), reforçando a necessidade de aprofundamento teórico e descritivo sobre o fenômeno. Como perspectiva de continuidade, pretende-se ampliar o corpus analisado e investigar regularidades fonológicas, articulatórias e possíveis motivações extralinguísticas associadas aos contextos de ocorrência da perseveração em Libras. (Apoio: CAPES - Processo 88887.290145/2026-00)
Palavras-chave: Processos fonológicos; Perseveração; Libras.; perseveração; Libras
CLARICE ALMEIDA DOS REIS
[Análise do Discurso]
A internet, o banheiro e a peruca: a construção discursiva dos sujeitos trans por Nikolas Ferreira em suas redes sociais.
O trabalho analisa enunciados sobre pessoas trans produzidos pelo deputado federal Nikolas Ferreira, expoente da extrema direita brasileira com forte atuação digital. Pessoas trans são aquelas cuja sua identidade de gênero difere daquela que lhe foi atribuída ao nascer, sendo historicamente atravessadas por processos de marginalização, invisibilização e violência simbólica e material. Nesse cenário, discursos públicos sobre essas identidades assumem papel central na disputa por reconhecimento social. A pesquisa ancora-se em pressupostos do Círculo de Bakhtin, especialmente nas noções de enunciado concreto, entendido como unidade real da comunicação discursiva, sempre situado em um campo de atividade específico; de alteridade, que implica a constituição do sujeito na relação com o outro; e de signo ideológico, compreendido como todo elemento semiótico que reflete e refrata valores sociais. Considera-se ainda que os discursos analisados circulam em diferentes campos de atividade, como o político, o religioso e o científico, que orientam suas formas de produção e legitimação. A vertente política em que se insere o deputado, caracteriza-se pelo conservadorismo, críticas à democracia e pela produção de discursos que frequentemente incidem de forma discriminatória sobre grupos socialmente minoritários. A hipótese central é que a desqualificação do outro — neste caso na forma de um apagamento das identidades transgênero — constitui um elemento discursivo recorrente em seus enunciados. Os objetivos específicos consistem em: (a) investigar a construção discursiva da imagem dos sujeitos trans sob a ótica do “outro-para-mim” (as pessoas trans para Nikolas), evidenciando processos de alterização; e (b) refletir sobre como representações provenientes das esferas religiosa e científica têm seus temas e significações atualizados nesses enunciados, operando como signos ideológicos em disputa. O corpus da pesquisa compreende postagens no Instagram e X (antigo Twitter) entre 2021 e 2025. O recorte foca em episódios polêmicos: o discurso de 08/03/2023 na Câmara dos Deputados, em que o parlamentar utilizou uma peruca para ironizar pessoas trans, e a exposição de uma adolescente trans em um banheiro escolar, vídeo utilizado para problematizar o uso desses espaços. Metodologicamente, o estudo orienta-se pelo cotejamento de enunciados, realizando uma análise comparativa que busca observar regularidades, recorrências e deslocamentos nos modos de dizer. Esse procedimento permite compreender como diferentes enunciados, situados em campos de atividade distintos, se articulam na produção de sentidos e na circulação de posições ideológicas. Tais aspectos são fundamentais para entender a eficácia discursiva dessas representações e sua inserção na dinâmica social brasileira contemporânea. (Apoio: CAPES-PROEX - processo: 88887.182275/2025-00).
Palavras-chave: Análise do discurso; transfobia; extrema direita
CLAUDIA MARIA CANTARELLA SILVA
[Literatura Brasileira]
Para além da voz à margem, a escrita de João Antônio à luz do existencialismo sartriano
Esta comunicação tem por objetivo discutir a escrita do jornalista e escritor João Antônio (1937–1996) à luz do existencialismo sartriano, especialmente conforme debatido no texto da conferência O existencialismo é um humanismo (1946), de Jean-Paul Sartre (1905–1980), embora mencionemos, também do filósofo francês, reflexões constantes em O ser e o nada (2005), publicado originalmente em 1946. Reconhecido por articular, em sua escrita, linguagem, espaço e homem, conferindo voz aos seres urbanos marginalizados, João Antônio declarou, em carta à escritora e amiga Ilka Brunhilde Laurito (1964), a intenção de produzir, para além da voz das ruas, uma literatura voltada para questões universais, como os vazios interiores de seus personagens, revelados “de dentro para fora, sem prosas moles”. Para demonstrar como tal universalidade se faz presente em sua poética, mesmo antes da publicação de seu premiado livro de estreia Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), analisamos o texto “Um preso”, veiculado no jornal O tempo, em 1954 como vencedor do concurso de contos promovido pelo periódico. Somente em 2002 “Um preso” ganhou sua primeira publicação em Contos Reunidos. Ainda que o texto tenha recebido críticas do próprio autor – que o considera representante de “um monólogo interior insuficiente” –, o conto curto traz instigantes reflexões existenciais do narrador-protagonista. Para demonstrá-las, procuramos discutir em que medida, nos espaços à margem em que se constroem os percursos desta personagem não nomeada, as escolhas por ela elencadas podem ser entendidas como retratos da condição existencial humana. Para a análise do espaço, lançamos mão das observações constantes em A poética do espaço (2000), de Gaston Bachelard; e sobre os elementos narrativos, recorremos às reflexões de Jean Pouillon em O tempo no romance (1974), publicado originalmente em 1946 — o mesmo ano do ensaio de Sartre —, circunstância que reforça a compreensão da literatura como expressão artística da experiência vivida.
Palavras-chave: João Antônio; Literatura brasileira; Existencialismo sartriano
CLÁUDIA MARIA PAIXÃO MATTOS
[Formação de professores]
O Ensino de Línguas para Fins Específicos nas provas dos concursos para professor de inglês dos institutos federais: foco nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil
O presente trabalho é um recorte de uma pesquisa de doutorado em andamento que visa realizar um estudo para verificar como os institutos federais (IFs) estão formando professores para atuarem no ensino de línguas para fins específicos (ELFE). Tomando por base os projetos pedagógicos dos cursos de Licenciatura em Letras/Inglês dos IFs, realizamos um levantamento da oferta de disciplinas que preparam o professor para lecionar inglês para fins específicos. Analisamos, também, os editais dos concursos para o cargo de professor de inglês desses IFs, a fim de compreender como o ELFE é trabalhado nos temas das provas. Observamos que a expansão da Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica proporciona uma necessidade de formação teórica e prática do profissional de Letras para atuar, além da educação básica, no ensino de línguas para o contexto técnico e tecnológico. Como aporte teórico-metodológico no contexto do ELFE, trazemos, entre outros, Hutchinson e Waters (1987), Stevens (1988), Dudley-Evans e St. John (1998), Almeida Filho (2018), Bedin (2017), Mattos (2018), Ramos (2019) e Silva Junior (2019), cujos estudos versam sobre a formação do professor de língua estrangeira para atender essa demanda específica de ensino de língua. O estudo é de natureza qualitativo-interpretativista, em que utilizamos como instrumentos de geração de dados a análise documental (projetos pedagógicos e editais de concurso), o questionário e a entrevista. Para efeito de apresentação no evento, mostramos os resultados do primeiro instrumento, com foco nos editais dos concursos para professor de inglês dos IFs. Na Região Norte, dos sete institutos federais existentes, somente um oferta curso de Letras com habilitação em Língua Inglesa. Na Região Nordeste, dos onze IFs, seis campi em um único estado ofertam curso de Letras com esta habilitação, entre os quais, escolhemos um para a realização da pesquisa. Os editais dos concursos desses campi demonstram uma manifestação tímida do ELFE no conteúdo programático das provas de conhecimentos específicos e de desempenho didático dos concursos de professores de inglês. Constatamos algumas inconsistências quanto à avaliação da competência linguístico- comunicativa do candidato nos editais analisados. Esperamos, com as reflexões advindas deste estudo, promover discussões acerca do professor de inglês no contexto de ensino dos institutos federais, bem como propostas nos currículos de Letras para melhor atender essa demanda.
Palavras-chave: formação; ELFE; editais
CRISTINA MARTINS FARGETTI
[Línguas Indígenas]
Terminologia Etnográfica - aspectos teóricos e metodológicos
Este trabalho procura sistematizar pontos do que venho pesquisando ultimamente e desenvolvendo em abordagem diferenciada nos Estudos do Léxico. Tem sido a base do que tenho procurado orientar em diversas pesquisas, com resultados em forma de monografias, dissertações e teses (Mateus 2017; Vaneti 2017; Fernandes 2015; Sumaio 2014; Mondini 2014; Berto 2013; Silva 2013; Gusmão 2012), ao incorporar o conhecimento sobre o léxico de línguas indígenas e/ou minorizadas. Apesar de muitos esforços, o conhecimento das línguas e culturas indígenas não é grande, e somente nos últimos anos começamos a ter estudantes de Linguística que sejam também pertencentes a comunidades indígenas. Os estudos, de maneira geral, centram- se fundamentalmente na análise da estrutura das línguas, e poucos indígenas, contudo, dedicam-se aos estudos do léxico, e menos ainda a léxico de especialidade, terminologias. Inclusive, faltam no país materiais sobre léxico em cursos de formação básica para professores indígenas e em cursos para os não-indígenas também, como os de Letras. Por isso, os indígenas não têm formação suficiente para poder confeccionar seus próprios dicionários. Nas pesquisas participam sempre linguistas não-indígenas, e estes não dispõem de recursos necessários para elaborar um dicionário completo, de caráter enciclopédico e ainda em pouco tempo. Há gramáticas de referência para poucas dessas línguas, e seu conhecimento é ainda inicial, em muitos casos. Isto significa que as línguas indígenas não podem ter seus próprios dicionários de especialidades? Precisamos de gramáticas complexas para depois podermos propor um estudo de léxico? Procuro discutir o que tenho pensado sobre a possibilidade de terminologias para estas línguas, ligadas a tradições e culturas diferentes. Dado que a Terminologia lida com C&T – Ciência e Tecnologia – podemos perguntar: há uma astronomia indígena, uma matemática indígena, uma botânica indígena etc.? Poderíamos considerar os conhecimentos indígenas, tidos como holísticos e não subdivisíveis, como uma espécie de ciência, tal qual a concebemos? Solucionamos o problema se utilizamos a denominação “etno-x”, como em “etnoastronomia, etnomatemática o etnobotânica”? Se isto é também uma depreciação de saberes que não conhecemos em profundidade, como se podem estudar os campos semânticos específicos em línguas minoritárias/minorizadas? É adequado pensar nesses estudos como terminologias? A denominação Etnoterminologia resolve ou traz mais dúvidas? Abordarei estas questões e apresentarei minha postura a respeito, para contribuir assim com a ampliação dos estudos na área, em consonância com o que já venho publicando e expondo a público variado (Autora, 2025, 2021, 2019, 2018)
Palavras-chave: Terminologia Etnográfica; línguas minorizadas; terminologia x Terminologia
DANDARA FREITAS DE PAULA
[Gramática Gerativa]
Interpretação de tough-constructions por falantes do português brasileiro e pela ChatGPT
O presente trabalho investiga como falantes do português brasileiro (PB) e a quarta versão da inteligência artificial (IA) ChatGPT interpretam tough constructions (TCs). Essas são as denominações do chamado tough movement, fenômeno sintático em que o sujeito da matriz é correferenciado com o objeto da subordinada, usualmente explicado por movimento QU (Chomsky, 1977) com operador nulo (Chomsky, 1986). Ademais, em artigo disponível em , acessado em 20/03/2023, há a separação entre linguagem humana e artificial por meio da comparação de interpretações entre falantes nativos do inglês e a terceira versão da IA. Destarte, é mostrado que a IA interpretava as TCs com uma ligação sujeito-sujeito inconcebível aos falantes nativos, pois, enquanto seres humanos geram linguagem por meio de movimentos sintáticos restritos, a IA o faz por cálculo de tokens prováveis. Assim, como o PB possui a possibilidade de ter ambas as ligações em uma TC (Galves, 1987), a pergunta de pesquisa recai sobre a dúvida de se ainda é possível falar da diferença anunciada pelo artigo jornalístico ou não em PB. Para tanto, primeiro se fez um corpus de TCs que teriam suas interpretações testadas em ambos os sujeitos de pesquisa (falantes nativos do PB e a quarta versão da ChatGPT, a mais recente à época). Aprovado o projeto pelo Comitê de Ética, as 15 sentenças foram submetidas a 129 participantes e à ChatGPT. No caso da análise de participantes, as duas variáveis dependentes (interpretação sujeito-sujeito ou sujeito-objeto) foram analisadas pelas variáveis linguísticas do adjetivo, da transitividade, da quantidade de interpretações e da animacidade do sujeito. Embora, em todas as sentenças, tenha sido mais frequente a interpretação com a ligação sujeito-objeto; ainda houve a interpretação sujeito-sujeito em 10-20% delas. Ademais, transitividade, quantidade de interpretação e adjetivo foram as variáveis estatisticamente significativas em ANOVA, Wilcoxon não pareado e Kruskal-Wallis, todos feitos pelo software R. A ChatGPT, por sua vez, apresentou a mesma acurácia para as TCs com verbos inacusativos, mostrando certa artificialidade dessas construções; e acurácia maior para os transitivos, de forma a mostrar a sua incapacidade de identificação da ambiguidade própria do PB. Por fim, foi feita uma análise de corpus no Corpus do Português em PB e português europeu (PE). Assim, descobriram-se os níveis padrões para as variáveis já utilizadas mais o item lexical do verbo e papéis temáticos atribuíveis para cada uma das acepções de item lexical. Destarte, percebeu-se uma equivalência gramatical entre PB e PE. (Apoio: PIBIC - Quotas 2024-2025-2026)
Palavras-chave: tough movement; ChatGPT; português brasileiro
DANIEL FONSECA VIEIRA
[Fonética e Fonologia]
Avaliação da qualidade acústica de acervos de fala brasileiros: potencialidades e limitações para a fonética forense
Esta pesquisa é uma contribuição ao campo da fonética forense e investiga o potencial de uso de acervos de dados de fala brasileiros para a geração de estatísticas de distribuição populacional. No cenário atual, a expressão de conclusões em exames de Comparação de Locutor (CL) tem migrado progressivamente de decisões binárias para uma abordagem probabilística baseada na razão de verossimilhança (Likelihood Ratio - LR). Tal metodologia exige o levantamento da similaridade entre as amostras analisadas (questionada e padrão) e também da tipicidade de traços linguísticos dentro da população à qual se pode supor que pertençam os falantes comparados. Nesse sentido, acervos de dados linguísticos nacionais surgem como fontes potenciais de informação a partir das quais se pode determinar a tipicidade de diferentes traços linguísticos na população brasileira. No entanto, como a maioria desses acervos não foi coletada com propósitos forenses, a possibilidade de seu uso para esse fim demanda uma avaliação técnica rigorosa de sua adequação. O objetivo principal deste trabalho é realizar uma avaliação sistemática da qualidade acústica das amostras de áudio de 13 acervos brasileiros, verificando em que medida as condições de gravação permitem a extração de diferentes parâmetros linguísticos e fonéticos. O trabalho apoia-se em uma versão adaptada do Protocolo Geral para Exame de Comparação de Locutor do Grupo de Estudos em Fonética Forense (GEFF) (Barbosa et al., 2020). A análise contempla critérios como: relação sinal-ruído, possibilidade de visualização da curva de frequência fundamental e dos quatro primeiros formantes vocálicos, identificação de consoantes fricativas, além da documentação de metadados técnicos como taxa de amostragem e tipo de codificação. Os resultados parciais, obtidos a partir de um estudo piloto com cinco acervos, indicam que a qualidade acústica varia a depender das condições de coleta. Limitações técnicas, como baixas taxas de amostragem em gravações, restringem a análise espectral mais detalhada, embora preservem a viabilidade de análises fonético-auditivas e de níveis morfológico, sintático e lexical. Espera-se que a sistematização dessas informações contribua para a consolidação de acervos de dados de referência para a tarefa de CL no Brasil, permitindo uma seleção criteriosa de dados para a geração de estatísticas de distribuição populacional nacionais.
Palavras-chave: fonética forense; acervo de dados; comparação de locutor
DANIELA JAQUELINE TORRES BARRETO
[Semântica]
INDIVIDUAÇÃO DO SENTIDO LEXICAL EM LIVROS DIDÁTICOS LUSÓFONOS: uma análise comparativa Brasil–Angola–Portugal
O ensino de Língua Portuguesa em contextos lusófonos tem sido atravessado por diferentes modos de escolarização do léxico, especialmente no livro didático, material que seleciona conteúdos, organiza atividades e regula formas de validação do sentido. Partindo dessa problemática, este trabalho analisa como livros didáticos de Língua Portuguesa do 8º ano/classe, utilizados no Brasil, em Angola e em Portugal, estabilizam ou tensionam a produção do sentido lexical em suas propostas didáticas. O estudo fundamenta-se em uma articulação entre semântica lexical, estudos sobre livro didático e a teoria da individuação de Gilbert Simondon, mobilizando os conceitos de pré-individual, metaestabilidade, estabilização e transindividualidade como operadores analíticos. Metodologicamente, realiza-se uma pesquisa documental, qualitativa e comparativa, tendo como corpus três manuais: Araribá Conecta Português, 8º ano, aprovado no PNLD 2024; Manual do aluno: Língua Portuguesa, 8ª classe, aprovado pelo Ministério da Educação de Angola; e Português 8º ano: Projeto Desafios, certificado em Portugal. Foram mapeadas ocorrências explícitas e implícitas de fenômenos de semântica lexical, tais como sinonímia, polissemia, ambiguidade, denotação/conotação, campo lexical/semântico e hiperonímia/hiponímia, considerando sua distribuição nas unidades, sua forma de apresentação e o tipo de atividade proposto. A análise indica três regimes predominantes de didatização do sentido: no manual brasileiro, a semântica lexical aparece mais vinculada a efeitos de sentido, leitura, humor e inferência contextual; no manual angolano, predomina a estabilização por equivalência lexical, sobretudo em atividades de sinonímia e uso do dicionário; no manual português, há maior diversidade de fenômenos, embora frequentemente organizada por tarefas de correspondência, categorização e preenchimento de quadros. Argumenta-se que as atividades mais produtivas são aquelas que mantêm a metaestabilidade do sentido, exigindo contraste de usos, justificativa interpretativa e contextualização. Conclui-se que a abordagem simondoniana permite deslocar a análise da simples presença de conteúdo para os modos pelos quais o livro didático regula a individuação do sentido lexical em diferentes espaços lusófonos.
Palavras-chave: Semântica lexical; Livro didático; Lusofonia
DANILO ALVES DE SOUZA
[Historiografia Linguística]
Padronização nomenclatural na gramaticografia brasileira oitocentista: um estudo sobre o tratamento do período composto em gramáticas associadas ao Programa de Fausto Barreto (1887)
O Programa de Português para os Exames Gerais de Preparatórios, redigido por Fausto Barreto em 1887, estabeleceu 46 pontos que deveriam orientar a realização dos exames para admitir alunos nas faculdades do Império e, consequentemente, nortear o ensino de Português enquanto disciplina da educação secundária, iniciativa que parece ter perdurado apenas até o ano seguinte. Foram publicadas ao menos quatro gramáticas correspondentes a esse programa (Polachini, 2018), dentre as quais examino, nesta apresentação, duas: Gramática analítica baseada nas doutrinas modernas satisfazendo as condições do atual programa (1887), de Maximino Maciel; e Noções de gramática de acordo com o programa oficial para os exames gerais de preparatórios do corrente ano (1887), de Manuel Pacheco da Silva Júnior e Boaventura Lameira de Andrade. Tanto Maciel quanto Pacheco e Lameira publicaram, em 1894, outras obras — Gramática descritiva baseada nas doutrinas modernas e Gramática da língua portuguesa para uso dos ginásios, liceus e escolas normais, respectivamente — que, embora se apresentem como reedições dos textos de 1887, podem ser compreendidas como novas gramáticas (Cavaliere, 2022). A fim de demonstrar a hipótese de que a padronização dos estudos da disciplina pode ter resultado em significativa coesão terminológica entre obras associadas ao Programa de Fausto Barreto, bem como a fim de examinar comparativamente as reedições, proponho a constituição de um sistema de gramáticas: além dos quatro textos referidos, incluo a Gramática portuguesa (1885 [1881]), de Júlio Ribeiro. A inclusão desse quinto elemento se deve ao reconhecimento de que a gramática de Ribeiro serviu como padrão organizacional e nomenclatural no ensino de Português da Escola Normal da Corte, conforme relatório do Inspetor Geral da Instrução Pública (Brasil, 1883), mais uma razão dentre outras conhecidas para que Fausto Barreto tenha se inspirado em Ribeiro ao propor seu Programa. A análise desse sistema de obras, centrada no tratamento dispensado por elas ao período composto (31º ponto do Programa), revelou adesão de Maciel (1887) e Pacheco e Lameira (1887) à maneira de subclassificar as orações coordenadas e subordinadas encontrada em Ribeiro (1885 [1881]), mas deixa desconhecida a razão para convergência quanto à subclassificação das orações coordenadas em sindéticas e assindéticas. Elaboro, por fim, a hipótese de que isso possa se dever à abordagem de tópicos gramaticais presente na Seleção Literária de Alguns dos principais escritores da língua portuguesa do século XVI ao XIX (1887), de Fausto Barreto e Vicente de Souza.
Palavras-chave: Gramaticografia brasileira; Nomenclatura gramatical; Padronização linguística
DARLAN XAVIER NASCIMENTO
[Sociolinguística e Dialetologia]
Padrões gráficos como marcadores regionais: análise da variação na escrita em alemão suíço
Alemão suíço é o nome tradicionalmente dado às variedades alemânicas faladas na Suíça (Wehrli, 1953; Baur, 1988; Siebenhaar, 1997). Tais variedades caracterizam-se pela inexistência de ortografia padronizada, de modo que os falantes/escreventes podem implementar estratégias individuais ao escrever. Esta apresentação tem por objetivo discutir alguns resultados de uma coleta de dados realizada em Zurique (Suíça), especificamente acerca da relação entre formas gráficas de palavras e a região de origem desses falantes nativos, bem como a força dessas associações e a proximidade dos participantes em relação à ortografia da língua padrão. No experimento realizado, 28 falantes leram dez comentários extraídos de redes sociais, totalizando 189 palavras, e pediu-se que eles corrigissem as palavras que teriam grafado diferentemente. Essas respostas foram comparadas entre participantes, e a similaridade gráfica foi analisada utilizando métodos de clusterização hierárquica na linguagem de programação R (R Core Team, 2023), resultando em um dendrograma que sugere agrupamentos relativamente consistentes com a região de origem. Embora sejam oriundos de dez cantões suíços, os participantes foram divididos em três grupos (cantão de Zurique; a oeste de Zurique; e a leste de Zurique) devido ao volume limitado da amostra e parcialmente com base em mapas dialetológicos existentes (Hotzenköcherle; Baumgartner, 1962-1997). Paralelamente, para cada palavra, calculou-se o valor-p de Fisher para testar a associação entre a forma escrita e a região. Das 189 palavras consideradas, 48 apresentaram um valor-p inferior a 0,05, indicando evidência estatística de correlação com a região. Uma vez que esses testes foram conduzidos individualmente para cada token, optou-se por aplicar a correção de Bonferroni, cujo limiar classificou cinco palavras (cujas grafias em alemão padrão são “uns”, “ja”, “mal”, “nicht” e “warten”) como estatisticamente significativas, sugerindo um forte grau de associação regional. A magnitude dessa associação foi avaliada por meio do valor-V de Cramér, reforçando que essas palavras são particularmente preditivas da origem geográfica de um determinado participante. Além disso, computou-se a distância média da produção de cada informante em relação à ortografia do alemão padrão, expressa em “sinais gráficos” (letras). Os valores obtidos variam de 1,58 a 2,06 e, dado que cada token tem, em média, 5,57 letras, observa-se um grau de distância considerável. Possíveis correlações entre a distância em relação às formas padrão e características dos participantes ainda estão sendo investigadas. Em conjunto, os resultados demonstram que, mesmo sem ortografia institucionalizada, parece haver padrões consistentes de escrita que servem como marcadores dialetais regionais.
Palavras-chave: alemão suíço; grafia; variação regional
DIEGO APARECIDO ALVES GOMES FIGUEIRA
[Análise do Discurso]
Sobre a paratopia e suas “sombras”: explorando a produtividade de dois conceitos de Dominique Maingueneau
Neste trabalho, revisitamos as noções de paratopia e discursos constituintes de Dominique Maingueneau no intuito de contribuir com a problemática dos tropismos apontada pelo analista do discurso francês no ensaio “A paratopia e suas ‘sombras’” (MAINGUENEAU, 2010). Maingueneau classifica com constituintes os discursos literário, científico, religioso e filosófico. São discursos que reivindicam para si uma espécie de transcendência e que pretendem dar sentido a atos da coletividade, determinando valores que fundamentam uma sociedade, e servir de fundamento para os demais discursos, sem reconhecer autoridade acima da sua própria. Uma característica fundamental dos discursos constituintes é a paratopia, uma marca da condição limite desses discursos e de seus enunciadores. Trata-se de um pertencimento paradoxal e insustentável, de modo que essa condição é a própria condição para a emergência e a inscrição de um discurso numa dada instituição (literária, religiosa, científica ou filosófica). No ensaio mencionado, Maingueneau observa que existem conjuntos de práticas discursivas que também constituem identidades fortes e que representam uma problemática interessante, que ele denomina “sombras” dos discursos constituintes e das quais o mundo da música popular e do esporte seriam exemplos claros. Buscamos aqui explorar a produtividade de tais conceitos para tratar de uma gama um tanto mais vasta de fenômenos do universo discursivo, que ao lado dos discursos atópicos (como o discurso pornográfico e o discurso racista), fogem à lógica da organização em campos discursivos. Para tanto, procedemos uma revisão bibliográfica da produção de Maingueneau a respeito desses temas seguida de dois gestos interpretativos da teoria: 1) a verificação da hipótese das práticas discursivas do rock´n´roll e do futebol funcionarem como “sombras” da paratopia e 2) a proposição das histórias em quadrinhos como um outro conjunto de práticas discursivas capazes de serem analisadas da mesma forma. No primeiro desses gestos, analisamos a formação de comunidades discursivas em torno do futebol e do rock´n´roll, dividida entre produtores de enunciados reverenciados, comentadores e seguidores fiéis (fãs e torcedores), com suas práticas de constituição de memória e confronto de posicionamentos, bem como as elaborações de traços da paratopia nesses dois discursos. No segundo momento, apresentamos uma análise semelhante do espaço discursivo das histórias em quadrinhos, na sua sempre conflituosa relação com o campo literário, do qual elas assimilam algumas práticas de circulação com objeto de se legitimar enquanto linguagem artística.
Palavras-chave: Paratopia; Discursos constituintes; Histórias em quadrinhos
DILÉIA APARECIDA MARTINS
[Letramento(s)]
Dicionário Afro-brasileiro em Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa
É o projeto de extensão “Ensino da História da África e da Cultura Africana e Afro-Brasileira em Língua Brasileira de sinais” ligado ao “Núcleo de Estudos e Pesquisas em Tradução, Interpretação e Educação para o Antirracismo em contextos sociolinguísticos de línguas de sinais” (Modalidade Programa de Extensão Universitária - Proex UFSCar nº 23112.005105/2020-45), criado pela profa. Dra. Diléia Aparecida Martins. Se enquadra na linha temática “Ensino da História da África e da Cultura Africana e Afro-Brasileira” e une profissionais de universidades nacionais e internacionais. A criação e coleta de dados para a composição de dicionários tem se constituído uma prática necessária para a difusão da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Ao longo do percurso de reconhecimento dessa língua, a identificação das variações lexicais foram imprescindíveis para a comprovação de seu status linguístico. Até a década de 1990 pairava uma visão equivocada sobre uma dita dependência do português, língua oral majoritária do país. Com a ascensão do status linguístico da Libras, as pessoas que fazem parte dessa comunidade linguística passaram a adentrar de modo mais frequente, espaços pouco acessíveis até então. Um marco importante é a publicação do dicionário publicado por Capovilla (2001), que exigiu 25 anos de pesquisa antes de sua publicação. Um material didático utilizado frequentemente no cotidiano escolar, o dicionário é usado para diferentes finalidades educativas. O presente projeto preconiza o dicionário Afro-brasileiro Libras-Língua Portuguesa, o primeiro a ser composto por sinais-termo empregados no ensino para educação bilíngue e antirracista. Duas leis servem como referência em direitos linguísticos e educacionais no que tange ao tema. A lei 10.436 que dispõe sobre o reconhecimento da Libras e a lei 10.639 de 9 de janeiro de 2003 que altera a Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996 e estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Ambas as leis embasam a acessibilidade em práticas pedagógicas para o antirracismo e inclusão, como previsto na constituição brasileira.
Palavras-chave: Libras; Dicionário; afro-brasileiro
DÉBORA HENCKLEIN DE CAMPOS
[Lexicologia e Lexicografia]
Brasileirismos de origem indígena: uma análise lexicográfica no Dicionário Houaiss
A presença marcante de palavras de origem indígena no português brasileiro evidencia processos históricos profundos e complexos de contato linguístico que também se refletem, de forma significativa, na tradição lexicográfica nacional. Em dicionários brasileiros, entretanto, a etimologia desses vocábulos frequentemente é apresentada de forma genérica, por meio de classificações amplas e imprecisas, sem especificação das línguas indígenas envolvidas, o que gera uma lacuna significativa no conhecimento etimológico. Tal aspecto suscita discussões aprofundadas acerca dos critérios empregados na construção etimológica dos chamados brasileirismos e sobre possíveis processos de generalização e apagamento da rica e diversa diversidade linguística indígena na lexicografia brasileira. Nesse contexto, este trabalho tem como objetivo principal analisar esse tratamento lexicográfico no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, em comparação com o Dicionário Histórico do Português do Brasil, buscando identificar padrões e diferenças significativas. O corpus da pesquisa será composto por verbetes classificados como brasileirismos e associados a etimologias indígenas, selecionados a partir da presença de marcas etimológicas genéricas, que indicam a falta de especificidade na origem das palavras. A análise observará minuciosamente aspectos como a presença ou ausência de etimologia, a especificação da língua de origem, o grau de detalhamento histórico e o emprego de classificações amplas ou imprecisas, buscando compreender as implicações dessas escolhas. Metodologicamente, a pesquisa fundamenta-se em pressupostos sólidos da Lexicografia, da Historiografia Linguística e da Linguística Histórica, mobilizando discussões relevantes sobre tradição lexicográfica, hierarquização linguística e representação das línguas indígenas em obras de referência, com o objetivo de contribuir para uma compreensão mais ampla e justa. Parte-se da hipótese de que há uma assimetria entre o tratamento etimológico atribuído às línguas indígenas e aquele destinado às línguas europeias, o que produz processos de simplificação e homogeneização linguística nos verbetes analisados, comprometendo a representação das línguas indígenas. Desse modo, espera-se contribuir significativamente para os estudos lexicográficos e para as discussões acerca da representação das línguas indígenas na tradição dicionarística brasileira, promovendo uma maior visibilidade e valorização dessas línguas.
Palavras-chave: Brasileirismo; Etimologia; Lexicografia
DÉRCIO GIDRIÃO COSSA
[Letramento(s)]
Práticas de letramento acadêmico: uma análise das experiências de produção textual de estudantes universitários em Moçambique
Esta pesquisa, recorte de dissertação de mestrado, tem por objetivo descrever e analisar as experiências de produção textual acadêmica dos estudantes do 3º ano do curso de Licenciatura em Ensino de Português, da Universidade Licungo, em Moçambique. Para tanto, ampara-se em duas abordagens teóricas: abordagem sociocultural do letramento Street (2014, 2003); Gee (1991); Barton e Hamilton (2004) e, em especial, do Letramento Acadêmico (Lea; Street, 1998, 2014; Lillis; Scott, 2007); e na perspectiva sócio-histórico-ideológica da linguagem do Círculo (Bakhtin, 2006 [1997]), no que diz respeito a teoria dos gêneros do discurso. Trata-se de uma pesquisa qualitativo-interpretativista, realizada com 18 estudantes matriculados no 3º ano do curso e na universidade supracitados. Para a construção das informações em campo, foram utilizados dois dispositivos: questionários on-line e entrevistas semiestruturadas. Para a análise das informações em campo, elegeu-se a Análise de Conteúdo Categorial (ACC) de Bardin (2016), que possibilitou a criação de duas categorias: a) perspectivas técnico-instrumentais dos estudantes sobre a produção textual na própria trajetória acadêmica; e b) perspectivas críticas dos estudantes sobre as experiências de produção textual durante a própria trajetória acadêmica, a partir das unidades de registro emergidas das respostas aos questionários e das entrevistas realizadas com os participantes. Os resultados da pesquisa evidenciaram que, por meio das experiências de produção textual, os estudantes conseguiram apropriar-se mais de habilidades técnico-instrumentais, como o uso correto dos conectores discursivos, a aplicação de regras gramaticais, de acentuação e de pontuação, além da utilização das normas técnicas da APA e da seleção de fontes confiáveis para a pesquisa, nas bases de dados. Assim, julgamos que esses resultados possam ser importantes para a compreensão da leitura e escrita acadêmica como práticas sociais e situadas, cujo domínio demanda conhecimentos que vão além de habilidades técnicas e instrumentais, sobretudo no contexto acadêmico moçambicano, onde ainda se observam abordagens de modelo de habilidades de estudo e de socialização acadêmica.
Palavras-chave: letramento acadêmico; produção textual; práticas
ELEONORA BAMBOZZI BOTTURA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Afetividade e autoetnografia: emoções na práxis pedagógica em Português Língua de Acolhimento
Nesta comunicação, discuto a relação entre afetividade e autoetnografia a partir de uma prática pedagógica em Português Língua de Acolhimento (PLAc). Parto de um recorte da minha pesquisa de doutorado (BOTTURA, 2019), com enfoque nas emoções e no fazer autoetnográfico desenvolvidos na práxis em PLAc em um curso exclusivo para mulheres migrantes em situação de deslocamento forçado no Brasil. Adoto uma perspectiva sociohistórica das emoções, articulando linguística aplicada crítica, estudos afetivos e narrativa autoetnográfica. No que se refere às emoções, tomo como ponto de partida para a discussão os aportes teóricos de Ahmed (2004, 2010), Benesch (2012), Hochschild (1979) e Zembylas (2002, 2003, 2005); distanciando-me, assim, do viés cognitivo-individualizado das emoções e da perspectiva utilitária que as classifica como positivas ou negativas para o aprendizado. Nesse sentido, o objetivo especi?fico desta comunicac?a?o consiste em apresentar e refletir sobre a articulação entre afetividade e autoetnografia no processo de ensino-aprendizagem de PLAc, por meio do meu fazer/escrever autoetnográfico. Busco evidenciar o percurso emocional-pedagógico, bem como a maneira pela qual as emoções funcionaram como condição epistemológica para a realização da pesquisa — tornando inseparáveis o fazer pedagógico, o fazer investigativo e o fazer autoetnográfico. Com base em narrativas tecidas, diários afetivos e registros da prática pedagógica, busco evidenciar como a autoetnografia não se configurou como uma escolha metodológica dentre outras possíveis, mas como desdobramento epistemológico necessário. Ela emergiu da própria experiência pedagógica, cuja dimensão afetiva reorganiza a práxis e transforma as condições de produção do conhecimento, deslocando a posição da pesquisadora. Nesse sentido, a autoetnografia revela-se como modo de investigar e habitar a relação entre afetividade e fazer autoetnográfico no ensino de PLAc; ela reconhece as emoções não como meras variáveis do processo de ensino-aprendizagem e investigação em PLAc, mas como forças (re)organizadoras da prática pedagógica e condição epistemológica e política da pesquisa. Em síntese, este trabalho contribui para discussões ainda incipientes sobre afetividade no ensino-aprendizagem de PLAc e no ensino de línguas, ao compreender a autoetnografia como desdobramento epistemológico de uma práxis reorientada pela dimensão afetiva. Além disso, aponta para a necessidade de investigações que considerem também as emoções das aprendentes de PLAc como dimensão sociohistórica e constitutiva da prática pedagógica e da produção de conhecimento.
Palavras-chave: afetividade; autoetnografia; português língua de acolhimento
ELIANA MARIA SEVERINO DONAIO RUIZ
[Letramento(s)]
Práticas Colaborativas de Escrita Acadêmica na Formação Docente
Escrever se aprende escrevendo. E escrever em conjunto com os próprios colegas na universidade? Este trabalho toma como objeto de estudo o diálogo constitutivo da prática de escrita colaborativa realizada por estudantes de Letras de uma universidade pública brasileira. A fim de compreender como se configura a interação de futuros professores de língua portuguesa, em contexto de formação, a propósito de uma produção textual acadêmica complexa, esta pesquisa-ação, de caráter interventivo, acompanhou graduandos de quarto ano durante uma disciplina que integra o letramento acadêmico à prática de estágio supervisionado. Com base na perspectiva dialógica de linguagem e tomando como base a categoria analítica tópico discursivo da Linguística Textual, foram analisadas interações remotas dos estudantes durante a produção escrita de um artigo científico centrado no desenvolvimento de um projeto de multiletramentos voltado aos níveis fundamental e médio de ensino. Os resultados revelam que a prática colaborativa e de escrita de estudantes de Letras trabalhadores em turno noturno ocorre de forma assíncrona, via rede social, e mostra-se circunscrita a demandas pessoais dos escreventes, além de moldada por premências acadêmicas e contextuais específicas da tarefa em curso. Os dados apontam para a existência de uma íntima relação entre os tópicos discursivos constitutivos das conversas dos estudantes e os comandos docentes de produção textual, elaborados de forma processual e orientada, como fator gerador dos trabalhos. No diálogo constitutivo da escrita acadêmica colaborativa mediada por tecnologia digital, os registros evidenciam a criação de um espaço virtual de consenso e tomada de decisões coletivas sobre o texto em edição, onde os escreventes negociam formas e sentidos, confrontando opiniões e aprendendo a escrever na esfera acadêmica, em função dos comandos de produção elaborados pela professora. As evidências apontam para a importância da mediação docente no processo de escrita, como fio condutor transformador do trabalho em grupo em uma experiência real de aprendizagem da escrita colaborativa e de letramento acadêmico-científico.
Palavras-chave: Escrita colaborativa; Letramento acadêmico-científico; Formação docente
ELINALDO QUARESMA
[Análise do Discurso]
Travessias da Colonialidade: a “cidade de Deus” x Cidade dos Encantados e a disputa do sagrado no discurso sobre Codó, Maranhão
Este trabalho, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos, insere-se no campo da Análise do Discurso de filiação materialista e investiga os modos pelos quais se produzem, circulam e se estabilizam discursos que significam Codó a partir de duas nomeações em tensão: de um lado, a inscrição “cidade de Deus”, presente no pórtico urbano e vinculada a uma memória cristã hegemônica; de outro, a formulação “Cidade dos Encantados”, que remete à presença histórica do Terecô, da encantaria e das religiosidades afro-brasileiras locais. Parte-se da compreensão de que tais designações não constituem simples nomes, mas efeitos de memória discursiva atravessados pela colonialidade, pelo racismo religioso e pela histórica hierarquização das crenças de matriz africana (ORLANDI, 2015; PÊCHEUX, 2009). A pesquisa também considera a presença histórica de povos africanos trazidos ao Maranhão durante o período escravista, com destaque para os grupos Macua (Makhuwa) e Lomwe (Lomué), oriundos da região correspondente ao atual Moçambique. Estudos indicam que parte desses sujeitos foi deslocada para o vale do Itapecuru no século XIX, contribuindo para a formação cultural e religiosa da região de Codó e para a permanência de traços que ainda hoje se manifestam em práticas como o Terecô e os cultos de encantaria (ALMEIDA, 2004). Objetivo, com isso, analisar a disputa simbólica entre formações discursivas hegemônicas, marcadas pelo cristianismo institucionalizado, e práticas afro-religiosas locais, especialmente aquelas ligadas ao Terecô e à encantaria, observando como a oposição entre “cidade de Deus” e “Cidade dos Encantados” organiza sentidos sobre território, identidade e legitimidade religiosa (FERRETTI, 2007; AHLERT, 2013). O corpus reúne materiais de circulação pública, tais como reportagens digitais, enunciados institucionais, registros urbanos e narrativas sociais sobre a cidade. Metodologicamente, a pesquisa mobiliza as noções de condições de produção, memória discursiva, formação discursiva, silêncio e resistência, conforme Pêcheux (2009), Orlandi (2015) e Courtine (2009). A partir dessas análise trazemos para o debate como a estigmatização de Codó atualiza sentidos coloniais que associam o sagrado africano à ameaça e à desordem, enquanto a memória da “Cidade dos Encantados” produz deslocamentos simbólicos, reinscrevendo pertencimentos e formas de resistência discursiva. Esperamos contribuir para os estudos sobre discurso, religião e racialização, bem como para o enfrentamento do racismo religioso ainda presente na sociedade brasileira (MBEMBE, 2017; SOUSA, 2021).
Palavras-chave: Codó; Terecô; Análise do Discurso; Racismo religio
ELISA ANJU BRITTO ALVES RODRIGUES LARDAPIDE
[Semântica]
Análise em termos de protótipos para a preposição 'sem'
Propomos uma descrição formal para o conteúdo pressuposicional da preposição ‘sem’ do português brasileiro com base nas noções semântico-pragmáticas de protótipo e expectativa. Identificamos ao menos 4 interpretações distintas para a preposição 'sem' no português brasileiro: (i) espacial; (ii) instrumental; (iii) maneira; (iv) constituição. Também identificamos a presença de pressuposições em todas as interpretações de 'sem', que estão relacionadas com a expectativa de que a entidade negada por 'sem' é esperada pelos participantes da conversação de fazerem parte da proposição da sentença. Entendemos que o conteúdo pressuposicional da estrutura ‘sem + x’ pode ser dividido em 3 grupos com base no nível de prototipicidade e necessidade da entidade x em relação ao evento denotado na sentença: prototípico e necessário; prototípico, mas não necessário; nem prototípico ou necessário. Notamos, no entanto, que a estrutura ‘sem + x’ não gera sentenças pragmaticamente anômalas somente quando a entidade x é prototípica, mas não necessária, ao evento denotado na sentença e entendemos que esse comportamento está diretamente relacionado com as expectativas feitas pelos participantes durante a dinâmica conversacional. Para a realização desta empreitada, portanto, valemo-nos do arcabouço teórico-metodológico da Semântica Formal através de um raciocínio hipotético-dedutivo, de testes de contexto linguístico envolvendo o tipo semântico das entidades denotadas pelo complemento sintático de 'sem' e da análise introspectiva com base na intuição de falante nativo do português brasileiro. Desse modo, buscamos desenvolver uma formalização semântica unificada para a preposição ‘sem’ que dê conta de capturar seu comportamento semântico. Além disso, na medida em que todas as interpretações de 'sem' possuem um núcleo semântico em comum, que é a negação de existência da entidade denotada por seu complemento sintático, categorizamos 'sem' como um item anti-comitativo do inventário do português brasileiro, i.e. um item cujo conteúdo semântico consiste na ausência de companhia em diferentes níveis de interpretação.
Palavras-chave: Protótipo; Pressuposição; Semântica
ELISANGELA MATIAS MORAIS DE SOUZA
[Análise do Discurso]
Análise do discurso de uma proposta de alfabetização no documento Currículo da Cidade
Em contextos de discussão de políticas de educação, com a elaboração de documentos que orientam e normatizam o trabalho pedagógico, são produzidas propostas de alfabetização que podem filiar-se a distintas e, por vezes, concorrentes concepções de língua e de linguagem, o que pode ter implicações nas práticas pedagógicas a serem adotadas, ou na orientação e no direcionamento das atividades de ensino. Partindo desse pressuposto, este trabalho tem por objetivo analisar em que medida, e a partir de que operações discursivas, concorrem e se relacionam entre si, nas propostas de alfabetização expressas em documentos norteadores do ensino, diferentes concepções de língua e de linguagem. Para isso, a análise toma como objeto as propostas de alfabetização que se materializam em documentos curriculares, na medida em que essas propostas se constituem, configurando modos específicos de recurso à memória histórica a que respondem em seus processos de constituição. No presente trabalho, observam-se as proposições sobre alfabetização constitutivas do Currículo da Cidade, documento de referência curricular da rede municipal de São Paulo publicado no ano de 2017 e elaborado em resposta à instituição da Base Nacional Comum Curricular. Os dados foram produzidos e analisados segundo princípios teórico-metodológicos da Análise do Discurso de linha francesa, buscando-se identificar, caracterizar e categorizar, no documento que compõe o material de análise, as relações estabelecidas entre os discursos acadêmico, pedagógico e oficial, na produção da proposta de alfabetização observada. Os resultados mostram que concepções concorrentes de alfabetização, filiadas a epistemes distintas, podem ser aproximadas conciliatoriamente no documento analisado em função da atribuição de diferentes materialidades à modalidade escrita, que se alternam em bases teórico-metodológicas distintas conquanto se associem à noção de língua ou à de linguagem. Espera-se que os resultados contribuam para a produção de conhecimentos sobre alfabetização e para a informação das práticas pedagógicas no sentido de se tornarem mais evidentes as concepções de língua e linguagem que subjazem a elas e as orientam. (Apoio: FAPESP 2022/01844-7; CNPq 307622/2022-3)
Palavras-chave: Aquisição da escrita; currículo; análise do discurso
EVA DOS REIS ARAÚJO BARBOSA
[Linguística Aplicada]
Multimodalidade e Ensino de PL2 para Surdos: Proposta de um Quadro para Análise de Materiais Didáticos
Este trabalho tem como objetivo apresentar o “Quadro para Análise Multimodal de Materiais Didáticos de Português como Segunda Língua para Surdos”, o qual contempla: (i) informações técnicas do material analisado; (ii) recursos multimodais, tais como imagens, cores, tipografia e caminho de leitura; (iii) exploração de diferentes tipos de atividades; (iv) trabalho com textos/gêneros textuais; e (v) apresentação de elementos gramaticais. O quadro foi criado a partir de estudos e pesquisa realizadas no âmbito do projeto MultimodalLibras, que faz parte das ações da Iniciação Científica Voluntária (ICV) intitulada “Multimodalidade e materiais didáticos de português para surdos: por um ensino visual”, do curso de Letras-Libras da UFMG. O trabalho é embasado pela Semiótica Social (Hodge; Kress, 1988), pela Multimodalidade (Kress, 2003; 2010; Kres; van Leeuwen, 2001; 2002; 2006; van Leeuwen, 2005; Gualberto, 2016) e pelos estudos sobre o ensino de português como segunda língua (PL2) para surdos (Quadros; 1997; Silva, 2017; Pereira, 2014, entre outros). Metodologicamente, trata-se de uma abordagem qualitativa, de caráter analítico-interpretativo (Gil, 1989; Flick, 2009; Yin, 2016), que se materializa na aplicação do quadro a materiais didáticos selecionados, permitindo uma leitura sistematizada e comparável. Para tanto, além de apresentar o quadro, o artigo também traz um exemplo de análise de materiais didáticos, utilizando os critérios multimodais propostos, de modo a demonstrar sua aplicabilidade, evidenciar potencialidades e limitações dos materiais analisados e ilustrar como diferentes recursos semióticos contribuem para a construção de sentidos por aprendizes surdos. A partir deste trabalho, espera-se contribuir para a área de ensino de PL2 para surdos, oferecendo um instrumento analítico que auxilie professores, pesquisadores e elaboradores de materiais na avaliação crítica e na seleção mais consciente de recursos didáticos. Além disso, o quadro pode subsidiar a produção de materiais mais adequados às especificidades visuais, culturais e linguísticas desse público, favorecendo práticas pedagógicas coerentes com uma perspectiva bilíngue (Libras/Português) e sensíveis à centralidade da visualidade no processo de aprendizagem de estudantes surdos.
Palavras-chave: Materiais Didáticos; Multimodalidade; Português como Segunda Língua para Surdos
FABIANA DE OLIVEIRA RIBEIRO
[Formação de professores]
O nervo inflamado da educação: uma análise discursiva e psicanalítica do burnout docente entre São Paulo e Minas Gerais
Este trabalho é o recorte de duas pesquisas, uma de doutorado e outra de mestrado do grupo de pesquisas Gepalle, na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras – USP de Ribeirão Preto, sobre formação de professores e mal-estar docente. Nosso objetivo é analisar os modos de produção do mal-estar, do estresse e da Síndrome de Burnout na profissão docente, a partir do dizer de professores das redes públicas de Ribeirão Preto (SP) e do Sul de Minas Gerais (MG). O estudo fundamenta-se na Análise de Discurso (AD) de matriz francesa, de filiação pecheuxtiana e orlandiana, em articulação com a Psicanálise freudo-lacaniana. Partimos do pressuposto de que o esgotamento profissional não pode ser compreendido como uma falha adaptativa individual, mas como um sintoma social e um efeito estrutural produzido pelas condições históricas, ideológicas e institucionais do trabalho educacional contemporâneo. O corpus da pesquisa é constituído por recortes discursivos de entrevistas semiestruturadas com docentes que atuam no Ensino Fundamental II e Médio, analisados à luz de conceitos como formação discursiva, memória, interdiscurso e desejo. As análises evidenciam que o dizer docente em ambos os estados é atravessado por contradições entre o ideal pedagógico, associado ao desejo de ensinar e à transmissão do saber e a racionalidade neoliberal, marcada pela performatividade, plataformização do ensino e cobrança incessante de metas. Observamos que o mal-estar se manifesta tanto no plano discursivo quanto no corporal, inscrevendo-se na materialidade do sujeito através de sintomas como taquicardia, hipertensão, L.E.R. e crises de ansiedade, configurando o que se denomina como o "nervo inflamado" da educação brasileira. Os resultados apontam que a precarização do trabalho e o esvaziamento da autonomia docente produzem um "(des)encantamento" que impulsiona o iminente "apagão de professores" no país. Concluímos com a necessidade de dispositivos de escuta e resistência, como a Teoria do Espaço de Formação Discursiva- Reflexiva (TEF-DRED), que possibilitem a passagem da "fala vazia" burocrática para a "fala plena" e autoral do docente. (Apoio: CAPES – Processo 88887.977421/2024-00)
Palavras-chave: Burnout docente; análise de discurso; psicanálise
FANI COSTA DE ABREU
[Aquisição de Linguagem]
Estruturas de posse na interlíngua do surdo aprendiz do português (escrito) como L2
O estudo investiga a estrutura de posse na interlíngua de surdos aprendizes do português brasileiro escrito como L2 e falantes da Língua Brasileira de Sinais como L1, considerando a ocorrência dos pronomes possessivos (de primeira e terceira pessoa) e da estrutura com a preposição genitiva, com nomes relacionais (relações de parentesco). Assumindo a hipótese da Gramática Universal (GU) (Chomsky 1995), o acesso à GU e a interferência da L1, bem como a hipótese DP (Longobardi 1994), verificamos a opcionalidade quanto à presença e ausência de pronomes possessivos, a presença de pronomes pessoais em substituição aos possessivos, a duplicidade de pronomes e a alternância quanto à ordem possuidor-possuído. Considerando Meir et al (2006), em que “a função básica do corpo nas formas verbais em uma língua de sinais é representar o argumento sujeito” e a hipótese DP, quanto ao uso do pronome possessivo na Libras, com nomes relacionais, a 1s se distingue da 2s e 3s, devendo estes ser obrigatoriamente realizados e aquele passível de ser omitido [1s- CARRO/ IX.3s.POSS CARRO ‘meu pai/ carro do pai. Além disso, a posse pode ser realizada pelo pronome pessoal (Alves, 2021), diferentemente do português. A ordem possuído-possuidor pode apresentar o possuidor anteposto ou posposto ao possuído (Chan-Vianna, 2003). Partimos da análise dos dados extraídos do corpus de Santana (2015). Quanto ao uso de pronomes possessivos com nomes relacionais, identificamos os seguintes padrões de interlíngua (em números absolutos): possessivo 1s anteposto ao possuído (21); possessivo nulo associado à 1s e possuído (40); possessivo de 3s posposto ao possuído (1); possessivo associado à 3s anteposto ao possuído (1); pronome pessoal 1s entre dois nomes relacionais (‘mãe eu pai’) (1); e pronome pessoal 3s posposto ao nome (‘pai seu’) (1). Apesar da pequena amostra, os dados apontam para a interferência (positiva ou negativa) da L1 (Elis,1997), bem como a refixação de parâmetros. A ausência predominante do pronome de 1s pode ser interpretada como interferência da L1, visto que, na Libras, a 1s é marcada no corpo do sinalizante. O estudo foi ampliado para investigar as demais pessoas nas estruturas possessivas e o uso da forma genitiva preposicionada, no português brasileiro contemporâneo (Oyama, 2025).
Palavras-chave: pronomes possessivos; nomes relacionais; aquisição de L2
FELIPE ALEIXO
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Ensino de português escrito para surdos migrantes venezuelanos: práticas translíngues em Boa Vista (RR)
Nesta pesquisa, analisamos práticas pedagógicas translíngues desenvolvidas em um curso de português escrito para surdos migrantes venezuelanos, em Boa Vista (RR), no âmbito de um projeto de extensão universitária. Partimos da educação linguística crítica para compreender como a aprendizagem do português escrito acontece em um espaço de fronteira atravessado pela Língua de Sinais Venezuelana (LSV), pela Língua Brasileira de Sinais (Libras), pelo espanhol escrito e pelo português escrito. O referencial teórico fundamenta-se na noção de translanguaging/translinguagem (García; Li Wei, 2014), nas discussões sobre direitos linguísticos (Skutnabb- Kangas, 2000) e em estudos que compreendem a linguagem como prática social situada. Metodologicamente, adotamos uma abordagem qualitativa, com base em observação participante, diários de campo, análise de produções escritas e episódios interacionais registrados em sala de aula. Ao longo da análise, observamos que os estudantes não aprendem o português por substituição de uma língua por outra, mas pela inter-relação do uso de sinais, da escrita, da visualidade, de gestos, da interação social. Nesse processo, a Libras atua como língua de mediação pedagógica, enquanto a LSV permanece como ancoragem identitária e cognitiva dos participantes. O espanhol escrito, por sua vez, aparece como apoio lexical e metalinguístico para o acesso ao português escrito. Os dados evidenciam que o curso constitui um espaço pedagógico híbrido, no qual a aprendizagem emerge da negociação coletiva de sentidos e da valorização dos repertórios linguísticos dos estudantes. Também observamos que o português escrito passa a funcionar como ferramenta de participação social, especialmente em situações relacionadas à documentação, à saúde, ao trabalho, ao acesso a serviços públicos e à circulação cotidiana em território brasileiro. Concluímos que práticas pedagógicas translíngues favorecem a aprendizagem do português escrito e ampliam as condições de inclusão social de surdos migrantes venezuelanos, porque reconhecem suas línguas, seus modos visuais de significação e suas experiências de deslocamento como recursos legítimos de letramento, cidadania e pertencimento.
Palavras-chave: Surdos migrantes.; Ensino de Português escrito.; Línguas de Sinais
FELIPE GUERREIRO DE SOUZA
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
RASTROS LINGUÍSTICO-DISCURSIVOS NA ESCRITA MOVENTE
O objetivo do trabalho é, a partir de uma descrição analítica, de natureza linguístico-discursiva, focalizar rastros linguístico-discursivos do caráter movente da escrita de idosos, à luz da relação constitutiva entre fala/oralidade e escrita/letramento (cf. Corrêa, 2013, 2004). Para tanto, fundamentado no conceito de heterogeneidade da língua e da escrita, o trabalho elege as hipóteses de que os rastros linguísticos, na materialidade da escrita, poderiam se constituir, discursivamente, como rastros de sua heterogeneidade, e de que a circulação dos escreventes por práticas orais e letradas poderia indiciar, na relação fala/escrita, o caráter movente da escrita. Objetiva-se, pois, descrever e analisar textos escritos, a partir da observação de seus funcionamentos linguísticos, relacionados a rastros da heterogeneidade da escrita. Para tanto, a proposta contempla a relação constitutiva entre os fatores linguísticos e as práticas sociais, com o intuito de ponderar a incoerência de separar os processos que envolvem a escrita daqueles que envolvem a fala, e ainda de seus contextos e condições de produção. O universo de investigação constitui-se de 10 textos pertencentes à tradição discursiva (TD) carta, produzidos por idosos, em atividades realizadas no Programa para Educação de Jovens e Adultos – PEJA – UNESP/Assis, e extraídos do Banco de Dados de Escrita Inicial (BDEIn-UNESP – Inicial write database). A metodologia de análise será de natureza qualitativo-quantitativa, com levantamento das frequências token e type (cf. Bybee, 2003) de funcionamentos linguísticos tomados como rastros linguístico-discursivos da heterogeneidade da escrita e, portanto, do caráter movente dessa escrita em sua relação com a fala, enquanto efeito de práticas orais e letradas. Dentre esses funcionamentos, destacam-se, por exemplo, aqueles relacionados a desvios ortográficos, mecanismos de junção, pontuação, concordância e acentuação. Os resultados subsidiam uma discussão teórico-metodológica acerca do conceito de heterogeneidade da escrita, reconhecendo o seu caráter movente, não como “erro”, mas como rastro da circulação do sujeito por seu imaginário sobre a escrita, com o intuito de contribuir, de modo geral, aos estudos linguísticos, por meio do desenvolvimento da abordagem linguístico-discursiva de dados de escrita inicial, e, de modo específico, com os estudos de alfabetização/letramento, com alcance para a alfabetização de jovens e adultos, campo carente de investigação na perspectiva proposta (cf. Oliveira, 2024).
Palavras-chave: Heterogeneidade da Escrita; Tradição Discursiva; Abordagem linguístico-discursiva
FELIPE RODRIGUES DE ARAÚJO
[Gramática Funcional]
Discursivização e mudança construcional: o verbo “chegar” em microconstrução introdutora de discurso relatado
Esta pesquisa tem como objetivo descrever e analisar a microconstrução [[SUJEITO]+ [CHEGARFIN]INTRODUTOR DE DISCURSO RELATADO], como em: “porque tem muito evangélico por exemplo que vai... visitá(r) casa eles chegam... --“ah:: mas Maria num fez isso num fez aquilo” – tal... se eles acham isso tudo bem...” [BDI - AC-023; RO: L. 528-534]. Nesses casos, o verbo “chegar” funciona como marcador discursivo introdutor de fala reportada. Teoricamente, o trabalho fundamenta-se nos Modelos Baseados no Uso e na abordagem construcional da gramática, especialmente em Bybee (2007, 2016), Goldberg (1995) e Traugott e Trousdale (2021), perspectivas que concebem a língua como um inventário de construções convencionalizadas, organizadas em redes. Metodologicamente, recorremos a amostras de fala do interior paulista, pertencentes ao Banco de Dados Iboruna, de responsabilidade do Projeto ALIP — Amostra Linguística do Interior Paulista (Gonçalves, 2007), para o levantamento de ocorrências com o verbo “chegar”. Os constructos encontrados foram analisados a partir dos seguintes critérios: i) frequência token, com 7 ocorrências da microconstrução, correspondente a 0,55% das ocorrências analisadas; ii) frequência type, resultante da apuração do padrão [[SUJEITO]+CHEGARFIN]INTRODUTOR DE DISCURSO RELATADO]; iii) traço semântico do Sujeito, categoricamente [+humano], visto que a construção introduz uma cena de interação verbal; iv) tipo textual, com distribuição em Narrativas de Experiência, Narrativas Recontadas, Relatos de Opinião e Relatos de Procedimento; v) tempo e modo verbal, com ocorrências no presente do indicativo, no pretérito imperfeito do indicativo e no pretérito perfeito do indicativo, indicando maior variabilidade; e vi) funcionamento semântico- pragmático da construção, em que “chegar” deixa de predicar deslocamento físico e passa a atuar como gatilho de introdução de discurso direto (performado). Os resultados indicam que essa microconstrução, embora pouco frequente, representa um estágio de discursivização do verbo “chegar”, uma vez que o sentido de movimento se reconfigura em direção à organização pragmática do discurso. Nesse padrão construcional, o Esquema Imagético de Trajetória permanece como base conceptual, no entanto o Destino deixa de ser um ponto locativo concreto e passa a corresponder a uma cena enunciativa, na qual se instaura um ato de fala reportado e performado.
Palavras-chave: Verbo chegar; Discursivização; Mudança Construcional
FERNANDA DE OLIVEIRA GUIRELLI
[Línguas de Sinais]
Processos neológicos na percepção de pessoas surdas: a dinamicidade da Libras no contexto tecnológico
O presente trabalho investiga os processos neológicos na Língua de Sinais Brasileira (Libras), considerando a percepção de pessoas surdas acerca de sinais vinculados ao campo semântico da tecnologia e comunicação. Parte-se do entendimento de que a Libras, como toda língua natural, encontra-se em constante movimento, sendo atravessada por processos de criação, circulação, variação e mudança lexical. No contexto contemporâneo, a expansão da internet, das redes sociais e dos recursos digitais intensificou as formas de interação entre sujeitos surdos, favorecendo a emergência e a difusão de novos itens lexicais, bem como de sinais associados a esses usos. O objetivo da pesquisa é identificar e descrever processos neológicos na Libras, a partir da percepção de participantes surdos sobre sinais considerados novos ou mais novos em relação a outras variantes. Busca-se, ainda, compreender como esses participantes identificam sinais recentes e quais critérios utilizam ao reconhecerem um sinal como novo ou mais novo, considerando o contexto de circulação digital da Libras. O quadro teórico-metodológico articula estudos sobre neologia e criação lexical, especialmente a partir de descrições já consolidadas na Língua Portuguesa, considerando que o fenômeno neológico atravessa as línguas naturais e encontra, nas línguas orais-auditivas, um campo de descrição mais amplamente sistematizado. Essa fundamentação é colocada em diálogo com a Linguística das Línguas de Sinais, com a sociolinguística da variação e da mudança e com uma concepção bakhtiniana de língua, compreendida como prática histórica, social, ideológica e discursiva. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa e exploratória, realizada por meio de questionário dividido em duas etapas. A primeira é voltada à caracterização sociodemográfica dos participantes, incluindo trajetória linguística, condição de surdez, aquisição da Libras, acesso à tecnologia e formas de comunicação. A segunda etapa destina-se à apresentação e discussão de sinais selecionados da categoria “Tecnologia e Comunicação”. O corpus inclui sinais extraídos de obras lexicográficas da Libras, com destaque para o Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras em Suas Mãos, além de variantes lexicais relacionadas ao mesmo referente. Por se tratar de pesquisa em andamento, a análise concentra-se na construção do percurso teórico-metodológico, com ênfase nos critérios de seleção dos sinais, na organização do instrumento de coleta e na discussão da percepção de usuários surdos como dimensão relevante para o estudo da neologia em Libras, com a expectativa de contribuir para o aprofundamento das discussões sobre a dinamicidade do léxico dessa língua.
Palavras-chave: Neologismo; Língua de Sinais Brasileira; Tecnologia e Comunicação
FERNANDA MELLO DEMAI
[Terminologia e Terminografia]
A Educação Profissional e Tecnológica de Graduação é responsável, no nível superior de ensino brasileiro, pela formação de Graduado(a)s em Tecnologia -Tecnólogos(as) e constitui-se na área-tema deste trabalho. Considerando o perfil do(a) Tecnólogo(a) como o(a) profissional de nível superior que intervém em diversos campos do saber, o objetivo deste trabalho é descrever e analisar aspectos das configurações conceituais e terminológicas do discurso especializado da área-tema, a partir da estruturação de conjunto textual constituído por materiais técnicos, científicos, pedagógicos, legais e institucionais, em uma abordagem terminológica (fundamentação das Teorias Sociocognitiva e Comunicativa da Terminologia). A metodologia adotada prevê o uso de ferramenta informatizada de extração lexical, associada à análise humana. Como etapa preliminar, apresenta-se um rol de competências relativas a IA – Inteligência Artificial -, entendendo-se” competências” como capacidades teórico-práticas de resolver problemas em contexto. Essa listagem de competências, elaboradas a partir do corpus textual, é subsidiária de uma proposta de reestruturação de perfil profissional: 1. Planejar projeto de IA conforme a área de atuação e de acordo com análise de viabilidade 2. Otimizar triagem documental mantendo julgamento humano.3. Construir modelos preditivos simples para interpretação de resultados pertinentes área de atuação.4. Estruturar indicadores e priorizar intervenções baseadas em evidências. 5. Avaliar contextos econômicos, sociais e culturais, com base em evidências, para a tomada de decisões. 6.Utilizar aprendizado de máquina para suportar decisões sociais, econômicas, financeiras e ambientais. 7. Identificar desperdícios e propor ações de eficiência do setor produtivo e de serviços. 8. Realizar diagnóstico e monitoramento de processos, produtos e serviços. 9. Produzir textos técnicos com terminologia adequada. 10. Entregar solução com dados, modelos e evidências para decisão. Depreende-se, em relação à leitura e análise do corpus, que a Inteligência Artificial é um conceito relacionado à uma classe mais abrangente - tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0 e 5.0. Destaca-se que essas competências são pertinentes aos mais diversos eixos e áreas tecnológicas. Como produto, apresenta-se uma proposta de enunciado terminográfico - perfil profissional geral de Cursos Superiores de Tecnologia: <É o(a) profissional que projeta, aplica, otimiza e avalia ações e soluções para demandas e problemas tecnológicos, sociais, culturais e ambientais de diversos campos do saber, de forma colaborativa, comunicativa, criativa e crítica. Interpreta, prevê e avalia contextos. Promove princípios e práticas de empreendedorismo, transformação, integração e inovação de processos, produtos e serviços, em ambiente corporativo e de modo autônomo, em contextos da atual revolução industrial e social do século XXI.>
Objetivo: Este artigo analisa dinâmicas intercorporificadas de estabelecimento, monitoramento e manutenção do engajamento coproficado construído em interações entre uma assistente pedagógica e uma criança autista durante atividades pedagógicas. Métodos: As análises referem-se a um corpus audiovisual de 11h interações em uma sala de educação infantil com 02 educadoras e 18 crianças de 05 anos, dentre quais está Noah. Noah é uma criança autista que se movimenta constantemente pelo espaço, balança suas mãos na altura dos olhos, dá saltos, balança objetos e produz vocalizações. A investigação clínica desses movimentos corporais no autismo integram uma agenda cujo enfoque comum recai sobre sua dimensão individual e sua realidade neurológica- motora. No presente artigo, propomos um olhar analítico sobre tais movimentos corporais que não se centra nas causas neurológico-motoras, mas em como os corpos participam das interações com outros corpos, em distintos contextos e espaços, e quais práticas intercorporificadas de construção de engajamentos corporais emergem daí. Análises: As análises descrevem as práticas de monitorar e construir um engajamento corporal adequado (appropriate involvement, Goffman,1957) da turma antes do início propriamente dito de uma atividade pedagógica e a dinâmica intercorporificada de práticas de suporte entre a assistente pedagógica e Noah. As análises ancoram-se nos estudos interacionais multimodais. Resultados: As análises mostram como um corpo que balança, que pula e que se move atipicamente participa das interações com outros corpos, em distintos contextos e espaços, e quais práticas intercorporificadas de construção de engajamentos corporais emergem ali. Discussão e contribuição: Este artigo sugere três aspectos relevantes na agenda de investigação do corpo no autismo que integram as chamadas estereotipas ou movimentos corporais autistas em uma ecologia sociointeracional que está além da dimensão neurológico-motora e individual desses movimentos: 1) a interpretabilidade das ações corporais, por parte dos participantes, e a construção do engajamento; 2) as práticas intercorporificadas situadas e circunstanciadas mobilizadas para construir o suporte em contextos escolares envolvendo crianças autistas; e, por fim, 3) a construção local e situada de uma normatividade corporal coletivamente compartilhada.
Palavras-chave: Terminologia; Educação Profissional e Tecnológica de Graduação; Indústria 4.0
FERNANDA MIRANDA DA CRUZ
[Neurolinguística]
Dinâmicas intercorporeais na construção do engajamento corporal envolvendo uma criança autista em sala de aula
Objetivo: Este artigo analisa dinâmicas intercorporificadas de estabelecimento, monitoramento e manutenção do engajamento coproficado construído em interações entre uma assistente pedagógica e uma criança autista durante atividades pedagógicas. Métodos: As análises referem-se a um corpus audiovisual de 11h interações em uma sala de educação infantil com 02 educadoras e 18 crianças de 05 anos, dentre quais está Noah. Noah é uma criança autista que se movimenta constantemente pelo espaço, balança suas mãos na altura dos olhos, dá saltos, balança objetos e produz vocalizações. A investigação clínica desses movimentos corporais no autismo integram uma agenda cujo enfoque comum recai sobre sua dimensão individual e sua realidade neurológica- motora. No presente artigo, propomos um olhar analítico sobre tais movimentos corporais que não se centra nas causas neurológico-motoras, mas em como os corpos participam das interações com outros corpos, em distintos contextos e espaços, e quais práticas intercorporificadas de construção de engajamentos corporais emergem daí. Análises: As análises descrevem as práticas de monitorar e construir um engajamento corporal adequado (appropriate involvement, Goffman,1957) da turma antes do início propriamente dito de uma atividade pedagógica e a dinâmica intercorporificada de práticas de suporte entre a assistente pedagógica e Noah. As análises ancoram-se nos estudos interacionais multimodais. Resultados: As análises mostram como um corpo que balança, que pula e que se move atipicamente participa das interações com outros corpos, em distintos contextos e espaços, e quais práticas intercorporificadas de construção de engajamentos corporais emergem ali. Discussão e contribuição: Este artigo sugere três aspectos relevantes na agenda de investigação do corpo no autismo que integram as chamadas estereotipas ou movimentos corporais autistas em uma ecologia sociointeracional que está além da dimensão neurológico-motora e individual desses movimentos: 1) a interpretabilidade das ações corporais, por parte dos participantes, e a construção do engajamento; 2) as práticas intercorporificadas situadas e circunstanciadas mobilizadas para construir o suporte em contextos escolares envolvendo crianças autistas; e, por fim, 3) a construção local e situada de uma normatividade corporal coletivamente compartilhada.
Palavras-chave: autismo; intercorporeidade; interação
FLÁVIO HENRIQUE FERREIRA PINHEIRO
[Línguas Indígenas]
‘Ugu puruut: a narrativa Wajuru sobre a criação do trovão
O povo Wajuru (também denominado Wayoró, Ajuru ou Ayuru) encontra-se atualmente na região centro-sul do estado de Rondônia e é constituído por cerca de 320 pessoas. A língua tradicional desta população, o Wayoro, pertencente à família Tupari, tronco Tupi, e se encontra em situação crítica. Há apenas uma falante fluente e cerca de vinte semifalantes (Nogueira, 2019). Diante desse cenário, o projeto de documentação da língua Wayoro (Nogueira; Galucio; Costa, 2023) tem realizado registro sistemático de narrativas tradicionais e de seu léxico, contribuindo para a salvaguarda linguística e cultural. Este trabalho apresenta a etapa de elaboração de textos transcritos na língua Wayoro e traduzidos em português utilizando o software Eudico Linguistic Annotator (ELAN). A metodologia combinou pesquisa de campo presencial em Porto Velho-RO e anotações linguísticas coletadas de forma remota via WhatsApp, com uso de ligações e áudios para correção de transcrições e traduções, adaptando-se às limitações de letramento e conectividade. O estudo focaliza a narrativa de origem do ‘Ugu puruut ‘trovão’. A análise linguística concentra-se nos tipos sentenciais presentes no texto em Wayoro. Nogueira (2019) propôs os tipos declarativo, interrogativo, imperativo e hortativo para a língua. Dados mais recentes, coletados e analisados durante dois anos de projeto de iniciação científica, revelam a existência de pelo menos outros dois modos: o optativo, expresso pelos alomorfes {-owa ~ -rowa}, e o apreensivo, formado pela construção {-mõ djerega}. A caracterização desses modos segue a tipologia proposta por Aikhenvald (2010). Segundo a autora, a semântica principal do optativo é o desejo de que algo deveria acontecer. Em Wayoro, as construções optativas ocorrem com os alomorfes afixados diretamente à raiz verbal, como em teerowa ‘deixa ela dormir’ ou korowa ‘eles vão beber’. O apreensivo, por outro lado, é um tipo de construção para ‘avisos’, sem que esta seja convertida em proibitiva, apesar da possível conotação negativa. Em Wayoro, as construções apreensivas envolvem o morfema -mõ, ‘instrumental/alativo’, ligadas diretamente à raiz verbal e seguidas pelo morfema djerega. A narrativa analisada possui construções apreensivas, como em embipmo? djerega aote na?m ndekwat erom on ‘não vai ficar com medo de mim porque eu não sou gente mesmo’. A ampliação do inventário de tipos sentenciais contribui para a descrição gramatical de Wayoro e para a compreensão da complexidade funcional de uma língua em situação de perda iminente.
Palavras-chave: Língua Wayoro; Anotação linguística
FÁBIO HENRIQUE DE CARVALHO BERTONHA
[Lexicologia e Lexicografia]
Marcas de uso e seu papel na Lexicografia Especializada
Considerando que a variação linguística é um fenômeno inerente a qualquer idioma, o sentido dicionarizado devidamente marcado em função de sua variação diatecnica, conforme discute Hausmann (1977 apud Welker, 2004), revela-se um instrumento indispensável para guiar a tomada de decisão do tradutor, com o claro intuito de ressaltar que uma determinada unidade lexicográfica (uma ou mais de suas acepções) deve ser empregada em um contexto de uso singular, especializado e restrito. A partir dessa premissa fundamental, o presente estudo tem por objetivo evidenciar as complexas relações existentes entre a Tradução e a Terminologia sob a perspectiva da Lexicografia Especializada, analisando de maneira detida as questões terminológicas que consulentes profissionais – como os tradutores – enfrentam no dia a dia, bem como os recursos mais adequados e eficazes para sanar tais impasses, dentre os quais se destaca a observação atenta às marcas de uso diatécnicas presentes em verbetes. Baseando-nos nos estudos teóricos de Fajardo (1997), Strehler (1998), Garriga Escribano (2003), Welker (2004) e Bevilacqua e Kilian (2017), trouxemos o recorte de nossa pesquisa, abarcando dez pares de lexias ‘aborto / aborto’, ‘abuso / abuso’, ‘culposo / colposo’, ‘feminicídio / femminicio’, ‘herança / eredità’, ‘homicídio / omicidio’, ‘naturalização / naturalizzazione’, ‘reformatório / riformatorio’, ‘reincidente / recidivo’ e ‘vadiagem / vagabondaggio’, respectivamente, encontradas em Houaiss (2026) e De Mauro Internazionale (2026), os quais pertencem à nomenclatura em português do Dicionário Bilíngue de Fraseologismos Jurídicos – DBFJ (PT/IT). Para tanto, a macroestrutura do DBFJ baseou-se em um rigoroso levantamento realizado a partir das marcas de uso do âmbito jurídico, que evidenciam um domínio especializado por meio da linguagem técnica, presentes em unidades lexicográficas extraídas de dicionários monolíngues de referência em português do Brasil – Houaiss (2009) e Aurélio (2010) – e que, posteriormente, foram acrescidos os respectivos equivalentes terminológicos em língua italiana. No DBFJ, a microestrutura dos verbetes foi concebida de modo a conter a definição da entrada em português, seu equivalente em italiano e a devida contextualização nas duas línguas, garantindo maior precisão terminológica. Por fim, enfatizamos que as marcas de uso presentes nas microestruturas de dicionários constituem uma forte aliada ao processo tradutório, razão pela qual apresentamos os diferentes graus de envolvimento terminológico com os quais os tradutores podem se deparar durante a tradução de seus textos técnicos e jurídicos.
Palavras-chave: processo tradutório; microestrutura; marcas de uso
GABRIEL ILÁRIO LOPES
[Linguística Aplicada]
Literatura e ensino de História: interação discursiva sobre autoritarismo no ensino fundamental
Este projeto de pesquisa ação, em andamento, tem como objetivo investigar o uso de obras literárias no ensino de História nos anos finais do Ensino Fundamental. Mais especificamente, a leitura mediada pelo professor de obras que tratem dos temas do autoritarismo e ditaduras para, a partir desta investigação, observar como os estudantes constroem sentido histórico sobre o tema. Esta é uma prática deste professor-pesquisador com suas turmas regulares na educação pública, adotada como uma possibilidade de promover maior envolvimento e sensibilização dos estudantes com relação à temática do autoritarismo. Observa-se que a construção e o fortalecimento da democracia, princípios presentes na Base Nacional Comum Curricular, e assunto de grande destaque no debate público atual necessita de estratégias que vão além do uso dos tradicionais livros didáticos e manuais escolares. Admite-se, também, que a própria existência de autores do nosso tempo que narram histórias sobre o passado autoritário em obras voltadas para o público infantil e adolescente pode ser vista como uma mostra de tal preocupação. É o caso, por exemplo, dos livros Clarice, de Roger Mello e Meu tio chega amanhã, de Sebastián Santana Camargo que narram a experiência das ditaduras pelo ponto de vista das infâncias. Além disso, insere-se como uma prática para desenvolver a leitura no ambiente escolar sem restringir- se às aulas de Língua Portuguesa, colaborando para o desenvolvimento da capacidade interpretativa, argumentativa e o senso crítico dos estudantes. Teoricamente, parte da perspectiva bakhtiniana para analisar as interações discursivas que ocorrem nesse processo. Nesse sentido, propõe o entendimento da tensão discursiva em todas as suas perspectivas: do professor, proponente de atividades e leituras, que estabelece determinados enunciados que apresentam um autor ou uma obra aos estudantes para atender a variedade e as especificidades de sujeitos, e que também os relacionam com o currículo escolar; do autor e sua obra (com suas intencionalidades, objetivos, localizações históricas) com o público leitor; da resposta das crianças leitoras, tanto em diálogo com o próprio autor como com o professor e seus objetivos educativos, construindo sentido histórico individual e coletivo.
Palavras-chave: Leitura; Bakhtin; Interação discursiva
GABRIELA SOUSA LOUZANO
[Fonética e Fonologia]
Focalização prosódica em episódios de podcast: o caso das clivadas
Este trabalho investiga ocorrências de focalização por meio de recursos sintáticos e prosódicos em dados de fala não experimental em Português Brasileiro (PB), utilizando corpus extraído de podcast. Objetiva-se descrever, por meio da análise fonética de áudios selecionados: (i) como essa focalização prosódica coocorre com a focalização sintática em dados de fala não experimental e (ii) categorizar o que particulariza esses casos de coocorrência. Pesquisas sobre focalização prosódica justificam-se por se tratar de um fenômeno de natureza discursivo-pragmática de realce informacional (Gonçalves 1998), sendo parte de estratégias argumentativas que organizam o conteúdo informacional do enunciado. No PB, a focalização pode ser expressa tanto por recursos sintáticos quanto por recursos fonológicos (Gonçalves, 1998). Quanto aos recursos sintáticos, colocamos como estratégia de interesse para pesquisa o caso das sentenças clivadas, por se tratarem de estruturas sintáticas relevantes para marcação de focalização no PB (Callou et al.,1993 apud Gonçalves, 1998; Autor, 2025). Tal investigação também se mostra relevante para suprir lacunas acerca dos estudos da prosódia do PB, ao propor investigação das relações entre as marcas de fraseamento dos enunciados falados relevantes para o processamento linguístico - em contexto de focalização - considerando a premissa de que o fraseamento prosódico tem papel central no processamento cognitivo e linguístico dos enunciados falados (Frazier, Carlson, Clifton, 2006). Partimos da hipótese de que coocorrências de estratégias sintática e prosódica ampliam o conjunto de elementos que contribuem para observar motivações discursivo-pragmática da focalização. Selecionamos enunciados constituídos de sentenças clivadas extraídas de um episódio do podcast “Praia dos Ossos” (Rádio Novelo, 2020), um documentário que tematiza o feminicídio. Após a identificação da estrutura sintática relevante, passamos à análise de eventos tonais segundo o modelo da Fonologia Autossegmental e Métrica (Ladd, 1996) a fim de descrever as características entoacionais do enunciado. Levamos em consideração a descrição sobre foco prosódico no PB feita por Fernandes (2007) segundo o mesmo arcabouço teórico, para embasar nossas análises e interpretação de resultados. Exemplificamos um dado que se caracteriza pela coocorrência da estratégia de clivagem e de focalização prosódica: “Porque foi ela que foi julgada, foi a Ângela que foi julgada”, em que há a focalização por meio de estratégia sintática (“foi X que”), concomitantemente a presença de eventos tonais característicos de foco prosódico no PB (Fernandes, 2007), associados às sílabas proeminentes de “ela” e “Ângela”. Na comunicação, discutiremos esses resultados, características discursivo-pragmáticas, bem como desenvolvimentos analíticos. (Apoio: CAPES - Processo nº 88887.288309/2026-00).
Palavras-chave: clivagem; focalização; prosódia
GABRIELLA CRISTINA VAZ CAMARGO
[Análise do Discurso]
Aspectos históricos e principais desafios sobre as contribuições do pensamento bakhtiniano para o ensino de língua portuguesa no Brasil
O objetivo deste trabalho a ser apresentado como comunicação oral no 71º Seminário do GEL, é elaborar uma reflexão que busque compreender como os estudos bakhtinianos se adentraram ao ensino de língua portuguesa no Brasil, em que momento histórico e político e em que condições de leitura. Para isso, como proposta metodológica, estabelecemos uma relação dialógica entre: a história do Brasil a partir do fim do século XIX; a consolidação do ensino de língua portuguesa no Brasil no século XX; as principais fases da Linguística, especialmente, na Europa, a partir da segunda metade do século XX; a vida e obra de Bakhtin e do Círculo; a chegada dos estudos bakhtinianos no Brasil, a partir dos anos 70, via traduções indiretas; e, por fim, a inserção de conceitos teóricos nos documentos oficiais de educação, a partir do fim dos anos 90. O aporte teórico que sustenta nossa reflexão, parte dos trabalhos de Geraldi (2020), Marcuschi (2008), Faraco (2009), Campos (2016), Rodrigues (2005) e Bezerra (2017) que discutem esta temática há alguns anos, considerando o ensaio de Bakhtin, intitulado “Os gêneros do discurso” (1952-1953), como central na divulgação de seu pensamento na área de ensino de língua portuguesa no Brasil, especialmente, a partir dos anos 90, contribuindo para a formação de uma geração de professores e de estudantes de Letras. Alguns dos resultados dessa investigação obtidos até o momento, mostram que com a abertura política pós-Ditadura Militar, se fez necessária e pertinente uma nova perspectiva de ensino de língua materna no país, uma vez que já havia uma proposta de descentralizar a gramática normativa (Geraldi, 2020) dos currículos escolares. Dessa maneira, a teoria dos gêneros do discurso, de Bakhtin, seus conceitos teóricos e sua visão de linguagem, deram o tom que o momento pedia, marcando, assim, o seu lugar no contexto acadêmico e científico brasileiro.
Palavras-chave: estudos bakhtinianos; ensino de língua portuguesa; documentos pedagógicos oficiais
GEORDAN NEVES DE OLIVEIRA
[Semiótica]
A voz negra como acontecimento semiótico: o percurso gerativo do sentido nos sambas-enredo do Carnaval carioca
Este trabalho propõe uma análise semiótica dos sambas-enredo “A negra voz do amanhã”, da Estação Primeira de Mangueira, em homenagem a Alcione, e do enredo que homenageia Carolina Maria de Jesus, apresentado pela Unidos da Tijuca, que tem como título o próprio nome da escritora, tomando como base teórico- metodológica o percurso gerativo do sentido da semiótica de linha francesa. O objetivo geral da pesquisa consiste em investigar como os sambas-enredo constroem sentidos relacionados à resistência, à memória e à representação da mulher negra brasileira por meio de estruturas narrativas, discursivas e fundamentais. Como objetivos específicos, busca-se: (i) identificar os valores fundamentais que organizam os textos analisados; (ii) descrever os programas narrativos que configuram as figuras de Alcione e Carolina Maria de Jesus como sujeitos de resistência e legitimidade cultural; e (iii) analisar os mecanismos discursivos responsáveis pela construção de efeitos identitários e afetivos nos sambas-enredo. Fundamentado na semiótica greimasiana, o estudo mobiliza os níveis fundamental, narrativo e discursivo do percurso gerativo do sentido para compreender como os textos carnavalescos articulam categorias axiológicas, paixões e estratégias de figurativização na produção de sentidos sobre a mulher negra. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa e interpretativa, centrada na análise textual dos sambas-enredo, observando oposições semânticas, programas narrativos, modalizações e investimentos temáticos e figurativos. A análise evidencia que ambos os sambas constroem trajetórias marcadas pela superação da marginalização e pela afirmação da voz negra feminina como potência cultural, política e simbólica. Enquanto Alcione é figurativizada como símbolo de ancestralidade, resistência e continuidade do samba, Carolina Maria de Jesus é construída como sujeito de denúncia, memória e transformação social. Dessa forma, o estudo contribui para os estudos da linguagem ao demonstrar como o samba-enredo opera como prática discursiva capaz de produzir, preservar e ressignificar imaginários sociais ligados à identidade negra feminina na cultura brasileira contemporânea.
Palavras-chave: Semiótica; Samba-enredo; Afro-brasilidade feminina
GEVVANA CHIARI REIS
[Lingüística Aplicada]
Língua inglesa, mobilidade e internacionalização: discursos do programa “Prontos Pro Mundo”
O presente trabalho tem como objetivo analisar discursivamente as ações de internacionalização promovidas pelo programa “Prontos Pro Mundo”, iniciativa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo voltada ao intercâmbio internacional de estudantes da rede pública estadual. O programa seleciona alunos a partir de critérios como desempenho no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP), frequência escolar, rendimento acadêmico e proficiência em língua inglesa, oferecendo curso intensivo on-line e posterior intercâmbio para países de língua inglesa, como Canadá, Irlanda, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia. A proposta insere-se em um contexto mais amplo de expansão das políticas de internacionalização da educação básica pública brasileira, especialmente aquelas associadas ao ensino da língua inglesa e à formação de sujeitos considerados aptos à circulação global. Inserido no campo da Linguística Aplicada crítica, o estudo busca problematizar os discursos sobre internacionalização, mobilidade social e ensino de língua inglesa presentes nos materiais institucionais do programa. Interessa compreender de que maneira o inglês é construído como instrumento de ascensão social, sucesso acadêmico e preparação para um mercado globalizado, bem como investigar quais sujeitos são legitimados ou excluídos pelos critérios de seleção estabelecidos pela iniciativa. Além disso, pretende-se refletir sobre como determinadas concepções de internacionalização podem reforçar ideologias neoliberais e imaginários associados ao Norte Global, especialmente ao privilegiarem países anglófonos historicamente hegemônicos e determinadas formas de capital linguístico e cultural. O trabalho fundamenta-se teoricamente em discussões da Linguística Aplicada crítica (MOITA LOPES, 2006), das políticas linguísticas e dos estudos sobre inglês como língua global e internacionalização da educação, mobilizando autores como Pennycook (2001), Kumaravadivelu (2006), Rajagopalan (2003), Jordão (2014) e Duboc (2019). Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter documental e discursivo, baseada na análise de editais, textos institucionais, páginas oficiais e materiais de divulgação do programa. Espera-se que a pesquisa contribua para reflexões acerca das relações entre língua inglesa, políticas públicas educacionais e internacionalização na educação básica, discutindo os impactos sociais e ideológicos dessas iniciativas no contexto da escola pública paulista.
Palavras-chave: Internacionalização; Linguística Aplicada crítica; Ensino de língua inglesa
GIO SILVESTRINI NASCIUTTI
[Fonética e Fonologia]
Dublando emoções: a influência da articulação da mandíbula e de padrões respiratórios na fala afetiva
Neste projeto, a fala afetiva será investigada sob uma perspectiva prosódico articulatória. Pretende-se, a partir da atuação de dubladores, explorar correlações entre articulações mandibulares, padrões respiratórios e aspectos acústicos que denotam específicas emoções. Esperamos contribuir com o acúmulo de conhecimento das artes cênicas, e, portanto, auxiliar no aperfeiçoamento de técnicas de atuação e retrato de diferentes experiências emocionais, e na redução de impactos negativos na saúde de profissionais da voz. A compreensão de emoções a partir de características da fala é um fenômeno amplamente estudado, mais especificamente na linguística, por Klaus Scherer, e colegas. Dedicaram-se à avaliação e descrição da correlação de diferentes parâmetros acústicos a afetos específicos (BANSE & SCHERER, 1996; JUSLIN & LAUKKA, 2002), nas quais evidenciaram mudanças na respiração, fonação, e articulação, na construção da emoção na fala (PITTAM & SCHERER, 1993). Além disso, dentro da fonética articulatória, tem-se um avanço na compreensão da relação de padrões respiratórios (ERICKSON, FUJIMURA, & PARDO, 1998; ERICKSON, ZHU, KAWAHARA & SUEMITSU, 2016; e LEE, YILDIRIM, KAZEMZADEH & NARAYANAN, 2005) e da articulação mandibular na fala (ERICKSON & NIEBUHR, 2023; ERICKSON, BARBOSA & SILVEIRA, 2024). A partir desse acúmulo, foram selecionadas cinco afetos para esta investigação, cada um com níveis de ativação alto ou baixo, e um referencial neutro - alegria (felicidade, euforia), raiva (irritação, ódio), medo (preocupação, terror), nojo (desgosto, desprezo), tristeza (desânimo, desespero), e neutro. Ademais, estruturamos a seguinte metodologia: coleta de dados, a partir da gravação de 12 participantes, sendo metade dubladores e a outra de participantes leigos, todos equipados com o dispositivo Marrys e aparelho RespTrack; testes de percepção, com 30 novos participantes que irão interpretar cada uma das atuações, associando-as com uma das emoções de uma lista de adjetivos providenciadas; e análises dos dados, alinhando e comparando cada parâmetro articulatório, respiratório e acústico coletado em uma avaliação estatística de autocorrelação e correlação cruzada, tomando como base a percepção dos juízes da etapa anterior. Espera-se que os dados coletados terão sinais acústicos compatíveis com a literatura existente para cada um dos afetos avaliados, bem como presumimos que os juízes conseguirão, em média, avaliar corretamente as atuações de profissionais da cênicas. Também temos como hipótese que a alta ativação tornará características de cada afeto mais proeminentes, como maior deslocamento e variação da articulação da mandíbula, e maior expansão torácica, além de padrões de movimentação maxilar e respiratória correlacionados aos sinais acústicos específicos para cada um dos afetos. (Apoio: CAPES - Processo 23038.000864/2025-66)
Palavras-chave: Fala afetiva; sinais mandibulares; sinais respiratórios
GIOVANNA ANGELA AGULHA SARTI
[Análise do Discurso]
Urubu-Rei, urubu mau: referenciação e etologia em narrativas populares brasileiras
Conforme dispõe o psicólogo social Jerome Bruner (1991) sobre a “revolução cognitiva” nas ciências humanas, a relação entre a mente e o conhecimento de mundo é passível de investigação sob a perspectiva da narratividade. Enquanto uma das principais estratégias na organização da experiência humana, narrativas são formas convencionais transmitidas culturalmente; mais do que veicular um viés de representação, tal concepção permite encontrar em relatos dos mais diversos – da literatura canônica às anedotas cotidianas –, elementos que configuram uma dada orientação de mundo, de realidade e, até mesmo, de subjetividade. As narrativas são um “instrumento mental de construção de realidade”, que moldam a percepção sobre identidade coletiva e individual, mantêm crenças, regulam comportamentos e sociedades, e, em última instância, intermedeiam qualquer relação intra ou intersubjetiva. Nesse sentido, a modalidade narrativa, quer na ficção, quer na não ficção, desvela uma orientação para como os seres humanos apreendem, tratam, valoram, interagem e constroem o mundo e o outro que nele habita. Sob este viés, a comunicação parte da pesquisa sobre a representação narrativa dos mais radicais dessemelhantes com quem convivem os humanos: os outros animais. Por meio da análise de contos populares e relatos sobre a fauna silvestre brasileira, exploramos as implicações da construção da animalidade sobre a consideração moral dos não humanos. Para tal, além da perspectiva de Bruner, aprofundamos na análise com a proposta de segmentação sobre relatos pessoais de William Labov (1972), e nos detivemos sobre o processo de referenciação tal como elaborado por Lorenza Mondada (2022) e Ingedore Koch (2008). Ademais, buscamos trazer à discussão estudos etológicos sobre a constituição dos entes silvestres que levam destaque nas narrativas, de modo a iluminar sua construção textual. Frente este panorama, o objetivo da comunicação em específico é apresentar uma análise centrada no processo de referenciação dos urubus. Contrapomos duas narrativas populares recolhidas por Marco Haurélio em Contos e Fábulas do Brasil (2021), quais sejam “Urubu-Rei” e “Festa no céu”, com vistas a apresentar visões diferentes sobre este objeto de discurso. Por um lado, encontram-se paralelos entre as representações, conforme atestam escolhas lexicais e progressão referencial dos personagens; por outro, a cada qual é atribuído um papel narrativo diferente, sob uma luz mais positiva ou negativa. Por meio desse recorte, apresentamos os modos divergentes como o urubu é percebido, e passamos a considerações sobre como a construção do objeto de discurso impacta a crença compartilhada acerca destas aves na nossa sociedade.
Palavras-chave: narrativas populares; representação do animal não humano; objetos do discurso
GIOVANNA COELHO DE OLIVEIRA
[Letramento(s)]
A reflexividade da escrita inicial no contexto do P.E.J.A.
Inserido no projeto “Escrita e tradição discursiva no ensino: da delimitação conceitual ao seu papel nos aspectos ocultos do letramento acadêmico” (FAPESP, 2022/02850-0), este trabalho volta-se à escrita produzida no contexto do Programa para Educação de Jovens e Adultos (P.E.J.A. – UNESP/Assis) e tematiza o movimento de retorno do sujeito ao (seu) texto, por meio de marcas deixadas nos espaços de junção. Teoricamente, este estudo fundamenta-se nas contribuições de Authier-Revuz (1998, 2004), mobilizando: (i) a noção de sujeito dividido, de filiação lacaniana, e (ii) a noção de interdiscurso, conforme formulada por Pêcheux (1997). A partir desse quadro teórico, estabelece-se um diálogo crítico com a concepção de heterogeneidade da escrita, proposta por Corrêa (1997). Inscrito, portanto, em um espaço teórico que articula criticamente o paradigma da heterogeneidade, tem-se como objetivo geral descrever e analisar como o movimento de reflexividade da linguagem se marca nos espaços de junção do texto escrito. Especificamente, propõem-se dois objetivos: (i) descrever e analisar tais espaços de junção, no movimento de reflexividade e em sua relação com práticas orais e letradas; e (ii) propor um espaço de observação das marcas linguístico-discursivas da reflexividade da linguagem, considerando a réplica ao outro/Outro. O corpus é composto por 60 textos, inscritos em tradições discursivas (Kabatek, 2005; Lopes-Damasio, 2019, 2022) narrativas, prescritivas e argumentativas, produzidos por mulheres idosas, atravessadas por condições de vulnerabilidade socioeconômica e historicamente marginalizadas no acesso à educação formal, inscritas no contexto do P.E.J.A. – UNESP/Assis. A análise seguirá metodologia quantitativo-qualitativa, orientada por uma perspectiva linguística, de natureza bidimensional (sintático-semântica), associada a uma perspectiva discursiva, a partir da consideração dos espaços de junção como rastros da circulação do escrevente por seu imaginário sobre a (sua) escrita, o outro e si mesmo. Os resultados, embora preliminares, por se tratar de um trabalho ainda em estágio inicial, já dão mostras dos movimentos de reflexividade observados na escrita inicial, especialmente por meio de fenômenos linguístico-discursivos como a correção, a paráfrase e o parêntese, tomados como marcas do retorno do sujeito ao (seu) texto. Espera-se que os resultados contribuam para o debate sobre a relação entre reflexividade e escrita inicial e para o diálogo entre linguística e ensino.
Palavras-chave: Heterogeneidade da escrita; Educação de Jovens e Adultos; Reflexividade da linguagem
GIOVANNA COSTA SILVA
[Semântica]
As fontes da pejoratividade em línguas naturais: uma análise semântico-pragmática
As expressões pejorativas empregadas em situações ofensivas não possuem um mesmo funcionamento. Isso ocorre seja porque a pejoratividade é diversa (Bergen, 2016; Jay, 2018), seja por carregarem diferentes graus de ofensividade (Legroski, 2018; Cepollaro, 2019) ou porque apresentam comportamentos gramaticais distintos (Potts, 2005, 2007; Mccready, 2010; Gutzmann, 2015; 2019). Diante disso, o presente trabalho investiga as estratégias de ofensividade no português brasileiro (PB) contemporâneo, utilizando ferramentas teóricas da semântica e pragmática formais das línguas naturais com base na intuição de falante nativo do interior de São Paulo. Assim, o objetivo principal deste trabalho é propor uma sistematização das estratégias ofensivas das línguas naturais, por meio de duas categorias principais que denominamos como: (i) ofensividade gramatical e (ii) ofensividade ilocucionária. Na ofensividade gramatical, o potencial ofensivo está inscrito no item lexical ou na estrutura gramatical, ou seja, o significado convencional já possui uma carga pejorativa, como em ‘idiota’ ou ‘sapatão’. Quanto à ofensividade ilocucionária, trata-se do uso de determinadas expressões em um contexto específico, uma expressão pode ser considerada ofensiva a depender da situação comunicativa, da intenção do falante e da relação entre os interlocutores. A partir dessa distinção, identificamos diferentes tipos de itens lexicais definidos tanto por propriedades semânticas quanto por seu uso: “injúrias”, “palavrões” e “itens neutros”. As injúrias (‘paraíba’, ‘macaco’) são termos intrinsecamente ofensivos, pois contam com a presença simultânea de ambos os tipos de ofensividade. Por sua vez, os palavrões (‘filho da puta’, ‘caralho’) possuem um comportamento variável e podem não ser ofensivos, tendo funções como intensificadores, marcadores de ênfase ou descarga emocional. Já os itens do léxico considerados neutros (‘secretária’, ‘faxineira’) são mais dependentes tanto do contexto pragmático quanto das intenções ilocucionárias do falante (cf. Austin, 1962; Searle, 1979), termos aparentemente inofensivos podem adquirir valor ofensivo em contextos irônicos ou sarcásticos. O estudo aqui apresentado é um tema ainda pouco explorado, que mobiliza conceitos das teorias semânticas e pragmáticas atuais, cujos resultados são tanto analíticos quanto teóricos, contribuindo para uma sistematização das estratégias linguísticas e interacionais de pejoratividade no português brasileiro contemporâneo. (Apoio: FAPESP - Processo 2024/04237-0)
Palavras-chave: pejorativos; semântica; pragmática
GIULIA RODRIGUES DA SILVA
[Linguística Computacional]
Características linguísticas em jornais populares e tradicionais: uma análise computacional
Este trabalho pretende analisar diferenças e semelhanças linguísticas existentes entre notícias publicadas por jornais populares e jornais tradicionais a partir do uso de técnicas de Processamento de Linguagem Natural (PLN). Compreende-se que os veículos populares são aqueles destinados às classes de menor renda, enquanto os tradicionais são os produzidos para o público de maior poder aquisitivo (Pedroso, 2001). Para além das diferenças socioeconômicas, tais segmentos distinguem-se também quanto à credibilidade, pois as mídias populares são frequentemente associadas ao uso recorrente de sensacionalismo (Angrimani, 1995; Pedroso, 2001). Apesar de ser visto como algo pejorativo, o sensacionalismo é, por vezes, tratado na literatura das ciências da comunicação como um gênero textual, podendo estar presente em diversos tipos de veículos. Dessa forma, é possível observar aspectos linguísticos característicos deste estilo, como textos mais breves, o emprego de formas que não seguem a norma-padrão e a busca por temas polêmicos. Os objetivos principais deste trabalho são: (i) verificar em que medida modelos de classificação automática são capazes de capturar padrões linguísticos e distinguir notícias de acordo com o veículo de origem; e (ii) identificar a ocorrência e a frequência de características associadas ao sensacionalismo nesse conjunto de textos. Para realizar a análise, foi constituído um corpus com notícias publicadas em versões on-line de quatro jornais: Meia Hora, Extra (classificados como populares), O Globo e Folha de S. Paulo (classificados como tradicionais). A seleção dos veículos baseou-se em estudos prévios (Amaral, 2003; Chagas, 2017) e em informações disponibilizadas pelos próprios veículos. No que se refere aos procedimentos metodológicos, foram extraídas métricas linguísticas e a proporção de formas não padrão das notícias, e os textos foram classificados por meio de aprendizado supervisionado de máquina tendo como base a frequência de vocabulário. Foram conduzidos dois experimentos de classificação: binário, com o objetivo de distinguir entre jornais populares e tradicionais; e multiclasse, a fim de identificar o veículo específico de origem da publicação. O modelo empregado foi o Multinomial Naive Bayes. Os resultados parciais indicam que as diferenças linguísticas entre os dois grupos de jornais podem ser identificadas por classificadores automáticos. Contudo, o modelo com melhor desempenho atingiu acurácia de 0,76, o que sugere uma separação moderada entre as classes. Por fim, a análise isolada das características associadas ao sensacionalismo mostrou que o jornal Meia Hora apresenta maior proporção de formas não padrão, bem como textos mais curtos.
Palavras-chave: Linguística Computacional; sensacionalismo; classificação
GUSTAVO ADAMI CORRÊA
[Análise do Discurso]
Polêmica discursiva sobre masculinidade no Youtube e Instagram.
O tema da masculinidade tem circulado intensamente nas redes sociais nos últimos anos, mobilizando homens e mulheres a discutir novas e velhas formas de ser homem na contemporaneidade. Em plataformas digitais, como o Youtube e o Instagram, há muito conteúdo (pago e gratuito) que oferece dicas, conselhos, fórmulas e receitas para os homens, sobretudo no que tange às maneiras “corretas” de se pensar e de agir em relação às mulheres. Nesse sentido, o presente trabalho (ainda em desenvolvimento) objetiva contribuir para os estudos discursivos que versam sobre gênero e masculinidade, investigando dois discursos, denominados aqui como “Red Pill” e “Masculinidade desconstruída”, que divergem diametralmente no que elegem (em termos de características corporais, comportamentais e psicológicas) como a “melhor” ou a “verdadeira” masculinidade. O discurso “Red Pill”, que tem ganhado notoriedade nos noticiários pelo seu teor machista e misógino, apresenta uma visão de masculinidade fundamentada na ideia de “homem de valor”, resgatando ideais passados de racionalidade, de virilidade e de competitividade masculinas. Por outro lado, o discurso da “masculinidade desconstruída” fundamenta sua visão de masculinidade nos ideias de sensibilidade, de respeito às mulheres e de laços para “desconstruir” uma masculinidade entendida como hegemônica e construir outra em seu lugar, tomada como “sadia”. Hipotetiza-se que esses dois discursos configuram-se como dois posicionamentos dentro de um mesmo espaço discursivo, cujo relacionamento pode ser compreendido em termos de uma polêmica discursiva (Maingueneau, 2008). Segundo Maingueneau (2008), a polêmica discursiva prescreve um modo particular de funcionamento dos discursos, baseado, em grande medida, em uma interincompreensão generalizada que dita as possibilidades de trocas enunciativas entre os discursos. Assim, esta pesquisa — desenvolvida dentro do quadro teórico-metodológico da Análise do Discurso de Linha Francesa — mobiliza os conceitos de polêmica discursiva, cenografia e ethos, propostos por Maingueneau (2008, 2017, 2020) e de materialidades tecnolinguageiras, por Paveau (2022), para descrever e analisar perfis do Instagram e canais do Youtube que difundem tais discursos. São convocadas também teorias auxiliares, tal como os estudos de gênero (Butler, 2021) e da sociologia (Bauman, 2007), entre outras, para investigar as condições de produção desses discursos, que refletem o modo como nossa sociedade tem lidado com o tema da masculinidade.
Palavras-chave: Masculinidade; Polêmica Discursiva; Análise do Discurso
GUSTAVO BONIL DA SILVA
[Linguagem e novas tecnologias]
O Nome como (Im)possibilidade: Efeitos de Sentido e Racismo Algorítmico em textos sintéticos gerados por Grandes Modelos de Linguagem
Este trabalho apresenta resultados parciais de um projeto de pesquisa na área de processamento de linguagem natural no qual enfocamos o tema das identidades interseccionadas de raça e gênero, tal como aparecem em textos gerados por Modelo de Linguagem de Larga Escala (MLLE). Fundamentada na Linguística Aplicada Indisciplinar (Moita Lopes, 2006) e na Análise de Discurso de matriz materialista (Pêcheux, 2006), a pesquisa trata da análise dos vieses em dados de saída desses modelos, isto é, analisamos a temática tal ela aparece em textos sintéticos, gerados pelo modelo LLaMA 3.2-3B, a partir de nossos prompts, em que solicitamos a geração de contos que têm como protagonistas mulheres brancas e negras. O corpus total do projeto é constituído por 2.100 textos, que foram manual e automaticamente analisados na primeira etapa do projeto, na qual identificamos a estereotipação e a repetição de alguns nomes para as protagonistas. Nesta segunda etapa, partimos de achados anteriores que demonstram que os modelos diferenciam narrativas conforme categorias identitárias e significam nomes específicos a determinados corpos. Para isso, debruçamo-nos sobre uma fatia desse corpus principal, composta por 50 contos, separados para uma investigação justamente sobre a questão específica dos nomes próprios das personagens dos contos. Como objetivo central, neste recorte, verificamos, por meio de uma análise discursiva manual, se o nome próprio foi determinante para a geração das características das personagens. O questionamento central reside em compreender se a atribuição de um mesmo nome próprio pelo modelo, quando alternada entre personagens negras e brancas via prompt, desloca o horizonte de possibilidades narrativas. A metodologia utilizada foi a identificação de Ressonâncias Discursivas para destacar Sequências Discursivas e elaborar Sequências Discursivas de Referência (Serrani-Infante, 1998). Teoricamente, articulamos a compreensão do algoritmo como materialidade discursiva (Hashiguti e Fagundes, 2023) às discussões sobre racismo algorítmico (Benjamin, 2019; Silva, 2022; Araújo, 2025), visto não como falha, mas como traço intrínseco de sistemas coloniais. Os resultados parciais indicam que as combinações lexicais do modelo não são neutras; o nome próprio opera uma marcação ideológica que orienta discursos de opressão e limita a subjetividade de personagens negras, reforçando a urgência de uma ética crítica no desenvolvimento de IAs.
Palavras-chave: Linguística Aplicada; Discurso; Racismo Algorítmico
HELOISA HELENA DE ALMEIDA
[Linguística Aplicada]
Francês para Objetivo Universitário na área das Engenharias: formação linguístico-intercultural para a mobilidade acadêmica em cursos da Rede Andifes IsF-Francês
A área das Engenharias é uma das mais representativas no âmbito da mobilidade acadêmica entre Instituições de Ensino Superior (IES) do Brasil e da França. No contexto da Rede Andifes-IsF-Francês, tal representatividade se materializa no oferecimento de módulos de ensino voltados à preparação de estudantes de engenharia para sua inserção no meio universitário francês. Nesta comunicação, apresentamos resultados parciais da análise documental qualitativa empreendida no catálogo de cursos ofertados pela Rede-Andifes-IsF- Francês. Diante das iniciativas da Rede Andifes-IsF-Francês, alguns questionamentos se apresentam: Quais programas voltados à área das Engenharias figuram, atualmente, no catálogo do IsF-Francês? Qual trilha formativa poderia ser estabelecida a partir dos programas existentes de modo a viabilizar o alcance do nível B2 de proficiência por parte dos discentes? Quais outros programas poderiam ser incorporados ao catálogo de cursos com vistas a responder às demandas linguístico-interculturais dos discentes? À luz dos princípios metodológicos do Francês para Objetivo Universitário - FOU (Mangiante; Parpette, 2004, 2011), parte desses questionamentos só podem ser respondidos a partir da identificação do perfil dos discentes, de suas necessidades enquanto graduandos e aprendizes de Francês Língua Estrangeira (FLE) e do levantamento das situações de comunicação nas quais serão inseridos. Para respondê-los, servimo-nos de trabalhos existentes na literatura para mapear o perfil tipo desse estudante em preparação para mobilidade, suas necessidades e as situações de comunicação alvo (Carras et al, 2014; Albuquerque-Costa, 2015; Medeiros, 2023). Esse mapeamento norteou i. a identificação dos programas existentes voltados, ou potencialmente, voltados à área das Engenharias; ii. as análises das ementas, dos conteúdos programáticos e dos níveis de proficiência sugeridos; iii. o levantamento de propostas de material pedagógico e de didatização disponibilizadas na rede. As análises apontaram para uma centralidade lexical que, descontextualizada, não fomenta o (inter) agir nas situações de comunicação alvo, além de uma ausência de relação formativa entre os programas de curso disponíveis que, em certa medida, não viabiliza a construção da proficiência linguística necessária à mobilidade acadêmica. As contribuições deste trabalho estão associadas às especificidades da Rede Andifes-IsF-Francês que, em nível nacional, busca responder a demandas por formação em língua estrangeira oriundas dos processos de internacionalização do ensino superior brasileiro e se inserem no debate concernente à formação inicial e continuada de professores de FLE, principalmente no tocante ao campo do FOU, área que focaliza o ensino-aprendizagem de línguas para propósitos específicos incipiente, ou mesmo ausente, nas formações em Letras no Brasil.
Palavras-chave: Mobilidade acadêmica; Francês para Objetivo Universitário - Engenharia; Rede Andifes IsF- Francês
HÉLIO RODRIGUES JÚNIOR
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
A ORGANIZAÇÃO DO GUIA DO CURRÍCULO PRIORIZADO DE LÍNGUA PORTUGUESA DO 6º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL DA SEDUC/SP E A PROMOÇÃO DA EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA SOB A PERSPECTIVA DA JUSTIÇA CURRICULAR
O presente trabalho analisa a organização do Guia do Currículo Priorizado de Língua Portuguesa do 6º ano do Ensino Fundamental da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC/SP), focalizando suas implicações para a promoção da Educação Linguística sob a perspectiva da justiça curricular. Parte-se do pressuposto de que as políticas curriculares constituem dispositivos de seleção, organização e distribuição do conhecimento escolar, incidindo diretamente sobre as possibilidades de acesso dos estudantes às práticas sociais de linguagem e aos letramentos legitimados pela escola. Nessa direção, a pesquisa problematiza de que maneira o Guia do Currículo Priorizado de Língua Portuguesa reorganiza as Aprendizagens Essenciais (AEs) e estrutura percursos pedagógicos orientados pelos diferentes níveis de proficiência dos estudantes em favor de uma justiça curricular no âmbito da Educação Linguística? O objetivo geral da pesquisa consiste em compreender como a organização do Guia do Currículo Priorizado articula Educação Linguística, Aprendizagens Essenciais e níveis de proficiência no ensino de Língua Portuguesa do 6º ano do Ensino Fundamental. Como objetivos específicos, pretende-se: a) estudar a estrutura curricular das AEs e sua relação com os níveis de proficiência estabelecidos pela SEDUC/SP; b) investigar de que modo o Guia orienta práticas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento da competência comunicativa; e c) discutir os limites e potencialidades do documento curricular para a efetivação da justiça curricular na escola pública paulista. A investigação possui abordagem qualitativa, de natureza documental e analítico-interpretativa, tendo como corpus o próprio Guia e registros de práticas pedagógicas desenvolvidas em escolas públicas paulistas. O quadro teórico fundamenta-se nos estudos da Educação Linguística, do currículo e das teorias críticas da linguagem, mobilizando autores como Antunes, Bakhtin, Dell Hymes, Koch, Roxane Rojo, Magda Soares, Michael Apple, Sacristán e Travaglia. As análises parciais indicam que o Guia desloca o ensino de Língua Portuguesa de abordagens normativas para perspectivas centradas nas práticas sociais de linguagem e na ampliação da competência comunicativa dos estudantes, embora também revele tensionamentos relacionados à padronização curricular e aos desafios de efetivação da justiça curricular.
Palavras-chave: Educação Linguística; Justiça curricular; Currícul
INÊS ETULAIN
[Sociolinguística e Dialetologia]
Estilo Radical: Uma análise dos estilos sociolinguísticos de autoras do blog QG Feminista
Este trabalho propôs-se a dar continuidade à pesquisa de monografia que fiz com o intuito de direcionar um olhar sociolinguístico à produção textual do blog QG Feminista, para revelar a movimentação de mulheres envolvidas com o campo do feminismo radical no Brasil. O trabalho volta-se para a noção de estilo, baseado nos estudos estilísticos de Irvine (2001) e Coupland (2003, 2007). Considera-se estilo uma manipulação de recursos linguísticos e multissemióticos que produzem uma persona que destaca-se dentre as produções de um meio. Assim, o autor, selecionando determinadas variantes, fazendo escolhas lexicais, marcando ou não a interlocução, entre outros recursos, produz uma identidade estilística que se diferencia dos demais em determinado ambiente discursivo. Após a observação e análise das personas de uma das autoras do blog, Furiosa, este trabalho propôs expandir a observação para dois outros perfis do mesmo blog: Cila Santos e Aline Rossi. O objetivo geral era analisar a elaboração dos estilos dessas três autoras, compreendendo os gêneros do discurso como um recurso fundamental para a construção desses estilos. Para tal, observei e tabulei toda a produção textual publicada no blog durante sua atividade (2017 a 2023). Postulei as seguintes questões: Quais personas são projetadas por Cila Santos e Aline Rossi em seus processos de estilização?; As personas identificados na produção de Furiosa também são projetados pelas outras autoras?; Cada perfil é plural em suas construções de personas? Com base nisso, hipotetizei que, para corresponder aos diversos objetivos do site para o qual escrevem, as autoras lançam mão de recursos estilísticos para projetarem personas distintas como forma de se destacarem nas produções do blog. Supus também que personas semelhantes seriam encontradas nas produções das autoras, mas que cada uma delas transitava entre um conjunto de personas diferente. Por fim, analisei os textos de cada autora e os categorizei quanto a suas personas, o que serviu como maneira de compreender o trabalho linguístico-discursivo das feministas radicais na divulgação de seu movimento e no recrutamento de apoiadores(as).
Palavras-chave: feminismo radical; persona; estilo
IRANI RODRIGUES MALDONADE
[Aquisição de Linguagem]
Sobre o processo de segmentação na fala e na escrita durante a aquisição da linguagem
Desde o início, a proposta interacionista desenvolvida por De Lemos (1982 a 2002) enfrenta a necessidade de mostrar como a criança se encontra submetida à língua, em instâncias que possibilitam sua constituição como sujeito falante. Tal proposta teórica sempre recusou a análise da fala da criança como instanciações de categorias prontas oferecidas pela descrição linguística. Ao deixar de tomar os enunciados da criança como evidência de conhecimento categorial da língua, o diálogo foi tomado como unidade de análise e, à interação, foi conferida um estatuto teórico. Desse modo, a saída para descrever a fala da criança tem sido oferecida pelo quadro estruturalista, em que o sujeito e a língua/linguagem estão sempre implicados num estado de língua. Nesse quadro teórico o erro tem sido considerado como dado privilegiado para análise, ou mesmo um processo original de constituição de significação pela criança, muitas vezes sem paralelo com a língua adulta. Desta forma, o objetivo deste trabalho foi refletir sobre o processo de segmentação das unidades linguísticas na fala e na escrita feitas por duas crianças durante o processo de aquisição da linguagem. Com o intuito de melhor demonstrar os diferentes processos de segmentação, buscou-se ainda indagar em qual medida seria possível aproximar as segmentações que acontecem na fala às da escrita. Para tanto, dados que subsidiaram trabalhos anteriores foram revisitados. Os resultados obtidos demonstraram que, não se pode predizer quais serão as relações que aparecerão na fala da criança, e quais serão as cadeias sonoras que servirão para ancorar as futuras combinações linguísticas. Elas não são fixas. Já nas segmentações da escrita, verificou-se o papel fundamental da experiência da criança com a língua falada, através da qual ela se guia na tentativa de descoberta de um padrão de funcionamento do sistema linguístico. As segmentações que acontecem na fala e na escrita durante o processo de aquisição da linguagem não devem ser vistas como desvios de um padrão da língua, mas como as marcas subjetivas do trabalho ativo da criança na sua relação com a língua(gem).
Palavras-chave: segmentação; aquisição da linguagem; criança
ISABELA BEZERRA GEMMA
[Sociolinguística e Dialetologia]
“Oi, gente, cheguei para mais um Picolé de Limão!”: uma análise multimodal de narrativa e de construção estilística da podcaster Deia Freitas, do Não Inviabilize
Esta comunicação tem como foco propor uma análise descritiva sociolinguística multimodal da construção estilística de Deia Freitas na narração de histórias do podcast Não Inviabilize, com foco em episódios do quadro Picolé de Limão, o qual se destaca pela recorrência de narrativas do cotidiano, envolvendo conflitos familiares e de relacionamentos, entre outras situações de violência simbólica. Conhecida pelos bordões “Oi, gente, cheguei”; “Pra mim, é não” e “Vamos lá, vamos de história”, Deia Freitas é uma roteirista, escritora, contadora de histórias e dona do podcast Não Inviabilize, que se insere na categoria de contação de histórias de vida real dos ouvintes, misturadas às próprias histórias pessoais da narradora. Tendo seu início em 2020 inicialmente em formato de texto no Twitter (atual X), conta com mais de 1210 episódios postados em diversas plataformas de áudio, mais de 200 histórias reservadas para o aplicativo de mesmo nome exclusivo para assinantes, contendo 20 quadros diferentes (sendo nove exclusivos para membros), e por volta de mais de 408 milhões de reproduções no Spotify, chegou a ficar em 12º lugar no ranking mundial de podcasts mais ouvidos, sendo o único brasileiro (CNN Brasil, 2026). O trabalho fundamenta-se na Terceira Onda da Sociolinguística (Eckert, 2012), especialmente nos estudos sobre estilo, indexicalidade e construção de identidades sociais (Coupland, 2007; Kiesling, 2009; Kiesling, 2013), articulando-os a pesquisas sobre narrativa e multimodalidade (Bentes, 2008; Dionísio; Bentes, 2008) e à Sociolinguística Interacional (Goffman, 1981; Gumperz, 1982). Busca-se, a partir do aparato teórico, investigar como a narradora mobiliza diferentes recursos estilísticos e multissemióticos na construção das narrativas e da produção de efeitos de humor, tensão, dramaticidade e reviravoltas envolventes. O corpus será composto por uma série de episódios públicos do quadro Picolé de Limão, selecionados com base em recorrências temáticas e estruturais, especialmente em narrativas relacionadas a conflitos interpessoais e a experiências de violência simbólica contra mulheres. O enfoque nessa temática se justifica pela capacidade da podcaster de controle de experiências pessoais contadas em primeira pessoa serem narradas em terceira pessoa e captarem a atenção da audiência. A análise terá caráter qualitativo e exploratório, considerando tanto a organização narrativa quanto os recursos multimodais presentes na fala da podcaster, a fim de compreender como a construção estilística da narradora configura uma forma específica de contar histórias em um ambiente digital, configurando seu estilo pessoal próprio e criando vínculo com o público ouvinte.
Palavras-chave: variação estilística; multimodalidade; podcast
ISABELA ROSCONI
[Fonética e Fonologia]
Focalização prosódica no português brasileiro: gama tonal e fraseamento etnoacional em podcast acadêmico
O presente trabalho enquadra-se no arcabouço teórico da Fonologia Etnoacional e da Fonologia Prosódica e propõe-se a analisar características etnoacionais da focalização prosódica encontradas em áudios de podcast produzidos por licenciandos em Letras de duas universidades brasileiras em contexto de intercâmbio virtual. Objetiva-se caracterizar: (i) a gama tonal, do ponto de vista fonético e fonológico, e (ii) o fraseamento etnoacional em casos de focalização prosódica do material selecionado. A focalização é uma estratégia argumentativa cuja função é marcar informação nova e/ou identificar entidades relevantes de um enunciado. A focalização prosódica, mais especificamente, refere-se ao uso de diferentes estratégias de natureza prosódica para a marcação do foco, como fraseamento prosódico e modificações na gama tonal. A gama tonal corresponde ao intervalo entre os valores máximo e mínimo da frequência fundamental (F0) em um enunciado, sendo comprimida e/ou expandida para expressar foco em diferentes línguas do mundo, por exemplo: holandês, japonês, inglês, catalão, romeno, português europeu e brasileiro. Os dados analisados foram extraídos considerando-se o roteiro e a gravação de um episódio de podcast que versa sobre o ensino de produção de texto em nível básico. Esse episódio proporcionou que suas locutoras assumissem papéis de docentes que ensinam a ouvintes aprendizes, resultando em áudios com características menos experimentais. A análise fonética dos áudios selecionados permite identificar uma expansão da gama tonal local nas sílabas pretônica e tônica do elemento focalizado, seguida de uma compressão global que se estende por todo material pós-focal. Do ponto de vista fonológico, os acentos bitonais de foco são alinhados a duas sílabas: a tônica do item focalizado e a anterior adjacente. Argumentamos, a partir da análise da frequência fundamental que se caracteriza por alterações na gama tonal, a favor da interpretação de que o fraseamento dos enunciados focalizados leva à configuração de dois sintagmas intermediários (ip). Essa interpretação é baseada no comportamento do intervalo da F0 na palavra focalizada e posterior a ela, o qual fornece pistas de uma variação da gama tonal característica da fronteira de unidades etnoacionais como o ip. Esta pesquisa contribui para a descrição da prosódia do português brasileiro, notadamente no que tange o fenômeno da focalização em dados de fala não experimental. Em adição, pode-se observar como a gama tonal foi modificada por professores em formação inicial para realçar informações importantes, quando incentivados a desempenhar um papel de docente que produz podcast para fins educativos. (Apoio: CNPq - Processo 130351/2026-1)
Palavras-chave: focalização prosódica; gama tonal; fraseamento etnoacional
ISABELA SOUSA MADEIRO
[Sociolinguística e Dialetologia]
Análise prosódica do “mooquês”: características e heranças.
A variação linguística falada no bairro da Mooca em São Paulo, conhecida como “mooquês”, foi proposta em 2011 como patrimônio imaterial ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpress), relacionada à imigração italiana. Também em 2011, a TV Folha produziu A língua da Mooca, um registro em vídeo que aborda a possibilidade do “mooquês” virar patrimônio da cidade e entrevista moradores do bairro da Mooca, para mostrar ao telespectador como soa o “mooquês”. No vídeo, um dos moradores do bairro caracteriza a variação por um “falar cantado”, em outros termos, por sua prosódia. A fim de buscar características do que pode ser compreendido por “prosódia do mooquês”, foram analisados o tom e a duração das vogais /o/ e /a/ em posição tônica do “mooquês” retirados do material A língua da Mooca, com a hipótese de que a vogal tônica causaria essa impressão de canto no “mooquês”. E para observar se tais características se tratam, ou não, de herança italiana, foram analisados também o tom e a duração do /o/ e /a/ em posição tônica do português paulistano, retirados do telejornal SPTV da TV Globo, e do italiano da região do Vêneto, retirados do telejornal TGR Veneto da RAI TV. Como base teórica para o contexto histórico, utilizou-se Salvatore Pisani (1937) com dados dos 50 primeiros anos da imigração italiana em São Paulo e dados de Tullio de Mauro (1991 [1963]) sobre a Unificação Italiana. Para contextualizar a influência da língua italiana na fala paulistana, foi usado o artigo de Scabin e Maggio (2020), que discute sobre o dialeto italo- paulistano. Sobre a prosódia, foram utilizadas as definições de Tommaso Raso (2022) e de Ann Wennerstrom (2001). Foram coletadas 57 amostras do /o/ e 57 do /a/ em posição tônica, totalizando 114 amostras, 38 de cada variação linguística (“mooquês”, português paulistano e italiano vêneto). Após serem analisadas acusticamente no software PRAAT, verificou-se, através do teste ANOVA, que a duração do /o/ tônico não é significativamente diferente entre as três variações, enquanto a duração da vogal /a/ tônica diverge entre a variação paulistana e a vêneta. Também foi possível observar que o tom do /a/ não difere muito entre as três variações, sendo majoritariamente constante, porém, na vogal /o/, o tom ascendente ocorre mais expressivamente no “mooquês” em relação às demais variações, podendo ser considerado uma característica prosódica relevante.
Palavras-chave: “mooquês”; prosódia; contato linguístico
ISABELLE DA SILVA ARAÚJO
[Formação de professores]
Crenças na formação de professores de língua inglesa à luz da teoria crítico-reflexiva
Este trabalho teve como objetivo geral investigar as crenças de alunos do curso de letras – língua inglesa, sobre a formação de professores de inglês como Língua Estrangeira. E como objetivos específicos, depreender as crenças relacionadas à formação que vivenciam na graduação, baseada na teoria crítico-reflexiva, e mais especificamente confrontar as crenças de turmas diferenciadas, relacionadas à essa formação após o primeiro e o quarto período do curso de letras. O referencial teórico abordou questões sobre crenças, fundamentadas em Barcelos (2025; 2026), Celani (1992), Colombo-Gomos (2026) e sobre formação de professores à luz da teoria crítico-reflexiva com base em Freire (1996), Liberali (2025), Vieira-Abrahão (2021), entre outros. Esta pesquisa se baseou na abordagem qualitativa (CELANI, 2005), utilizando o estudo de caso (FONSECA, 2002) como metodologia. O contexto da realização da pesquisa foi o Curso de Letras – Língua e Literatura Inglesa de uma Instituição de Ensino Superior, tendo como participantes oito alunos que cursaram as disciplinas Prática Curricular I, II, III e IV. Os instrumentos de geração de dados selecionados para a pesquisa foram Questionário de Perfil e Investigativo e Autobiografia. Quanto aos procedimentos de análise foi adotada a análise de conteúdo baseada em Bardin (2011). A análise dos dados revelou que as crenças dos futuros professores são variadas. Algumas estão ligadas à motivação, seja para aprender ou para ensinar, com vistas à carreira profissional. Outras crenças estão atreladas às experiências e vivências pré-existentes ao curso. Reafirmando que crenças a respeito do papel do professor são moldadas ao longo de uma série de eventos educacionais, e não só apenas durante o curso de formação de professores, e também eventos pessoais, como relações familiares ao longo da vida. A pesquisa destaca ainda que, embora as crenças sejam construções individuais, elas são influenciadas pelo contexto sociocultural e pelas experiências de cada pessoa. Além do mais, a pesquisa oferece uma oportunidade para o diálogo e a criação de ambientes de discussão, permitindo que todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem trabalhem juntos na busca de soluções para os desafios enfrentados.
Palavras-chave: formação de professores; crenças; ensino-aprendizagem
ISAQUE DO NASCIMENTO FERNANDES
[Sociolinguística e Dialetologia]
Proposta de Experimento Sociolinguístico para o Estudo de Papéis Semânticos
A atribuição de papéis semânticos no português brasileiro tem sido recorrentemente estudada pelo viés do gerativismo (Sousa, 2015; Mioto, Silva e Lopes, 2013), mas ainda há poucas pesquisas que buscam analisar esse fenômeno sob uma perspectiva sociolinguística. Este trabalho analisa a restrição de fatores sociais e linguísticos na tarefa de atribuição de papéis semânticos, como agente, experienciador, tema e causa, por falantes/ouvintes do português brasileiro, à luz da Sociolinguística Variacionista (Weinreich; Labov; Herzog, 2006[1968]; Labov, 2008[1972]; Eckert, 2012), em diálogo com Cançado (2023), que discute a relação entre estrutura argumental e interpretação semântica como relações que são estabelecidas entre o verbo e os argumentos sentenciais. Partindo da problematização de Labov (1993) acerca da “inobservabilidade da estrutura”, que sugere que variáveis gramaticais não estariam plenamente disponíveis à avaliação consciente dos falantes, analisa-se em que medida esses falantes identificam papéis semânticos em sentenças produzidas em contextos controlados de percepção. Aqui, amplia-se o estudo de Fernandes (2025), que utilizou trechos dublados da sitcom norte-americana The Big Bang Theory em um experimento de percepção, ao aprofundar a análise da compreensão de ouvintes acerca da atribuição de papéis semânticos a argumentos externos da sentença. Os dados, coletados via formulário on-line e analisados estatisticamente em uma linguagem de programação (R Core Team, 2026), revelaram relações entre determinados papéis semânticos e variáveis sociais, além de evidenciarem limites metodológicos. Nesse sentido, o trabalho propõe o aprofundamento dos estudos sobre papéis semânticos, ao incluir gravações de fala produzidas por falantes nativos do português brasileiro e a ampliação da análise para o argumento interno das sentenças. Alinhando-se às discussões de Oushiro (2011), que estudou a produção de sentenças interrogativas -Q (onde você mora; onde é que você mora; você mora onde) e também chama a atenção para o fato de que variáveis gramaticais como essa não têm recebido o mesmo destaque na sociolinguística brasileira quando comparadas às variáveis fonológicas, este trabalho visa contribuir teoricamente para o avanço dos estudos de percepção de variáveis gramaticais no português brasileiro.
Palavras-chave: Experimento sociolinguístico; papéis semânticos; Inobservabilidade estrutural
IVAN GOMES DE OLIVEIRA
[Linguística Aplicada]
ARTE E AGÊNCIA EM GRADA KILOMBA: RECEPÇÕES PARA O DESPERTAR
As pesquisas de recepção sempre tiveram seu espaço demarcado no campo da mass mídia (TV, publicidade, jornalismo). Nessa esfera, em geral, se instruíam por uma relação hegemônica de poder, identificando o produtor e o consumidor, desconsiderando aspectos culturais, sociais e raciais de uma audiência. Este projeto, que se intitula uma pesquisa de recepção, pede que se considere justamente esses aspectos outrora renegados, porém, no campo das artes. Assim, inclina-se a estudar a recepção dos trabalhos artísticos de Grada Kilomba, artista portuguesa, escritora, psicóloga e mulher negra. De outro lado, um público receptor, a priori pressuposto em sua maioria como negro. Entre a artista e o público, um texto artístico: arte-performance, vídeo-performance e instalações. Uma vez que nesta dinâmica identificam-se elementos culturais, sociais e raciais, buscando perceber tanto as intenções pretendidas pela artista e, de outro lado, as leituras elaboradas por seu público, objetiva-se, neste projeto, identificar convergências e divergências entre o que é pretendido enunciar, com seus significados e, de outro, o que é lido e significado pelo público. Além disso, ao se apoiar em uma teoria antropológica da arte, que concebe arte como pessoa, objetiva-se identificar a agência promovida pelo trabalho da artista, ou seja, como seus trabalhos afetam seus espectadores. Nessa direção, espera-se identificar o que a própria artista chama de “tornar-se sujeito”. Para tal, toma-se como objeto a performance O barco, apresentada em três momentos no Instituto Inhotim-MG, sejam eles em 2024, 2025 e 2026. Dessa forma, apresenta-se a aparição e a organização estética dessa performance, seja por meio de registros fotográficos, seja por meio de percepções enunciativas e discursivas de espectadores lá presentes. Essa tarefa, na direção do que preconiza Abdias Nascimento, se coloca como tentativa de compreender o trabalho artístico como forma de narrar o genocídio negro, seja na temporalidade dos navios negreiros, seja em relação a outras temporalidades e a outras formas de abatimento do corpo negro. Contribui para a discussão a concepção do barco em uma relação cronotópica; a concepção de outros e novos modelos de espaço de memória, os estudos sobre memória individual e uma dupla abordagem da linguagem: relacional e espectral, pautada no conceito de fantasmas e orienta-se na direção de apresentar a performance como estratégia de letramento para educar olhar e mentes para a percepção de outras formas de genocídio negro, além de colocar em discussão o significado ético de ter que falar do que não se tem testemunho.
Palavras-chave: Recepção; arte; linguagem
IVANI CRISTINA BRITO FERNANDES
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
A emergência do sujeito na linguagem e aprendizagem: reflexão sobre atividades interdisciplinares contemporâneas no âmbito de língua estrangeira.
A contemporaneidade imprime um mosaico de características interligadas, pautadas pela hiperconectividade, instabilidade, fluidez, narcisismo e espetacularização da existência. Esse cenário forja um sujeito que demanda resiliência, adaptação, ressignificação constante e conexão com o humano. Por sua vez, tal configuração requer novos parâmetros para a educação, em especial na área da linguagem. Ao considerar esse conjunto, o objetivo deste trabalho é discutir um relato de experiência sobre atividades na formação docente de língua estrangeira, fundamentadas no Aprendizado ao longo da vida (Lifelong Learning), em articulação com a Logoterapia e com noções basilares da filosofia de Byung-Chul Han. Sob os parâmetros do paradigma indiciário — como olhar analítico do professor formador — e das metodologias ativas — ressignificadas pela logoterapia como ponderação existencial —, analisam-se, qualitativamente, as estratégias enunciativas e a natureza das atividades para a formação de professores. Buscam-se propostas que valorizem a emergência do sujeito na materialidade linguística, o autoconhecimento e as habilidades socioemocionais, visando resgatar o aspecto humano-existencial nas relações em oposição ao desempenho performático de natureza neoliberal. Essa sistematização se realiza em língua estrangeira, exercitando práticas de linguagem situadas em domínios discursivos. Nesse sentido, empregam-se as noções da Linguística da Enunciação e da Linguística Aplicada, que enfatizam a emergência do sujeito na e pela linguagem, em consonância com os pressupostos benvenistianos. Como exemplo, destaca-se o “Proyecto Formación Sistémica y Holística”, em língua espanhola, no qual, sob mediação docente, o aluno identifica e apresenta objetos de aprendizagem de seu cotidiano (como livros, podcasts e voluntariado), reconhecendo o valor da aprendizagem informal em articulação com a formal. Simultaneamente, o sujeito-aprendiz elabora um portfólio digital (em língua estrangeira), nas modalidades oral e escrita, no qual se constitui como sujeito na instância da enunciação. Assim, o ensino-aprendizagem da língua integra-se à reflexão sobre o exercício da humanidade e a conexão consigo e com o outro. Em suma, a proposta configura-se como um exercício inter e transdisciplinar no qual a língua(gem) resgata a junção entre razão e emoção sob uma perspectiva existencial.
Palavras-chave: Enunciação; Interdisciplinaridade; Língua Estrange
IZABEL LUIZI SANTOS COLLING
[Semiótica]
Desafios Epistemológicos advindos com as mídias digitais: por uma (re)leitura semiótica greimasiana
O presente trabalho propõe uma investigação epistemológica e teórica sobre a Semiótica Discursiva de Algirdas Julien Greimas frente aos desafios impostos pelas mídias digitais contemporâneas. O objetivo principal é revisitar e reestruturar os conceitos fundamentais da teoria greimasiana, tal como sistematizados no Dicionário de Semiótica de Greimas e Courtés, para compreender sua pertinência e adaptabilidade às novas dinâmicas de significação do ambiente digital. Longe de análises empíricas de "corpos" específicos, a pesquisa concentra-se na reflexão sobre a própria arquitetura conceitual da semiótica, buscando uma atualização que preserve seu rigor e profundidade.O quadro teórico-metodológico ancora-se firmemente na Semiótica Greimasiana, que oferece um arcabouço robusto para a compreensão dos processos de construção de sentido. Contudo, a natureza intrinsecamente dinâmica, interativa, multimodal e hipertextual das mídias digitais questiona a estabilidade e a linearidade que, por vezes, caracterizam as análises semióticas tradicionais. A noção de "texto", central para a semiótica, expande-se drasticamente para além da materialidade impressa, englobando fluxos de dados, interações em rede e performances em tempo real. A discussão epistemológica torna-se, assim, crucial para indagar como conceitos como narratividade, discurso, sujeito e objeto se reconfiguram quando a agência é distribuída entre humanos e algoritmos, e quando a enunciação se torna coletiva e fragmentada. A modalização, por exemplo, pode ser enriquecida ao considerar as lógicas de programação e as interfaces que constrangem ou possibilitam certas ações e interações, enquanto a isotopia, enquanto recorrência de categorias semânticas, precisa ser pensada em ambientes onde a polissemia e a intertextualidade são aceleradas e onde os sentidos são constantemente negociados e ressignificados em comunidades virtuais.Propõe-se uma "releitura dicionarizada" da Semiótica Greimasiana, que implica em revisitar criticamente as definições dos verbetes do Dicionário de Semiótica à luz das características das mídias digitais, identificando lacunas e possibilidades de extensão conceitual. A pesquisa buscará explorar a manifestação das estruturas profundas de significação em superfícies textuais digitais fluidas e mutáveis, e debaterá como a autonomia do sentido, um pilar da semiótica discursiva, é afetada pela intervenção algorítmica e pela participação massiva dos usuários na produção e circulação de conteúdo. O trabalho visa a contribuir para o avanço da Semiótica como disciplina, garantindo que seu instrumental teórico permaneça relevante e eficaz para a análise dos complexos fenômenos de significação na era digital, mantendo o rigor e a profundidade conceitual da teoria greimasiana.
Palavras-chave: Mídias Digitais; Reestruturação Conceitual; Semiótica Greimasiana
JACQUELINE AQUINO DO NASCIMENTO
[Tradução]
Entre línguas e culturas: análise da transposição em quatro versões do MacArthur-Bates Communicative Development Inventory III
O crescimento do vocabulário infantil constitui um dos principais indicadores do desenvolvimento linguístico nos primeiros anos de vida. Entre os instrumentos utilizados para sua avaliação, destaca-se o MacArthur-Bates Communicative Development Inventories (CDI), conjunto de inventários amplamente empregado em pesquisas sobre aquisição e alterações do desenvolvimento da linguagem, com versões adaptadas para diversos contextos linguísticos e culturais. Contudo, sua adaptação para diferentes línguas envolve não apenas equivalência lexical, mas também ajustes gramaticais e estruturais, capazes de impactar a composição do vocabulário avaliado. Nesta direção, o presente estudo caracteriza-se como qualitativo, descritivo e comparativo, tendo como objetivo analisar quatro versões do CDI-III (norte-americana, mexicana, portuguesa e sueca) como etapa preliminar ao processo de adaptação do instrumento para o português brasileiro. Foram examinadas as listas de vocabulário, com classificação dos itens segundo classes gramaticais, presença de palavras funcionais e termos relacionados a estados mentais. A análise contemplou procedimentos descritivos, comparativos e qualitativos, considerando aspectos linguísticos e estruturais, bem como o possível impacto da organização das listas na compreensão do instrumento. A análise comparativa evidenciou diferenças na organização estrutural e na seleção lexical dos instrumentos. As versões norte-americana e mexicana apresentaram listas únicas de palavras, sem separação explícita por campos semânticos ou classes gramaticais, enquanto as versões sueca e portuguesa organizaram os itens em domínios semânticos relacionados a corpo, alimentação, processos mentais e emoções. A versão portuguesa destacou-se ainda pela subdivisão dos itens por classes gramaticais e pelo maior número de palavras avaliadas. Foram observadas diferenças quanto às classes gramaticais priorizadas. As versões norte-americana e mexicana apresentaram maior número de palavras funcionais, enquanto as versões sueca e portuguesa priorizaram palavras de conteúdo, especialmente verbos relacionados a ações cotidianas, estados mentais e emoções. Os achados sugerem que as diferenças entre as versões refletem distintas prioridades teóricas e metodológicas no processo de adaptação transcultural. Os resultados mostram que as versões portuguesa e sueca do CDI-III apresentam maior proximidade entre si, principalmente pela organização do vocabulário em campos semânticos e pela valorização de palavras relacionadas a processos mentais, emoções e experiências do cotidiano infantil. Em contrapartida, as versões norte-americana e mexicana apresentam maior presença de palavras funcionais e uma organização menos centrada em categorias semânticas específicas. De modo geral, os achados sugerem que a adaptação transcultural do CDI- III vai além da simples tradução das palavras, envolvendo também diferentes perspectivas sobre o desenvolvimento da linguagem e sobre quais habilidades linguísticas devem ser priorizadas na avaliação infantil. (Apoio: CAPES- 88887.210727/2025-00)
Palavras-chave: Tradução; Adaptação transcultural; Linguagem Infantil
JAMILA JOHANA MARTINS GATINHO
[Letramento(s)]
Letramento em saúde de populações rurais como construção discursiva na literatura científica
Letramento em saúde tem sido abordado, de forma recorrente, a partir de perspectivas funcionalistas voltadas à capacidade individual de acessar, compreender e utilizar informações em saúde. No contexto das populações rurais, entretanto, as experiências relacionadas ao letramento em saúde ultrapassam habilidades técnicas de leitura e compreensão, envolvendo aspectos sociais, culturais, relacionais e territoriais. Nesse sentido, o presente estudo tem como objetivo analisar criticamente a construção discursiva do conceito de letramento em artigos científicos qualitativos da área da saúde em contextos de populações rurais. Trata-se de uma revisão teórico-discursiva, de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir da análise de três artigos científicos sobre letramento em saúde em populações rurais (Zukoski et al., 2011; Silva et al., 2024; Gray et al., 2025). Como referencial teórico, adotou-se o modelo ideológico de letramento de Brian Street (1984; 1995), que compreende o letramento como prática social situada, articulado à perspectiva multidimensional do letramento em saúde proposta por Richard Osborne (2013), centrada nas dimensões relacionais, comunicacionais e sociais envolvidas no cuidado em saúde. Metodologicamente, para análise dos artigos, o estudo assume como ferramenta a análise de conteúdo, no sentido proposto por Bardin (2016). A análise dos estudos evidencia a coexistência de discursos funcionalistas — que vinculam o “baixo letramento” à baixa escolaridade e à dificuldade de compreensão das informações — com abordagens que reconhecem vulnerabilidades sociais, barreiras estruturais e relações de confiança presentes nos territórios rurais. Os artigos apontam que fatores como vínculo com profissionais de saúde, estigma social, limitações de acesso aos serviços e fragilidade das ações educativas influenciam diretamente as práticas de busca, compreensão e utilização das informações em saúde. Observou-se, ainda, que os estudos frequentemente atribuem aos indivíduos a responsabilidade pela compreensão das informações, embora também reconheçam a necessidade de intervenções contextualizadas e sensíveis às especificidades das populações rurais. Conclui-se que o letramento em saúde, nesse contexto, não pode ser reduzido a uma dimensão estritamente funcional, exigindo a consideração das dinâmicas sociais, culturais e territoriais que atravessam a produção do cuidado e das práticas de saúde.
Palavras-chave: Letramento em saúde; Populações rurais; Construção discursiva
JARDILEIA PEREIRA BORGES ZIVIANI
[Sociolinguística e Dialetologia]
UM ESTUDO ETNOGRÁFICO E ETNOLINGUÍSTICO DAS COMUNIDADES DO SAPÉ DO NORTE CENTRADA NA COMUNIDADE SÃO DOMINGOS – ESTADO DO ESPÍRITO SANTO.
Este trabalho integra uma pesquisa em andamento (BORGES-ZIVIANI, em preparação), centrada na comunidade quilombola de São Domingos, situada na região do Sapê do Norte, no estado do Espírito Santo. O Sapê do Norte abrange uma extensa área correspondente aos atuais municípios de Jaguaré, Conceição da Barra e São Mateus, ao longo dos rios Cricaré e Itaúnas, configurando-se historicamente como espaço estratégico de circulação, abastecimento e articulação econômica no período colonial, especialmente nas rotas marítimas entre o Rio de Janeiro e a Bahia. Nesse contexto, trata-se de um território composto por 34 comunidades quilombolas e uma comunidade indígena, marcado por dinâmicas históricas, práticas culturais compartilhadas e processos de resistência territorial. A caracterização desse território fundamenta-se em estudos geográficos que descrevem a constituição e a distribuição das comunidades quilombolas da região, com destaque para a sistematização proposta por Ferreira (2009), que identifica e analisa as dinâmicas locais. Nesse sentido, embora apresente relevância histórica, antropológica e cultural, observa-se a escassez de estudos com enfoque especificamente linguístico voltados às práticas de oralidade das comunidades locais. Partindo dessa articulação entre território e práticas sociais, este trabalho tem como objetivo discutir o conceito de variedades do português a partir de sua relação com as noções de território e territorialidade, tomando como referência empírica a região do Sapê do Norte. Diferentemente de abordagens que classificam as variedades linguísticas com base em critérios estritamente geopolíticos, espaciais ou etnoculturais — como português vernacular brasileiro, português rural ou urbano ou português afro-brasileiro —, propõe-se aqui uma abordagem que considera a língua em uso como prática situada, indissociável das experiências históricas e das dinâmicas socioculturais das comunidades quilombolas. Para tanto, adota-se uma perspectiva qualitativa e etnográfica, voltada à descrição das comunidades e à análise dos contextos comunicacionais em que se inserem no uso da língua. O corpus preliminar da pesquisa é composto por aproximadamente quinze horas de entrevistas realizadas com seis informantes, submetidas à transcrição manual e análise com auxílio do software ELAN, em que se discute alguns léxicos como: CAMARINHA, ABADÔ, ALABÊ, EPÔ, GUINÉ e MARIÔ presentes nos falares dos moradores da comunidade. Essa abordagem permite compreender como categorias frequentemente tratadas de maneira dicotômica na literatura, como rural e urbano, reorganizam-se no interior desse território, evidenciando formas específicas de construção linguística vinculadas à memória social, às práticas culturais, religiosas e à constituição identitária das comunidades quilombolas.
Palavras-chave: Sapê do Norte; comunidades quilombolas; oralidade
JAYNE DE CASSIA LEÃO BARRA
[Línguas de Sinais]
Relato de experiência sobre a elaboração de instrumentos de pesquisa em Libras
Muitos pesquisadores ouvintes têm se dedicado à área de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e aos Estudos Surdos. Entretanto, ainda são escassos os trabalhos que descrevem o processo de elaboração de instrumentos de coleta de dados de pesquisas voltadas a participantes surdos. Assim, o presente trabalho tem por objetivo relatar a experiência de uma mestranda ouvinte na elaboração de vídeos em Libras inseridos no Google Forms para a coleta de dados com os participantes da pesquisa, professores surdos atuantes em cursos de Licenciatura de nível superior da disciplina de Libras. Dessa forma, trata-se de uma pesquisa de cunho qualitativo (Paiva, 2019), na qual foram analisados os vídeos publicados no YouTube pela própria mestranda. O estudo revelou algumas questões relacionadas à tradução dos comandos de português para a Libras, bem como questões envolvendo o uso de classificadores e de expressões faciais. A experiência relatada evidenciou que, ao subestimar tais questões na produção dos vídeos para o instrumento de coleta de dados, foram identificadas possíveis lacunas na compreensão das informações sinalizadas, bem como limitações linguísticas no momento da tradução do texto escrito para o vídeo em Libras. É importante afirmar que tais lacunas foram percebidas e corrigidas no momento da coleta de dados, quando do feedback imediato dos participantes da pesquisa cuja coleta se fez por meio desse instrumento. Os resultados desse estudo evidenciam que é pertinente desenvolver pesquisas sobre as experiências de ouvintes na elaboração de instrumentos de coleta de dados voltados a participantes surdos, além de contribuir para ampliar as discussões sobre a necessidade de pesquisadores da área de Libras refletirem criticamente acerca da eficácia dos instrumentos de coleta de dados que são elaborados e aplicados com os participantes surdos, uma vez que é fundamental que pesquisadores ouvintes respeitem a língua, a cultura, a identidade e a utilizem de forma adequada.
Palavras-chave: Coleta de dados; Instrumentos; Pesquisadores Ouvintes
JOSIANE MARQUES DA COSTA
[Linguística Aplicada]
Multimodalidade e Competência Metafórica no Ensino de Português como Segunda Língua para Surdos
Este trabalho tem como objetivo analisar de que maneira a abordagem da multimodalidade pode contribuir para o desenvolvimento da competência metafórica de surdos bilíngues (Libras/Português). Para isso, investiga-se a presença e a forma de tratamento da linguagem figurada em atividades didáticas propostas em livros voltados ao ensino de português tanto para surdos quanto para estrangeiros. O trabalho é embasado pela Multimodalidade (Kress, 2003; 2010; Kress; van Leeuwen, 2001; 2002; 2006; van Leeuwen, 2005; Gualberto, 2016), na Teoria da Metáfora Conceptual e do Desenvolvimento da Competência Metafórica (Lakoff; Johnson, 1980; 2003; Danesi, 1993; 2016; Costa, 2020). Para tanto, este estudo utiliza uma abordagem metodológica quanti-qualitativa de caráter analítico-interpretativo (Creswell; John W, 2018; Gil, 2002). Foram analisadas as propostas de atividades sobre linguagem figurada de 4 livros didáticos, sendo estes dois livros de português para surdos e dois para estrangeiros. Para as análises, consideramos: (i) modos e recursos semióticos; (ii) tipos de imagens; (iii) cores; (iv) caminho de leitura; (v) conteúdo e estrutura das atividades metafóricas. Os resultados da análise revelam que a multimodalidade é pouco explorada nos livros didáticos investigados, mesmo quando há presença de elementos visuais. Imagens, cores e organização gráfica aparecem de forma secundária e sem integração com a construção de sentidos metafóricos. Os modos e recursos semióticos não são articulados de maneira eficiente, o que limita o potencial da multimodalidade como suporte para a compreensão de conceitos abstratos, especialmente para aprendizes surdos, que dependem fortemente de recursos visuais, visto que utilizam uma língua de modalidade espaço-visual. Quanto às atividades, observa-se a predominância de abordagens centradas na tradução de expressões metafóricas e na memorização de seus significados. Em geral, apresentam estruturas fechadas, focadas na equivalência entre sentido literal e figurado, sem estimular reflexões sobre os processos cognitivos envolvidos na metáfora. Além disso, há pouca contextualização discursiva, dificultando o desenvolvimento da competência metafórica em situações reais de uso da língua. O estudo evidencia a importância de uma abordagem que valorize a multimodalidade de forma integrada, utilizando imagens, vídeos e a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como mediadores da construção de sentido metafórico pelo aluno surdo.
Palavras-chave: Competência Metafórica; Multimodalidade; Português como Segunda Língua para Surdos
JOSIANE TAVARES SILVA
[Linguística de Córpus]
Construção de vocabulário monolíngue em contraste do universo Star Trek
Esta pesquisa tem como objetivo a elaboração de um vocabulário terminográfico monolíngue em contraste, com verbetes em inglês e em português, a partir do vocabulário técnico-científico presente no universo ficcional de Star Trek. O estudo fundamenta-se nos pressupostos da Linguística de Córpus, na Teoria Comunicativa da Terminologia, proposta por Cabré (1999), nos estudos de Barbosa (2006) sobre Etnoterminologia, e na proposta metodológica de Fromm (2020) para a elaboração de verbetes monolíngues em contraste. Parte-se da compreensão de que as unidades terminológicas devem ser analisadas em seus contextos reais de ocorrência, considerando os domínios de conhecimento, as situações comunicativas e os usos linguísticos que lhes conferem valor especializado. O corpus será constituído por arquivos de legendas digitais de episódios e produções seriadas do universo Star Trek, em inglês e em português, no recorte temporal de 1966 a 2026. Os dados serão processados com auxílio do software Sketch Engine, mediante levantamento de candidatos a termo, análise de frequência, observação de concordâncias, identificação de contextos de uso, seleção das unidades terminológicas mais relevantes e organização das informações necessárias à composição dos verbetes. A pesquisa adota abordagem bibliográfica, empírica e quanti-qualitativa, articulando procedimentos de extração automática e análise linguístico-terminológica. O percurso metodológico será acompanhado por registros sistemáticos em diários de pesquisa, nos quais serão documentadas as decisões relativas à constituição do corpus, aos critérios de seleção terminológica, à delimitação de domínios e subdomínios, à a análise dos contextos definitórios e à elaboração das definições. Parte-se da hipótese de que o universo Star Trek apresenta um vocabulário especializado próprio, formado por unidades terminológicas associadas a diferentes áreas do conhecimento, especialmente ciência, tecnologia, engenharia, medicina, astronomia, exploração espacial e organização político-institucional, ainda que ressignificadas no interior de um universo ficcional. Como resultado, pretende-se disponibilizar o dicionário em ambiente on-line, com base no modelo do programa VoTec. Espera-se que o trabalho contribua para os estudos em Terminologia, Terminografia e Linguística de Córpus, bem como para pesquisas sobre ficção científica, tradução audiovisual, análise de mídia e ensino mediado por produções televisivas.
Palavras-chave: Terminografia; Linguística de Córpus; Star Trek
JOSÉ ANTONIO RODRIGUES LUCIANO
[Filosofia da Linguagem]
A ficção da vida e a realidade da arte: uma análise bakhtiniana de Jogo de cena
O documentário no audiovisual é comumente compreendido como um gênero artístico de carácter não-ficcional por ser característico seu compromisso de retratar e explorar a realidade. Contudo, ao longo de sua produção, Eduardo Coutinho (1933-2014) questiona o estatuto de verdade/veracidade atribuído ao documentário ao diluir as fronteiras entre os campos da ficção e não-ficção a partir de trabalhos como Cabra marcado para morrer (1984), Santo Forte (1999), Edifício Master (2002), As canções (2011). Esse questionamento, que consiste em um traço estilístico do documentarista, torna-se ainda mais evidente, principalmente no que se pode entender ser a terceira e última fase da produção de Coutinho, que tem precisamente como uma das principais obras o documentário Jogo de Cena (2007). Nesse sentido, o presente trabalho volta-se para a compreensão da maneira que Coutinho subverte a condição de verdade documental do gênero. Busca-se analisar como o documentarista brasileiro reorganiza e recombina os elementos composicionais formais e temáticos da linguagem audiovisual, a fim de colocar em xeque a própria realidade apresentada em suas produções artísticas e evidenciar o fato de que, mais do que a realidade/verdade, o conteúdo mostrado no documentário consiste em um ponto de vista seja dos personagens, seja do diretor. A hipótese é que o autor desloca sua investigação para a fronteira entre o real e o imaginário, a qual passa a ser considerada um lugar constitutivo da própria realidade social. Para isso, o estudo fundamenta-se na filosofia bakhtiniana da linguagem a partir de noções como linguagem, ética e estética, diálogo, sujeito e signo ideológico. Ademais, toma-se o método dialético-dialógico, denominado por Paula et al (2011) acerca da perspectiva dialógica do Círculo, a fim de refletir a relação entre conceitos, método e objeto discursivo analisado, os quais são compreendidos e entrelaçados dialogicamente entre si, ao mesmo tempo, que também se constituem na relação com demais discursos no elo da cadeia discursiva. Desse modo, a proposta pretende contribuir, de um lado, no campo analítico, com o aprofundamento na estética documental de Eduardo Coutinho, em particular presente na obra Jogo de Cena, bem como com a reflexão acerca da constituição do gênero documentário e, de outro, no campo teórico, com os estudos bakhtinianos, ao expandir as possibilidades de análises embasadas no pensamento do Círculo para outras materialidades sígnicas, como a visual e a sonora, além, é claro, da verbal, amplamente estudada pelo grupo de pensadores russos em seus escritos.
Palavras-chave: filosofia bakhtiniana da linguagem; documentário; relação arte e vida
JOSÉ BENTO CARDOSO VIDAL NETO
[Historiografia Linguística]
O surgimento dos livros didáticos de Português no Brasil: um estudo historiográfico
Um dos resultados a que pudemos chegar em nossa tese de doutorado (autor, 2021) foi uma compreensão mais fina das características da produção linguístico-gramatical brasileira sobre o Português das quatro primeiras décadas do século XX. Com efeito, podemos dizer que nossas análises apontam para duas características marcantes dessa produção: (i) sua divisão em três programas de investigação (Swiggers, 1981, 1987, 2004): o gramatical, o filológico e o dialetológico e (ii) o crescimento das obras de caráter monográfico e das gramáticas escolares. Tal crescimento alterou o papel privilegiado que a gramática tinha até fins do século XIX, fazendo com que ela se tornasse uma obra de viés mais escolar, deixando, assim, para as obras monográficas, a discussão linguístico-gramatical mais aprofundada, dirigida aos especialistas da área, aos pares. Nos limites desta apresentação, nos deteremos apenas à produção gramatical escolar, que, na tese, foi dividida em três grupos: gramáticas completas escolares, obras escolares de temas gramaticais específicos e livros didáticos de Português, que, juntos, somam 239 obras frente a 161 não escolares. Uma explicação de ordem contextual que nos ajudou a explicar o aumento das produções gramaticais escolares foi a estruturação e ampliação do Secundário ao longo deste período, o que gerou grande demanda por materiais específicos, promovendo, assim, maior especialização na produção destinada a esse nível de ensino. Tal especialização desencadeou o processo que chamamos de didatização da gramática brasileira, o que pode ser definido como a adaptação da gramática, a de tradição greco-latina, ao uso em sala de aula, ao ensino mediado pelo professor, ou seja, a gramática passa a ser um compêndio destinado ao processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, a principal característica a ser considerada na didatização é a adaptação, pois é ela, através de estratégias como exercícios, quadros-síntese, simplificação da teoria gramatical, separação da matéria em níveis de dificuldade, estruturação do compêndio em lições, não em capítulos, o que corresponderia a sequências didáticas a serem desenvolvidas pelo professor com seus alunos, entre outros recursos, que transformou a gramática em um objeto feito para a escola, não apenas usado na escola, como ocorria até então. Em nossa comunicação, falaremos apenas sobre os livros didáticos de Português, mostrando suas características formativas e sua importância específica para a didatização da gramática escolar brasileira. Do ponto de vista teórico-metodológico, usaremos o modelo das camadas do conhecimento linguístico Swiggers (2004), ou seja, as camadas teórica, técnica, documental e contextual.
Palavras-chave: livro didático de Português; didatização; historio
JOSÉ PEDRO MEDINA SANTOS
[Sociolinguística e Dialetologia]
Possíveis condicionantes linguísticos e sociais dos marcadores discursivos “então” e “né?”: uma análise sócio-textual-interativa
Esta pesquisa investiga o uso e o possível condicionamento social e/ou linguístico dos marcadores discursivos (MD) “então” e “né?” em uma variedade do português brasileiro falado, a partir de entrevistas do Banco de Dados Iboruna. O objetivo central é analisar, em Narrativas de Experiência e Relatos de Opinião, se a escolha e a distribuição funcional desses marcadores se correlacionam a traços de gêneros narrativos e argumentativos, e/ou a variáveis sociais, como sexo/gênero, faixa etária e escolaridade. O estudo fundamenta-se na Gramática Textual-Interativa, que concebe o texto como atividade sociointerativa e toma o tópico discursivo como categoria de análise textual. Nesse quadro teórico, os MDs são entendidos como recursos de gerenciamento textual e interacional, atuando na articulação do texto e na orientação da interação. Considerando o propósito do trabalho, a pesquisa também se embasa na Sociolinguística Variacionista, que possibilita investigar o possível condicionamento social do uso desses itens na comunidade de fala. Metodologicamente, adota-se uma abordagem quali-quantitativa. Inicialmente, realiza-se a análise tópica (Jubran, 2006, 2015) das Narrativas de experiência e dos Relatos de Opinião, com quantificação do número de tópicos discursivos em cada amostra, como parâmetro de controle e comparação entre Narrativas de Experiência e Relatos de Opinião. Após essa análise, as ocorrências de “então” e “né?” são observadas com base em traços que, conforme a GTI, caracterizam MDs, como articulação tópica + orientação interacional fraca e não articulação tópica + orientação interacional forte. Esse procedimento permitirá atestar o estatuto de MD dos itens em estudo. Em articulação com a dimensão variacionista, consideram-se variáveis sociais, buscando verificar como padrões de uso distribuem-se na comunidade. Como hipótese de pesquisa, assume-se que a escolha entre tais marcadores pode ser influenciada tanto por fatores sociais quanto pelas características próprias de cada amostra de texto, de natureza narrativa ou argumentativa. Considera-se, ainda, que variáveis como sexo/gênero, faixa etária e escolaridade dos falantes estejam associadas a diferentes padrões de uso dos MDs, refletindo a distribuição social desses recursos na fala. Espera-se evidenciar que a articulação dessas vertentes teórico-metodológicas pode oferecer bases sólidas para investigar como fenômenos de natureza textual-interativa podem ser observados também a partir de um viés variacionista.
Palavras-chave: Marcadores Discursivos; Gramática Textual-Interativa; Sociolinguística Variacionista
JOÃO BENEILSON MAIA GATINHO
[Letramento(s)]
LETRAMENTO COMO DISPOSITIVO TEÓRICO EM ESTUDOS SOBRE POPULAÇÕES RIBEIRINHAS E INDÍGENAS
Letramento como construto teórico tem orientado diferentes estudos nas mais variadas áreas do conhecimento. Em todas elas, o termo invoca, de alguma maneira, usos sociais da escrita e/ou suas implicações. Em contextos ribeirinhos e indígenas, no entanto, dadas as relações desses sujeitos com a escrita em seus territórios, ao termo são incorporadas outras dimensões. Nesse sentido, este texto apresenta e discute as apropriações do conceito de letramento que tem orientado pesquisas em diferentes campos do saber e suas implicações para os estudos sobre populações ribeirinhas e indígenas. As discussões estão fundamentadas em uma perspectiva teórico-crítica e interdisciplinar, ancoradas nos estudos sobre letramento como prática social, articulando contribuições das abordagens decoloniais. Metodologicamente, assume-se a análise qualitativa de textos acadêmicos, orientada pela análise de conteúdo (Bardin, 2010), buscando identificar categorias conceituais e aproximações entre os diferentes usos do termo letramento. As análises preliminares dos dados indicam que as mobilizações da noção de letramento ultrapassam a dimensão funcional dos usos sociais da escrita, abarcando um conjunto de práticas sociais situadas que envolvem interpretação crítica, produção de sentidos e capacidade de intervenção na realidade. Especificamente, no caso dos ribeirinhos e indígenas, por exemplo, o significado de letramento precisa levar em conta os saberes tradicionais e a relação com o território, evidenciando uma dimensão ecológica e cultural do conceito, o que implica assumir a linguagem como uma interação que não se limita à linguagem no sentido ocidental e moderno. Para esses sujeitos a interação, tal como compreendida nas cosmologias indígenas, materializa a importância cosmopolítica e transcendental da linguagem, que funciona como elo entre humanos e não humanos, entre mundos visíveis e invisíveis, entre planos distintos de existência. Conclui-se que o letramento, em suas múltiplas dimensões, constitui ferramenta estratégica para se pensar a promoção da equidade, especialmente em contextos vulnerabilizados, demandando abordagens contextualizadas e socialmente comprometidas.
Palavras-chave: Letramento; Dispositivos teóricos; Populações indígenas e ribeirinhas
JOÃO PAULO DA SILVA
[Línguas de Sinais]
Ações bucais na organização multimodal da interação em libras
Nas interações entre surdos, ações da boca com diferentes formatos atuam em conjunto com movimentos de outras partes do corpo para fazer emergir entendimentos situados. Com base nas noções de ação co-operativa (Goodwin, 2018), de sistema multiagentes (Froese; Di Paolo, 2011) e em um modelo de signo neopeirceano (Enfield, 2013), analisamos trechos de interação sinalizada entre adultos surdos fluentes em língua de sinais brasileira (libras), explicitando como os signos participam de cadeias semióticas operando como suporte para a emergência de novos signos. Nesse processo, ações da boca, das mãos e de outras partes do corpo se co- constituem na conversa, formando unidades multimodais de significação essenciais para o andamento da interação em curso. A emergência dessas unidades multimodais é um processo situado, temporal e distribuído, por meio do qual as ações de diferentes partes do corpo dos interactantes não se comportam como unidades independentes posteriormente combinadas, mas como um todo integrado de significação, no qual as partes atuam em sinergia umas com as outras de modo intra- e intercorporeado (Silva, Viotti, 2023). Esse processo dinâmico está na base da elaboração de métodos interacionais por meio dos quais os sinalizadores direcionam a atenção dos interlocutores para o que é relevante a cada momento da conversa, fazendo reuso de recursos semióticos tornados públicos no curso da interação. Os dados analisados foram transcritos no software ELAN, tomando como base o modelo de transcrição proposto por McCleary, Viotti e Leite (2010). O objetivo desta apresentação é descrever alguns dos métodos interacionais dos quais as ações da boca participam para i) coordenar a atenção conjunta para mãos e face; ii) compor apontamentos multimodais; iii) projetar ou reivindicar tomada de turno. A discussão analítica destaca, portanto, como essas ações se organizam em famílias de práticas corporeadas, evidenciando a dimensão situada, por meio da qual se revela a natureza intra- e intercorporeada dos signos na emergência da significação.
Palavras-chave: semiose; interação; libras
JOÃO PEDRO FRUTUOSO CAVALHEIRO
[Morfologia]
Sincretismo variável como empobrecimento: variação na concordância verbal do português
Este trabalho investiga o sincretismo variável atestado nos diferentes padrões de concordância na flexão verbal do português. O objetivo é propor uma formalização desse fenômeno que não assuma transparência entre os traços morfossintáticos e a realização fonológica da flexão verbal, contrariando abordagens que localizam tal variação no componente sintático e assumem correspondência direta entre estrutura sintática e exponência morfológica. No português, são atestados padrões de flexão que se distribuem em um continuum de sistemas menos sincréticos, com cinco formas verbais distintas (e.g., no presente do indicativo: falo, falas, fala, falamos e falam), a mais sincréticos, com apenas duas formas (e.g., falo vs. fala), incluindo padrões mistos (e.g., nós fala / a gente falamos), que refletem diferentes graus de neutralização de traços de pessoa e número. Observa-se ainda que esse tipo de sincretismo se generaliza para todo o sistema flexional verbal do falante, independentemente de tempo verbal ou lexema envolvido. Adota-se o quadro teórico da Morfologia Distribuída (Halle; Marantz, 1993), com base em dados discutidos na literatura em sintaxe gerativa (Duarte, 1996; Rodrigues, 2004; Costa; Figueiredo Silva, 2006; Kato; Martins; Nunes, 2023). Argumenta-se que os diferentes padrões de concordância resultam da aplicação de operações de empobrecimento (Bonet, 1991) sobre os traços morfossintáticos [±Autor], [±Participante] e [±Plural] (Halle, 1997). Propõe-se que a variação entre dialetos/idioletos decorre do apagamento diferencial de um subconjunto desses traços, em particular [±Participante] e [±Plural], no componente morfológico (Nevins; Parrott, 2010), o que leva à inserção de itens de vocabulário default em contextos subespecificados. Como consequência, argumenta-se que os padrões atestados podem ser derivados a partir do mesmo conjunto de traços e de um mesmo inventário de operações, variando apenas em sua aplicação. Essa análise reforça a hipótese de que a variação linguística se manifesta no componente morfológico e de maneira paralela nos níveis dialetal e idioletal. (Apoio: CAPES – Processo 88887.192053/2025-00)
Palavras-chave: flexão verbal; sincretismo; variação linguística
JOÃO ROBERTO ANTUNES
[Sociolinguística e Dialetologia]
Sob as lentes da Sociolinguística Variacionista: o comportamento de um fenômeno linguístico do Português Brasileiro em dois gêneros textuais-discursivos emergentes
Esta pesquisa pretende analisar, descritivo-comparativamente, um fenômeno sociolinguístico presente em textos que materializam dois gêneros textuais-discursivos emergentes: notícias de portais digitais e blog posts. Tendo em vista estratégias de indeterminação do sujeito, expressões de futuridade e estratégias de relativização, seu objetivo principal é eleger um desses fenômenos e estabelecer, de forma quali-quanti, como ele se realiza nos dois gêneros em análise. Os portais digitais selecionados foram G1, Uol e Agência Brasil, enquanto os blogs foram Blog BB, Blog Natura e Blog Gupy, com um critério que envolveu o uso da ferramenta Semrush, que permite uma filtragem dos sites mais visitados no mundo. Por meio dela, é possível estabelecer uma segmentação por país e por setor, oportunizando avaliar a quantidade estimada de tráfego de cada um desses sites. Ainda, em sua versão paga, pode-se verificar a autoridade de domínio – métrica que varia de 0 a 100 – de cada um dos sites, o que é um indicativo da sua popularidade e confiabilidade perante a web. As autoridades atestadas foram 89 para G1, 98 para Uol, 76 para Agência Brasil, 71 para Blog BB, 69 para Blog Natura e 72 para Blog Gupy. A partir disso, a composição do corpus foi feita com a extração dos URLS dos portais e blogs selecionados, exclusivamente de textos publicados nos últimos três anos. Na etapa atual, está sendo realizada a delimitação de uma amostra-piloto para seguir com um fenômeno que seja produtivo para as discussões, tendo como base os destacados anteriormente. Na sequência, será feita a definição final das amostras – considerando uma quantidade de palavras a ser delimitada – e serão aplicados os princípios teórico-metodológicos da Teoria da Variação e Mudança Linguísticas (Labov, 2008[1972]; Weinreich; Labov; Herzog, 2006[1968]), objetivando embasar as discussões dos dados quantitativos – cujas variantes passarão por um tratamento estatístico no R. Ademais, partindo do pressuposto de que não há como estudar os processos de variação e mudança linguísticas sem conceber como a natureza do gênero os molda e determina (Biazolli; Berlinck, 2021), pretende-se suscitar discussões sobre gêneros textuais-discursivos (Bakhtin, 2003[1979]; Marcuschi, 2008, 2010; Travaglia, 2009), promovendo uma caracterização formal e situacional das notícias de portais digitais e dos blog posts – estes últimos pouco explorados nos estudos sociolinguísticos. Portanto, acredita-se que uma investigação comparativa com notícias de portais digitais e blog posts possa contribuir com a área, dadas as características, estilo e construção composicional de cada um dos gêneros.
Palavras-chave: fenômenos morfossintáticos; variação linguística; gêneros textuais-discursivos
JOÃO VICTOR CHIQUETTO SILVA
[Pragmática]
“Vou ver e te aviso”: polidez, implicaturas e recusa velada no português brasileiro
A recusa é um ato de fala potencialmente ameaçador à face dos interlocutores (Brown; Levinson, 1987), sobretudo em situações nas quais uma negativa explícita pode ser percebida como descortês. No português brasileiro (PB), respostas como “vou ver e te aviso”, “a gente vai se falando” ou “vou tentar ir” podem, em determinados contextos, produzir uma interpretação de recusa, mesmo sem a presença do termo “não”. Este trabalho tem como objetivo analisar a recusa velada empregada por falantes nativos de PB, especialmente em respostas a convites e pedidos, descrevendo como a indireetividade atua como estratégia de polidez e como seu sentido depende de inferências pragmaticamente orientadas. O quadro teórico-metodológico articula a Pragmática Conversacional de Grice (1975), com ênfase nas implicaturas conversacionais; a teoria dos atos de fala e da indireetividade de Austin (1962) e Searle (1975); e a Teoria da Polidez de Brown e Levinson (1987), além de estudos sobre recusa e atenuação no PB, como os de Mendes (1996), Gripp (2015) e Marinho (2019). Trata-se de pesquisa teórica, qualitativa, interpretativista e descritiva, derivada de dissertação de mestrado, cujo corpus de consulta foi constituído a partir de buscas por expressões como “brasileiros não dizem não” em meio digital. Foram analisados vídeos e textos escritos, incluindo matérias de revistas on-line e postagens em blogs, bem como comentários vinculados a esses materiais, selecionados por explicitarem percepções sobre o uso de recusas indiretas no PB. A análise demonstra que enunciados formalmente não negativos podem funcionar, em situações interacionais específicas, como recusas ou, ao menos, como não aceitações no momento em que são proferidos, desde que os participantes compartilhem conhecimentos pragmáticos e socioculturais necessários ao cálculo inferencial. Em tais ocorrências, a indireetividade permite ao falante evitar uma negativa taxativa, preservar sua autonomia e mitigar potenciais ameaças à face do interlocutor. Os dados sustentam, portanto, que a recusa velada constitui um fenômeno pertinente à descrição pragmática do PB, evidenciando a relação entre implicatura, polidez, atos de fala e práticas sociais. (Apoio: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES).
Palavras-chave: Pragmática conversacional; Teoria da Polidez; Recusa velada
JUAN PRETE TOJEIRA RAMOS
[Linguística Computacional]
Representação prosódico-acústica da entoação na fala sintética baseada em Inteligência Artificial (IA): efeitos fonéticos do tratamento da frequência fundamental (F0) na identificação de categorias fonológicas
Este trabalho investiga a representação prosódico-acústica da entoação na fala sintética baseada em Inteligência Artificial (IA), com ênfase nos efeitos fonéticos do tratamento da frequência fundamental (F0) na identificação de categorias fonológicas. A pesquisa examina como procedimentos técnicos aplicados à F0, especificamente a suavização e a interpolação no nível fonético, condicionam a recuperação e a formalização de eventos tonais em um material acústico proveniente de um sistema de síntese de fala desenvolvido pela empresa multinacional americana Google e disponibilizado a partir de uma API (“Application Programming Interface”). O estudo é fundamentado em pressupostos da Fonética Acústica (Fant, 1960; Ladefoged, 1962; Johnson, 1997; Stevens, 1998), da Fonologia Entoacional Autossegmental e Métrica (Ladd, 1996, 2008) e da Fonologia Prosódica (Nespor; Vogel, 1986, 2007), bem como em descrições dos eventos tonais do português brasileiro (Frota; Vigário, 2000; Tenani, 2002; Fernandes, 2007; Tenani; Fernandes-Svartman, 2008; Moraes, 2008; Truckenbrodt; Sandalo; Abaurre, 2009; Serra, 2009; Frota et al., 2015; Frota; Moraes, 2016; Fernandes- Svartman, 2024a, 2024b), além de pesquisas que utilizam a suavização e a interpolação, de forma isolada ou combinada, para a caracterização prosódica da fala natural (Barbosa; Silva, 2012; Galvão Passetti, 2021; Pezatti; Galvão Passetti, 2021; Tojeira-Ramos; Pezatti, 2022; Tojeira-Ramos, 2024; Tojeira-Ramos; Guiraldelli, 2024, 2025) e da fala sintética (Tojeira-Ramos; Massini-Cagliari, 2024; Tojeira-Ramos, 2025) na língua portuguesa. Em um diálogo metodológico com a Fonologia de Laboratório (Beckman; Kingston, 1990; Pierrehumbert; Beckman; Ladd, 2000), a análise se concentra no controle das trajetórias melódicas da F0 de enunciados declarativos neutros que compõem uma amostra particular (Tenani, 2002) e são sintetizados, na variedade brasileira do português, pelo Google Cloud Text-to-Speech. Para a operacionalização da análise, são utilizados o programa computational Praat (Boersma; Weenink, 2024) e os critérios de notação tonal do sistema P-ToBI (Frota; Oliveira; Cruz; Vigário, 2015), a fim de estabelecer uma articulação entre as pistas acústicas contínuas, exibidas em uma escala logarítmica (Nolan, 2003), em consonância com o caráter não linear da percepção auditiva humana (Barbosa, 2019, 2022), e as categorias fonológicas discretas, segundo os princípios teóricos gerativistas que embasam a interpretação gramatical da entoação. Os resultados indicam que a aplicação da suavização e da interpolação da F0 possibilita uma detecção eficaz dos eventos tonais, independentemente da gama de altura melódica, e evidenciam a influência de decisões relativas ao processamento fonético na organização fonológica dos dados, com implicações à avaliação linguístico- computacional da modelagem prosódica da fala sintética (Apoio: CAPES/PROEX - Processo 88887.953987/2024-00).
Palavras-chave: processamento de fala; entoação; português brasileiro
JUAREZ DOMINGOS CRESCÊNCIO NETO
[Gramática Funcional]
POLISSEMIA GRAMATICAL DAS RELAÇÕES TEMPORAIS EM LIBRAS: UM ESTUDO TIPOLÓGICO-FUNCIONAL DAS LEITURAS CONDICIONAIS, CAUSAIS E CONCESSIVAS
INTRODUÇÃO: Nas descrições tradicionais, as relações temporais, causais, condicionais e concessivas costumam ser tratadas como categorias gramaticais distintas, frequentemente identificadas por conectivos específicos. Entretanto, dados da Língua Brasileira de Sinais (Libras) evidenciam ocorrências em que tais conectivos estão ausentes, exigindo do interlocutor a interpretação da relação lógico-semântica entre os Estados de Coisas por outros recursos linguísticos. Parte-se da hipótese de que a temporalidade constitui a matriz semântica responsável por favorecer diferentes leituras lógico-semânticas. Propõe-se que relações de anterioridade temporal favorecem interpretações condicionais e causais, enquanto relações de simultaneidade favorecem interpretações concessivas. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: O estudo fundamenta-se nas discussões funcionalistas sobre polissemia e polifuncionalidade das construções adverbiais desenvolvidas por Sweetser (1990), Heine, Claudi e Hünnemeyer (1991), Traugott e König (1991), Kortmann (1997) e Lima-Hernandes (1998; 2004), para as línguas orais, e Lima (2019) e Klomp (2019), para as línguas de sinais. Embora empreguem terminologias distintas — polissemia, polifuncionalidade, reinterpretação induzida pelo contexto, convencionalização de implicaturas conversacionais e layering, essas propostas convergem ao reconhecer que construções temporais podem favorecer leituras condicionais, causais e concessivas. OBJETIVOS: Investigar a polissemia gramatical das orações subordinadas adverbiais temporais em Libras, demonstrando que relações de anterioridade favorecem leituras condicionais e causais, enquanto relações de simultaneidade favorecem leituras concessivas, evidenciando uma rede de afinidades semânticas cujas fronteiras são graduais e permeáveis. MATERIAIS E MÉTODOS: A pesquisa adota abordagem à luz da Linguística Tipológico-Funcional. O corpus é constituído por ocorrências de orações subordinadas adverbiais temporais extraídas do Corpus de Libras da UFSC (Quadros, 2014), componente Surdos de Referência. As ocorrências foram analisadas quanto à organização temporal entre os Estados de Coisas, à configuração sintática das construções, às expressões não manuais e aos fatores semântico-pragmáticos envolvidos na interpretação. RESULTADOS ALCANÇADOS: Os resultados evidenciam que construções temporais sem conectivos explícitos apresentam comportamento gramatical polissêmico. Relações de anterioridade favorecem leituras condicionais e causais, enquanto relações de simultaneidade favorecem leituras concessivas. Os dados permitem sustentar que a temporalidade não constitui apenas uma categoria adverbial, mas o princípio organizador das inferências que licenciam leituras condicionais, causais e concessivas. Em Libras, essa estrutura emerge mesmo na ausência de conectivos explícitos, indicando que a polissemia reside na construção gramatical e na organização temporal entre os Estados de Coisas. Ocorrência ilustrativa: CRESCER-JUNTOS IX(ele) E(embora), IX(eu) CRESCER ORALIZAR (Crescemos juntos ao longo da infância, mas, [apesar de ele sumir], eu continuoí oralizando).
Palavras-chave: Libras; Polissemia gramatical; Orações subordinadas adverbiais; Relações temporais; Linguística Tipológico-Funcional
JULIA RIBEIRO CHIQUETTO
[Análise do Discurso]
"PARABÉNS, VOCÊ SOBREVIVEU À MARATONA DE BOSTON!": UMA ANÁLISE BAKHTINIANA DE EQUÍVOCOS EM CAMPANHAS PUBLICITÁRIAS
Este trabalho investiga como mensagens publicitárias refletem, refratam e contribuem para a circulação de problemas sociais, considerando que a publicidade se constitui como prática discursiva atravessada por valores, memórias e disputas de sentido. O objetivo é analisar de que modo escolhas verbais e visuais feitas por marcas podem produzir efeitos de sentido não previstos, especialmente quando acionam discursos socialmente sensíveis relacionados a temas como a violência, a memória coletiva, o gênero e a racialização. Para tanto, toma-se como corpus dois conjuntos de enunciados publicitários que alcançaram ampla repercussão pública: um e-mail de marketing enviado pela Adidas aos participantes da Maratona de Boston, nos Estados Unidos; uma ação publicitária da empresa brasileira Bombril (a campanha televisiva “Mulheres que brilham”); e a nomeação de um produto (“Krespinha”) que compôs o portfólio da mesma empresa. O quadro teórico-metodológico fundamenta-se na perspectiva dialógica do discurso, desenvolvida pelo Círculo de Bakhtin, especialmente nos conceitos de enunciado, dialogismo, vozes sociais e responsividade (Bakhtin, 1997, 2006). Nessa perspectiva, o sentido não se encontra isolado nas palavras ou imagens utilizadas, mas se constrói na relação entre o enunciado, os discursos anteriores que ele mobiliza e as respostas produzidas por seus interlocutores. Metodologicamente, realiza-se uma análise qualitativa e interpretativa das peças selecionadas, articulando sua materialidade verbo-visual aos contextos sociais e históricos evocados, bem como à repercussão observada na imprensa e nas redes sociais. No caso da Adidas, por exemplo, a expressão utilizada para felicitar os concluintes da maratona, ao afirmar que eles haviam “sobrevivido” à corrida, retomou involuntariamente a memória do atentado ocorrido na Maratona de Boston em 2013, desencadeando reações negativas. Nas ações da Bombril, observa-se a mobilização de sentidos associados às identidades femininas e raciais, cuja circulação pública evidencia tensões entre humor, representação e reprodução de estereótipos. A análise indica que a publicidade participa ativamente de embates sociais e ideológicos: mesmo quando pretende promover produtos ou aproximar marcas do público, pode atualizar discursos controversos e gerar respostas críticas. Assim, o estudo reforça a relevância da abordagem bakhtiniana para compreender a produção e a recepção de sentidos na comunicação publicitária contemporânea.
Palavras-chave: Publicidade; Dialogismo; Bakhtin
JULIANO QUEREGUINI
[Análise do Discurso]
Efeitos de sentido, desejo e circulação na comunicação contemporânea: uma abordagem discursiva dos ambientes digitais
No contexto da comunicação contemporânea, marcada pela intensificação dos fluxos digitais e pela centralidade de formatos breves e imagéticos, a produção de sentidos coloca desafios específicos para os estudos da linguagem, especialmente no que se refere às relações entre discurso, mídia e tecnologias digitais. Este trabalho insere-se no campo da Análise do Discurso de linha francesa, a partir das contribuições de Michel Pêcheux, e tem por objetivo analisar a articulação entre efeitos de sentido, desejo e circulação na produção de sentidos em ambientes digitais. Parte-se do pressuposto de que o sentido não é transparente nem imanente à linguagem, mas resulta de processos históricos e ideológicos que atravessam o sujeito. Nessa direção, considera-se o discurso como espaço de materialização dessas relações, no qual se inscrevem posições-sujeito e modos de significação. Em interlocução com a psicanálise, especialmente com Jacques Lacan, o trabalho mobiliza a noção de desejo como operador relevante para a compreensão dos mecanismos de adesão e circulação dos sentidos na contemporaneidade. O corpus analítico é composto por enunciados oriundos de ambientes digitais, tais como vídeos curtos e publicações em redes sociais, com atenção às formas de circulação mediadas por dispositivos técnicos. Nesse contexto, considera- se ainda a emergência de sistemas de inteligência artificial generativa, que operam sobre a materialidade linguística por meio de cálculos probabilísticos, produzindo enunciados organizados por recorrências estatísticas da linguagem. Tais sistemas, ao se basearem em grandes corpora, reinscrevem formações discursivas já estabilizadas, funcionando como dispositivos de repetição do interdiscurso. A análise busca evidenciar como tais materialidades produzem efeitos de sentido que não se restringem à dimensão semântica, mas se articulam a dinâmicas de desejo que sustentam a visibilidade, a repetição e a adesão dos sujeitos aos discursos. Argumenta-se, ainda, que a fluidez dos enunciados, marcada pela atenuação de descontinuidades e pela continuidade textual, tende a reduzir pontos de tensão, favorecendo a estabilização de determinados sentidos e a adesão ideológica. Desse modo, o trabalho propõe contribuir para os estudos voltados à relação entre linguagem, mídia e tecnologia, ao destacar que a compreensão dos processos de significação na contemporaneidade demanda considerar não apenas a dimensão ideológica, mas também as condições de circulação dos discursos em ambientes digitais.
Palavras-chave: Análise do Discurso; desejo; inteligência artificial generativa
JÓNATAS NASCIMENTO DE BRITO
[Letramento(s)]
O DESIGNER E SEU PROJETO: MULTILETRAMENTOS NA ESCRITA DO GÊNERO DISCURSIVO CONTO NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL
Na perspectiva bakhtiniana, os gêneros refletem as condições específicas e as finalidades que orientam as atividades humanas, e o processo de utilização da língua está diretamente associado aos aspectos sócio-históricos e ideológicos de seus usuários. No cenário contemporâneo, o debate também tem incluído enunciados/gêneros produzidos em contextos de amplificação tecnológica e complexificação das interações multiculturais. Mesmo assim, a perspectiva bakhtiniana sobre os gêneros discursivos, a produção de enunciados e outros conceitos bakhtinianos não poderia estar, conforme Rojo e Barbosa (2015, p. 121), tão evidenciada e presente nas “novas mentalidades, mídias e ambientes”. Nesse entendimento, as práticas discursivas se manifestam nos mais diversos contextos de utilização das multilinguagens e a ampliação dessas práticas para as situações que se vinculam a realidades sócio-históricas concretas contribui para que “os jovens aprendam a tomar decisões, fazer escolhas e assumir posições conscientes e reflexivas” (BNCC, 2018, p. 477). O protagonismo desses sujeitos no contexto de práticas multiletradas só poderá ressignificar os processos de criação, produção e circulação de conteúdos se as práticas escolares de leitura/escrita dos textos multissemióticos, multimodais e hipermidiáticos considerarem a utilização de ferramentas tecnológicas, como o celular e o computador, por exemplo, para o desenvolvimento de uma produção colaborativa, em que os estudantes participam simultaneamente do processo de escrita de um texto. Partindo desse entendimento, o presente trabalho tem por objetivo analisar a produção do gênero discursivo conto por estudantes do 8º ano do ensino fundamental de uma escola pública do interior de Pernambuco, a fim de observar a produtividade teórico-metodológica de práticas multiletradas na abordagem dos gêneros discursivos. Ao se voltar para o contexto da educação básica, o trabalho focaliza atividades de planejamento, leitura, produção e processamento do referido gênero discursivo, tendo em vista também as práticas multiletradas dos textos contemporâneos. Como resultado, a pesquisa revela que o trabalho com a escrita em sala de aula pode ser significativo e produtivo desde que haja por parte dos estudantes a percepção do seu papel como designer dos seus projetos, capaz de utilizar ferramentas tecnológicas, outros textos e práticas multiletradas que favoreçam as etapas de planejamento, produção, processamento e circulação de gêneros discursivos diversos. A pesquisa, fundamentada nos trabalhos de Bakhtin (2010, 2011, 2016), Cope e Kalantzis (2009, 2020), Pinheiro (2020), Rojo (2009, 2020), entre outros, mobiliza os seguintes conceitos-chave: gênero do discursivo, multiletramentos, designer.
Palavras-chave: (Não disponível no arquivo original)
JÚLIA AYUME YAJI
[Tradução]
A marcação da informalidade e as escolhas tradutórias de marcas de oralidade em diálogos de literatura Young Adult do inglês para o português
As marcas de oralidade presentes em diálogos são tentativas de simular a fala na escrita, utilizando de elementos linguísticos para criar esse efeito de verossimilhança com a linguagem oral usada em momentos do cotidiano, em que não há necessariamente um monitoramento da língua (O’Shea, 2018). Essas variações são marcadas nos textos por meio do uso de contrações, estruturas sintáticas mais simples, gírias e expressões. Entretanto, no português brasileiro, observa-se uma certa preferência pela norma padrão ao tratar-se da escrita, fato que pode ser devido a uma ideologia linguística que acaba por estigmatizar variedades não padrão no Brasil (Bagno, 2007). Em controvérsia, ao analisar a língua inglesa, esta parece, em certos contextos, “tolerar” melhor certos usos mais informais da língua, utilizando-se de contrações, gírias e expressões mais marcadas, sem essa pressão sobre a língua padrão. Ao considerarmos a literatura Young Adult — esta que abrange um público mais jovem e é usado para uma literatura inserida no mundo real, enfrentando problemas comuns às vidas de jovens e adolescentes (Cart, 2008) — que, ao possuir uma temática mais jovem, e, portanto, permitiria um maior contexto de informalidade, questiona-se como as escolhas tradutórias em relação às marcas de oralidade são traduzidas para o português brasileiro. Considerando este contexto, a presente pesquisa busca analisar como a marcação de informalidade, por meio das marcas de oralidade, é traduzida nos diálogos do inglês para o português, considerando normas e estratégias tradutórias (Toury, 1995), como compensação, apagamento e entre outras. Para isso, dois livros de literatura Young Adult com foco em relacionamentos amorosos serão analisados — com seu original e sua tradução —, sendo submetidos ao software AntConc com o intuito de analisar as marcas presentes no original e no texto de chegada, procurando gírias, contrações, estruturas sintáticas mais simples e entre outras. Após o levantamento quantitativo, será feita uma outra análise, mais qualitativa, com o intuito de entender normas e estratégias tradutórias, tais como o apagamento das marcas, ou a compensação e manutenção destas. A hipótese a ser testada é que há uma tendência a normalização e apagamentos das marcas de oralidade, apagando essa informalidade presente nos diálogos do texto original. Deste modo, a presente pesquisa contribui para a área de Estudos da Tradução, proporcionando uma análise acerca das escolhas tradutórias em livros de literatura Young Adult.
Palavras-chave: marcas de oralidade; variação linguística; Young Adult
KAROLINE MIRELLA DA SILVA
[Formação de professores]
Reflexão sobre a formação inicial de professores a partir da análise de videoaula em Libras por um grupo de estudantes surdos e ouvintes
Esta pesquisa tem por objetivo: a) analisar videoaulas em Libras, elaboradas por licenciandos, considerando as percepções por um grupo de alunos surdos e ouvintes; e b) compreender de que modo tais percepções podem subsidiar aprimoramento no processo de formação inicial de professores. O estudo insere-se nas políticas linguísticas e educacionais que reconhecem a Libras como meio legal de comunicação e instrução, conforme estabelecido pelo Decreto nº 5.626/2005 (BRASIL, 2005), garantindo o direito à educação bilíngue para as pessoas surdas. Nesse cenário, conforme discutido por Nogueira e Cabello (2017), destaca-se a produção de materiais em vídeo como estratégia formativa no âmbito da disciplina de Libras, contribuindo para o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais inclusivas. A abordagem metodológica adotada nesta pesquisa foi qualitativa e com a prática de grupo focal (Krueger; Casey, 2015) para a coleta de dados, realizada com alunos surdos e ouvintes de uma escola polo bilíngue, situada numa cidade do interior do estado de São Paulo. Os encontros com o grupo foram registrados a partir de videogravações das interações, notas de campo durante os encontros de discussão com os participantes e diário de campo elaborado pela pesquisadora. Os resultados parciais indicam que, para os estudantes, embora as videoaulas em Libras ampliem acesso ao conteúdo, ainda há desafios quanto à clareza conceitual e à adequação linguística. Tais dificuldades se relacionam às condições de acesso e suporte oferecidas pela escola (Gesser, 2009), reforçando a necessidade de repensar a formação inicial docente para compreensão e produção do gênero videoaula como material acessível à realidade sociolinguística do alunado surdo. Nesse sentido, ainda que a análise esteja em andamento, as percepções dos alunos surdos e ouvintes acerca das videoaulas mostraram-se relevantes para a identificação de aspectos a serem aprimorados no processo de formação inicial de professores. Assim, os apontamentos do grupo investigado subsidiam reflexões importantes para o redimensionamento de práticas formativas, indicando a necessidade de maior atenção às especificidades do público-alvo e ao desenvolvimento de competências pedagógicas mais sensíveis à diversidade presente no contexto educacional. (Apoio: FAPESP – Processo 2022/05908-0 e FAEPEX – Processo 3348/24).
Palavras-chave: Formação de Professores; Educação de surdos; Videoaulas em Libras
KELCILENE GRÁCIA
[Lingüística Aplicada]
Multiletramentos na alfabetização
A pesquisa com abordagem qualitativa interpretativa visa ao desenvolvimento dos multiletramentos no processo de alfabetização em turmas do 2º ano do Ensino Fundamental de uma Rede Municipal de Ensino situada no Vale do Paraíba. O estudo contextualiza as profundas transformações sociocomunicativas do século XXI, que resultaram na emergência da Geração Alfa, composta por crianças que interagem precocemente com diversos dispositivos digitais e telas. Ressalta-se que esses recursos tecnológicos multissemióticos permitem uma interação ativa e não apenas passiva, exigindo que as instituições família e escola repensem seus processos educativos para considerar a linguagem como um instrumento essencial de transformação do ser biológico em ser sócio-histórico. A problemática da pesquisa divide-se em três: a necessidade de garantir interesses e necessidades de aprendizagem específicos dessa nova geração; a lacuna presente na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que, ao focar na apropriação do sistema de escrita alfabética, prioriza gêneros simples da vida cotidiana (como listas e bilhetes) e negligencia gêneros multissemióticos nos primeiros anos do EF; e, por fim, a influência de editais como o do PNLD, que podem limitar a contribuição dos materiais didáticos para uma leitura com sentido ao ignorar os múltiplos letramentos necessários aos estudantes contemporâneos. Tais fatores motivam o questionamento sobre a efetividade dos materiais oferecidos pela Rede e sobre como implementar um trabalho com multissemiose na alfabetização. O objetivo geral desta pesquisa consiste em investigar o cenário da alfabetização com foco nos multiletramentos, visando instrumentalizar o trabalho docente com gêneros discursivos multissemióticos. Como objetivos específicos, busca-se examinar as limitações dos livros e plataformas didáticas atuais e apresentar uma proposta didática decolonial voltada às turmas de 2º ano. Teoricamente, o estudo fundamenta-se na concepção sócio-histórica da linguagem, em necessidades de práticas de multiletramentos tanto discutidas por Roxane Rojo, e na "Pedagogia das Encruzilhadas" de Luiz Rufino, defendendo uma abordagem epistêmica que considere a multiplicidade linguística para formar sujeitos nativos digitais. Com isso, espera-se romper com o reducionismo pedagógico e encorajar práticas de leitura significativas alinhadas aos desafios do século XXI.
Palavras-chave: Alfabetização; Multiletramentos; Materiais didáticos
KÊNIA DE SOUZA OLIVEIRA
[Linguística de Córpus]
A CONSTRUÇÃO METAFÓRICA EM ARTIGOS DE OPINIÃO: UM ESTUDO CONTRASTIVO COM BASE EM CORPUS
Este estudo, vinculado à tese de doutorado, delineia-se como uma pesquisa empírico-descritiva. O objetivo geral da investigação consiste em analisar a ocorrência e a frequência de uso de unidades fraseológicas em textos autênticos pertencentes ao gênero discursivo artigo de opinião. Busca-se, ainda, examinar os valores metafóricos dessas unidades, bem como cotejar sua ocorrência e frequência em textos jornalísticos, contexto do qual o corpus será selecionado e constituído. Como objetivos específicos, pretende-se: i) identificar as unidades fraseológicas presentes nos textos; ii) verificar os valores metafóricos dessas unidades; e iii) analisar contrastivamente a ocorrência de metáforas em artigos de opinião. m articulação com os pressupostos da Linguística de Corpus. A pesquisa fundamenta-se, teórico-metodologicamente, nos estudos de Mikhail Bakhtin (2003); Tony Berber Sardinha (2004, 2007, 2009, 2012); Gloria Corpas Pastor (1996, 2010); Raymond Gibbs (2017); George Lakoff e Mark Johnson (1980, 2002); José Manuel Mena e Marta Bertrán, (2002); Ariel Novodvorski (2021); Ana Maria Pinto Pires de Oliveira e Aparecida Negri Isquerdo (2001); Stella Tagnin (2013) e FainaTissari (2017), em articulação com os pressupostos da Linguística de Corpus. O corpus da pesquisa será composto por 30 textos autênticos, previamente selecionados do Corpus de Referência do Português, que servirão de base para a análise proposta. Os dados serão gerados por meio do software Sketch Engine.A partir da análise preliminar dessa pequena amostra, constatou-se que o uso de metáforas, nesse contexto, não se restringe a um recurso estilístico da linguagem, mas desempenha função discursiva. As metáforas identificadas contribuem para a intensificação de avaliações, para a dramatização de acontecimentos e para a construção de efeitos de sentido capazes de aproximar o discurso do universo experiencial do leitor, favorecendo envolvimento persuasivo. Nesse sentido, percebe-se que tais construções metafóricas atuam como estratégias de representação da realidade, influenciando a forma como temas e acontecimentos são conceptualizados no discurso jornalístico. Além disso, a análise inicial evidenciou a recorrência de expressões relacionadas ao domínio do corpo humano, sugerindo a presença de padrões metafóricos associados à experiência corporal como forma de compreensão de fenômenos abstratos e políticos. Esse aspecto reforça os pressupostos da Teoria da Metáfora Conceptual, segundo a qual a experiência corpórea exerce papel central na estruturação linguística dos sujeitos. Observa-se, portanto, que a recorrência desse domínio metafórico configura um padrão relevante, que poderá ser confirmado ou ampliado nas etapas posteriores da investigação, com o auxílio das ferramentas da Linguística de Corpus.
Palavras-chave: Metáfora; Gênero discursivo; Linguística de corpus
LAENY AMARAL DE SOUSA
[Sociolinguística e Dialetologia]
O falar roraimense em foco: avaliação subjetiva, percepção sociolinguística e pertencimento
O objetivo deste trabalho é apresentar uma pesquisa de doutorado em andamento que busca investigar as avaliações subjetivas, as percepções sociolinguísticas e as dimensões de pertencimento de três grupos residentes em Roraima, denominados “roraimenses”, “roraimados(as)” e “nem um nem outro”, que são formas de autoidentificação já documentadas em Sene (2024) e Sene, Chaves e Procópio (2024). A investigação procura compreender, a partir das discussões desenvolvidas por Chaves (2021), Nascimento (2021), Sene, Chaves e Procópio (2024) e Sene (2024), de que maneira o sentimento de pertencimento, associado ao uso de formas linguísticas em um contexto de intenso contato dialetal, influencia a construção das percepções que os falantes elaboram acerca de sua própria variedade linguística. Parte-se da hipótese de que os três grupos apresentam diferenças em suas avaliações sociolinguísticas, relacionadas a seus distintos níveis de pertencimento, perceptíveis na (i) valorização da variedade local, (ii) hierarquização de outras variedades linguísticas e (iii) percepção do falar roraimense como uma variedade híbrida. Do ponto de vista teórico, a pesquisa fundamenta-se nos pressupostos da Teoria da Variação e da Mudança Linguísticas (Weinreich; Labov; Herzog, 2006 \[1968\]; Labov, 2008 \[1972\]), articulando-se às discussões sobre avaliações subjetivas, percepções sociolinguísticas (Campbell-Kibler, 2009), significado social da variação (Eckert, 2022 \[2012\]) e modelos culturais (Feltes, 2018; Sene, 2022). No que se refere aos procedimentos metodológicos, o estudo prevê a elaboração e aplicação de um questionário on-line, desenvolvido na plataforma Google Forms, composto por três instrumentos avaliativos e perceptuais: autopercepção (self-reported test), reconhecimento dialetal (family background test) e técnica de estímulos pareados (matched-guise test) (Labov, 2001; Lambert et al., 1960). A aplicação ocorrerá em dois momentos distintos (I e II), envolvendo dois grupos diferentes de participantes. Atualmente, a pesquisa encontra-se em fase de organização dos questionários on-line e aguarda aprovação do projeto pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Palavras-chave: Avaliações e Percepções; Roraima;
LARISSA DE SOUZA LOPES KERR
[Filologia]
O prólogo da edição dos Fastos de Ovídio de António Feliciano de Castilho
Nosso trabalho propõe apresentar a edição poética dos Fastos de Público Ovídio Nasão (43 a.C. – 17/18 d.C.) realizada por uma figura central da literatura portuguesa oitocentista, António Feliciano de Castilho. A partir do século XVIII, observa-se o aumento das traduções de obras de Ovídio à língua portuguesa, sobretudo de poemas célebres das Metamorfoses e da poesia do exílio, Tristes, embora também tenha sido publicada uma edição bilíngue dos Fastos em 1749. O poema-catálogo das celebrações religiosas romanas e seus costumes, organizado de janeiro a junho e com detalhes do que era feito em cada dia importante naquele contexto histórico-cultural, foi objeto de admiração, apesar de seu caráter incompleto. A publicação da tradução dos Fastos em 1862 encerra o ciclo tradutório das obras ovidianas realizado por António Feliciano de Castilho, sucedendo a publicação parcial das Metamorfoses (1841), e integral dos Amores (1858) e da Arte de Amar (1862). Nosso estudo introdutório concentra-se principalmente na apresentação do prólogo redigido pelo tradutor. A partir da leitura desse paratexto, busca-se investigar de que modo a tradução de Castilho orienta e molda a recepção de Ovídio para o público de sua época. É possível identificar características inerentes do romantismo português, tais como o providencialismo e a chamada “Religião do Progresso”. Além disso, a análise destaca o forte viés nacionalista de Castilho, que sugere um projeto de “Fastos Nacionais” (ou Fastos Portugueses), defendendo a língua portuguesa como um monumento de identidade nacional e idealizando a vida rural e a comunhão com a natureza. O enfoque metodológico analítico-interpretativo privilegia o diálogo entre o texto clássico e seu contexto de recepção no século XIX. Dessa forma, é possível observar de que modo o prólogo funciona como dispositivo de mediação cultural e literária, orientando a leitura e enquadrando a obra de Ovídio segundo valores estéticos e culturais próprios do período.
Palavras-chave: Filologia clássica; Recepção de Ovídio; Paratextos literários
LARISSA NUNES DOS SANTOS
[Linguística Aplicada]
Gêneros digitais em uma coleção para o ensino de língua inglesa: propósitos sociocomunicativos e oportunidades de multiletramentos
Este trabalho visa apresentar resultados preliminares de uma pesquisa em andamento, que busca identificar as potencialidades de multiletramentos por meio de gêneros digitais recontextualizados em uma coleção de livros didáticos de língua inglesa. Delineiam-se como objetivos específicos: (i) descrever os gêneros digitais presentes na coleção sob a ótica da Pedagogia com Base em Gêneros da Escola de Sydney — PGES (Rose; Martin, 2012); (ii) identificar a estrutura esquemática e as escolhas léxico-gramaticais que materializam os textos que compõem o corpus; e (iii) avaliar os desafios e as potencialidades das práticas de multiletramentos que podem ser mediadas por tais gêneros. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, cujo corpus é composto por uma seleção de textos na coleção de livros didáticos Se Liga na Língua Inglesa que instanciam gêneros que circulam em suportes digitais. A coleção é voltada aos anos finais do Ensino Fundamental e depreende-se que tais gêneros passaram por um processo de didatização, uma vez que foram deslocados de seu suporte digital original para o material didático. A fundamentação teórica ancora-se na Pedagogia com base em Gêneros da Escola de Sydney (PGES) como proposta por Rose e Martin (2012) para a análise da estrutura dos gêneros, na Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) de Halliday e Matthiessen (2014) e nos Sistemas Discursivos de Martin e Rose (2007) para a análise linguística dos textos e na Pedagogia dos Multiletramentos conforme Cope e Kalantzis (2000) e Rojo (2012) para a discussão sobre os multiletramentos que podem ser desenvolvidos. Mobiliza-se a PGES como aporte teórico- metodológico por oferecer procedimentos analíticos para identificação da estrutura potencial dos gêneros a partir do mapeamento das três macrofamílias de gêneros, cujos propósitos sociocomunicativos podem ser envolver o leitor, informar o leitor ou avaliar via discussão e argumentação. Desse modo, após o levantamento dos textos de gêneros digitais na coleção, buscou- se analisar a estrutura esquemática para categorizá-los dentro dos gêneros específicos que compõem as macrofamílias (Rose; Martin, 2012) conforme seus propósitos sociocomunicativos. As escolhas léxico-gramaticais são examinadas sob o prisma da LSF (Halliday; Matthiessen, 2014) e dos Sistemas Discursivos (Martin; Rose, 2007). Por fim, à luz da Pedagogia dos Multiletramentos, discutem-se as possibilidades e desafios para fomentar diferentes letramentos por meio desses gêneros digitais recontextualizados. Resultados preliminares revelam a predominância de gêneros da macrofamília do avaliar, que mobilizam, em primeira instância, o letramento crítico e o letramento multimodal, dada a integração de diferentes modos semióticos e a construção de posicionamentos atitudinais.
Palavras-chave: Gêneros Digitais; Livro Didático de Língua Inglesa; Linguística Sistêmico-Funcional
LEO VITOR NAVARRO
[Fonética e Fonologia]
Encurtamento vocálico e condicionamento morfológico em Kadiwéu
Este trabalho descreve e analisa um padrão de encurtamento de vogais longas em paradigmas nominais do Kadiwéu, língua da família Guaicurú. A partir de um conjunto de 418 pares singular– plural extraídos do dicionário Kadiwéu–Português de Griffiths (2002), observa-se que vogais longas são, em geral, estáveis; o encurtamento, porém, se concentra fortemente em uma configuração específica de fronteira morfológica: uma vogal longa em posição final de raiz seguida imediatamente, no plural, por uma obstruinte surda no início de um pequeno conjunto de sufixos: /-ko, -tedi, -qo, -qa, -t?o, -t?e/. Nessa configuração, o corpus apresenta encurtamento categórico, com 51 casos em 51. Fora dela, o encurtamento é raro e disperso, ocorrendo em apenas 5 casos de 367. Esses fatos indicam que uma generalização puramente segmental, do tipo “vogais longas não ocorrem antes de obstruinte surda”, é empiricamente inadequada. O gatilho relevante é a introdução de material sufixal particular na borda da raiz, ou seja, trata-se de um caso de alomorfia/pluralização com condicionamento morfológico da fonologia. Do ponto de vista metodológico, a associação é resumida por uma regressão logística com um único preditor binário, que codifica a presença ou ausência da configuração raiz–sufixo descrita acima. O modelo captura a separação observada nos dados. Como dispositivo de análise teórica, propõe-se uma modelagem em Teoria da Otimalidade, conforme Prince e Smolensky (1993), com representação moraica do contraste de quantidade: o encurtamento corresponde à perda de uma mora, penalizada por Max-?. A pressão para encurtar em fronteira raiz– sufixo é implementada por uma restrição de marcação contra vogais longas antes de obstruintes surdas, *VVT. Com base em Pater (2007), admite-se também uma versão dessa restrição indexada a um conjunto de sufixos morfologicamente delimitado, *VVT-L. O ranking *VVT-L >> Max-? >> *VVT deriva encurtamento no domínio indexado e preserva vogais longas em contextos não indexados, inclusive em formas monomorfêmicas. O resultado central é que a interação entre alomorfia de plural e indexação de restrições oferece uma explicação direta para a localização do encurtamento e para o contraste entre regularidade maciça e exceções residuais.
Palavras-chave: quantidade vocálica; Teoria da Otimalidade; indexação de restrições
LEONARDO GONÇALVES DE LIMA
[Análise do Discurso]
Mobilidade enunciativa e memória pública: a narrativa de Paulo Freire no Museu da Pessoa
Este trabalho analisa a mobilidade enunciativa na narrativa de Paulo Freire, intitulada “Esperança de uma sociedade mais bonita”, disponibilizada no acervo digital do Museu da Pessoa. O estudo parte da compreensão de que, em relatos de vida, o sujeito não se apresenta de modo fixo e homogêneo, mas se desloca entre diferentes posições de dizer, reorganizando sua experiência por meio de movimentos enunciativos que articulam memória individual, reflexão histórica e projeção coletiva. Nesse sentido, o objetivo é examinar como a narrativa de Paulo Freire constrói tais deslocamentos e como eles se tornam legíveis no interior de um dispositivo museológico-digital voltado à preservação e circulação de histórias de vida. Ao reunir, arquivar e difundir testemunhos, o Museu da Pessoa não atua apenas como suporte de armazenamento, mas como instância de mediação que reinscreve esses relatos em uma esfera pública da memória, ampliando suas condições de circulação e escuta. A análise busca demonstrar que a mobilidade enunciativa presente no depoimento de Paulo Freire se manifesta na oscilação entre lembrança pessoal, elaboração autobiográfica, comentário social e formulação de princípios ético-políticos, fazendo com que a narrativa ultrapasse o plano da rememoração individual e adquira densidade histórica e coletiva. Teoricamente, o trabalho articula pressupostos da Análise do Discurso de linha francesa com discussões sobre memória pública, arquivo digital e musealização. Argumenta-se que a inserção do testemunho no acervo do Museu da Pessoa intensifica os efeitos dessa mobilidade, uma vez que a fala deixa de se dirigir apenas ao interlocutor imediato da entrevista e passa a se projetar para públicos amplos e indeterminados. Desse modo, a narrativa não apenas registra uma trajetória, mas também produz uma forma de presença pública do sujeito, em que a mobilidade enunciativa se converte em elemento decisivo para a construção de sentidos sobre si, sobre a experiência vivida e sobre o mundo social. Conclui-se, de maneira inicial, que a análise da mobilidade enunciativa, quando relacionada às condições de musealização e circulação digital da narrativa, permite compreender de forma mais ampla como histórias de vida se transformam em memória pública e em patrimônio discursivo compartilhado.
Palavras-chave: mobilidade enunciativa; Museu da Pessoa; memória pública
LETÍCIA CARDOSO LEAL
[Semiótica]
Do Algoritmo Ao Discurso: Um Olhar Semiótico Sobre A Ia Na Produção De Fanfics
O avanço das ferramentas de Inteligência Artificial generativa tem transformado a produção textual e literária na cultura digital, especialmente em gêneros como as fanfictions, caracterizados pela reescrita, pela circulação colaborativa e pelo tensionamento das fronteiras da autoria. Nascida da interação entre leitores e universos ficcionais preexistentes, a fanfic constitui um espaço privilegiado para observar como narrativas se reorganizam em diálogo com a coletividade. Ao inserir a IA nesse processo, cria-se um novo cenário em que a máquina se torna mais um agente de produção textual, deslocando práticas estabelecidas e interferindo diretamente nos modos de enunciação. Este trabalho discute como a IA participa da criação de fanfics a partir de uma perspectiva semiótica, destacando suas dimensões narrativas e enunciativas. No nível narrativo, observa-se que a máquina organiza os textos a partir de padrões já estabelecidos, como roteiros de ação, papéis actanciais e enredos recorrentes. Essa recorrência revela a presença de esquemas internalizados, que fazem a IA reproduzir estruturas narrativas típicas de romances ou de convenções consolidadas no próprio universo das fanfics. No nível enunciativo, por sua vez, nota-se a performatização de estilos, vozes e marcas ideológicas que reproduzem estereótipos ou tensionam convenções sociais, como os discursos de gênero e sexualidade. A IA, nesse sentido, não é compreendida como sujeito criador autônomo, mas como operador discursivo que influencia e reconfigura a escrita em interação com o usuário, instaurando novas formas de enunciação e deslocando práticas já consolidadas no espaço das fanfics. A presença da IA não impõe modos de escrever, mas abre possibilidades que podem tanto reforçar quanto transformar discursos, dependendo do contrato estabelecido entre usuário e ferramenta. Nesse ponto, interessa observar como os contratos de veridicação se reconfiguram e como os valores sociais atravessam o texto gerado. A escrita de fanfic mediada por algoritmos, portanto, permite refletir não apenas sobre repetição e inovação, mas também sobre as condições de circulação de sentidos na cultura digital contemporânea. Ao discutir esses aspectos, o estudo busca evidenciar que a IA, longe de ser um recurso neutro, atua como instância enunciativa que participa da construção de significados. Assim, a análise insere-se no campo das teorias do discurso e da semiótica, levantando questões sobre narrativa, enunciação e tecnologia, e contribuindo para ampliar o debate sobre os impactos da Inteligência Artificial nos processos de escrita criativa e de circulação de discursos na sociedade. (Apoio: CAPES - Código de Financiamento 001)
Palavras-chave: Semiótica Discursiva; Inteligência Artificial; Autoria Digital
LETÍCIA DA SILVA NUNES
[Fonética e Fonologia]
Uma proposta de análise acústica para os segmentos da língua Shanenawa - Pano
Este trabalho apresenta resultados parciais de um estudo que visa descrever os segmentos fonéticos da língua indígena brasileira Shanenawa (Glottocode: shan1283), pertencente à família linguística Pano. Seus falantes habitam a Aldeia Morada Nova, na Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, em Feijó, Acre. A pesquisa se situa na área da Fonética Acústica e seu principal objetivo é descrever acusticamente os segmentos da língua por meio de oscilogramas e espectrogramas. Isso implica aprofundar a descrição, proposta em estudos anteriores (Cândido, 1998, 2004; Nunes, 2023) de como os segmentos fonológicos vocálicos e consonantais podem ser realizados foneticamente dependendo do seu contexto fonético. A metodologia consiste primeiro na etiquetagem dos dados com o software Praat, organizados em quatro camadas: sílabas, segmentos fonéticos, descrição morfológica e glosa. Em seguida, com base nos oscilogramas e espectrogramas gerados, cada segmento é analisado individualmente por meio de suas características acústicas, como duração, frequência dos formantes e intensidade, o que permite sua caracterização e delimitação precisa. O arcabouço teórico para a produção da fala é a teoria fonte-filtro, de Gunnar Fant (1960), que concebe a fala como resultado da interação entre uma fonte sonora e o filtro do trato vocal. Os dados analisados foram coletados anteriormente e usados para as análises de Cândido (1998, 2004), em que foram feitas gravações em fita cassete de dados dos mais variados gêneros (elicitação, narrativas tradicionais etc.). Embora estejam disponíveis dados contendo narrativas e cantigas populares relativas à cultura Shanenawa, para esta pesquisa foram escolhidas as fitas com os dados lexicais elicitados. Isso se justifica porque, para uma análise acústica inicial, dados lexicais são mais adequados por sua maior concisão e facilidade de segmentação dos fones e também por se tratar de uma pesquisa desenvolvida durante o período do mestrado, que é mais curto e não permite tanto tempo para análises mais elaboradas. Todos os dados analisados neste estudo estão disponíveis no site California Language Archive (BRANDÃO, BRANDÃO, CÂNDIDO, 2021).
Palavras-chave: Shanenawa; fonética acústica; descrição linguística
LETÍCIA SANGALLI DE SOUZA
[Tradução]
Dinâmicas de (re)tradução em The Virgin Suicides: um contraste face à hipótese de Berman
O presente trabalho apresenta os resultados parciais de uma análise comparativa em curso entre as duas traduções para a língua portuguesa da obra The Virgin Suicides, de Jeffrey Eugenides — que, durante o intervalo entre as traduções, foi premiado com o Pulitzer Prize for Fiction. O estudo incide nas escolhas lexicais, sintáticas e no tratamento de referências culturais, abrangendo, até ao momento, a análise de metade do romance original. A nível quantitativo, constata-se que a tradução de 1994, de autoria de Marina Colasanti e lançada pela Rocco, apresenta uma extensão 0,91% superior ao texto de partida, ao passo que a retradução de 2013, de autoria de Daniel Pellizzari e lançada pela Companhia das Letras, regista um aumento de 6,86%, reflexo de diferentes estratégias de reescrita e expansão textual. A análise qualitativa revela que a T1 exibe escolhas lexicais tendencialmente mais formais e “datadas”, pautando-se por uma abordagem sintética que frequentemente recorre à simplificação e à supressão de referências socioculturais. Não obstante, no plano sintático, aproxima-se mais das construções da língua inglesa. Em contrapartida, a T2 adota um registo globalmente mais informal, fluido e coloquial, tanto nos espaços de narração como nos diálogos. Esta versão evidencia um apreço pelo detalhamento, recorrendo à expansão do texto e a notas de rodapé para preservar com precisão e tornar compreensíveis as marcas culturais (como nomes de marcas e referências da década de 1970). Estes dados preliminares tensionam a clássica Hipótese da Retradução de Antoine Berman. Embora a T1 cumpra a premissa de facilitar a introdução da obra generalizando elementos semânticos e culturais, paradoxalmente, revela-se mais “fiel à letra” ou estruturalmente colada à sintaxe original. Por seu turno, a T2, assumindo uma postura estrangeirizante na manutenção do léxico cultural explícito, atua de forma domesticadora e naturalizante na fluidez do texto, privilegiando estratégias explicativas. Conclui-se, assim, que a dicotomia entre as estratégias opera de forma complexa e não linear em ambas as traduções, desafiando as previsões canónicas da teoria da retradução. (Apoio: CAPES - Processo 88887.253766/2026-00)
Palavras-chave: Antoine Berman; Retradução; The Virgin Suicides
LILIAN INES GOMES BORGES MALVESTI DE LIMA
[Formação de professores]
Entre o ideal pedagógico e o esgotamento: discursos sobre mal- estar e burnout na profissão docente
A presente pesquisa tem como objetivo analisar os modos de produção do mal-estar, do estresse e do burnout na profissão docente, a partir dos dizeres de professores da rede pública de ensino. O estudo fundamenta-se na Análise de Discurso, conforme as formulações de Michel Pêcheux e Eni Orlandi, em articulação com a Psicanálise, especialmente a partir das contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Parte-se do pressuposto de que o sofrimento docente não pode ser compreendido apenas como manifestação individual ou patológica, mas como efeito de condições históricas, ideológicas e institucionais que atravessam o trabalho educacional contemporâneo e produzem determinados modos de subjetivação. A pesquisa possui abordagem qualitativa e toma como corpus recortes discursivos produzidos em entrevistas semiestruturadas realizadas com professores do ensino médio da rede pública, cujas análises mobilizam conceitos centrais da Análise de Discurso, tais como formação discursiva, memória discursiva, condições de produção, interdiscurso, posição-sujeito, silenciamento e efeitos de evidência, articulados às noções psicanalíticas de mal-estar, sintoma, angústia e ideal. Os resultados parciais apontam que os dizeres docentes são atravessados por contradições entre o ideal pedagógico relacionado ao desejo de ensinar, à transmissão do saber e à função social da escola e discursos contemporâneos marcados pela lógica da performatividade, da produtividade e da responsabilização individual. Observa-se que o sofrimento emerge discursivamente por meio de marcas de exaustão, culpa, insuficiência e esvaziamento do sentido do trabalho, evidenciando processos de silenciamento e individualização do adoecimento. Conclui-se, ainda que parcialmente, que o mal-estar e o burnout docente se constituem como efeitos produzidos no entrelaçamento entre discurso, ideologia e subjetividade. Nesse sentido, a pesquisa busca contribuir para as discussões sobre os modos de produção de sentidos acerca do sofrimento docente na contemporaneidade, bem como para a problematização dos discursos que sustentam os processos de adoecimento no campo educacional. Destacam-se, ainda, impactos subjetivos nas relações pedagógicas e institucionais contemporâneas.
Palavras-chave: Mal-estar docente; Burnout; Análise de discurso
LUANA FURLAN DE MEDEIROS
[História das Ideias Linguísticas]
Fato social e língua: aproximações e limites entre Émile Durkheim e Ferdinand de Saussure
Propomos, neste trabalho, investigar a relação entre a noção de social e a teoria saussuriana, relacionada a noção de fato social elaborada por Émile Durkheim. O objetivo central consiste, a partir de Loder e Flores (2006), em compreender em que medida esse conceito pode ser aproximado das formulações de Ferdinand de Saussure, especialmente no que se refere à constituição da língua enquanto fenômeno coletivo. Partimos da hipótese de que o social, embora nem sempre tematizado de maneira explícita, ocupa um lugar importante na teoria saussuriana, atravessando diferentes momentos de sua elaboração. Para desenvolver essa investigação, realizamos uma análise que contempla tanto o Curso de Linguística Geral quanto as fontes manuscritas do autor, em especial os manuscritos Notes "item". Sôme et sème (Ms. fr. 3951/15) e Item et Aphorismes (Arch. de Saussure 372 bis/26), buscando articular esses materiais em um percurso interpretativo mais amplo. Essa escolha metodológica justifica-se pela necessidade de ultrapassar a leitura de apenas uma obra, considerando assim também os manuscritos como espaço de formulação teórica em movimento. Desse modo, procuramos evidenciar como o social se instaura e se desdobra na teoria, ora associado à dimensão coletiva da língua, ora relacionado às condições de existência dos sistemas linguísticos. A análise apoia-se em contribuições teóricas de autores que se dedicaram à leitura e à interpretação da obra saussuriana, como Tullio De Mauro (1967), Claudine Normand (2000 [2009]), Robert Godel ([1957] 1969) e Rudolf Engler ([1968]1989) , além do próprio Durkheim (1895 [2007]), cuja noção de fato social permite tensionar aspectos da teoria da língua. Ao colocar em diálogo esses referenciais, buscamos não apenas identificar aproximações conceituais, mas também problematizar possíveis interfaces entre o campo da sociologia e o da linguística. Espera-se, com isso, contribuir para uma compreensão mais precisa do estatuto do social na teoria saussuriana, evitando reduções que o tratem como elemento secundário ou meramente contextual. Ao contrário, defendemos que o social participa ativamente da definição da língua, sendo condição de sua existência e de seu funcionamento enquanto sistema.
Palavras-chave: Saussure; Durkheim; social
LUCAS FABIANI MARCATTO
[Fonética e Fonologia]
Desambiguação através da representação gráfica: uma proposta de transcrição acessível
Investigação conduzida por Nogueira (2020, 2022) problematiza a educação linguística de surdos no cenário brasileiro como sendo tradicionalmente organizada a partir de uma perspectiva bilíngue que trata línguas como entidades estáticas e separadas. A autora questiona ações de ensino que se distanciam das práticas comunicativas cotidianas de pessoas surdas. Alternativamente, a autora propõe que a complexidade dos eventos comunicativos precisa ser refletida nos instrumentos que se utilizam para estudá-los e argumenta a favor de contribuições que promovam perspectivas translíngues. Nesse cenário, esta pesquisa visa contribuir com uma proposta de transcrição de áudios que compõem um banco de dados. Selecionamos para estudo sentenças sintaticamente ambíguas, como “Encontrei o dançarino de balé russo”, que podem ser produzidas com pausa (P) em duas posições para desfazer a ambiguidade, a saber: (i) [[Encontrei o dançarino] P [de balé russo]]; (ii) [[Encontrei o dançarino de balé] P [russo]]. Essas sentenças têm duas interpretações, a saber: o enunciado (i) se caracteriza por “russo” qualificar “balé”, resultado da estrutura [[o dançarino] [de balé russo]]; o enunciado (ii) se caracteriza por “russo” qualificar “dançarino”, resultado da estrutura [[o dançarino de balé] [russo]]. Apresentaremos a análise de áudios em que, para cada produção, há uma configuração prosódica e pausas ocorrem como indicado em (i) e (ii). Nossos resultados, obtidos a partir de enunciados falados por informante da variedade do português do noroeste paulista, confirmam a descrição feita por Gravina e Fernandes-Svartman (2013) a partir de dados de outra variedade paulista. Avançamos ao considerarmos que, se apenas escrita, a sentença “Encontrei o dançarino de balé russo” será ambígua para o leitor. Nesta comunicação, apresentamos respostas de um teste respondidos por ouvintes para uma proposta de representação gráfica desse tipo de sentença sintaticamente ambígua, com o objetivo de promover transcrição de fala acessível a pessoas com surdez. Para a estrutura exemplificada em (i), propomos a representação “o dançarino / de balé russo”. Para a estrutura em (ii), propomos a representação “o dançarino de balé / russo”. O uso do sinal gráfico “/” é proposto em razão de as fronteiras sintáticas em questão serem locais onde vírgulas não podem ser empregadas. Concluímos retomando a problematização inicial à luz das avaliações escritas registradas pelos participantes do teste de validação da transcrição.
Palavras-chave: Fonologia prosódica; Pausa; Educação linguística de surdos
LUCAS PEREIRA EBERLE
[Fonética e Fonologia]
Fidelidade à base nominal nos paradigmas verbais do português brasileiro
Formas rizotônicas da primeira conjugação no português brasileiro exibem alternância vocálica quando a raiz contém uma vogal média anterior. Se a raiz termina em consoante, a vogal [e] é abaixada para [?], como em “pêg-ou – pég-o”; se termina em vogal, [e] é ditongado para [ej], como em “mape-ou – mapei-o”. Já na posição átona, no contexto de hiato, a tendência é a elevação de /e/ para [i]: “mape-ou – mapi-ou”. Contudo, existem alguns poucos verbos que bloqueiam o alteamento em sílabas átonas, ao mesmo tempo que permitem o ditongo [ej], como “fre-ou – frej-ou – *fri-ou”. Denomina-se essa alternância excepcional, pois é observada em apenas 7 dos 166 verbos terminados em -ear do Dicionário br.ispell. Argumenta-se que a alternância para [ej] em posição átona viola restrições de marcação na língua, pois sílabas átonas são curtas e seriam preferíveis vogais curtas em seu núcleo. Considerando que há aumento da duração intrínseca das vogais à medida que maior é a abertura do trato vocálico (Flemming, 2004; Lehiste, 1970; Escudero et al., 2009), o ditongo [ej] em posição átona seria considerado uma forma marcada. Para que seja possível esta alternância excepcional, defende-se que existam restrições de fidelidade fora do paradigma verbal, isto é, fidelidade à base nominal, pois todos os verbos excepcionais apresentam o ditongo acentuado na forma nominal (ex.: freio). Para testar essa hipótese, realizou-se um experimento de julgamento de aceitabilidade. Substantivos existentes na língua, sem verbos relacionados, foram usados para criar 18 novos verbos: 6 com [ej] tônico (“correio”), 6 com [ej] átono (“garagem”) e 6 sem [ej] (“aula”). Os participantes (n = 71) julgaram como “naturais” ou “não naturais” as formas verbais com as vogais [ej], [e] e [i] em posição átona, por exemplo: “corriar, correar e correiar”. Os resultados mostraram que os participantes aceitaram [ej] como “natural” em 42% dos casos quando as bases nominais apresentavam [ej] tônico e em cerca de 12% nos demais tipos de base, diferença considerada significativa por um modelo de regressão logística de efeitos mistos, com efeitos aleatórios para participante e item. A redução para [i] foi aceita com taxas semelhantes em todos os tipos de base (aproximadamente 62%). Conclui-se que os falantes são sensíveis às bases nominais, pois generalizaram o padrão de alternância, mesmo que este seja excepcional na língua; ainda assim, a forma menos marcada [i] é preferível independentemente da base.
Palavras-chave: Alternância Vocálica; Fidelidade à bases; Paradigma Verbal
LUCCA MOLLO BRASILEIRO DE CARVALHO
[Semiótica]
O mito de Dejanira em duas cenas passionais: relações intertextuais entre as Metamorfoses e as Heroides de Ovídio
O presente trabalho apresenta uma análise comparativa de duas representações do mito de Dejanira tomados da Literatura Latina Antiga, ambos do poeta romano Ovídio (séc. I AEC). O primeiro trecho analisado está no livro IX na parte “Aquelou e Hércules”, da obra As Metamorfoses, já o segundo, é tomado da Carta IX, “Dejanira a Hércules”, presente na obra Heroides. Ambos os trechos escolhidos relatam a mesma passagem do mito, mas de formas diferentes. Enquanto o primeiro pertence a uma obra de caráter épico, em que se narram em debreagem enuncia diversos mitos da cultura greco- latina e Dejanira figura como interlocutora, o segundo é parte de uma epístola ficcional composta na forma de uma elegia erótica, em que a própria Dejanira é a narradora-personagem (debreagem enunciativa). Busca-se, através dessa análise comparativa, compreender as paixões mobilizadas por Dejanira em decorrência das ações de seu marido, em ambas as obras. Como exemplo de análise para a presente comunicação será utilizado o trecho que expõem a insatisfação de Dejanira, com a chegada da amante Iole e o impacto que isso lhe causa imaginando que Hércules pode vir a desposar a amante. Objetiva-se, com as análises, em que serão observadas relações intertextuais, compreender em que medida os retratos de Dejanira se aproximam e se afastam. Para isso a análise baseia-se na teoria semiótica, com ênfase no nível discursivo observando o percurso passional da personagem. A partir dessa perspectiva, a análise semiótica permite compreender como, por meio das paixões que a afetam, em especial os sentimentos de infelicidade e insegurança, isso se figurativiza em ambas as obras. Para tanto, será usada a abordagem discursiva com vistas ao reconhecimento do percurso figurativo e à manifestação dos estados de alma. Para a análise do percurso passional, o estudo baseia-se em Greimas e Fontanille (1993), Barros (1990) e Fiorin (2007).
Palavras-chave: Semiótica; Ovídio; Retórica
LUCIANA APARECIDA PARAGUASSÚ AMARAL
[Aquisição de Linguagem]
A interpretação infantil do Pretérito Imperfeito: A aquisição de uma leitura habitual
Este estudo investiga a interpretação infantil do Pretérito Imperfeito, uma construção tempo-aspectual que codifica aspecto imperfectivo no português brasileiro (PB) e expressa leitura habitual principalmente na língua falada (Ana fumava). Embora o aspecto imperfectivo seja tradicionalmente associado tanto a leituras habituais quanto progressivas (Comrie, 1976), no PB essas leituras são codificadas por construções distintas: a progressiva é realizada por perífrase com gerúndio (Ana estava fumando). Ambas envolvem intencionalidade, por não se restringirem a eventos concretamente realizados no mundo real; diferenciam-se pelo fato de a leitura habitual envolver pluralidade de eventos (Ferreira, 2005, 2016). Já o aspecto perfectivo, codificado pelo Pretérito Perfeito (Ana fumou), não é intensional, pois descreve um evento delimitado no mundo real. Até onde sabemos, apenas dois estudos examinaram aquisição de leitura habitual, verificando que o “be habitual” do inglês afro-americano é adquirido tardiamente (Jackson e Green, 2005; Green e Roeper, 2007). Já a leitura imperfectiva progressiva é adquirida mais tardiamente do que a leitura perfectiva segundo evidências interlinguísticas (van Hout, 2016), atraso atribuído à intensionalidade por Wagner (2002). Estendendo essa linha de investigação, este estudo examina como crianças adquirindo o PB como primeira língua desenvolvem a leitura habitual do Imperfeito, sob a hipótese de que a intensionalidade torna sua semântica mais complexa e, consequentemente, mais difícil de adquirir. Foram conduzidos dois experimentos, com estímulos visuais semelhantes, nos quais um personagem adulto é apresentado realizando uma atividade uma única vez quando criança (evento- singular) e outra atividade múltiplas vezes, também na infância (evento-plural). No Experimento 1, 45 crianças entre 3 e 7 anos participaram de uma tarefa de seleção de imagens com perguntas-QU, testando se atribuíam ao Imperfeito uma leitura de evento plural (O que José jogava?). As crianças atribuíram frequentemente leitura plural ao Imperfeito (74,4%), embora com menor precisão do que adultos; a idade teve efeito positivo, e observou-se ampla variação individual. No Experimento 2, um subconjunto dos participantes do Experimento 1, de 27 crianças entre 5 e 7 anos, participaram de uma tarefa de escolha forçada que comparou sentenças com o Imperfeito e o Perfeito. Embora haja preferência geral pelo Imperfeito para caracterizar contextos plurais (83%), apenas 13/27 crianças demonstraram padrão individual consistente, atribuindo leitura plural ao Imperfeito em 5 ou 6 dos 6 itens críticos. Os resultados indicam aquisição tardia e variável do Imperfeito, convergindo com achados interlinguísticos sobre a leitura progressiva, sustentando a hipótese de que intencionalidade influi no desenvolvimento das distinções aspectuais.
Palavras-chave: Aquisição; Semântica; Aspecto Imperfectivo
LUIS ENRIQUE FRANCO NEPOMUCENO
[Lexicologia e Lexicografia]
A Frequência Lexical em Língua Inglesa: Uma Análise Lexicológica de Materiais Didáticos de Cursos Preparatórios e Exames Vestibulares
Os Cursos Pré-vestibulares no Brasil, comumente conhecidos como “cursinhos”, mobilizam uma parcela significativa da população de jovens que buscam ingressar no Ensino Superior. Esses cursos têm sido frequentemente objeto de estudos nas áreas de Educação, Sociologia e Políticas Públicas. Na área de Linguística Aplicada, no entanto, existem poucas pesquisas sobre esses cursos, principalmente no que diz respeito à análise lexicológica de itens lexicais em língua estrangeira em exames vestibulares tradicionais de grande porte. Este estudo propõe uma análise do conteúdo lexical em língua inglesa verificado: 1) nos materiais didáticos de cursos pré-vestibulares; e 2) nas questões de língua inglesa presentes em exames vestibulares (Vunesp, FUVEST, Unicamp e Enem). Para a realização do trabalho, será utilizado o software Antconc, que categoriza as unidades lexicais em tabelas de frequência. Os dados serão analisados com base em estudos sobre frequência lexical, como em Coniam (1997), Dudley e Marsden (2024) e Gedik e Kolsal (2022). Inicialmente, cada corpus é examinado individualmente e, posteriormente, os resultados são comparados entre si e com o British National Corpus (BNC). Espera-se verificar se as palavras do corpus se assemelham mais aos dados de ocorrência dos exames vestibulares do que aos dos materiais didáticos. Busca-se ainda investigar aspectos lexicológicos no ensino de língua estrangeira, tais como a presença de intertextualidade; os campos lexicais predominantes; a frequência de cognatos, incluindo falsos cognatos; e o nível de contextualização lexical das atividades, com base em quatro abordagens de ensino da língua estrangeira (Yamamoto & Ota, 2016), a saber: Gramática-Tradução (GT), Método Direto (MD), Áudio-Lingual (AL) e a Abordagem Comunicativa (AC). Analisam-se também possíveis motivos para as diferenças de frequência entre as unidades lexicais mapeadas, considerando-se os gêneros textuais e temáticas recorrentes nos materiais didáticos, empregados em cursos cujo conteúdo depende fundamentalmente das expectativas do exame vestibular. A pesquisa visa preencher a lacuna nos Estudos do Léxico referente à análise de exames vestibulares e materiais didáticos nesse contexto.
Palavras-chave: Exames Vestibulares; Cursos Pré-Vestibulares; Lexicologia
LUIS FELIPPE SOARES DE CARVALHO
[Análise do Discurso]
O acontecimento Erika Hilton no discurso político brasileiro: o Instagram como espaço heterotópico de resistência e subversão no digital
As mutações do discurso político brasileiro têm sido marcadas por práticas que atravessam seu funcionamento institucional, provocando cisões que estabelecem descontinuidades responsáveis pela emergência de novas formas do “fazer político”. Com efeito, a dispersão dos acontecimentos que constituem essas regularidades comporta elementos de ordens e naturezas bastante distintas. Trata-se de um conjunto heterogêneo de técnicas, instituições, corpos e espaços mediados por saberes que operam como dispositivos, isto é, como sistemas de formação inscritos em jogos de poder em torno dos regimes de verdade sobre um discurso político dito “tradicional”. Não por acaso, compreendemos que a relação entre discurso político e dispositivo midiático, atrelada à emergência de sujeitos LGBTQIAPN+ na história recente do cenário político brasileiro, sofreu transformações expressivas com o advento da internet nos anos 1990, instaurando novas práticas e novos espaços de debate público. Portanto, nos debruçaremos sobre as práticas discursivas da deputada federal Erika Hilton em contexto digital, tomando como principal materialidade a ser analisada enunciados extraídos de publicações em seu perfil público na rede social Instagram. Assim, trata-se de uma pesquisa orientada pelos pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso Francesa, no âmbito dos Estudos Discursivos Foucaultianos. Primeiro, discutiremos a noção de heterotopia, a fim de compreender de que maneira, para Foucault (1999, 2009 e 2013), a análise dos espaços “regulares” de sociabilidade implica a análise de contraespaços, opostos e ao mesmo tempo inseridos na realidade tópica. Depois, buscaremos descrever como a rede social Instagram, um instrumento do dispositivo midiático contemporâneo, se configura como um desses espaços heterotópicos, suas características e especificidades. Pretendemos, com isso, repensar a forma como Erika Hilton, num movimento de dispersão entre diferentes posições/funções sujeito, constitui e gerencia uma prática política marcada por gestos de resistência e subversão, a partir dos processos de subjetivação que atravessam os regimes de (in)visibilidade sobre sujeitos e corpos LGBTQIAPN+ na história recente da política brasileira. (Apoio: FAPEG – Processo 202510267000677).
Palavras-chave: Discurso político; Heterotopia; Erika Hilton
LUISA SALOMAO GOTTARDO
[Sociolinguística e Dialetologia]
“VAMOS FALAR DE VARIAÇ[OM]?”: A VARIAÇÃO NA PRONÚNCIA DO DITONGO NASAL <ÃO> NA FALA DE INFLUENCIADORES DIGITAIS ÍTALO-DESCENDENTES
Este trabalho, fundamentado na Sociolinguística Variacionista (Labov, 2008 [1972]) e nos pressupostos da variação estilística e da vertente Línguas de Herança, investiga a variação na pronúncia do ditongo nasal na fala de três influenciadores digitais do município de Marilândia/ES, uma comunidade fortemente influenciada pelo dialeto vêneto. O objetivo principal é analisar se há alternância entre as formas [ðw] e [ã??] nos vídeos publicados no Instagram por esses influenciadores e identificar os contextos que condicionam o uso das variantes. A hipótese da pesquisa prevê que os falantes ítalo-descendentes mantêm a variante [ðw], influenciada pelo vêneto, e que o ditongo nasal [ã??] aparece com maior frequência em contextos formais. Para testar essa hipótese, foram coletados e transcritos vídeos dos stories do Instagram dos influenciadores, utilizando o programa Elan, e para análise dos dados o Excel. Os resultados confirmam, em parte, a hipótese estabelecida. A variante [ðw] apareceu em 42,9% das ocorrências, enquanto [ã??] ocorreu em 57,1%, indicando uma presença expressiva da variante associada ao vêneto. Curiosamente, [ðw] também apareceu em contextos formais, como em propagandas, com 35% das ocorrências, contrariando a expectativa inicial de que [ã??] dominaria em situações mais monitoradas (ocorreu em 61% dos casos). A análise revelou ainda que certos fatores linguísticos influenciam o uso das variantes. Em termos de classe gramatical, advérbios de intensidade favoreceram o uso de [ã??] (71,43%), enquanto verbos favoreceram [ðw] (81,82%). Já quanto à extensão dos vocábulos, palavras polissílabas favoreceram o uso de [ã??] (83,33%), enquanto dissílabos, monossílabos e trissílabos apresentaram proporções próximas entre as duas variantes. Conclui-se que, mesmo após seis gerações da imigração italiana, traços do dialeto vêneto permanecem vivos na fala dos jovens influenciadores de Marilândia, inclusive em suas produções para as redes sociais. A pesquisa evidencia, assim, a resistência e adaptação das línguas de herança em contextos contemporâneos e midiáticos. LABOV, W. Padrões Sociolinguísticos. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
Palavras-chave: Sociolinguística. Vêneto. Ditongo nasal
LUIZ EDUARDO LAWALL
[Historiografia Linguística]
"Auraicept na n-eices": a gramatizalização do idioma gaélico
A contribuição dos estudiosos irlandeses para os estudos da linguagem no período inicial da Idade Média é significativa. A produção intelectual realizada pelos monges da Ilha dos Sábios e a sua influência na educação nas ilhas britânicas e no continente europeu, inclusive na área da linguagem é, portanto, um assunto relevante para a Historiografia da Linguagem. Entre as produções deste período, destaca-se a obra “Auraicept na n-e?ces”, “O Manual dos Sábios”, escrita em irlandês medieval por volta do século VIII, que trata do chamado alfabeto Ogham, de aspectos gramaticais do gaélico e de poesia. A respeito dessa obra, importa para os estudos da Historiografia da Linguística que há uma clara influência dos gramáticos latinos, como Isidoro e Virgilius Maro Grammaticus, além de Prisciano e Donato, por exemplo, que são citados nominalmente. Assim, o conteúdo gramatical que aborda o idioma irlandês medieval sofre grande influência da gramática latina. Aspectos gramaticais como o alfabeto latino e irlandês, comparação de adjetivos, preposições que regem determinados casos, entre outros elementos, são retirados da estrutura gramatical do latim e utilizados para descrever o próprio gaélico. Embora as semelhanças entre os dois idiomas não sejam absolutas em todas as categorias gramaticais, essa obra se mostra como um objeto de estudos interessante para a Historiografia da Linguística ao se analisar a gramaticalização de uma língua celta a partir da gramática latina, ainda que apenas em determinados aspectos. Assim, pretendemos abordar em nossa comunicação o contexto no qual a “Auraicept na n-e?ces” foi produzida e observar o próprio texto, analisando as passagens nas quais o irlandês é comparável à estrutura gramatical latina e os limites dessa comparação dentro da própria obra. Por isso, nosso aporte teórico será Auroux (2015), para tratar da questão da gramaticalização, e Law (1982), para tratar a respeito da contextualização histórica. Koerner (1995) também entra como aporte metodológico em nossa comunicação.
Palavras-chave: Gaélico; Gramática latina; Gramaticalização
LÁÍÑ ÑÅÐÀËÄÈ ÍÅÍÐÈÓÅÑ
[Linguística Aplicada]
Ensino intercultural crítico de francofonias em materiais didáticos: uma análise de Recursos Educacionais Abertos de um repositório de projeto extensionista
A disponibilização de Recursos Educacionais Abertos (REA) constitui uma estratégia fundamental para a democratização do acesso ao conhecimento, uma vez que amplia oportunidades formativas por meio de materiais gratuitos, adaptáveis e acessíveis a diferentes contextos educacionais. Ao possibilitar o uso, a revisão, a remixagem e a redistribuição de conteúdos, os REA favorecem práticas pedagógicas mais colaborativas, inclusivas e socialmente comprometidas. Partindo de tal pressuposto, a Rede de Apoio aos Professores de Línguas Estrangeiras (RAPLE), projeto extensionista, tem como objetivos contribuir para a formação de professores de línguas estrangeiras, tanto inicial quanto continuada, promover a troca de experiências pedagógicas entre docentes e discentes e disponibilizar um acervo de Recursos Educacionais Abertos (REA) em um repositório digital de acesso gratuito (Nascimento; Rozenfeld, 2024). Nesse contexto, tem-se como objetivo, na presente comunicação, apresentar e discutir dados provenientes da análise desses materiais voltados ao ensino da língua francesa, tomando como eixos teóricos os conceitos de ensino de francofonias (Chnane-Davin; Cuq, 2024; 2021) e de ensino intercultural crítico (Walsh, 2019), articulados às perspectivas de Recursos Educacionais Abertos (UNESCO, 2012; Furniel et al., 2016) e de Cultura Livre (Furtado; Amiel, 2019). Parte-se do entendimento de que o ensino do francês pode contribuir para a valorização de múltiplas vozes, identidades, territorialidades e contextos socioculturais, ultrapassando uma visão eurocêntrica, homogênea e hegemônica da língua (Carroll et al., 2025). Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa e descritiva, por meio da análise de planos de aula, tomados como REAs, disponíveis no site da RAPLE, especificamente aqueles destinados ao ensino de francês como língua adicional (FLA) e/ou segunda língua (FL2). Busca-se, assim, examinar de que maneira tais materiais incorporam perspectivas de diversidade linguística, cultural e histórica, especialmente no que se refere às experiências de comunidades francófonas, frequentemente invisibilizadas nos currículos tradicionais. Desse modo, investiga-se se os recursos analisados favorecem uma concepção mais plural, crítica, inclusiva e socialmente situada da língua francesa, entendida também como língua historicamente imposta a populações marginalizadas. Espera-se, assim, que os resultados possam contribuir para reflexões sobre a produção, circulação, curadoria e uso de materiais didáticos abertos na formação docente, fortalecendo práticas pedagógicas comprometidas com justiça social, diversidade cultural, decolonialidade e epistemologias plurais.
Palavras-chave: RAPLE; Francofonias; Interculturalidade Crítica
LÍVIA OLIVEIRA AZEVEDO
[Sociolinguística e Dialetologia]
Correlações entre variação, gênero textual-discursivo e tradução: o caso do acusativo anafórico de terceira pessoa em legendas de série
Com base no estudo de Azevedo (2024) sobre a variação do acusativo anafórico de terceira pessoa em legendas audiovisuais e nos debates que enfocam a importância de investigar as correlações entre variação linguística e gêneros textuais-discursivos (Vieira; Lima, 2019; Biazolli; Berlinck, 2021; Lima, 2022; Azevedo, 2024), este trabalho apresenta resultados preliminares de uma pesquisa voltada ao uso do objeto direto anafórico de terceira pessoa em legendas de séries. Dessa maneira, a investigação toma como pilares os pressupostos teórico-metodológicos da Teoria da Variação e Mudança Linguísticas (Weinreich; Labov; Herzog, 2006[1968]; Labov, 2008[1972]), com vistas a observar de que modo a realização desse fenômeno é condicionada por variáveis linguísticas e extralinguísticas, definidas com base na literatura (Omena, 1978; Duarte; 1986; Cyrino, 1994; Marafoni, 2004; Freire, 2005; Santana, 2016; Lima, 2022; Azevedo, 2024), e por especificidades do processo tradutório envolvido na produção de uma legenda. Com isso em mente, foi construído um corpus de legendas de séries produzidas e disponibilizadas pela plataforma de streaming Netflix, representantes das categorias comédia, drama, reality show e documentário, a fim de analisar como o fenômeno se comportaria em materializações distintas de um mesmo gênero. Todas as legendas foram extraídas automaticamente por meio de um script de usuário e preparadas para análise no programa Subtitle Edit (Olsson, 2025). Além disso, por meio da elaboração de um continuum compósito de estilo e fala/escrita, proposto com base nas características estruturais e situacionais das legendas audiovisuais, tem-se como objetivo investigar as correlações entre a realização do acusativo anafórico de terceira pessoa no corpus e o gênero legenda. Espera-se que o clítico acusativo seja a variante mais produtiva no material analisado, posto que a legenda, embora vise a emular padrões de fala naturais, parece adotar uma linguagem mais próxima da escrita (Azevedo, 2024). Ademais, a expectativa é de que as taxas de aplicação das variantes do fenômeno sejam significativamente diferentes, a depender dos tipos de legenda considerados, principalmente devido às particularidades de cada um deles. Finalmente, espera-se verificar uma distribuição escalar das variantes ao longo do continuum, com o emprego do clítico aumentando conforme as legendas se aproximam do polo de formalidade/escrita. Dessa maneira, a pesquisa busca contribuir com as investigações sobre o acusativo anafórico de terceira pessoa no português brasileiro, além de colaborar com discussões sobre a influência dos gêneros textuais-discursivos na variação linguística.
Palavras-chave: Variação do acusativo anafórico de terceira pessoa; Legenda audiovisual; Gênero textual- discursivo
MANUEL JOSÉ VERONEZ DE SOUSA JÚNIOR
[Análise do Discurso]
O discurso beligerante do futebol brasileiro: os pré-discursos em foco
Valendo-nos de Franco Júnior (2017), é evidente que ninguém questione que devemos levar em consideração as condições sócio-históricas de produção e de surgimento de fenômenos filosóficos, literários, artísticos, políticos etc. Para além disso, é também inquestionável que toda e qualquer manifestação cultural exprime a cinesia da história que, por sua vez, em certa medida, também intervém na(s) manifestação(ções) cultural(ais). Contudo, quando se trata de jogos, como o futebol, parece não ser tão evidente esse imbricamento entre a manifestação específica do esporte e suas correlações sócio-históricas-culturais. De acordo com este autor, o futebol não se constitui e não se legitima autonomamente, como se estivesse alheio à história. Posto isso, com base em fundamentos do quadro teórico-metodológico da Análise do Discurso de linha francesa, sobretudo a partir da noção de Pré-discursos formulada por Marie-Anne Paveau em seu livro Os Pré-discursos: sentido, memória, cognição (2013), a presente comunicação tem o objetivo de apresentar as análises de alguns dados relacionados às questões do futebol brasileiro, com o intuito de verificarmos como se dá o imbricamento entre o discurso do futebol brasileiro e os pré-discursos concernentes às guerras e aos conflitos armados. Dessa forma, formulamos duas hipóteses: i) o discurso do futebol brasileiro parece ser de configuração bélica; e ii) os pré-discursos em torno dos quadros de crenças, de saberes e de práticas relacionados às guerras e aos conflitos armados parecem alimentar e retroalimentar esse suposto discurso bélico do futebol brasileiro. Por fim, nosso resultado é de que esses pré-discursos se imbricam com o discurso do futebol brasileiro, dando a este um tom bélico, por meio de uma linguagem de guerra ressignificada, semanticamente, de determinados léxicos, termos e verbetes (como artilheiro, capitão, bomba etc.) e, também, por meio de uma espécie de metáfora do conflito, como se fosse uma violência simbólica. Portanto, concluímos que nossas hipóteses podem ser, num primeiro momento, sustentadas, cabendo, assim, mais investigações. Para um futuro, mobilizaremos, a partir da tradução comparada e da análise do discurso, esses mesmos léxicos, termos e verbetes nos discursos futebolísticos de outras línguas/países/nações para verificarmos se há também um caráter bélico que os constitui. (Apoio: Edital nº 06/2023 - Programa de bolsas de produtividade em pesquisa (PQ/UEMG)).
Palavras-chave: Pré-discursos; Futebol brasileiro; Discurso bélico
MANUELLA FERNANDA MENDONÇA GAVA
[Letramento(s)]
Já vivi muitas tristezas e também muitas alegrias”: a heterogeneidade da escrita no contexto do PEJA.
Inserido no projeto “Escrita e tradição discursiva no ensino” (FAPESP, 2022/02850-0), este trabalho objetiva descrever e analisar, numa abordagem comparativa, de natureza linguístico-discursiva, o funcionamento dos mecanismos de junção (MJ5) em textos das tradições discursivas (TDs) narrativa e prescritiva, escritos por educandas – mulheres e idosas –, em aquisição da escrita, no contexto do Programa para Educação de Jovens e Adultos (PEJA/UNESP-Assis). Especificamente, objetiva, nesse universo de investigação: (i) descrever e analisar, comparativamente, o funcionamento linguístico – tático semântico – dos MJ5, em textos das TDs narrativa e prescritiva em aquisição; (ii) analisar o funcionamento dos MJ5, nessas TDs, à luz da heterogeneidade constitutiva da escrita, por meio da observação da junção mediante traços da relação oral/falado e letrado/escrito; e (iii) comparar os resultados de (i) e (ii), a fim de especificar aproximações e/ou distanciamentos na aquisição da escrita em cada uma das TDs focalizadas. O estudo fundamenta-se nos conceitos de heterogeneidade da escrita (Corrêa, 2004) e aquisição da escrita (Lemos, 1998), a partir de um diálogo crítico com o conceito de TD (cf. Kabatek, 2005), fundamentado nos estudos de Lopes- Damasio (2019, 2022a/b, 2025). A análise apoia-se no fenômeno da junção oracional, a partir dos MJ5 (Raible, 2001; Halliday, 1985; Kortmann, 1997), em espaços de repetibilidade que indiciam a história de constituição dos sujeitos em sua escrita. O material é composto de 40 textos – 20 pertencentes à TD narrativa e 20 à prescritiva –, produzidos por mulheres idosas no contexto do PEJA/UNESP-Assis, e a metodologia, qualitativo-quantitativa, apoia-se nas frequências token e type (Bybee, 2003) dos MJ5. Os resultados apontam para a predominância de construções paratáticas em relação às hipotáticas em ambas as TDs; para o predomínio dos sentidos de “adição”, “tempo posterior”, “causa”, “contraste” e “finalidade”; e para os trânsitos semânticos entre “adição > tempo posterior” e “adição > causa”, como rastros que comprovam o caráter movente da escrita em intrínseca associação à sua heterogeneidade constitutiva. Permitem que se observem, ainda, no que se refere às TDs narrativa e prescritiva em aquisição da escrita, a maior ocorrência de rastros, nos dados, relacionados à gênese da escrita e a coocorrência entre a gênese da escrita e o código escrito institucionalizado (Corrêa, 2004), confirmando, pois, a natureza heterogênea da escrita em aquisição, no espaço das tradições investigadas.
Palavras-chave: Tradição Discursiva; Heterogeneidade da Escrita; Aquisição da escrita
MARCELA RODRIGUES TAFNER
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O gênero musical reggaeton na educação linguística decolonial em espanhol: atravessamentos de gênero
A partir das concepções de Ferreira (2002), nota-se que a música é uma importante aliada no processo de educação linguística devido ao seu vínculo com a oralidade e ao seu intuito primário de promover expressividade dentro do meio social. Sendo assim, as canções podem despertar sensibilidades nos aprendizes e corazonar (Arias, 2010), isto é, unir conhecimento racional com afetividade, promovendo um processo de educação linguística significativo. Diante deste cenário, o presente trabalho destaca, no contexto da curadoria de canções, a potência presente nas origens, manifestações e recursos utilizados para a produção e disseminação do gênero reggaeton (Negrón- Muntaner; Rivera, 2009; Rivera-Rideau, 2015) dentro de territórios hispano-americanos. Esta comunicação, a qual caracteriza-se como um recorte da pesquisa de mestrado, tem como objetivo analisar as canções utilizadas para composição da aula final da sequência didática proposta na pesquisa, com o propósito de compreender se e como o reggaeton pode incentivar um processo decolonial de educação linguística em espanhol a partir de atravessamentos de gênero, os quais se fazem presentes nas canções e no contexto que envolve a pesquisa de mestrado: o Centro Cultural e Assistencial “Oficina das Meninas”, voltado a aprendizes meninas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Para isto, baseia-se nas concepções da decolonialidade (Quijano, 2005; Maldonado-Torres, 2007; Walsh, 2009; Arias, 2010) e, em particular, da decolonialidade de gênero (Lugones 2008; 2019). Desse modo, a comunicação é de natureza qualitativa (Gerhardt, Silveira, 2009) e analisa as canções “Como Mujer”, da compositora porto-riquenha Ivy Queen, e “La Respuesta”, de Becky G e Maluma, por meio de pressupostos metodológicos baseados na Análise do Discurso Crítica, sob viés decolonial (Magalhães; Martins; Resende, 2017; Resende, 2019). Diante da curadoria realizada, conclui-se que o reggaeton pode promover criticidade e significação no processo de educação linguística em espanhol, uma vez que o estilo musical mobiliza atravessamentos de gênero que podem corazonar dentro de contextos que levem em consideração as vivências e realidades dos aprendizes.
Palavras-chave: Educação linguística em espanhol; Reggaeton; Decolonialidade de gênero
MARCIA REGINA ALVES NASCIMENTO
[Lingüística Textual]
A mão esquerda da tradução: língua, textualidade e questões de gênero na obra A mão esquerda da escuridão (The Left Hand of Darkness), de Úrsula K. Le Guin
O objetivo geral deste trabalho é verificar até que ponto é possível omitir o gênero nas expressões linguísticas designativas de pessoas, especificamente na obra A mão esquerda da escuridão, de Úrsula Le Guin. Para isso, este trabalho se desenvolve em três etapas: (i) levantamento das expressões referenciais designativas de pessoas usadas na obra, contrastando-as com o original (Koch, 2004); (ii) elaboração de uma lista de possíveis alternativas das expressões referenciais em que a marcação de gênero possa ser apagada (Cavalcante; Rodrigues; Ciulla, 2003; Freitag, 2024) ; (iii) discussão sobre o papel e os limites do processo tradutório, além das restrições e imposições que própria língua impõe à produção de sentido pela linguagem ( Oustinoff, 2011; Louro, 2016). O texto analisado é a tradução brasileira (feita por Susana L. de Alexandria) do livro The left hand of darkness (A mão esquerda da escuridão), de Ursula Le Guin, em que a autora apresenta um mundo (um planeta) habitado por seres humanos neutros / andróginos. Ali os seres humanos não são biologicamente nem homem nem mulher. Ou melhor, podem expressar as características sexuais masculinas ou femininas de modo aleatório a cada mês, durante uma semana. Ninguém tem gênero ou papel fixo masculino ou feminino na sociedade e nas relações afetivas. A principal questão que emerge nesse contexto diz respeito à (im)possibilidade de se apagar marcas de gênero impostas pela língua e de como as línguas ocidentais (especialmente o Português Brasileiro) categorizam as coisas do mundo, lexicalizando, certos aspectos da realidade humana, a partir de opções arbitrárias que vão se consolidando histórica e culturalmente. Ao nos confrontarmos como a humanidade criada por Le Guin, surge a pergunta: como expressar-se adequadamente fora das imposições linguístico- culturais, especialmente no que tange às expressões linguísticas designativas de pessoas, sem marcas de gênero, mantendo, contudo, os limites da naturalidade e da norma padrão? É sobre isso que tratamos em nossa comunicação, em que apresentamos exemplos de reescrita de alguns trechos do livro A mão esquerda da escuridão e algumas discussões sobre critérios de escolhas linguísticas no processo de tradução.
Palavras-chave: Gênero; Tradução; Referenciação
MARCO AURÉLIO SCARPINO RODRIGUES
[Terminologia e Terminografia]
O lógos errante: a ausência de um oikos terminológico para os estudos do teatro clássico no Brasil
A presente comunicação propõe uma reflexão epistemológica sobre o trânsito, a recepção e a fixação de conceitos gregos fundamentais no âmbito dos Estudos Clássicos e Teatrais no Brasil. Partindo da construção de uma metáfora, o trabalho examina o lógos como uma "palavra errante", isto é, uma categoria conceitual importada que circula de forma irresoluta em traduções, salas de aula e artigos, para avaliar as consequências da ausência de um oikos terminológico, compreendido aqui como a falta de uma "morada" ou de um sistema crítico-metodológico estruturado na academia nacional. Dessa forma, argumenta-se que a assimilação acrítica e a consequente domesticação desses vocábulos pelo senso comum contemporâneo terminam por esvaziar a alteridade radical do teatro grego antigo, submetendo-o a regimes de legibilidade que lhe são alheios. Nesse contexto, ancorando-se nas reflexões teóricas de Cabré (1999), acerca da Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT), e de Cassin (2004), que postula importantes reflexões sobre os termos chamados "intraduzíveis", examinam-se quatro chaves de leitura da cena clássica que sofrem diretamente os impactos desse desterro semântico e do anacronismo (Martindale, 2005): a mímesis, cuja riqueza poética é frequentemente reduzida à cópia passiva ou ao realismo naturalista; a kátharsis, banalizada como mero desabafo emocional ou purgação terapêutica; a áte, cujo campo semântico já se mostrava complexo na Antiguidade e, posteriormente, foi cristianizada sob o viés do pecado ou da culpa moral individual; e, por fim, a manía, capturada e patologizada pelo vocabulário psiquiátrico moderno. Ao mapear a sedimentação histórica e as transmutações desses termos em diferentes línguas e, especificamente, no português brasileiro, o estudo defende, apoiado na noção de "terceiro espaço" de Bhabha (2013), que a construção de uma morada terminológica própria no Brasil não visa a um engessamento filológico ou purista do texto antigo, pelo contrário, propõe-se à edificação de um alicerce crítico que permita a pesquisadores, encenadores e artistas acessar a técnica, a complexidade e a violência originária do drama grego, despindo-o de capturas anacrônicas de contorno cristão, burguês, colonizante ou, ainda, biomédico.
Palavras-chave: Estudos Clássicos; Teatro Grego; Terminologia
MARCOS ANTONIO BARBOZA JUNIOR
[Gramática Funcional]
A CONSTRUÇÃO “PENSE(A) EM X” DO PORTUGUÊS: UM ESTUDO COGNITIVO-FUNCIONAL
A pesquisa tem como objetivo descrever, sob uma perspectiva cognitivo-funcional, as construções “pense em x” e “pensa em x” do português brasileiro, as quais, por meio da ativação de um espaço mental (Fauconnier, 1994) alternativo ao espaço da interação, geram um efeito pragmático de grau superlativo do modificador de uma entidade (e.g. Pensa em um menino chato). Os objetivos específicos são: i) descrever fatores morfossintáticos, semânticos e discursivos das construções; ii) definir sua natureza construcional, tanto em termos de esquematicidade, composicionalidade e produtividade, quanto em relação à atuação do processo de chunking, nas duas formas analisadas. Como fundamentação teórica, utilizam-se modelos de Gramática de Construções (Goldberg, 1995, 2006; Croft, 2001); de mudança construcional (Traugott; Trousdale, 2013); conceitos da Teoria dos Espaços Mentais (Fauconnier, 1994); e modelos baseados no uso, como o de Bybee (2016). O córpus da pesquisa é composto por ocorrências reais das construções extraídas da rede social X. Os fatores analisados são: i) a forma do verbo pensar (pensa ou pense); ii) significado da construção (com ou sem orientação direta ao interlocutor); iii) formas da preposição regida por pensar; iv) tipo de entidade semântico-funcional escopada pela construção (Lyons, 1966; Hengeveld; Mackenzie, 2008); v) qualificação da entidade escopada pela construção; e vi) Forma do qualificador na construção, se simples (adjetivo), ou complexo (oração adjetiva). Para a sistematização dos resultados das análises, utiliza-se o programa computacional Goldvarb (Sankoff, Smith; Tagliamonte, 2005). Os resultados obtidos até a etapa atual da pesquisa indicam que as construções ocorrem majoritariamente com “em” contraído a artigo indefinido (“num/numa”), escapando entidades do tipo indivíduo geralmente qualificadas por adjetivos simples, sobre os quais recai valor superlativo. Em casos sem adjetivo explícito, infere-se uma qualificação subentendida. Além disso, as formas caracterizam-se pela ausência de orientação direta ao interlocutor. Comparativamente, “pense em x” apresenta maior orientação ao interlocutor e maior frequência de entidades como tempo, estado-de-coisas, local e proposição. Já “pensa em x” ocorre mais com entidades do tipo indivíduo, além de apresentar maior uso de preposição contraída a artigo definido ou da preposição isolada.
Palavras-chave: Linguística Funcional; Gramática de Construções; Superlativo
MARIA CRISTINA PARREIRA DA SILVA
[Lexicologia e Lexicografia]
Lexias informais do português do Brasil: o recurso à IA pode contribuir para a elaboração de dicionário pedagógico?
O dicionário pode ser considerado como uma ferramenta auxiliar importante no contexto de ensino- aprendizagem de línguas, especialmente do léxico. Em contraposição aos resultados de pesquisas sobre os benefícios do uso do dicionário (Höfling; Silva; Tosqui, 2004; Arantes, Oliveira; Rios Ferreira, 2010; Rodrigues Pereira, 2018), nota-se um maior interesse dos estudantes das novas gerações em consultar recursos disponibilizados na internet e cria-se uma necessidade de avaliar esses recursos. Nos casos em que o suporte digital é acessível, desde computadores até os smartphones, muitas consultas são diretamente realizadas com IA (Inteligência Artificial), com fins de aprendizagem, e pesquisas atuais já demonstram ampla aplicação na educação (Picão et al., 2023; Santos et al., 2023). Assim, este trabalho envolve as seguintes questões: 1) as informações que a IA pode fornecer sobre lexias informais coincidem com aquelas presentes em dois dicionários monolíngues do português do Brasil (PB), Houais e Villar (2009) e https://aulete.com.br/? 2) A IA poderia auxiliar na seleção dos exemplos assim como a web como corpus (Kilgarriff; Grefenstette, 2003), contribuindo assim para a elaboração de um dicionário pedagógico? 3) Qual das IAs testadas apresenta resultados mais interessantes? Para fazer o estudo comparativo, selecionamos um substantivo (baranga), um adjetivo (fajuto), um verbo (xeretar) e uma expressão (de arague) da nomenclatura do dicionário em elaboração. O objetivo geral desta comunicação é testar IAs de uso gratuito — ChatGPT , Copilot , Gemini e Claude — enquanto contributo para a elaboração de dicionários e de definir prompts eficazes para esse fim. Como objetivos específicos, busca-se verificar se as informações sobre as lexias trazem definições adequadas e indicam marcas de uso como obsoletas, regionais ou pejorativas, contrastando com os registros nos dicionários. A base teórica da pesquisa localiza-se na confluência da Lexicologia e Lexicografia (Biderman, 2001), especificamente da Lexicografia Pedagógica (LexPed, segundo Rodrigues-Pereira, 2018) e do dicionário pedagógico e discursivo de lexias informais do PB (Parreira; Schinelo, 2017; Parreira, 2024). Quanto aos procedimentos metodológicos, trata-se de uma análise bibliográfica, documental, com investigação comparativa, qualitativa e reflexiva do recurso à IA e análise dos dados obtidos com relação ao léxico consultado. Nos resultados, além de responder às perguntas de pesquisa, espera-se que as contribuições sejam úteis para o desenvolvimento da obra lexicográfica digital e para reflexões de lexicógrafos com interesse no ensino de línguas.
Palavras-chave: Lexias informais; Dicionários de Português do Brasil; IA na Educação
MARIANA BARBOSA DA SILVA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Atitudes linguísticas de paulistas em Alagoas
O objetivo desta comunicação é apresentar o projeto de mestrado em fase inicial de desenvolvimento, que analisa a influência das atitudes linguísticas sobre a fala de migrantes paulistas em Alagoas, sob o viés teórico-metodológico da Sociolinguística Variacionista (Labov, 2008[1972]). Investigações recentes sobre migrantes alagoanos e paraibanos residentes em São Paulo demonstram processos de adaptação linguística relacionados à experiência interdialetal (Oushiro, 2020a; 2020b; Silva, 2016). Por outro lado, Amorim e Costa (2019), ao investigarem a fala de gaúchos em Teresina-Pl, notaram que migrantes podem não adquirir variantes locais, mesmo após longos períodos de residência. Esse comportamento também é observado por Britain (2006), que discute como o efeito da identidade social não pode ser ignorado no processo de contato dialetal, pois se um falante apresenta fortes motivações para manter a filiação com sua comunidade de origem, é capaz de resistir às normas linguísticas da nova comunidade. Estudos sobre migrantes sudestinos na cidade de João Pessoa-PB (Chacon, 2012; Possatti; 2020; Possatti; Lucena, 2020), destacaram essa influência da identificação e das atitudes linguísticas dos migrantes com a variedade pessoense para o processo de adaptação linguística de diferentes variáveis. As atitudes linguísticas dos falantes em situação de contato dialetal, no entanto, ainda é um tópico subexplorado na sociolinguística brasileira, ainda mais acerca de migrantes do Sudeste residentes na região Nordeste: não há investigações que tenham coletado motivações de migração e intenções de retorno à comunidade de origem de forma explícita e direta, para maior controle, poder explicativo e confiabilidade dos dados. A fim de verificar a influência desses aspectos, o projeto se propõe a analisar as atitudes linguísticas de migrantes paulistas em Alagoas em relação à variável fonético- fonológica (-s) em coda medial antes de /t/ e /d/ (p.ex., /eStado/) como alveolar ou palatalizada. A coleta de dados está sendo realizada por meio de entrevistas sociolinguísticas com 20 migrantes paulistas, estratificados por Gênero, Idade de Migração e Tempo de Residência em Alagoas. Tem-se por hipótese que a Idade de Migração será um melhor preditor da adaptação linguística do que o Tempo de Residência, à semelhança dos resultados de Oushiro (2020a) e Barbosa (2022), e que falantes com atitudes mais positivas quanto a Alagoas utilizem a variante palatal mais frequentemente. Além de expandir a agenda de pesquisa sobre contato dialetal no Brasil (Oushiro et al., 2023), esta pesquisa visa a contribuir para a análise do papel das atitudes no processo de adaptação de variáveis fonético-fonológicas.
Palavras-chave: contato dialetal; migração; atitudes
MARIANA DOS SANTOS BARBOSA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Mapeamento de informações étnico-raciais nos bancos de dados português brasileiro: uma análise sociolinguística sob uma ótica antirracista
Este trabalho tem como objetivo discutir o impacto do apagamento das informações étnicos-raciais nos bancos de dados e nas pesquisas sociolinguísticas sobre o português brasileiro, principalmente para os resultados das pesquisas que sobre fenômenos de variação e mudança linguística. Em trabalho anterior, analisamos a composição de bancos de dados de fala do português brasileiros, tendo em vista como e se informações étnico-raciais são estratificadas. Nosso estudo concentrou-se nos bancos de dados de fala compilados por pesquisadoras e pesquisadores da área da sociolinguística, dos quais as amostras de NURC/SP- Núcleo USP , Iboruna/Projeto ALIP (https://alip.ibilce.unesp.br/projeto), PEUL (https://peul.letras.ufrj.br/), SP2010 (https://projetosp2010.fflch.usp.br/) e VARSUL (https://www.varsul.org.br/) foram selecionadas. Em todas, os perfis sociais dos informantes contemplam as variáveis gênero/sexo, idade, escolaridade. A ausência de informações étnico-raciais dos informantes remete a discussões teórico-metodológicas, mas não se restringe a isso na medida em que historicamente o Brasil enfrentou e segue enfrentando dificuldades no acolhimento, inclusive oficial, da diversidade racial de sua população (Petruccelli, 2012). Buscando uma convergência com a proposta de uma raciolinguística (Alim, 2016), principalmente no sentido de integrar campos teóricos sobre estilo, percepção e performance e observar seu papel nos processos de racialização (Alim, 2016, p. 6), nos propomos refletir sobre o impacto do apagamento de informações raciais como uma variável dependente nas pesquisas sociolinguísticas revisando resultados apresentados em Oushiro (2015) e Rubio (2008) sobre o uso de concordância verbal. Nossa metodologia consiste na análise dos resultados dessas pesquisas num cruzamento com as questões que ora pontuamos. Ambas as pesquisas destacam o peso da variável escolaridade na determinação de padrões de uso da concordância: grau menor de escolaridade favorece o uso de formas não padrão de concordância. Todavia, no contexto brasileiro, conforme informações do IBGE (2022;2023), dados sobre escolaridade estão fortemente interseccionados com questões de raça e gênero. Sendo assim, concluímos que a raça é um fator indispensável para debater padrões sociolinguísticos e a falta de estratificação racial nas amostras de fala do português brasileiro precisa ser repensada, pois longe de ser um critério técnico reflete uma escolha de categorias que passam a ser invisibilizadas nos estudos linguísticos. Fundamentam nossa pesquisa trabalhos desenvolvidos dentro da perspectiva da sociolinguística variacionista (WEINRICH, U; LABOV, W & HERZOG, M.I. 2006) além de pesquisas sobre temas relacionados ao racismo, colonização e contracolonização, numa abordagem decolonial, racialização e raciolinguística (ALIM, RICKFORD, BALL, 2016; NASCIMENTO, 2019; BATISTA, 2022).
Palavras-chave: Raciolinguística; Sociolinguística; Banco de Dados
MARIANA VARGAS RECHIA
[Línguas de Sinais]
Análise comparativa de métodos etimológicos na língua brasileira de sinais (libras)
Este trabalho, fruto de uma iniciação científica, tem como objetivo comparar os métodos utilizados na produção ainda incipiente de propostas etimológicas em línguas de sinais, com especial atenção ao caso da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Pretende-se colaborar com o desenvolvimento de uma metodologia para uma Etimologia científica dessa língua, baseada em registros históricos, sem ignorar as especificidades da modalidade visuo-espacial. A identificação desses métodos foi feita por meio do estudo do conteúdo dos verbetes de 30 sinais do Dicionário da Língua de Sinais do Brasil, de Capovilla et al. (2019), e de outros dois dicionários de línguas historicamente relacionadas à Libras: o Historical and Etymological Dictionary of American Sign Language (ASL), de Emily Shaw e Yves Delaporte (2014), e o Dictionnaire Étymologique et Historique de la Langue des Signes Française (LSF), também de Delaporte (2007). Dessa análise, verificou-se que o dicionário de Libras nomeia como Etimologia as descrições morfológicas de cada verbete, nas quais os traços fonológicos (parâmetros) de um sinal são associados a seus significados. Os dicionários de LSF e ASL, por outro lado, utilizam o método histórico para construir suas etimologias, tendo como fontes testemunhos textuais e ilustrados que datam a partir do século XVIII. O dicionário de ASL também inclui a análise metafórica dos sinais, baseada na teoria das metáforas conceituais de Lakoff e Johnson (1980). Todos os dicionários contam com alguma descrição da iconicidade dos sinais. Reconhecidas as diferenças no fazer etimológico desses três dicionários, propõe-se a aplicação do método histórico para desenvolver etimologias em Libras, o que pode ser feito com o apoio de documentos antigos da LSF e ASL e de pesquisas sobre mudança linguística já realizadas em ASL e Libras. Além disso, o aprofundamento teórico realizado nesta pesquisa evidenciou a relevância da metáfora e da iconicidade nos estudos lexicológicos de sinais em geral. Argumenta-se que esses dois aspectos da língua sinalizada são relevantes na busca da motivação para um sinal, mas que essa deve ser considerada parte, e não o todo da pesquisa etimológica. (Apoio: FAPESP - Processo 2023/11406-0)
Palavras-chave: Etimologia; Libras; Dicionário
MARIANE MENDES GOIS DOS SANTOS
[Análise do Discurso]
O brincar e as práticas pedagógicas de leitura e escrita nos anos iniciais do ensino fundamental: contribuições do lúdico
Apresentamos resultados de uma pesquisa de doutorado, ainda não concluída, que tem por objetivo investigar como os professores dos anos iniciais do ensino fundamental, de escolas públicas, consideram os aspectos lúdicos do brincar, em situações pedagógicas que envolvem práticas de leitura e escrita. Apoiamo-nos na Análise de Discurso de Matriz Francesa Pecheuxtiana, doravante AD, que nos fornece dispositivos teórico-metodológicos para concebermos o sentido, o discurso, e, também, compreendermos a noção de discurso lúdico, proposta por Orlandi (1998). Além disso, ancoramo-nos na Teoria Sócio-Histórica do Letramento de Tfouni (2010), para posicionarmos a abordagem discursiva do letramento, partindo do pressuposto de que o letramento é um processo que vai para além da codificação e decodificação, inserindo-se em práticas sociais. Mobilizamos os estudos de Winnicott (2019) sobre o brincar para o configurarmos enquanto um espaço potencial de deslocamento de sentidos. Para a construção do corpus deste trabalho, realizamos uma oficina de formação continuada com 10 sujeitos-professores, seguida de construção e aplicação de práticas pedagógicas de leitura e escrita, produzindo materialidades discursivas que foram analisadas à luz da AD. Nossos gestos interpretativos evidenciam que a posição-sujeito docente é marcada por movimentos, ora de ruptura, ora de reprodução e previsibilidade, ora de repetição do espaço escolar, constantemente tensionado pelos sentidos já estabilizados nas práticas pedagógicas que envolvem o brincar, a leitura e a escrita. Nessas condições de produção, o brincar e as brincadeiras permitiram ao sujeito-professor ressignificar suas práticas, que passam a ser atravessadas pela interação, troca e construção coletiva, valendo-se dos saberes do alunado, enquanto sujeitos que interpretam e reivindicam sentidos. Dessa forma, à luz das análises discursivas realizadas, podemos inferir que as práticas pedagógicas escolares de leitura e escrita que articulam linguagem, experiência e brincar, valem-se do letramento e do discurso lúdico para além da lógica instrumental, isto é, não se reduz ao simples uso de jogos e atividades engajadoras e recreativas, mas implica na compreensão do brincar como uma prática de linguagem, sendo um processo de produção de sentidos, elaboração de significados e constituição discursiva do sujeito (Orlandi, 1998; Tfouni, 2010). Assim, práticas pedagógicas de leitura e escrita que mobilizem o brincar e as brincadeiras podem funcionar enquanto um espaço potencial para a circulação do discurso lúdico deslocando os sujeitos para sentidos outros. Portanto, nossa pesquisa lança luz sobre a importância de práticas pedagógicas escolares de leitura e escrita mais dialógicas, contextualizadas e que considerem o professor enquanto um sujeito de linguagem.
Palavras-chave: Análise de Discurso; Letramento; Práticas Pedagógicas
MARIELE SECO
[Lexicologia e Lexicografia]
Decisões fraseográficas para um léxico de expressões idiomáticas referentes a gastronomismos
Nossa identidade cultural está profundamente ligada à língua que falamos e aos alimentos que consumimos. As línguas encerram e articulam uma série de comportamentos das comunidades que as falam, constituindo um dos meios mais complexos de pensar, dizer e agir sobre o mundo. Da mesma forma, os alimentos, para além de sua função básica de nutrição, tornam-se importantes depositários da cultura de um povo, revelando suas características, hábitos particulares e formas de experienciar o mundo. Fundamentada na relação entre os conhecimentos da expressividade linguística das expressões idiomáticas (EI) e do tema que perpassa o trabalho, os gastronomismos, esta comunicação visa trazer questões teórico-metodológicas que guiaram a elaboração de um livro (no prelo) que traz um Léxico descritivo-contrastivo de uma seleção de expressões idiomáticas relacionadas a gastronomismos (EIG), incluindo aspectos culturais que estão na base de sua formação ou de seu uso. A obra contrastiva trata de 111 expressões idiomáticas relacionadas a gastronomismos na direção português do Brasil – francês da França e 251 EIG na direção francês da França – português do Brasil, com base em Seco (2017, 2024). O trabalho contempla o diálogo intercultural entre as duas línguas, considerando que muitos aspectos culturais não são transparentes e nem sempre facilmente acessíveis aos estrangeiros, embora possam auxiliar na sua compreensão. As EIG são descritas em fichas fraseográficas, em cores distintas para cada direção, nas quais são indicados: a categoria do gastronomismo, segundo uma classificação léxico- semântica; a EIG (direção PB>FF / FF>PB), a correspondente, que pode ser uma EI ou não ter equivalente indicado; um ou mais sinônimos, quando houver; a definição em língua portuguesa, nas duas direções; exemplos nas duas línguas, usando a web como corpus (Kilgarriff, Grefenstette, 2003); aspectos culturais que podem ajudar a compreender as EIG; outras observações de cunho gramatical, semântico ou de registros de uso. As reflexões e decisões envolvidas em todos os campos da obra podem contribuir para futuros trabalhos em fraseografia e podem motivar a elaboração de mais materiais com enfoque cultural.
Palavras-chave: Léxico e cultura; EIG – Expressões idiomáticas relacionadas a gastro; fichas fraseográficas
MARIELLY MARQUES MALAGOLI
[Lingüística Aplicada]
Entre ciência e crença: estratégias discursivas e legitimação de tratamentos de saúde alternativos nas redes sociais
Durante a pandemia da Covid-19, e em meio a um cenário sociopolítico dominado pela extrema- direita no Brasil, discursos anticiência ? como o negacionismo científico e o movimento antivacina ? se proliferaram nas redes sociais e afetaram as políticas públicas de saúde contra o coronavírus. Segundo Silva et al. (2025), o Brasil é responsável por 40% de todo o conteúdo antivacina da América Latina e do Caribe; entre os argumentos usados estão supostos danos colaterais, como: morte súbita, alteração do DNA, envenenamento, câncer e problemas cardíacos, empregados para causar medo e desconfiança na população. No Brasil, cenário deste estudo, o senso comum e a tradição servem de orientação para muitas pessoas que, afetadas pela crise generalizada de autoridade e confiança, procuram por uma medicina que reflita suas crenças e ideologias. Como resultado desse contexto de crise, associado ao crescimento das redes sociais e à descentralização da comunicação, discursos negacionistas emergiram das margens da ciência moderna e foram fortalecidos nas redes sociais por movimentos de extrema-direita que declaravam guerra a supostos inimigos ocultos ? como o establishment acadêmico, científico e político, a mídia tradicional e as grandes empresas farmacêuticas ?, ameaçando a saúde pública e coletiva (Cesarino, 2022; Han, 2022; Prior, 2021; Bennet; Livingston, 2018; Arendt, 1961). Com base no contexto apresentado, este artigo busca identificar as estratégias discursivas e os elementos linguísticos mobilizados por profissionais de saúde brasileiros que promovem a medicina alternativa em suas redes sociais, bem como compreender de que modo a construção dessas narrativas, articulada ao contexto sociocultural compartilhado entre os profissionais e seus seguidores, incentiva o abandono de tratamentos convencionais de saúde. A fim de sustentar essa investigação, serão empregados alguns referenciais teóricos, como a noção de ethos, proposta por Ruth Amossy, em Imagens de si no discurso: a construção do ethos (2005); a análise semântico-discursiva presente no Manual de Semântica, de Márcia Cançado (2025); bem como a teoria de Marie-Anne Paveau (2021), em Análise do discurso digital: dicionário das formas e das práticas, fundamental para a análise semiótica dos discursos nativos digitais.
Palavras-chave: Análise do Discurso Digital; Discurso Anticiência; Saúde Coletiva
MARILENE PEREIRA DE OLIVEIRA
[Análise do Discurso]
Tríade teórica na análise de dois Livros Didáticos de Língua Inglesa aceitos pelo PNLD
Silva (2020, p. 310) aponta que há trabalhos acadêmicos que enfatizam os gêneros presentes em livros didáticos, tanto a sua presença ou a ausência (Silva, 2006) ou gêneros relacionados a livros didáticos como catálogos, quartas capas e manuais de professores (Silva, 2012). Entendo que os livros didáticos possuem crenças capazes de constituir o imaginário e ideologia dos estudantes. Por isso, o estudo central do presente trabalho versará não especificamente sobre gênero discursivo, mas sim no enfoque teórico utilizado para Análise Crítica do Discurso referente ao tema família. O objetivo principal é explorar os significados ideacionais textuais e imagéticos em capítulos de dois livros didáticos que tratam as representações de famílias para o ensino de língua inglesa aceitos pelo PNLD. Entre os objetivos específicos, busca-se ainda analisar a linguagem verbal, tomando como base a metafunção ideacional, na busca de identificar os participantes, os processos, as circunstâncias usadas para a transmissão de significados. O quadro teórico que dá suporte a esta pesquisa é tríade, pois se assenta nos aparatos teórico- metodológicos da Gramática Sistêmico- Funcional (GSF) (Halliday, 1994; Halliday; Matthiessen, 2004); nos estudos multimodais, cujo cerne é a Gramática do Design Visual (GDV) (Kress e Van Leeuwen, 2006); e nos estudos críticos do discurso (ECD), na vertente de Fairclough (1994; 1995; 2003). Assim, metodologicamente, ocorrerá três análises: uma linguística, uma imagética e uma macro- discursiva. Constitui-se, assim, uma tríade teórica para a análise-metodológica de dois livros pesquisados para o presente trabalho. Recorro ainda a pesquisadores que tratam de forma mais específica sobre o livro didático como Paiva (2009), Silva (2012) e Tílio (2010). Pretende-se, por fim, responder ao seguinte questionamento: Como os elementos verbais se integram às imagens para promover a construção e representação de significados explícitos e implícitos? A partir dessa análise será possível identificar os aspectos ideológicos implícitos e explícitos. Serão apresentados resultados parciais de uma pesquisa de doutorado em andamento sobre o tema.
Palavras-chave: Análise Crítica do Discurso; Linguística Sistêico-
MARILZA DE OLIVEIRA
[Lingüística Histórica]
Mário e Tarsila: atualizações na colocação pronominal
Este trabalho se propõe a analisar a colocação pronominal na correspondência entre Mário de Andrade e Tarsila Amaral expoentes, cada um em sua arte, do Modernismo Paulista que lançava as bases para atualizar a linguagem culta brasileira. Trata-se de uma análise variacionista (Labov 1972) que visa a observar o peso do gênero, de forma a dialogar com os achados de Pagotto e Duarte (2005) na análise das cartas dos avós, Senador Ottoni e a esposa Bárbara. Assumimos, entretanto, que o estudo variacionista aponta a estratégia mais produtiva em uma amostra, mas deve ser complementado com o “exame apurado das situações comunicativas”, visto que pressões do uso (fatores discursivos, sociais, culturais, cognitivos e comunicativos) podem influenciar na codificação da informação gramatical (Givón, 1995, 2001). Para este trabalho, adotamos dois princípios básicos: o princípio de iconicidade e o princípio de marcação (Givón, 1995). Pelo viés da distribuição de frequência, a categoria marcada é menos frequente que a não-marcada. (Givón, 1990). O estudo do objeto linguístico em suas formas marcadas se harmoniza com paradigma indiciário (Ginzburg, 1989), de forma a oferecer uma leitura interpretativa mais pormenorizada dos usos linguísticos. Por esse motivo, o presente estudo adota os pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística (Labov, 1972 [2008]), aliando-os à teoria da Teoria Cognitivo-Funcionalista (Givón 1990) e ao paradigma indiciário (Ginzburg, 1989). A amostra é constituída de cartas escritas entre 1922 e 1940. Tendo em vista que as cartas de Tarsila para Mário são de número reduzido, completamos a amostra com suas cartas ao companheiro, Luís Martins (Martins, 2015). Foram considerados três contextos de análise para a posição do clítico: V1, grupos verbais e sentenças infinitivas preposicionadas. Os resultados comprovam a relevância do fator gênero, mas, contrariamente ao que verificaram Duarte e Pagotto (op.cit.), a gramática de Tarsila é essencialmente enclítica e a de Mário sofre mudança, passando de encílica a proclílica, a partir de 1925. Considerando que as duas mulheres fazem parte da elite brasileira, a diferença na colocação pronominal deve ter sido motivada pela educação formal de uma (Tarsila), ausente na outra (Bárbara). Apesar da alteração em sua gramática, Mário continua a usar a ênclise em alguns casos, explicáveis pelo princípio da iconicidade.
Palavras-chave: colocação pronominal; iconicidade; gênero
MARINA BAPTISTELLA PANZARIN DOS REIS
[Análise do Discurso]
HUMOR POLÍTICO DE DIREITA E GÊNEROS DO DISCURSO NO INSTAGRAM: UMA ANÁLISE DIALÓGICA
O presente trabalho busca analisar a maneira como o humor verbo-visual é utilizado por páginas conservadoras de direita no Instagram como estratégia de construção discursiva e engajamento político. A pesquisa parte da compreensão de que as redes sociais se consolidaram como importantes espaços de circulação de discursos – inclusive políticos – nos quais diferentes posicionamentos ideológicos são compartilhados e fortalecidos por meio de diferentes formas de linguagem e recursos de humor. Nesse contexto, o estudo analisa charges e cartuns publicados pela página Direita Cartoon, buscando compreender como esses gêneros discursivos produzem sentidos, reforçam ideologias e mobilizam seus públicos. A fundamentação teórica está baseada na perspectiva dialógica da linguagem desenvolvida por Mikhail Bakhtin e pelo Círculo, especialmente nas discussões sobre enunciado, gêneros do discurso e carnavalização. Também dialoga com estudos sobre humor, discurso político, verbo-visualidade e cultura digital. A pesquisa considera que os enunciados presentes nas redes sociais não são neutros, mas atravessados por valores ideológicos, relações sociais e contextos históricos específicos. Dessa forma, o humor é compreendido não apenas como entretenimento, mas como prática discursiva capaz de legitimar posicionamentos políticos, produzir identificação entre sujeitos e intensificar processos de polarização no ambiente digital. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter analítico-interpretativo, vinculada à Análise Dialógica do Discurso. O corpus é composto por publicações de páginas que se autodeclaram como páginas de direita do Instagram e que utilizam recursos verbo-visuais para abordar acontecimentos políticos. A análise busca identificar temas recorrentes, estratégias de humor, elementos visuais e linguísticos, além de compreender como esses conteúdos dialogam com discursos sociais mais amplos e com as dinâmicas próprias das plataformas digitais. Os resultados esperados apontam para a compreensão de como gêneros tradicionais, como a charge e o cartum, vêm sendo ressignificados nas redes sociais e articulados aos memes digitais. Além de contribuir para os estudos da linguagem e do discurso político nas mídias digitais, o trabalho busca promover reflexões sobre os impactos dos discursos político- humorísticos na esfera pública e na formação crítica dos usuários das redes sociais, dialogando com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente o ODS 4 e o ODS 16.
Palavras-chave: Humor político; Instagram; Análise Dialógica do Discurso
MARLENE APARECIDA PEREIRA
[Análise do Discurso]
Desinformação e violência política de gênero contra mulheres negras
Introdução: levando em consideração a crescente polarização no cenário político brasileiro e os desafios enfrentados por mulheres na esfera pública, esta pesquisa de mestrado, a qual propõe investigar práticas de desinformação contra mulheres negras que atuam na política nacional, visa contribuir e dialogar com os estudos discursivos propostos no evento. Objetivo: esta pesquisa pretende analisar, refletir e contribuir para as discussões nos campos da Análise de Discurso (AD), Interseccionalidade e Linguística Aplicada (LA) sobre práticas de desinformação, discurso e violência política de gênero. A intenção do estudo é explorar se as práticas de desinformação contribuem para a manutenção das desigualdades raciais e de gênero nas redes e nos espaços políticos. Mais especificamente, pretende analisar, entre 2019 e 2025, dizeres e peças de desinformação sobre as ativistas políticas Anielle Franco, Marina Silva e Erika Hilton. Ainda propõe problematizar os impactos das práticas de desinformação sobre essas mulheres na construção de um imaginário social sobre mulheres negras. Aspectos teórico-metodológicos: um estudo analítico sobre disinformação pode ser conduzido por meio de diferentes áreas do saber; nesta pesquisa, optamos pela ótica da interseccionalidade como aparato metodológico. Levando em conta a discussão do combate à desinformação no Brasil e as medidas tomadas, o corpus de análise da pesquisa é constituído por peças de desinformação selecionadas em duas plataformas de checagem de fatos — Aos Fatos e Agência Lupa. A escolha das agências se justifica pelos seguintes critérios: a) fornecer mecanismos de busca que permitam filtragem por nome e por cronologia. b) ser uma agência de checagem de fatos reconhecida nos programas oficiais do Conselho Nacional de Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral. Além disso, a extração de excertos das peças de desinformação é conduzida pelo mapeamento dos sistemas de regularidades e dispersão (Foucault, 2010) e, considerando que a pesquisa se dá pelo uso de plataformas digitais, quando necessário, buscamos suporte da análise do discurso digital (Paveau, 2021). Essa pesquisa também é articulada pelo pensamento afro-brasileiro, apoiando-se nos estudos de Gonzales (1987), Bento (2022), Carneiro (2005), Nascimento (1974) e outros pensadores essenciais para os estudos de gênero e discurso, como Butler (2018) e Foucault (2004). Assim, essa pesquisa tem muito a contribuir para o estudo da desinformação sobre gênero e da violência política, direcionados a grupos específicos nos espaços públicos, sobretudo quando se trata de figuras públicas femininas.
Palavras-chave: Desinformação; Interseccionalidade; Discurso
MARÍLIA CORRÊA PARECIS DE OLIVEIRA
[Literatura Brasileira]
Montagem, contraponto e crítica social: um estudo comparativo entre Erico Verissimo e Menalton Braff
Este trabalho analisa o procedimento da montagem cinematográfica presente em dois romances da literatura brasileira: "Caminhos Cruzados" (1935), de Erico Verissimo; e "Tocata e Fuga a quatro vozes" (2023), de Menalton Braff. Nesses dois romances, há um diálogo experimental com "Contraponto", do inglês Aldous Huxley, de 1928. Assim, as três obras compartilham de uma semelhança estrutural, a saber, a técnica do contraponto, que é, na verdade, um termo que tem sua origem na música, designando uma composição na qual se sobrepõem, simultaneamente, melodias distintas. Um ano antes da produção de "Caminhos Cruzados", Verissimo traduziu o romance "Point Counter Point" (Contraponto), de Huxley, e se inspirou nele, valendo-se de uma estrutura semelhante para produzir o seu romance, isto é, o cruzamento da trajetória das personagens ao longo de toda a narrativa, do que deriva o próprio título da obra. De maneira semelhante, em "Tocata e fuga a quatro vozes", Menalton Braff também se vale da estratégia do contraponto. Neste romance, as vozes de quatro personagens – um advogado, um diretor de presídio, um detento e a mãe deste detento –, expressas em primeira pessoa, são entrelaçadas sucessivamente, suscitando uma reflexão sobre a ideia de justiça e a possibilidade de reparação de nosso sistema prisional. Em razão disso, pretende-se comparar a estratégia composicional dos dois romances brasileiros – "Tocata e fuga a quatro vozes" e "Caminhos Cruzados" – com o intuito de verificar, neles, como se estabelece a crítica social a partir de um procedimento análogo ao da montagem cinematográfica. Pretende-se argumentar, aqui, que a ideia de “contraponto” remete à base da montagem intelectual teorizada por Serguei Eisenstein (2002). Com isso, a leitura comparativa entre os romances de Verissimo e de Braff sugere que, neles, a crítica social não está, de fato, nos diálogos das personagens, quase sempre banais, e nem mesmo nas reflexões dos narradores. Na realidade, é a própria estrutura dos livros, valendo-se do contraponto na montagem de vozes distintas, que se encarrega de afirmar a ambição crítica desses textos.
Palavras-chave: Cinema; Literarura brasileira; Montagem cinematográfica;
MATHEUS VASCONCELOS MACHADO
[Tradução]
Expressões idiomáticas em língua inglesa: uma abordagem baseada em corpus a partir da série Friends
De uma perspectiva da Linguística de Corpus, este trabalho tem como objetivo investigar o comportamento léxico-gramatical e o funcionamento discursivo de expressões idiomáticas (EIs) na língua inglesa, a partir de dados extraídos da série televisiva Friends (1994–2004), com vistas a possíveis contribuições para o ensino de língua estrangeira, a lexicografia e os estudos da tradução. As EIs são compreendidas como unidades fraseológicas cristalizadas, cujo significado não decorre da soma de seus constituintes, conforme postula Claudia Xatara (1998), desempenhando papel relevante na comunicação cotidiana, na interação social e na construção de sentidos em contextos comunicativos autênticos. A série Friends, por sua vez, é entendida como um corpus representativo do inglês coloquial contemporâneo, marcado por humor, espontaneidade, informalidade e recorrência de padrões linguísticos típicos da oralidade. O corpus da pesquisa é constituído por diálogos extraídos das temporadas da série, organizados em uma vertente principal: um corpus paralelo inglês-português, alinhado com o auxílio da ferramenta YouAlign. Para a análise linguística, emprega-se a plataforma Sketch Engine, que possibilita a identificação de expressões idiomáticas por meio da extração de n-grams, análise de frequência, observação de padrões colocacionais e investigação de recorrências fraseológicas. Metodologicamente, trata-se de uma investigação qualitativa de base empírica, orientada por dados autênticos de uso linguístico, fundamentada nos pressupostos do princípio idiomático proposto por John Sinclair (1991). Os resultados indicam que as expressões idiomáticas desempenham papel central na construção do humor, das relações interpessoais e da progressão narrativa na série, além de evidenciarem padrões recorrentes que reforçam a importância das combinações lexicalizadas na língua em uso. No âmbito tradutório, observa-se a predominância de estratégias que priorizam a equivalência funcional, cultural e pragmática, conforme discutido por Mona Baker (1992). Conclui-se, portanto, que a análise baseada em corpus permite uma compreensão mais precisa do funcionamento das EIs em contextos reais de comunicação, contribuindo significativamente para o ensino de língua inglesa, os estudos fraseológicos e a prática tradutória.
Palavras-chave: Friends; Tradução; Linguistica de Corpus;
MAYARA BORGONOVI
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
A Presença de Ensino em um curso online de alemão como língua estrangeira
Cada vez mais o online faz parte da rotina diária das pessoas ao redor do mundo. Nesse cenário, este trabalho discute o contexto ensino de línguas no contexto da Educação online, caracterizada pelo conjunto de ações de ensino-aprendizagem mediadas por interfaces digitais (Santos, 2009), por meio de ambientes virtuais de aprendizagem (Meyer, 2022), inserida integralmente na cibercultura (Silva, 2006), com foco no ensino de um curso de alemão. Para tal, nos apoiaremos no modelo conceitual de Comunidade de Investigação, elaborado por Garrison e colaboradores (1995, 2000), tratando, mais especificamente, do elemento da Presença de Ensino, definida pelos autores como responsável pelo design e organização tanto do curso, quanto do ambiente, pela facilitação do discurso, a instrução direta e o direcionamento dos processos de cognição e presença, de maneira a possibilitar uma experiência de aprendizagem significativa e completa (Anderson et al, 2019; Garrison, Archer, 200). O contexto de desenvolvimento da pesquisa são aulas online de alemão no Centro de Línguas e Desenvolvimento de Professores (CLDP), da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Os participantes são alunos de um curso de alemão do nível A2.1 e os instrumentos para a coleta dos dados serão diários reflexivos escritos pela pesquisadora (Paiva, 2024), com base nas aulas dadas, e nas impressões repassadas por um aluno observador, pré selecionado pela pesquisadora e sua orientadora, que ficará responsável por repassar a pesquisadora suas impressões quanto a metodologia aplicada em sala, de forma a colaborar com o processo crítico e a produção das aulas seguintes. A análise desses dados se dará por triangulação, seguindo a proposta de análise do conteúdo de Bardin (2016). A natureza da pesquisa é qualitativa, uma vez que, ao lidarmos com a realidade da sala de aula, os dados coletados não podem ser quantificados, mas explicados em função da dinâmica das relações sociais (Córdova e Silveira, 2009). Já o método de pesquisa utilizado foi o de pesquisa-ação, pois, tanto a pesquisadora, que lecionará as aulas do curso de alemão em contexto online, quanto os alunos pesquisados, participantes do curso, serão produtores de um conhecimento que visa gerar um entendimento teórico reflexivo que resultará, pretende-se, em mudanças positivas (Paiva, 2019). Como resultado, esperamos, portanto, identificar de que maneira o professor influência o sucesso de um curso online.
Palavras-chave: ENSINO DE LÍNGUAS; ; PRESENÇA DE ENSINO;; ALEMÃO;
MELISSA SUAREZ CRUZ
[Análise do Discurso]
Opacidade e metáforas de Julia Lopes de Almeida em prol da progressão social feminina no entresséculos xix/xx
Ao estudar a paratopia criadora de Julia Lopes de Almeida (1862-1934) em obras suas de variados gêneros discursivos, como proposto por Maingueneau (2006), é perceptível o uso de recursos como opacidade e metáforas, cujo efeito discursivo é de argumentação em prol da progressão social feminina. O conceito de opacidade foi utilizado sob à luz de Kriegue-Planque (2018), e este trabalho entende ser produtivo aliar também a análise de metáforas na proposição de Fairclough (2001). Escrevendo no entresséculos XIX/XX, época avessa a que mulheres tivessem qualquer ofício público, Julia Lopes de Almeida foi muito bem-sucedida em reconhecimento de pares e em vendas. Além de publicar mais de 20 livros entre romance, infantil e dramaturgia, a autora colaborou prolificamente com artigos (além dos folhetins) para vários periódicos de diversos locais do Brasil, são exemplos os jornais O paiz (RJ), Estado de São Paulo, Jornal do Comércio (RJ), e A mensageira (SP:1897-1900). Considerada feminista por uns e nem tanto por outros, várias pessoas pesquisadoras entendem que a autora não confrontou de forma direta o sistema patriarcal da época como Luca (1999) que entende que a autora delineou “um feminismo possível”. Telles completa afirmando que há “Ambiguidade e compromissos, avanços e acomodações” (2017, p.436) em relação ao “modelo da Nova Mulher” que transparecem nos seus escritos. Com isso em vista, fez-se a análise comparativa entre as crônicas do Livro das Noivas (1896) - uma variedade de manual de dicas domésticas – com os textos da autora na revista feminista A mensageira (1897-1900). O objetivo foi analisar se a escritora teria mais agência para afirmar ideias progressistas sobre o papel social feminino na revista feminista do que no manual burguês de conselhos a noivas e recém-casadas. (Apoio: CNPq Processo: 133823/2025-3) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALMEIDA, Julia Lopes de. Livro das noivas (1896). Rio de Janeiro: Janela Amarela, 2023. ALMEIDA, Presciliana Duarte de (Dir.). A mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, 2v. (1897-1900) São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/Secretaria de Estado da Cultura, 1987. FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UNB, 2001. KRIEG-PLANQUE, Alice. Analisar discursos institucionais. Uberlândia: EDUFU, 2018. LUCA, Leonora de. O “feminismo possível” de Julia Lopes de Almeida (1862-1934). Cadernos Pagu. Campinas, n. 12, 1999. MAINGUENEAU, Dominique. Discurso Literário. São Paulo: Contexto, 2006. TELLES, Norma. Escritoras, escritas e escrituras. In: DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.
Palavras-chave: paratopia criadora; ; opacidade; metáfora;
MIREIA LÊDA SILVA SANTOS
[Linguística Histórica]
Colocação pronominal no Auto da feira: os diferentes fenômenos associados ao pronome clítico
O presente trabalho, que visa descrever a sintaxe dos pronomes clíticos, insere-se no escopo dos estudos de mudança sintática (Galves; Namiuti; Paixão de Sousa, 2006) a partir dos pressupostos teóricos da Gramática Gerativa (Chomsky, 1995). O objetivo é fazer uma descrição detalhada e discutir a sintaxe dos clíticos e o estatuto gramatical dessa sintaxe, apresentando a colocação de clíticos em diferentes contextos - próclise categórica, ênclise categórica, variação I e variação II, seguindo a classificação de Galves (2015) - por categoria de personagens, além de apresentar outros fenômenos atestados e associados ao pronome átono – mesóclise, interpolação e alçamento do clítico. Nosso corpus é composto por uma peça do Gil Vicente, a saber, o Auto da Feira, já que, conforme enfatiza Teyssier (2005), a obra vicentina configura-se um local privilegiado para se investigar as possibilidades de variação entre gramáticas, uma vez que retrata a fala de figurados de distintos estratos sociais, o que corrobora para a pesquisa sobre as hipóteses de gramáticas que figuraram na diacronia da língua. A pergunta norteadora do nosso estudo parte da hipótese de que o teatro vicentino apresenta uma alta frequência de ênclise, possuindo uma gramática popular enclítica no século XVI (Martins, 2011) em oposição a uma gramática culta proclítica atestada por Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006) em textos de autores portugueses nascidos no mesmo século, de modo que se questiona o seguinte: o que rege a colocação pronominal no texto vicentino e qual a natureza da variação ênclise vs. próclise? Verificamos que a colocação de clíticos é predominantemente proclítica nos contextos de variação I e enclítica nos contextos de variação II, resultado que corrobora a hipótese de Namiuti e Cruz (2023), preconizada em Galves (2015). Além disso, no auto, há personagens cultos e populares, de modo que observamos que o uso da próclise e da ênclise não é exclusiva de uma categoria de personagem, ou seja, o tipo social não afeta a colocação pronominal, mas, sim, o fator sintático. Dessa maneira, nota-se que a colocação pronominal constitui uma peça chave para a investigação de gramáticas, no sentido gerativista do termo.
Palavras-chave: diacronia; português clássico; pronomes clíticos;
MURILO LOPES DE OLIVEIRA
[Gramática Gerativa]
O aspecto no português do Brasil: Uma investigação da resultatividade
O presente trabalho se propõe a investigar, dentro do arcabouço gerativista, a resultatividade como uma propriedade aspectual. O trabalho parte da premissa de que a linguagem constitui-se em parte de um conhecimento inato e de que as categorias funcionais, como os diferentes tipos de aspecto, possuem uma representação universal abstrata na camada flexional da estrutura sintática, embora suas realizações possam variar entre as línguas. Entende-se, dessa forma, que a resultatividade, quando associada ao tempo presente, revela a informação de que uma situação finalizada no passado deixa um estado resultante no presente. O objetivo geral deste trabalho é contribuir para as explicações acerca da representação sintática de aspecto na Hierarquia Universal. Parte-se da hipótese de que o traço [resultatividade] constitui uma das projeções aspectuais na Hierarquia Universal, proposta por Cinque (1999). Para alcançar esses objetivos, a presente pesquisa propõe-se a investigar as realizações morfossintáticas da resultatividade associada ao tempo presente no português do Brasil (PB), por meio de um experimento linguístico. O experimento proposto corresponde a um teste de paráfrase e apresenta setenta e dois estímulos, sendo vinte e quatro estímulos-alvo e quarenta e oito distratores. Os estímulos apresentam aos participantes uma breve situação estruturada linguisticamente a partir de dois períodos, seguida de opções de paráfrases entre as quais os participantes devem selecionar a que melhor descreve a situação. O segundo período dos estímulos-alvo apresenta uma das seguintes formas verbais em um contexto de expressão da [resultatividade]: “ter” + objeto + particípio, passado simples e “estar” + particípio. Metade das sentenças com essas formas verbais apresenta o advérbio “já” e metade não apresenta advérbio. Pretende-se verificar qual dessas formas verbais, descritas em trabalhos anteriores (cf. Oliveira e Nespoli, 2026, no prelo) como veiculadoras da [resultatividade], é percebida pelos participantes como mais intimamente associada à paráfrase que descreve um resultado no presente de uma situação finalizada no passado e se a presença do advérbio “já”, descrito em trabalhos anteriores como veiculador da [resultatividade] (cf. Nespoli, 2018), interfere nessa percepção. Espera-se, assim, a partir da análise dos dados obtidos, averiguar as formas que estão mais relacionadas à veiculação do traço de [resultatividade] no PB, de modo a contemplar uma discussão acerca da representação sintática da [resultatividade] como um traço aspectual. (Apoio: CAPES - Processo 88887.278078/2026-00)
Palavras-chave: Aspecto; PB; Resultatividade;
NAIARA MORANTE
[Linguística de Córpus]
Redações nota 1000 do ENEM: análise do léxico recorrente nas propostas de intervenção
Neste estudo, apresentamos uma discussão acerca do léxico preferencial relacionado à Competência 5 da avaliação da prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que trata do desenvolvimento da proposta de intervenção, em redações que obtiveram nota 1000. Tencionamos analisar, de forma descritiva, os vocábulos mais recorrentes no que tange ao elemento “ação”, mais especificamente os verbos “garantir” e “promover”, observando seus co(n)textos, usos e funções nos textos. Para a realização deste trabalho, que integra uma pesquisa de doutorado, tomamos como referencial teórico e metodológico os pressupostos da Linguística de Corpus (BERBER-SARDINHA, 2000; 2004), os postulados da Linguística Textual (ANTUNES, 2009; FÁVERO, 2003; KOCH, 2000; 2004; KOCK E TRAVAGLIA, 2015; MARCUSCHI, 2008; 2012), as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os parâmetros da Matriz de referência para o ENEM. Quanto à metodologia empregada, compilamos o corpus RED-ENEM-1000, composto por 100 redações que alcançaram nota máxima no exame entre os anos de 2014 e 2023, disponibilizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) nas Cartilhas do participante. O corpus foi processado a partir das ferramentas computacionais do programa WordSmith Tools 6.0 (WST), as quais geraram uma lista de palavras por ordem de frequência e listas de concordância, ambas utilizadas nesta pesquisa. Da primeira, selecionamos os dois verbos mais recorrentes no que concerne ao elemento “ação” nas propostas de intervenção: “garantir”, com 26 ocorrências, e “promover”, com 24. Da segunda, verificamos os co(n)textos de ocorrência dos vocábulos e extraímos dois excertos de cada para proceder a uma análise mais detalhada de seu uso. Pudemos observar que, embora mais frequente nas propostas elaboradas pelo participante, “garantir” não foi mobilizado majoritariamente para designar uma ação a ser feita, mas para expressar uma finalidade resultante dela. Por outro lado, “promover”, o segundo da lista, foi o verbo mobilizado preferencialmente para designar a ação sugerida na proposta, conforme pudemos constatar ao contrastar as listas de concordância e analisar os excertos. (Apoio CAPES/PROEX)
Palavras-chave: redação; linguística de corpus; léxico;
NAIÁ SADI CÂMARA
[Letramento(s)]
Letramentos transmidia: um olhar para o letramento em IAGEns
O objetivo deste trabalho é apresentar os resultados de pesquisas em torno das novas práticas de letramentos da era das inteligências artificiais generativas, doravante (IAGens). Que competências e habilidades comunicativas de leitura, interpretação, produção de textos são exigidas nas práticas de interações com as IAGens? Considerando com a UNESCO (2026), que as IAGens podem ser fundamentais para a melhoria da educação, temos pesquisado acerca da relação entre IAGens e educação midiática nas escolas de ensino básico. O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) instituiu a avaliação de Alfabetização Midiática e em Inteligência Artificial (MAIL), para 2029, cujo objetivo será o de avaliar se os jovens estudantes tiveram oportunidades de aprender e de se envolver de forma proativa e crítica em um mundo onde a produção, a participação e as redes sociais são cada vez mais mediadas por ferramentas digitais e de IA. Com base na proposta teórico-metodológica dos Letramentos transmídia (Câmara, 20117, 2018, 2024), apresentaremos o perfil de produtor/leitor de IGEns, e quais os caminhos propostos para a inclusão midiática e em IAGens na educação.Diante da intensidade das transformações por que passa a sociedade, principalmente as causadas desde 2022, com o surgimento das IAGens, é imprescindível que as escolas e seus atores se atualizem, visto que essas inovações acarretam mudanças significativas nos modos de ser, sentir, pensar e agir dos sujeitos e sua relação com o conhecimento. Muitas foram as questões que surgiram nos dois projetos de capacitação de formação de professores, que está relacionada justamente às práticas de formação e atuação profissional. Em ambas escolas, as demandas são as mesmas, ou seja, de um lado as deficiências dos letramentos dos estudantes; e de outro lado, a necessidade dos professores de compreenderam essa tecnologia, que, segundo os especialistas de inteligencia artificiais, altera não somente a educação, mas está promovendo uma exponencial transformação nas formas de vida e nas sociedades contemporâneas.
Palavras-chave: Letramentos transmídia; Letramentos em Inteligência artificial genertiva ; Educação;
NATÁLIA OLIVEIRA BONN
[Psicolinguística]
Neurodiversidade e Bilinguismo: Análise de preferência modal com brasileiros
Estudos sobre bilinguismo vêm buscando ultrapassar a discussão acerca da influência nas funções executivas dos falantes. Nessa direção, análises como a de Caldwell-Harris (2025) indicam que pessoas neurodivergentes, ao se comunicarem em uma segunda língua, tendem a preferir o modo off-line (escrita/leitura) ao on-line (escuta/fala). No entanto, ainda há uma lacuna de estudos do gênero para o perfil do bilíngue brasileiro, que, pelo modelo de Kachru (1988, apud VALPA, 2020), encaixa-se no círculo em expansão, em que os falantes sabem inglês como segunda língua, mas não o usam o tempo todo. Haja vista o exposto, este trabalho tem como objetivo investigar a influência do perfil cognitivo na preferência modal em língua adicional, comparando três diferentes perfis cognitivos, assim como a influência que a proficiência pode ter nessa escolha, a fim de colocar à prova duas hipóteses: (i) participantes neurodivergentes indicam maior preferência pela escrita do que os participantes sem suspeitas de neurodivergência; (ii) quanto maior a proficiência do participante menor a preferência específica por uma modalidade independente do perfil cognitivo. Para isso, adota-se como metodologia uma análise quantitativa de respostas em questionário virtual. A partir do questionário virtual os participantes foram divididos em três grupos de diferentes perfis cognitivos dentre os quais 46 informaram ter laudo médico ou psicológico de Transtorno do espectro do autismo (TEA); 35, de Transtorno do Déficit de Atenção e/ou Hiperatividade (TDAH) e 234 declararam nunca ter tido suspeita de neurodivergência. Analisam-se as respostas a duas questões: (i) “Como você avalia seu desempenho na sua segunda língua?” (ii) “Quando vou me expressar na minha segunda língua prefiro fazer isso de forma…”. Resultados preliminares indicam que a resposta sobre preferência modal mais escolhida é “Escrita ou falada, pois não sinto dificuldade em utilizar minha segunda língua em qualquer contexto”, independentemente do perfil cognitivo. Este estudo contribui para o conhecimento da experiência metacognitiva de aprendizes brasileiros sob a perspectiva da neurodiversidade. CALDWELL-HARRIS, Catherine et al. Autistic adults discuss their experience of additional language learning: an exploration of the ‘different strategies’ hypothesis. International Journal of Bilingual Education and Bilingualism, p. 1–21, 20 ago. 2025. VALPA, Ana. Kachru Model “The Three Circles of English”. Medium, 25 de abr. 2020. Disponível em: https://agvalpa.medium.com/kachru-model-the-three-circles-of-english-b53b86e63d46 . Acesso em: 15, mai., 2026.
Palavras-chave: bilinguismo; neurodivergência; autoavaliação;
NAYARA MACENA GOMES
[Literatura Estrangeira]
Mundos em desarmonia: a perda de controle sobre a narrativa em Dawn Powell
Esta comunicação propõe uma reflexão sobre o conceito de romance e suas transformações formais em meados do século XX a partir da produção literária da escritora estadunidense Dawn Powell (1896-1965). O corpus analítico é constituído pelos romances Turn, Magic Wheel (1936) e The Locusts Have no King (1948). Na história literária, a obra de Powell ocupa um lugar marcadamente ambíguo: embora tenha recebido a chancela canônica ao ser incluída na prestigiada Library of America no início dos anos 2000, a autora permanece amplamente desconhecida no meio acadêmico brasileiro e consta em poucos planos de curso das universidades de seu próprio país de origem. A partir dos diálogos teóricos sobre o desenvolvimento da forma romanesca em Georg Lukács (2000) e Mikhail Bakhtin (2015), bem como das discussões sobre a modernidade e os mitos de deslocamento propostas por Rita Felski (1995), o objetivo desta comunicação é investigar como o trânsito constante das personagens pela metrópole e pelas redes de sociabilidade intelectual problematiza a figura tradicional do herói clássico. Argumenta-se que a perda de controle sobre a narrativa se manifesta de forma contundente na cesura entre o direcionamento do olhar das personagens artistas, que se configuram como figuras majoritariamente masculinas e apartadas da solidariedade criativa do narrador, e a realidade factual que se descortina no plano da representação. Sob o amparo crítico de Joanna Russ (1995), demonstra-se de que maneira esse desalinhamento da focalização e a consequente inversão de padrões narrativos (mythoi) tradicionais iluminam o gendramento intrínseco das interações humanas com o espaço. A partir dessas dinâmicas, as conclusões deste estudo apontam que a poética de Powell expõe de forma contundente as limitações dos modelos teóricos tradicionais sobre o romance, os quais frequentemente pressupõem uma soberania autoral ou instâncias de observação neutras. Propõe-se que a inversão das relações de poder entre as personagens e a destituição da autoridade do olhar masculino operam um processo de feminização estrutural dessas figuras artísticas. Desprovidos da cumplicidade narratorial, esses sujeitos passam de observadores a objetos sob escrutínio, fundando mundos em desarmonia que são habilmente costurados pelas focalizações da narrativa. Este estudo volta-se, portanto, para a observação literária como princípio arquitetônico das referidas obras, justificando a urgência de expandir a recepção e a fortuna crítica de Dawn Powell no cenário acadêmico brasileiro.
Palavras-chave: Teoria do romacne; Focalização; Dawn Powell;
NELSON LUIS RAMOS
[Teoria e Crítica Literária]
As culturas minoritárias na visão de François Paré: o exemplo da literatura catalã
No ensaio Théories de la fragilité (1994), François Paré, crítico e estudioso canadense, aprofunda o tema da exiguidade relacionado às literaturas minoritárias e expõe as condições da opressão, que levam ao isolamento e à invisibilidade do sujeito minoritário. Segundo Paré, literaturas minoritárias são “as obras literárias produzidas no seio das minorias étnicas no interior dos Estados unitários”. Para ele, o que importa é a razão desigual em relação ao poder (1992, p. 26). Paré vai, assim, tratar do isolamento e da invisibilidade do sujeito minoritário, das estruturas da exclusão ou da autocensura, das condições da opressão e do funcionamento das literaturas minorizadas, dos silêncios institucionais, das condições de escrita ligadas à exiguidade da instituição literária minoritária, perpassada, mesmo que indiretamente, pela questão da identidade individual e coletiva. Mostra as dificuldades que a literatura enfrenta, nessas comunidades, para se impor e não desaparecer, relegada a segundo plano pelas instituições majoritárias das línguas política e economicamente mais fortes. É um trabalho constante de sobrevivência, conduzida por aqueles que acreditam na valorização do singular, do diferente, do minoritário enfim. Deleuze e Guattari, em Kafka: por uma literatura menor (2015, p. 35), asseveram que “uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior”, acrescentando que “a primeira característica (...) é que, nela, a língua é afetada de um forte coeficiente de desterritorialização”, algo também fortemente afirmado por Paré. A segunda característica é a de “que tudo nelas é político” e, como terceira característica, enfim, a de “que tudo toma um valor coletivo”, indo muito de encontro ao que é sustentado pelo crítico canadense. Constatações facilmente percebidas em uma literatura como a de língua catalã (por nós escolhida), que luta para sobreviver e se impor, principalmente frente à influência desigual da língua espanhola que a cerca, ainda que a partir de 1978 tenha se iniciado o processo de normalização educativa do catalão na Catalunha e sua expansão. Pretendemos, aqui, mostrar como as reflexões de Paré (e, em menor grau, as de Deleuze e Guattari) podem ser aplicadas à literatura catalã, entendendo a literatura como “um antídoto à opressão” por permitir “sonhar com a abertura, com a heterogeneidade, com o múltiplo, com a ameaça, com o desaparecimento”, no dizer do próprio crítico canadense (PARÉ, 1994, p. 51).
Palavras-chave: François Paré; literaturas minoritárias; literatura catalã.;
NÚBIA VITÓRIA MOREIRA DINIZ
[Morfologia]
Da forma à interpretação: estrutura e significado nas derivações em -eiro(a) e -ário(a)
Este trabalho investiga os sufixos -eiro(a) e -ário(a) no português, com ênfase na derivação estrutural das palavras, na interface entre morfologia, sintaxe e semântica. Partindo da observação de que esses sufixos apresentam ampla produtividade e estão associados a diferentes leituras semânticas, tais como participante (ex.: caseiro e secretária), participante agentivo (ex.: garimpeiro e usuário), locativo (ex.: berçário e chiqueiro), instrumento (ex.: fichário e chuteira), evento (ex.: berreiro e zoeira) e adjetivo (ex.: grosseiro e otário), este estudo examina como tais interpretações decorrem de diferentes configurações sintáticas. O presente trabalho adota como arcabouço teórico da Morfologia Distribuída (Halle e Marantz, 1993), segundo a qual a formação de palavras ocorre na sintaxe. Para Scher & Armelin (2018), por exemplo, “do ponto de vista semântico, -eir- pode ser considerado o núcleo da estrutura porque ele determina a interpretação da formação”. Tal análise também pode ser estendida ao sufixo -ári-, considerando a proposta das autoras, que seguem o mesmo modelo. Nesse sentido, a hipótese central é a de que as diferentes leituras semânticas associadas aos sufixos -ário(a) e -eiro(a) não derivam das propriedades dos afixos isoladamente, mas são determinadas pela presença de núcleos funcionais distintos e seus traços na estrutura sintática das palavras, como n°, v° e a°. Mais especificamente, propomos que as leituras de participante envolvem a anexação de n° diretamente à raiz, enquanto leituras agentivas e eventivas pressupõem a presença de uma camada verbal (vP), responsável pela introdução de estrutura argumental e leitura de evento. As leituras locativas envolvem a projeção de um traço locativo, seguindo o padrão geral em que as interpretações são condicionadas por traços; em contraste, a leitura instrumental é tratada como sendo a default, resultando apenas da anexação direta da raiz a um nominalizador; já as formações adjetivais distinguem-se por estarem diretamente associadas ao núcleo a°, e não à projeção de traços independentes. Do ponto de vista metodológico, adotamos os métodos hipotético-dedutivo e indutivo, com base em um corpus de palavras derivadas em -eiro(a) e -ário(a), coletadas de dicionários de rimas, redes sociais e introspecção, além da aplicação de testes sintático-semânticos propostos por Rissman & Rawlins (2017) para licenciar as leituras identificadas. Os resultados parciais corroboram a nossa hipótese, eles sugerem que a variedade de leituras atribuída a esses sufixos admite uma explicação formal baseada em diferenças estruturais. Portanto, sustentam uma abordagem formal unificada para o tratamento da morfologia derivacional no português.
Palavras-chave: Morfologia Distribuída; sufixos; derivação.;
PABLO ARANTES
[Fonética e Fonologia]
Resultados de um levantamento sobre práticas na fonética forense no Brasil
A fonética forense consiste na aplicação de conhecimentos e técnicas da fonética e da linguística a situações em que amostras de fala se tornam elemento de prova no contexto judicial (Jessen 2008; Hudson et al. 2022). No Brasil, exames na área são realizados pela maioria dos órgãos oficiais de perícia (Brasil, 2012), além de profissionais que atuam no mercado privado como assistentes técnicos ou por designação judicial. Embora o desenvolvimento do campo no país já tenha sido discutido anteriormente (Gomes; Carneiro, 2014), ainda há pouca informação sistematizada sobre as práticas e metodologias adotadas pelos profissionais da área. Com o objetivo de mapear essas práticas, elaboramos um instrumento de pesquisa na forma de questionário, inspirado em trabalhos prévios de Gold e French (2011, 2019), que tiveram como objeto as práticas da comunidade internacional. O questionário, aplicado em formato online, contém 33 questões, distribuídas em seções temáticas sobre formação e experiência profissional, predominância das tarefas em fonética forense, práticas e procedimentos em comparação de locutores, expressão de conclusões periciais, uso de dados de referência e estatísticas populacionais, além de viés cognitivo e sua verificação. O público-alvo incluiu peritos vinculados a órgãos oficiais e profissionais atuantes no mercado privado, recrutados por meio de convites individuais e listas de e-mail. Responderam ao questionário 27 profissionais, distribuídos por 10 estados brasileiros, abrangendo todas as regiões do país, exceto a Norte. Entre os participantes, 61% atuam como peritos oficiais, 27% como profissionais autônomos e 8% no Ministério Público. Quanto à formação, predominam áreas de Exatas (54%) e Fonoaudiologia (38%), com apenas uma linguista entre os respondentes. A maioria possui pós-graduação e formação complementar em fonética forense. O tempo mediano de atuação na área é de 15 anos. Comparação de locutor, análise de conteúdo e verificação de edição são as tarefas mais realizadas pelos respondentes. O método de análise mais empregado na comparação de locutores combina as técnicas fonético-auditiva e fonético-acústica. Entre os parâmetros fonéticos mais analisados predominam a frequência fundamental e a qualidade de voz.
Palavras-chave: Fonética; Fonética Forense; Criminalística;
PAULA CAMILA MESTI
[Análise do Discurso]
Leitura e formação docente: uma análise dos ethé discursivos de estudantes de Letras
A leitura ocupa lugar central nos discursos educacionais brasileiros, sendo frequentemente apresentada como condição indispensável para a formação crítica, intelectual e cidadã dos sujeitos. Documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), defendem a leitura como prática de compreensão, interpretação e reflexão crítica. Entretanto, pesquisas recentes evidenciam fragilidades persistentes na formação de leitores, revelando que a leitura ainda é frequentemente concebida de maneira instrumental e associada apenas a exigências escolares ou profissionais. Nesse contexto, defendemos a leitura como prática discursiva, histórica e ideológica, atravessada por relações de poder, memórias discursivas e posições sujeito. É nesse cenário que esta comunicação se insere e tem como problematização: como os estudantes do curso de Letras da UEM constroem discursivamente imagens de si enquanto leitores e futuros professores ao enunciarem sobre leitura e interpretação? Para responder a esta pergunta, utilizou-se como corpus de análise entrevistas semiestruturadas realizadas com estudantes do curso de Letras da UEM, no ano de 2026. A presente comunicação pretende especificamente: a) compreender como os estudantes constroem discursivamente diferentes ethé relacionados à leitura e à interpretação; b) analisar as condições de produção e os efeitos de sentido desses discursos, e c) refletir sobre as implicações desses processos para a formação docente. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e interpretativista, fundamentada na Análise do Discurso de filiação francesa. As primeiras análises demonstraram que os estudantes produziram diferentes imagens de si: ora como leitores e professores tradicionais, ora como leitores e professores críticos. Esses movimentos revelam a coexistência de discursos heterogêneos sobre leitura, interpretação e formação docente no contexto universitário. Por se tratar de uma pesquisa em desenvolvimento, espera-se que ao final seja possível identificar regularidades, tensões e deslocamentos nos ethé discursivos produzidos pelos estudantes, contribuindo para a reflexão sobre leitura, formação crítica e constituição da identidade docente no ensino superior, além de se discutir sobre o papel da universidade na constituição de leitores críticos e socialmente comprometidos.
Palavras-chave: Leitura; ethé discursivos; Análise do Discurso;
PAULA JEANE PRADO
[Linguística Aplicada]
Quem ensina a falar sobre violência? Uma análise do livro didático de inglês diante dos direitos das mulheres.
Esta comunicação tem como finalidade analisar de que modo se dá a presença da mulher no livro didático de inglês, verificando se o material reproduz estereótipos de gênero presentes na sociedade ou se contribui para a compreensão da emancipação feminina sob uma perspectiva feminista. A pesquisa original observou a abordagem de práticas patriarcais, sexismo e direitos das mulheres no referido material didático. Para esta comunicação, selecionei uma atividade do 1º ano do Ensino Médio (coleção “Alive High”, 2016), organizada em torno do tema “Violência contra a Mulher”, com o objetivo de examinar como o material pode contribuir para ampliar a compreensão do alunado acerca dos diferentes tipos de violência contra a mulher, dos direitos das mulheres e das formas de denúncia contra os agressores. A atividade apresenta manchetes de jornais que tratam de diferentes formas de violência doméstica e encerra-se com uma questão dirigida ao alunado sobre suas vivências relacionadas ao tema. Metodologicamente, a pesquisa adotou abordagem quantitativo-qualitativa, de natureza interpretativista. Na etapa quantitativa, realizei o levantamento de textos e atividades da coleção relacionados ao objeto investigado, considerando a frequência de ocorrências em cada categoria estabelecida. Na etapa qualitativa, os dados foram examinados com atenção aos enunciados, às representações construídas e aos sentidos produzidos nas atividades selecionadas. Os resultados indicam que a presença de materiais relacionados ao tema da pesquisa é reduzida. Ainda assim, as atividades identificadas apresentam potencial para favorecer a reflexão crítica e ampliar a conscientização do alunado. Na atividade analisada, observei que o livro do professor não apresenta orientação específica, nem sugestão de debate para aprofundamento do tema, limitando-se a respostas voltadas à identificação dos tipos de violência abordados nas manchetes, como violência doméstica, estupro, tráfico sexual e violência contra crianças em contextos de pobreza e doenças. Por outro lado, as manchetes permitem discutir diferentes formas de violência, enquanto a pergunta sobre como o alunado reagiria caso fosse vítima de violência doméstica abre espaço para reflexão sobre violência estrutural. Ao final da página, a presença de números de disque-denúncia reforça a relevância social da atividade e da denúncia contra a violência doméstica.
Palavras-chave: Livro didático de inglês; Violência contra a mulher; Formação crítica;
PAULA TOLEDO PALOMINO
[Geral]
Da gamificação como experiência à mediação linguístico-discursiva: uma leitura aplicada de um framework narrativo educacional
Da gamificação como experiência à mediação linguístico-discursiva: uma leitura aplicada de um framework narrativo educacional Em contextos educacionais, a gamificação narrativa ultrapassa a função de estratégia motivacional ao organizar percursos, papéis, interações e processos de construção de sentido. Essa perspectiva orienta a leitura linguístico-aplicada do Gamification Journey, framework narrativo voltado ao design de experiências de aprendizagem. O estudo parte da crítica às abordagens de gamificação centradas na aplicação isolada de elementos de jogo, como pontos, recompensas, níveis e rankings, para discutir a gamificação como experiência situada, imersiva e potencialmente transformadora. Nesse deslocamento, a narrativa não é compreendida apenas como recurso motivacional ou ornamental, mas como forma de mediação linguístico-discursiva que organiza papéis, percursos, conflitos, escolhas, interações, feedbacks e processos de construção de sentido. Metodologicamente, o trabalho caracteriza-se como ensaio teórico-metodológico, situado no campo da Linguística Aplicada e em diálogo com estudos sobre letramentos digitais, tecnologias educacionais, práticas discursivas e design de experiências de aprendizagem. O corpus analítico é constituído pela documentação conceitual do Gamification Journey e por sua formulação teórica como abordagem centrada na experiência. A análise concentra-se na estrutura do framework em quatro atos, baseados na Jornada do Herói de Campbell: Chamado à Ação, Crise/Conflito, Transformação e Resultados, examinando como tais etapas podem ser interpretadas como uma arquitetura narrativo-discursiva da aprendizagem. Argumenta-se que, ao posicionar o estudante como sujeito de uma jornada, o framework convoca práticas de interpretação, participação, colaboração, justificativa, autoria e reflexão sobre o próprio percurso formativo. A contribuição do artigo evidencia que experiências educacionais gamificadas são também constituídas por práticas discursivas, repertórios semióticos, formas de agência e modos de participação social. Conclui-se que a passagem da gamificação como conjunto de elementos para a gamificação como experiência exige considerar sua dimensão linguístico-discursiva, especialmente quando aplicada ao planejamento de práticas pedagógicas orientadas por sentido, engajamento, autoria e letramentos. Assim, a gamificação narrativa pode ser compreendida como uma mediação educacional que desloca o foco da motivação instrumental para a construção situada e discursiva de experiências significativas de aprendizagem.
Palavras-chave: Gamificação narrativa; Letramentos digitais; mediação linguístico-discursiva;
PEDRO HENRIQUE FERNANDES
[Análise do Discurso]
ENTRE O SILÊNCIO E A MEMÓRIA: A CONSTRUÇÃO DE RELATOS DA COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE DE TORTURADOS NA DITADURA SOB A VISÃO DE IDEOLOGIA DE VOLOCHINOV
Este trabalho se insere na área da Linguística e dos Estudos do Discurso, propondo uma análise das manifestações ideológicas presentes em relatos Comissão Nacional da Verdade (CNV), instituída em 2014 para investigar as violações de direitos humanos ocorridas durante a Ditadura Militar no Brasil. A pesquisa tem como cerne o estudo do conflito dialógico de vozes, examinando narrativas de dois polos ideologicamente opostos: um agente da repressão (torturador) e um perseguido político (vítimas do regime). O objetivo central é identificar e analisar as marcas ideológicas que se inscrevem nas falas e nos atos discursivos desses sujeitos históricos. Para tal, a base teórica será ancorada na perspectiva de Volóchinov em Marxismo e Filosofia da Linguagem(1973), que concebe a linguagem como um fenômeno socialmente situado, atravessado pela luta de classes e pela refração ideológica. Pretende-se desvelar como a ideologia molda o enunciado e a representação da experiência histórica. A metodologia consiste em uma análise qualitativa e comparativa do corpus, buscando explicitar as estratégias discursivas empregadas por cada grupo para justificar, negar, denunciar ou ressignificar os eventos da ditadura. Para esta exposição foram escolhidos dois relatos que impactam pela violência e pelas justificativas retóricas que legitimam essa violência. Pretende-se demonstrar como o enunciado, carregado de valores, revela o posicionamento axiológico dos sujeitos, em um confronto pela primazia da narrativa histórica. Espera-se que a confrontação das falas do passado não apenas contribua para os estudos sobre memória e discurso político, mas também ofereça ferramentas para a compreensão das reverberações ideológicas no presente. Em uma etapa final mais ampla, a pesquisa se propõe a traçar paralelos entre as marcas ideológicas identificadas nos agentes repressores da época e o discurso dos grupos que, na contemporaneidade, defendem ou relativizam o período ditatorial, Evidenciando permanências discursivas, reatualizações ideológicas e modos de circulação de sentidos que atravessam diferentes momentos históricos, permitindo compreender como determinadas posições axiológicas se mantêm, se transformam ou se ressignificam no interior das disputas sociais contemporâneas.
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; Ditadura Militar; Ideologia;
PEDRO KIUMA DA SILVA
[Políticas Linguísticas]
Política linguística de ensino da língua portuguesa em Angola: uma análise nos livros didáticos de língua portuguesa da 5ª e 6ª classes do ensino primário
As políticas linguísticas podem ser analisadas desde os documentos oficiais até os livros didáticos, que atuam como instrumentos implícitos na difusão de ideologias e práticas relacionadas à língua. O presente estudo tem como objetivo geral analisar a política linguística de ensino da língua portuguesa em Angola nos livros didáticos de língua portuguesa da 5ª e 6ª classes do ensino primário. Para isso, temos os seguintes objetivos específicos, descrever em que medida e de que forma as variedades do português angolano são contempladas nos livros didáticos de língua portuguesa da 5ª e 6ª classes, identificar de que modo as línguas nacionais angolanas são contempladas nos livros didáticos de língua portuguesa da 5ª e 6ª classes e apontar de que maneira os livros didáticos de língua portuguesa da 5ª e 6ª classes dialogam com os documentos norteadores do Estado para educação linguística no ensino primário. Adotamos a proposta teórica de política linguística ampliada de Spolsky (2004, 2009, 2021), segundo a qual se entende que a política linguística se constitui em três componentes: práticas, crenças e gestão. Assumimos também a noção de mecanismo de política linguística de Shohamy (2006). Detemo-nos no mecanismo de política de educação linguística, visto que os livros didáticos se configuram nesse mecanismo. Metodologicamente, a pesquisa caracteriza-se pela abordagem qualitativa (Silveira e Córdova, 2009), inserida no paradigma interpretativista (Lin, 2015) e de análise documental (Cellard, 2012). O corpus constitui-se pelos livros didáticos Língua Portuguesa 5ª classe e Língua portuguesa 6ª classe (manual do aluno). Os resultados indicam que em ambos, os livros didáticos, há presença somente da variedade do português angolano no nível lexical. Em relação às línguas nacionais angolanas, constatamos que, no primeiro livro, somente a língua nacional angolana Kimbundu está contemplada em textos de escritores angolanos. Já no segundo livro, identificamos a presença das línguas nacionais angolanas kimbundu em textos dos escritores angolanos e estrangeiros, umbundu e kikongo em textos dos escritores angolanos. Observamos um descompasso entre os livros didáticos analisados e a Constituição da República de Angola de 2010 e com a Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino de 2020 que determinam a inclusão e a valorização das línguas angolanas. Concluímos que a política linguística de ensino da língua portuguesa refletida nos dois livros didáticos prioriza o português europeu, como a única língua idealizada para o ensino, reforçando uma ideologia linguística de raiz colonial. (Apoio: Capes – Processo 88887.282050/2026-00)
Palavras-chave: Política linguística; Ensino; Livro didático;
PRISCILA DA COSTA SILVA
[Filosofia da Linguagem]
ANÁLISE BAKHTINIANA DA CANÇÃO ARTIVISTA “COTA NÃO É ESMOLA”, DE BIA FERREIRA
Inspirada por Angela Davis e Conceição Evaristo, Bia Ferreira constrói seu cancioneiro a partir do conceito de “escrevivência”, articulado com a ideia de “artivismo”, compreendido como uma ação social, pedagógica e política. A produção cancioneira de Bia mobiliza estratégias discursivas verbivocovisuais expressivas que buscam ampliar, sensibilizar e problematizar, diante da sociedade, diferentes causas e reivindicações sociais. O presente trabalho se propõe a analisar a canção “Cota Não É Esmola” (Álbum Ao vivo, 2018) com o objetivo de investigar como o corpo negro é enunciado na letra dessa que é a canção mais conhecida de Ferreira. A metodologia dialético-dialógica rege o percurso de pesquisa em um movimento embativo que considera o cotejo com outros enunciados e a situacionalidade enunciativa como solo singular de estudo e abordagem (qualtitativa, descritivo-analítico-interpretativa). A articulação entre letra, música, voz e referente visual é considerada como constitutiva da linguagem, assim como o acabamento estético da canção (arte), na poética de Bia Ferreira, é o modo composicional de um ativismo social, racial, político, cultural e de gênero específico (estilístico) de seu projeto de dizer. As violências de gênero, raça e classe constituem estruturas sociais consolidadas, continuamente reproduzidas para assegurar sua permanência e a defesa da cota racial surge como temática que se semiotiza como ato artivista da autora-criadora para flagrar essas violências, ainda existentes, mesmo que configuradas de outros modos. Ao inserir essa discussão no espaço acadêmico, propõe-se um movimento de resistência, capaz de fomentar a reflexão crítica e a circulação de enunciados antirracistas, feministas e antidiscriminatórios, o que revela a relevância e a pertinência do estudo. Com a análise, fundamentada nos pressupostos bakhtinianos de linguagem, especificamente de voz social, signo ideológico, ética-estética e dialogia, assim como nos estudos culturais feministas e negros, evidencia-se a marginalização histórica imposta à população negra, especialmente a oriunda de contextos periféricos. Os resultados iniciais apontam para a necessidade da defesa das cotas raciais ainda hoje, dada a invisibilidade e a exclusão desses sujeitos sociais, subalternizados e discriminados no Brasil contemporâneo.
Palavras-chave: estudos bakhtinianos; voz social; artivismo;
RAFAEL PREARO LIMA
[Lexicologia e Lexicografia]
Da gameplay ao cotidiano: uma análise de neologismos oriundos da cultura gamer
A consolidação da indústria de jogos eletrônicos como um fenômeno global de entretenimento tem favorecido a constituição de comunidades discursivas específicas, no interior das quais se intensificam processos de inovação lexical. Nesse contexto, a presente pesquisa justifica-se pela necessidade de investigar os mecanismos de formação, difusão e incorporação dessas unidades lexicais, originalmente circunscritas ao domínio dos jogos online, que vêm progressivamente ultrapassando esse domínio e integrando o léxico informal do português contemporâneo. A partir dessas considerações, este trabalho, desenvolvido no âmbito das atividades do grupo de pesquisa TeCLA – Tecnologia, Comunicação, Linguagem e Algoritmos (Instituto Federal de São Paulo, campus Bragança Paulista – IFSP-BRA), tem como objetivo analisar a influência da cultura gamer na formação de neologismos no português brasileiro. Especificamente, investiga-se a neologicidade de dez unidades lexicais – a saber, buffar, F (ou F no chat), farmar, nerfar, noob, OP, platinar, rushar, spawnar e tankar –, recorrentes no universo gamer. Para tanto, tais unidades foram submetidas a um corpus de exclusão, constituído por dicionários digitais, a fim de verificar seu estatuto neológico. Em seguida, constituiu-se um corpus de análise composto por mais de duas centenas de capturas de tela extraídas da rede social X (antigo Twitter), ambiente caracterizado pela predominância de linguagem informal, com o objetivo de examinar de que modo essas unidades lexicais extrapolam o universo gamer e passam a circular em discursos de outros campos. Nesse sentido, adotam-se os pressupostos teóricos da Lexicologia (Alves, 1996, 2001, 2007; Rio-Torto, 2007; Cano, 2007; Prearo-Lima, 2019), em diálogo com os estudos discursivos. Os resultados indicam que os neologismos apresentam integração morfossintática consistente, com adequação às regras morfológicas da língua portuguesa. Observa-se também regularidade na flexão verbal e nominal (como em tankei, buffaram e spawnei), evidenciando que bases lexicais de origem estrangeira são assimiladas por meio de padrões derivacionais próprios do português. Além disso, a identificação de derivados, como intankável e platinando, indica um processo de lexicalização em curso, consolidando as unidades lexicais analisadas no repertório linguístico dos usuários das redes sociais. Por fim, os dados revelam um processo de expansão semântica, no qual os termos são empregados de forma metafórica ou irônica em discursos que extrapolam os jogos online, abrangendo campos diversos.
Palavras-chave: Lexicologia; Neologismos; Cultura gamer;
RAFAELA DOS SANTOS BATISTA
[Filosofia da Linguagem]
A poética experimental de Arnaldo Antunes: um olhar bakhtiniano verbivocovisual
Esta apresentação pretende refletir sobre uma pesquisa de doutoramento que objetiva, na poética experimental de Arnaldo Antunes (AA), analisar a verbivocovisualidade como um traço estilístico arquitetônico, inspirado pelo grupo Noigandres. Para tal, calca-se na filosofia da linguagem bakhtiniana, em especial nos conceitos de signo ideológico, voz social, estética e ética, vida e arte, autoria, gêneros do discurso, linguagem, arquitetônica, enunciado e entonação expressiva, pois entende, baseado no Círculo de Bakhtin, a linguagem em sua integralidade processual interna cognoscível e externa material, como elo entre o verbivocal (significante) e o visual (significado) semiológico, como assumido por Volóchinov (2017; 2019), Bakhtin (2017) e Medviédev (2012). Desse pressuposto teórico, pretende-se observar a poética arnaldiana como um trabalho de múltiplas frentes, logo, reflete-se sobre a relação entre música e poesia (canção e poesia) e o projeto gráfico-visual do autor-criador, que nos levam para um trabalho verbivocovisual como um todo. A partir de critérios temático-figurativos, espaço-temporal e genérico, esboços analíticos serão mostrados a partir da metodologia dialético-dialógica bakhtiniana para que seja demonstrado as ações em andamento. A pertinência e relevância do trabalho se encontram na reflexão sobre o traço estilístico de AA, em ato composicional arquitetônico e por representar o movimento verbivocovisual artístico, de modo reiterado em sua poética, com um trabalho metalinguístico que evidencia concepções de arte e de linguagem, em uma relação mundo-sujeito. A questão da verbivocovisualidade é tomada aqui como uma preposição de linguagem bakhtiniana (ainda que o Círculo de Bakhtin não tenha utilizado esse termo, cunhado por James Joyce, apropriado pela poesia concreta, especialmente, pelo Grupo Noigandres e retomado pelo GED – Grupo de Estudos Discursivos para pensar a visão bakhtiniana de linguagem) por meio da poética arnaldiana, assim, pretende-se ter, como resultado, a contribuição para os estudos do campo, tendo em vista que a linguagem constitui a ética da vida de modo substancial. (Apoio: Capes-Proex – Processo Nº 88887.151026/2025-00)
Palavras-chave: Estudos Bakhtinianos; Arnaldo Antunes; Enunciado;
RAQUEL CRISTINE PEDROSA VIEIRA
[Línguas Indígenas]
A relação entre evidencialidade inferencial e o sistema de modo realis/irrealis na língua wa’ikhana
Esta pesquisa investiga a interface entre evidencialidade inferencial e modalidade na língua Wa’ikhana, uma língua da família Tukano Oriental falada na região do Alto Rio Negro (Amazonas, Brasil). Diferentemente dos demais evidenciais da língua, que se manifestam como sufixos verbais simples, a inferência em Wa’ikhana, conforme descrito por Cezario et al. ( 2018), é expressa por uma construção sintática específica envolvendo o verbo copular ihi, marcado pelo sufixo visual perfectivo -di, além de um complemento nominalizado. O estudo analisa de que modo o valor semântico da evidencialidade inferencial varia em função da distinção entre realis e irrealis. Assume-se que a escolha por marcadores de modo realis e evidência visual para expressar conclusões lógicas decorre do foco do falante nos resultados visíveis do evento, tal como uma “cena estática” percebida no momento da fala, e não na ação dinâmica que não foi diretamente testemunhada. Nesse sentido, a inferência não surge da observação direta do evento em si, mas da percepção de seus efeitos visíveis no contexto da enunciação. Dessa forma, parte-se da hipótese de que o significado inferencial não é estático, modificando-se sistematicamente de acordo com o domínio modal em que ocorre. Ademais, a análise dialoga com estudos sobre evidencialidade e modalidade, especialmente com as propostas de Aikhenvald (2004) e Palmer (2001). Busca-se analisar em que medida a definição de Palmer (2001), que associa a inferência ao domínio mental do irrealis, articula-se com a obrigatoriedade gramatical do Wa’ikhana de marcar asserções no modo realis por meio de fontes de evidência específicas. O estudo baseia-se em dados provenientes de descrições linguísticas e materiais documentais disponíveis em arquivos digitais, tal como o ELAR (Arquivo de Línguas Ameaçadas) adotando uma abordagem qualitativa e descritiva voltada para a análise semântica de construções inferenciais em contextos associados aos domínios realis e irrealis. Espera-se, com isso, contribuir tanto para a descrição gramatical do Wa’ikhana quanto para discussões mais amplas sobre a interação semântica entre evidencialidade e modalidade.
Palavras-chave: Evidencialidade inferencial; Modo realis/irrealis; Wa’ikhana;
REBECA MENDES DA SILVA GOMES
[Linguística Histórica]
Configurações sintáticas de construções com verbos inacusativos no Português Clássico
O presente trabalho objetiva examinar as configurações sintáticas dos verbos inacusativos durante o período do Português Clássico (séculos XVI e XVII), em predicados compostos (ser + particípio) (1. a maior parte deles são nascidos das Índias (Gandavo, 1540)) e predicados simples (2. Na província de Trás-os-Montes nasceu uma vitela (Galhegos, 1597)). Questiona-se o que motivava o sistema gramatical seiscentista a licenciar o auxiliar ser em algumas sentenças e não em outras, mesmo quando os verbos compartilhavam estrutura inacusativa idêntica. Fundamentamo-nos nos pressupostos da Teoria Gerativa (Chomsky, 1995; 1998; 1999) e nas propostas de Kroch (1989, 2021) acerca da competição de gramáticas e dos processos de mudança linguística, visto que o fenômeno em questão revela uma configuração diferente desses verbos quando comparado às variedades posteriores da Língua Portuguesa. O corpus analisado é composto por 13 textos do Corpus Tycho Brahe anotados sintaticamente. Os dados tabulados estão sendo descritos e interpretados à luz da perspectiva gerativista. Os resultados quantitativos preliminares indicam uma predominância das formas verbais simples em comparação às formas compostas, uma vez que as construções com a composição auxiliar ser + particípio equivalem a 0,5% dos dados com verbos inacusativos (68 em 2018 dados). No que se refere à expressão do sujeito em sentenças com predicado complexo, as construções com sujeito lexical representam a maior parte da amostra, correspondendo a aproximadamente 65% das ocorrências de sujeito lexical contra 35% de sujeito nulo. Em relação à ordem do sujeito lexical nas construções com ser + particípio, atesta-se o sujeito em três posições: S-Aux-V (47%), Aux-S-V (9%) e Aux-V-S (42%); além de um dado em que o inacusativo vem em primeira posição: V-Aux-S (3. que queimado seja ele (Melo, 1608)), havendo um equilíbrio das frequências de sujeitos pré-verbais (29%: S-Aux-V) e pós-verbais (31%: Aux-S-V, Aux-V-S, V-Aux-S). Quanto aos tipos de sujeito observados nessas sentenças, vale destacar construções com sujeitos locativos derivadas de verbos de movimento, que podem admitir uma configuração bitransitiva (4. Nesta confusão foi esta cidade entrada (Couto, 1542)). Galves et al. (a sair), ao descrever aspectos gramaticais do Português Clássico, observaram que a ordem pós verbal do sujeito de verbos inacusativos é bastante superior em frequência em relação aos de verbos transitivos (chegando a mais de 80% em alguns textos), os resultados preliminares a que chegamos confirmam esta observação nas construções com ser + inacusativo. Com a continuidade da pesquisa, almejamos trazer mais elementos para uma caracterização gramatical do período.
Palavras-chave: Verbos inacusativos; Sintaxe diacrônica; Português Clássico;
RENAN MATEUS TUDELA
[Políticas Linguísticas]
A gestão do Inglês como Meio de Instrução no ensino superior brasileiro: uma análise quantitativa baseada em políticas linguísticas de universidades federais
O Inglês como Meio de Instrução (IMI) é recorrentemente descrito como o uso da língua inglesa para ensinar conteúdos acadêmicos em contextos onde o inglês não é a língua materna da maior parte da população (Curle et al., 2020; Dearden, 2014; Macaro et al., 2017; Macaro, 2018). O uso dessa abordagem tem se expandido de forma acelerada no ensino superior brasileiro, frequentemente associado a políticas de internacionalização universitária e mobilidade estudantil. Contudo, sua implementação ainda ocorre, em grande parte, de maneira não institucionalizada, impulsionada por iniciativas individuais de docentes e sem o devido respaldo das instituições (Höfling; Zacarias, 2017). Este estudo em andamento tem como objetivo mapear quantitativamente o grau de institucionalização dessa prática nas políticas linguísticas das 69 universidades federais do país. Para isso, ancora-se no conceito de gestão linguística de Spolsky (2004), focando na análise de normativas e na alocação de recursos institucionais como mecanismos explícitos de intervenção na realidade linguística das instituições. Metodologicamente, foi realizada uma pesquisa documental quantitativa e descritiva, cujo corpus engloba resoluções de conselhos universitários, planos de desenvolvimento institucional e planos estratégicos de internacionalização. Os dados vêm sendo sistematizados em uma matriz de indicadores para verificar a incidência e, simultaneamente, categorizar as modalidades de implementação de quatro variáveis centrais: (1) a previsão oficial do uso de Inglês como Meio de Instrução; (2) os responsáveis pela gestão; (3) os modelos de preparação docente; e (4) as estratégias de suporte discente. Como resultados esperados, o estudo visa não apenas mensurar a presença do Inglês como Meio de Instrução em documentos institucionais, mas traçar um perfil das estratégias de gestão predominantes nas federais brasileiras. A pesquisa busca evidenciar as tendências e lacunas nos documentos oficiais, discutindo se as formas de apoio previstas são suficientes para amparar a comunidade acadêmica. O diagnóstico final oferecerá um panorama detalhado sobre o quanto e de que maneira a gestão linguística tem acompanhado os processos de internacionalização no Brasil, subsidiando a criação de diretrizes mais robustas e transparentes.
Palavras-chave: Políticas Linguística; Gestão Linguística; Inglês como Meio de Instrução;
RENATA PALUMBO
[Retórica e Estilística]
Movimentos argumentativos nos espaços online: um estudo dos hiperlinks
Neste trabalho, atentamo-nos para o lócus argumentativo dos hiperlinks, especialmente para aqueles acionados nos sites e nas contas do Instagram das agências Aos Fatos e Lupa, considerando tópicos sobre ciência. Compreendemos que o papel do hiperlink vai além de relacionar textos. O modo como o item clicável se apresenta merece nossa atenção, em razão dos efeitos que pode suscitar ao evidenciar determinadas seleções lexicais/imagéticas e não outras. Além disso, aquilo que os jornalistas decidem apresentar no texto vinculado nos parece ser parte de um projeto argumentativo. Para a constituição do corpus, selecionamos quatro produções textuais das agências Aos Fatos e Lupa, relacionadas a tópicos do campo científico e publicadas tanto nos sites oficiais das agências quanto em suas contas no Instagram, constituindo dois textos de checagem e duas postagens. Consideramos que esse critério poderia oferecer indícios significativos acerca dos movimentos de circulação entre esses espaços digitais. No caso da Aos Fatos, as produções referem-se às fritadeiras sem óleo. Já em relação à Lupa, o tópico consiste na eficácia das vacinas CoronaVac e AstraZeneca. A partir de uma abordagem qualitativa, realizamos os seguintes passos: (i) identificação dos hiperlinks, das seleções lexicais/imagéticas por meio das quais foram apresentados e dos textos que vinculam; (ii) análise dos movimentos entre os espaços digitais passíveis de ocorrer pelo acionamento dos itens clicáveis; (iii) exame do caráter argumentativo dos hiperlinks e dos textos a eles vinculados. Utilizamos pesquisas sobre texto e hipertexto (Koch, 2007; Xavier, 2002 etc.) e estudos da argumentação (Plantin, 2025; Saemmer, 2015; Perelman, 1972; Olbrechts-Tyteca, 1963; Perelman; Olbrechts-Tyteca, 1953). Nossos resultados parciais indicam que os hiperlinks e seus textos vinculados são selecionados para a ampliação: (1) do desenvolvimento do tópico, possibilitando acesso a perspectivas diferentes daquelas apresentadas nas fake news; (2) da interação entre interlocutores e agência de checagem, permitindo que os primeiros se mantenham nos espaços online das agências; (3) da argumentação do texto, com acionamento de provas técnicas e de apelo à autoridade por meio dos textos vinculados.
Palavras-chave: Hiperlinks; Argumentação; Textos de checagem;
RENATO BABOS DA PURIFICAÇÃO
[Linguística de Córpus]
YO SOY, PERO ¿VOS SOI? ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DO VOSEO CHILENO EM UM CORPUS DA SÉRIE “EL REEMPLAZANTE”
Esta dissertação tem como objetivo analisar a frequência e os padrões de uso dos paradigmas verbais das formas de tratamento de segunda pessoa do singular do espanhol chileno utilizadas de forma alternada e concomitante. O corpus para este estudo foi construído a partir da transcrição de diálogos da série chilena “El Reemplazante” com o intuito de selecionar essas formas linguísticas para serem incluídas em materiais didáticos destinados ao ensino de espanhol como língua estrangeira (ELE), que normalmente incluem o fenômeno do voseo característico do espanhol argentino, mas raramente apresentam os paradigmas do voseo verbal chileno devido à falta de prestígio linguístico relacionadas a essas formas. Para tanto, adota-se a abordagem teórico-metodológica da linguística de corpus, com o objetivo de realizar uma análise quali-quantitativa dos padrões linguísticos e de suas frequências utilizando o software Sketch Engine, organizando e etiquetando os diálogos segundo suas variáveis sociais (idade, gênero e relação social entre interlocutores). Como hipótese, acredita-se que as porcentagens possam evidenciar a complexidade do voseo chileno, que normalmente é utilizado em contextos de informalidade e familiaridade, mas que, ao mesmo tempo, também pode ocorrer entre interlocutores socialmente distantes, como é o caso de interações entre professor e aluno, especificamente em situações comunicacionais emocionadas. Apesar de basear-se em diálogos roteirizados, acredita-se que o corpus da obra televisiva a ser analisada possui um elevado grau de fidelidade aos padrões linguísticos naturais do voseo chileno, assim como esse fenômeno ocorre nas interações conversacionais reais. Considerando que é possível o uso de produções midiáticas em corpora pedagógicos voltados ao ELE, já que eles também proporcionam autenticidade e representatividade linguística, este estudo fornece insights valiosos tanto para o aprofundamento da compreensão sociolinguística do voseo chileno quanto para a elaboração de conteúdo e materiais didáticos atualizados que apresentem esse fenômeno linguístico para os aprendizes como uma alternativa válida de forma de tratamento.
Palavras-chave: Voseo chileno; formas de tratamento; linguística de corpus;
RHAÍZA SARCIÁ BASTOS
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Ensino de língua inglesa para profissionais do ambiente corporativo: um percurso formativo a partir da decolonialidade do ser
Múltiplos são os fatores causadores da insegurança dos brasileiros quanto à utilização da língua inglesa no ambiente corporativo. Um desses fatores pode ser atribuído ao fato de o aprendiz se colocar numa atitude subalterna (de assujeitamento) ao fazer uso de uma língua adicional, especialmente o inglês. Tal constatação motivou o desenvolvimento desta pesquisa sobre a necessidade da promoção de aulas de língua inglesa com um percurso formativo a partir de uma pedagogia transformadora e de cunho crítico-decolonial. Esta pesquisa em andamento pretende investigar o papel fundamental da curadoria/criação de materiais didáticos que fomentem uma visão crítica dos alunos quanto ao lugar deles no mundo e quanto às questões temáticas relevantes da contemporaneidade. O objetivo deste trabalho é verificar o potencial transformador de aulas de inglês - nível intermediário alto para profissionais que atuam no meio corporativo - , a partir da curadoria/criação de materiais didáticos que visem não apenas ao desenvolvimento da competência linguística, mas também, e sobretudo, à libertação das amarras da colonialidade do ser. O quadro teórico perpassa os ensinamentos de Mignolo (2010) e Walsh (2018) acerca da virada epistêmica intitulada “giro decolonial”, apresentado por Silva (2023); no tocante à necessária desterritorialização da língua inglesa, aborda-se a noção de World Englishes, consoante Bolton (2006). Ademais, é problematizada a mercantilização do idioma (commodification of language), a partir das lições de Heller (2010); a importância da inventividade do professor de língua inglesa é elucidada a partir dos estudos de Nunes, Ludovico e Barcellos (2022); por fim, no que concerne à confluência entre o pensamento decolonial, a Linguística Aplicada Crítica e o ensino de línguas adicionais, são incluídas as contribuições de Moita Lopes (2006), Flores e Bale (2016), Rosa (2021) e Sabota (2024). Quanto à metodologia, trata-se de um estudo de caso do tipo pesquisa-ação, que contará com 5 sujeitos de pesquisa, submetidos aos seguintes instrumentos de coleta de dados: pré-teste, pós-teste, entrevistas e questionários, durante um período de 15 semanas, com gravação de aulas. Espera-se com o desenvolvimento da pesquisa que os sujeitos possam modificar a visão de seu lugar no mundo e ganhar segurança no uso da língua no ambiente corporativo.
Palavras-chave: pensamento decolonial; curadoria/criação de materiais didáticos; ensino de língua inglesa;
RITA DE FATIMA RODRIGUES GUIMARÃES
[Linguagem e novas tecnologias]
Mapeamento de percursos de aprendizes em ambiente imersivo de realidade virtual: análise qualitativa com Atlas.ti e visualização em grafos.
Este trabalho apresenta uma reflexão sobre o uso do software de análise qualitativa ATLAS.ti na sistematização de dados gerados em uma pesquisa que envolveu o mapeamento dos percursos de aprendizes em um ambiente de realidade virtual. A investigação tem origem em uma proposta didática desenvolvida para o ensino e a aprendizagem de poemas no ciclo inicial do Ensino Fundamental II e o uso de ambiente imersivo de realidade virtual (GUIMARÂES, 2024). Durante a interação dos estudantes com o ambiente de realidade virtual, foram gerados automaticamente registros de navegação pelo ambiente imersivo em formato de logs, armazenados em arquivos de texto. Esses dados textuais permitiram acompanhar os deslocamentos dos participantes, suas escolhas de percurso e suas formas de interação com os elementos disponíveis no ambiente digital. A análise foi organizada com apoio do ATLAS.ti, por meio da criação de códigos, citações e categorias relacionadas aos percursos dos alunos, envolvendo posições no ambiente representadas por estrelas e por exposições sobre poemas e recursos de escrita poética. A partir dessa organização, foram produzidas planilhas de nós e arestas, posteriormente utilizadas no software Gephi para a visualização dos percursos em formato de grafos. Ao articular ambiente imersivo, registros automatizados, análise qualitativa assistida por software e representação visual de dados, o estudo contribui para a compreensão das tecnologias digitais como mediadoras de práticas de letramento de pesquisa. Os resultados indicam que o ATLAS.ti pode favorecer a organização interpretativa de dados, sem substituir o olhar analítico do pesquisador, investigações que envolvem os letramentos, a multimodalidade e ambientes de aprendizagem imersivos. Referências: ATLAS.ti 25 Windows: user manual. Berlin: ATLAS.ti Scientific Software Development GmbH, 2026. Disponível em: https://manuals.atlasti.com/Win/en/manual/ATLAS.ti_ManualWin.pdf. Acesso em: 4 maio 2026. GUIMARÃES, Rita de Fátima Rodrigues. Criação de uma proposta didática com ambiente de realidade virtual para ensino e aprendizagem de poemas no ciclo inicial do ensino fundamental II. 2024. Tese (Doutorado em Linguística Aplicada) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2024.
Palavras-chave: análise de dados; letramentos; realidade virtual;
RODOLFO JARDIM DE ORNELLAS
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Repertórios em expansão: intercompreensão e translinguagem na aprendizagem de vocabulário em francês
Estudos contemporâneos no campo da Linguística Aplicada (LA) têm apontado a emergência de novas abordagens para a educação linguística, por meio do deslocamento do foco de práticas monolíngues para plurilíngues, bem como da valorização dos repertórios dos aprendentes (Paulo, 2018). Tal discussão permite repensar problemas recorrentes no ensino de línguas, como a crença de estudantes de que a insuficiência de seu vocabulário constitui um obstáculo central para a compreensão e a interação em língua estrangeira. Nesse contexto, esta pesquisa se apoia em duas perspectivas: a intercompreensão (IC), que propõe a mobilização de línguas aparentadas como recurso para a construção de sentidos (Escudé & Calvo del Olmo, 2019), e a translinguagem, que considera os saberes linguísticos como parte de repertórios cognitivos e sociais em expansão permanente (Rocha e Megale, 2023, p. 7). Desse modo, torna-se pertinente romper com lógicas monolíngues, que isolam, inclusive, a língua materna dos estudantes. Essas abordagens, portanto, convergem para uma concepção plurilíngue que reconhece e valoriza os conhecimentos linguísticos dos estudantes como recursos práticos para a aprendizagem de uma nova língua. Desta feita, a presente pesquisa tem como objetivo investigar como estratégias intercompreensivas e práticas translíngues contribuem para o processo de aprendizagem e ampliação do vocabulário em língua francesa em contexto universitário. A metodologia adotada caracteriza-se como um estudo de caso de natureza qualitativa, a ser desenvolvido com alunos ingressantes do curso de Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Araraquara, matriculados na disciplina de Língua Francesa I, a partir de dados coletados por meio de questionários, observação de aulas, diários de campo e grupo focal. Espera-se que os resultados permitam identificar as estratégias intercompreensivas e translíngues mobilizadas pelos estudantes, bem como possíveis dificuldades encontradas na aprendizagem lexical em francês. Desse modo, o estudo busca contribuir para as discussões sobre ensino e aprendizagem de línguas adicionais, especialmente no que se refere a práticas pedagógicas mais plurais para o ensino de francês.
Palavras-chave: intercompreensão; translinguagem; língua francesa;
RODRIGO CAETANO ANDREU
[Geral]
Aspectos sociolinguísticos da cordialidade
Aspectos sociolinguísticos da cordialidade Este trabalho consiste no estudo da linguagem cordial de dois personagens da literatura brasileira, com o intuito de destacar e compreender a função de seus cacoetes linguísticos. Em Amor por Anexins, de Artur Azevedo — obra anterior ao modernismo brasileiro —, e em O Bem-Amado, de Dias Gomes — vinculada à dramaturgia modernista e pós-modernista nacional —, a linguagem aparece como instrumento de persuasão, dissimulação e ornamentação retórica. Em ambas as obras, os recursos linguísticos funcionam como “subterfúgios beletristas” pelos quais os personagens procuram convencer seus interlocutores enquanto ocultam suas verdadeiras intenções. A análise dialoga com a noção de cordialidade desenvolvida por Sérgio Buarque de Holanda, sobretudo no que se refere à dificuldade de separação entre a esfera afetiva e as relações sociais. Nesse sentido, a eloquência excessiva, marcada por discursos enfáticos e artificiais, torna-se mecanismo de autopromoção e mascaramento simbólico. Os personagens Isaías e Odorico Paraguaçu revelam justamente uma retórica desprovida de autenticidade, frequentemente vazia de reflexão crítica acerca de si mesmos e de seus próprios excessos. No caso de Isaías, protagonista de Amor por Anexins, observa-se uma compulsão pelo uso de ditados populares, como se o personagem necessitasse constantemente legitimar sua fala e persuadir o outro. Sobre seus excessos anexinistas, diz Inês: “O senhor tem na cabeça um moinho de adágios! Passa!”, ao que responde Isaías: “O que abunda não prejudica” (AZEVEDO, 2013, p. 21). Suas pretensões giram em torno da conquista amorosa de Inês, viúva cortejada por diversos pretendentes e que não se deixa impressionar por suas habilidades retóricas. Já Odorico Paraguaçu, personagem central de O Bem-Amado, apresenta marcas linguísticas que compõem o arquétipo do político populista e corrupto. Ao empregar prefixos e sufixos em vocábulos que, segundo a norma culta, não costumam admitir tais formações, Dias Gomes constrói neologismos que reforçam o pedantismo retórico do personagem. Destaca-se, por exemplo, o termo “somentemente”, formado pelo advérbio “somente” acrescido do sufixo “mente”, produzindo um efeito de redundância enfática. Tal exagero linguístico converge com a personalidade grandiloquente de Odorico e evidencia o caráter artificial de sua eloquência. Assim, tanto Isaías quanto Odorico utilizam a linguagem como mecanismo de persuasão e autolegitimação social. Em ambos os casos, a retórica cordial manifesta-se pelo excesso verbal, pela ornamentação discursiva e pela perda do senso de ridículo, transformando os cacoetes linguísticos em formas de dissimulação simbólica e expressão de determinadas práticas culturais da sociedade brasileira.
Palavras-chave: cordialidade; retórica; linguagem.;
RODRIGO GODINHO TREVISAN
[Línguas Indígenas]
Línguas Gerais ou Língua Geral: uma ou várias? O que os dados da língua falada na Amazônia no século 18 revelam sobre a evolução linguística do Tupi
O objetivo desta comunicação é apresentar dados linguísticos inéditos da Língua Geral (LG) falada e registrada na Amazônia em meados do século 18 em confronto com análises propostas por Rodrigues (1986, 1996 e 2001), Lee (2005) e Argolo (2011, 2012 e 2016), nas quais comparam-se estágios da língua separados por cerca de trezentos anos. A amostra de dados utilizada concentra-se em quatro narrativas de conteúdo profano que compõem o manuscrito “Prosódia — Dicionário da língua falada por índios do Brasil” (ANÔNIMO, 175-), do acervo da Academia das Ciências de Lisboa. Elas já foram transcritas, traduzidas e glosadas por mim no software FieldWorks Language Explorer (FLEx). Os dados analisados revelaram que: (i) diferentemente do que propõe Rodrigues (2001), a redução do sistema de casos nominais (classificação contestada nesta análise) da antiga LG (Língua Brasílica ou Tupi Antigo) não seria bem explicada como uma simplificação na LG do século 19 (Nheengatu ou Tupi Moderno); (ii) não se comprova a afirmação de Lee (2005) de que as diversas formas de negação na antiga LG se reduziram a uma única forma no século 18; e (iii) não há respaldo à interpretação de Argolo (2016) de que teria havido erosão na morfologia verbal e surgimento de partículas externas ao verbo nos estágios mais modernos da língua. Em todos os estudos supracitados, ainda que dados do século 18 tenham sido ignorados, os pesquisadores consideram a LG setecentista (LG “vulgar” ou Tupi Médio) como o período de mudança entre estágios linguísticos com diferenças estruturais bem marcadas, a ponto de considerar que neles foram utilizadas línguas diferentes, como propõe Argolo (2011, 2012 e 2016), ou que na evolução deles nomes diferentes sejam necessários para distingui-los conforme suas diferenças gramaticais, um procedimento anacrônico uma vez que desconsidera a percepção dos contemporâneos à época, como se nota em Rodrigues (1986 e 1996). Opondo-se a essas perspectivas, esta análise defende, assim como em Finbow (2022), que mudanças linguísticas e estruturais não implicam no surgimento de uma nova língua, já que mudanças são fruto da reestruturação própria das línguas (MUFWENE, 2003 e 2008), bem como a relação entre nomes e identificação de diferenças por meio de registros escritos é um fenômeno mais gráfico e cultural do que propriamente linguístico (WRIGHT, 1982). (Apoio: FAPESP - Processo 2025/23374-0)
Palavras-chave: língua geral tupi do século 18; evolução linguística; diferenças estruturais;
RODRYGO YOSHIYUKI TANAKA
[Historiografia Linguística]
Observações das dimensões teóricas e documentais nas produções em linguística na revista Estudos Japoneses (1979-2022)
A revista Estudos Japoneses foi criada em 1979 pelo Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo (CEJ-USP), com a missão de publicar artigos de perfil acadêmico voltados a temas relacionados à Língua, Literatura e Cultura Japonesa, abordados à luz de metodologias científicas. Inserida em um contexto de consolidação dos Estudos Japoneses no Brasil, a revista representou, desde sua fundação, um espaço fundamental para a divulgação e o desenvolvimento de pesquisas na área. Trata-se do primeiro periódico acadêmico dedicado a esse campo no país, tendo se mantido como o único espaço de publicação especializado até 2016, quando surgiu a revista Hon no Mushi, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), ampliando as possibilidades de circulação do conhecimento na área. Ao longo de 43 anos, a revista contabilizou 48 edições, reunindo um total de 406 artigos. Desses, apenas 81 (distribuídos em 42 volumes) abordam questões relacionadas à língua japonesa, o que corresponde a 19,95% da produção total. Esses dados evidenciam a predominância de estudos voltados a outras áreas, como literatura e cultura, em detrimento das pesquisas linguísticas, sugerindo possíveis tendências e lacunas na produção acadêmica nacional ao longo do período analisado. A presente comunicação tem como objetivo analisar esse conjunto de publicações com base na metodologia das dimensões proposta por Swiggers (2013), considerando as perspectivas teórica, técnica, documental e contextual, a fim de compreender as tendências e características da produção acadêmica. Na dimensão teórica, busca-se identificar o campo de cada pesquisa e as concepções de língua que a orientam. Na dimensão técnica, observam-se a estrutura dos artigos, sua extensão e os critérios adotados para a transcrição da língua japonesa. Na dimensão documental, realiza-se o cruzamento das referências bibliográficas com o objetivo de identificar os autores e obras mais recorrentes, bem como verificar a presença de citações de artigos da própria revista. Por fim, na dimensão contextual, analisam-se o perfil dos autores, a frequência de publicação e suas vinculações institucionais. Para esta apresentação, serão priorizados os resultados obtidos a partir da análise das dimensões teórica e documental, buscando contribuir para uma reflexão mais ampla sobre os rumos dos Estudos Japoneses no Brasil.
Palavras-chave: Linguística do japonês; Historiografia linguística; Estudos de língua japonesa no brasil;
ROGERIO FERREIRA DA NOBREGA
[Historiografia Linguística]
Uma Contribuição de Roman Jakobson para a Análise da Conjugação Russa
Na linguística [histórico-]comparativa europeia do século XIX, duas visões concorriam para a explicação da aparente falta de correspondência entre as formas dos radicais verbais russos (e das demais línguas eslavas), a depender de se a forma está no infinitivo ou flexionada no tempo presente. Ambas partiam da premissa de que se trata de dois radicais claramente distintos, mas apenas uma das formas seria a básica: para uns, a do infinitivo, para outros, a do presente. Tais visões foram continuadas na linguística estruturalista europeia e reverberadas na estadunidense da primeira metade do século XX. O cenário se alterou somente em 1948, quando Roman Jakobson publicou seu estudo de orientação estritamente sincrônica, intitulado “Russian Conjugation”. A partir da identificação da forma básica única – e abstrata – do radical completo do verbo e da estrutura fonêmica das desinências, o modelo de Jakobson se mostrou capaz de prever a forma exata do paradigma da conjugação no russo padrão moderno, salvo algumas exceções e limitações. Embora a historiografia linguística tenha demonstrado como o estudo influenciou linguistas contemporâneos e, posteriormente, foi ignorado pelos mesmos, coube a um número limitado de monografias demonstrar a sofisticação de seu procedimento analítico propriamente dito. Este trabalho objetiva estabelecer a compreensão das noções fundamentais que Jakobson formula como ponto de partida para a descrição dos princípios gerais que regem a conjugação russa. Com base nos quinze primeiros enunciados e no mapeamento dos exemplares linguísticos listados no artigo original, este trabalho analisa e reconstrói o sistema de transcrição [morfo]fonêmica adotado e a descrição dos possíveis tipos de alternância de formas radicais, desinenciais e de acentuação. Este estudo se fundamenta nos pressupostos teóricos da historiografia linguística, especialmente nos princípios de análise imanente e reconstrução racional (ou interna) de teorias. Este estudo demonstra que a absorção das proposições de Jakobson é dificultada em razão da elevada densidade de informações formuladas muito sucintamente, em detrimento de maior clareza. Ademais, faz apontamentos sobre erros contidos no texto original, dos quais alguns foram silenciosamente corrigidos em reimpressões (cf. Jakobson, 1971; 1984), enquanto outros persistiram. Ao reconstruir partes do procedimento analítico de Jakobson de forma mais elaborada, espera-se que este estudo torne sua investigação sobre a conjugação russa [mais] conhecida e acessível e, em sentido mais amplo, que sirva de apoio para outros estudos que tomem por objeto historiográfico o pensamento linguístico do autor e o papel de suas contribuições para o desenvolvimento da linguística.
Palavras-chave: Roman Jakobson; Conjugação Russa; Historiografia Linguística;
RÔMULO TIAGO DA SILVA
[Sintaxe]
Orações adverbiais e complexidade sintática em produções textuais no ensino fundamental
Aliando as noções de “complexidade sintática” apresentadas em Hunt (1970) e Chomsky (2004), este trabalho analisa o uso de orações adverbiais por estudantes do ensino fundamental, visando verificar em que medida o emprego desse tipo oracional reflete graus diversos de complexidade previstos por esses autores. Para Hunt, a subordinação oracional é um índice de complexidade, de modo que as escritas “maduras” são marcadas por uma maior recorrência de orações subordinadas que as “imaturas”. No campo escolar, esse contraste sugere que o sucesso dos estudantes na elaboração de textos mais sofisticados pode ser aferido em razão das estratégias de articulação oracional em suas produções. Para Chomsky, por outro lado, a subordinação adverbial (que envolve a operação “pair-merge”, na qual dois constituintes simultaneamente projetam) é mais complexa que a subordinação completiva (que envolve a operação “set-merge”, na qual um constituinte é encaixado em outro, sendo que apenas o constituinte dentro do qual se dá o encaixamento é projetado). Se essas propostas estiverem corretas, escritas “maduras” deverão apresentar mais orações adverbiais do que as “imaturas”, o que conduz à hipótese de que estudantes das séries mais avançadas empregarão mais essas orações do que os das menos avançadas. Para verificar essa hipótese, procedemos à análise de 118 redações produzidas por estudantes do 6º ao 9º ano em uma escola pública do município de Parobé/RS. Foram coletadas, até agora, 535 sentenças, sendo que as orações adverbiais ocorrem em 222 (41%) delas. Os resultados vêm revelando que há, de fato, um aumento no uso de orações adverbiais: do 6º ao 9º ano, a frequência passa de 30% para 52%, com ampliação gradual na taxa de ocorrência de uma série para outra. Adicionalmente a esse resultado preliminar, observamos uma ampliação não apenas quantitativa no uso das orações adverbiais, mas também qualitativa: no 6º ano, foram identificados até aqui apenas 6 tipos distintos de orações, mas esse número se amplia para 15 tipos entre as produções do 9º ano. Esses números sugerem que a “maturidade” sintática, refletida na taxa de articulação oracional produzida por “pair-merge”, pode resultar de uma maior exposição dos estudantes a gêneros textuais/discursivos diversos, por meio dos quais assimilam novos tipos oracionais no decorrer do ensino fundamental. Isso implica considerar que operações sintáticas disponíveis na Gramática Universal e presentes na competência de todos os falantes, no sentido chomskiano, podem se tornar mais “ativas” por meio dessa exposição, com efeitos sobre o desempenho dos estudantes.
Palavras-chave: complexidade sintática; articulação oracional; ensino fundamental;
SARAH CRISTINA PAVARINA CHIODI
[Línguas de Sinais]
Coordenação na Língua de Sinais Brasileira: análise de aspectos sintáticos e semânticos
Esta comunicação tem como objetivo discutir o processo de coordenação na Língua de Sinais Brasileira (libras), investigando especificamente as formas de expressão das orações coordenadas aditiva, disjuntiva e adversativa, tendo em vista aspectos sintáticos, relativos à presença ou não de conjunção, também (adição), ou (disjunção) e mas (contrajunção), aspectos prosódicos, relativos ao uso de marcadores não-manuais (MNM), e aspectos semânticos, relacionados à construção de sentido nas orações coordenadas. Para as análises, foram utilizados dados espontâneos coletados do Corpus de Libras da Universidade Federal de Santa Catarina e do minicorpus do Grupo de Pesquisa em Línguas de Sinais da Unesp (SingL). O arcabouço teórico se constitui principalmente de pesquisas sobre a libras (Rodrigues, 2022; Silva, 2019; Quadros et al., 2023) e outras línguas de sinais, como a Língua de Sinais Americana e a Língua de Sinais Catalã (Davidson, 2013; Pfau, 2016; Zorzi, 2018) e sobre línguas orais (Neves, 2000; Pezatti; Longhin-Thomazi, 2008; Haspelmath, 2004). As anotações dos vídeos foram realizadas no ELAN, que permite a simultaneidade entre as transcrições e o vídeo dos surdos em interação. A análise consistiu no levantamento das frequências type e token (Bybee, 2003) dos três tipos oracionais e dos MNM, com a comparação dos resultados encontrados na libras com outras línguas de sinais. Os resultados mostraram que os três tipos de coordenadas se caracterizam pelo uso de conjunção manual e por MNM de diferentes naturezas. A adição apresenta uma maior produtividade de sentenças justapostas e uso de MNMs. As sentenças alternativas também se constituem pelo uso produtivo de conjunção manual e MNMs, distinguindo-se semanticamente como inclusivas e exclusivas. Nos dados analisados identificou-se que, para esses dois tipos, há prevalência de MNM como o movimento do corpo de um lado para o outro e de cabeça, o mouthing e o movimento das sobrancelhas. Nas sentenças adversativas, o uso da conjunção manual é mais produtivo, embora os MNM como o movimento do corpo para frente e para trás também cumpra com seu papel para a construção de sentidos de contraste e contraexpectativa. Desse modo, a pesquisa desenvolvida aprofunda as descrições linguísticas das línguas de sinais em geral e da libras em particular nos níveis sintático, semântico e prosódico.
Palavras-chave: análise linguísitca; Língua de Sinais Brasileira; Sentenças Coordenadas;
SARAH POLI BARBOSA
[Geral]
A influência de aspectos subjetivos na estratificação socioeconômica de migrantes nordestinos em Campinas-SP
A influência de aspectos subjetivos na estratificação socioeconômica de migrantes nordestinos em Campinas-SP A Classe Social tem sido um tópico pouco explorado na Sociolinguística Brasileira e, em muitos casos, as diferenças socioeconômicas entre os indivíduos é analisada a partir da escolaridade como único parâmetro. Entretanto, com o surgimento de programas de democratização do acesso ao Ensino Superior, a realidade brasileira quanto aos níveis de educação tem se alterado nas últimas décadas (Mendes e Oushiro, 2011). Ainda, estudos que propuseram analisar a Classe Social a partir de diversos aspectos (Alvez, 1979; Oushiro 2015) focaram em parâmetros objetivos – relacionados aos bens materiais (como renda e ocupação) –, para a estratificação dos indivíduos, deixando-se de considerar aspectos subjetivos – relacionados aos hábitos de consumo e estilos de vida (como o tipo de lazer). A partir dos pressupostos da Sociolinguística Variacionista (Labov, 1972) , analisa-se influência da Classe Social no processo de acomodação dialetal de 46 migrantes alagoanos e paraibanos residentes em Campinas – com diferentes níveis de escolaridade (Fundamental, Médio e Superior) e que estão estratificados em Tempo de Residência e Idade de Migração. Por meio da análise das ocorrências de /s/ em coda (como em mas e mesmo) em três processos fonético/fonológicos – palatalização ([?]/[?] vs. [s]/[z]), apagamento (apagamento vs. realização) e aspiração ([h]/[?] vs. [s]/[z] e [?]/[?]) –, propôs-se a construção de um Índice Socioeconômico com parâmetros objetivos e subjetivos. Nesta comunicação, apresentam-se resultados da comparação entre tal índice e um estritamente objetivo – proposto por Oushiro (2015)–, a partir da função compare_performance, a fim de entender como a inclusão de aspectos subjetivos auxilia na estratificação socioeconômica dos indivíduos. Dentre os resultados observados para o processo de palatalização de /s/ em coda, um índice com parâmetros subjetivos, associado aos parâmetros objetivos, explica melhor a variação nos dados. Entretanto, para os processos de apagamento e de aspiração de /s/ em coda, cujas variantes zero fonético e aspirada são estigmatizadas em diferentes regiões do país, observa-se que o índice estritamente objetivo proposto por Oushiro (2015) é melhor para explicar a variação nos dados. Desse modo, os resultados apontam que diferentes parâmetros são relevantes para a estratificação socioeconômica dos indivíduos, a depender da indicialidades de cada variante.
Palavras-chave: Classe Social; Índice Socioeconômico; Contato Dialetal;
SEBASTIÃO CARLÚCIO ALVES FILHO
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Multimodalidade em desenhos infantis e ensino de língua inglesa para crianças: contribuições de Alphablocks para a aprendizagem inicial de inglês como língua estrangeira
Esta comunicação apresenta resultados de uma pesquisa que investiga de que maneira a multimodalidade presente em desenhos animados infantis pode contribuir para o ensino e a aprendizagem de língua inglesa como língua estrangeira na infância, especialmente em fases iniciais de desenvolvimento linguístico. Fundamentado nos pressupostos da Linguística Aplicada, com ênfase nas discussões sobre ensino de línguas para crianças, e nos estudos sobre multimodalidade, o trabalho parte da compreensão de que a construção de sentidos em contextos contemporâneos de aprendizagem ocorre por meio da articulação entre diferentes modos semióticos, tais como linguagem verbal, imagens, sons, música, movimento e gestos. Nesse contexto, analisa-se como esses múltiplos recursos, quando organizados pedagogicamente em materiais audiovisuais, podem favorecer processos de aquisição linguística de forma mais significativa, lúdica e contextualizada. O corpus é composto por episódios da primeira temporada do desenho animado Alphablocks, selecionado por seu foco explícito em alfabetização e consciência fonológica em língua inglesa. A pesquisa adota uma abordagem documental de natureza qualitativa e quantitativa, observando recorrências, estratégias multimodais e padrões de interação entre os diferentes recursos semióticos mobilizados ao longo dos episódios. Os resultados indicam que elementos como letras animadas, associação entre grafemas e fonemas, efeitos sonoros, canções, ritmo, repetição, gestos corporais e transformações visuais favorecem significativamente o desenvolvimento da consciência fonológica, a aquisição e ampliação de vocabulário, a compreensão oral e habilidades iniciais de leitura e letramento em língua inglesa. Observou-se também que os recursos visuais e auditivos reduzem a carga cognitiva do aprendiz ao oferecer pistas contextuais que auxiliam na construção de sentidos sem dependência exclusiva de tradução, promovendo maior engajamento e compreensão intuitiva. Além disso, a musicalidade e a repetição contribuem para a internalização de padrões de pronúncia, estruturas sintáticas e reconhecimento lexical. Conclui-se que desenhos infantis, quando selecionados criticamente e mediados por práticas pedagógicas intencionais, podem constituir ambientes multimodais estruturados, capazes de potencializar o desenvolvimento linguístico de crianças e ampliar possibilidades metodológicas para o ensino de inglês como língua estrangeira em contextos educacionais contemporâneos.
Palavras-chave: multimodalidade; ensino e aprendizagem de língua i;
SHIRLEI CONCEIÇÃO BARTH SCHAEFFER
[Geral]
Línguas de herança no Espírito Santo: Formação de banco de dados sociolinguísticos
Línguas de herança no Espírito Santo: Formação de banco de dados sociolinguísticos Este trabalho apresenta e discute duas pesquisas de doutorado em andamento, desenvolvidas no campo da Sociolinguística de contato, voltadas às línguas de herança no Espírito Santo. A primeira pesquisa tem como foco a formação de um banco de dados sociolinguísticos do Pomerano e de variedades do Alemão em contato com o Português no município de Santa Leopoldina; a segunda dedica-se à constituição de um banco de dados sociolinguísticos do Talian com descendentes de imigrantes em Santa Teresa. Ambas partem do pressuposto de que as línguas de herança não constituem apenas sistemas linguísticos, mas também patrimônios culturais e simbólicos continuamente ressignificados por seus falantes, especialmente em contextos multilíngues marcados pelo contato com o português. As investigações têm como objetivo central constituir bancos de dados linguísticos que possibilitem, posteriormente, delinear perfis sociolinguísticos dessas comunidades, identificando contextos de uso, transmissão intergeracional e manutenção ou substituição das línguas de herança. O trabalho fundamenta-se teoricamente em discussões propostas por Weinreich, Labov e Herzog (2006 [1998]) acerca da mudança linguística em situações de contato; por Weinreich (1970 [1953]) sobre o contato linguístico, bem como em estudos sobre políticas linguísticas, vitalidade linguística e atitudes linguísticas desenvolvidos por Spolsky (2004) e Shohamy (2006). Dialoga, ainda, com pesquisas sobre línguas de imigração no Espírito Santo realizadas por Peres (2014), Cominotti (2021) e Benincá (2025) para o Talian; Bremenkamp (2014), Morello e Silveira (2022) para o Pomerano; Altenhofen e Morello (2018) para o Alemão, especificamente o Hunsrückisch. Metodologicamente, trata-se de pesquisas qualitativas, bibliográficas e analítico-comparativas, alinhadas à Sociolinguística de contato e fundamentadas em estudos desenvolvidos em comunidades de imigração no Espírito Santo. A análise concentra-se em aspectos como transmissão intergeracional, cooficialização, políticas linguísticas, práticas comunitárias e crenças linguísticas relacionadas ao Talian, ao Pomerano e ao Alemão. Em sua fase inicial, as pesquisas evidenciam a relevância da formação de banco de dados sociolinguísticos para a documentação, valorização e fortalecimento das línguas de herança ainda faladas em contato com o português, contribuindo para a compreensão dos fatores sociais que condicionam sua vitalidade e para o desenvolvimento de políticas de preservação cultural e linguística.
Palavras-chave: Línguas de herança; Sociolinguística; Banco de dados linguísticos;
SIMONE CRISTINA DUARTE MEDEIROS
[Geral]
Circuito mínimo de atividades: um dispositivo a serviço das práticas de leitura
Circuito mínimo de atividades: um dispositivo a serviço das práticas de leitura Este estudo parte de uma concepção de que o trabalho em sala de aula deve ser realizado por meio de dispositivo didático, ferramenta que possibilita o ensino organizado em torno de gêneros textuais para mediar a aprendizagem (Schneuwly & Dolz, 2004; Oliveira & Cordeiro, 2023). A partir da concepção e implementação em sala de aula de um dispositivo didático, intitulado circuito mínimo de atividades (CMA), que articula pesquisa e prática docente e que possibilita aos alunos a construção progressiva da compreensão narrativa por meio de atividades colaborativas e mediadas pelo professor, o objetivo dessa apresentação é evidenciar as contribuições desse dispositivo didático na estruturação e na potencialização das práticas de ensino de leitura na etapa de escolarização do fundamental maior. O estudo está ancorado na Engenharia Didática (Dolz, 2016, Cordeiro; Aeby-Daghé, 2021), remete às ferramentas conceituais de “gênero textual” (Schneuwly & Dolz, 2004) e “sistema narrativa-personagens” (Cordeiro, 2015), bem como à ferramenta didática de “circuito de atividade mínima” (Cordeiro & Liaudet, 2021). Trata-se de uma pesquisa-ação qualitativa-interpretativa e quantitativa, envolvendo análise comparativa de três turmas de 8º ano do Ensino Fundamental (alunos de 12 a 14 anos) de uma escola de aplicação da Universidade Federal do Pará, sendo uma turma experimental e duas turmas controle. A coleta de dados inclui: a aplicação de quatro provas de leitura desenvolvidas com base nas competências previstas nos documentos curriculares e avaliativos oficiais brasileiros (BNCC e Saeb), o preenchimento de um questionário socioeconômico, o estabelecimento de um circuito mínimo de atividades na aula experimental. Foram realizadas análises estatísticas, qualitativas e interpretativas desses dados. A análise dos dados revelam, dentre outras coisas, que em termos de habilidades de leitura, o percurso evidencia que o CMA fortalece a habilidade de localização de informações explícitas, mas, sobretudo, promove a inferência de informações implícitas e a interpretação integrada da intriga. Ao explicitar tais efeitos do CMA, visamos a contribuir para a reflexão sobre práticas de ensino que possam ser adaptadas e ampliadas em contextos similares, bem como sistematizar conhecimentos que fortaleçam a ação docente e orientem futuras intervenções pedagógicas, cuja finalidade seja favorecer o desenvolvimento de habilidades de leitura, principalmente, as de inferência.
Palavras-chave: Práticas de ensino de leitura; Circuito mínimo de atividades; Habilidades de leitura;
SUELIO GERALDO PEREIRA
[Geral]
O jogo de entonações no conto “Um pobre-diabo”, de Graciliano Ramos
O jogo de entonações no conto “Um pobre-diabo”, de Graciliano Ramos Este trabalho examina o conto “Um pobre-diabo”, de Graciliano Ramos, com o objetivo de analisar o papel da entonação na organização do discurso narrativo, compreendendo-a não como elemento acessório, mas como dimensão constitutiva da produção de sentido. A investigação fundamenta-se nas proposições teóricas de Valentin N. Volóchinov e Mikhail M. Bakhtin, para os quais a entonação integra a materialidade valorativa do enunciado, funcionando como índice das posições axiológicas em jogo na interação discursiva. A partir de uma abordagem analítico-interpretativa, o estudo concentra-se na articulação entre a voz do narrador e o discurso das demais personagens, buscando evidenciar os mecanismos pelos quais a instância narrativa intervém na configuração dos sentidos. Tal intervenção realiza-se, sobretudo, por meio de inflexões entonacionais que orientam a leitura do conto e modulam a relação entre as diferentes vozes presentes. Nesse processo, destaca-se o papel da ironia como procedimento estruturante, uma vez que permite ao narrador refratar, tensionar e reavaliar a fala do protagonista, instaurando um descompasso entre o dito e o valor que o atravessa. Ao privilegiar essa dimensão, a análise desloca o eixo interpretativo do plano estritamente temático para o nível das relações discursivas, nas quais a entonação atua como operador fundamental de valoração, responsável por instaurar hierarquias, distanciamentos e conflitos entre perspectivas. Desse modo, evidencia-se que o sentido não se encontra apenas no conteúdo proposicional dos enunciados, mas emerge da dinâmica entre vozes socialmente situadas e axiologicamente orientadas. Conclui-se que o conceito de entonação, tal como formulado no âmbito do pensamento de Volóchinov e Bakhtin, constitui um instrumento analítico produtivo para a leitura da prosa de Graciliano Ramos, permitindo apreender os modos de funcionamento de seu discurso literário. Essa abordagem mostra-se aplicável não apenas ao conto em questão, mas também ao gênero romance e a outros discursos de diferentes escritores nacionais, ampliando, assim, as possibilidades de investigação das formas de construção do sentido na literatura brasileira.
Palavras-chave: Entonação; Graciliano Ramos; Literatura Brasileira;
SÍLVIO RIBEIRO DA SILVA
[Geral]
Ler o social, sem escrever o mundo? Limites do letramento em apostilado do Ensino Médio
Ler o social, sem escrever o mundo? Limites do letramento em apostilado do Ensino Médio Este trabalho apresenta resultados de uma pesquisa que analisou em que medida o apostilado de Língua Portuguesa do Bernoulli Sistema de Ensino, destinado ao Ensino Médio, favorece práticas de letramento social em atividades de leitura e escrita. Parte-se da compreensão de que o letramento não se limita ao domínio técnico da leitura e da escrita, mas envolve usos sociais da linguagem, historicamente situados, por meio dos quais os sujeitos participam, interpretam e intervêm na vida social. O estudo apoia-se em discussões sobre letramento social, práticas escolares de leitura e escrita, linguagem como prática discursiva, gêneros do discurso e relações entre material didático, desigualdade e formação cidadã. Metodologicamente, a investigação insere-se no campo da Linguística Aplicada, assume abordagem qualitativo-interpretativista e recorre ao paradigma indiciário, observando, em atividades selecionadas do material, sinais de favorecimento ou de limitação do letramento social. A análise concentrou-se em propostas que tematizam ideologia na linguagem midiática, desigualdade social, concentração fundiária, racismo, invisibilidade da população negra e representações de classe, raça, gênero e região. O recorte permite discutir três movimentos principais. Primeiro, há atividades com potencial crítico, pois solicitam que os estudantes relacionem escolhas linguísticas, textos literários ou midiáticos e problemas sociais contemporâneos. Segundo, esse potencial aparece de modo pontual, frequentemente isolado em seções específicas, sem constituir uma orientação sistemática do material. Terceiro, predominam exercícios voltados à compreensão textual escolarizada, enquanto práticas de produção escrita socialmente significativa são pouco exploradas. A comunicação oral privilegiará apresentação de exemplos ilustrativos acerca dos resultados encontrados objetivando demonstrar como o material abre possibilidades críticas, mas também limita a passagem da leitura temática para práticas efetivas de participação social, de forma mais concreta. Os resultados indicam que o apostilado possibilita certas aproximações com o letramento social, sobretudo quando aborda racismo, desigualdade de classe, estereótipos regionais e exclusão social. Tais aproximações, contudo, nem sempre conduzem o estudante à elaboração crítica mais consistente, pois muitas propostas permanecem no nível da identificação temática ou da discussão oral. Observou-se, ainda, que a ausência de encaminhamentos para escrita argumentativa, intervenção discursiva e circulação social dos textos reduz a potência formativa das atividades. Conclui-se que o material analisado contempla possibilidades relevantes de leitura crítica, mas o faz de forma insuficiente e esporádica.
Palavras-chave: Letramento social; Material didático; Práticas de leitura e escrita;
TALITA NABAS TAVARES
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Educação bilíngue para Surdos e CLIL: para além da integração entre conteúdo e língua
Educação bilíngue para Surdos e CLIL: para além da integração entre conteúdo e língua A abordagem CLIL (Content and Language Integrated Learning - Aprendizagem Integrada de Língua e Conteúdo) vem sendo amplamente discutida e utilizada em contextos de educação bilíngue, sobretudo no que se refere à integração entre ensino de conteúdos e desenvolvimento linguístico. Entretanto, suas bases teórico-metodológicas ainda são pouco exploradas quando consideradas as especificidades da educação bilíngue para Surdos, marcada pela centralidade da visualidade, pela presença de línguas em modalidades distintas e por perspectivas pedagógicas próprias da comunidade surda. Nesse contexto, esta apresentação propõe uma reflexão sobre as possibilidades e limites da abordagem CLIL na educação bilíngue para Surdos, buscando discutir em que medida seus pressupostos dialogam ou entram em tensão com práticas pedagógicas em contextos educacionais em que Libras e a língua portuguesa se integram. Como parte integrante de uma pesquisa de doutorado, tal reflexão contribuirá para analisar as possibilidades de aplicação dessa abordagem a partir de um recorte centrado na análise dos dados produzidos no contexto escolar. Tal pesquisa adota uma abordagem qualiquantitativa e se desenvolve em escolas bilíngues de Surdos da rede municipal de São Paulo. A produção de dados ocorre por meio de grupos focais organizados por perfis distintos de participantes, da realização de análise documental do currículo de português como L2 da rede municipal e de projetos pedagógicos de cursos de formação docente, além de levantamento quantitativo sobre a oferta de cursos de Letras-Libras no Brasil. A triangulação entre os dados dos grupos focais, documentos curriculares e levantamento quantitativo permite ampliar a compreensão das práticas pedagógicas e das concepções que orientam esse ensino. Assim, mais do que uma simples integração entre conteúdo e língua, propõe-se compreender o CLIL como uma possibilidade de articulação entre diferentes modos de significação e práticas translíngues. Espera-se que a discussão contribua para ampliar o debate acerca da educação bilíngue para Surdos e para tencionar modelos preexistentes de ensino bilíngue neste contexto, apontando caminhos para práticas pedagógicas mais assertivas e linguisticamente situadas.
Palavras-chave: CLIL; Educação de surdos; Portugues como L2;
THELMA TAVARES DIAS
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GÊNEROS TEXTUAIS EMERGENTES E MULTILETRAMENTOS NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA: uma proposta de letramento no ensino técnico
GÊNEROS TEXTUAIS EMERGENTES E MULTILETRAMENTOS NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA: uma proposta de letramento no ensino técnico Este projeto de pesquisa insere-se no campo dos estudos linguísticos aplicados ao ensino, com foco na relação entre gêneros textuais emergentes, multiletramentos e a Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Parte-se do pressuposto de que as transformações sociais e tecnológicas têm promovido o surgimento de novos gêneros discursivos, especialmente vinculados ao mundo do trabalho, os quais nem sempre são contemplados pelas orientações curriculares vigentes. Nesse contexto, a pesquisa busca problematizar a formação docente para o ensino desses gêneros, considerando a necessidade de desenvolvimento de um letramento profissional. A fundamentação teórica apoia-se em concepções de linguagem como prática social e interacional, bem como na teoria dos gêneros discursivos, entendidos como formas relativamente estáveis de enunciação que se transformam conforme as demandas sociais. Além disso, incorpora os estudos de multiletramentos, que enfatizam a multimodalidade e a diversidade cultural presentes nas práticas contemporâneas de linguagem. Há, também, fundamentos acerca da formação docente para atuar de acordo com tal perspectiva. O problema de pesquisa centra-se na relação entre letramento profissional e saberes docentes no ensino de gêneros textuais emergentes ligados ao mundo do trabalho, especialmente no âmbito da EPT. Assim, objetiva-se investigar tais gêneros, compreender o conceito de letramento profissional, identificar aqueles ainda não contemplados pelos documentos curriculares e propor caminhos para a formação docente que possibilitem sua abordagem pedagógica. A metodologia adotada é de abordagem qualitativa, com realização de entrevistas semiestruturadas com professores de Língua Portuguesa que atuam no ensino técnico. Os dados serão analisados por meio da Análise de Conteúdo, buscando compreender percepções, práticas e desafios enfrentados pelos docentes diante das novas demandas de ensino. Como resultados esperados, pretende-se contribuir para a consolidação teórica do letramento profissional, bem como para a identificação de estratégias pedagógicas que integrem os gêneros emergentes ao ensino. Espera-se, ainda, produzir um material didático voltado à formação docente, alinhado às demandas contemporâneas da EPT, contribuindo para a área de Linguagens.
Palavras-chave: letramento profissional; saberes docentes; multiletramentos;
THUANY TEIXEIRA DE FIGUEIREDO
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Um misto de sentimentos: um estudo semântico-experimental sobre emoções mistas no português brasileiro
Um misto de sentimentos: um estudo semântico-experimental sobre emoções mistas no português brasileiro A interface entre linguagem, cognição social e emoções constitui um campo fértil para a experimentação linguística (Vaccaro et al., 2020; De Waal, 2021; Figueiredo, Bernardino & Sampaio, 2024, Figueiredo 2025). Este estudo contribui para esse campo ao investigar como emoções mistas são expressas no português brasileiro (PB) por meio de nomes relacionais, tais como os sintagmas “uma mistura de” e “um turbilhão de”, encontrados em expressões como “um misto de alegria e tristeza” (Larsen et al., 2001; Figueiredo & Bernardino, 2024; Figueiredo 2025). Segundo o quadro teórico da área, estados emocionais mistos, como nostalgia e bittersweetness, envolvem processos de simultaneidade (tempo), memória e reavaliação cognitiva (Vaccaro et al., 2020). Além disso, estudos sobre a relação entre linguagem e emoções mostram que a conceitualização emocional pode ser expressa linguisticamente por meio de estruturas como substantivos, verbos e preposições (Foolen, 2016). Dessa forma, ampliando essa agenda de pesquisa, nosso objetivo é analisar como falantes interpretam a intensidade das emoções mistas veiculadas por nomes relacionais, com foco em dois grupos: (1) expressões como “um misto de” e (2) expressões como “uma montanha-russa de”. O estudo situa-se na interface entre a Psicolinguística e a Semântica Formal e testa duas hipóteses principais: (a) emoções mistas expressas por nomes relacionais ativam uma leitura antidistributiva (Champollion, 2020; Basso & Araújo, 2024), sendo que os nomes do grupo (2) codificam estados emocionais mais intensos do que os do grupo (1); e (b) emoções mistas não resultam de uma simples soma de sentimentos individuais, mas constituem, antes, um novo estado emocional que não pode ser adequadamente capturado por rótulos emocionais convencionais. Para testar essas hipóteses, elaboramos um experimento on-line utilizando o Google Forms, no qual foram apresentados 16 cenários (oito para cada grupo). Os participantes realizaram tarefas de interpretação semântica — com foco nas relações de acarretamento entre emoções — e tarefas de produção eliciada. Os resultados esperados sugerem que emoções mistas não são redutíveis a emoções simples e que a intensidade emocional afeta o acesso lexical dos falantes. Em última instância, argumentamos que a codificação linguística das emoções mistas revela a interface entre o sistema de cognição social e a Faculdade da Linguagem (Berwick & Chomsky, 2017), sugerindo que a nomeação de emoções complexas envolve tanto processos linguísticos quanto processos cognitivo-sociais mais amplos. (Apoio: CAPES – Processo 88881.243230/2025-01)
Palavras-chave: semântica formal; emoções mistas; psicolinguística;
TIAGO DOS SANTOS CARNEIRO
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Ensinando composição no ensino médio: o Composificador e neologismos compostos de Guimarães Rosa
Ensinando composição no ensino médio: o Composificador e neologismos compostos de Guimarães Rosa Este trabalho fundamenta e propõe uma sequência didática para se trabalhar o tema da composição em aulas de Língua Portuguesa no ensino médio. Parte-se de uma metodologia sincrética que combina apontamentos de variados autores a respeito do ensino de gramática (Franchi, 1991; Geraldi, 1991; Lobato, 2015; Neves, 2021a, 2021b; Oliveira; Quarezemin, 2017; Perini 2017; Pilati, 2017), considerando que suas perspectivas conseguem se associar de modo complementar. Embasando-se nos princípios então estabelecidos com essa metodologia, o trabalho desenvolve primeiramente uma análise crítica da BNCC (Brasil, 2018), tendo em vista o desenvolvimento de uma proposta de ensino de morfologia no ensino médio. Constata-se que o documento não cita (e portanto, não prevê um trabalho com) assuntos morfológicos nessa etapa escolar. Visando remediar esse quadro, adota-se uma estratégia que pode ser replicada para outros assuntos morfológicos: apresenta-se como um assunto, a princípio, de formação de palavras como a composição estabelece sensíveis interfaces entre a morfologia e a sintaxe, conforme o atual entendimento linguístico de linhas gerativistas não lexicalistas (Nóbrega, 2014) que demonstram existirem relações sintáticas internas (de subordinação, atribuição e composição) às formações dos compostos. Com essa nova perspectiva para esse processo de formação de palavras, torna-se possível abranger diretamente habilidades presentes na BNCC (Brasil, 2018) previstas para serem trabalhadas no ensino médio, referentes justamente às relações sintáticas citadas, dado que são são igualmente observadas internamente aos compostos. Com isso, embasa-se a proposição da sequência didática, que é constituída por duas atividades. Primeiro, o “Composificador”, um material manipulável que permite a formação de compostos a partir de elementos em relação sintática. Essa atividade visa demonstrar a presença das mesmas relações internamente aos compostos, recrutando os estudantes a trabalhar com suas intuições linguísticas implícitas e com seus conhecimentos explícitos de sintaxe. Na segunda atividade, neologismos de Guimarães Rosa formados por composição são analisados, buscando semelhanças e diferenças com os compostos do português, a fim de que os estudantes percebam padrões nos dados, como por exemplo as relações sintáticas, consolidando um entendimento profundo a respeito da composição.
Palavras-chave: Ensino-aprendizagem; Composição; Guimarães Rosa;
VICTOR APARECIDO DOS REIS OLIVEIRA
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Linguagem e estilo no campo feminista: um breve estudo sobre cartilhas na temática “violência de gênero”
Linguagem e estilo no campo feminista: um breve estudo sobre cartilhas na temática “violência de gênero” Este trabalho resulta de um artigo produzido como trabalho final da disciplina “Tópicos de Linguística Textual I”, cursada no PPG em Linguística do IEL/Unicamp. O corpus de análise é formado por dois textos, consultados em um relatório na temática “violência de gênero”, que foi formulado pelas colaboradoras do Observatório de Linguagem e Feminismos nas Redes Sociais (OLFEMIS), um produto da tese de Rafaely Cruz (2025). As colaboradoras do observatório classificaram e organizaram informações sobre os sites e textos de organizações feministas em planilhas de acordo com, entre outros critérios relevantes, os domínios discursivos (Marcuschi, 2008) aos quais os sites e textos estão vinculados. Nosso objetivo geral com o artigo foi o de analisar a prática comunicativa (Hanks, 2008) das atoras de distintos campos sociais, em específico como a escolha dos recursos textuais e estilísticos (Koch, 2002; 2004; Bentes, 2001; 2024) se relaciona com o habitus dos campos político e da saúde, além do campo feminista (Alvarez, 2014). Escolhemos o gênero discursivo “cartilha” por se tratar de um gênero significativo para o campo feminista, pois busca esclarecer como são praticadas as diversas formas de violência sofridas pelas mulheres, os papéis sociais dos perpetradores e das vítimas dessas violências, e como os leitores podem e devem agir para tanto preveni-las quanto remediá-las. Nos dados analisados, assim como em Cruz (2023), observamos as atoras sociais, no domínio político, mobilizarem o público para a ação política e para a compreensão teórica e prática do feminismo, e, no domínio da saúde, promoverem a saúde das mulheres a partir de uma determinada perspectiva campo feminista. Embora os domínios discursivos e os públicos-alvo sejam distintos, o propósito geral compartilhado pelas diferentes atoras sociais - o de fazer valer os direitos das mulheres em suas respectivas esferas de atividade humana - parece ter contribuído para que os textos apresentem uma mesma forma composicional: em um primeiro momento, as autoras educam o público-leitor sobre as particularidades do tipo de violência de gênero da qual elas estão tratando nos textos; em um segundo momento, as autoras aconselham o público-leitor sobre como agir em situações de violência de gênero, seja como uma forma de preveni-las, seja como uma forma de acolher as vítimas, e de punir seus algozes. Para tanto, os recursos estilísticos mobilizados pelas autoras convergem para os resultados da monografia de Etulain (2021), em que foram analisados os estilos nomeados de “pedagógico” e “aconselhador”.
Palavras-chave: Prática comunicativa; estilo sociolinguístico; feminismos;
VICTOR PAIVA LUZ DE CAMPOS
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Como surge uma morfologia não-concatenativa? Estudo histórico-comparativo inicial das línguas Guaná-Chané da família Aruák
Como surge uma morfologia não-concatenativa? Estudo histórico-comparativo inicial das línguas Guaná-Chané da família Aruák A família Aruák é uma das maiores no Brasil, mas também uma das menos estudadas. Em geral, não há consenso sobre a divisão dos ramos nos níveis mais altos da filogenia (Michael, 2021). Tradicionalmente, a família toda é dividida em Aruák do Norte e Aruák do Sul, porém, trabalhos mais recentes não encontraram evidências para essa cisão, e novos ramos foram propostos (Walker; Ribeiro, 2011). Um desses ramos é o Sul que, apesar de homônimo, contém apenas os subgrupos linguísticos Bauré, Moxo e Guaná-Chané (Carvalho, 2019). O Guaná-Chané é historicamente composto de quatro línguas, das quais apenas duas ainda são faladas principalmente no Mato Grosso do Sul: Terena; e Kinikinau, com vitalidade bem reduzida e muito menos estudada do que o Terena. Além disso, há divergências entre os linguistas e os indígenas dessa etnia quanto ao status do Kinikinau como língua ou dialeto (Aikhenvald, 1999; Carvalho, 2016). Ambas as línguas são aglutinantes, com ordem VOS e têm uma morfologia não-concatenativa totalmente produtiva, tal como no árabe. A peculiaridade desse tipo de morfologia é que, em vez de apenas concatenar elementos, como prefixos, sufixos ou infixos, ela também utiliza transfixos, ou seja, ocorre a troca de uma parte do material fonológico da palavra, e é essa troca que carrega significado. Diante disso, pode-se indagar como teria surgido essa característica, tão complexa do ponto de vista sincrônico. Assim, nesta comunicação, vamos apresentar uma análise preliminar da evolução da morfologia não-concatenativa nessas duas línguas, com foco nos pronomes sujeito. Metodologicamente, pretende-se utilizar as descrições linguísticas existentes sobre o Terena, o Kinikinau e, eventualmente, outras línguas Aruák, realizando comparações internas e externas para reconstruir protoformas de uma possível língua Proto-Guaná-Chané. Espera-se que o trabalho ajude a entender melhor o funcionamento do Terena e do Kinikinau, permitindo avançar nas suas descrições, e também contribuir na sua classificação filogenética dentro da família Aruák.
Palavras-chave: Línguas indígenas; Linguística histórica; Arawak;
VICTOR TEIXEIRA TURATTI
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Investigando a formação de phi no PB por meio de Match Theory
Investigando a formação de ? no PB por meio de Match Theory Este trabalho pretende revisitar, sob a luz de uma análise teórica dentro do quadro da Match Theory (SELKIRK, 2011; SELKIRK & KRATZER, 2020), os estudos sobre a interface fonologia-sintaxe como Tenani (2002), Sandalo & Truckenbrodt (2003) e Santos (2002; 2003), ocupando-se especificamente da formação do constituinte ? no português brasileiro. Tanto Sandalo & Truckenbrodt (2003) quanto Santos (2002; 2003) notam, por meio de retração de acento, que a formação de ? se dá em torno dos sintagmas XPs presentes na estrutura sintática. No entanto, Sandalo & Truckenbrodt apontam que há uma separação dos ?(s) que contém o sintagma que compõe a posição de Spec,IP do(s) ?(s) composto pelo sintagma contendo o núcleo verbal, independente de fatores como a eurritmia. A partir desse dados, busca-se reanalisar e, possivelmente explicar, essa análise por meio da Match Theory, que pretende argumentar que os constituintes prosódicos estão intimamente relacionados à estrutura sintática, especificamente por meio de uma intersecção entre a Teoria da Otimalidade (PRINCE & SMOLENSKY, 1993) e o Programa Minimalista (CHOMSKY, 1995). Assim, a categoria ? estaria relacionada a proposta de múltiplos Spell-outs (URIAGEREKA, 1999) e, portanto, com a proposta das fases (CHOMSKY, 2001; 2008), e, consequentemente, ? sempre deveria estar contido dentro da fase enviada pela sintaxe à Interface Fonológica e não poderia ultrapassar suas fronteiras. Outros trabalhos, tanto na Match Theory quanto em outras abordagens, em outras línguas também apontam para uma formação de ? que sigam os limites das fases como: Adger (2006); Büring & Truckenbrodt (2021); Dobashi (2003); Ishihara (2003, 2007); Ishihara & Kalivoda (2022); Revithiadou & Spyropoulos (2009), Pak (2009), Truckenbrodt (2012) e Wagner (2010). A partir disso, pretende-se explorar a formação de ? no PB com base nos pressupostos estabelecidos na Match Theory (SELKIRK, 2011; SELKIRK & KRATZER, 2020), revisitando os dados presentes em Sandalo & Truckenbrodt (2003) e apresentando uma possível análise dentro desse quadro teórico a fim de ser capaz de capturar essa relação de ? com as fases.
Palavras-chave: Teoria da Otimalidade; Match Theory; Prosódia;
VINÍCIUS VIEIRA CABRAL
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Análise morfológica dos nomes em -ada (de evento, de comidas, de coletivos e de atos típicos de X): ‘olhada’, ‘feijoada’, ‘garotada’ e ‘palhaçada’
Análise morfológica dos nomes em -ada (de evento, de comidas, de coletivos e de atos típicos de X): ‘olhada’, ‘feijoada’, ‘garotada’ e ‘palhaçada’ Este trabalho elabora uma nova análise na Morfologia Distribuída para os nomes em -(a)da do português brasileiro. A proposta se baseia na argumentação de Cabral e Scher (2026) para as nominalizações deverbais em -(a)da (tais quais ‘estudada/chovida/dormida’, que aparecem em construções como ‘dar uma estudada/chovida/dormida’), as quais os autores demonstram não terem relação com particípios, levando à postulação de um sufixo nominalizador -(a)da, que entra logo acima da categoria verbal, isto é, [n -(a)da [v [?]]]. Dadas essas características estruturais, considerando as premissas de Panagiotidis (2015) acerca do comportamento de núcleos categorizadores, esperaria-se que esse sufixo também pudesse formar nomes a partir de raízes, de adjetivos e de outros nomes (pois, conforme a caracterização do autor, trataria-se de um mero núcleo categorizador, ao invés de um núcleo ‘Switch’, o qual teria restrições categoriais — como é o caso dos sufixos -ção e -mento, que só conseguem se anexar a bases verbais, por exemplo). O presente trabalho argumenta que a previsão de Panagiotidis (2015), acaba, de fato, comprovando-se no quadro encontrado no português, em que tal sufixo aparece formando nomes de comida (como ‘feijoada’, ‘limonada’ etc.), de coletivos (como ‘garotada’, ‘chinesada’ etc.) e de “ato típico de X” (como ‘burrada’, ‘palhaçada’ etc.). Demonstra-se que, em cada uma dessas formações, o sufixo -(a)da se anexa sobre as demais bases esperadas (nesse aspecto da argumentação, são seguidos os argumentos de Medeiros, 2009), isto é: nos nomes de comida, anexa-se sobre uma raiz [n -(a)da [?]]; nos coletivos, sobre uma categoria nominal [n -(a)da [n [?]]]; por fim, nos de “ato típico”, sobre uma categoria adjetival [n -(a)da [a [?]]]. Sobretudo, essa distribuição sintática diversa em cada caso parece, então, ser responsável pelos diferentes significados que as formações assumem, quer não pareçam relacionadas entre si. Esse argumento se reforça pela análise de outros sufixos que também se ligam a bases de diferentes categorias, como -agem, que, assim como -(a)da, forma nomes deverbais com leitura eventiva (e.g., ‘secagem’, ‘drenagem’), nomes denominais de coletivos (e.g., ‘folhagem’, ‘plumagem’) e nomes deadjetivais de “ato típico” (e.g., ‘sacanagem’, ‘bobagem’). Ou seja, o comportamento de sufixos nominalizadores parece semanticamente regular e definido conforme as bases, apesar da diversidade dos resultados. Especialmente, torna-se plausível concluir que se trata de um mesmo sufixo nominalizador -(a)da, assim como indica a coincidência fonológica da exponência nas formações citadas. Apoio: FAPESP - Processo nº 2025/20494-5.
Palavras-chave: Nominalização em -ada; Nominalização; Morfologia Distribuída;
VITOR LACERDA SIQUEIRA
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Nasalização pretônica em duas variedades do português brasileiro: uma análise nasométrica
Nasalização pretônica em duas variedades do português brasileiro: uma análise nasométrica Este trabalho investiga a nasalização fonética em vogais pretônicas em duas comunidades de fala do português brasileiro, Porto Velho (RO) e Mutum (MG), por meio de uma abordagem instrumental. A nasalização fonética, isto é, a induzida por uma consoante nasal seguinte, tem sido descrita como variável nas sílabas átonas e sensível a fatores linguísticos e sociais (Cagliari 1977, Moraes & Wetzels 1992, Mendonça 2019). Estudos anteriores propuseram uma divisão nacional: as variedades do Norte/Nordeste apresentariam índices mais altos de nasalização do que as do Sul/Sudeste (Abaurre & Pagotto 1996). No entanto, essa literatura se baseou quase exclusivamente em julgamento auditivo e em codificação categórica, o que limita a análise de um fenômeno gradiente, como a nasalização. O objetivo deste estudo é reavaliar essa hipótese por meio de nasometria, considerando também outros fatores linguísticos e sociais. Foram analisados dados de 48 falantes, 24 de Porto Velho e 24 de Mutum, balanceados por gênero e faixa etária. Os participantes leram frases-veículo contendo 120 palavras-alvo, com vogais pretônicas /a, e, i, o, u/ seguidas pelas consoantes /m, n/ e a palatal “nh”. As gravações foram feitas com um nasômetro Glottal Enterprises NAS-1, que capta separadamente as energias acústicas nasais e orais. A nasalância, calculada como a proporção da energia nasal em relação à energia total, foi extraída em 20 pontos equidistantes ao longo das vogais e analisada por meio de Modelos Aditivos Generalizados Mistos (GAMMs). Os resultados mostram que não há diferença estatisticamente significativa geral na nasalização pretônica entre Porto Velho e Mutum (?=0.024, p=0.271). Os condicionamentos mais consistentes são linguísticos: as vogais altas /i/ e /u/ apresentam valores elevados de nasalância. Vogais seguidas da nasal palatal apresentam nasalância substancialmente mais alta do que as seguidas de /m/ ou /n/, mas esse efeito não é categórico como descrito anteriormente (Quicoli 1990, Wetzels 1997, Barbosa & Albano 2004). Os efeitos sociais são mais limitados: a idade não se revela um preditor robusto, enquanto o gênero apresenta um padrão assimétrico entre as comunidades. A diferença regional reside na vogal baixa /a/, que apresenta maior nasalância, acompanhada de um alçamento mais acentuado em Porto Velho do que em Mutum (?=?83.23, p<.001). Assim, o estudo argumenta que a saliência regional da nasalização pretônica depende menos de uma nasalização globalmente maior em Porto Velho do que em Mutum, e mais de combinações de pistas fonéticas salientes, como o alçamento da vogal baixa.
Palavras-chave: nasalização fonética; Português brasileiro; variação regional;
VITOR XAVIER GONÇALVES
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A prática da oralidade-multimodalidade a partir de músicas no ensino e aprendizagem on-line de inglês
A prática da oralidade-multimodalidade a partir de músicas no ensino e aprendizagem on-line de inglês Na literatura do ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, com ênfase na língua inglesa, o desenvolvimento de habilidades orais pode aparecer, dentre diversas maneiras, estruturado em estágios de complexidade e domínio. Brown e Lee (2015) argumentam que aprendizes iniciam o desenvolvimento da comunicação oral por meio de perguntas e respostas simples, sem sentidos impreteríveis (estratégias de repetição ou drills). Prosseguem-se, então, para trocas curtas, porém significativas para, porventura, se tornarem capazes de dominar retóricas transacionais e interpessoais complexas e, até mesmo, longos turnos de fala-escuta (monólogos). Ao adotarmos um olhar mais discursivo para o desenvolvimento oral, concebemos essa habilidade como um meio de comunicação repleto de atravessamentos multissemióticos – concretizados nos momentos de enunciação (Medviédev, 2012; Paula; Luciano, 2020) –, ou, da forma como colocam Kalantzis e Cope (2020), na construção de (re)designs multimodais. Em nível estrutural, por exemplo, a prosódia se organiza em função dos elementos verbais que compõem o enunciado (Celce-Murcia et al., 2010), os quais, por sua vez, se baseiam em uma série de questões visuais, sinestésicas e espaciais (Kalantzis; Cope, 2020). A partir dessa concepção multissemiótica de oralidade, levando em conta as contribuições de Brown e Lee (2015) quanto ao seu desenvolvimento, voltamo-nos para a análise de algumas experiências de ensino e aprendizagem com materiais “orais-multimodais”, com músicas, observando as potencialidades didático-pedagógicas desses complexos insumos no exercício da fala e da escuta. Apresentamos essas reflexões a partir da realização da coleta de dados de nossa pesquisa de mestrado em Linguística, ambientada em um curso on-line de inglês geral em um Centro de Línguas e Desenvolvimento de Professores (CLDP) da UNESP. Para tanto, iniciamos nossa apresentação 1) contextualizando como concebemos a oralidade, para qual enfatizamos os autores supracitados, e diferenciamos os estudos que se enquadram no escopo da Linguística Aplicada daqueles de outras áreas que trabalham com a linguagem; sequencialmente, 2) realizamos uma breve análise de três materiais musicais selecionados e aplicados no levantamento dos dados da pesquisa em questão; e, por fim, 3) relatamos os instrumentos de coleta e metodologia-base utilizados, junto a alguns dos principais resultados parciais da investigação.
Palavras-chave: línguas estrangeiras; ensino e aprendizagem; oralidade-multimodalidade;
VITÓRIA GONÇALVES DE ANIZ
[Geral]
Procedimentos de coleta de dados em língua de sinais: uma abordagem comparativa
Procedimentos de coleta de dados em língua de sinais: uma abordagem comparativa Em línguas de modalidade visual, a coleta de dados para elaboração de corpora linguístico demanda procedimentos distintos daqueles já conhecidos e elaborados nas práticas de campo voltadas para línguas faladas. Este trabalho expõe a metodologia de filmagem e elicitação realizada nas aldeias do Alto Turiaçu (MA) junto à etnia Ka’apor em 2021, com dois objetivos: primeiro, apresentar o acervo produzido; segundo, comparar as estratégias de coleta a outros protocolos utilizados para registrar línguas de sinais de comunidades de vilarejo (como as das etnias Yolnu e Top Hill), bem como às metodologias experimentais típicas de línguas de sinais urbanas (Libras). No que diz respeito aos procedimentos práticos, o projeto realizou o registro audiovisual sistemático de interações linguísticas tanto em LSK (língua de sinais ka’apor), quanto em Ka’apor (oral). As filmagens incluíram a participação de sinalizadores surdos e ouvintes, documentando o bilinguismo bimodal característico da comunidade em situações comunicativas naturais e engendradas. A coleta envolveu narrativas tradicionais, diálogos cotidianos e tarefas de elicitação semântica. Além das filmagens, foram produzidos metadados detalhados para cada sessão, relacionando as produções linguísticas ao contexto sociocultural e às relações de parentesco dos colaboradores. Por fim, os dados foram processados e depositados em arquivo digital de acesso aberto (ELAR). A primeira etapa de comparação metodológica é uma breve exposição de literatura sobre coleta de dados de sinais em ambiente urbano, contrastada com o que ocorre em um projeto em campo indígena. Em seguida, é feita uma investigação de projetos científicos que também tenham ocorrido em comunidades de vilarejo, onde a escassez de recursos digitais e eletrônicos e o afastamento dos centros urbanos são fatores a serem considerados. A pergunta que alinha este trabalho pode ser resumida da seguinte maneira: de que modo as metodologias de registro e elicitação de dados linguísticos em línguas de modalidade visual precisam ser adaptadas às especificidades socioculturais, tecnológicas e interacionais de comunidades indígenas e de vilarejo, e em que medida essas adaptações se distinguem, ou se aproximam, dos protocolos consolidados para línguas de sinais urbanas? (Apoio: ELDP - Processo SG0584)
Palavras-chave: Linguística de Campo; Línguas de sinais indígenas; Ka'apor;
VITÓRIA MARIA SETTEM
[Geral]
Ordenação dos constituintes configuracionais da oração com verbos cópula sob perspectiva da Gramática Discursivo-Funcional
Ordenação dos constituintes configuracionais da oração com verbos cópula sob perspectiva da Gramática Discursivo-Funcional Esta pesquisa visa o estudo da ordenação de constituintes em orações independentes com verbos cópula no espanhol falado sob perspectiva da Gramática Discursivo-Funcional, doravante GDF, (Hengeveld; Mackenzie, 2008). A escolha desse modelo teórico se deve à primazia dada à pragmática e a semântica, representadas, na teoria, pelos níveis Interpessoal e Representacional, já que, para além da sintaxe, essas duas esferas determinam fortemente a ordem dos constituintes de uma oração. Na GDF, os verbos cópula são concebidos no rol da predicação de um lugar, representadas pelo seguinte molde de predicação geral: (f1: [ (f2) (v1)?] (f1)). Orações como "That colour is ugly" podem ser consideradas predicações de um lugar, sendo representada pelo molde citado anteriormente, mas orações como "That woman is an aunt of my friend", "The man is inside the house" e "That girl is fond of chocolate" constituem uma classe especial de Propriedade, necessitando uma representação distinta: (f1: [(f2: [(f3) (v1)?] (f2)) (v2)?] (f1)). Os verbos cópula são, portanto, verbos distintos daqueles considerados transitivos e intransitivos e o que os difere é seu caráter semanticamente vazio, já que são vistos como meros nexos, introduzidos apenas no Nível Morfossintático. Serão considerados nesta pesquisa os verbos ser, estar e parecer, excluindo-se, assim, os chamados verbos semicopulativos ou pseudocopulativos (ponerse, seguir, verse etc), já que, ao contrário dos verbos plenamente copulativos citados anteriormente, atribuem à oração significados modais ou aspectuais (Rivas, 2023). O Universo de investigação consiste no PRESEEA - Proyecto para el estudio sociolingüístico del español de España y de América, com o recorte do espanhol peninsular, já que os inquéritos utilizados serão os da cidade de Alcalá de Henares, na Espanha. Os critérios de análise utilizados, em consonância com o modelo teórico adotado, são: tipo e quantidade de Subatos, funções pragmáticas, molde de conteúdo, função semântica do argumento, categoria semântica do constituinte, moldes de predicação e posições dos argumentos. Os dados apontam que as construções com verbo cópula apresentam diferentes padrões de ordenação de acordo com o molde de predicação: relacional, classificacional, identificacional ou existencial. (Apoio: CAPES – Processo 88887.288403/2026-00)
Palavras-chave: ordenação de constituintes; língua espanhola; funcionalismo;
VITÓRIA SILVEIRA TEIXEIRA MEDRADO
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A necessidade de abordar o letramento tecnológico nas escolas
A necessidade de abordar o letramento tecnológico nas escolas O conceito de letramento tecnológico ou digital se refere à capacidade de utilizar, compreender e criar informações de forma crítica por meio das tecnologias digitais. Esse conceito não pode ser reduzido apenas no uso acrítico da tecnologia e sim em entender seu impacto nas relações sociais e no trabalho e ter a capacidade de agir com consciência e segurança no ambiente virtual. Tal conceito está ganhando cada vez mais notoriedade, principalmente, pelo avanço das tecnologias e de sua presença significativa na vida das pessoas. A adolescência atualmente é marcada pelo uso intensivo de mídias digitais com elevado tempo de exposição às telas substituindo atividades físicas e de convivência social. É necessário entender como funciona o letramento digital e o seu impacto na postura dos adolescentes. O objetivo desta pesquisa foi demonstrar como a escola pode abordar o letramento tecnológico e sua influência na postura dos adolescentes nas mídias digitais. O embasamento teórico, primeiramente, os trabalhos de Morin (2001); Blum-Ross e Livingstone (2018); Odgers; Hayes (2024); Odgers, (2024); Silveira (2019); (2025); Zancan; Tono (2018); Bessa et al (2026). Eles abordam temas pertinentes para a pesquisa, dissertando sobre o letramento digital, o uso das mídias sociais pelos jovens, a tecnologia e sobre como é a educação no século XXI. A metodologia contou com a pesquisa bibliográfica, de livros, artigos que abordam os temas principais desta pesquisa: letramento tecnológico, mídias digitais, a postura digital dos adolescentes e o uso excessivo de telas. Posteriormente, foi elaborado uma sequência didática para auxiliar os professores da educação básica para trabalhar o letramento tecnológico, o uso de telas e mídias digitais. Como resultados, foi evidenciado como a falta de letramento tecnológico pode causar a vulnerabilidade desses usuários nas mídias digitais, sendo alvos de cyberbullying, exposição excessiva e podendo sofrer outros crimes virtuais. Também, a investigação traz evidências de como o uso excessivo de tela atinge diretamente o sono, atenção, rendimento escolar. O uso exagerado de telas, principalmente, o tempo elevado nas mídias sociais gera problemas de saúde e corrobora para o sedentarismo desses usuários (Bessa et al ,2026). Uma parcela significativa dos jovens não percebe o impacto direto deste uso excessivo em sua saúde, o que torna o letramento tecnológico tão importante. Quando mediadas pedagogicamente as tecnologias podem ser recursos educativos, mostrando aos jovens como usá-la de forma saudável. O espaço da escola é o lugar ideal para abordar esses temas.
Palavras-chave: Letramentos; Letramento tecnológico; Mídias digitais;
VIVIAN ORSI
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O microssistema da moda no discurso midiático
O microssistema da moda no discurso midiático Este trabalho tem como objetivo analisar o funcionamento de empréstimos lexicais do inglês no microssistema da moda em um mini corpus constituído por uma entrevista televisiva exibida no programa Sem Censura, da TV Brasil, em janeiro de 2026. A investigação insere-se nos estudos lexicais, com foco nos processos de incorporação e circulação de estrangeirismos no português brasileiro contemporâneo, especialmente em contextos midiáticos. No episódio analisado, o comunicador de moda Dudu Bertholini discute tendências, a ressignificação lexical de nomes de peças e o funcionamento do universo da moda, em um discurso de caráter explicativo e acessível ao público da televisão aberta. A partir da transcrição de trechos selecionados da entrevista, observou-se a presença recorrente de anglicismos pertencentes ao campo semântico da moda e da cultura digital, tais como pink money, fast fashion, feed, mom jeans, chinelo slide, boot cut e flip flop, entre outros. Esses itens lexicais são analisados quanto ao seu grau de integração ao português e às estratégias discursivas empregadas pelo comunicador, que frequentemente associa as unidades lexicais em inglês a paráfrases ou equivalentes em língua portuguesa. O quadro teórico-metodológico baseou-se na Lexicologia, com enfoque na Neologia, dando destaque para a discussão sobre empréstimos linguísticos e os mecanismos de adaptação lexical em contextos de contato entre línguas. A análise, de natureza qualitativa, foi realizada com o referido corpus, considerando também os aspectos de popularização e circulação lexical em ambientes televisivos. Os resultados parciais indicam que o uso de anglicismos no vocabulário da moda não ocorre de forma isolada, mas é acompanhado de estratégias de tradução e reformulação explicativa, voltadas à compreensão do público e, simultaneamente, à manutenção da vinculação com o léxico globalizado da moda contemporânea. A análise revela um processo de circulação lexical marcado pela tensão entre internacionalização e acessibilidade linguística, evidenciando o papel da mídia na difusão e na reconfiguração do microssistema da moda no português brasileiro.
Palavras-chave: anglicismo; empréstimo linguístico; microssistema da moda;
VIVIANE DE SOUZA CARDAÇO
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Vozes da floresta: ecopoética, resistência e protagonismo feminino indígena em "A Revolução da Catí: em busca da semente da vida"
Vozes da floresta: ecopoética, resistência e protagonismo feminino indígena em "A Revolução da Catí: em busca da semente da vida" Este trabalho propõe uma análise da obra "A Revolução da Catí: em busca da semente da vida", de autora Gleycielli Nonato Guató, a partir de uma perspectiva decolonial que articula ecopoética, literatura indígena infantojuvenil e protagonismo feminino indígena. A pesquisa parte da compreensão de que a literatura indígena contemporânea ultrapassa o campo estético, constituindo-se como espaço de resistência, preservação da ancestralidade e produção de conhecimento. Nesse contexto, o estudo problematiza os limites da ecocrítica tradicional, especialmente por sua tendência em separar natureza e cultura, perspectiva que não contempla plenamente as cosmologias indígenas, nas quais terra, corpo, espiritualidade e coletividade são dimensões inseparáveis da existência. A análise dialoga criticamente com as reflexões de Malcom Ferdinand acerca da ecologia decolonial e com o conceito de “confluência”, desenvolvido por Antônio Bispo dos Santos, entendendo a natureza não como recurso, mas como extensão da vida. Na narrativa, a protagonista Catí presencia a devastação provocada pelas queimadas em Guadakan, território popularmente conhecido como Pantanal, e inicia uma jornada em busca da “semente da vida”, símbolo que representa regeneração ambiental, continuidade cultural e esperança coletiva. A trajetória da personagem evidencia uma ética indígena baseada na reciprocidade e no cuidado com a terra, compreendida como organismo vivo e parte do próprio corpo. O trabalho também destaca o protagonismo feminino indígena presente na obra, aproximando Catí das produções literárias e poéticas de autoras indígenas como Eliane Potiguara, Julie Trudruá Dorrico e Márcia Wayna Kambeba, que associam o feminino à preservação da memória, do território e dos saberes ancestrais. Além da análise textual, a pesquisa considera a relevância das ilustrações na construção multimodal da narrativa, reforçando a dimensão simbólica da obra e aproximando leitores da cosmovisão indígena. Conclui-se que a literatura indígena infantojuvenil atua como ferramenta de transformação social e descolonização do imaginário, contribuindo para a valorização das epistemologias indígenas, para a formação de leitores críticos e para o fortalecimento da justiça socioambiental e cultural no contexto educacional contemporâneo.
Palavras-chave: Ecopoética; Protagonismo feminino; Literatura indígena;
WALDEMAR FERREIRA NETTO
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Agrupamentos lexicais por proximidade como estratégia discursiva
Agrupamentos lexicais por proximidade como estratégia discursiva O artigo investiga como discursos de coaching difundidos em redes sociais constroem distinções entre modos de atuação corporativa e modos de atuação vinculados ao domínio familiar e social. Parte-se da premissa de que esses domínios são tradicionalmente separados por uma fronteira semiótica que regula a circulação de crenças, afetos e práticas. A partir dessa hipótese, propõe-se dois tipos de discursos que tratam essa relação de maneira distinta: o discurso radicalista ingênuo e o discurso estratégico. O radicalista ingênuo sustenta a impermeabilidade entre vida profissional e vida familiar, defendendo que questões afetivas e sociais não devem interferir no ambiente técnico científico. Essa perspectiva desconsidera a fluidez concreta que atravessa a vida profissional, na qual vínculos pessoais, relações familiares e práticas sociais se imiscuem no cotidiano do trabalho. Além disso, esse radicalismo manifesta-se em normas institucionais e em comportamentos culturais que reforçam a separação, produzindo restrições de acesso e exclusões baseadas em critérios sociais, econômicos ou étnicos. Assim, opera como mecanismo de manutenção de fronteiras rígidas, ainda que tais fronteiras não se sustentem empiricamente. O discurso estratégico, por sua vez, reconhece a presença do indivíduo enquanto membro de uma família e de um grupo social, admitindo interferências controladas entre os domínios. Ele flexibiliza práticas profissionais, legitima afastamentos e reconhece necessidades afetivas, mas o faz de modo regulado, preservando a hierarquia entre os espaços. Essa flexibilização desloca para o indivíduo a responsabilidade pela conciliação entre produtividade e demandas pessoais, ampliando o alcance do trabalho sobre a vida social sem romper a lógica de separação. A análise quantitativa da distribuição lexical em 120 discursos coaching publicados no TikTok revelou padrões significativamente distintos: há tendência de usar termos associados à vida familiar predominam em discursos estratégicos, e termos vinculados ao universo corporativo em discursos radicalistas ingênuos. Esses resultados indicam que a distribuição lexical funciona como estratégia discursiva para orientar a interpretação do interlocutor, ativando esquemas interpretativos que organizam a leitura dos papéis sociais.
Palavras-chave: discurso; agrupamentos lexicais; discurso coaching;
WANESSA ALMEIDA RAMOS
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Natura et ingenium: o que Cícero tem a nos dizer sobre as disposições naturais do orador?
Natura et ingenium: o que Cícero tem a nos dizer sobre as disposições naturais do orador? Ao nos voltarmos para a reflexão filosófica antiga acerca da relação entre o individual e o universal, deparamo-nos com uma concepção segundo a qual a realidade verdadeira é una e universal, ao passo que as coisas particulares aparecem como secundárias ou imperfeitas. Não surpreende, portanto, que em Platão o poeta não seja concebido propriamente como criador, mas como alguém tomado por uma inspiração divina; do mesmo modo, o orador persuade sem possuir um conhecimento verdadeiro e reproduz apenas uma imitação da verdade. A arte, nesse quadro, aproxima-se de uma espécie de pseudociência, uma técnica que produziria efeitos de engano. Seu valor residiria, assim, naquilo que nela pudesse remeter ao universal. Sob o domínio dessa generalidade, buscava-se o modelo ideal, a forma exemplar. Marco Túlio Cícero (106–43 a.C.) não se afasta inteiramente dessa concepção ao buscar a figura de um orador ideal. O próprio arpinate reconhece que talvez tal modelo jamais seja encontrado; ainda assim, dedica-se a delineá-lo. É nesse esforço que ele apresenta-nos os traços do perfectus orator, ao passo que reúne uma série de qualidades que deveriam compor sua excelência. Entretanto, ao avançar nessa reflexão, Cícero se depara com aquilo que, de fato, confere vigor ao discurso: as variações de estilo, que procedem do ingenium e da natura de cada orador. Com razão, rende-se a essa constatação quando afirma que alguns oradores parecem tão excepcionalmente dotados que quase se poderia dizer terem sido moldados pela mão de um deus, tamanha a força de seu talento (De or. I.115). Neste trabalho, buscaremos identificar como Cícero concebe as noções de natura e ingenium na formação do orador, e de que modo as disposições naturais explicam a diversidade de estilos individuais dentro do ideal do perfectus orator e da tradição retórica orientada pela imitatio, bem como as limitações que a própria natureza impõe. Para isso, utilizaremos como fontes principais o Orator (46 a.C.) e o De oratore (55 a.C.). Nosso arcabouço teórico se apoiará especialmente nos estudos de Müller (2001), Persio (1999), Fantham (1978) e McKeon (1936).
Palavras-chave: Ingenium ; Natura ; Perfectus orator;
WENDEL SANTOS
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A variável sexo na realização de /S/ em coda silábica medial na fala ludovicense
A variável sexo na realização de /S/ em coda silábica medial na fala ludovicense Este trabalho apresenta resultados de pesquisa desenvolvida no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisas em Sociolinguística do Maranhão (GEPeS/UFMA) sobre a realização variável de /S/ em coda silábica medial na fala ludovicense. Especificamente, objetiva-se analisar o efeito da variável sexo na distribuição das variantes alveolar, palato-alveolar e glotal, consideradas segundo seu ponto de articulação, à luz da Teoria da Variação Linguística (Labov, 2008[1972]). Parte-se dos resultados de Cordeiro (2024), primeiro estudo sobre o fenômeno no português falado no Maranhão, segundo os quais a variável sexo não exerce condicionamento relevante sobre a realização de /S/ em coda medial, observando-se favorecimento semelhante da variante palato-alveolar entre homens e mulheres. Em contraste com esse quadro, observações empíricas que motivaram a presente pesquisa possibilitaram o levantamento da hipótese de que falantes jovens, especialmente mulheres, poderiam favorecer a variante alveolar, possivelmente em razão da circulação ampliada de determinados padrões de fala em ambientes digitais. Considerando que essa hipótese envolve a articulação entre sexo e faixa etária, busca-se, neste recorte, verificar se a variável sexo oferece evidências iniciais para sustentá-la. Para tanto, são analisadas 30 horas de entrevistas sociolinguísticas realizadas por Santos (2015) com 24 informantes ludovicenses, distribuídos igualmente entre homens e mulheres e estratificados segundo escolaridade (ensino médio e ensino universitário) e faixa etária (18 a 35 anos; 36 a 59 anos; 60 anos ou mais). As entrevistas foram transcritas no programa ELAN (Hellwig; Geerts, 2022), e as ocorrências da variável foram codificadas segundo os contextos fonológicos precedente e seguinte, a classe gramatical do item lexical e a tonicidade da sílaba. Os dados foram submetidos à análise estatística no ambiente R (R Core Team, 2026). Os resultados evidenciam a igual predominância da variante alveolar na fala de homens e mulheres da amostra, sem fornecer sustentação no recorte examinado para a hipótese de que a variável sexo, analisada isoladamente, explique o favorecimento dessa variante. Do ponto de vista descritivo, dialoga-se com Cordeiro (2024), especialmente no que concerne à ausência de diferenciação consistente entre homens e mulheres, embora revelem configuração distinta no que se refere à variante predominante. O estudo contribui, assim, para ampliar a descrição sociolinguística da variedade ludovicense e para a discussão sobre eventuais indícios de mudança na realização de /s/ em coda medial no português falado no Maranhão.
Palavras-chave: Sociolinguística variacionista; /S/ em coda silábica; português ludovicense.;
WILLIAM DANILO GARCIA
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Princípios pedagógicos para a implementação da Aprendizagem Movida por Dados na Educação Básica
Princípios pedagógicos para a implementação da Aprendizagem Movida por Dados na Educação Básica A relação entre Linguística de Corpus e ensino intensifica-se a partir da década de 1990, quando Tim Johns sistematiza a proposta da Aprendizagem Movida por Dados. Desde então, diversos estudos têm defendido a consulta a corpora como uma abordagem para o ensino de línguas capaz de atribuir ao estudante um papel ativo, autônomo e investigativo na análise do funcionamento linguístico, favorecendo processos de descoberta, reflexão e construção de hipóteses acerca dos usos reais da língua. Apesar de seu potencial pedagógico, essa abordagem ainda é alvo de críticas, sobretudo por permanecer mais associada ao Ensino Superior e a aprendizes com níveis mais elevados de proficiência, bem como por ainda ocupar espaço restrito frente a abordagens mais convencionais de ensino de línguas. Soma-se a isso a escassez de discussões que correlacionem, de modo sistemático, os fundamentos da Aprendizagem Movida por Dados às demandas pedagógicas e formativas da Educação Básica. Nesse contexto, esta apresentação, resultante de pesquisa de doutoramento, objetiva correlacionar os pressupostos pedagógicos presentes em documentos norteadores da Educação Básica à Aprendizagem Movida por Dados, a fim de propor princípios que orientem a elaboração de materiais didáticos, lições e atividades fundamentados nessa abordagem e adequados às especificidades desse nível de ensino. Como fundamentação teórica, o estudo apoia-se nas discussões acerca da relação entre Linguística de Corpus e ensino, da Aprendizagem Movida por Dados e da Base Nacional Comum Curricular, especialmente no que tange às concepções de protagonismo por parte do aluno, investigação, análise linguística e construção crítica do conhecimento. No que se refere aos materiais e métodos, foram mobilizadas ferramentas computacionais da Linguística de Corpus, atividades didáticas elaboradas por professores e pelo pesquisador, além da análise documental dos referenciais pedagógicos da Educação Básica, os quais subsidiaram a formulação dos princípios propostos. Como resultado, apresenta-se um conjunto de quinze princípios pedagógicos destinados a orientar a utilização da Aprendizagem Movida por Dados na implementação de materiais didáticos e na elaboração de lições e atividades voltadas à Educação Básica, buscando ampliar a inserção dessa abordagem em contextos escolares e contribuir para a inovação das práticas de ensino de línguas.
Palavras-chave: Data-Driven Learning; Educação Básica; Princípios pedagógicos;
YGLÊ ALMEIDA DOS SANTOS DE BESSA
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Evidências para a reconstrução de uma proto-língua do subgrupo III-2-2-2/Yaminawa: um estudo comparativo
Evidências para a reconstrução de uma proto-língua do subgrupo III-2-2-2/Yaminawa: um estudo comparativo O presente trabalho trata de uma pesquisa de mestrado em andamento e insere-se no campo da Linguística Histórico-Comparativa. Tem como objetivo investigar as relações histórico-linguísticas entre as línguas do subgrupo III-2-2-2/Yaminawa da família Pano, conforme o proposto por Amarante Ribeiro (2005) e Fleck (2013). Essa família linguística é composta por 34 línguas distribuídas entre Brasil, Peru e Bolívia. Nesse contexto, o ramo que está sendo analisado abrange nove línguas: Mastanawa, Tuxinawa, Yoranawa, Sharanawa, Shanenawa, Arara, Yawanawa, Xitonawa e Yaminawa. Como já exposto anteriormente, adotamos a metodologia baseada no método histórico-comparativo, pois este permite o estabelecimento de correspondências sonoras regulares e a reconstrução de protoformas, assim sendo possível a identificação de parentesco linguístico. Como ponto de partida, foi utilizada a lista de Swadesh (1952), composta por 207 itens lexicais básicos, com o intuito de organizar um corpus comparável entre as línguas analisadas. A coleta de dados foi realizada a partir de fontes bibliográficas descritivas, como: Shanenawa (CÂNDIDO, 2004), Yawanawa (PAULA, 2004), Arara (SOUZA, 2012), Yaminawa (EAKIN, 1991; NEELY, 2019), Mastanawa (LOOS, 1976), Tuxinawa (CARVALHO, 1929), Yoranawa (FAUST, 1984; LORD, 1996), Sharanawa (SCOTT, 2004) e Xitonawa (LORD, 1996), assim, resultando na construção de um banco de dados lexical preliminar, que possibilitou as análises comparativas iniciais, com foco na identificação de cognatos e de padrões recorrentes de correspondências fonológicas. Esses procedimentos visam não apenas a reconstrução de protoformas desse subgrupo, mas também a avaliação crítica das propostas de classificação existentes na literatura, especialmente no que diz respeito às divergências entre Amarante Ribeiro (2005) e Fleck (2013). Os resultados parciais indicam a presença de um conjunto significativo de cognatos compartilhados entre as línguas analisadas, bem como a ocorrência de correspondências sonoras regulares. Dessa forma, a pesquisa demonstra que a aplicação do método histórico-comparativo ao subgrupo III-2-2-2/Yaminawa é adequada e oferece evidências relevantes para a reconstrução de uma proto-língua. Além disso, os dados obtidos podem contribuir para o debate acerca da classificação interna da família Pano, podendo auxiliar análises futuras para a reconstrução de ramos mais altos da família.
Palavras-chave: Línguas Pano; Linguística Histórico-Comparativa; Reconstrução de proto-língua;
YI HENG
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Escrito sobre as margens: anotações de Haroldo de Campos em livros sobre a língua e a poesia chinesas
Escrito sobre as margens: anotações de Haroldo de Campos em livros sobre a língua e a poesia chinesas A relação de Haroldo de Campos com a poesia chinesa não se explica apenas pela mediação do arsenal teórico de Pound e Fenollosa, ainda que essa mediação tenha sido, em larga medida, o quadro em que a crítica a tem lido. Tampouco se reduz à hipótese inversa, de uma "leitura direta" autônoma. Trata-se, antes, de um trabalho de leitura que se documenta materialmente no arquivo pessoal do poeta, trabalho que a pesquisa existente, concentrada na via poundiana, não esgota. Este estudo examina esse arquivo a partir de um recorte de vinte e três volumes diretamente relacionados à China, entre os quais figuram, inclusive, os livros de Pound, e analisa as marginais manuscritas que neles se inscrevem, em obras de Herdan, Newnham, Liu, Cheng, Granet, Kenner, entre outros. O propósito é reconstituir, no interior do conhecimento que o poeta constrói da poesia chinesa, os pontos em que sua atenção se concentra e a lógica de leitura que orienta as anotações, na condição que ele próprio reivindica no prefácio de Escrito sobre Jade: a de "amador e autodidata" (CAMPOS, 2009). Importa observar um traço do hábito do poeta: ele tende a não comentar discursivamente o texto que lê; predomina o gesto de transcrever, na margem, palavras-chave já presentes no texto impresso. Tomada como índice material da atenção, e não como acessório passivo, a transcrição seletiva permite ler a margem como registro daquilo que, no texto impresso, mobiliza o leitor. Essa constatação orienta dois movimentos articulados. O primeiro examina a distribuição dessas palavras-chave pelo conjunto do corpus, atentando para quais livros são marcados com maior densidade, em que capítulos a leitura se intensifica, quais operadores se deslocam entre volumes, para identificar que dimensões da descrição linguística e poética do chinês prendem a atenção do leitor. O segundo se volta a um subconjunto restrito mas revelador: as anotações que mobilizam conceitos não explícitos na página impressa, isto é, articulações que se decifram em camadas pressupostas pelo texto. Embora numericamente reduzidas, essas inscrições oferecem indícios materiais da rede conceitual com que o poeta se aproxima dos textos chineses, situando, lado a lado, o explícito do texto-fonte e o que a leitura ali ativa. Metodologicamente, dialoga com estudos sobre marginália como prática filológica e com a crítica genética aplicada à tradução, tratando a margem como arquivo do trabalho preparatório à transcriação que viria a sustentar volumes como Escrito sobre Jade.
Palavras-chave: Haroldo de Campos; marginália; poesia chinesa;
YUNA CHLOE LE BOURLEGAT
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Literatura no Instagram: variações no ethos de influenciadores digitais
Literatura no Instagram: variações no ethos de influenciadores digitais Com o surgimento da internet e das redes sociais, observamos um enfraquecimento da rigidez dos papéis enunciativos relacionados à literatura: tópico que antes era reservado aos críticos e especialistas literários do âmbito acadêmico, hoje é abordado por pessoas comuns, que enunciam da posição de leitores que fazem parte do grande público e cujo conteúdo é baseado mais em suas opiniões próprias do que em um arcabouço teórico específico. Nesse contexto, o presente trabalho se propõe a analisar a imagem discursiva projetada por influenciadores digitais que falam sobre literatura na rede social Instagram, observando as variações dessa imagem nos diferentes perfis e como ela se relaciona à imagem projetada por esses influenciadores acerca da literatura. Para isso, adotamos como base teórico-metodológica a Análise do Discurso de Linha Francesa, especialmente as reflexões de Dominique Maingueneau, dentre as quais focalizamos o conceito de ethos (Maingueneau, 2008;2020), que é a imagem projetada pelo sujeito enunciador por meio de seu discurso, e o de cenografia (Maingueneau, 2008), definida como a maneira singular sob a qual determinado discurso se expressa. Assim, nosso trabalho tem como objetivos: (i) encontrar as eventuais regularidades nos posts de perfis voltados para a divulgação literária, ou seja, procuramos verificar se existem características comuns, se os posts participam dos mesmos mundos éticos e se estão atrelados às mesmas cenografias; (ii) a partir desses resultados, constatar se existem variações no ethos de influenciadores literários; (iii) refletir sobre a relação entre a imagem projetada pelo ethos do influenciador e a imagem que projeta sobre a literatura. O corpus é constituído de publicações tipo post ou reel, publicados por perfis de influenciadores brasileiros que falam sobre literatura, nos quais observamos, além do ethos e da cenografia, as materialidades tecnolinguageiras constitutivas das redes sociais (especialmente no Instagram) e de suas dinâmicas de criação de conteúdo. Os primeiros resultados apontam que o ethos dos influenciadores digitais analisados de fato sofre variação, na medida em que observamos, por um lado, perfis com um ethos mais tradicional, em que o enunciador assume uma postura mais sóbria, assumindo o papel de especialista e valorizando a literatura dita “canônica”. Por outro, há perfis com um ethos mais “descolado”, em que o enunciador assume uma postura mais descontraída e enuncia por meio de um tom mais informal, projetando a figura do “amigo” que dá dicas de literatura, a qual é valorizada de maneira mais ampla, sem necessariamente destacar obras canônicas.
Palavras-chave: ethos discursivo; discurso literário; instagram;
ÉRIKA DE MORAES
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Dois posicionamentos sobre “educação financeira” e o interdiscurso em torno de uma “economia moral”
Dois posicionamentos sobre “educação financeira” e o interdiscurso em torno de uma “economia moral” Este trabalho fundamenta-se no respaldo teórico-metodológico da Análise do Discurso de linha francesa (AD), a fim de estudar um embate de sentidos sobre o sintagma “educação financeira”. A teoria é considerada em seu caráter interdisciplinar, envolvendo a linguagem em sua relação com a história (o que impõe as condições de produção como constitutivas dos discursos) e também com a psicanálise (revelando que os discursos são também afetados por aspectos inconscientes). É o entrelaçamento entre esses três elementos - linguagem, historicidade e inconsciente - que está na base de uma “interincompreensão regrada”, como defende Maingueneau (2005). Para o autor, enunciar e não compreender o enunciado do outro é um princípio constitutivo do funcionamento do discurso. Propõe-se a análise de um corpus representativo, a saber, uma manifestação da influenciadora Bea Aguilar sobre “educação financeira”, coletada de uma postagem publicada no Instagram em 14 de julho de 2022, em que comenta um pronunciamento da deputada Estadual Luciana Genro que, por sua vez, criticou uma proposta sobre “educação financeira” nas escolas. Recorre-se também ao vídeo com a fala da deputada, o que permitirá trazer à tona aspectos da polêmica, que, conforme Maingueneau, representa um ponto privilegiado para a observação dos embates discursivos e, assim, emolduram seu ethos. O posicionamento de Bea Aguilar condensa características expressas por outros influenciadores, autointitulados especialistas em finanças e investimentos, e encontra-se em relação de contraste com o posicionamento exposto pela deputada. Cada um desses dois posicionamentos se situa numa rede interdiscursiva que abarca discursos sobre finanças e investimentos. Trabalhos anteriores demonstram uma relação específica (endógena) entre discursos sobre certa concepção de educação financeira e certa concepção de vida e de sujeito, impondo a assunção de uma subjetividade pautada em uma certa “economia moral” específica da sociedade contemporânea. Tais discursos são ressaltados na comunicação midiática com a emergência dos chamados influenciadores, como é o caso de Bea Aguillar, estrelas expoentes na “galáxia da internet” (Castells, 2003). Ao mesmo tempo em que buscam construir uma visão de verdade sobre a “educação financeira”, são postos em relação de embate com outros discursos, bem como esbarram em suas próprias contradições, já que a linguagem é opaca e múltipla em sentidos. As análises apontam para o fato de que, ao se articularem, os dispositivos de comunicação constituem a identidade dos discursos sobre “educação financeira” e também as bases do que pode ser percebido como uma “economia moral”.
Palavras-chave: Educação financeira; Análise do Discurso; Posicionamento;
ÍTALO SILVA SCACALOSSI
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Operador aditivo escalar mesmo: descrição e possível derivação a usos concessivos no português
Operador aditivo escalar mesmo: descrição e possível derivação a usos concessivos no português No português, mesmo possui multifuncionalidade, desempenhando funções nominais, adverbiais e conjuncionais, entre elas a de operador aditivo escalar (OAE), em que mobiliza relações pautadas em força argumentativa (Anscombre; Ducrot, 1983). Este trabalho propõe uma breve descrição de características formais e semântico-pragmáticas de OAE mesmo no português, as quais mostram indícios de que o padrão de uso é fonte para os conectores concessivos mesmo, mesmo que e mesmo se. Nossa investigação possui os seguintes objetivos: (i) Alcançar uma caracterização de OAE mesmo a partir da descrição de suas características formais, semânticas e pragmáticas, com a expectativa de que propriedades da fonte têm um papel importante não só na possível retenção de vestígios, mas na restrição dos contextos de uso e das trajetórias de mudança.??(ii) Buscar evidências acerca do locus da mudança a partir da análise da interação entre o significado escalar de mesmo e fatores contextuais que contribuíram para a reinterpretação em termos de concessividade. Metodologicamente, o trabalho possui natureza qualitativo-quantitativa, com coleta de dados em corpus representativo do português moderno (séc. XVII a séc. XX). A análise se fundamenta nos pressupostos sobre a escalaridade e seus fatores semântico-pragmáticos (König, 1991; Gast; Auwera, 2011; Gast; Rzymski, 2015) e concessividade (König, 1985, 1988). A pesquisa também se baseia no quadro teórico da Gramaticalização, que compreende que a mudança do mais lexical ao mais gramatical ocorre a partir de fatores pragmáticos, atingindo níveis semânticos e categoriais, os quais sofrem com perdas e ganhos (Heine; Kuteva, 2007; Bybee, 2010, 2015; Narrog; Heine, 2021). Os resultados mostram que OAE mesmo se envolve em processo de gramaticalização, sendo observada rigidez a nível sintático e “desgarramento” de fatores semântico-textuais para a mobilização de escalas. Além disso, o padrão de uso passa a se envolver gradativamente com construções mais dependentes do contexto, em que a argumentação se dá de modo avaliativo e atitudinal. Compreendemos que esse aumento de subjetividade pode constituir o locus da mudança, ou seja, o ambiente contextual favorável para a reinterpretação de mesmo como conector concessivo, visto que a concessividade é uma relação de significado pautada em atitudes, expectativas e crenças dos falantes. (Apoio: CNPq - Processo 131147/2025-0)
Palavras-chave: gramaticalização; escalaridade; concessividade;
Apresentação de Trabalhos – Painéis
ALEANDRO MATHEUS DA HORA AMORIM
[Fonética e Fonologia]
ANÁLISE DA FALA COM SUAS HESITAÇÕES EM TEXTOS DECORADOS
A fala é um fenômeno físico-psíquico que consiste em um conjunto de gestos de órgãos vocais, que em seguida são recuperados pelo falante (Marchal; Reis, 2012), ou seja, a fala é uma atividade linguística que ocorre por meio dos sons produzidos no aparelho fonador humano com intuito de gerar significados (Miranda, 2025). Segundo com Levelt (1989), durante o processo de elaboração da fala, o falante passa por dois tipos de planejamento: o microplanejamento e o macroplanejamento. O primeiro tem relação direta com a organização das informações no decorrer da própria fala, à medida que o segundo se relaciona com um planejamento mais geral do tema, sistematizando seus objetivos comunicativos (Merlo, 2012). Ao falar, o falante busca os recursos necessários para que suas metas comunicativas sejam efetivadas e, no processo de organização de sua fala, surgem pausas e hesitações, fenômenos linguísticos que controlam a qualidade da fala e caracterizam a disfluência (Merlo, 2012). Nesse sentido, este estudo tem por objetivo verificar se o estilo e o tempo de prática do ato de decorar o texto influenciam na duração das pausas, na quantidade dos tipos de hesitação (preenchedores, repetição de fonemas e correções) dos falantes — elementos da disfluência —, e nas taxas de elocução e articulação. Assim, optamos por comparar os estilos de fala em três situações distintas: leitura, texto decorado há pouco tempo e texto decorado há muito tempo. Além disso, buscamos verificar se, no que tange aos dois últimos estilos, o tempo que a pessoa teve para decorar tem influência nos parâmetros analisados. Acreditamos que a quantidade de pausas silenciosas e hesitações é maior nos textos decorados quando comparados à leitura e que a duração de pausas silenciosas e quantidade de hesitações tendem a diminuir à medida que os participantes têm mais tempo para decorar o texto. Outra hipótese é que a taxa de elocução tende a diminuir nos textos decorados, o que não deve acontecer com a taxa de articulação. Para tanto, fizemos a gravação da fala de 12 pessoas, sempre com um mesmo texto padrão, seguida de análises estatísticas com os testes estatísticos ANOVA ou equivalente não paramétrico e qui-quadrado mediante o programa R (R Core Team, 2026). Os resultados indicam que a duração das pausas silenciosas, a quantidade de preenchedores e as taxas de elocução e articulação diferenciam a leitura dos textos decorados, mas não diferenciam os dois estilos de textos decorados entre si.
Palavras-chave: Hesitação; Disfluência; Microplanejamento
ALEANDRO MATHEUS DA HORA AMORIM
[Fonética e Fonologia]
ANÁLISE PROSÓDICA DA FALA DE ATORES SOB EMOÇÕES E NEUTRALIDADE
As emoções nos seres humanos possuem características únicas, que podem ser reconhecidas mediante expressões faciais e vocais por outros seres humanos. Scherer, em seus estudos, propõe que existe um conjunto de seis emoções básicas: alegria, tristeza, raiva, medo, surpresa e nojo. Para o autor, a emoção é um dos estados de afeto, tendo características únicas. Do ponto de vista dos atores, dominar a habilidade de interpretar emoções possibilita a criação de obras ainda mais preciosas, de modo a tocar ainda mais pessoas. Em adição, o presente estudo pode contribuir para o aperfeiçoamento de ferramentas de reconhecimento e síntese de fala. Disso emerge o seguinte conflito: há diferença entre fala atuada e fala espontânea quanto às emoções? Scherer reflete sobre o quão reais são as expressões emocionais espontâneas, e mostra que contanto que a emoção atuada seja reconhecida por outras pessoas, ela é sim uma expressão emocional válida. O presente estudo, portanto, focaliza-se na percepção e análise de emoções veiculadas por expressões vocais de atores, que serão analisadas segundo a Prosódia, campo de estudo que busca verificar não o conteúdo, mas sim o modo como são feitas as falas. Utilizar-se-ão, para isso, medições de parâmetros acústicos da fala atuada: intensidade, duração e frequência fundamental (F0), com o intuito de identificar a diferença dos parâmetros prosódicos na atuação das seis emoções e neutralidade, além de detectar quais são as emoções atuadas mais facilmente percebidas, comparar a atuação dos atores entre si e assim verificar se existem diferenças na expressão de emoções entre eles. Dessa forma, pretende-se gravar a fala de dois atores, de ambos os sexos, a quem será requisitada a interpretação de seis emoções: alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa e desprezo, mais a neutralidade, utilizando-se sempre um mesmo texto neutro. Optou-se por desprezo em detrimento de nojo, já que o desprezo pode engajar mais a fala, produzindo resultados mais significativos que o nojo, que tende a engajar mais a face. Em seguida, as falas expressivas gravadas passarão, antes da análise, pelo crivo de pessoas leigas, que serão responsáveis por validá-las, isto é, reconhecer ou não, tais emoções. Após validados, os áudios serão submetidos à análise prosódica, por meio da extração dos parâmetros acústicos pelo software Praat e posterior análise estatística no programa R, utilizando-se a ANOVA ou um equivalente não paramétrico. Assim, os resultados obtidos buscarão evidenciar as características das emoções na fala atuada.
Palavras-chave: Emoções; Prosódia; Fala atuada
ALESSANDRA BARBOSA DA SILVA
[Análise do Discurso]
A(s) voz(es) social(is) do documentário O Território (2022): uma análise em perspectiva bakhtiniana
Esta pesquisa de Iniciação Científica em andamento tem como corpus o documentário O Território (2022), que aborda os conflitos territoriais, sociais e culturais do povo indígena Uru-eu-wau-wau, no estado de Rondônia (RO). A produção evidencia as ameaças sofridas pelo povo originário durante um governo (2018-2022) que marginalizou e vulnerabilizou ainda mais essa minoria populacional. Grande parte da área territorial do estado é dessa tribo indígena, tornando urgente trabalhos abordando essa temática, visto que mesmo ocupando o território continuam constantemente tendo que mostrar resistência aos estereótipos que são impostos, se tornando alvos de ataques e ameaças por invasores, dentro e fora das aldeias. A partir dessa temática, o objetivo deste trabalho é analisar as vozes sociais e os discursos que constituem o documentário, compreendendo-o como um enunciado. Para isso, a pesquisa é fundamentada teórica e metodologicamente na perspectiva de linguagem que advém dos estudos de Bakhtin e o Círculo (como Bakhtin, 2011; 2016 e Volóchinov, 2017), cuja concepção central compreende a linguagem como fenômeno social, histórico e essencialmente dialógico, sendo indissociável das condições concretas de produção e circulação dos discursos. Nesse sentido, parte-se do entendimento de que o discurso não pode ser reduzido a uma materialidade linguística autônoma, pois se constitui na relação entre sujeitos socialmente situados, constituídos por valores, ideologias e posicionamentos, conforme assinala Bakhtin (2011). Observa-se, como resultado parcial da análise do documentário, a existência de diversas vozes sociais que, conforme os estudos bakhtinianos, são sociais e históricas. Desse modo, o documentário, enquanto um enunciado, pode ser compreendido como um espaço de múltiplas vozes socias porque nele se encontram, de forma dialógica, a voz dos Uru-Eu-Wau-Wau, a voz dos aliados que defendem a integridade do território indígena, as vozes dos agentes vinculados à ocupação ilegal da terra (fazendeiros e grileiros) e, ainda, a voz do Estado, cuja presença oscilante entre omissão, insuficiência e ambiguidade interfere diretamente na dinâmica do conflito. Espera-se que os resultados finais deste trabalho possam contribuir para expor e desmistificar as projeções preconceituosas que estão cristalizadas no imaginário brasileiro sobre os povos originários em questão e expor a realidade enfrentada por esses indivíduos em suas terras de origem. Além de deixar em evidência a necessidade de existirem mais trabalhos na academia sobre essas temáticas que são tão pertinentes no país e não recebem o devido foco midiático. (Apoio: Programa Institucional de Voluntários de Iniciação Científica – Edital 06/2025, PIVIC-2S/UFOP 2025 2026).
Palavras-chave: povos indígenas; voz social; estudos bakhtinianos
ALEXSANDER THALYS SABINO
[Linguística Aplicada]
AVALIAÇÃO DA PRODUÇÃO TEXTUAL, PLATAFORMIZAÇÃO DO ENSINO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA: PERSPECTIVAS E CONFLITOS DOCENTES
Esta pesquisa, inserida no campo da Linguística Aplicada, investiga reconfigurações nas práticas de avaliação da produção textual escolar realizadas por professores de Língua Portuguesa da rede pública estadual paulista frente à implementação da plataforma “Redação Paulista” e à introdução de sistemas de Inteligência Artificial Generativa (IA Gen) no contexto educacional, especialmente na correção e avaliação automatizada de textos discentes. Tem como objetivo apresentar resultados parciais de uma investigação (iniciação científica) em curso, analisando como docentes mobilizam, ressignificam ou tensionam o uso dessas tecnologias no cotidiano escolar. Apoiando-se numa abordagem qualitativo-interpretativista, realizaram-se, para a geração de dados, entrevistas semiestruturadas com dez docentes que atuam em Campinas/SP. A análise dos dados fundamenta-se no quadro teórico-metodológico do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999; 2006; 2008), notadamente, em sua concepção de trabalho do professor, nos conceitos de plataformização (Van Dijck, Poell e Nieborg, 2020) e de “assemblagem cognitiva” (Hayles, 2016). As análises realizadas até o momento revelam que as dinâmicas avaliativas automatizadas geram tensões em relação às especificidades do agir docente concernentes à avaliação da produção textual. Embora os professores reconheçam potencialidades pontuais no uso de IA Gen para avaliação da produção textual, como a identificação de desvios ortográficos, eles relatam que as avaliações geradas pelos algoritmos são frequentemente incoerentes e não correspondem às reais limitações e potencialidades (sócio)linguísticas de seus estudantes. Nesse cenário, constatou-se que a atuação docente frente à imposição do uso de plataformas educacionais e avaliação automatizada da produção textual atual baseia-se em “estratégias de contenção de danos”: o professor precisa constantemente intervir e reinterpretar os dados da máquina para adequá-los à realidade dos alunos e aos objetivos de aprendizagem ligados à produção textual. Observou-se, ainda, que a plataformização do ensino produz tensões em relação à “assemblagem cognitiva” (Hayles, 2016) ensejada pela adoção (compulsória) de plataformas de ensino e sistemas de IA Gen, especialmente pelos modos como esses recursos tecnológicos foram produzidos e são significados em relação ao uso e gestão em sala de aula. Nesse sentido, a consolidação de uma “assemblagem cognitiva” em que docentes e máquinas/tecnologias colaboram de modo produtivo mostra-se especialmente desafiadora, pois os professores estão vivenciando um conflito em seu métier para o qual não foram formados. Ademais, indicadores de conflitos e resistências à vigilância imposta pelo uso obrigatório de plataformas requerem não só uma formação docente outra, evidenciando a necessidade de melhor compreensão dos papéis e sentidos do trabalho docente no ensino de produção textual.
Palavras-chave: Escrita como Prática Social; Inteligência Artifici
ALINE BRASIL DOS SANTOS
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
O papel de tutor do brasileiro não-licenciado no teletandem
A proposta do Teletandem Brasil (Telles; Vassallo, 2006), embora tenha se iniciado na Unesp para atender sobretudo estudantes de Letras (Telles, 2006), vem se expandindo para outras instituições de ensino no país, segundo Rampazzo (2025), o projeto está presente em 14 instituições em 17 campi, o que evidencia sua importância no contexto do ensino e da aprendizagem de línguas estrangeiras. Segundo Aranha e Cavalari (2021), pode-se conceber o teletandem como um dos vetores de difusão do português e da cultura brasileira no exterior, observado não só pelas pesquisas acadêmicas como também pelo aumento na participação de estudantes de diferentes áreas e cursos. Essa diversidade de perfis, traz novos desafios e possibilidades para o projeto, sobretudo se se considera que os participantes assumem um papel ativo ao colaborar com a aprendizagem de sua língua materna ou de proficiência (Brocco, 2009; Franco; Furtoso, 2021). Torna-se, pois, necessário investigar e compreender os desafios e necessidades dos interagentes que não estão em formação docente, para que, posteriormente, as sessões de orientação e mediação consigam atender a essas necessidades. Nesse contexto, esta pesquisa, de natureza qualitativa e interpretativista, tem por objetivo analisar como os participantes brasileiros que não são da área de Letras atuam como par mais competente no Teletandem, investigando de que maneira os participantes, que não estão em formação docente, auxiliam seus parceiros estrangeiros na aprendizagem do português, quais concepções de língua orientam suas explicações e intervenções durante as sessões orais e quais saberes linguísticos são mobilizados nesse processo. A partir de dados coletados do MulTeC (Multimodal Teletandem Corpus) (Aranha; Lopes, 2019), espera-se que os resultados contribuam para uma reflexão mais ampla sobre as práticas de ensino e aprendizagem de línguas em contextos telecolaborativos. Entende-se, ainda, que os resultados contribuirão para que sejam identificados os desafios e necessidades desses participantes para que possam ser melhor apoiados em sua participação, o que potencialmente auxilia na elaboração de diretrizes que orientem a mediação dos interagentes nesse contexto.
Palavras-chave: Teletandem; PLE; MulTeC
ANA CLARA FERNANDES TALARICO
[Linguística Textual]
“A militância é materna”: características linguístico-discursivas de um site feminista intimista que tematiza a maternidade
A esfera digital proporcionou novos espaços para a produção e divulgação dos ativismos e estudos do movimento feminista, culminando no que se pode compreender por “Ciberfeminismo” (Dutra, 2018). A fim de contribuir para o estudo da linguagem utilizada no âmbito dessa forma de atuação feminista, este trabalho objetiva analisar a prática linguístico-discursiva de um site feminista individual intitulado “Militância Materna”, de autoria de Cila Santos, o qual reúne publicações escritas que tematizam a maternidade; também pretende-se tecer discussões sobre os resultados, correlacionando as características linguísticas e os tópicos/conteúdos que são retratados nos textos. O corpus da pesquisa contém as 20 publicações de uma das abas do site, “Ser Mãe”, que retratam, sobretudo, a relação entre maternidade e patriarcado. A pesquisa respalda-se em estudos da Linguística Textual e também da Sociolinguística, partindo das concepções de língua como prática social (Hanks, 2008) e de texto como um fênomeno accional e sócio-histórico (Bentes, 2024), para, diante disso, identificar e analisar duas principais características dos textos escritos selecionados: os gêneros do discurso (Bakhtin ([1979] 2011; Koch, 2015; Marcuschi, 2008) e o estilo linguístico-discursivo (Eckert, 2012; Coupland, 2001). Para realização das análises, os aspectos identificados foram alocados e categorizados em uma tabela descritiva, apresentando como resultados iniciais: a predominância do gênero artigo de opinião (Boff; Koche; Marinello, 2009) e recursos recorrentes que revelam um “estilo pedágógico” (Etulain, 2021), como, por exemplo, marcações de primeira pessoa do plural e enunciados interrogativos, que contribuem para a criação de um espaço inicialmente observado como “intimista” no site - na relação autor-leitor. Quanto às discussões ainda em andamento dos achados, a maternidade é compreendida como uma pauta fundamental para a agenda feminista (Scavone, 2016), considerando que as mídias digitais viabilizam a sua discussão e questionamento de seus pressupostos ideológicos patriarcais (Oliveira-Cruz; Conrad, 2022). Nesse viés, percebe-se que os aspectos da condição materna retratados nas publicações do corpus vão ao encontro de uma “desromantização” da maternidade, colocando em xeque paradigmas sociais ao relacionar maternidade e militância feminista. O gênero artigo de opinião em conjunto com o estilo pedagógico, dessa forma, aparentam ser meios para a autora do site se colocar com assertividade e com certa credibilidade sobre essas questões e, ao mesmo tempo, “ensinar” determinados conceitos e disseminar conhecimentos e reflexões sobre a maternidade que ela considera fundamentais para seu público-alvo: mulheres-mães. (Apoio: CNPq - Processo 135377/2025-0).
Palavras-chave: Ciberfeminismo; Gênero do discurso; Estilo linguís
ANA JÚLIA DOS SANTOS FRANCELIN
[Análise do Discurso]
Adaptações literárias e conflitos ideológicos: Uma análise dialógica do discurso
Em 2010, a polêmica acerca da obra lobatiana atingiu o ápice, quando o Conselho Nacional de Educação recomendou que o Ministério da Educação não distribuísse Caçadas de Pedrinho nas escolas públicas ou que a editora inserisse notas explicativas sobre termos de teor racista. Diante disso, Cleo Monteiro Lobato, bisneta do autor, desenvolveu um projeto literário para revisar as obras infantis dele, retirando expressões consideradas ofensivas; entretanto, a sua recepção reacendeu polêmicas no Brasil. No contexto internacional, questionamentos semelhantes atingem a literatura infanto-juvenil dos escritores Roald Dahl e Hergé, mas envolvendo problemáticas para além do racismo. Com o crescimento dessas intervenções editoriais, surgiram críticas tanto à alteração de obras sem a concordância do autor quanto aos impasses vividos na publicação de novos livros. Valendo-se do suporte teórico da Análise Dialógica do Discurso, com os escritos do Círculo de Bakhtin e de seus comentadores, e por meio do cotejamento de textos, esta pesquisa tem como objetivo geral analisar enunciados acerca da polêmica de adaptação de textos literários ao contexto de inclusão social no Brasil. Já os específicos, por sua vez, visam: relacionar argumentos recorrentes no discurso sobre a adaptação de obras literárias consideradas problemáticas no contexto nacional de inclusão social; refletir sobre a especificidade dos discursos estudados, tendo em vista as esferas de atividade em que ocorrem: da arte, da economia, da educação; investigar os conflitos ideológicos nos enunciados selecionados. Para o corpus, foram selecionados enunciados em que aparecem opiniões e argumentos de políticos, educadores, editores, escritores, pesquisadores, críticos literários relacionados ao processo de atualização e criação literária. Na análise em andamento, observamos que, na esfera editorial, a preocupação é com a literatura como patrimônio público irretocável; então, a partir das estabilidades e instabilidades nas vozes sociais, elas foram organizadas em dois grupos. Na perspectiva do primeiro, as mudanças textuais são necessárias, e não problemáticas, pois permitem perpetuar o valor cultural destas obras em consonância com a evolução da sociedade, sem alterar as essências delas; enquanto na perspectiva do segundo, as adaptações não são benéficas para nenhum dos envolvidos com a literatura (escritores, educadores, leitores), de modo que as críticas transitam entre a ineficácia, a injustiça com os seus autores originais e a “higienização” da linguagem. Assim, esta pesquisa pretende compreender como o mercado editorial e a seleção de obras para a leitura literária escolar são afetados por tais conflitos ideológicos. (Financiamento: PIBIC Unesp/CNPq - Processo 143064/2025-8)
Palavras-chave: Análise Dialógica do Discurso; Mercado editorial; Polêmicas literárias
ANA LAURA TAVARES GOULART
[Linguística Cognitiva]
AS CONSTRUÇÕES AUXILIARES DE ASPECTO [desandar PREP V2inf] E [desatar PREP V2inf] NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: UM ESTUDO CONSTRUCIONAL
As construções auxiliares de aspecto são bastante recorrentes e diversificadas no Português. Ao analisar um conjunto de verbos que se prestam à expressão de aspecto no Português brasileiro, Travaglia (2010) postula a existência de um processo de concorrência entre os verbos “começar” e “passar” e outros 18 verbos, chamados por ele de “verbos de valor assemelhado”, que são usados para expressão de diferentes valores aspectuais, tais como inceptividade, duratividade e iteratividade, etc. Entretanto, uma pergunta inicial que surge é: essas construções aspectuais, em especial as construções auxiliares compostas pelos verbos “desandar” e “desatar”, poderiam realmente ser definidas, de acordo com o princípio de não- sinonímia de Goldberg (1995), como estruturas sinônimas/variáveis ou estariam vinculadas à veiculação de diferentes valores de aspectualidade? As ocorrências (1) e (2), abaixo, ilustram casos no Português brasileiro em que os verbos “desandar” e “desatar” são usados na sua forma plena de conteúdo e casos em que esses verbos integram construções perifrásticas de valor aspectual: (1) O período ficou marcado como o maior jejum da história do Fluminense. # Este ano, o problema parecia superado. O trio de ataque formado por Everaldo, Luciano e Yony González desandou a fazer gols e ajudou a equipe a ter o segundo melhor ataque do Estadual e da Copa do Brasil, ainda em andamento. (https://extra.globo.com/esporte/ataque- do-fluminense-vive-pior.html) (2) Uma vez, minha filha era pequenininha, e quando o Campão, que trabalhava para o Zé Paulo, veio buscar- a para escola, ela desatou a chorar ao ver aquele homão, parecia um índio, vestido de amarelo da cabeça aos pés ", diz. José Campos Correia Filho, o Campão, era um conhecido torturador - dos mais cruéis - segundo Percival de Souza, e membro do Esquadrão da Morte. (http://outraspalavras.net/brasil). Com base nessas premissas iniciais, o objetivo deste trabalho é analisar, a partir dos pressupostos teóricos de Bybee (2010) e da abordagem construcional de Traugott e Trousdale (2013), o grau de produtividade dos subesquemas [desandar Prep V2inf] e [desatar Prep V2inf], considerando os tipos de verbos que podem ocupar o slot V2inf e o valor aspectual expresso pelas microconstruções instanciadas por esses subesquemas. Os resultados preliminares mostram que, embora as construções [desandar Prep V2inf] e [desatar Prep V2inf] compartilhem um valor aspectual inceptivo, elas não constituem simples variantes. A primeira expressa um início associado à repetição intensificada, enquanto a segunda marca um início ou um desencadeamento súbito. Os dados mostram ainda que o slot V2Inf é bastante produtivo.
Palavras-chave: CONSTRUÇÕES AUXILIARES; ASPECTUAIS; LINGUÍSTICA CONSTRUCIONAL
ANA PAULA DA SILVA
[Análise do Discurso]
Discursos do medo de falar em público em manuais de oratória brasileiros
O desenvolvimento do projeto de pesquisa de nossa Iniciação Científica, cujo título é “Introdução à história da fala pública e à análise discursiva de manuais de oratória”, atende a duas finalidades gerais: promover nossa iniciação nos campos da Análise do Discurso (AD) e da História das Ideias Linguísticas (HIL), por meio da qual começamos a descrever e a interpretar enunciados de alguns manuais de oratória brasileiros contemporâneos, nos quais se materializam discursos do medo de falar em público; e contribuir com a realização do projeto de pesquisa de nosso orientador, Prof. Carlos Piovezani, no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar, igualmente interessado na análise de discursos do medo da fala pública. Na busca por contemplar nossos objetivos, temos executado as seguintes ações: levantamento, seleção, leitura e elaboração de fichamentos e de recenseamentos de textos e obras de literatura especializada não apenas dos campos da AD e da HIL, mas também da Retórica e da História das Sensibilidades, que examinem direta ou indiretamente o medo e os afetos contíguos e, particularmente, o medo de falar em público, as práticas e representações da fala pública e suas emoções privilegiadas; e seleção, registro e armazenamento de enunciados extraídos de doze manuais de oratória brasileiros publicados entre a segunda metade do século XX e as duas primeiras do século XXI, que compõem o material do projeto desenvolvido pelo Prof. Piovezani. No bojo dessas ações, efetuamos uma análise dos títulos de quatro desses manuais, em que consta explicitamente o termo “medo”: “Você tem medo de falar em público?”, de Andréa Monteiro de Barros Machado (2001); “Vença o medo de falar em público”, de Reinaldo Polito (2005); “Perca o medo de falar em público”, de José Henrique de Souza (2011); e “Adeus ao medo de falar em público”, de Ruth Rocha Pombo (2016). No painel que pretendemos apresentar no 71° Seminário do Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo (GEL), cuja proposta submetemos aqui, nosso objetivo consiste em expor os resultados dessa análise dos títulos dos referidos manuais. Para tanto, mobilizamos um quadro teórico e metodológico composto por postulados e procedimentos da Análise do Discurso, derivada de Michel Pêcheux e seu grupo, articulados com princípios e métodos dos Estudos discursivos foucaultianos e da História das Ideias Linguísticas. (Apoio: FAPESP - Processo 2025/14722-5)
Palavras-chave: medo de falar em público; manuais brasileiros de oratória; história da fala pública
ANNA KAROLINA ANTUNES CAMPOI
[Divulgação Científica]
A leitura de textos de divulgação científica no Ensino Fundamental II sob a perspectiva do gesto de planejamento
A presente pesquisa se insere no contexto das investigações do grupo ALTER-FIP (Análise de Linguagem, Trabalho suas Relações - Formação, Intervenção e Pesquisa) e está inserida no projeto “Gêneros textuais orais (e escritos) para divulgar ciência por diferentes mídias: reflexões teórico-metodológicas”. Esta pesquisa objetiva a realização de um planejamento para aulas de leitura que possibilite a mobilização de capacidades de linguagem para a leitura de textos de divulgação científica para alunos no Ensino Fundamental II. Como objetivos específicos, pretendemos: (i) fazer um levantamento de critérios para a seleção dos textos de divulgação científica; (ii) a partir do gesto de planejamento (Silva-Hardmeyer; Abreu-Tardelli, 2023), elaborar uma construção hipotética de situação escolar considerando os elementos contextuais da situação de ensino, a elaboração do dispositivo didático e a antecipação de possíveis obstáculos e intervenções a serem realizadas pelo professor. A pesquisa se baseia na vertente didática do interacionismo sociodiscursivo (Schneuwly, 2009; Schneuwly; Dolz, 2004; Silva, 2013; Silva-Hardmeyer; Abreu-Tardelli, 2023), mais especificamente nos dispositivos didáticos para o desenvolvimento de capacidades de linguagem (Oliveira; Cordeiro, 2023). No âmbito da engenharia didática, essa investigação entende que ela, enquanto ramo da didática de línguas, visa à concepção técnica de tarefas, ações e dispositivos que objetivam resolver problemas de ensino e aprendizagem (Dolz, 2016). Schneuwly (2009), ao analisar o agir do professor em sala de aula, considera que ele tem como objetivo a materialização, focalização e manutenção dos saberes, dos modos de pensamento e de agir (Schneuwly, 2009). Nessa mesma perspectiva, Silva (2013), amplia essa concepção de agir ao entender que o planejamento, que precede a aula, também é um instrumento presente no contexto desse ofício. Além disso, essa investigação considera o trabalho com a leitura no ensino básico como uma construção negociada, um agir social que produz sentidos situados e que, por isso mesmo, deve ser posto como objeto de análise. O estágio atual da pesquisa dedica-se à definição de critérios para a escolha dos textos de divulgação científica, com um processo de seleção similar ao estabelecido nos estudos de Abreu-Tardelli e Viani (2020) e Abreu-Tardelli e Cardoso (2022), de modo a considerar a adequação à ética do contexto escolar (tema adequado, propício à idade escolar) e do contexto sócio-histórico do momento, priorizando a tradução do saber especializado em linguagem acessível, sem perda do rigor técnico, e a explicitação de forma clara e consistente das marcas do gênero.
Palavras-chave: Leitura; Divulgação Científica; Gesto de planejamento
APOLLO GENTIL DE OLIVEIRA
[Linguagem e novas tecnologias]
Produção textual acadêmica e inteligência artificial generativa (IA Gen): qualidade e processo paulatino de autoria
A crescente popularização de sistemas de inteligência artificial generativa (IA Gen) tem promovido reconfigurações significativas nas práticas de produção e avaliação de textos no ensino superior, tensionando categorias historicamente consolidadas no campo dos estudos da linguagem, como autoria, qualidade textual e agência. A mediação algorítmica na escrita acadêmica intensifica zonas de indeterminação quanto às fronteiras entre produção humana e não-humana, colocando em debate pressupostos teóricos amplamente discutidos por autores como Barthes (2004), Foucault (1992) e Fairclough (2001). Embora estudos recentes apontem tanto potencialidades quanto riscos associados ao uso dessas tecnologias em contextos educacionais (Buzato, 2023; Lima-Lopes, 2025; Cope; Kalantzis, 2022), ainda são incipientes as investigações empíricas que se debruçam sobre os modos como textos acadêmicos produzidos com apoio de IA Gen são avaliados por pesquisadores/as brasileiros/as no contexto universitário. Frente a isso, este estudo tem como objetivo analisar as percepções e os critérios de professores universitários do campo de estudos da linguagem na avaliação de produções textuais acadêmicas mediadas por sistemas de IA Gen, bem como mapear os parâmetros discursivizados por eles ao refletirem sobre o tema. Para tanto, utilizou-se como principal instrumento de geração de dados a realização de entrevistas semiestruturadas com sete professores do ensino superior atuantes nas cinco regiões brasileiras. Dentre o conjunto de entrevistas, foi selecionada, para este painel, os dados gerados a partir da entrevista com uma das professoras da região Sul. A análise realizada foi conduzida a partir do quadro teórico-metodológico do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999; 2006; 2008), o que permite uma análise discursivo-enunciativa das verbalizações da entrevistada. A análise empreendida indica que os critérios de avaliação da produção textual acadêmica adotados pela docente orientam-se em torno de uma concepção teórica linguístico-enunciativo-discursiva da escrita, na qual o cumprimento do propósito comunicativo se estabelece como eixo central da qualidade textual, articulado à adequação ao gênero, ao contexto de circulação e às escolhas linguísticas mobilizadas. A análise da entrevista demonstra, ainda, preocupações da docente relativas à autoria no processo de aprendizagem e de apropriação da escrita em textos produzidos com mediação de IA Gen, o que repercute na qualidade das produções discentes. Em síntese, observa-se que a percepção avaliativa da docente indicia o reconhecimento do impacto da IA Gen na qualidade dos textos acadêmicos, sobretudo quando sua mediação não se orienta por parâmetros linguístico-discursivos específicos com a comunidade acadêmica, o que tende a resultar em produções genéricas, padronizadas e frágeis quanto ao propósito comunicativo.
Palavras-chave: produção textual acadêmica; avaliação; inteligência artificial generativa
BEATRIZ PEREIRA MARCONDES
[Línguas Indígenas]
Um Estudo Funcional da Frustratividade nas Línguas Indígenas
De acordo com Overall (2017), Swift (1988), Payne (1981), a frustratividade, no contexto linguístico, refere-se a uma categoria gramatical que é definida como (i) “um marcador gramatical que expressa a não realização de algum resultado esperado implicado pela proposição expressa na oração marcada.” (Overall, 1997, p. 479); (ii) “uma ação que não alcançou os resultados desejados” (Payne, 1981, p. 44); ou (iii) um dispositivo que “indica que os resultados desejados ou esperados da ação não ocorreram” (Swift, 1988, p. 87). Em outras palavras, trata-se de uma categoria gramatical que sinaliza a não realização ou a realização mal-sucedida de um evento, apesar da expectativa, intenção ou tentativa de sua concretização (Payne, 1981; Swift, 1988). Tal categoria está presente em quase todas as línguas e culturas do globo (Overall, 2017), variando apenas quanto a sua forma de codificação nas línguas, que pode ser gramatical (afixos, clíticos), semi-lexical (partículas) e lexical (advérbios). Para Overall (2017), os frustrativos se segmentam exclusivamente em dois tipos distintos, sendo o primeiro de natureza epistêmica, que envolve a quebra de expectativas em relação à proposição designada pela oração dependente, e o segundo de natureza avaliativa, que envolve relações interpessoais de negociação entre falante e ouvinte, tais como a de desapontamento do falante em relação ao conteúdo da oração. Contudo, a definição e a categorização de frustratividade não são bem delimitadas e consensuais na literatura linguística, e muitas vezes essa categoria se sobrepõem a outras categorias, dificultando, assim, o entendimento de sua real funcionalidade e classificação semântica e pragmática nas línguas. Nesse contexto, a finalidade desta pesquisa é analisar, com base nas considerações de de Overall (2017), Campbell (2012), Epps (2008) e Payne (1981) e nos preceitos teóricos do modelo tipológico-funcional da Gramática Discursivo-Funcional de Hengeveld e Mackenzie (2008), os tipos de frustrativos e suas formas de codificação em um conjunto de dez línguas indígenas brasileiras, de modo a identificar possíveis relações de implicação entre os tipos de frustrativos e suas formas de manifestação nas línguas. Os resultados da pesquisa revelam que todas as línguas analisadas na amostra dispõem de algum recurso linguístico para expressar frustratividade, geralmente por meio de afixos. Além disso, os dados mostram que as línguas apresentam tanto frustrativos pragmáticos quanto frustrativos semânticos. Os resultados sugerem, ainda, a existência de uma hierarquia implicacional, segundo a qual a presença de frustrativos pragmáticos implica necessariamente a ocorrência de frustrativos semânticos, embora o inverso não se verifique.
Palavras-chave: Frustratividade; Línguas Indígenas; Tipologia
BRENDA RAPHAELA FERNANDES DE OLIVEIRA
[Linguística de Córpus]
Evolução do léxico da economia nas entrevistas do Roda Viva
Este estudo investiga como as variações lexicais no discurso público sobre economia refletem transformações sociopolíticas e históricas no Brasil entre 1986 e 2009. Partindo da premissa teórica de que a frequência e a emergência de termos acompanham flutuações temáticas decorrentes de eventos estruturais (Karjus et al., 2020), a questão que move a pesquisa pode ser formulada da seguinte maneira: de que modo as mudanças contextuais moldam o léxico econômico veiculado em entrevistas de grande audiência ao longo de mais de duas décadas? Para responder, partiu-se de um corpus com 119 transcrições da área de economia, extraídas do acervo digital do projeto “Memória Roda Viva”. A abordagem metodológica integrou análise quantitativa e qualitativa, empregando a plataforma de processamento de linguagem natural Unitex/GramLab para tokenização automatizada, cálculo de frequência absoluta e relativa, e identificação de padrões temporais. Os dados lexicais foram posteriormente cruzados com marcos históricos e indicadores macroeconômicos brasileiros, permitindo correlacionar variações vocabulares a conjunturas políticas e econômicas específicas. A verificação estatística das séries temporais permitiu isolar o efeito de variações tópicas pontuais, enquanto a interpretação qualitativa garantiu que as oscilações lexicais fossem contextualizadas historicamente. Como resultado empírico, destacou-se o substantivo “inflação”, que registrou 1.420 ocorrências no corpus. Sua frequência mostrava-se drasticamente alta na década de 1980, coincidindo com o período de hiperinflação e instabilidade monetária documentado pelo IBGE, o que evidencia a centralidade do termo no debate público da época. Por outro lado, a redução expressiva de seu uso nos anos 2000 espelha o cenário de estabilização macroeconômica consolidado após a implementação do Plano Real. A análise revelou, ainda, que a densidade lexical de termos técnicos aumentou progressivamente, sinalizando uma maior profissionalização do debate público. Esses padrões reforçam a hipótese de que o léxico funciona como um indicador sensível de mudanças estruturais. A pesquisa demonstra, portanto, que a análise computacional de corpora diacrônicos é uma ferramenta válida para mapear como a linguagem pública registra crises e reformas. Ao vincular métricas lexicais a contextos históricos, o estudo contribui para a linguística de corpus e oferece um modelo replicável para investigar a relação dinâmica entre léxico, discurso e realidade social.
Palavras-chave: variação lexical; análise diacrônica; processamento de linguagem natural (PLN)
BRUNA FERNANDA PAVAN
[Literatura Brasileira]
A metaficção historiográfica no romance "A última quimera", de Ana Miranda
Este trabalho pretende analisar o romance "A última quimera" (1995), de Ana Miranda – escritora contemporânea que explora a biografia de autores canônicos sob a perspectiva da metaficção historiográfica (Hutcheon, 1988) –, uma vez que nele se elabora uma releitura crítica da vida e da literatura de Augusto dos Anjos (1884-1914) à luz do cânone literário. A partir do entrelaçamento de fatos históricos com a ficção, o romance revisita o contexto da República Velha por meio de um narrador-testemunha que, embora anônimo, apresenta-se como um amigo do poeta que projeta as suas próprias frustrações na genialidade de Augusto dos Anjos. Sua confiabilidade é, portanto, duvidosa em razão de seu afeto pelo poeta, especialmente porque a narração organiza-se ao longo do itinerário físico e psicológico do narrador rumo ao funeral de Augusto dos Anjos. A problematização do cânone literário brasileiro é construída no romance pela personagem de Olavo Bilac (1865-1918), consagrado à época como “Príncipe dos Poetas” e maior expoente do Parnasianismo, estética dominante na época. A obra utiliza o pastiche e a intertextualidade (Sant’Anna, 2003) como recursos centrais, visando assegurar verossimilhança à ficção e fundamentar a construção da personagem de Augusto dos Anjos. Outro procedimento empregado no romance é a transgeneridade, em que documentos reais, como cartas de Esther (esposa de Augusto na vida real), são transpostos para o romance na forma de diálogos, conferindo densidade à ação dramática. Segundo Oliveira (2003, p. 33): "o Novo Romance Histórico tem possibilitado a revisão destes momentos, oportunizando o resgate de algumas de nossas figuras literárias, reconstruindo este cânone, pelo viés da ficção". Todavia, em "A última quimera", essa estratégia não se valida, haja vista que, ao expor uma esperança (frustrada) do poeta frente à imortalidade literária, o romance não se reduz a uma função biográfica ou revisionista – tal como no romance histórico –, mas, sim, reflexiva e crítica sobre o tempo, a memória e o cânone literário brasileiro. Como afirma a própria autora, "o passado é uma fonte extraordinária para a compreensão do presente" (Miranda; Del Priori, 2020, p. 140) (Apoio: FAPESP - Processo 2025/26537-8).
Palavras-chave: Ana Miranda; Cânone Literário; Metaficção Historio
BRUNA SAYURI ISHIKAWA MORGADO
[Semiótica]
AmarElo, de Emicida. Uma análise semiótica da canção e seu entorno
A canção “AmarElo”(2019), do rapper Emicida, traz um sample da canção “Sujeito de sorte”(1976), de Belchior e as vozes das cantoras Majur e Pabllo Vittar, e dialoga com a cultura brasileira no passado e no presente e com a história negra e periférica. Esta pesquisa se propõe a investigá-la, tomando-a como um texto sincrético, analisando a letra e o videoclipe da canção, que possui mais de 17 milhões de visualizações no Youtube (em dez. 25). A análise será feita sobre a relação que se estabelece entre esse texto, a canção de Belchior que a integra e com a qual ele dialoga e o documentário de mesmo nome no qual ele está contido. A análise se utiliza da semiótica discursiva greimasiana para se fundamentar teoricamente e estruturar a análise, tomando por base o texto “Teoria Semiótica do Texto”, de Diana Barros (2000). Os objetivos da pesquisa são identificar, no corpus: (a) os valores fundamentais que permeiam o texto e circulam por esse discurso; (b) o sentido produzido pela relação entre a canção de Emicida, a de Belchior e o documentário “Emicida: Amarelo - É Tudo pra Ontem” (Netflix, 2020); (c) as relações entre as vozes e os enunciadores presentes na canção-texto. Os resultados parciais apontam para a construção do percurso gerativo do sentido do texto e do videoclipe, com níveis de análise que fazem um movimento a partir do texto para seu exterior, com a determinação da oposição semântica do texto. Em “AmarElo”, a categoria semântica fundamental a partir da qual se constrói o sentido do texto é resistir vs. desistir. A análise desde o áudio no início do videoclipe, somada à letra da música deixa clara essa oposição fundamental. O percurso estabelecido entre os termos começa em um desistir, disfórico, passando a um não-desistir e, por fim, a um resistir eufórico. Estabelece-se o nível fundamental do percurso como desistir (disforia) ? não-desistir (não-disforia) ? resistir (euforia). Os demais níveis do percurso gerativo ainda estão em análise.
Palavras-chave: semiótica discursiva; rap brasileiro; análise linguística
BÁRBARA CONCEIÇÃO
[Análise do Discurso]
O discurso sobre o corpo feminino nas redes sociais: uma análise dialógica
Refletir sobre o discurso relacionado ao corpo feminino nas redes sociais torna-se necessário ao considerar que, apesar das conquistas de igualdade de gênero, a estética continua sendo um obstáculo político e econômico para as mulheres (Wolf, 2025). Nesse sentido, pretende-se, nesta pesquisa de graduação em Letras, analisar discursos vinculados à trend “Magras, magras, magras” e ao uso da hashtag “Manda a gorda embora”, nos quais ambos utilizam da romantização da magreza extrema e da normalização de transtornos alimentares, a serviço da propagação de um dito ideal corporal que desconsidera a diversidade de corpos. Sob a ótica do Círculo de Bakhtin e seus comentadores, propõe-se, como objetivo geral, analisar as diferentes manifestações no corpus do discurso sobre a magreza extrema. Os objetivos específicos são: discutir as diferentes formas de interação manifestas no corpus no seu aspecto estilístico, temático e na relação com a alteridade; discutir as relações desses enunciados com o contexto sócio-histórico em especial nos seus aspectos ligados aos feminismos e aos aspectos econômicos. Para tanto, intenciona-se mobilizar os conceitos de enunciado concreto, dialogismo, alteridade e carnavalização, no intuito de analisar como o sentido é construído entre os sujeitos que reproduzem e respondem ao discurso da magreza extrema. Desse modo, a partir da coleta de posts e vídeos em circulação nas mídias digitais, como Instagram e Tik Tok, adotou-se uma metodologia baseada no correlacionamento de textos, por meio de uma Análise Dialógica do Discurso (ADD), considerando os diferentes gêneros em que se manifestam os enunciados, bem como os diferentes enfoques dos temas da magreza extrema e de transtornos alimentares. Por fim, destaca-se a importância da pesquisa em vista de que o discurso, enquanto signo ideológico não apenas reflete, mas refrata a realidade; dessa maneira a partir da veiculação de conteúdos relacionados à romantização da magreza criam-se processos de interações dialógicas, as quais moldam a relação entre sujeito e mundo. Assim, o estudo justifica-se pela necessidade de elucidar como esses discursos promovem a manutenção de um ideal estético excludente, gerando prejuízos à subjetividade feminina e à imagem corporal, por meio do incentivo da obediência aos padrões sociais vigentes.
Palavras-chave: análise dialógica do discurso; redes sociais; corpo feminino
BÁRBARA ROBERTA RESTAGNO
[Semiótica]
Enone a Páris: um olhar semiótico para a rememoração na carta V das Heroides de Ovídio
Com o intuito de acessar a estrutura argumentativa do texto clássico, a presente pesquisa vale-se da teoria Semiótica discursiva desenvolvida por Greimas e seus desdobramentos. Tais fundamentos são utilizados para compreender as estruturas persuasivas e sensíveis presentes na carta V “Enone a Páris” da obra Heroides do poeta romano Ovídio. No corpus estudado, a narrativa criada pelo poeta latino tem como cenário os acontecimentos que antecedem à guerra de Tróia e retoma a narrativa mítica de Enone, Ninfa da Frígia que foi seduzida por Páris quando ele era apenas um simples pastor no monte Ida, e ainda desconhecia sua origem nobre. Após o famoso julgamento das três deusas - Vênus, Minerva e Juno - e de seu reconhecimento por sua família real, Páris parte para a Grécia onde se apaixona por Helena. Graças a um ardil de Vênus, deusa escolhida por ele como a mais bela, o troiano conquista e rapta a jovem espartana, abandonando assim a esposa Enone. Nesse contexto, Ovídio concede voz à personagem mítica Enone, configurada como narradora-personagem, por meio de um simulacro de epístola para que ela reclame a seu amado Páris, narratário-personagem, o abandono sofrido e suplique por seu retorno. Para a análise, mobilizam-se conceitos da Semiótica Discursiva, especialmente o percurso gerativo de sentido e as projeções da enunciação no enunciado, isto é, os modos de inscrição das categorias de pessoa, tempo e espaço na construção discursiva. Além disso, investigam-se os recursos persuasivos empregados pelo enunciador em relação ao enunciatário, compreendidos como procedimentos discursivos produtores de sentido. Tais procedimentos também são examinados à luz da semiótica tensiva, sobretudo no que se refere às modulações de intensidade e extensidade e à maneira como estas se articulam no campo de presença. Nesse sentido, uma análise ainda inicial mobiliza os conceitos de “memória do acontecido” e “memória-acontecimento”, formulados por Mariana de Barros (2016), a fim de compreender como se configuram as grandezas tensivas em um trecho da carta e, em perspectiva mais ampla, como tais mecanismos incidem sobre o estado passional da narradora-personagem e sobre os efeitos persuasivos do discurso. (Apoio: PIBIC Reitoria - Processo: 22233)
Palavras-chave: Semiótica discursiva; Memória; Ovídio
CARLOS DANIEL ARAUJO MONTEIRO FILHO
[Línguas Indígenas]
A categoria de frustratividade em línguas indígenas brasileiras: uma análise tipológico-funcional
A presente pesquisa tem como objetivo analisar a categoria de frustratividade em um conjunto de 10 línguas indígenas brasileiras, buscando identificar os tipos de frustrativos (semânticos e pragmáticos) e suas formas de codificação nas línguas da amostra. A frustratividade, segundo Overall (2017), está presente em diferentes culturas e línguas do mundo e pode ser codificada tanto gramatical quanto lexicalmente. Trata-se de uma categoria que descreve situações de uso em que um resultado esperado, desejado ou planejado pelo falante não se concretizou por alguma razão, gerando, dessa forma, uma quebra de expectativa positiva ou negativa para o falante. Com base nos pressupostos teóricos do modelo tipológico da Gramática Discursivo-Funcional (Hengeveld e Mackenzie, 2008), que distingue níveis e camadas de organização linguística, busca-se descrever os contextos de uso que favorecem a expressão de frustratividade e verificar a existência de possíveis hierarquias implicacionais atreladas aos tipos de frustrativos nas línguas da amostra e a coexistência de frustratividade com outras categorias linguísticas. Embora essa categoria tenha sido mencionada em descrições gramaticais de várias línguas amazônicas (Payne, 1981; Swift, 1988; Epps, 2008; Overall, 2017), os estudos tipológicos são escassos. A literatura existente tende a reunir sob o mesmo rótulo usos frustrativos distintos, o que dificulta a delimitação dessa categoria e a compreensão de sua funcionalidade nas línguas, em especial aos valores (não-realização, resultado não-esperado, insucesso, surpresa, desapontamento, etc) que podem ser classificados como pertencentes ao domínio da frustratividade. Para cumprir os objetivos propostos, analisamos dados secundários provenientes de gramáticas descritivas e estudos de referência, publicados no Brasil e no exterior. Os resultados parciais indicam que os frustrativos estão presentes em 9 das 10 línguas analisadas. Os dados mostram ainda que as 9 línguas analisadas apresentam frustrativos semânticos e apenas 3 delas apresentam frustrativos pragmáticos, evidenciando uma hierarquia implicional: onde há frustrativos pragmáticos, há também os semânticos, mas não o contrário. Por fim, verificou-se que a frustratividade coocorre com outras categorias, tais como aspecto, tempo, modalidade e evidencialidade. Trata-se de uma categoria independente, que está, quase sempre, sob o escopo da categoria de tempo (passado). (Apoio: CNPq - Processo 148688/2025-0).
Palavras-chave: Frustrativiade; Tipologia Linguística; Línguas Indígenas
CAROLINA BEZERRA IMBIRIBA
[Sociolinguística e Dialetologia]
A nasalização fonética da vogal /a/ pretônica em quatro capitais nordestinas
A nasalização fonética da vogal /a/ em posição pretônica, quando seguida de consoante nasal, produz variantes como “b[a]nana” x “b[??]nana”, cuja distribuição tem um forte componente dialetal no português brasileiro, embora haja poucos trabalhos de cunho dialectológico e sociolinguístico sobre o tema. Abaurre e Pagotto (1996) estudaram a nasalização fonética das vogais nas cinco capitais que compõem o corpus do Projeto NURC e observaram que o fator região divide o país na altura da Bahia: de um lado, Recife e Salvador nasalizam 73% e 69%, respectivamente; de outro, Rio de Janeiro, 59%, São Paulo, 54% e Porto Alegre, 50%. Como afirmam os autores – e como tomaremos por hipótese – o Brasil se divide também pela nasalidade. Além do estudo de Abaurre e Pagotto (1996), cita-se como referência para este trabalho a dissertação de Mendonça (2019) sobre Alagoas. Citam-se ainda os trabalhos de Morelli (1998), sobre Pelotas; Cassique (2002), sobre Breves (PA); Rodrigues e Reis (2012) sobre Cametá (PA); Alves (2014), sobre o dialeto quilombola gurutubano (MG). O objetivo desta pesquisa é mapear o fenômeno da nasalização fonética da vogal /a/ pretônica seguida das consoantes nasais anteriores /m/ e /n/ em quatro capitais nordestinas: João Pessoa, Salvador, Maceió e Recife, com base no corpus do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB). Os dados serão submetidos à análise sociolinguística variacionista com auxílio do Programa GoldVarb X considerando-se dezesseis variáveis: além da nasalização, consideramos a tonicidade da vogal variável, o ponto de articulação da nasal que a segue, a natureza do onset, a vogal da sílaba seguinte, a distância da variável em direção à tônica, a classe de palavra, a juntura morfológica, a posição do vocábulo na frase, a posição da pretônica no vocábulo e o a qualidade da vogal da sílaba anterior como variáveis linguísticas; e a região, o sexo, a faixa etária e a escolaridade dos falantes, bem como o tipo de questionário em que houve a realização das palavras analisadas, como variáveis extralinguísticas. Nossas expectativas são de que este estudo inicial possa confirmar a alta tendência de nasalização em capitais do Nordeste e possibilitar, nas próximas etapas da pesquisa, o estudo da distribuição do fenômeno no país. (Apoio: PIBIC/UFRJ - Processo: 23079.226301/2024-39 e PIBIC/CNPq - Processo: 166868/2025-6)
Palavras-chave: nasalização fonética; sociolinguística variacionista; variação linguística
CAROLINE FERREIRA
[Semântica]
A semântica do instrumental no português brasileiro: um estudo comparativo entre estruturas
O estudo do significado instrumental ocupa um lugar central na semântica das línguas naturais por descrever as relações de causalidade, agência e mediação entre os participantes de um evento. No português brasileiro (PB), o domínio instrumental é expresso por um conjunto heterogêneo de construções que variam desde o uso prototípico da preposição ‘com’ até locuções complexas e formas verbais reflexivas. Este trabalho tem como objetivo investigar, de maneira sistemática, quais são as estruturas que introduzem argumentos instrumentais no PB, como são interpretadas e quais traços semânticos as distinguem. Fundamentada na semântica de eventos neo-davidsoniana e nos modelos de Rissman e Rawlins (2017), a presente pesquisa analisa doze construções organizadas em três grupos categoriais: (i) instrumentos diretos (ex: ‘com’, ‘usando’, ‘utilizando’), marcados por controle máximo e integração do instrumento à agência; (ii) instrumentos auxiliares (ex: ‘com a ajuda de’, ‘com o auxílio de’), que revelam padrões de cooperação assimétrica definidos como “comitatividade funcional”; e (iii) meios causais indiretos (ex: ‘por meio de’, ‘através de’), que privilegiam a mediação e a distância causal entre o agente e o resultado. A metodologia utilizada consistiu na aplicação de seis testes semânticos: intencionalidade do agente, força causal, compatibilidade com agentes inanimados, ordem e integração sintática, adequação discursiva e realização do evento. Os resultados demonstram que o instrumental no PB não é uma categoria homogênea, mas um continuum semântico sensível à dinâmica de forças. Enquanto construções verbais de uso exigem alta volição e controle deliberado como em “João quebrou a parede com o martelo”, a preposição ‘com’ demonstra neutralidade semântica, permitindo leituras de causalidade puramente física em contextos de eventos acidentais, como em “O vento quebrou a janela com a pedra”. Conclui-se que o português brasileiro diferencia sistematicamente entre meios instrumentais, procedimentais e auxiliares. Este trabalho contribui para a descrição linguística da língua e para o refinamento de modelos formais sobre a interface entre ação e mediação causal, oferecendo uma base empírica para estudos futuros sobre as zonas de contato entre instrumentalidade e comitatividade.
Palavras-chave: Semântica do instrumental. Causalidade. Comitativi
CAUÃ STIVEN CARDOSO
[Análise do Discurso]
Cifragem, cinema e circulação: um estudo discursivo da alteração gráfica como estratégia de censura e conservação no digital
O espaço da digitalidade proporciona um ambiente plural, propício à circulação de discursos diversos. Inclusos no grupo dessa multiplicidade discursiva, falas quanto ao polêmico, tabus, críticas ácidas e, até mesmo, discursos de ódio, estão muitas vezes calcados a determinadas posições e formações discursivas (majoritariamente conservadoras). Entretanto, é comum observar tais processos de constituição e circulação desses discursos conservadores por vieses com foco caracteristicamente ligados ao conteúdo semântico dos enunciados. Claro, é indispensável a análise da camada do conteúdo, mas neste trabalho há o objetivo da associação desse nível de análise a outra menos explorada: a gráfica. O foco de análise dá-se em, desuperficializar enunciados que se utilizam de modificações grafo-lexicais como estratégia discursiva: conservação de sentido, deslocamento semântico, silenciamento, etc. Colocado o principal objetivo, recortou-se um conjunto de comentários de avaliação cinematográfica quanto ao filme “Pobres Criaturas”, que pela temática sensível e alcance midiático (Prêmio Oscar, a exemplo), caracterizou-se como candidato ideal para o garimpo de casos do uso de cifragem no digital para usos relacionados a polêmica. Angariando conceitos centrais da Análise do Discurso de linha francesa, por Pêcheux (1975) e Orlandi (2005), e dos estudos de Discurso Digital de Dias (2018), faz-se possível traçar, por meio da memória discursiva, paralelos com o passado e as origens do digital, processos semelhantes e padrões repetíveis. O caso central de rememoriamento aqui, que será usado como paralelo anterior de certos padrões discursivos, será o LeetSpeak (linguagem especializada nativo digital, criada por hackers nos anos 80, com foco na alteração gráfica de itens lexicais), ainda que a aproximação seja mais pela semelhança dos processos do que por uma possível herança internética. Por fim, se tratando de digital, elementos como algoritmo (e censura algorítmica) e sujeito de dados, serão basilares para a busca de uma resposta mais clara possível do como se constituem os sujeitos conservadores e seus modos “estratégicos” de burlar os sistemas de filtragem da linguagem por meio da cifragem.
Palavras-chave: Cinema; Algoritmo; Cifragem
CLARA PITA REBOUCAS
[Letramento(s)]
DISCIPLINAS ACADÊMICAS VOLTADAS PARA A FORMAÇÃO DO LEITOR E DO ESCRITOR NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Neste trabalho apresentam-se resultados obtidos com o desenvolvimento de projeto de pesquisa em nível de Iniciação Científica intitulado “Disciplinas acadêmicas voltadas para a formação do leitor e do escritor na Universidade de São Paulo”, que objetiva a produção de conhecimentos sobre como são planificadas as disciplinas acadêmicas que visam o ensino e aprendizagem de práticas de leitura e escrita no ensino superior. São seus objetivos específicos: 1) compor repositório de ementas e programas de disciplinas focadas na formação em leitura e escrita de cursos de graduação e de pós-graduação da USP; 2) categorizar o material selecionado; e 3) identificar as concepções de leitura e de escrita que fundamentam as disciplinas. Parte-se da compreensão de que as diferenças entre as práticas de leitura e escrita desenvolvidas na Universidade e aquelas que se desenvolvem na educação básica podem constituir-se, muitas vezes, como obstáculos para a participação plena dos estudantes na cultura acadêmico-científica. É importante, portanto, conhecer as estratégias e ações propostas em diferentes cursos com o objetivo de suplantar tais dificuldades. A investigação, em andamento, orientada pelo Prof. Émerson de Pietri, é parte do Projeto Temático FAPESP (2022/05908-0) "Aprendizes universitários em práticas contemporâneas de letramento acadêmico-científico para formação de professores e de pesquisadores globalizados", no subprojeto “A produção do espaço na escrita: letramento acadêmico-científico e os modos de se fazer ciência na universidade” (Unicamp/ USP/ PUC-MG). A metodologia adotada se desenvolveu inicialmente com a busca de ementas e programas de disciplinas voltadas ao ensino e aprendizagem de práticas de leitura e escrita, em repositórios digitais institucionais, compondo-se uma base documental exaustiva sobre as disciplinas oferecidas em cursos de graduação e de pós-graduação da USP. Foram então identificadas 30 disciplinas nos cursos de graduação e 94 disciplinas nos cursos de pós-graduação. Em seguida, as ementas e programas das disciplinas foram categorizadas, observando-se se suas abordagens se caracterizariam mais especificamente pelas habilidades de estudo, pela socialização acadêmica ou pelo letramento acadêmico, categorias cunhadas por Lea e Street (2014). A atual etapa é a de análise e caracterização das concepções de leitura e de escrita das proposições constitutivas das ementas, partindo-se, sobretudo, de Volochinov (2017). Até o momento, os resultados encontrados apontam que as propostas curriculares da base documental estão predominantemente pautadas nos modelos de habilidades de estudo e socialização acadêmica. A pesquisa conta com o apoio do Programa Unificado de Bolsas da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo.
Palavras-chave: Formação; leitura; escrita
CYNTHIA MARIA DA SILVA
[Semântica]
‘Um pouco de’ como expressão partitiva no português brasileiro: uma análise semântico-formal
O presente trabalho propõe uma análise semântico-formal da expressão ‘um pouco de’ no português brasileiro (PB), tratando-a como operador partitivo. Partimos do pressuposto de que a expressão não funciona apenas como um quantificador e sim como um elemento que seleciona uma porção não especificada de um todo, estabelecendo uma relação entre parte e todo, entre quantificador e sintagma nominal que o segue. Em nosso trabalho, analisamos seu comportamento em combinação com nomes contáveis e massivos, concretos e abstratos, tanto no singular quanto no plural, com demonstrativos, artigos definidos e indefinidos e nomes nus, buscando mapear padrões de distribuição e restrições de uso, o que nos permitiu identificar regularidades e exceções que contribuem para um descrição mais precisa de seu funcionamento na língua. Partindo desse ponto de vista, articulamos dados empíricos e fundamentos teóricos da semântica-formal, considerando como a expressão se comporta em diferentes contextos de uso e como sua interpretação é construída. Observamos que ‘um pouco de’ não apenas quantifica, mas também impõe uma leitura de subparte, frequentemente dependente de um domínio contextual previamente estabelecido. Além disso, contrastamos as interpretações de ‘um pouco de’ com ‘pouco’ e ‘um pouco’, evidenciando as diferenças semânticas e sintáticas entre essas formas. Enquanto ‘pouco’ tende a expressar uma avaliação de quantidade insuficiente, e ‘um pouco’ pode assumir leituras mais subjetivas, ‘um pouco de’ apresenta um comportamento claramente partitivo, delimitando uma quantidade parcial de um conjunto ou substância. Esses contrastes são fundamentais para demonstrar que, apesar da proximidade formal, as três expressões não são intercambiáveis em todos os contextos. Ao final, propomos também uma interpretação em forma lógica para a expressão ‘um pouco de’ com base nos postulados da semântica formal das línguas naturais. Cabe destacar ainda que tais distinções não se restringem ao nível interpretativo, mas também se refletem na estrutura sintática em que cada forma ocorre, o que reforça a necessidade de uma análise integrada entre forma e significado. Ao final, propomos também uma interpretação formal para a expressão ‘um pouco de’. Tal formalização busca explicitar suas condições de verdade e sua contribuição para o significado das sentenças, oferecendo um modelo mais preciso de sua atuação no português brasileiro.
Palavras-chave: semântica formal; partitivo; quantificação; massiv
DANIEL ADRIAN MATOS DE OLIVEIRA E SILVA
[Morfologia]
O paradoxo da parentetização: um estudo sobre compostos
Este trabalho investiga como palavras compostas e constituintes sintáticos interagem com processos derivacionais. Partindo das propostas de Lieber & Štekauer (2009) e Scalise & Bisetto (2009), examinamos exemplos de compostos de base presa (cf. Gonçalves, 2011), como hidroterapeuta, compostos (na nossa análise) de raiz, como sem-vergonha, e sintagmas com significado especial, como educação física (cf. Damulakis, 2023). Essas formas, em diferentes graus, apresentam um problema para a caracterização do que é um composto e de como palavras compostas interagem com morfologia derivacional (como em hidroterapeuta, sem-vergonhice e educador físico). Isso ocorre porque alguns desses exemplos exibem o “paradoxo da parentetização” (Spencer, 1991), no qual formas como hidroterapeuta e educador físico poderiam ser decompostas de duas maneiras: [[hidroterap]euta] e [[educa físic]dor], em que a afixação de -euta ou -dor tem escopo sobre toda a unidade, e [[hidro]terap-euta] e [[educa-dor] físico], em que, morfologicamente, a afixação se dá apenas sobre um dos elementos do composto. Nosso objetivo é investigar se os casos de paradoxo devem ser analisados como compostos, propriamente, ou como casos de desalinhamento entre estrutura morfológica e interpretação semântica. Nosso interesse é apresentar esses exemplos, de maneira a compará-los com formações como sem-vergonhice e pão-duragem, que não exibem o paradoxo, já que -ice e -gem só podem ter se adjungido a toda a construção e não apenas a uma de suas partes (cf. *vergonhice, *duragem). Além disso, buscamos aprofundar o entendimento da caracterização dos compostos, assumindo que eles são de três tipos: os de base presa, os de raiz e os de palavra. Partimos da hipótese de que os casos de paradoxo da parentetização observados não constituem um simples descompasso entre morfologia e semântica, mas evidenciam diferentes pontos de acesso da derivação à estrutura interna das derivações. Inserimos a pesquisa no campo teórico da Morfologia Distribuída (Halle & Marantz, 1993), segundo a qual as operações de concatenação de morfemas são as mesmas da sintaxe. Metodologicamente, realizamos uma análise qualitativa dos dados do português brasileiro, selecionados, em sua maioria, por introspecção e julgamento de gramaticalidade. Organizamos, para esta pesquisa, critérios morfológicos e semânticos, como transparência da base, possibilidade de (de)composição, produtividade e composicionalidade. Esperamos, com este trabalho, contribuir para a descrição dos compostos no português brasileiro e para o debate sobre a relação entre derivação, composicionalidade e estrutura morfológica.
Palavras-chave: paradoxo da parentetização; composição; Morfologia Distribuída
DANIELLE LIMA FERREIRA
[Análise do Discurso]
Atemporalidade em narrativas tradicionais pela manutenção de objetos do discurso: do Milagre de Teófilo a discursos contemporâneos
As narrativas de pacto com o Diabo fazem parte do imaginário popular no ocidente e, mesmo que não estejam inseridas em um contexto religioso, são facilmente identificadas por meio de objetos de discurso que compõem o conhecimento partilhado. Esta pesquisa buscou compreender o alcance de narrativas tradicionais, quando atualizadas em discursos distintos. A atemporalidade aqui proposta se trata de elaborações de objetos discursivos primariamente fixados em narrativas medievais cristãs e reproduzidos hodiernamente de forma anacrônica. A partir da narrativa “O milagre de Teófilo”, datada do século XII, foram selecionados objetos de discurso que se desenvolveram interdiscursivamente nos moldes de Mondada e Dubois (2003) e Koch (2008) e interferiram em eventos narrativos, de acordo com o protocolo para análise de discurso narrativo proposto por Labov (1997). Esses objetos foram encontrados em narrativas orais, como as de artistas que pactuam para atingir a perfeição ou o sucesso, clássicas, como Fausto e Mefistófeles, e em publicações em redes sociais, considerando seus contextos discursivos e a perlocução (Austin, 1990) atingida pela propagação do cristianismo. Para tanto, foi necessário considerar que houvesse um leitor modelo e um leitor empírico (Eco, 2004) que pudessem associar determinadas representações nas narrativas aos seus referentes (Frege, 1978). A atemporalidade foi verificada ao observar a variedade de discursos que mantinham a percepção negativa de elementos das narrativas medievais cristãs. A perlocução atingida por objetos de discurso presentes nessas narrativas os inseriu em contextos diversos sem predomínio da religião e em detrimento de seu significado primário. A análise de discursos religiosos e seu alcance permite se debruçar sobre a influência do cristianismo no pensamento coletivo. A forte presença da Igreja como uma instituição de poder em nossa cultura faz com que interlocutores imersos no pensamento ocidental se mantenham como leitores e/ou interlocutores modelo desses discursos, a despeito do contexto social em que estão inseridos. (Apoio: FAPESP - Processo 2024-22350-8).
Palavras-chave: objetos de discurso; narrativas tradicionais; Diabo
DAVI CÉSAR DE SOUZA
[Análise do Discurso]
Brocos de contrução MOC: ilhas de saberes em redes transversais
O presente trabalho aborda a utilização de blocos de montar MOC (My Own Creation) como ferramenta para o desenvolvimento do discurso e da educação inclusiva em ambiente escolar. O objetivo geral consiste em implementar um clube de leitura pautado na construção de um minimundo formado por ilhas temáticas narrativas, visando a formação multiletrada crítica e o protagonismo discente. O quadro teórico fundamenta-se nos estudos do Círculo de Bakhtin, especificamente nos conceitos de dialogismo e gêneros discursivos, articulados às perspectivas de pedagogia engajada e à intersecção de raça, gênero e classe. A metodologia caracteriza-se como uma pesquisa-ação de natureza qualitativa e interpretativa, realizada em uma escola pública de Ensino Médio em Assis-SP. A intervenção utiliza protótipos de ensino que conectam diferentes materialidades, como literatura, cinema e artes visuais, à materialidade tátil dos blocos de construção. As atividades organizam-se em ilhas que hibridizam referências temporais e culturais, mesclando elementos do português medieval, culturas indígenas, matrizes africanas, a imigração japonesa e a linguagem inclusiva, conforme proposto no protótipo de ensino Vozes do Brasil. A hipótese central sustenta que a construção física e metafórica de um minimundo permite que estudantes com diferentes formas de processamento cognitivo, incluindo aqueles com Transtorno do Espectro Autista (TEA), encontrem canais de expressão para além da verbalidade hegemônica. Ao transformar conceitos abstratos em construções tridimensionais, os blocos MOC funcionam como mediadores do discurso, facilitando a compreensão de saberes transversais e a sociabilidade entre sujeitos historicamente marginalizados. Como resultados esperados, o projeto visa a criação de protótipos de ensino digitais, jogos pedagógicos e a consolidação do minimundo narrativo como produto final. Espera-se que a proposta fomente uma educação mais democrática e acessível, capaz de visibilizar vozes excluídas e promover a equidade social através do fortalecimento da autonomia e da prática da liberdade no cotidiano escolar. A iniciativa pretende demonstrar que a integração entre a cultura acadêmica e a educação básica, mediada por metodologias inovadoras, é capaz de produzir conhecimentos científicos e sociais relevantes para a comunidade.
Palavras-chave: Cículo de Bakhtin; Brocos de construção MOC; Multiletramentos
DAVI CÉSAR DE SOUZA
[Análise do Discurso]
Protótipos flexíveis lúdicos de ensino participativo: jogos e minimundo MOC em rede de saberes transversais
O presente trabalho aborda a utilização de protótipos de ensino, jogos e blocos de montar MOC (My Own Creation) como ferramentas de educação inclusiva em ambiente escolar para o desenvolvimento de interação discursiva, socialização e potencialidade de letramento lúdico, em prol da inclusão e da acessibilidade. O objetivo geral consiste em implementar um clube de leitura pautado na construção de um minimundo formado por ilhas temáticas narrativas, com enfoque em uma formação multiletrada, que considere o educador como mediador do protagonismo discente, para que as potencialidades de cada um possam ser exploradas e desenvolvidas, assim como para centrar foco naquelas que necessitem de maior apoio e intervenção. O quadro teórico que fundamenta o trabalho articula os estudos bakhtinianos, especialmente por sua singularidade com o dialogismo e os gêneros discursivos, com os estudos dos multiletramentos da Nova Londres e perspectivas educacionais engajadas, como a freireana. Os procedimentos metodológicos de uma pesquisa-ação de natureza qualitativa e interpretativa, como esta, realizada em uma escola pública e periférica de Ensino Médio de uma cidade do interior paulista, considera a observação, a produção de dados diagnósticos, a produção de protótipos de ensino – com atividades interativo-participativas e lúdicas, jogos de tabuleiro e minimundo MOC, a intervenção junto à comunidade atendida e o feedback acerca das ações realizadas. A hipótese central sustenta que a construção física e metafórica de um minimundo permite que estudantes com diferentes formas de processamento cognitivo, especialmente aqueles com Transtorno do Espectro Autista (TEA), encontrem canais de expressão para além da verbalidade hegemônica. O trabalho já realizado produziu um protótipo de ensino, chamado Vozes do Brasil; um jogo de baralho inclusivo (intitulado Vozes); e uma ilha do minimundo. Os três produtos hibridizam referências temporais e culturais, ao mesclarem elementos do português medieval, culturas indígenas, matrizes africanas, imigração japonesa e linguagem inclusiva. Como resultado, uma exposição decorrente da produção realizada fomentou uma movimentação não só entre discentes da escola e da Universidade, mas também da comunidade civil local. Isso levou a pensar não apenas na relevância, mas também na viabilidade e na pertinência da presença do lúdico como elemento de união entre a escola e a comunidade, papel essencial de uma educação mais democrática e acessível, capaz de visibilizar vozes excluídas e promover a equidade social pelo fortalecimento da autonomia e da prática da liberdade no cotidiano escolar.
Palavras-chave: Estudos bakhtinianos; Dialogismo; Muntiletramentos
ERICK LUCIO
[Linguística Aplicada]
“Nós lutamos pelo ser”: identidade, afetos e memórias na educação linguística em francês com a Terceira Idade
Submetidas à sociedade do cansaço (Hann, 2021), pessoas idosas lutam por seu reconhecimento como sujeitos (Bosi, 2023), à margem da sociedade capitalista, pautada na lógica da produção. No campo da linguagem, tal realidade é aprofundada pela colonialidade da linguagem, no que tange à deslegitimação de suas enunciações (Veronelli; Daitch, 2015). Tendo em vista aquele público, investigamos cenários de educação linguística em francês no projeto de extensão Universidade Aberta à Terceira Idade (UNATI), da UNESP/Araraquara. Em um primeiro momento, aproximamo-nos do contexto social (Bosi, 2023) e pedagógico (Moraes-Caruzzo, 2023), nos quais estão inseridas as vozes da Terceira Idade. O diagnóstico encontrado possibilitou a criação de uma Sequência Didática Alternativa (SDA), que teve como objetivo enfrentar a subalternização de idosas e idosos em experiências de ensino-aprendizagem de língua francesa. Como continuidade da investigação, foi proposta uma pesquisa-ação (Thiollent, 2011; Tripp, 2005) para aplicação da SDA, agora com o objetivo de articular repertórios translíngues (Blackledge; Creese, 2017), reminiscentes (Bosi, 2023), decoloniais e afetivos (Núñez, 2023), em oficinas de francês com a Terceira Idade. Assim, na presente comunicação, serão apresentados resultados preliminares da análise dos dados coletados com as/os participantes, durante encontros da UNATI francês. Dentre eles, destacamos os excertos “Nós lutamos pelo ser”, que marca a expressão de identidade das/dos estudantes matriculados no curso, bem como a produção de cartas afetivas, que representam o “trabalho da memória” (Bosi, 2023) das vozes idosas com seus tempos passados e presentes. Ambas as atividades, à luz da articulação de nossos repertórios teórico-metodológicos com as vivências e experiências de vida das/dos estudantes, representam o potencial transformador da translinguagem (Rocha, 2019), a importância da inscrição de vozes de corpos fronteiriços (Araújo, 2017) e o acolhimento geracional e afetivo dos desafios, sentimentos e passados da turma e do professor-pesquisador. Estes agentes demonstram, em meio às práticas sociais da pesquisa-ação, seus engajamentos em busca de um ambiente pedagógico transgressor (hooks, 2017) e, portanto, crítico, libertador e afetuoso.
Palavras-chave: Terceira Idade; Memória; Identidade
ESTER GONÇALVES DE OLIVEIRA
[Linguística Computacional]
Chatbots: a importância do processamento de língua natural para a experiência do usuário
O mercado de chatbots vem apresentando um crescimento exponencial em território nacional nos últimos cinco anos, consolidando-se como uma das principais ferramentas de transformação digital. Em 2017, havia cerca de 8 mil chatbots criados no Brasil; já em 2019 esse número saltou para 60 mil, alcançando 101 mil em 2020 e impressionantes 216 mil em 2021. Esses dados refletem não apenas o avanço tecnológico, mas também a necessidade das empresas em oferecer soluções de atendimento mais ágeis e acessíveis. O crescimento acelerado do atendimento automatizado foi impulsionado por diversos fatores, entre eles o contexto da pandemia da COVID-19, que obrigou grande parte dos setores a se adaptar a uma nova realidade remota. Nesse cenário, os assistentes virtuais tornaram-se aliados estratégicos, permitindo que organizações mantivessem a comunicação com clientes de forma eficiente, mesmo diante das restrições físicas impostas pelo isolamento social. Compreender esse panorama é essencial para destacar a relação direta entre o avanço dos chatbots e o papel do Processamento de Língua Natural (PLN). O PLN é a tecnologia responsável por permitir que máquinas compreendam, interpretem e respondam à linguagem humana de maneira natural e contextualizada. Sua aplicação é fundamental na construção e desenvolvimento de chatbots, pois garante uma experiência de usuário mais fluida, personalizada e próxima da interação humana. Além disso, o PLN contribui diretamente para o campo de UX design, já que possibilita a criação de interfaces conversacionais mais intuitivas e agradáveis. A integração entre linguística, ciência da computação e design de experiência do usuário fortalece não apenas o mercado de chatbots, mas também abre novas perspectivas para a área de linguística computacional. Portanto, este trabalho busca explicar de forma detalhada a atuação do PLN dentro do mercado de chatbots e UX design, evidenciando sua relevância para a evolução das interações digitais e para o futuro da comunicação entre humanos e máquinas.
Palavras-chave: Chatbot; Design Conversacional; PLN
EVELYN SILVA OLIVEIRA
[Historiografia Linguística]
O lugar de Renato Mendonça (1936) no cânone da linguística histórica brasileira: uma pesquisa historiográfica
Este trabalho objetiva investigar a obra O Português do Brasil: origem, evolução e tendências (1936), de Renato Mendonça, focando no status a ela atribuído no cânone da Linguística Histórica brasileira. Em Mendonça (1936), o autor discute a natureza e a formação do português brasileiro (PB), e embora trabalhos com o mesmo objetivo tenham sido produtivos na primeira metade do século XX, em geral, seu livro é frequentemente omitido nas crônicas que abordam o período, demandando, assim, uma investigação historiográfica. Para tanto, partimos do princípio da contextualização (KOERNER, 1996), que diz respeito ao estabelecimento do clima de opinião intelectual no qual um determinado conhecimento linguístico emergiu. O exame deste aspecto mostra que o trabalho de Mendonça (1936) surge num momento de fortes discussões acerca da relação entre língua e raça, sendo, portanto, um tema influente nos discursos sobre a língua nacional (TOLEDO, 2020; CHRISTINO, 2004). Porém, a análise mostra que Mendonça (1936) não considerou o que chamou de “mestiçagem linguística” um fator de perda e adulteração do PB, mas sim um processo natural de mudança linguística, o que destoava da análise feita por outros autores do período, tais como Nina Rodrigues e José Veríssimo (TOLEDO, 2020). Assim, é possível apontar a descontinuidade da proposta de Mendonça (1936) em relação ao cânone. Além disso, a pesquisa se volta para a análise das camadas do conhecimento linguístico (SWIGGERS, 2020), especialmente para a camada teórica. Neste particular, o estudo investiga as críticas propugnadas por Mendonça (1936) à Filologia Portuguesa, corrente bastante consistente entre o final do século XIX e início do século XX, através de nomes como Adolfo Coelho (1847-1919) e Leite de Vasconcelos (1858-1941) (Cf. NARO, 1976). Neste âmbito, observamos que a obra analisada propõe uma ruptura teórico-metodológica em relação à referida tradição filológica, pois o autor defende o método geográfico, que teria permitido o desenvolvimento da dialetologia, em oposição ao método histórico-comparativo presente na produção desses filólogos. Deste modo, Mendonça (1936) parece ter sido negligenciado no cânone da Linguística Histórica brasileira por ter defendido teses em descontinuidade com o pensamento hegemônico da primeira metade do século XX.
Palavras-chave: Linguística Histórica brasileira; Geografia Linguística; Mestiçagem Linguística
FABIOLA PAULA ALVES DE SOUSA
[Linguística Aplicada]
Letramentos acadêmico-científicos e a questão da teoria nas pesquisas realizadas
O presente trabalho vincula-se ao Projeto Temático FAPESP "Aprendizes universitários em práticas contemporâneas de letramento acadêmico-científico" e investiga as práticas de escrita no ensino superior. O objetivo central é compreender como pesquisadores em formação (pós-graduandos) constroem seus textos em meio às exigências de padronização da escrita universitária no tocante à teoria utilizada em suas pesquisas. A proposta fundamenta-se na insuficiência da preparação de professores e pesquisadores em formação no Brasil, especialmente no que tange aos letramentos acadêmico-científicos. Justifica-se pela necessidade de entender a escrita acadêmico-científica para além da padronização, considerados os diferentes modos de se fazer ciência. A partir dessa perspectiva, busca-se responder à seguinte pergunta de pesquisa: Como os estudantes marcam em seus textos a relação com a normatividade acadêmico-científica quando instados a refletir sobre sua posição em relação à teoria utilizada em sua pesquisa? O material de análise é composto por um corpus de 50 atividades escritas produzidas por pós-graduandos, baseadas em uma entrevista da escritora e teórica McKenzie Wark sobre o papel da teoria e sua relação com o trabalho com a linguagem. A fundamentação teórica articula os Novos Estudos do Letramento (Brian Street), a Análise do Discurso de vertente francesa (Michel Pêcheux) e a perspectiva interacionista (João Wanderley Geraldi) e outras leituras complementares. A metodologia é de base qualitativa e discursiva, centrando-se na análise de como os pesquisadores negociam sua voz diante da normatividade acadêmica. Os resultados parciais indicam que a escrita acadêmica não é neutra, mas um campo de intervenção social e política. Observou-se que o letramento acadêmico é um processo contínuo de construção de identidade e conhecimento, no qual a autonomia do pesquisador emerge quando este deixa de apenas reproduzir fórmulas prontas para compreender o funcionamento da linguagem, transformando o saber técnico-científico em um espaço de reflexão crítica. (Projeto 3603 do Programa Unificado de Bolsas de Estudos – PUB – da Pró-reitoria de pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, vinculado ao Projeto Temático Fapesp 2022/05908-0).
Palavras-chave: Escrita acadêmico-científica; Teoria; Gênero lembrete
FERNANDA DA SILVA BIBANCO
[Sintaxe]
O Sintagma Adjetival em construções com superlativo absoluto sintético vs. analítico: um estudo sobre o português paulista
O Português Brasileiro Contemporâneo (PB) possui a forma analítica (Ele é muito lindo) e sintética (Ele é lindíssimo) para a construção dos adjetivos superlativos absolutos. Considerando a falta de sistematização dessas formas, esta pesquisa identifica e descreve a variação do uso dos adjetivos superlativos absolutos analíticos e sintéticos na fala de falantes do português paulista em contextos coloquiais e cultos. A sistematização contribui com a hipótese de encontrar uma uma maior ocorrência de formas sintéticas na fala culta dos falantes de português paulista em relação à fala coloquial. A descrição do comportamento do Sintagma Adjetival em construções de superlativo absoluto no português (FOLTRAN & NÓBREGA, 2016; STAUB; REGUEIRA, 1973) se deu pela pesquisa bibliográfica na tradição linguística gerativa (CHOMSHY, 1957; 1981) e em gramáticas tradicionais (CUNHA & CINTRA, 2017). Foram levantadas e analisadas um corpus de fala culta e fala popular disponível no corpus do Nurc - SP (6 inquéritos orais) e do projeto PHPP (Entrevistas com moradores de favela em São Paulo, RODRIGUES, 2019). Foram controlados alguns contextos que poderiam influenciar o uso de uma ou outra variante, quais sejam: estrutura de adjunção e predicação; ordem do adjetivo em relação ao nome, com a sigla N-ADJ, quando o nome vem primeiro que o adjetivo (Ela é muito linda / Ela é lindíssima) e ADJ-N, para quando o adjetivo aparece primeiro que o nome (É super chic essa bolsa / É chiquérrima essa bolsa); o tipo de adjetivo (locativo, temporal, cor, gentílicos, pátrios, classificadores, quantificadores, qualificadores e modalizadores); e a forma da variante nas construções analíticas (super, mega, muito, hiper) e sintéticas (-im-, -érr- e -íss-). A pesquisa observou outras formas de construção dos adjetivos superlativos absolutos sintéticos que fogem das propostas pelas gramáticas tradicionais (pobríssimo, para pobre, ao invés de paupérrimo) e indicou uma preferência dos falantes em relação à forma da variante em construções analíticas e sintéticas; o tipo da estrutura sintática; o tipo de adjetivo e a ordem dos adjetivos em relação ao nome. Em geral, os resultados sugerem que os falantes de português paulista utilizam mais formas sintéticas além das previstas pela Gramática Tradicional (ROCHA LIMA ,1998) e demonstram que há predomínio das formas analíticas, indicando que o PB está reduzindo o uso de construções sintéticas. Além disso, verificou-se que a classificação do adjetivo, a estrutura sintática (predicação ou adjunção) e a ordem dos constituintes são fatores determinantes para a escolha da construção.
Palavras-chave: adjetivo superlativo absoluto; formas adjetivais analíticas; formas adjetivais sintéticas
FERNANDA MARA ROCHA GONÇALVES
[Ensino-aprendizagem de língua materna]
Processos de formação de palavras e o desenvolvimento da competência lexical: do dia a dia para a sala de aula
No âmbito da Educação Básica, nas aulas de língua portuguesa, o estudo léxico-gramatical é imposto de forma isolada e descontextualizada (Antunes, 2012), inibindo a curiosidade reflexiva dos estudantes. Tendo em vista essa problemática, este trabalho objetiva oferecer um outro olhar para a lexicologia aplicada na Educação Básica, propondo uma didática que considere a dimensão sociocultural da língua e favoreça o desenvolvimento da competência lexical. Como mostra Antunes (2012, 2014), Ferraz (2019) e Travaglia (2021), autores que constituem a base teórico-metodológica deste trabalho, conteúdos léxico-gramaticais, como os processos de formação de palavras, não devem ser estudados fora do contexto real de uso da língua. É essencial que os alunos tenham a oportunidade de perceber as significações resultantes da manipulação lexical proveniente dos processos de formação de palavras, desenvolvendo a competência lexical necessária para construir sentidos adequados para os textos que compõem o cotidiano linguístico. Sendo assim, a partir de cartazes cinematográficos que contemplam o universo infantojuvenil, explora-se os processos de derivação e de composição. Focou-se nestes dois processos de formação de palavras pois, estes, além de serem muito produtivos no português brasileiro contemporâneo, recebem maior atenção dos livros didáticos e das gramáticas, o que faz com que ocupem maior espaço na sala de aula de português. Apresenta-se, portanto, um trabalho de abordagem qualitativa e de cunho pedagógico, no qual o corpus é composto essencialmente por textos autênticos que fazem parte do universo sociodiscursivo dos alunos. Ao utilizar essa metodologia, verificou-se ser possível reverter o desinteresse dos estudantes pelo estudo léxico-gramatical e formar usuários ativos da língua, capazes de interagir conscientemente com os textos que circundam a sociedade. Nessa perspectiva, deixa-se claro a importância de se realizar um diálogo entre a sala de aula e o mundo, confirmando o que indica os estudos recentes sobre o léxico: as reflexões sobre a língua devem surgir da observação dos textos em circulação social.
Palavras-chave: Ensino; Léxico; Processos de formação de palavras
FLÁVIA BARBOSA DE SOUZA
[Lexicologia e Lexicografia]
Entre o insulto e a polifuncionalidade: análise pragmática e tradutória do item lexical cazzo na trilogia Ti amo e lode
Para a tradução de unidades lexicais, culturalmente marcadas por afetos, na literatura contemporânea, é preciso considerá-los por meio pelo contexto discursivo tanto na língua de partida quanto na de chegada. Apresentamos um recorte da pesquisa de Iniciação Científica (IC), cuja bolsa está vinculada ao programa PIBIC Ações Afirmativas RT, a respeito das unidades lexicais que apresentam carga semântica afetiva, presentes na trilogia italiana Ti amo e lode (AGIO, 2022; 2023). Nesse contexto, trazemos para reflexão uma análise do recorrente item lexical cazzo e suas possibilidades tradutórias para a língua portuguesa. Nosso objetivo central é destacar como essa palavra, frequentemente estigmatizada apenas como sendo um vulgarismo, assume múltiplas funções no texto literário, variando de acordo com o contexto discursivo e com a carga emocional das interações entre as personagens. A partir da identificação de 43 ocorrências de cazzo no primeiro volume dessa trilogia (AGIO, 2022), foi possível observar que cazzo não apresenta um significado semântico fixo, mas se configurando como uma unidade altamente versátil. Entre suas principais formas de uso no corpus, destacam-se: (i) interjeição, expressando surpresa, raiva ou frustração; (ii) intensificador em estruturas interrogativas; (iii) marcador de negação enfática; (iv) elemento de insulto ou provocação; e (v) marcador de oralidade, funcionando como apoio discursivo em falas espontâneas. Com base nas discussões teóricas de Wierzbicka (1999), Moeschler (2000), Biderman (2001), Costa (2004), Bentes (2012) e Humbley (2013), verificamos que essas variações pragmáticas indicam que o valor da unidade é construído discursivamente, a partir da situação comunicativa e da intenção do falante. No campo dos estudos da tradução, essa multiplicidade de funções impõe desafios significativos, pois, em português, há diversas possibilidades tradutórias capazes de abarcar todos os usos da palavra, o que exige do tradutor uma abordagem flexível e sensível ao contexto. Assim, as soluções tradutórias observadas oscilam entre formas mais intensas, como “caralho” ou “porra”, e alternativas mais atenuadas, como “droga”, “nossa” ou “nem ferrando”, dependendo da carga emocional e da função exercida pela unidade no enunciado. Logo, examinamos um exemplo de nosso corpus e discutimos suas implicações tradutórias a fim de contribuirmos para a reflexão sobre a relação entre os itens lexicais, seus correspondentes tradutórios e o processo tradutório, destacando os limites de abordagens centradas em equivalências fixas e evidenciando a importância da análise contextual na tradução de unidades lexicalmente marcadas.
Palavras-chave: trilogia italiana contemporânea; vocabulário afetivo; cazzo
GABRIELA ALVES LACHI
[Análise do Discurso]
Materialidade multissemiótica no discurso brain rot
Os denominados vídeos brain rot constituem uma das manifestações discursivas mais expressivas da cultura digital contemporânea, circulando em plataformas como TikTok e direcionando-se predominantemente ao público jovem. Apesar de sua ampla disseminação e do intenso debate público sobre seus efeitos cognitivos, esses conteúdos audiovisuais permanecem praticamente inexplorados do ponto de vista linguístico-discursivo. Esta pesquisa tem como objetivo central analisar a materialidade multissemiótica desses vídeos, investigando de que modo recursos prosódicos, imagéticos e verbais se articulam na construção de efeitos comunicativos e na produção de objetos de discurso. A relevância do estudo decorre de uma lacuna concreta: o debate público sobre os vídeos brain rot é amplo e acalorado, mas conduzido quase exclusivamente por perspectivas das áreas da saúde e da educação. A linguística permanece ausente dessa discussão, o que a pesquisa busca priorizar, oferecendo ferramentas analíticas capazes de descrever com mais precisão o que esses conteúdos fazem discursivamente, para além dos juízos de valor que os cercam. O quadro teórico-metodológico integra perspectivas complementares. Da teoria dos atos de fala (Austin, 1990), parte-se do pressuposto de que a linguagem não descreve o mundo, mas produz ações e transforma situações interacionais. A partir dos estudos de referenciação (Mondada & Dubois, 2003) e da noção de progressão referencial (Ferreira Netto), concebe-se o objeto de discurso como construção emergente das práticas sociais. No plano semiótico, mobiliza-se a classificação triádica de Peirce (1975) e os processos de estilização figurativa descritos em Ferreira Netto (2025) para a análise dos elementos visuais. Complementarmente, Woods (2023) trata conteúdos nonsense como práticas comunicativas complexas. Metodologicamente, adota-se abordagem qualitativa exploratória, articulando análise prosódica por meio do software PRAAT, com foco no contorno da frequência fundamental (F0), e segmentação manual dos vídeos em unidades mínimas definidas a partir de mudanças visuais relevantes. Os resultados parciais sugerem que os vídeos brain rot não se caracterizam pela ausência de sentido. No plano prosódico, identificou-se um contorno de F0 marcado por amplitude melódica reduzida e por saliências tonais pontuais, configuração associável à percepção de uma enunciação mecanizada ou artificial. No plano visual, observou-se a recorrência de figuras antropomorfizadas que transitam do ícone mimético ao personagem estilizado, pela inserção de traços faciais expressivos em objetos cotidianos reconhecíveis. Esses padrões sugerem a existência de uma organização expressiva própria a esses conteúdos. A etapa seguinte investigará sistematicamente a articulação entre entoação e organização imagética, para compreender como tais recursos condicionam a recepção desses conteúdos pelo público jovem.
Palavras-chave: brain rot; discurso; linguística
GABRIELLE TALLON FIGUEIREDO DA ROCHA
[Psicolinguística]
A interface entre cognição e linguagem: processamento e funções executivas na aquisição de L2
Investigar a competição linguística e as funções executivas é fundamental para compreender a arquitetura cognitiva do bilinguismo. Este trabalho apresenta os resultados iniciais de uma revisão sistemática sobre a Aquisição de Segunda Língua (ASL) em bilíngues tardios, sob a ótica do processamento cognitivo. Situada na interface da Psicolinguística, a pesquisa examina como aprendizes lidam com a ativação paralela e a competição entre a língua materna (L1) e a segunda língua (L2). O estudo fundamenta-se no pressuposto de que a ASL mobiliza funções executivas complexas — como atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e controle inibitório —, operando sobre uma estrutura linguística pré-existente. Observa-se que, ao contrário do que acontece durante a aquisição de L1, a ASL ocorre em um contexto de maturidade cognitiva e linguística prévia; portanto, parte-se da hipótese de que a influência da L1 sobre a L2 é mediada por mecanismos de controle que gerenciam a interferência interlinguística. Segundo Traxler (2012), a maioria das teorias do bilinguismo propõe que aprender uma L2 não implica aprender novos conceitos, mas sim novas formas fonológicas ou rótulos para conceitos existentes. Entre os modelos que buscam compreender os processos cognitivos envolvidos na aquisição de L2, destaca-se o Revised Hierarchical Model (RHM), que procura explicar as assimetrias e complexidades observadas no processamento da linguagem bilíngue. A fundamentação teórica articula estudos de autores como Godoy e Guimarães (2024), Jegerski e VanPatten (2014), Oliveira e Sá (2022), Paiva (2014, 2019), Robinson e Ellis (2008), Souza (2021) e Traxler (2012). Metodologicamente, realiza-se uma revisão sistemática de literatura para identificar, analisar e sintetizar o estado da arte sobre a temática. Por meio deste levantamento, buscou-se consolidar um referencial teórico robusto para compreensão do processamento bilíngue e das interações entre léxico e cognição. Futuramente, espera-se que tal panorama possa fornecer subsídios para a identificação de distúrbios da linguagem e para o aprimoramento de práticas pedagógicas no ensino de línguas.
Palavras-chave: Psicolinguística; Aquisição de Segunda Língua; Processamento cognitivo
GEOVANA MENE DE OLIVEIRA LIMA
[Neurolinguística]
Análise da organização interacional do suporte em interações envolvendo uma criança autista em contexto pedagógico
Este projeto tem como objetivo apresentar a organização socio-interacional de suportes em interações envolvendo uma criança diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), destacando sua relevância no contexto de educação inclusiva e do campo de estudos linguísticos-interacionais. A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma perspectiva multimodal da interação, analisando dados coletados em ambiente naturalístico de uma sala de aula de Educação Infantil, com foco nas interações de uma criança autista, sua acompanhante pedagógica e seus pares. A justificativa do estudo baseia-se na necessidade de compreender como as interações acontecem em contextos educacionais, sendo fundamental para nos fazer avançar em uma inteligibilidade de práticas que podem ser mais ou menos inclusivas. A pesquisa compreende especificamente, de que maneira os diferentes recursos multimodais são mobilizados nesses momentos e como o suporte é construído conjuntamente por ambos (criança e adulto). Esse tipo de observação fundamenta a proposta do estudo, que investiga as relações entre suporte interacional, práticas de scaffolding e dinâmicas intercorporificadas nas interações entre uma crianças autista e adultos não autistas em contextos escolares. Ao situar a análise em ambientes caracterizados como neurodiversos, nos quais diferentes modos de existência e sociabilidade emergem de realidades neurocognitivas distintas, o estudo busca explicitar como tais práticas são localmente organizadas e negociadas. Com isso, pretende-se contribuir para o aprofundamento teórico-metodológico do campo e oferecer subsídios para práticas pedagógicas mais responsivas à diversidade interacional. Os procedimentos metodológicos incluíram visualização do corpus, transcrições verbais e multimodais seguindo as convenções proposta por Jefferson (2014) para condutas de fala e Mondada (2016) para condutas corporais, com o uso do software de tratamento de áudio Audacity e o programa de notação de vídeo ELAN. Os resultados parciais de análises preliminares têm sugerido que os suportes são organizados e negociados entre professor e aluno e tomam formas variadas, negociadas e colaborativas. Esta pesquisa de iniciação científica tem o financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, processo 2025/28136-0).
Palavras-chave: autismo; interação social; scaffolding
GIAN LUCAS ALMEIDA DE BARROS
[Fonética e Fonologia]
Análise prosódica de vozes criadas por IA: estudo comparativo
Ferramentas de síntese de fala baseadas em Inteligência Artificial (IA) têm produzido vozes artificialmente cada vez mais próximas da fala humana. Desta maneira, o presente trabalho visa investigar os parâmetros prosódicos acústicos que possam diferenciar falas criadas por IA e vozes humanas no Português Brasileiro (PB). Parte-se, aqui, da hipótese de que há diferenças nos padrões prosódicos de vozes sintéticas e vozes humanas. Tendo em vista, porém, estudos que examinam o contorno entoacional em falas geradas por IA, primordialmente por ferramentas Text-to-Speech (TTS), como Tojeira-Ramos (2025), Sá (2018) e demais avaliados em Galdino e Oliveira Jr. (2023), observa-se a proximidade de vozes artificiais às humanas frente às metodologias neles utilizadas. Como contraponto, utilizamos parâmetros empregados em estudos para a análise acústica da fala de sujeitos com patologias, como Covid-19 (Berti et al, 2023), pois esses parâmetros podem identificar diferenças não detectadas em abordagens anteriores. O nosso corpus inicial foi composto por quatro áudios extraídos de vídeos do YouTube e TikTok, pertencentes às categorias “pronunciamento” e “vídeos de opinião” — formatos recorrentes em plataformas digitais. Os áudios extraídos da internet têm como base o PB, sendo áudios longos (variando entre 2 a 5 minutos) e em formato de monólogo. Após a transcrição dos referidos dados, os textos foram submetidos ao sistema TTS da plataforma ElevenLabs para a geração de versões sintéticas correspondentes. Todos os áudios — humanos e artificiais — foram segmentados manualmente no software Praat (Boersma; Weenink, 2026), sendo a unidade de análise utilizada os chunks de fala. Após isso, houve a ampliação do banco de dados, considerando diferentes modelos de geração sintética de fala a fim de controlar possíveis especificidades da plataforma inicialmente selecionada, para um total de 40 áudios. Na presente etapa do projeto, estão sendo extraídos parâmetros de f0 e duração de cada unidade resultante por meio de um script. Por fim, a análise estatística será feita utilizando o programa R (R Core Team, 2026). Este projeto busca trazer resultados capazes de contribuir para o avanço dos estudos em prosódia e fonética acústica, além de fornecer subsídios para o desenvolvimento de ferramentas de identificação e caracterização de vozes sintéticas.
Palavras-chave: prosódia; Fonética Acústica; fonologia
GILBERTO SAMBÚ
[Análise do Discurso]
A desconstrução da discriminação discursivo-social: ensino-aprendizado de variações linguísticas no Ensino Médio
Resumo: O presente trabalho apresenta um estudo de pesquisa interventiva, com proposta de ensino-aprendizagem de variações linguísticas no Ensino Médio, com o objetivo de discutir uma concepção de língua e de linguagem, bem como de desconstruir a discriminação social, ainda presente nas interações dos sujeitos, calcada em preconceito linguístico-discursivo. Fundamentado na filosofia da linguagem bakhtiniana, nos estudos sociolinguísticos de Jakubinskij (continuados por Volóchinov, de outro ponto de vista) e na sociolinguística variacionista, este trabalho, qualitativo, centra-se nos diferentes registros linguístico-discursivos presentes no meio acadêmico devido às variações linguísticas observadas nos discentes e em como essa heterogeneidade, de certa forma, regula as interações entre o próprio grupo de alunos e entre alunos e professores. Tendo em vista a observação já realizada de embate entre valores sociais, marcado e expresso pela linguagem viva, que explicita identidade e alteridade, esta pesquisa objetiva levar para uma escola pública e periférica de ensino médio de uma cidade do interior do Estado de São Paulo, uma proposição prototípica de discussão e atividades lúdicas e explicativas sobre preconceito linguístico-discursivo, discriminação social pela diferença de registro linguístico que, por exclusão social, invisibiliza sujeitos e grupos, uma vez que a língua, por ser social e heterogênea, reflete e refrata questões socioculturais, econômicas, raciais/étnicas e históricas. Demonstrar que esses fatores, marcados em e explicitados pela língua, revelam relações de poder, dada a normatização de determinado registro, entendido como de prestígio justamente devido aos sujeitos que o utilizam e o quanto defender a homogeneização linguística significa assumir e difundir equívocos acerca de determinada noção de língua e de seu papel nas relações sociais. Assim, a presente proposta, com procedimentos bibliográficos, qualitativos e interventivos, caracteriza-se como uma pesquisa-ação. A hipótese é a de que, com discussão ampla e explícita com os alunos sobre essa temática, realizada em sala-de-aula, com um material de ensino-aprendizagem flexível, lúdico e interativo-participativo, este trabalho possa contribuir para mitigar as atitudes preconceituosas com sujeitos que utilizem registros e variações linguísticas considerados não-padrão, assim como para valorizar as diversidades linguístico-discursivas como reflexo e refração da heterogeneidade social. O material está em processo de produção , os primeiros resultados confirmam a hipótese do trabalho. Logo, colabora com a formação de uma visão democrática de língua, bem como uma postura menos preconceituosa e discriminatória, via desconstrução de relações hegemônicas de poder e promoção do respeito e da valorização das diversidades, tanto linguísticas quanto sociais imbricadas entre si.
Palavras-chave: Estudos bakhtinianos; preconceito linguístico; dis
GIOVANA AUGUSTO BREDA
[Análise do Discurso]
Análise dialógica de divulgação científica da Linguística nas redes sociais: o caso de um perfil no Instagram
As redes sociais têm assumido um papel central na circulação do conhecimento científico, tornando-se espaços de mediação entre a produção científica e o público amplo, externo às universidades. Tendo em vista esse contexto, esta pesquisa tem por tema a especificidade do discurso de divulgação científica nas áreas da Linguística nas mídias digitais, em especial o Instagram, considerando as formas pelas quais o saber científico pode ser reconfigurado quando colocado em relação ao senso comum sobre a língua e com as especificidades das redes sociais. O estudo usa como corpus o perfil do Instagram portugueselegal, de Carol Jesper, que produz conteúdos voltados à reflexão crítica sobre a linguagem, explorando noções como gramática, pragmática e semântica, através de exemplos do cotidiano, aproximando conceitos linguísticos do público amplo. A pesquisa tem como objetivo geral analisar o discurso de divulgação científica produzido por Carol Jesper em seu perfil no Instagram. Como objetivos específicos, pretende-se compreender como os enunciados de divulgação científica se atualizam quando deslocados para o contexto digital, considerando seu destinatário, interações discursivas e as formas de interação próprias da plataforma digital. Além disso, busca investigar de que maneira Jesper dialoga com as ciências da linguagem, analisando as adaptações que o discurso científico assume quando é realizado dentro do ambiente digital e colocado em relação ao senso comum sobre a língua. O quadro teórico-metodológico fundamenta-se principalmente nos estudos produzidos pelo Círculo de Bakhtin a respeito de gêneros discursivos, enunciado concreto, dialogismo e esferas de atividade, além da noção de orientação social do enunciado desenvolvida por V. Volóchinov. Também são utilizados estudos de comentadores do círculo como Brait, Fiorin, Faraco, Geraldi e Silva Filho, mobilizando conceitos acerca da natureza verbo-visual de enunciados e, em especial, sobre divulgação científica. São também relevantes pesquisas desenvolvidas por Grillo & Glushkova e Silva & Grillo, que entendem a divulgação científica como uma prática discursiva constituída pela interação entre diferentes esferas sociais. A metodologia adotada é a qualitativa e interpretativa, orientada pela Análise Dialógica do Discurso, tendo como procedimento central o cotejamento entre os enunciados do perfil de Jesper, assim como outros relacionados à divulgação científica. Considera-se ainda a natureza multissemiótica do material analisado, composta por elementos verbais, visuais e audiovisuais, a fim de compreender suas especificidades e modos de construção de sentido. (Apoio: CNPq - Processo 143680/2025-0)
Palavras-chave: Análise do Discurso; Divulgação Científica; Linguística
GIOVANNA SOUZA CAVALCANTE
[Linguística Cognitiva]
As metáforas do aborto
A presente pesquisa analisa a metáfora conceptual “Aborto é Assassinato”, ela descreve o sistema de transferência de traços conceptuais do domínio fonte ASSASSINATO para o domínio alvo ABORTO. Assume-se, como pressuposto básico, o entendimento de que a língua não é um reflexo da realidade, já que (i) apresenta-se como um sistema simbólico com processos próprios de conceptualização; e (ii) possibilita a interação e a comunicação dentro de uma sociedade em que os significados das palavras são convencionados a partir do uso. O principal objetivo desta pesquisa é descrever as metáforas conceptuais visando identificar os traços conceptuais transferidos do domínio fonte para o domínio alvo e que serão usados para conceptualização de aborto. Além disso, também é necessário destacar de que maneira ocorrem as metáforas nas línguas, com dois domínios, por exemplo, quando se diz que “Aborto é Assassinato”, ou seja, transfere os traços do domínio fonte “Assassinato” para “Aborto” de modo a (re) conceptualizar atribuindo traços específicos do domínio “Assassinato”. A Metodologia deste estudo consiste em buscar ocorrências on-line da metáfora conceptual “Aborto é Assassinato”, além de seus sinônimos “Matar” e “Homicídio”, sejam em artigos de opinião, notícias, etc., utilizar os dados obtidos para montar uma tabela com as perspectivizações de assassinato para aborto buscando entender como essas construções surgem, onde e de que modo. A metáfora se dá por dois domínios específicos que são entrelaçados de maneira que seus significados tenham certa equivalência entre si, por isso, a elaboração de uma tabela com os traços do domínio fonte ASSASSINATO alinhados aos traços do domínio alvo ABORTO para comparação dos dados obtidos mostra-se plausível para uma análise satisfatória com o intuito de descrever as construções linguísticas observadas nas ocorrências da metáfora conceptual. A pesquisa consiste numa abordagem qualitativa, isto é, foca em uma análise mais profunda dos dados e visa categorizar padrões de linguagem que explicitem as construções de sentido na metáfora conceptual “Aborto é Assassinato”.
Palavras-chave: Metáfora Conceptual; Aborto; Assassinato
GUILHERME JOSÉ CORREIA
[Análise do Discurso]
Uma abordagem discursiva dos aspectos não-verbais nos diálogos de S. Bernardo de Graciliano Ramos
O objetivo geral deste projeto é analisar a presença e a função dos aspectos não-verbais (descrição de gestos, expressão facial, postura, entonação etc.) nos diálogos do romance S. Bernardo de Graciliano Ramos. A escolha desse romance se justifica por: 1) no decorrer da narrativa, conter diversos diálogos com grande detalhamento dos aspectos não-verbais; e 2) pela importância do seu autor durante o segundo período modernista. Segundo a teoria do enunciado de M. Bakhtin, P. Medviédev e V. Volóchinov, os aspectos extraverbais (entre os quais estão os não-verbais) são parte integrante do enunciado e essenciais para o seu entendimento. A fundamentação teórico-metodológica da pesquisa se baseia em conceitos das seguintes obras: Sobre a fala dialogal (2015[1923]) de Lev Jakubinskij; no artigo “A palavra na vida e a palavra na poesia” da coletânea A Palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas (2019[1926]) de Valentin Volóchinov; no livro Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem (2021[1929]) (doravante MFL); no artigo “A construção do enunciado” da coletânea A Palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas (2019[1930]) e, por fim, no artigo de Beth Brait (2003[1993] “O processo interacional”, que une a análise do texto conversacional ou diálogo face-a-face com os princípios da interação discursiva de V. Volóchinov e de M. Bakhtin. Após a exposição da teoria sobre a relação entre as partes verbal e não verbal do enunciado, pode-se identificar os tipos de elementos não-verbais presentes no romance S. Bernardo e descrever seus sentidos, considerando o contexto dos diálogos em que ocorrem. A metodologia de análise se comporá dos seguintes passos: a) análises das interações de 3 duplas de personagens: Paulo Honório e Madalena, Paulo Honório e Luís Padilha, Paulo Honório e Azevedo Gondim; b) identificação dos acontecimentos-chave da vida desses personagens; c) seleção de fragmentos do romance que representam esses acontecimentos; d) localização de expressões que apontem para os elementos não-verbais nos diálogos; e) classificação dos elementos não-verbais; f) descrição dos sentidos e funções desses elementos no contexto dialogal em que ocorrem. (Apoio: FAPESP - Processo 2025-11615-3)
Palavras-chave: Análise do discurso; aspectos não-verbais; literatura brasileira
GUSTAVO HENRIQUE CAMILLO DE FREITAS
[Letramento(s)]
Educação Científica em Áudio: Ensino de Leitura e Escrita na Educação Básica
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) entende que o podcast é uma mídia que pode servir como ferramenta para o desenvolvimento de práticas orais e letradas de língua portuguesa em sala de aula. Neste painel, apresentamos o desenvolvimento de uma proposta didática para a produção de episódios de podcasts por alunos do ensino médio em uma escola pública. A proposta foi baseada nos seguintes eixos da BNCC: oralidade; leitura e escuta; produção de texto e análise linguística e semiótica. Essa proposta é fundamentada nos estudos sobre oralidade de Marcuschi (2000; 2009), que a entende como uma prática social que se apresenta em gêneros fundados na realidade sonora, nas pesquisas de Magalhães et. al. (2023), que apresentam a retextualização como o processo de passagem de gêneros escritos para gêneros orais, e na proposta de Tenani et al. (2025), que argumentam a favor de usos didáticos do podcast no ensino superior. A proposta didática de produção de podcast se caracteriza pelas seguintes etapas: a escuta reflexiva de episódio selecionado de podcast; a análise da natureza linguística do podcast por meio de aulas expositivas e práticas; a escrita colaborativa de roteiros e a gravação em equipe de episódios. Esta proposta foi elaborada no âmbito do projeto da Pró-reitoria de Graduação com o objetivo de promover o desenvolvimento de habilidades de leitura, escrita e comunicação oral dos alunos do Ensino Médio. Essa proposta se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4 e 10, pois busca promover educação de qualidade (ODS 4) e reduzir desigualdades entre as pessoas (ODS 10) por meio do acesso a práticas orais/faladas e letradas/escritas valorizadas socialmente. Apresentaremos o percurso trilhado, as dificuldades encontradas no desenvolvimento de habilidades orais e letradas dos alunos, e, particularmente, os ganhos advindos da experiência segundo a perspectiva dos licenciandos bolsistas do referido projeto. (Apoio: Núcleo de Ensino - Processo 4297)
Palavras-chave: Letramento; Oralidade; Podcast
HELOÍSA GIANNA HONÓRIO DE MORAIS
[Neurolinguística]
Imaginação e criação: a importância das atividades contextualizadas para o desenvolvimento da leitura e da escrita na infância.
As pesquisas realizadas na área de Neurolinguística Discursiva (ND) têm demonstrado como as práticas fundamentadas na teorização da Linguística e da Neuropsicologia de tradição soviética contribuem significativamente para o processo de alfabetização. O espaço teórico-metodológico do Centro de Convivência de Linguagens (CCazinho), localizado no Instituto de Estudos de Linguagem (IEL-Unicamp) e fundamentado sobre a teorização da ND, recebe crianças que são, na maioria das vezes, equivocadamente patologizadas em seu percurso de escolarização, se deparando muitas vezes com modos de avaliação e interpretações imprecisas sobre como escrevem. Ao invés de ocorrer o acolhimento de suas subjetividades e hipóteses de escrita, o que se percebe é a existência de um silenciamento e de uma patologização exacerbada desses sujeitos, cujos diagnósticos não se sustentam diante do acompanhamento e das práticas discursivamente orientadas realizadas no CCazinho. Baseando-se nas formulações de Vigotski (1930) e Abaurre (2001), este trabalho tem como objetivo apresentar e analisar os dados do acompanhamento longitudinal de crianças típicas e atípicas no processo de entrada na leitura e na escrita desenvolvidos no CCazinho. Serão analisadas as atividades produzidas no Centro de pesquisa, que priorizam o contexto próprio de cada criança e sua experiência sensível com a linguagem (Coudry, 2025). Levando em conta o que realmente tem significado no mundo das crianças, essas atividades partem de uma metodologia que busca apontar a imaginação e a criação infantil como funções que se organizam a partir das experiências vivenciadas pela criança, e não domínios apartados da realidade, mobilizando e reelaborando elementos do cotidiano, além de dialogar com os interesses da criança. Evidencia-se, assim o modo como as atividades imaginativas - brincar de casinha, mamãe e filhinha, restaurante etc - assumem relevância no processo de aprendizagem não apenas por sua ludicidade, mas também pela criação de espaços que promovem identificação e nos quais a criança pode experimentar diferentes posições enunciativas e mobilizar conhecimentos prévios. Os resultados preliminares indicam que a alfabetização é melhor direcionada quando os cuidadores criam condições para que a criança participe ativamente das práticas significativas de leitura e escrita, ao invés de focalizar nos supostos déficits atribuídos ao sujeito em seu percurso de escolarização. Deslocando o foco da identificação do “erro” para a compreensão das hipóteses que os sujeitos constroem em sua relação com a língua, reconhece-se a linguagem da criança não como um objeto a ser corrigido, mas como uma atividade viva, histórica e situada (Coudry, 2021).
Palavras-chave: Neurolinguística Discursiva; Alfabetização; Atividades Contextualizadas
HELOÍSA GIANNA HONÓRIO DE MORAIS
[Linguagem e novas tecnologias]
USO CRÍTICO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA MEDIAÇÃO DE LEITURAS LITERÁRIAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA A PARTIR DE "O ALIENISTA" DE MACHADO DE ASSIS.
O presente trabalho tem como objetivo apresentar uma atividade de mediação de leitura elaborada no âmbito da prática do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), projeto de Língua Portuguesa, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. A proposta foi desenvolvida para a disciplina de Redação e Leitura das terceiras séries do Ensino Médio, em uma escola estadual localizada em Campinas/SP, permeada pelo contexto de intensa plataformização e precarização dos processos de ensino-aprendizagem, e buscou relacionar a discussão da obra O Alienista, de Machado de Assis, ao uso crítico e responsável de Inteligências Artificiais (IAs) generativas no cotidiano dos estudantes. Para tanto, elaborou-se uma aula estruturada em três etapas: i) Espaço para o diálogo sobre o livro com os estudantes; ii) Dinâmica com Inteligência Artificial, utilizando-se de prompts para que a IA simulasse o protagonista Simão Bacamarte e dialogasse com os alunos; e iii) Momento de debate mediado sobre o uso crítico das IAs. Em termos de referenciais teórico-metodológicos, a análise se deu à luz das ideias propostas por Assis e Farbiarz (2023), que discutem a importância da educação para os meios e da formação crítica diante das tecnologias; de Balmant (2024), que aborda as transformações no papel docente frente à inteligência artificial; e de Buzato (2023), que problematiza as relações entre tecnologia, pós-humanismo e educação, considerando os riscos do simulacro e as potencialidades da assemblagem no contexto pedagógico. Os resultados possibilitaram aos participantes do PIBID refletir a respeito da utilização das IAs no contexto educacional. A partir dessa experiência, percebeu-se a necessidade de aprofundar os estudos sobre o ensino de Língua Portuguesa para integrar a IA de forma crítica e consistente. Assim, o trabalho exposto sugere que ao invés de rejeitar a Inteligência Artificial no ambiente educacional, pode ser mais produtivo incorporá-la às práticas pedagógicas e promover debates que estimulem a reflexão crítica e o desenvolvimento sólido dos estudantes e dos docentes, sobretudo os em formação.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Ensino de Literatura; Educação Crítica
INGRID DE ANDRADE ROLIM
[Semiótica]
Entre línguas e telas: a mudança de categoria no Oscar sob à luz da Semiótica
Este trabalho, vinculado a projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), investiga, sob o viés analítico da Semiótica Discursiva de linha francesa, os efeitos de sentido decorrentes da alteração terminológica na categoria do Oscar que, em 2019, migrou de "Melhor Filme Estrangeiro" para "Melhor Filme Internacional". A problemática central da investigação emerge do discurso de agradecimento proferido pelo diretor Alfonso Cuarón na cerimônia de 2019, momento no qual o cineasta questiona o termo "estrangeiro", sinalizando assimetrias linguísticas e culturais inerentes à estrutura do evento. O estudo busca responder à indagação fundamental: quais sentidos são produzidos por essa mudança na terminologia institucional da Academia? Para tanto, a pesquisa fundamenta-se nos pressupostos teóricos de Greimas (2014), Barros (2002; 2005), Fiorin (2013) e Zilberberg (2005). O corpus de análise compreende a transcrição e tradução minuciosa do referido discurso de Cuarón, bem como o levantamento de notícias publicadas no portal G1 entre o início de 2018 e o final de 2020. Tal recorte temporal permite observar as tensões discursivas antes, durante e após a implementação da mudança. A metodologia ancora-se no percurso gerativo de sentido, contemplando os níveis fundamental, narrativo e discursivo, e em conceitos avançados da Semiótica Tensiva, especificamente as operações de triagem e mistura. Adicionalmente, a análise estabelece um diálogo interdisciplinar necessário com o campo das Políticas Linguísticas, abordando conceitos críticos de imperialismo e intolerância linguística ao compreender o Oscar como um espaço simbólico de hegemonia da língua inglesa frente às demais. Objetiva-se, portanto, refletir sobre a representação de culturas não anglófonas no cenário cinematográfico contemporâneo, propondo uma leitura crítica acerca das práticas discursivas institucionais. Os resultados esperados visam contribuir para o adensamento do debate sobre diversidade, linguagem e relações de poder no âmbito das artes e da comunicação global, reforçando o papel da semiótica na desconstrução de discursos hegemônicos.
Palavras-chave: Semiótica; Políticas Linguísticas; Oscar
ISABELA MOREIRA SOARES DE SOUZA
[Ensino-aprendizagem de língua estrangeira/segunda língua]
Bilinguismo, neurodiversidade e percepção metacognitiva: um estudo com adultos brasileiros
Nas últimas décadas, expandiram-se os estudos sobre bilinguismo visando à melhor compreensão dos processos cognitivos relacionados à aprendizagem de línguas adicionais; no entanto, poucos são os estudos com adultos bilíngues (Aguiar e Silva, 2023), principalmente no contexto brasileiro. Nesse cenário, este trabalho tem como objetivo geral investigar a percepção metacognitiva de adultos bilíngues brasileiros acerca do uso de todas as línguas que conhecem. Especificamente, compara-se a percepção de dificuldade vivenciada por pessoas de perfil cognitivo neurodivergente e neurotípico. Conforme Caldwell-Harris (2025), pessoas com autismo relatam que as habilidades de escuta e fala são percebidas como fraquezas no seu processo de aprendizagem. Logo, coloca-se à prova a hipótese de que os participantes neurodivergentes relatam maior dificuldade em habilidades on-line, como fala e escuta, devido ao seu caráter imediato e interacional, em comparação aos participantes neurotípicos. Para tanto, adota-se como metodologia a análise quantitativa das autoavaliações presentes em um questionário virtual, respondido por 370 adultos brasileiros bilíngues, com escolaridade mínima de ensino médio completo. Dentre os respondentes, 46 informaram ter laudo médico ou psicológico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), 35 relataram ter laudo de Transtorno do Déficit de Atenção e/ou Hiperatividade (TDAH) e 234 declararam nunca ter tido suspeita de neurodivergência, sendo considerados, portanto, neurotípicos. Desse modo, analisam-se, quantitativamente, as respostas referentes à questão: “Você percebe ter alguma dificuldade específica com um dos conhecimentos a seguir em TODAS as línguas que conhece?”. Foram apresentadas como opções de resposta: (a) fala, (b) leitura, (c) escuta, (d) escrita, (e) gramática e (f) não possuo nenhuma dificuldade linguística específica, permitindo a seleção de múltiplas alternativas. Assim, este trabalho busca contribuir para as discussões acerca da percepção metacognitiva de sujeitos bilíngues neurodivergentes, ampliando o debate sobre o processo de aprendizagem de línguas adicionais na perspectiva da neurodiversidade. Referências: CALDWELL-HARRIS, Catherine et al. Autistic adults discuss their experience of additional language learning: an exploration of the ‘different strategies’ hypothesis. International Journal of Bilingual Education and Bilingualism, v. 28, n. 7, p. 1888-1903, ago. 2025. DOI: https://doi.org/10.1080/13670050.2025.2547278. Acesso em: 15 maio 2026. LESSA, Adriana.; AGUIAR E SILVA, Gabriel. Neurodivergência e Bilinguismo: Uma Revisão Sistemática da Literatura. In: X RAIC - Reunião Anual de Iniciação Científica, Seropédica: UFRRJ, 2023.
Palavras-chave: Bilinguismo; Neurodiversidade; Percepção Metacognitiva
ISABELLA MARTINS BELCHIOR
[Linguística Computacional]
Anotando a Fórmula 1 no Roda Viva
O presente trabalho é uma contribuição à aplicabilidade de métodos de Reconhecimento de Entidades Nomeadas (NER) em transcrições de entrevistas do programa televisivo Roda Viva, com foco em pilotos brasileiros de Fórmula 1. A pesquisa parte da necessidade de adaptar técnicas de processamento de linguagem natural a um corpus de gênero híbrido, situado entre a oralidade e a escrita, caracterizado por estrutura dialógica, interrupções, trocas rápidas de turno e marcas de espontaneidade discursiva típicas do formato televisivo. A metodologia consistiu na construção e preparação de um subcorpus específico, iniciado pela transcrição manual de entrevistas previamente indisponíveis no acervo textual do projeto. Posteriormente, procedeu-se à anotação manual das entidades nomeadas, realizada em colaboração com outros linguistas. Essa etapa estabeleceu um padrão de referência para avaliação de modelos automáticos de NER, com ênfase na identificação de pessoas pertencentes às redes sociais e profissionais da Fórmula 1, como engenheiros, jornalistas, patrocinadores, dirigentes e demais pilotos. Um aspecto central do procedimento foi o tratamento da variabilidade nas formas de nomeação, fenômeno recorrente no discurso oral em que um mesmo indivíduo é referido por múltiplas denominações. A anotação exigiu critérios interpretativos rigorosos para garantir a resolução correta de entidades, conforme observado nas distintas referências a Ayrton Senna. Os resultados evidenciam que o domínio da Fórmula 1 gera redes densas de conexões históricas e simbólicas, passíveis de mapeamento por meio da extração de entidades. A variabilidade nominal constitui um desafio técnico relevante e um indicador das dinâmicas discursivas do gênero. O corpus anotado demonstrou viabilidade como base para validação de algoritmos em contextos de fala espontânea televisiva, reforçando a importância de abordagens que integrem a precisão manual à escalabilidade computacional. Essa abordagem permitiu quantificar a eficácia dos modelos testados, demonstrando que a integração de conhecimentos prévios sobre o contexto esportivo melhora significativamente a precisão do reconhecimento. Ademais, a sistematização do corpus facilitou a identificação de padrões referenciais recorrentes, fundamentais para o treinamento de sistemas de extração de informação em português brasileiro. A pesquisa confirma a relevância da Linguística Computacional para a análise de memórias esportivas e relações profissionais em arquivos de mídia oral, validando estratégias de anotação para domínios específicos.
Palavras-chave: Reconhecimento de entidades; corpus televiso; linguistíca computacional
JEFERSON DOS SANTOS DA SILVA
[Semântica]
Ambiguidade léxico-semântica no ensino médio: entre o livro didático e os textos multissemióticos
Este estudo analisa a abordagem da ambiguidade no livro didático de Língua Portuguesa Moderna Plus: Português: Contexto, Interlocução e Sentido, de Abaurre et al. (2024), utilizado no 3º ano do Ensino Médio da rede pública de Estreito, Maranhão. Como objetivos específicos, busca-se identificar como o livro didático apresenta a ambiguidade, verificar o tratamento conferido às dimensões lexical e estrutural do fenômeno, analisar os limites e as potencialidades das atividades propostas e discutir a pertinência de textos multissemióticos como recurso complementar para o ensino desse conteúdo; e propor uma prática pedagógica voltada ao ensino da ambiguidade, considerando suas dimensões lexical e estrutural e seus efeitos na construção de sentidos. A pesquisa tem como corpus o livro didático mencionado, a partir da seleção e análise de atividades e conteúdos relacionados à ambiguidade. Complementarmente, são considerados memes, tirinhas, charges e trechos de gêneros textuais diversos, selecionados com base em critérios de circulação, atualidade e acessibilidade ao público adolescente. A pesquisa foi desenvolvida com base em procedimentos bibliográficos e documentais. A abordagem metodológica é de natureza qualitativa, de caráter descritivo, fundamentada em estudos da semântica lexical, bem como nas orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que norteia o trabalho com os aspectos léxico-semânticos no Ensino Médio. O embasamento teórico tem como principais expoentes: Abrahão (2018), Oliveira (2017), Ferrarezi Jr. (2008, 2014), Cançado (2008), Ullmann (1964), dentre outros. A análise evidenciou que o livro didático contempla o fenômeno da ambiguidade, especialmente em sua dimensão lexical e estrutural, porém de forma ainda limitada no que se refere à exploração de contextos mais dinâmicos e próximos da realidade dos estudantes. Como proposta pedagógica, desenvolveu-se o uso da plataforma Kahoot como ferramenta lúdica para trabalhar os conteúdos, incorporando memes e textos multissemióticos em atividades interativas que estimulam a participação e o raciocínio dos alunos. Os resultados indicam que a articulação entre o livro didático e textos multissemióticos pode contribuir para uma abordagem mais significativa do conteúdo, ampliando as possibilidades de interpretação e análise linguística. Conclui-se que o trabalho com a ambiguidade, quando articulado a textos multissemióticos e a práticas de análise linguística, pode favorecer a compreensão dos mecanismos de produção de múltiplos sentidos no Ensino Médio.
Palavras-chave: Semântica lexical; Livro didático; Ambiguidade
JENNIFER PATROCÍNIO DOS SANTOS
[Linguagem e novas tecnologias]
Adaptação como tradução cultural: análise de representações e reconfigurações simbólicas nas adaptações de “Avatar: A Lenda de Aang”
O presente trabalho, situado na área da Linguística Aplicada e dos Estudos de Tradução e Adaptação, propõe-se a analisar as transformações narrativas, simbólicas e culturais presentes nas adaptações de “Avatar: A Lenda de Aang” (2005–2008), com ênfase no filme “O Último Mestre do Ar” (2010) e na série live-action “Avatar: O Último Mestre do Ar” (2024), produzida pela Netflix. A animação estadunidense, amplamente reconhecida pelos fãs por sua complexidade temática e estética, retrata a história de Aang, um garoto de 12 anos que se vê diante do dever de aprender a dominar os quatro elementos da natureza (água, terra, fogo e ar) e pôr fim a uma guerra mundial com mais de 100 anos de duração. Embora inicialmente voltada ao público infantojuvenil, a obra alcançou recepção ampliada, sendo valorizada por diferentes faixas etárias em razão de suas múltiplas possibilidades de interpretação e identificação afetiva. Em decorrência da recepção positiva da série animada, foram produzidas adaptações (que vão desde histórias em quadrinhos a filme e série live-actions) que buscaram expandir o universo ficcional de A Lenda de Aang e/ou reinterpretar a história contada. Entretanto, essas interpretações suscitaram debates sobre apagamento étnico e sobre a abordagem de determinados temas presentes na adaptação: no primeiro caso, observa-se no filme de 2010 o embranquecimento de diversos personagens canonicamente não-brancos, resultando no apagamento de diversos elementos culturais do Leste e Sudeste asiáticos importantes para a narrativa original; já no segundo, são perceptíveis discrepâncias acerca da abordagem do genocídio e da brutalidade da guerra promovidos pela Nação do Fogo ao longo da obra, sendo eufemizados em algumas interpretações e amplamente debatidos em outras. Considerando esses pontos, tal análise é fundamentada à luz das teorias de Hutcheon (2006), Sanders (2006), Stam (2006), Sousa e Amorim (2016) e Hattnher (2023), a partir de uma perspectiva interpretativista e da metodologia de cotejo entre as obras selecionadas. Objetiva-se analisar em que medida as adaptações se apropriam das múltiplas referências culturais trazidas pela animação e as reconfiguram de acordo com a demanda do contexto social em que foram produzidas, do público-alvo, do momento histórico e do meio de distribuição e reprodução, perpassando negociações complexas que impactam diretamente a construção de sentido e as formas de representação em circulação. Espera-se que este estudo contribua para o aprofundamento das discussões no campo dos estudos de adaptação e tradução intersemiótica, evidenciando como processos adaptativos operam como formas de interpretação e reconfiguração cultural.
Palavras-chave: Adaptação; Avatar: A Lenda de Aang; Representação cultural
JORGE LUIZ MENEZES ADAS
[Literatura Brasileira]
A estética do grotesco e a condição humana na Trilogia do Fim, de Ana Paula Maia
Classificada como hegemônica, a literatura brasileira encontra-se em um momento de emergência de vozes não-brancas na autoria de narrativas. Ana Paula Maia, uma entre essas vozes, iniciou sua carreira em 2003 com a publicação de O habitante das almas subterrâneas, e, em 2018 e 2019, foi vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura; em 2026, foi finalista do International Booker Prize, o principal prêmio de literatura traduzida no mundo, com Assim na terra como embaixo da terra (2017). Sua obra é conhecida por construir narrativas localizadas onde impera o abandono moral, estatal e religioso, conceber personagens à margem da sociedade, utilizar, como elemento de construção da crítica, a estética do grotesco, e usufruir da poética da brutalidade, sendo ela caracterizada pelo uso de linguagem direta e visceral, da animalização e desumanização e da violência banalizada. Iniciada em 2018 com a publicação de Enterre seus mortos e finalizada em 2024 com a publicação de Búfalos selvagens, a “Trilogia do Fim” dá continuidade ao seu projeto literário, compondo um universo marcado por rotinas de morte, violência e abandono. No primeiro livro, Edgar Wilson e Tomás, dois removedores de animais mortos, decidem ir contra as regras do seu trabalho e ficam responsáveis para levar dois humanos assassinados para o IML. No segundo livro, Bronco Gil, uma nova personagem, surge, e os trio de anti-heróis percorrem pelas estradas de um cenário de colapso geral. Por fim, o terceiro livro situa-se em um momento pós-catástrofe, em um mundo não destruído, mas alterado, no qual os sobreviventes habitam em suas ruínas; o trio, então, decide buscar por uma normalidade e retornam ao ofício da morte, desta vez em um matadouro de búfalos. Deste modo, o presente trabalho possui como principal objetivo analisar, a partir de uma leitura imanente das obras e a partir de uma metodologia qualitativa e interpretativa, como a estética do grotesco, teorizada por Bakhtin (2025), Kayser (2013) e Hugo (2014), é aplicada nas obras Enterre seus mortos (2018), De cada quinhentos uma alma (2021) e Búfalos selvagens (2024), para representar a condição humana em contextos de precariedade e de abandono social. (Apoio: FAPESP - Processo 2025/13570-7)
Palavras-chave: Ana Paula Maia; Trilogia do Fim; Estética do Grotesco
JOÃO MARCOS IGNACIO
[Linguística Histórica]
A INTERAÇÃO MORFOFONOLÓGICA NA SUFIXAÇÃO DIMINUTIVA “- INHO/-INHA” NO PORTUGUÊS ARCAICO.
O presente trabalho investiga a interação morfofonológica na sufixação diminutiva -inho/-inha nas Cantigas de Santa Maria, tendo como foco o Português Arcaico. A pesquisa busca analisar a produtividade do sufixo e os padrões estruturais envolvidos na formação dessas ocorrências no corpus medieval. Para isso, serão realizados o levantamento e a catalogação das formas diminutivas presentes nas cantigas, considerando aspectos como a forma-base, a categoria gramatical, o contexto de ocorrência e possíveis condicionamentos fonológicos. A análise pretende identificar processos morfofonológicos recorrentes, como adaptações segmentais e alterações estruturais decorrentes da adjunção do sufixo diminutivo. Além disso, serão observadas possíveis regularidades relacionadas à distribuição dessas formas ao longo do corpus, considerando a frequência de uso e os contextos linguísticos em que os diminutivos aparecem. Busca-se também compreender se determinados padrões fonológicos favorecem a ocorrência do sufixo em estruturas específicas, bem como verificar possíveis relações entre os processos morfológicos e as características fonéticas das palavras analisadas. Fundamentado em estudos sobre fonologia histórica e formação de palavras no Português Arcaico, o trabalho também dialoga com pesquisas anteriores acerca do estatuto prosódico de aumentativos e diminutivos. O projeto parte da compreensão de que os diminutivos constituem um campo relevante para os estudos morfofonológicos, especialmente em perspectivas históricas, uma vez que permitem observar processos de mudança e conservação linguísticas ao longo do tempo. Nesse sentido, as Cantigas de Santa Maria apresentam-se como um corpus significativo para a análise de fenômenos relacionados à estrutura e ao funcionamento do português medieval. Por fim, a pesquisa também considera a relevância dos estudos diacrônicos para a compreensão dos mecanismos de formação de palavras e de mudança linguística presentes na história do português. Espera-se, assim, contribuir para a compreensão das relações entre morfologia e fonologia no português arcaico, além de ampliar os estudos linguísticos sobre as Cantigas de Santa Maria enquanto corpus relevante para investigações históricas da língua portuguesa.
Palavras-chave: Linguística Histórica; Mofofonologia; Diminutivos
JOÃO VITOR ABREU MONTEIRO
[Linguística de Córpus]
Usos da construção [se pá] no português do Brasil: uma análise segundo a LFCU
Este trabalho insere-se na linha da Linguística Funcional Centrada no Uso (Cezario; Furtado da Cunha, 2013 e Rosário; Oliveira, 2016) e tem como objetivo apresentar uma análise da construção [se pá] no português brasileiro contemporâneo, com base em dados extraídos do Corpus do Português, aba Web. Selecionamos e analisamos 81 ocorrências da construção [se pá], a partir de fatores linguísticos e o aspecto semântico-pragmático, considerando seu funcionamento em diferentes contextos de uso. A partir da análise realizada, observamos que [se pá] aparece frequentemente em contextos marcados por incerteza ou avaliação subjetiva, funcionando como marcador de modalidade epistêmica. A construção expressa a modalidade epistêmica de possibilidade fraca, ou seja, o falante indica que há uma chance de algo ocorrer, mas não há evidência clara ou forte. Sua função principal está relacionada à atenuação da assertividade do falante e à marcação de uma posição não categórica diante da informação veiculada, especialmente em construções do tipo [se pá X], nas quais o item atua sobre toda a proposição. Os dois exemplos a seguir representam ocorrências com a construção [Se pá], usos não previstos pela gramática tradicional: (1) Toda vez que chego em um grupo daqueles de divulgação, vou procurando algo interessante pra ler e, se pá encontro um link bom, é raríssimo. (Corpus do português, 2013); (2) O que falta pra esse pessoal não é educação básica, é educação política. Isso até pessoa com doutorado, se pá, não tem. Não é questão de educação formal. (Corpus do português, 2013). A construção tem links semânticos e/ou formais como outras construções do português como [vai que] e [e se] (Ely; Cezario, 2023), com as quais compartilha traços de incerteza, hipótese e projeção de cenários possíveis. Essa análise reforça a importância dos modelos baseados no uso para a descrição e explicação de fenômenos linguísticos emergentes na língua em uso.
Palavras-chave: Variação Linguística; Gramática do Uso; Modalidade Epistêmica
JOÃO VITOR ALBERTI RECH
[Políticas Linguísticas]
Entre o compromisso e a separação: Uma análise crítica do conflito linguístico neerlandês-francês na Bélgica
A Bélgica é frequentemente citada como um modelo paradoxal de gestão de conflitos linguísticos por ser um país que evitou a violência armada, mas se fragmentou institucionalmente ao longo da fronteira entre o neerlandês e o francês. Este trabalho busca analisar criticamente os documentos fornecidos e a literatura acadêmica clássica para argumentar que a "solução belga", a qual se baseia no princípio da territorialidade e na criação de comunidades monolíngues, não resolveu o conflito, mas sim o institucionalizou. A análise identifica uma mudança ideológica fundamental: de uma fase inicial jacobina (1830-1963), que buscava direitos iguais para o neerlandês no espaço público, para uma fase herderiana (pós-1963), que passou a exigir pureza territorial e monolinguismo em cada região. O lema "In Vlaanderen Vlaams!" substituiu a luta por igualdade por uma demanda por separação. A crítica central revela a negação sistemática do bilinguismo cotidiano. Enquanto os flamengos aprendem francês, os valões não são obrigados a aprender neerlandês na mesma medida. Mais grave é a contradição em relação ao inglês, pois a mesma elite flamenga que exige que imigrantes pobres aprendam neerlandês para alcançar a habitação social promove ativamente o inglês nas universidades e nos negócios. O inglês tornou-se a nova "língua alta" num sistema diglóssico, enquanto o neerlandês permanece a "língua baixa" para os mais vulneráveis. As feridas abertas do compromisso belga persistem pelos municípios com "facilidades linguísticas" na periferia de Bruxelas, onde francófonos têm direitos interpretados de forma oposta por cada comunidade; pelo distrito eleitoral de Bruxelas-Halle-Vilvoorde, cuja divisão em 2012 exemplificou o triunfo da lógica territorial sobre a realidade demográfica; e com a recusa da Bélgica em ratificar a Convenção-Quadro para a Proteção das Minorias Nacionais, revelando a incapacidade do sistema de reconhecer a diversidade dentro das suas próprias fronteiras. Portanto, argumenta-se que o modelo territorial monolíngue é estruturalmente cego à super diversidade trazida pela imigração global e à ascensão do inglês como língua franca. O caso belga ilustra os limites da engenharia política baseada no nacionalismo étnico-linguístico quando confrontada com as forças da globalização, oferecendo uma lição ambivalente para outros contextos multilíngues.
Palavras-chave: Bélgica; conflito linguístico; territorialidade
JÚLIA COMITRE LEME
[Fonética e Fonologia]
Produção das vogais anteriores abertas do inglês /æ/ e /?/ por duas falantes brasileiras (aprendizado formal e autônomo) e uma norte-americana
Este trabalho analisa comparativamente a produção das vogais anteriores breves /æ/ e /?/ por duas brasileiras (L2; aprendizado formal vs. autônomo) e uma nativa americana (L1). O objetivo é investigar como diferentes experiências de aquisição da língua influenciam os valores de F1, F2 e duração dessas vogais, observando a influência da L1 na produção da L2. Articulatoriamente, /æ/ e /?/ são fonemas próximos e breves; a distinção principal reside na maior abertura de boca e posição levemente mais posterior da língua em /æ/ (Cristófaro-Silva, 2015). Essa proximidade costuma gerar dificuldades de diferenciação para brasileiros. A análise fundamenta-se no PAM-L2 (Best e Tyler, 2007) e no SLM-r (Flege, 2004), que discutem a assimilação perceptiva e a criação de novas categorias fonéticas com base na distância percebida entre os sistemas de L1 e L2. O corpus consistiu em pares mínimos do inglês que apresentassem as vogais /æ/ e /?/ em posição tônica (bad/bed, had/head, sad/said) inseridos na frase-veículo "Say ____ shortly", combinados a palavras distratoras. Os dados foram processados no software Praat, utilizando a técnica LPC para extração de formantes e normalização (Barbosa e Madureira, 2015). Foram comparados os valores de F1, F2 e duração total das vogais. Como resultados, houve maior grau de sucesso em alcançar os valores de referência de /?/, o que já era esperado devido à presença deste fonema no português brasileiro. Já para o fonema /æ/ — que não faz parte do português —, para F1, há uma grande distância dos valores de ambas as falantes de L2 em relação aos valores-modelo da falante de L1, enquanto que, para F2, os valores das três falantes são bastante próximos. A duração da vogal /æ/ da falante de L2 em ensino formal é, em média, menor que a da aprendiz autônoma, embora ambas não tenham alcançado a duração da falante de L1. Esse estudo contribui para a observação dos impactos do contexto de ensino-aprendizagem na pronúncia de falantes de língua inglesa como L2, assim abrindo caminho para a reflexão a respeito das possibilidades de ensino que permitam que falantes de inglês como L2 diferenciem fonemas em termos de percepção e produção.
Palavras-chave: vogais de inglês como L2; fonemas /æ/ e /?/ do inglês; aquisição de L2 (SLA)
KAIO DE PAULA SANTOS
[Sintaxe]
Construções vocativas do português brasileiro: descrição e análise sob a ótica cognitivo-funcional
Este projeto tem como objetivo principal descrever e analisar os vocativos aproximativos, afetivos e depreciativos do português brasileiro a partir da perspectiva teórica da Gramática de Construções, dentro da abordagem Cognitivo-Construcional. A proposta é investigar como esses elementos linguísticos são usados em contextos reais de comunicação, considerando suas funções pragmáticas, sua estrutura formal e seu papel na construção de relações interpessoais. Apesar de sua relevância na interação verbal, os vocativos ainda são pouco explorados nas pesquisas linguísticas em português brasileiro, especialmente sob uma perspectiva teórica que integre forma, função e uso. Trabalhos recentes em outras línguas, como o estudo de De Latte (2024) sobre o espanhol madrilenho, mostram que os vocativos podem ser tratados como construções, ou seja, unidades simbólicas que pareiam forma e significado com base no uso repetido em contextos comunicativos. No Brasil, embora haja avanços — como os estudos de Turci (2019) e Moreira (2013) —, ainda há lacunas quanto à análise desses vocativos sob uma visão cognitivo-construcional. A coleta de dados será realizada por meio do Corpus do Português (www.corpusdoportugues.org ), especificamente na seção Now (News on the Web), que reúne textos informais escritos em português brasileiro. Serão utilizadas expressões regulares para identificar vocativos acompanhados de sinais de pontuação típicos (como vírgulas), com base em listas de palavras aproximativas, afetivas e depreciativas. Os dados serão analisados qualitativa e quantitativamente, com foco na classificação semântico pragmática dos vocativos; posição sintática na oração (inicial, medial, final); funções discursivas e indexicais; relação entre forma e intenção comunicativa do falante e, qualitativamente, a comparação com o espanhol madrilenho, conforme o trabalho de De Latte (2024). Ao assumir uma perspectiva teórica inovadora no contexto brasileiro, o projeto busca ampliar a descrição linguística dos vocativos, integrando-os à gramática funcional da língua. Além disso, pretende-se destacar o papel crucial desses elementos na construção de identidades sociais, relações interpessoais e estratégias de polidez e ironia. (Apoio: FAPESP - Processo 2025/22092-1)
Palavras-chave: Vocativos; Gramática de Construções; Sintaxe Funcional
KAYKY NASCIMENTO DOS SANTOS
[Análise do Discurso]
A tradução como processo interpretativo: debates acerca da subjetividade ideológica em Yellowface e Impostora de R.F. Kuang
Este estudo apresenta um recorte parcial da pesquisa de Iniciação Científica em desenvolvimento no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, campus Cubatão. A pesquisa utiliza-se da Análise de Discurso Francesa (Michel Pêcheux, Dominique Maingueneau e Eni Orlandi) como abordagem teórico-metodológica, em diálogo com os Estudos da Tradução (Lawrence Venuti, Rosemary Arrojo, Edwin Gentzler e Francis Henrik Aubert) para investigar o processo de tradução entre Yellowface (2023), em Inglês estadunidense, e Impostora (2024), em português brasileiro. O romance da autora sino-americana R.F. Kuang, mobiliza termos e expressões pejorativas em relação à comunidade chinesa dos Estados Unidos, a fim de instaurar uma atmosfera que dialogue com os eixos centrais da obra: o racismo editorial e a apropriação cultural. Desse modo, observamos que as escolhas lexicais estabelecidas ao decorrer do romance são empregadas com o propósito de mobilizar uma memória discursiva-histórica para consolidação do eixo narrativo, compreendendo que toda obra é produzida num determinado contexto que possibilita o uso de termos específicos. Nesse caso, Yellowface (2023) traz à tona a conjuntura geopolítica e histórica instável entre os EUA e a forte comunidade chinesa ao oeste do país. Tendo em vista que o sentido de uma obra é determinado numa relação construtiva entre autor-leitor, a tradução de Impostora (2024) realiza uma assimilação cultural ao contexto brasileiro, pressupondo a adaptação tradutória como ferramenta de mobilização de comunidades discursivas (Maingueneau, 2008). Por conseguinte, o ato tradutório é concebido como processo constante de interpretação (Arrojo, 2007; Venuti, 2019), portanto, o tradutor não apenas traduz linguisticamente uma determinada obra, mas a adapta para uma ótica e para um meio, seguindo parâmetros pessoais e subjetivos. Dessa maneira, compreendendo que todo processo interpretativo mobiliza uma determinada ideologia (Orlandi, 2015), equiparamos o processo tradutório a essa lógica ao analisarmos em como, através da linguagem, o sujeito tradutor materializa a ideologia e faz operar a memória discursiva, evidenciando a não neutralidade da linguagem.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Tradução; Yellowface
LARISSA HERCULES NAVARRO
[Linguística Textual]
As Variantes do Português Dentro da Escrita
O trabalho apresentado caracteriza-se por ser a exposição de um diário de escrita que, por sua vez, demonstra como abordar as diferentes linguagens e variantes do português, de diferentes locais e países que trazem esta língua como sua língua oficial no texto literário. Tal diário tem como enfoque os dialetos de jovens de 19 a 29 anos, no final dos anos noventa e início dos anos dois mil e traz os locais e países. A exposição trará personagens presentes em um livro em andamento como representante de cada variante trabalhada no diário. Os personagens e, por conseguinte, os locais a qual pertencem são; no Brasil. Melina, interior de São Paulo. Cecília: Capital do Paraná. Ariane: Capital do Piauí. Therese: Interior de Minas Gerais. Raíssa: Capital do Rio de Janeiro. Em outros países: Anelise: Moçambique. Marcelo: Cabo Verde. Leonardo: Portugal. Breno: Angola. E, por fim, locais que falam portugues em outros países: Matheus: Macau na China e Samantha: Goa na Índia. O que será exposto é definido por um banner que traga os personagens e suas variantes e o diário que estou a construir para minha pesquisa. Este diário está sendo construído com materiais de apoio como: textos sobre prosódia, aquisição da linguagem e fonologia; além do assistir de filmes e séries diversas que estejam presentes nesses locais, período de tempo e realidade de idade. Ao concluir, relato que este trabalho, o do diário, está sendo utilizado para constituir em um livro, que, por sua vez, está trazendo o diálogo de personagens a depender do personagem que está narrando. Desta forma, quando um personagem do interior de São Paulo observa o dialeto de um amigo português, soa diferente do que para quando uma personagem moçambicana o escuta. E esta é a relevância deste trabalho: o entender cultural, social e dialético linguístico que perpassa ao dialogarmos com pessoas de diferentes variantes que a presente em nosso dia a dia.
Palavras-chave: Variantes Português; escrita; literatura e linguística
LAURA PINHEIRO PALLAMIN
[Aquisição de Linguagem]
Os modos de funcionamento da linguagem de um indivíduo com o transtorno de neurodesenvolvimento relacionado ao gene TRPM3
O Transtorno do Neurodesenvolvimento Relacionado ao TRPM3 (TRPM3-NDD), descrito na ciência apenas em 2019 (Dyment et al.) e expandido fenotipicamente em 2020 (Sainte Agathe et al.), é uma síndrome rara, com cerca de 50 casos descritos no mundo. Entre as características principais estão a hipotonia, epilepsia e deficiência intelectual (DI), mas seus perfis linguísticos permanecem pouco explorados pela Linguística e, em especial, pela Aquisição da Linguagem. Desse modo, este trabalho em desenvolvimento visa investigar os aspectos linguístico-discursivos (tais como humor, multimodalidade e gêneros discursivos) da linguagem de um indivíduo diagnosticado com mutação no gene TRPM3 sob uma perspectiva dialógico-discursiva (BAKHTIN, 2016; BRUNER, 1983; DEL RÉ et al. 2006, 2014a, 2014b, 2016, 2021; VOLÓCHINOV, 2018; VYGOTSKY, 2005) e multimodal (CAVALCANTE, 2010, 2018). De acordo com a TRPM3 Foundation (2023) e a maior parte dos relatos encontrados sobre a síndrome, descreve-se inefetividade na comunicação por parte desses sujeitos. Os poucos trabalhos encontrados no Brasil e no exterior partem de uma visão da medicina, que focaliza os prejuízos e os impactos do transtorno, sendo nosso enfoque voltado para a singularidades, o desenvolvimento e as potencialidades linguísticas adquiridas, tranformadas e consolidadas desse indivíduo a partir do uso da língua materna. Considerando que o sujeito em questão nesta pesquisa, aparentemente, não apresenta dificuldades em sua comunicação, o objetivo principal aqui é investigar o modo de funcionamento da linguagem de F. entre 20 e 21 anos; i.e., quais são as estratégias linguístico-discursivas utilizadas por esse indivíduo em dois ambientes, um familiar e outro escolar. Metodologicamente, trata-se de um estudo de caso qualitativo e longitudinal, cujo corpus será composto por gravações em vídeo de interações familiares, analisadas em contexto natural. Esse corpus é composto por 10 episódios, da faixa etária de 20 a 21 anos de um homem brasileiro e monolíngue, e está sendo transcrito na ferramenta CLAN, segundo as normas CHAT, disponível gratuitamente na plataforma CHILDES (MACWHINNEY, 2000). Observações preliminares desse sujeito parecem indicar o uso do humor como estratégia linguístico-discursiva, a ausência de vocabulários ofensivos ou agressivos, o silêncio como marcador argumentativo e a multimodalidade gestual para contribuir na atenção conjunta com seus interlocutores. Espera-se com este trabalho contribuir para as discussões que envolvem o impacto dessa condição na linguagem e na comunicação, oferecendo o ponto de vista de estudos Linguísticos e fornecendo subsídios para ampliar o conhecimento sobre a linguagem nesse transtorno muito recente na literatura científica.
Palavras-chave: Síndrome TRPM3; Linguagem; Perspectiva dialógico-d
LAVÍNEA GOMES CAMPOS
[Semiótica]
Carta XXI “Cídipe a Acôncio”: estudo argumentativo das Heroides de Ovídio.
O estudo toma por base a teoria Semiótica Discursiva de A. J. Greimas, para analisar a estrutura argumentativa da carta XXI “Cídipe a Acôncio”, pertencente à obra Heroides, do poeta latino Ovídio (séc. I AEC), observando a maneira que as paixões de mágoa e resignação se manifestam no discurso. As Heroides constituem um conjunto de vinte e uma cartas ficcionais protagonizadas por personagens da mitologia greco-romana: quinze delas são simples, com a heroína dirigindo-se ao seu amado, enquanto as seis restantes são duplas, apresentando a escrita do herói a sua amada, que lhe responde. Dessa forma, a carta XXI corresponde à resposta da carta anterior – carta XX “Acôncio a Cídipe” –, e apresenta a heroína Cídipe como narradora-personagem. Ambas as cartas situam-se após os acontecimentos em Delos, quando Acôncio, através de uma artimanha, faz com que Cídipe se comprometa com ele, levando-a a prometer-se em casamento. Assim, na carta XXI, em resposta a Acôncio, Cídipe busca argumentar em favor da invalidação do juramento realizado, uma vez que não deseja se casar com o rapaz e sofre as consequências dessa promessa, adoecendo sempre que tenta unir-se em matrimônio com outros pretendentes. A narradora procura convencer seu narratário de que a promessa é inválida e de que ele próprio já não deseja mais o cumprimento do juramento, afinal, a jovem já não é a mesma de antes. No entanto, ao final da carta, Cídipe encontra-se vencida e parece aceitar que não lhe resta outra opção senão casar-se com Acôncio. A partir disso, entende-se que a teoria semiótica possibilita compreender as figuras retóricas como procedimentos discursivos empregados na criação de efeitos de sentido que, em última instância, visam à persuasão do enunciado. Dessa maneira, a aplicação da teoria ao texto latino permite explorar os procedimentos discursivos presentes na carta e aprofundar a análise de sua construção argumentativa. A presente apresentação procurará demonstrar os resultados dessa análise. (Apoio: PIBIC Reitoria - Processo 22075)
Palavras-chave: Semiótica Discursiva; Argumentação; Ovídio
LEONARDO HENRIQUE MADÓGLIO
[Linguística Aplicada]
Suleando materiais didáticos digitais: da curadoria crítica à proposta de sequência didática decolonial de francês
A curadoria digital de materiais educacionais tem se consolidado como uma prática pedagógica central no ensino de línguas adicionais, impulsionada pela ampla circulação de Recursos Educacionais Digitais (REDs) (Deschaine; Sharma, 2015) e pela consequente urgência de se estabelecerem critérios críticos para sua seleção, avaliação e organização (Araújo, 2019). Este trabalho apresenta os desdobramentos de uma pesquisa de Iniciação Científica desenvolvida entre 2024 e 2025 no Centro de Línguas e Desenvolvimento de Professores (CLDP/UNESP). Os resultados da etapa inicial, focada no mapeamento de cursos online de francês, indicaram que práticas de curadoria pouco sistematizadas tendem a reproduzir concepções normativistas, monoglóssicas e eurocentradas de língua, negligenciando a pluralidade cultural e identitária do ecossistema francófono. Diante desse diagnóstico, a pesquisa estabelece como objetivo geral investigar e desenvolver uma sequência didática online de língua francesa, de nível iniciante (A1), orientada pedagogicamente pelos princípios da curadoria digital crítica, da translinguagem e da decolonialidade, sob uma perspectiva suleada (Landulfo; Matos, 2022) da educação linguística. No que tange ao quadro teórico-metodológico, o estudo assume uma natureza qualitativa e um caráter essencialmente bibliográfico e documental. Os procedimentos metodológicos estruturam-se em três etapas interconectadas: primeiro, a análise crítica de REDs pré-existentes; segundo, a curadoria reflexiva de novos materiais digitais alinhados ao Sul Global; e, terceiro, a elaboração de uma sequência didática piloto organizada em três unidades pedagógicas. Como diferencial metodológico e estético, a proposta adota como eixo literário e discursivo as obras da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga e do escritor franco-ruandês Gaël Faye. Essa escolha possibilita articular de forma orgânica os aspectos fonéticos, lexicais e gramaticais do nível iniciante a reflexões profundas sobre pertencimento, memória histórica e processos de existência. Em termos de resultados esperados, a pesquisa visa oferecer uma contribuição teórico-metodológica tangível para o campo da Linguística Aplicada, demonstrando a viabilidade de um ensino de francês descentralizado e decolonial, além de consolidar a formação inicial do bolsista no âmbito da investigação científica crítica. (Apoio: FAPESP - Processo 2026/00496-6)
Palavras-chave: Curadoria digital crítica; Decolonialidade; Ensino de francês
LETÍCIA HARDMAN BARBETTA PAULINO
[Morfologia]
ESTUDO ETIMOLÓGICO DE IDEOGRAMA CHINESES A PARTIR DOS RADICAIS
Esta pesquisa teve como objeto de estudo a língua chinesa escrita, mais especificamente no processo de formação etimológica dos ideogramas. Os primeiros registros dessa escrita remontam à Dinastia Shang (c. 1200 a.C.), e, ao longo de sua história, foram criados cerca de 70 mil caracteres, formando o complexo sistema de escrita chinês. Os ideogramas são compostos por elementos que se relacionam de maneiras variadas, dentre os quais se destacam os chamados radicais semânticos, componentes pictográficos que contribuem para a significação dos caracteres. O objetivo deste trabalho foi compreender os processos de formação dos ideogramas a partir da análise desses radicais. Para isso, adotou-se inicialmente uma abordagem teórica baseada na leitura e fichamento de autores centrais no debate sobre a etimologia chinesa, com destaque para John DeFrancis e Ernest Fenollosa. A escolha desses autores se justifica por suas perspectivas divergentes: enquanto DeFrancis enfatiza o papel do elemento fonético (fonogramas) na viabilidade do sistema de escrita, Fenollosa valoriza as relações semânticas e metafóricas internas aos ideogramas. Após a análise comparativa dessas abordagens, realizou-se uma etapa prática, na qual foram selecionados quatro radicais semânticos e dezessete ideogramas derivados. Para cada radical e ideograma, foram consultadas múltiplas fontes (cinco autores e dois websites), buscando reunir diferentes interpretações etimológicas. Durante esse processo, observou-se uma significativa diversidade de explicações para a origem dos caracteres. Por exemplo, o ideograma ? apresentou cinco interpretações distintas, enquanto ? contou com quatro teorias em sete fontes. No total, nove dos dezessete ideogramas analisados apresentaram divergências entre as fontes. Os resultados indicam que, embora o elemento fonético seja fundamental para a funcionalidade da escrita chinesa, como defendido por John DeFrancis, os aspectos semânticos e metafóricos também desempenham um papel relevante e persistente. Além disso, verificou-se que a correspondência fonética pode ser imprecisa, como no caso do componente ?, presente em caracteres com múltiplas pronúncias. Pudemos concluir, portanto, que a origem dos ideogramas chineses é diversa e imprecisa. A língua chinesa escrita é formada de várias maneiras, podendo ser um composto fonético, semântico, um pictograma ou ainda outras formas, todas se unindo para formar a complexidade do dicionário chinês. Todas essas formas possuem particularidades e limitações que precisam ser levadas em consideração ao estudar a etimologia chinesa. Concluímos, então, que DeFrancis e Fenollosa ambos foram autores centrais no pensamento da formação da Língua Chinesa e contribuíram para o entendimento teórico do nosso objeto de estudo.
Palavras-chave: etimologia; linguística; chinês
LILIAN MARIA FERNANDES SOFIATI
[Línguas de Sinais]
Sinais da Libras que nomeiam escolas, shoppings e hospitais de Juiz de Fora: estudo das motivações e dos aspectos de iconicidade
Segundo Souza Junior (2012), os topônimos são unidades lexicais que se constituem baseados nos atributos do local ao qual faz referência. Diante disso, essa pesquisa tem como objetivo desenvolver uma análise das motivações encontradas nos sinais correspondentes a escolas, shoppings e hospitais de Juiz de Fora. De modo mais específico, esse trabalho apresenta as motivações atreladas à criação desses topônimos e discute os aspectos de iconicidade identificados nesses sinais. Para isso, foi utilizado como ponto de partida uma pesquisa anterior, fruto do programa de Iniciação Científica, em que os sinais foram coletados e categorizados. Nesse projeto foi construído um corpus a partir de registros da produção dos sinais utilizados na cidade por quatro surdos sinalizantes da Libras, membros de referência da comunidade surda juiz-forana. Posteriormente, foi identificado no corpus sete tipos de motivação: iconicidade, inicialização, calque (total ou parcial), soletração (total ou parcial) e uma última para outros tipos de motivação encontrados. Com base nos resultados da Iniciação Científica, foi elaborada uma discussão acerca das motivações, utilizado como referência Souza Junior (2012), Albuquerque (2021), Ferreira e Xavier (2021); Araujo, Rodero-Takahira e Xavier (2024). Esse estudo revelou que os topônimos analisados se estruturam a partir de três referenciais: a) empréstimo linguístico; b) associação icônica; e c) caráter histórico. Desses aspectos, foi construído um enfoque na associação icônica, em que foram destacadas as relações visuais estabelecidas entre os sinais e o local ao qual ele faz referência. A iconicidade foi atribuída a sinais que, de forma recorrente, faziam alusão a fachada ou a logo da instituição e, no caso das escolas, alguns sinais também apresentaram locação marcada fazendo referência aos uniformes. Com esse trabalho, espera-se contribuir para a área de pesquisa que se dedica aos estudos dos topônimos na Libras, investigando a partir de quais referenciais eles são criados. Em pesquisa futura, espera-se elaborar um estudo que discuta a morfologia desses sinais atrelando as classificações de motivação às categorias de construção morfológica.
Palavras-chave: Libras; Topônimo; Iconicidade
LUCAS HENRIQUE NAVARRO
[Linguística Histórica]
Entre ênfase e negação: as concessivas escalares com "nem que"
Neste trabalho, investigamos as concessivas escalares construídas com "nem que", perífrase originada do amálgama entre o advérbio "nem" e o transpositor "que". Perseguimos dois objetivos: analisar as construções complexas com "nem que" a partir de uma perspectiva sincrônica, identificando suas características formais, semânticas e pragmáticas; e verificar, de uma perspectiva diacrônica, os aspectos relacionados à emergência desse marcador de concessividade no português brasileiro moderno. Em relação ao primeiro objetivo, partimos da hipótese de que os valores semânticos de ênfase e negação associados ao advérbio "nem" são constitutivos de "nem que", o que ajuda a distinguir esse tipo concessivo das demais construções de concessividade da língua. Quanto ao segundo objetivo, entendemos que a origem da construção "nem que" remete a um dos padrões funcionais do advérbio "nem", sucessor de "nec" do latim, que foi selecionado para o esquema "x+que", muito produtivo na formação de conectores complexos nas línguas românicas, como também é o caso da construção concessiva do espanhol "ni que", analisada por estudiosos como Pedro Gras, Elena Martínez Caro e Laura Alba-Juez. Nessa perspectiva, buscamos descrever as propriedades formais e semântico-pragmáticas que singularizam as concessivas com "nem que" e investigar aspectos históricos de sua formação, sobretudo aqueles relacionados à fonte "nem", que alia ênfase escalar e negação. Como quadro teórico, filiamo-nos aos pressupostos da Linguística Funcionalista, presentes em textos de Maria Helena de Moura Neves, e da Gramaticalização, que, por meio da análise de mecanismos cognitivos e pragmáticos, permitem explicar o modo como construções linguísticas ganham em gramaticalidade, abstração e subjetividade, algo já estudado por pesquisadores como Joan Bybee, Heiko Narrog e Bernd Heine. Quanto aos procedimentos metodológicos, conjugamos as análises qualitativa e quantitativa, aplicadas a uma amostra diacrônica constitutivamente dialógica composta por romances, peças de teatro e roteiros de filmes escritos em português brasileiro moderno, nos séculos XIX, XX e XXI. A escolha foi motivada pelo caráter argumentativo das construções concessivas, que tendem a surgir nesses contextos de uso da língua. (Apoio: FAPESP - Processo 2025/24815-0)
Palavras-chave: Gramaticalização; Concessividade; Escalaridade
LUCY SOUSA PEREIRA
[Psicolinguística]
Decisão Lexical com Vozes Reais e Clonadas por Deepfake
Em 2024, diversos portais noticiaram um caso de deepfake para simular, durante uma videoconferência, voz e rosto do diretor financeiro de uma empresa, permitindo que golpistas desviassem 25 milhões de dólares. Grosso modo, deepfakes são algoritmos que usam informações reais, como vídeos e vozes, e as alteram. Considerando as enormes possibilidades antiéticas de seu uso, compreender a recepção, por humanos, de uma informação clonada e compará-la com a informação real pode se tornar um recurso importante em ações contra golpes em meio digital. Alguns estudos evidenciam que características das vozes afetam o reconhecimento de palavras. Vozes artificiais (sintetizadas) geralmente são reconhecidas com maior dificuldade do que vozes reais (Winters & Pisoni, 2004). Vozes femininas são mais difíceis de sintetizar de forma convincente (Klatt, 1987; Noyes & Frankish, 1989), embora estudos mais recentes contestem parcialmente esses efeitos (Smorenburg & Chen, 2020). O ponto comum entre estes trabalhos é o foco no reconhecimento, por humanos, do uso de IA. A pesquisa aqui proposta se dedica a reproduzir resultados conhecidos de testes de decisão lexical, mais especificamente o efeito de frequência de palavras, de modo a obter dados que identifiquem a diferença no processamento, independente do reconhecimento do uso de IA. Utilizamos 3 corpora (TLD of Brazil.br, Portuguese Web 2023 [ptTenTen23] e WordFreq) e realizamos uma análise de cluster para verificar potenciais diferenças de frequência. O resultado retornou 3 clusters ótimos (silhueta, M = 0,71), resultando em três níveis de frequência: baixa, média e alta. As 16 palavras mais representativas de cada nível foram utilizadas, somado a pseudopalavras (UniPseudo) e não-palavras (Levenshtein, >3). Todos os estímulos possuem duas versões, uma narrada e outra sintetizada após clonagem da voz do narrador via MiniMax Speech 2.8 HD. Duas listas foram criadas com o mesmo número de estímulos reais e clonados para apresentação em um teste de decisão lexical, ou seja, o participante deverá responder se o áudio que escutou corresponde ou não a uma palavra do Português do Brasil. O objetivo do experimento é verificar se o efeito de frequência se replica de forma equivalente nas duas condições de voz e se a origem da voz influencia os TR e a taxa de acertos. Esperamos que o efeito de frequência seja observado em ambas as condições, mas que eventuais diferenças entre elas revelem padrões distintos de processamento de vozes geradas por IA. O experimento se encontra em andamento e uma primeira análise será apresentada no seminário.
Palavras-chave: deepfake; processamento
LÍVIA RODRIGUES DA SILVA
[Lexicologia e Lexicografia]
Italianas ao trabalho: estudo da língua italiana sobre os nomes de profissão no feminino
Assim como outras línguas românicas, o italiano possui flexão de gênero e número em sua gramática. Ainda assim, esse idioma possui lacunas lexicais quando se trata de profissões. Mesmo com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, muitos nomes para designar ocupações não possuem o correspondente no feminino, ou, se presente, tem conotação pejorativa, como avvocatessa (advogada), sendo percebido com um tom pejorativo para avvocato (advogado). Outras profissões também mantêm o masculino como padrão, a exemplo de sindaco (prefeito) e ingegnere (engenheiro) para homem e mulher, ao invés de sindaca e ingegnera com a vogal -a, pois o feminino ainda causa estranhamento. Essas lacunas acabam por promover um apagamento mesmo quando há um grande número de mulheres que exercem um cargo, evidenciando que a luta por igualdade de gênero ainda tem de continuar ativa para conquistar mais espaços. Para este estudo, textos da área da lexicologia como Biderman (1998), Orsi (2023) e Antunes (2012) são base para entender como a língua modela-se em torno de uma sociedade. Outros textos sociolinguísticos, como Gheno (2021) e Robustelli (2014), mostrarão como italianos lidam com este fenômeno, já que ainda é algo discutido e que muda lentamente com o tempo. Ainda como na teoria, gramáticas italianas como Serianni (2003), Patota (2017) e Grossmann (2004) serão a base para formular o padrão do uso real. O objetivo do projeto, portanto, baseia-se na investigação do léxico atribuído aos nomes femininos de profissões e, especificamente, como a representação feminina é impactada de acordo com o uso dos femininos. Para a sua realização, uma pesquisa qualitativa e descritiva será feita. Lexias, no feminino e masculino, serão recolhidas de dicionários on-line como Sabatini Coletti e Treccani e as mesmas lexias dos nomes femininos serão buscadas na web para verificar seus registros e usos. Após cada coleta, uma ficha com as formas femininas será feita, incluindo suas traduções, suas formas no masculino em italiano, um contexto-exemplo de cada forma, suas frequência de uso a partir da contagem do Google Trends e uma reflexão sobre cada item. Espera-se que este trabalho gere reflexões e evidencie que a escolha do uso das palavras, e ademais do não uso dos femininos, provém de um local mais sociocultural do que linguístico (Serianni, 2006), pois a sociedade é o reflexo da língua e de sua realidade.
Palavras-chave: Língua italiana; feminino; nomes de profissão
MABELLE ALVES JACINTO
[Linguística Textual]
SENTIDOS EM DISPUTA: ANÁLISE TEXTUAL-DISCURSIVA DE UM NÚCLEO DE ESTUDOS FEMINISTA À LUZ DAS TENSÕES ENTRE ACADEMIA E MILITÂNCIA
Neste trabalho, apresentaremos os resultados de projeto de iniciação científica (processo 138567/2025-5, vigente), em que analisamos o site do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), da Universidade Federal da Bahia. Nos anos 1980, a consolidação dos Estudos sobre a Mulher, Gênero e Feminismo (EMGF) como linha de pesquisa no Brasil incentivou a criação de vários núcleos como o NEIM. Nesse contexto, houve a substituição da categoria de análise “mulher” por “gênero”, visto como menos ligado ao determinismo biológico e mais adequado a uma abordagem relacional (Machado, 1990; Piscitelli, 2002). Embora essa mudança tenha dado maior legitimidade acadêmica aos EMGF, também gerou críticas do movimento feminista, que via nela um afastamento das lutas políticas de fora da universidade. Ao considerar que tal conjuntura exemplifica as tensões sócio-históricas que marcaram o campo dos EMGF no Brasil, especialmente no que diz respeito à 1) as tensões entre movimento feminista e academia marcadas pela substituição teórica da categoria “mulher” por “gênero” e 2) a disputa do campo por reconhecimento científico, nossa hipótese é a de que a produção textual-discursiva do site corrobora uma projeção social do núcleo ao mesmo tempo comprometida com a praxis feminista e dotada de legitimidade científica. Com base na Linguística Textual e tomando o texto como accional e sócio-histórico (Bentes, 2024), pretendemos analisar como a produção de determinados gêneros e domínios discursivos (Bakhtin, 1992; Marcuschi, 2008) e as ações performatizadas pelos textos do site do NEIM refletem as tensões mencionadas. Seguindo a metodologia de Etulain (2021), organizamos as publicações de 1997 a 2017 em uma tabela descritiva com as categorias: data/ título/ autoria/ aba do site/ gênero discursivo/ domínio discursivo/ ações performatizadas pelos textos. Os resultados a serem apresentados permitem comprovar a nossa hipótese, isto é, a pluralidade de ações linguístico-discursivas no site corrobora projeções sociais “contrárias”: a de um núcleo com legitimidade acadêmica, especialmente evidente pela predominância de uma macroação divulgatória no site, e a de um núcleo comprometido com a luta feminista fora da universidade, evidenciada pela presença de domínios discursivos não acadêmicos, como o educacional e o político. Tais projeções são vistas como opostas pois os EMGF são desqualificados enquanto campo científico sob acusação de serem excessivamente políticos (Pereira, 2017), ao passo que são vistos pelo movimento feminista como deslocados da realidade política por serem demasiado acadêmicos (Piscitelli, 2002).
Palavras-chave: linguística textual; feminismo acadêmico; tensões
MANUELA PONFICK
[Fonética e Fonologia]
ANÁLISE PROSÓDICO-ACÚSTICA PARA DETECÇÃO DE DEEPFAKES VOCAIS: UM ESTUDO BASEADO EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O avanço recente de tecnologias de inteligência artificial voltadas à síntese e clonagem de voz tem intensificado preocupações quanto ao uso fraudulento de deepfakes vocais, especialmente em contextos de segurança digital e autenticação de identidade. Nesse cenário, a prosódia apresenta-se como um campo promissor para a detecção dessas falsificações, na medida em que parâmetros como frequência fundamental (F0), duração e organização rítmica carregam marcas individuais do locutor que ainda desafiam a reprodução fiel por sistemas sintéticos. Este trabalho tem como objetivo investigar, sob uma perspectiva prosódico-acústica, quais marcadores são relevantes para diferenciar produções vocais naturais de artificiais. A pesquisa articula revisão bibliográfica e análise acústica experimental com o uso do software Praat. O corpus é composto por três enunciados em português brasileiro, “Eu tenho um amigo”, “Os meninos foram passear” e “As casas são grandes”, produzidos em entonações afirmativa e interrogativa. As amostras naturais foram convertidas em versões sintéticas por meio da plataforma ElevenLabs, totalizando, nesta etapa inicial, 6 enunciados. A análise volta-se à identificação e ao contraste de parâmetros prosódico-acústicos, com ênfase na frequência fundamental, na duração, na intensidade e na distribuição de pausas ao longo dos enunciados. Os resultados preliminares indicam diferenças sistemáticas entre fala natural e sintética. No enunciado “As casas são grandes”, a produção natural apresenta F0 médio mais elevado e maior variabilidade, acompanhada de irregularidades de intensidade, alongamentos silábicos e coarticulação, configurando um ritmo mais orgânico. Em contraste, a versão sintética evidencia F0 mais estável e reduzido, menor duração global, suavização de intensidade e ausência de alongamentos, resultando em uma cadência mais comprimida e em uma hierarquia prosódica menos marcada. Tais achados dialogam com a literatura clássica da área, ao reforçarem o papel da variabilidade como traço constitutivo da fala natural. Embora o estudo ainda se encontre em fase inicial, os dados sugerem que a prosódia constitui um eixo relevante para a distinção entre vozes naturais e sintéticas. A identificação de padrões de estabilidade na F0 e duração mais curta em produções artificiais do que naturais aponta para caminhos promissores tanto para o desenvolvimento de ferramentas de detecção de deepfakes quanto para o aprofundamento de questões teóricas na interface entre fonética, fonologia e inteligência artificial.
Palavras-chave: Prosódia; inteligencia artificial; deepfakes vocais
MARCELA RONCARATTI TAHAN VILARINHO
[Semiótica]
O discurso do amor romântico no imaginário feminino
A pesquisa intitulada “O discurso do amor romântico no imaginário feminino” propõe analisar os discursos que reforçam papéis de gênero patriarcais propagados por meio da trend “TradWife”, movimento presente nas redes sociais. Nele, mulheres exaltam modelos tradicionais associados à feminilidade e o reforçam, associando-o à domesticidade, à submissão afetiva e à centralidade do relacionamento amoroso heteronormativo na vida de uma mulher. Busca-se investigar como tais discursos contribuem para posicionar o amor romântico como elemento central na vida das mulheres, naturalizando, consequentemente, determinadas expectativas sociais e relações de gênero. A análise fundamenta-se na teoria semiótica discursiva, fazendo a análise do percurso gerativo do sentido. Serão observadas as estratégias enunciativas mobilizadas pelo enunciador com o objetivo de persuadir o enunciatário, bem como os efeitos de sentido produzidos por essas estratégias na construção e manutenção de imaginários ligados ao amor romântico e aos papéis femininos tradicionais. Além disso, pretende-se identificar as figuras e os temas recorrentes nesses discursos, analisando de que modo contribuem para a consolidação dessas representações, assim como outros aspectos relacionados aos diferentes níveis do percurso gerativo do sentido. Além da teoria semiótica, a pesquisa estabelece um diálogo com os estudos feministas, em especial Zanello no seu livro Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação (2018), no qual desenvolve o conceito de Dispositivo Amoroso, que parte da ideia de que as mulheres são socializadas a partir do olhar masculino, colocando a validação dos homens no centro de suas vidas e de seus processos de subjetivação. O corpus selecionado para análise é composto por dois vídeos extraídos das redes sociais, um da influenciadora Bruna Testoni, no qual ela brinca com o termo “esposa troféu”, afirmando que não há desvantagens nele; o outro vídeo é da influenciadora Fernanda Worell, no qual, aos moldes da trend Tradwife, compartilha sua rotina de cuidados com a casa, reforçando a ideia de que a realização feminina estaria naturalmente ligada ao casamento, ao cuidado doméstico e à dedicação ao parceiro. As análises estão em andamento.
Palavras-chave: tradwife; semiótica; feminismo
MARIA CAROLINA JOSÉ LOPES
[Análise do Discurso]
O ESTILO COMPOSICIONAL AUTORAL POLISSÊMICO DO CANCIONEIRO DE OTM
Fundamentada no pensamento do Círculo de Bakhtin, ancorada, principalmente, nas noções de enunciado, forma composicional, estilo e plurissignificação discursiva, esta pesquisa tem o intuito de analisar a construção poética do projeto cancioneiro brasileiro de O Teatro Mágico (OTM), idealizado pelo multiartista Fernando Anitelli. A trupe de artistas que compõe OTM se expressa discursivamente por meio de enunciados de diferentes gêneros (canção, performance teatral, performance circense, dança, expressão corporal, videoclipe, lives, entre outros), muitos, sincretizados em seus espetáculos. Nesta pesquisa, o objeto delimitado de estudo é a canção, tomada como parte da construção do projeto de dizer da trupe. Os critérios de delimitação metodológicos do objeto de pesquisa consideraram o cancioneiro de OTM, a partir de aspectos linguístico-discursivos composicionais polissêmicos, o que culminou em seis (6) canções. Como a pesquisa se encontra em andamento, até este momento foram analisadas três (3): Sintaxe à Vontade (2003), Cidadão de Papelão (2008) e Pena (2008). As análises, especificamente das composições (letras), revelam o processo de construção linguístico-discursivo típico da trupe, que se manifesta como um dos traços de seu estilo autoral. As rimas construídas pelo trabalho de linguagem tratam do encadeamento sonoro vocal que marca o ritmo das canções e a música passeia através das letras, em consonância melódica com o andamento entoativo. Essa característica é tão marcantemente estilo da trupe que a introdução, com os primeiros versos, já identificam o cancioneiro de OTM, como exemplificado pelas canções já interpretadas. Os resultados parciais demonstram que a polissemia se destaca como traço estético-estilístico composicional de OTM e se manifesta por figuras de linguagem e processos linguísticos como: ambiguidade, aglutinação morfológica, metáfora, antítese, aliteração, assonância, léxico e expressões típicas da oralidade (como ditados populares e tradição de cantos ritmados da cultura oral). Todos esses recursos constituem um discurso lúdico e acessível, assim como reflete e refrata múltiplas possibilidades de sentido e suas respectivas visões de mundo. Nesse sentido, a obra de OTM pode ser considerada uma produção plural elaborada que se expressa de modo heterogêneo vivo, aparentemente simples e cotidiana, mas esteticamente trabalhada, como exemplar do cancioneiro popular.
Palavras-chave: Círculo de Bakhtin; O Teatro Mágico; Polissemia
MARIA CLARA FERREIRA DE MELLO GOBBO
[Análise do Discurso]
Análise discursiva de “faz o L”: um caso de metaforização?
Este trabalho analisa a produção, a circulação e a ressignificação do enunciado “faz o L”, extraído do jingle da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. A pesquisa é justificada pela necessidade de compreensão da circulação de discursos na atual sociedade, cada vez mais marcada pela digitalização e pela circulação acelerada de informações. Com base na Análise do Discurso de linha francesa, o estudo examina o modo como o enunciado se desloca de uma sobreasseveração presente no refrão musical para formas de enunciação aforizante, panaforizante e, posteriormente, metaforizante. O corpus, composto por 450 postagens da rede social X, é analisado à luz das condições de produção e dos efeitos de sentido que emergem em sua circulação, com ênfase nas categorias de aforização e panaforização (MAINGUENEAU 1997; 2010; 2012; 2014; 2015) e de metaforização (BARONAS, 2013). Os resultados revelam que “faz o L” adquire relativa autonomia discursiva já nos primeiros meses após o lançamento do jingle, passando a circular como fórmula de apoio entusiástico, de indicação de voto útil, de crítica irônica, de interjeição de desagrado ou ainda de autoderrisão. A intensa viralização nas redes sociais contribui para sua configuração como enunciado panaforizante, saturando o espaço midiático e ampliando suas possibilidades de retomada. Posteriormente, o enunciado consolida-se como processo de metaforização, convertendo-se em uma fórmula flexível (“faz o M”, “faz o F”, “faz o U”) capaz de significar acontecimentos políticos e cotidianos, independentemente de sua vinculação com o âmbito eleitoral que motivou seu surgimento. Em síntese, foi possível constatar que o enunciado “faz o L” mudou de status da seguinte forma: (1) primeiramente, é usado como enunciado de um jingle de campanha eleitoral; (2) no momento seguinte, torna-se uma aforização por seu destacamento do discurso-fonte; (3) em seguida, ele assume o status de panaforização, por sua repercussão na rede social X e, por fim, (4) passa a funcionar como metaforização, ou seja, como uma metáfora disponível na língua.
Palavras-chave: Aforização; Análise do Discurso; Faz o L
MARIA EDUARDA DE MORAES GIRO
[Semiótica]
A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA EM TEMPOS DE PANDEMIA: MULHERES & COVID
O presente estudo, vinculado a projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Apoio: FAPESP - processo 2025/16256-1), volta-se a uma análise semiótica tensiva dos relatos compartilhados no documentário Mulheres & Covid (2024), produzido pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), sob a direção de Fernanda Kopanakis e Ivan de Angelis. O corpus apresenta o depoimento de dez mulheres de diferentes regiões, que compartilham as experiências vividas ao longo da pandemia de Covid-19.A questão a ser debatida é como ocorre a construção da memória nos relatos de experiências vivenciadas durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, a fim de compreender como é construída a memória nos relatos expostos e como os sujeitos do discurso são afetados pela chegada da pandemia. Como objetivos específicos, busca-se: a) examinar como o sensível e o inteligível se articulam nos relatos compartilhados pelas mulheres; b) discutir quais elementos constroem a memória e como revelam diferentes percepções do acontecimento da pandemia; e c) investigar o processo de rememoração, suas diferenças e semelhanças entre as mulheres que aparecem no documentário. A pesquisa se fundamenta na semiótica discursiva, especialmente na gramática tensiva, conforme proposta do linguista Claude Zilberberg, e nas duas formas discursivas de memória: a memória do acontecido e a memória-acontecimento, proposta por Barros (2011). Nos depoimentos, os enunciadores recuperam situações vividas e rememoram um período que chamamos de “antes da pandemia” e um “durante a pandemia”. O estudo entende, a partir dos relatos, que a pandemia é um acontecimento que chegou de maneira inesperada para o sujeito. Esse acontecimento é interpretado de maneira tão intensa que perdura na memória e faz com que esse passado seja rememorado e revivido. Observamos que o acontecimento ainda está em processo de assimilação para o sujeito, que ainda está em processo de interpretação.
Palavras-chave: Semiótica Tensiva; Memória; Acontecimento
MARIA EDUARDA QUINTINO
[Análise do Discurso]
Ler para viver o luto: leitura discurso e emoção.
Esta proposta de pesquisa de Iniciação Científica será desenvolvida junto ao laboratório de estudos da leitura como parte do Projeto geral de Pesquisa de estudos do discurso coordenado pela docente Luzmara Curcino, com apoio CNPq, e dedicado ao levantamento e análise de discursos sobre a leitura nos quais são evocadas emoções diversas como próprias do que se pode e se deve enunciar sobre essa prática. Visando ampliar e aprofundar a análise das formas de materialização discursiva das emoções no que se enuncia a respeito da leitura, do leitor ou do livro, nesta pesquisa de IC buscaremos focalizar uma emoção específica: o “luto”. Em levantamento prévio de textos junto a buscadores virtuais na internet identificamos um volume significativo de ocorrências em que “leitura” e “luto” se interrelacionam. São textos os mais diversos (notícias, publicidades de obras, entrevistas etc.) nos quais se indica a leitura como prática capaz de auxiliar no processo de luto. Nesta IC, pretendemos nos dedicar prioritariamente ao levantamento de dados para composição de um corpus representativo de ocorrências em que a leitura é articulada a esse afeto, a esse processo no qual estão implicadas prioritariamente “emoções tristes”, como a do luto. Assim, buscaremos em textos da atualidade, provenientes de buscas no universo digital por meio de diferentes máquinas, navegadores e buscadores, mobilizando para isso os seguintes pares de palavras-chave: leitura/luto; leitor/luto; livro/luto. Nossa expectativa é obtermos um conjunto significativo de textos que nos permitam classificá-los em subconjuntos em função de regularidades quanto ao que enunciam sobre a leitura, quanto ao modo como enunciam, quanto aos efeitos visados com aquilo que se enuncia, quando se articula essa prática cultural às emoções vinculadas ao luto. Para este levantamento, assim como para as análises preliminares do material coletado nesta IC, nos fundamentaremos em princípios da Análise do discurso, especialmente a partir das reflexões de Michel Foucault (1999), em princípios da História cultural da leitura, segundo Roger Chartier (1998; 2002) e da Sociologia da distinção cultural segundo Pierre Bourdieu (1990; 1999), assim como nas reflexões do campo da História das sensibilidades. Também recorreremos aos estudos que têm sido conduzidos no Brasil por diferentes pesquisadores dedicados aos discursos sobre a leitura na atualidade, a saber, por Abreu (2001), por Barzotto e Brito (1998), por Possenti (1999, 2001), Orlandi (2000), entre outros.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Leitura; Leitor; Emoções; Lut
MARIA EDUARDA SOUSA FEROLDI
[Gramática Funcional]
O par aditivo 'não só… mas também' uma análise funcional
As gramáticas normativas do português (Bechara, 2009; Cunha e Cintra, 2014; Rocha Lima, 2011) baseadas na rígida dicotomia coordenação versus subordinação, consideram o par correlativo não só… mas também no rol da coordenação, sendo esse par “uma série aditiva enfática” (Cunha e Cintra, 2014, p.530) ou uma “expressão enfática” (Bechara, 2009, p.256). Os trabalhos de viés descritivos e funcionalistas (Bagno, 2012; Rosário, 2024; Módolo, 1999), diferentemente, consideram esse par no rol da correlação, concebida como um terceiro tipo de ligação sintática, em que há uma relação de interdependência entre dois elementos. Rosário (2024) afirma que a adição pelo par não só… mas também é mais complexa que a simples adição por e, pois, para ele, a correlação estabelece uma relação argumentativa e hierarquizada entre os termos. Segundo Módolo (1999) e Bagno (2012) a correlação é usada em contextos enfáticos e apologéticos, porque o par é útil para empregar vigor. Tendo em vista essas considerações, a presente pesquisa tem o objetivo de investigar as motivações funcionais dos usos do par correlativo não só… mas também em uma perspectiva funcionalista, baseando-se no modelo da Gramática Discursivo-Funcional de Hengeveld e Mackenzie (2008), Keizer (2015) e de considerações da Gramática Funcional de Dik (1997). O universo de investigação é constituído pelas amostras do Projeto da Norma Urbana Linguística Culta (NURC) e do Projeto Português Falado – Variedades Geográficas e Sociais. A análise de dados aponta que o par é uma expressão focalizadora cujos elementos apresentam, no Nível Interpessoal, funções pragmáticas. Sobre o primeiro elemento, recaem as funções pragmáticas Tópico-Contrastivo Restritivo, enquanto sobre o segundo, as funções pragmáticas Foco-Contrastivo Expansivo. No Nível Representacional, por sua vez, os termos correlacionados são sempre da mesma camada, o que parece ser uma característica da correlação. Já no Nível Morfossintático, o processo que constitui a correlação é a Equiordenação que, por definição da GDF, é a dependência mútua entre os termos relacionados. Os dados mostram que há também uma equivalência no tipo de elemento correlacionando, sendo oracional (Cl) ou sintagmático (Xp). Assim, nota-se que a correlação aditiva é um processo distinto da coordenação devido à presença de funções pragmáticas, no Nível Interpessoal, nos elementos envolvidos e devido à interdependência sintática que eles apresentam no Nível Morfossintático.
Palavras-chave: Adição; Funcionalismo; Correlação
MARIA FERNANDA PINHO DA FONSECA LEITE
[Teoria e Crítica Literária]
CORPO, JUVENTUDE E ESCRITA DE SI EM SYLVIA PLATH E ANNIE ERNAUX
As implicações da escrita biográfica na construção da subjetividade de um autor e, também, no processo de recepção do leitor abrem espaço para várias reflexões relevantes. Em especial no testemunho feminino, a questão da memória na escrita e a produção de significados presentes na abordagem de cada autor possibilitam debates acerca da sexualidade e da emancipação feminina. O presente trabalho tem como objetivo investigar a escrita autobiográfica feminina por meio de um estudo comparativo das obras de Sylvia Plath e Annie Ernaux. A partir do pacto autobiográfico cunhado por Lejeune (2008), aborda-se a tensão entre a ficção e a realidade, em especial nos romances O acontecimento ([2000] 2022) e A redoma de vidro ([1963] 2019), no âmbito dos procedimentos narrativos articulados por ambas as autoras. Também ancora-se nas discussões articuladas por Barthes ([1984] 2012) e Foucault (2001), onde são discutidas questões como a constituição da figura do autor e a representação dele enquanto personagem de uma história. Com um foco na construção da memória e na percepção do corpo feminino, o trabalho compara dois episódios narrados nos romances: a primeira relação sexual da personagem Esther Greenwood e o aborto ilegal vivido por Ernaux, pensando na formação subjetividade feminina como elemento fundamental na transição da juventude para a vida adulta. Logo, os dois episódios vividos por cada uma das protagonistas são estudados levando em consideração a importância da percepção do corpo feminino de jovens mulheres na transição de menina para mulher, seja na primeira relação sexual ou na primeira gravidez. Sendo assim, a pesquisa conta com quatro capítulos, onde cada um se concentra em diferentes aspectos do tema. Tendo isso em vista, busca-se concluir que, apesar de possuírem estilos distintos, Plath e Ernaux utilizam suas experiências pessoais como um instrumento de (res)significação da experiência feminina, que promove os processos de identificação do leitor e novas leituras sobre a condição da mulher na sociedade.
Palavras-chave: autobiografia; memória; feminismo
MARIA JÚLIA DUARTE TAVARES VIEIRA
[Gramática Funcional]
ANÁLISE DE ORAÇÕES INTRODUZIDAS POR [SÓ QUE]
A presente pesquisa propõe-se realizar uma análise quantitativa e qualitativa das orações introduzidas por [só que]. Partimos dos pressupostos teórico?metodológicos da Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU), que agrega contribuições do Funcionalismo Norte?americano e Gramática de Construções (conforme Goldberg, 2019; Hilpert, 2014). Tal perspectiva compreende as construções como unidades linguísticas básicas resultantes da associação entre forma e função, estruturadas em rede e compondo o constructicon do falante. Segundo Cezario, Santos Silva e Santos (2015), o português possui uma construção significativamente produtiva na constituição de conectivos: a estrutura [Xque]CONECT. A referida construção é encarregada de originar uma gama de conectivos amplamente empregados na língua. Nosso estudo objetiva a investigação das orações introduzidas pelo conectivo: [só que]. Faz-se necessário destacar que a construção não consta em registros das gramáticas tradicionais mais influentes da língua, como a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, e a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra. Para viabilizar a análise, lançamos mão de dados encontrados na rede social Twitter (X) e da plataforma de vídeos Youtube, utilizando a plataforma educativa Youglish como ferramenta de pesquisa, tais como: “O Frei Gilson resolveu atacar quem tem tatuagem. Segundo ele, quem fez tatuagem não vai pro céu. Só que ele gosta de fazer lives patriotas contra o Lula e a favor da extrema direita. Será que ele sabe que o Nikolas Ferreira é tatuado e o Lula não é?” Com base no exame dos 200 dados coletados, visamos confirmar as hipóteses levantadas em Castanheira, Cezario e Brito (2022) de que a) as orações com a construção [só que] tendem a ocorrer mais na modalidade falada, visto que sua entrada é recente na língua (Longhin, 2003) e seu uso ainda não é previsto nas gramáticas normativas; e b) as orações com [só que] apresentam diversos papéis discursivos, tendo como papel prototípico a quebra de expectativa (cf. Longhin, 2003). Ademais, o estudo propõe diálogo com as hipóteses propostas por Cezario, Santos Silva e Sant’anna (2021), que investigam o [mesmo que] e [ainda que], comparando?as à construção [se bem que]. Os autores argumentam que, apesar de essas expressões estarem agrupadas dentro do mesmo campo semântico, apresentam disparidades relevantes em níveis semântico, pragmático e discursivo. Nosso alvo, assim, é somar esforços para uma descrição mais acurada da construção [só que] em contextos reais de uso, além de verificar hipóteses formuladas por modelos baseados no uso da linguagem.
Palavras-chave: Linguística Funcional; Conectivo; Só que
MARIA LAURA MARCOS
[Aquisição de Linguagem]
A produção de enunciados humorísticos por crianças em meio escolar: o discurso narrativo em foco.
O presente trabalho abarca discussões acerca dos recursos discursivos mobilizados por crianças pequenas em contexto escolar para a produção de enunciados humorísticos durante a construção narrativa proposta como atividade. A base teórico-metodológica norteadora da pesquisa insere-se na perspectiva dialógico-discursiva e multimodal (Bakhtin, 1997; Del Ré et al. 2022; Dodane et al, 2017), de forma a considerar os modos de funcionamento da linguagem das crianças (François, 2006), a relação com seus interlocutores em diferentes contextos discursivos e situacionais e a coconstrução discursiva. Nesse sentido, objetiva-se, por meio da seleção de dados de fala de um grupo de crianças em uma Escola de Educação Infantil, no interior paulista, refletir sobre a mobilização dos ingredientes fundamentais para a produção humorística, tais como a ruptura, o saber partilhado e a atenção conjunta (Del Ré, 2019). O corpus observado é composto pelas gravações de 14 sessões, com duração média de 30 minutos cada, de um grupo de 17 crianças monolíngues em contexto escolar. Os dados são transcritos pela ferramenta de transcrição CLAN (Computerized Language Analysis) e seguindo as normas de transcrição CHAT, de forma a assegurar rigor científico e confiabilidade aos dados. Para a pesquisa em questão, foram selecionadas 10 sessões em que a narrativa serviu como pano de fundo para o humor, seja pela leitura de livros infantis ou pela elaboração criativa de histórias por parte das crianças. Os resultados parciais indicam que a conjunção dos ingredientes supracitados é crucial para a obtenção da cena humorística, de modo a compreender que, com a ausência de algum desses elementos, a produção discursiva não pode se configurar como humor compartilhado para a perspectiva teórico-metodológica considerada. Por fim, considera-se que as construções humorísticas e narrativas estimulam a utilização de recursos linguísticos complexos e refinados de fundamental importância para o desenvolvimento linguístico da criança, sendo o processo de aquisição da linguagem a área em que a pesquisa em questão busca contribuir. (Apoio: PIBIC - CNPq - Número do projeto 22639)
Palavras-chave: Aquisição da Linguagem; Narrativa; Humor
MARIA LUÍSA PIZETTE CARVALHO SILVA
[Análise do Discurso]
A construção do sujeito-mulher na dramaturgia brasileira oitocentista: uma análise bakhtiniana
Este trabalho tem por objetivo apresentar alguns resultados de pesquisa em nível de Iniciação Científica, em que se buscou enfatizar a constituição do sujeito-mulher no teatro brasileiro oitocentista. Esse período foi marcado pela chegada da Família Real ao Brasil e pelas mudanças nas artes cênicas, seja na forma de encenar os personagens, seja na técnica para escrever as peças teatrais. Apesar da participação significativa das mulheres no teatro, elas não tinham seus direitos reconhecidos pela sociedade da época, sendo frequentemente rejeitadas, ou até mesmo proibidas de frequentarem espaços teatrais. Diante dessa temática, destacam-se três mulheres brasileiras pertencentes a diferentes momentos do século XIX, que fizeram história no universo da dramaturgia: a atriz e bailarina gaúcha Estela Sezefreda (1810-1874), considerada uma das atrizes pioneiras do século XIX, a dramaturga e tradutora Maria Angélica Ribeiro (1829-1880), nascida em Paraty (RJ), considerada a primeira mulher ter uma peça encenada no Brasil; e a atriz e empresária baiana Ismênia dos Santos (1840-1918), reconhecida como a primeira artista brasileira na segunda metade dessa fase. A fundamentação teórico-metodológica deste trabalho parte da perspectiva dialógica da linguagem, por meio dos trabalhos de Mikhail Bakhtin (1895-1975) e do seu grupo intelectual nomeado Círculo de Bakhtin. Por intermédio de suas reflexões sobre os conceitos de enunciado, discurso e sujeito, são analisados enunciados que foram coletados, principalmente, da mídia jornalística da época, em que se pode depreender alguns dos discursos que constituem o sujeito mulher na história do teatro brasileiro do século XIX. Os principais resultados encontrados revelam que esses enunciados materializam i) algumas expressões utilizadas por homens (redatores de jornais e autores do século XIX) e consideradas elogiosas dentro do contexto da época, como “delicadeza feminina” e “inteligência notável” ao se referirem às mulheres no teatro; ii) a presença da tutela marital no cotidiano de uma das personalidades estudadas, como Ismênia dos Santos, que precisou da autorização do seu marido para seguir a carreira teatral; e iii) os posicionamentos das próprias figuras do século XIX compreendendo-se como sujeitos-mulheres e questionando sobre seus direitos no teatro. Espera-se que esta pesquisa possa colocar em evidência o papel importante que essas mulheres tiveram e ainda tem para a história do teatro brasileiro. Apoio: PIP/UFOP - Programa de Iniciação à Pesquisa da UFOP - Edital PROPPI-UFOP 07/2025.
Palavras-chave: sujeito-mulher; história do teatro
MARIA PAULA REATTI BATISTA
[Fonética e Fonologia]
Proposta de transcrição acessível para focalização prosódica em podcast
Esse trabalho propõe validar uma proposta de transcrição acessível de podcasts, em que elementos focalizados prosodicamente são transcritos de forma visual, de modo que pessoas ouvintes e com surdez acessam esse tipo de informação linguística (Nogueira, 2022). Pesquisas sobre focalização (Gonçalves, 1998, dentre outros), argumentam que esse fenômeno de natureza discursivo-pragmática afeta tanto o que o enunciador diz, quanto o que o interlocutor interpreta, ou seja, é uma estratégia argumentativa que organiza o conteúdo informacional do enunciado. A focalização prosódica, em particular, é vista como uma das formas de se destacar elementos na fala e que se manifesta por meio de entoação, pausa e alongamento de segmentos, características que não estão presentes na linearidade do texto, uma vez que envolvem recursos de natureza suprassegmental (Gonçalves, 1998). Validar uma proposta de transcrição voltada à acessibilidade dessa focalização é relevante para mensurar se o efeito do acesso aos destaques gráficos no texto escrito associados ao foco prosódico efetivamente favorece pessoas ouvintes e não-ouvintes a identificar elementos que foram realçados na fala. Para este painel, apresentamos resultados de um teste composto por: (a) estímulos auditivos e verbo-visuais formados por transcrição convencional e (b) estímulos auditivos e verbo-visuais formados por transcrição com acessibilidade à focalização prosódica aplicado a participantes sem queixa de dificuldades auditivas de modo a mensurar o efeito da transcrição acessível entre ouvintes. O material utilizado no teste é formado por áudios e respectivos roteiros escritos, selecionados de três episódios de um podcast criado por licenciandos para fins educativos. Os áudios totalizam 37:29 minutos e os roteiros 5850 palavras. Por meio de resultados a serem apresentados, busco responder a seguinte questão: em que medida a identificação do foco prosódico é afetada pelo estímulo verbo-visual (transcrição escrita com acessibilidade)? A contribuição é voltada aos estudos sobre acessibilidade em podcast em português e propõe uma abordagem linguística da fala e da escrita para a identificação do foco prosódico que é parte das estratégias argumentativas da comunicação oral. (Apoio: PIBIC/CNPq 19780)
Palavras-chave: podcast; acessibilidade; transcrição
MARILIA MARUCCI MORAIS
[Formação de professores]
A escrita diarista como instrumento para a formação de professores: levantamento bibliográfico sobre os tipos de diário.
A presente pesquisa parte do pressuposto, a partir de estudos feitos, de que a escrita diarista colabora para o processo de formação de professores. À vista disso, temos como objetivo identificar os tipos de diário segundo pesquisadores do tema e sistematizar as definições encontradas procurando diferenciar o trabalho de cada autor, para assim sintetizar as definições teórico-metodológicas de cada diário a fim de compreender melhor essa escrita como instrumento de reflexão para o processo de formação inicial ou continuada do professor. Esta pesquisa se caracteriza como uma pesquisa de caráter qualitativo, exploratório e bibliográfico, pois, a partir do levantamento de bibliografia, busca gerar conhecimento sobre a escrita diarista como instrumento para a formação de professores com base em materiais já produzidos e publicados de Machado (1998; 2005), Buzzo (2003), Lousada (2002), Abreu- Tardelli (2002; 2007; 2015), Hila (2007), Canete (2010) e Ferreira (2005). A pesquisa fundamenta-se no ensino centrado em gêneros textuais com base no interacionismo sociodiscursivo (Bronckart 1999; 2006). Como resultados, identificamos diversos tipos de diários: o diário de leitura, o diário pessoal, o diário de bordo, o diário de campo, o diário de observação, o diário de aprendizagem e o diário de pesquisa, com semelhanças e diferenças entre eles em relação às suas funcionalidades, objetivos e definições. Cada tipo de escrita diarista atua de acordo com o contexto em que está inserida, porém, notamos a presença de duas funções principais comum entre todos esses tipos de diário: registro e reflexão. Portanto, a escrita diarista é caracterizada por gerar múltiplos diálogos (Machado 1998), sendo que esses diálogos de registro e reflexão mostram-se essenciais para o processo de formação de professores, pois permitem que o professor dialogue com si mesmo enquanto profissional, evidenciando um conjunto de conflitos, representações e ações. Essa ferramenta de reflexão proporciona, portanto, o desenvolvimento profissional do docente (Abreu-Tardelli 2015).
Palavras-chave: escrita diarista; formação de professores; tipos d
MARILIZI RIBEIRO GONCALVES
[Análise do Discurso]
A reconfiguração da função-autor e a cenografia simulada nas respostas geradas por Inteligência Artificial no Google
Este estudo, situado no campo da Análise do Discurso Digital, investiga como o discurso oficial do Google constitui e transforma a noção de autoria legítima na Web 3.0. O ponto de partida é a contradição entre as diretrizes de qualidade da plataforma, formalizadas no critério EEAT, que recomendam a comprovação de experiência e autoridade humana para a circulação de textos, e a recente introdução de respostas geradas por Inteligência Artificial (AI Overviews) no topo das buscas, que promovem o apagamento dos produtores de conteúdo originais. O objetivo do trabalho é analisar a reconfiguração da função-autor e da cenografia discursiva nesse cenário de automação. Teoricamente, a investigação fundamenta-se na articulação entre as reflexões de Michel Foucault sobre o controle dos discursos e a função-autor, compreendendo o critério EEAT como um ritual de qualificação que opera a rarefação dos sujeitos falantes, e a autoria como uma função classificatória e de controle de circulação. De Dominique Maingueneau, mobiliza-se a noção de discurso constituinte para analisar o caráter legislador das diretrizes da plataforma, além dos conceitos de cenografia, fiador e paratopia, investigando como o enunciador de IA, situado em um não-lugar socio-histórico, encena um ethos de especialista na ausência de um corpo humano (autor original solicitado pelo próprio Google). Metodologicamente, a pesquisa assume caráter qualitativo e documental, estruturando-se no confronto de duas frentes: a leitura das Search Quality Rater Guidelines e dos comunicados do Helpful Content System, e a análise de capturas de tela (prints) de respostas geradas por IA a partir de buscas sensíveis (YMYL), coletadas em aba anônima para isentar vieses algorítmicos. O uso do print justifica-se por preservar a materialidade visual, como a tipografia e a organização de links, que compõe a cenografia da tela. O tratamento dos dados recusa a quantificação, focando na análise entre a teoria e a superfície linguística para descrever como a IA se apropria do interdiscurso para simular a autoria. Espera-se demonstrar que a exigência de autoria humana funciona como um mecanismo de manutenção de monopólio do Google, regra que a corporação transgride ao atuar como um enunciador paratópico. Acredita-se que os resultados evidenciem como a simulação da autoria pela cenografia, o contraste entre o ethos dito e o mostrado, e a diluição do fiador reconfiguram a legitimação da informação digital. Com isso, o trabalho visa contribuir para discussões sobre linguagem e tecnologia, oferecendo um modelo crítico para materialidades digitais.
Palavras-chave: Análise do Discurso Digital; Inteligência Artificial; Função-Autor
MARX IZIDORO DA SILVA
[Semiótica]
A semiose da subversão: formas de vida da travesti preta em Linn da Quebrada
O objetivo deste trabalho é analisar como os sintagmas “bixa preta” e “bixa travesty” participam da constituição de uma forma de vida trans negra na cultura brasileira contemporânea, tomando como corpus principal a corporeidade, as performances e o discurso sincrético de Linn da Quebrada, compreendidos como instâncias interdependentes de produção de sentido. Serão mobilizadas as canções “Bixa Preta” (2017), single, e “Bixa Travesty”, presente no álbum Pajubá (2017), além de trechos selecionados do documentário Bixa Travesty (2018), que aborda o corpo político e a performance de Linn da Quebrada, permitindo a análise da circulação dos sentidos em diferentes materialidades discursivas. Parte-se da hipótese de que a performatividade, na obra da artista, não atua apenas como suporte de representação, mas como instância semiótica de produção de sentidos, na qual gênero, raça e sexualidade se articulam na atualização de modos de existência dissidentes e na configuração de regimes axiológicos. Nesse contexto, os sintagmas analisados são compreendidos não apenas como processos de ressemantização lexical, mas como operadores identitários que organizam práticas discursivas e modos de significação do corpo. Busca-se demonstrar que, ao tensionar representações hegemônicas historicamente associadas à marginalização, hipersexualização e criminalização de corpos trans e travestis negros, a artista mobiliza formas de vida contra-hegemônicas que deslocam fronteiras normativas do corpo na sociedade e reconfiguram modos de percepção e inteligibilidade desses sujeitos. Para tanto, a pesquisa mobiliza o instrumental da semiótica de linha francesa, especialmente o percurso gerativo do sentido (Greimas e Courtés), os níveis de pertinência e a noção de formas de vida (Fontanille), em diálogo com a semiótica das culturas e com os estudos interseccionais, articulando dimensões discursivas, culturais e sociais da significação. Espera-se contribuir para a compreensão dos processos de constituição e representação de mulheres trans e travestis negras na sociedade brasileira contemporânea, a partir de categorias discursivas de exclusão, resistência e subversão desses corpos.
Palavras-chave: Semiótica discursiva; formas de vida; Linn da Quebrada
MATHEUS MILANO BRAGA
[Semântica]
Queer em Acontecimento: Análise de Sentido a Partir da Enunciação
Este estudo, inserido no campo da enunciação, executa uma análise da palavra Queer a partir do referencial teórico-metodológico da Semântica do Acontecimento. O estudo, ainda em andamento, mobiliza conceitos como espaço de enunciação, cena enunciativa e designação para depreender os sentidos de Queer nos textos observados. No que tange aos estudos enunciativos, a teoria do linguista brasileiro Eduardo Guimarães propõe uma abordagem para o tratamento da significação e da enunciação, introduzida em "Semântica do Acontecimento: um estudo enunciativo da designação (2002)", e revisitada em "Semântica: enunciação e sentido (2018)". A noção de espaço de enunciação ajuda a explicitar de que maneira a palavra Queer, de origem inglesa, incide sobre o português evidenciando uma disputa simbólica marcada por uma fronteira entre línguas. Por outro lado, o conceito de designação permite observar como a palavra se relaciona com as outras dentro dos textos, as chamadas relações de reescrituração (retomada de uma forma por outra no texto) e articulação (relação entre formas contíguas). Com base nesse arcabouço teórico, a pesquisa busca identificar quais são os sentidos de Queer na contemporaneidade, considerando que a palavra possui um histórico pejorativo, mas passa por um processo de ressignificação desde o século passado. Para o recorte teórico, a significação de uma palavra se dá pela sua relação com as outras palavras no corpus especificado, não considerando nenhuma realidade que elas se reportam de antemão. O corpus é formado por um conjunto de postagens do X (antigo Twitter) e verbetes online em português brasileiro e inglês. Nesse sentido, foram escolhidos 3 verbetes da palavra Queer em fontes lexicográficas do domínio público da internet: 1 em português (Dicionário inFormal), 1 em inglês (Cambridge Dictionary) e 1 de natureza português-inglês (Dicionário Michaelis). Por sua vez, as postagens, recortadas através da barra de pesquisa do X, são lidas a partir do conceito de espaços de enunciação informatizados (Gallo; Pequeno; Silveira), que considera as redes sociais como plataformas normatizadoras de dizeres. Conclui-se, parcialmente, que os sentidos de Queer estão marcados por relações de força desiguais, evidentes não apenas na distribuição de línguas, mas também pela disputa por identificação e pertencimento de subjetividades dissidentes. (Apoio: PIBIC/CNPQ)
Palavras-chave: Queer; Semântica; Enunciação
MELISSA PERFEITO JARDIM PAIXÃO
[Análise do Discurso]
Discurso ritual e performatividade no Tundá: linguagem e prática cosmológica Tremembé
Este trabalho analisa o funcionamento do discurso ritual no Tundá, prática cosmológica realizada pelo povo indígena Tremembé, com foco nos efeitos performativos da linguagem durante o ritual. Parte-se do entendimento de que, nesse contexto, a palavra não atua apenas como meio de comunicação, mas participa diretamente da constituição do acontecimento ritual, organizando a interação entre participantes, encantados e espaço cerimonial. O objetivo é observar de que modo determinados enunciados, como cantos, invocações, chamadas e fórmulas de saudação, contribuem para instaurar a dinâmica ritual e legitimar a presença espiritual ao longo da prática. O corpus é composto por registros etnográficos produzidos em pesquisa de iniciação científica, incluindo descrições de sessões de Tundá, falas de praticantes sobre a condução ritual e narrativas relacionadas à atuação dos encantados. A análise parte da observação de que os enunciados rituais exercem funções específicas na organização do ritual, pois orientam ações coletivas, delimitam momentos de passagem e regulam formas de interação entre os participantes e as entidades espirituais. Nesse sentido, muitos enunciados proferidos durante o ritual não desempenham função apenas descritiva, mas produzem efeitos concretos no desenvolvimento da prática: autorizam ações, convocam entidades, indicam transições entre etapas do ritual e orientam comportamentos corporais. Observa-se, ainda, que a repetição de determinadas fórmulas verbais e a recorrência de modos específicos de enunciação contribuem para a estabilidade da prática ritual e para a circulação de saberes associados ao Tundá. Esses elementos evidenciam que a linguagem participa ativamente da manutenção da ordem ritual, ao mesmo tempo em que reforça referências coletivas compartilhadas pelos praticantes. Desse modo, o discurso ocupa papel central na experiência cosmológica Tremembé, uma vez que articula linguagem e corporalidade na organização coletiva do ritual, revelando a importância da palavra na produção de sentidos, na legitimação da experiência espiritual e na continuidade de formas próprias de conhecimento ritual.
Palavras-chave: Ritualidade; Discurso; Performatividade
MELISSA PERFEITO JARDIM PAIXÃO
[Análise do Discurso]
Processos de diferenciação discursiva entre Tundá e Umbanda
Este trabalho investiga como praticantes Tremembé constroem discursivamente diferenças entre o Tundá e a Umbanda, observando de que modo essas distinções participam da afirmação de uma identidade ritual própria. Embora determinadas práticas possam apresentar aproximações formais, como cantos, incorporações e comunicação com entidades espirituais, os interlocutores enfatizam que o Tundá possui fundamentos específicos ligados ao território, à ancestralidade indígena e aos encantados reconhecidos localmente. O objetivo é analisar os enunciados por meio dos quais essa diferenciação é formulada e compreender como a linguagem atua na delimitação simbólica entre práticas religiosas distintas. O corpus reúne falas de participantes, descrições etnográficas e narrativas registradas durante pesquisa de iniciação científica sobre práticas de encantaria Tremembé. O estudo dialoga com pressupostos da Análise do Discurso, considerando que os sentidos sobre identidade ritual são produzidos em situações históricas e relacionais. A análise evidencia que expressões recorrentes utilizadas pelos praticantes buscam afastar o Tundá de classificações externas que o aproximam automaticamente de religiões afro-brasileiras. Esse movimento aparece em explicações sobre origem, nomeação das entidades e formas de condução ritual, nas quais o pertencimento indígena é constantemente reafirmado. Observa-se ainda que tais fronteiras discursivas não são fixas, mas formuladas em resposta a contextos de comparação, dúvida ou necessidade de explicação diante de interlocutores externos. Além disso, nota-se que certas escolhas lexicais e modos de nomear práticas e entidades funcionam como marcas de diferenciação, reforçando sentidos de pertencimento e legitimidade cultural. Dessa forma, o discurso funciona como espaço de negociação identitária e de produção de legitimidade cultural, evidenciando que a linguagem ocupa papel central na formulação de fronteiras simbólicas e na reafirmação de referências próprias da cosmologia Tremembé. Também se observa que essas formulações variam conforme a situação de interlocução, mobilizando estratégias distintas de contraste, explicação e reafirmação identitária em diferentes contextos sociais e situações de interação discursiva cotidiana.
Palavras-chave: Diferenciação discursiva; Ritual; Identidade
MIRIELY DA SILVEIRA FERREIRA
[Línguas de Sinais]
Apagamento fonológico e fluxo articulatório na Libras
Na fonologia, o apagamento é tradicionalmente definido como um processo pelo qual um segmento presente na representação subjacente deixa de se realizar na representação de superfície (Chomsky; Halle, 1968). Nas línguas de sinais, os processos de apagamento envolvem a não realização de movimentos, contatos, suspensões ou articuladores previstos na estrutura fonológica do sinal, podendo decorrer de mecanismos de simplificação articulatória, coarticulação e economia de esforço motor (Frishberg, 1975; Friedman, 1975; Klima; Bellugi, 1979; Liddell; Johnson, 1989). Neste contexto, esta pesquisa constitui um desdobramento de estudos desenvolvidos no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com o objetivo de descrever os processos de apagamento fonológico em dados da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Neste trabalho adota-se as categorias propostas por Silva (2024) para a análise das ocorrências verificadas no corpus. Especificamente, pretendeu-se: i) identificar os processos de apagamento presentes nos dados; ii) descrever os contextos fonológicos de ocorrência desses fenômenos; e iii) discutir possíveis relações entre apagamento, simultaneidade articulatória e redução de esforço biomotor na sinalização. A amostra corresponde à análise de três vídeos em Libras, produzidos por um sinalizante surdo, disponíveis na plataforma YouTube, totalizando 16 minutos e 15 segundos. Os resultados parciais demonstram ocorrência expressiva de apagamento, correspondendo a aproximadamente 44,7% dos dados analisados. Destacam-se no corpus: apagamento de repetição (54,9%), apagamento de suspensão (12,7%), distalização (12,7%), apagamento de movimento (11,3%), apagamento da mão não dominante (5,8%) e congelamento da mão não dominante (2,8%). Também foram observados casos de apagamento que envolvem a redução de juntas proximais em direção a articulações mediais e distais, sugerindo mecanismos de de economia articulatória (Lourenço et. al, 2024). Os dados apontam para a frequência de processos de apagamento no fluxo articulatório e evidenciam a necessidade de ampliação dos estudos descritivos sobre processos fonológicos em línguas de sinais, especialmente no que se refere às interfaces entre economia articulatória e restrições fonotáticas.
Palavras-chave: Processos fonológicos; Apagamento; Libras
NATALIA FALCONERIS
[Linguística Textual]
O EFEITO DA INFERÊNCIA EM GLAUCOMIX: OBSCENIDADE ÀS LUZES DA REFERENCIAÇÃO
Este projeto tem como objetivo mostrar como se dá o processo de construção referencial da obscenidade através da instauração implícita do referente abjeto na história em quadrinhos Glaucomix, de Glauco Mattoso e Marcatti (2017). A obra trata de uma adaptação do livro “Manual de um Pedólatra Amador: aventuras e leituras de um tarado por pés”, de Mattoso (1986), em que se aborda a trajetória do personagem Glauco Mattoso, focando-se em seu desenvolvimento sexual como um homem gay, podólatra e mesofílico. Neste presente projeto, ater-se-á a recortes do capítulo intitulado “Foi um Rio que pisou na minha língua” (p. 21 - 27). No capítulo, discorre-se sobre como Mattoso adaptou-se ao mudar-se para o Rio de Janeiro e como foi o desenvolvimento de suas amizades na cidade. A caracterização de obsceno depende da construção de uma lacuna entre os cidadãos íntegros da sociedade e as atitudes ou temas inoportunos (Hansen, 2015). Esta pesquisa parte do pressuposto de que a escatologia e obscenidade são relações intertextuais construídas dentro de uma comunidade de interpretação (Parret, 1988), podendo ser resumidas a normas de comportamento sócio-culturais de uma sociedade. Priorizam-se recortes em que a marca de abjeção seja evidente, a partir do exagero corporal, sexualidade explícita, escatologia ou transgressão moral. São escolhidos, também, recortes em que as modalidades verbais e visuais interagem de modo significativo, instruindo a inferência do leitor. Propõe-se, então, demonstrar a construção desse referente na obra de Mattoso e Marcatti por meio de elementos verbais e visuais. A análise proposta será feita sob o olhar da Linguística Textual, explorando especificamente os conceitos de referenciação e inferência (Cavalcante, 2011) e multimodalidade (Lima, 2017) e aplicando-os ao corpus, que se atém a cortes do fetichismo podólatra do personagem principal. Espera-se explicitar o movimento feito pelo leitor ao interpretar as experiências de Glauco Mattoso e classificá-las como escatológicas.
Palavras-chave: Referenciação; Inferência; Escatologia
PAULA BEJO JARDIM
[Linguística Textual]
“Tirem as suas mãos violentas de nossos corpos”: a tensão academia x militância no Instituto de Estudos de Gênero sob a ótica textual-discursiva.
Os Estudos de Mulheres, Gênero e Feminismos - EMGF (Pereira, 2017) consolidaram-se nos anos 1970 e 1980, quando pautas do movimento feminista começaram a ser teorizadas pelas acadêmicas, muitas reconhecidamente feministas (Corrêa, 2001; Alves; Pitanguy, 2022). Essa entrada nas universidades suscitou, porém, uma tensão no feminismo entre militantes e acadêmicas (Heilborn; Sorj, 1999; Corrêa, 2001). Posicionadas, a um só tempo, entre o ativismo e uma estrutura de produção acadêmica objetivista, pautada na disputa por capital científico (Bourdieu, 1983), as estudiosas de EMGF foram estranhadas como ativistas pelas militantes e tiveram o rigor de suas produções questionado nas universidades, visto como impregnado ideologicamente. Nesse contexto, hipotetizamos que as produções textuais-discursivas dos sites de EMGF refletem ainda hoje essa posição liminar das estudiosas ao evocar domínios discursivos diversos além do acadêmico-científico; e que, apesar disso, em busca de validação científica, os gêneros acadêmicos são predominantes. Para essa investigação, selecionamos o site do Instituto de Estudos de Gênero - IEG da Universidade Federal de Santa Catarina como representante das páginas de EMGF, por sua relevância na promoção desse subcampo. Para compreender seu funcionamento textual-discursivo, objetivamos levantar os gêneros textuais, os domínios discursivos e os atores sociais presentes na página, analisando-os sob conflito acadêmicas x militantes. Amparamo-nos na Linguística Textual, compreendendo a linguagem como semi-estruturada, accional e ideológica (Koch, 2018; Marcuschi, 2008) e o texto como fenômeno histórico-social (Bentes, 2024). Ancoramo-nos também nas noções de domínio discursivo (Marcuschi, 2008) e de gênero discursivo (Bakhtin, 2016; Marcuschi, 2008). Metodologicamente, organizamos nosso corpus em planilha, contendo: título/link do texto, aba, tipo de material, autoria, perspectivação, data, gênero textual e domínio discursivo. Observamos a prevalência de gêneros acadêmicos, porém domínios outros como o jornalístico, político e educacional são evocados. Os gêneros jornalísticos destacam-se, pois são os mais expressivos após os acadêmicos e propiciam o alcance de um público que extrapola os limites das universidades, performando uma estratégia de comunicabilidade (Martín-Barbero, 2008). Considerando também sua articulação às demandas sociais, evidenciadas em momentos históricos datados (Melo; Assis, 2016), os gêneros jornalísticos são significativos como forma pela qual as pesquisadoras do IEG tentam incitar a coexistência da práxis feminista e do fazer científico. Ao final, percebemos que, embora os gêneros acadêmicos sejam predominantes e (re)afirmem uma maior procura do IEG pela legitimação científica na academia do que entre as ativistas, o Instituto ainda importa-se e esforça-se coletivamente em projetar uma imagem social de articulação ao movimento das ruas.
Palavras-chave: Linguística Textual; Instituto de Estudos de Gênero; EMGF
PEDRO HENRIQUE MARQUEZINI
[Linguística Aplicada]
Propostas para o ensino de gramática por especialistas estrangeiros: semelhanças e diferenças
Este trabalho insere-se no projeto de pesquisa mais amplo intitulado “Gramática e Ensino”. Vitoriano e Abreu-Tardelli (2017), através de um estudo bibliográfico em trabalhos de pesquisadores brasileiros, concluíram que eles propõem um ensino que respeite a variante do aluno, sem excluir a norma-padrão. Paralelamente, Cardoso e Abreu-Tardelli (2021), mediante uma revisão em publicações do quadriênio 2013-2016 da Capes, notaram que pesquisadores brasileiros defendem um ensino gramatical contextualizado, em que os alunos consigam aprender, simultaneamente, sobre sua variante e sobre a norma. Entretanto, apesar desses estudos, Abreu-Tardelli (2021) aponta que não há uma proposta sistematizada de ensino gramatical exequível pelos pesquisadores. Por fim, Gonzaga (2024) levantou textos recentes que trazem considerações e propostas acerca do ensino de gramática e textos que abordam as capacidades linguageiras e analisou o plano de aula de um bolsista do PIBID de Língua Portuguesa. Como resultados, ela observou que o ensino de gramática partindo do texto não é suficiente. Com isso, buscando apoiar essa demanda e dar continuidade a essas pesquisas, este trabalho objetiva (i) levantar diferentes propostas de pesquisadores estrangeiros sobre o ensino gramatical, (ii) observar características semelhantes e (iii) observar características diferentes entre elas. Logo, esta pesquisa possui um caráter qualitativo, exploratório e bibliográfico, no qual revisamos textos de especialistas de diversos países que expõem suas propostas para o ensino gramatical e que são passíveis de uma relação teórico-metodológica com obras que dialogam com uma abordagem sociointeracionista. Como resultados parciais, observamos que a proposta de Camps (2015) sugere o aprendizado das regras gramaticais baseado em processos ativos de investigação; a proposta de Chartrand (1995) recomenda a construção do conhecimento gradual e indutivamente, através da observação dos fenômenos gramaticais e de hipóteses em explicar os seus funcionamentos; a proposta de Supisiche (2021), que ocorre, principalmente, a partir do discurso jornalístico, busca que os alunos não somente dominem esses fenômenos, mas também desenvolvam pensamento crítico. Além dessas, estudamos propostas e apontamentos de outros pesquisadores, como Dolz; Noverraz; Schneuwly (2004) e Coutinho (2012). Como considerações finais, identificamos as seguintes similaridades: o incentivo dos alunos à pesquisa (Chartrand, 1995; Camps, 2015), o conhecimento indutivo como ponto de partida (Chartrand, 1995; Camps, 2015; Supisiche, 2021) e o trabalho com a gramática de maneira autônoma (Dolz; Noverraz; Schneuwly, 2004; Supisiche, 2021). Já Coutinho (2012) diferencia-se de Dolz; Noverraz; Schneuwly (2004) e Supisiche (2021) propondo um trabalho partindo do gênero textual para chegar-se à gramática.
Palavras-chave: gramática e ensino; proposta de ensino gramatical; ensino de língua materna
RICARDO JOSÉ LIANI FILHO
[Análise do Discurso]
Quando ler causa ansiedade: Uma análise das emoções em discursos sobre a prática leitora
Neste trabalho nos propomos a apresentar resultados preliminares de nossa pesquisa de Iniciação Científica intitulada “Leitura e ansiedade: uma análise dessa emoção em discursos sobre essa prática”, vinculada ao projeto geral “O orgulho, a vergonha e outros afetos: uma análise das emoções em discursos sobre a leitura”, desenvolvido pelos pesquisadores do Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE-CNPq/UFSCar). Buscamos em nossa pesquisa, a partir de princípios da Análise do Discurso e da História Cultural da leitura e da História das sensibilidades, constituir um corpus de enunciados em que a “leitura” e a “ansiedade” estivessem articuladas. Nesse processo, identificamos dois subgrupos recorrentes de enunciados: aqueles que apresentam a leitura como prática benéfica no combate à ansiedade e aqueles que a associam como causa e fonte desse sentimento. Neste trabalho apresentamos breve análise de uma amostra de enunciados relativos a este último subgrupo, em que refletimos sobre regularidades quanto ao que se enuncia, aos modos de enunciar e às condições de produção e circulação desses enunciados em que a leitura é representada como origem ou fonte potencial de ansiedade. Os enunciados desse conjunto, além de serem bem menos frequentes que os do primeiro, guardam uma aparente contradição: neles se revela certo sofrimento por não conseguir ler tudo o que gostaria de ler ou de ter dificuldade de ler tudo o que previu/desejou ler, sofrimento que é representado ou mesmo nomeado como “ansiedade” nesses enunciados, para a partir dessa revelação se reafirmar a sua condição de leitor (que lê, que gosta de ler, que lê muito etc.), atualizando para isso uma série de representações próprias dos discursos consensuais sobre a leitura, das formas de seu exercício, dos objetos e ritos desse exercício. Visamos, nesta apresentação, descrever o funcionamento de uma amostra de enunciados desse grupo específico, assim como, com nossa análise ao final da pesquisa, poder contribuir com o conjunto de estudos dedicados à análise de discursos contemporâneos acerca da leitura, atentos em especial para o papel exercido pelas emoções nesses discursos, e seu funcionamento na legitimação social da leitura e no reconhecimento — ou não — dos sujeitos como leitores. (Apoio: FAPESP - 2025/05137-1 / CNPq - 305682/2022-9)
Palavras-chave: Discurso; Ler; Ansiedade
SAMINE DE ALMEIDA BENFICA
[Sociolinguística e Dialetologia]
Atitudes linguísticas e a manutenção da língua pomerana na região centro-serrana do Espírito Santo
O pomerano é uma língua de imigração historicamente presente na região centro-serrana do estado do Espírito Santo desde o primeiro movimento imigratório, em 1859 (Rölke, 1996). Sua presença se mantém até hoje, apesar dos processos de urbanização, da escolarização em língua portuguesa e das pressões de assimilação linguística. Nesse contexto, esta pesquisa investiga as atitudes linguísticas de estudantes do ensino médio e de membros da comunidade em relação ao pomerano, buscando compreender como diferentes sujeitos percebem, avaliam e atribuem valor ao uso da língua, à sua relevância sociocultural e às possibilidades de sua transmissão intergeracional. Parte-se do pressuposto de que a língua constitui elemento central na construção, preservação e transmissão das identidades culturais, além de importante marcador de pertencimento social e histórico. Nesse sentido, a região centro-serrana do Espírito Santo apresenta uma situação significativa de manutenção linguística, pois, embora, segundo Weinreich (1953), a permanência de uma língua de imigração tenda a enfraquecer a partir da terceira geração, o pomerano na região já se encontra na quinta ou sexta geração de descendentes, conforme Bremenkamp (2014, p. 229), evidenciando um fenômeno de resistência e continuidade. Diante disso, a pesquisa busca compreender por que o pomerano consegue se manter ao longo de tantas gerações, quais fatores sociais, culturais, familiares e institucionais contribuem para essa permanência e se as políticas linguísticas de cooficialização, valorização cultural e inserção escolar da língua têm produzido efeitos concretos em sua manutenção. Ancorada nos pressupostos da Sociolinguística, especialmente nos estudos de atitudes linguísticas, a investigação considera que avaliações positivas ou negativas atribuídas a uma língua influenciam diretamente seus processos de uso, prestígio e transmissão. Dialoga-se com Labov (2008), ao considerar que a avaliação social das variedades linguísticas interfere nas práticas de fala e nas escolhas linguísticas dos sujeitos, podendo gerar tanto valorização identitária quanto estigmatização. A pesquisa adota abordagem qualitativa e quantitativa, com geração de dados por meio de entrevistas semiestruturadas, compostas por perguntas abertas e fechadas, aplicadas a estudantes e membros da comunidade. Espera-se contribuir para a compreensão dos mecanismos que sustentam a vitalidade do pomerano na região centro-serrana, oferecendo subsídios para reflexões sobre políticas linguísticas, educação bilíngue e preservação do patrimônio linguístico-cultural capixaba.
Palavras-chave: Atitudes linguísticas; Língua Pomerana
SARA PELAQUIM RODRIGUES
[Fonética e Fonologia]
Estratégias de Focalização em Podcasts Acadêmicos: Foco em Advérbios
Estudos sobre a focalização prosódica, fenômeno de natureza discursivo-pragmático, descrevem características particulares do Português Brasileiro (PB) frente às línguas românicas e sinalizam sobre a necessidade de se ampliar a investigação sobre o assunto. A proposta deste estudo consiste em ampliar a investigação acerca desse tema, voltando-se especificamente para dados extraídos de um podcast produzido por licenciandos em Letras de duas universidades públicas, sendo uma paulista e outra paraibana. A escolha pelo podcast justifica-se por essa mídia ser recomendada em documentos oficiais, para ser usada em aulas de língua portuguesa no Ensino Fundamental e Médio. Busca-se descrever a maneira pela qual a focalização afeta a configuração de eventos tonais e o fraseamento prosódico dos enunciados extraídos da mídia mencionada. O material da pesquisa é formado por nove episódios, totalizando 1:37:42 de áudio e o roteiro escrito tem o total de 13.672 palavras. A análise da focalização dos áudios está fundamentada nos pressupostos da Fonologia Prosódica (Nespor, Vogel, 1986 e outros) e da Fonologia Entoacional (Ladd, 1996). A metodologia se organiza nas seguintes etapas: identificação, nos áudios, de estratégias de focalização com base na escuta atenta e interpretação dos enunciados; transcrição dos eventos tonais dos enunciados focalizados, segundo o modelo de transcrição P-ToBI (Frota, Cruz, Vigário, 2015), usando o software PRAAT (Boersma e Weenink,2024); análise dos eventos tonais transcritos e identificação do fraseamento dos enunciados em domínios prosódicos no PB, segundo o arcaboço da Fonologia Prosódica (Fernandes, 2007; Serra, 2016); identificação dos escopos sintático-semânticos (Fernandes, 2007; Yano, Fernandes, 2020) e das funções discursivo-pragmáticas (Gonçalves, 1998) expressos pela focalização prosódica. Apresentaremos resultados iniciais da descrição dos dados selecionados sobre a focalização expressa por meio de recursos de natureza prosódica e lexical. Confrontaremos os resultados desta pesquisa com a literatura sobre o PB a fim de amparar a hipótese de que a focalização nesses dados de podcast tem características prosódicas fonologicamente similares aos dados experimentais do PB, mas com valores semânticos-pragmáticos associados a estratégias argumentativas de natureza discursivo-pragmática (para ressaltar ou destacar palavras ou partes dos enunciados) que são endereçados especificamente ao engajamento do ouvinte de podcasts (para atrair e manter sua atenção). (apoio: PIBIC/CNPq 19754)
Palavras-chave: Advérbios; Entoação; Podcast
SARAH BRETTES MARRECAS RAMOS
[Linguística Cognitiva]
A causalidade implicada em notícias de violência de gênero
Esta pesquisa, realizada no âmbito da iniciação científica, trata a respeito das formas de representação dos corpos femininos na mídia, especialmente no meio jornalístico e busca demonstrar como a linguagem utilizada pode orientar a leitura e compreensão dos eventos noticiados, incorrendo na culpabilização da vítima. Nenhum discurso é neutro e desprovido de ideologia e, no entendimento funcionalista, não é possível dissociar discurso de gramática. Dessa forma, o principal objetivo da pesquisa é descrever as relações de causalidade em manchetes de notícias de violência de gênero constituídas por construções marcadas pelo conectivo “e”, à luz dos Modelos Baseados no Uso, da Linguística Cognitiva e da Gramática de Construções. Para delinear as características dessa construção, foi coletado um córpus em rede aberta, através da busca das palavras-chave “e é morta; e é estuprada; e é violentada; e é assassinada”, totalizando 100 ocorrências para investigação. No decorrer da análise das manchetes escolhidas, foram observadas uma série de características que denotavam causalidade entre as orações, como a iconicidade e sequencialidade fixa dos eventos, a caracterização negativa das vítimas através de qualificadores e o apagamento do autor da violência por meio da apassivação da segunda oração. A partir da sistematização destes componentes formais e semânticos, foi construído um esquema linguístico que possibilita a visualização que possibilita a visualização da descrição linguística de eventos noticiados dessa forma e constatam a relação metafórica de causa e consequência entre as orações. Assim, nos complexos oracionais descritos na pesquisa, foi possível descrever mecanismos linguísticos que focalizam a atenção do leitor nas ações tomadas pela vítima que ocasionaram sua violência, isto é, como a mulher é retratada enquanto agente da própria tragédia e o perpetrador permanece em segundo plano. O uso desta construção, bastante frequente em portais de notícias regionais, viabiliza uma dupla violência com a vítima ao retratá-la como força causadora da própria tragédia e naturaliza formas linguísticas que violam corpos femininos. Apoio: CNPq
Palavras-chave: Gênero; Linguagem; Construções
SOFIA FESTUCCI PAVAN
[Semiótica]
Signos Clariceanos: a tradução intersemiótica em O Livro dos Prazeres (Marcela Lordy, 2020)
As adaptações literárias vêm marcando presença na indústria cinematográfica há décadas, originando grandes sucessos como Psicose (Alfred Hitchcock, 1960) e O Auto da Compadecida (Guel Arraes, 2000). No entanto, mesmo com a recorrência desse tipo de produção, há uma dificuldade inerente ao processo de adaptação, uma vez que a transposição de um material de uma linguagem para outra pode acarretar a perda de efeitos estilísticos e expressivos próprios do texto de partida, conforme aponta Fiorin (2000). Nesse contexto, a tradução intersemiótica se apresenta como um campo relevante para compreender as transformações de sentido que ocorrem nesse processo. Partindo dessas observações, propomos uma análise do filme O Livro dos Prazeres (Marcela Lordy, 2020), que busca transpor para o cinema a obra literária Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), de Clarice Lispector. A obra literária em questão é marcada por uma escrita fortemente introspectiva e poética, construída a partir de fluxos de consciência e da exploração de estados subjetivos, o que torna sua adaptação um desafio significativo no que diz respeito à tradução de tais elementos para uma linguagem audiovisual. O trabalho tem como objetivo compreender de que modo a escrita clariceana é recriada por meio de imagens e sons no filme, investigando as estratégias utilizadas para traduzir os efeitos de sentido do texto literário. Para isso, mobiliza-se a teoria da semiótica discursiva, através de autores como Diana Luz Pessoa de Barros e José Luiz Fiorin, e seu desdobramento tensivo, através das contribuições de Zilberberg e de Renata Mancini, a fim de analisar os mecanismos de construção de sentido presentes na obra fílmica. Busca-se, assim, refletir sobre as possibilidades e limites da adaptação cinematográfica, bem como sobre os processos de significação envolvidos na passagem entre diferentes linguagens. Além disso, busca-se também entender a individualidade da obra adaptada em si mesma, compreendendo as escolhas e as interpretações dos realizadores que tornaram a obra única.
Palavras-chave: cinema; Clarice Lispector; tradução intersemiótica
SOFIA LUQUE DE PAULA
[Divulgação Científica]
Poções mágicas: do universo maravilhoso de Harry Potter à normalização da normatização da saúde e da beleza
O presente trabalho investiga, sob uma perspectiva interdisciplinar, os discursos de saúde e estética presentes na saga literária Harry Potter (HP), de J. K. Rowling. A partir da análise de poções selecionadas como instrumentos simbólicos e linguísticos presentes na obra, conectadas à cultura e à ciência, o trabalho propõe compreender como a linguagem do universo de ficção maravilhosa naturaliza práticas de regulação do corpo e das emoções. Com isso, o estudo estabelece diálogo entre o universo ficcional, práticas sociais e discursos científicos contemporâneos. O objetivo central consiste em analisar de que modo as poções delimitadas como objetos de pesquisa, depois do mapeamento realizado em toda a obra de HP – a saber: Poção de Curar Furúnculos, Poção Wiggenweld, Poção Capilar Alisante, Poção do Sono, Poção da Paz e Poção Embelezadora – operam como articuladoras de saberes técnicos a valores sociais e normas de conduta. Busca-se, especificamente, identificar como essas misturas são descritas, quais efeitos lhes são atribuídos e como tais efeitos dialogam com práticas reais de medicalização, padronização estética e controle emocional. O quadro teórico fundamenta-se no escopo bakhtiniano e em discussões acerca de corpo, normatividade, produção química e indústria farmacêutica. Esta é uma pesquisa tanto bibliográfica quanto experimental, de caráter qualitativo e analítico. Os procedimentos metodológicos consideram a análise documental dos livros e das adaptações cinematográficas da saga, bem como tabulação de mapeamento das poções existentes na obra, produção de coleta de dados e de delimitação de corpus, produção de infusões, cremes e gel, assim como construção de protótipo de ensino do gênero receita. Os critérios de delimitação do corpus consideraram: relevância e recorrência narrativa, significação simbólica e especificidade funcional. Os procedimentos de análise envolveram o levantamento de dados, a análise dos contextos de uso das poções na obra ficcional, a interpretação dos efeitos simbólicos e o estabelecimento de paralelos com processos farmacológicos e sociais presentes no mundo real. As poções funcionam, no universo maravilhoso de HP, como metáforas discursivas de práticas contemporâneas de regulação do corpo, que evidenciam a internalização de normas sociais relacionadas à saúde, à beleza e ao equilíbrio emocional. Com as poções, a obra reforça discursos e práticas equivocadas, ao apresentar soluções técnicas e imediatas ("mágicas") para questões complexas. Os resultados parciais evidenciam que a obra contribui com um imaginário que normatiza o corpo como alvo de constante intervenção, ajuste e controle, próximo de lógicas biomédicas e estéticas, disseminadas na atualidade, de adoecimento dos sujeitos.
Palavras-chave: Ficção; Ciência; Saúde
SOPHIA BADANAIS TEIXEIRA
[Análise do Discurso]
Um estudo bakhtiniano sobre o sujeito em “A Náusea” (1938), de Jean-Paul Sartre
“A Náusea” é um romance escrito por Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista francês, foi publicado pela primeira vez em 1938 e narra a trajetória de Antoine Roquentin, um homem comum de classe média (pequeno-burguês), que viveu sua vida focado apenas em suas obrigações e não em propriamente “viver”. Isso lhe desencadeia uma inquietação, uma falta de sentido e de vontade de agir, pois percebe que todas as existências são fracassadas por si só. Além disso, como afirma o próprio filósofo, o protagonista escolhe, por livre e espontânea vontade, acovardar-se perante a responsabilidade da existência. Nesse contexto, este resumo para Painel a ser apresentado no 71º Seminário do GEL, busca fazer um recorte teórico de nosso projeto de pesquisa de Iniciação Científica em desenvolvimento, que tem o propósito de estudar este romance, com base na perspectiva bakhtiniana da linguagem. Desse modo, propomos como objetivos do projeto de pesquisa: i) analisar a constituição do personagem Roquentin, a partir da noção teórica de sujeito em uma reflexão que traz à tona os enunciados concretos materializados na e pela narrativa; ii) compreender o romance por meio da noção bakhtiniana de gêneros do discurso e; iii) investigar as relações dialógicas que constituem a narrativa. O trabalho proposto seguirá determinados procedimentos metodológicos, em que faremos uma leitura minuciosa do romance para, assim, fazer um recorte temático dos enunciados em que há indícios que possam materializar como se constitui o personagem Roquentin, tornando-se sujeito. A apresentação em Painel contemplará um esboço das leituras teóricas até o momento desenvolvidas bem como os principais resultados já depreendidos, dentre eles, o fato de a relação eu-outro ser puramente dialógica, isso significa que o enunciado do eu irá influenciar e moldar sua própria percepção de mundo, de si mesmo e do outro, em uma infinita via de mão dupla. Esse fator, em conjunto com a responsabilidade pelo seu próprio agir, gerará um sentimento inquietante e nauseante no protagonista do romance, constituindo-o, em termos bakhtinianos, sujeito. Por fim, entendemos este trabalho como relevante e necessário para pensar tanto no indivíduo, isto é, o ser biológico, como também, no sujeito, aquele que dialoga por meio da linguagem com a sociedade e com os outros sujeitos ao seu redor. (Apoio: Programa Institucional de Voluntários de Iniciação Científica – Edital 10/2025, PIVIC-1S/UFOP 2026-2027).
Palavras-chave: sujeito; romance; estudos bakhtinianos
SUANE DA SILVA FREITAS
[Linguística Aplicada]
MORFOSSINTAXE, ESTILÍSTICA E CANÇÃO POPULAR: UMA PROPOSTA DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NO 7º ANO.
RESUMO: Este artigo tem como objetivo analisar as possibilidades de exploração morfossintática e estilística da canção Fogo sem Fuzil, interpretada por Luiz Gonzaga, como recurso didático para o ensino da estrutura do período simples, com foco na identificação de sujeito e de predicado em uma turma do 7º ano do Ensino Fundamental. A questão central que orienta a pesquisa é: de que modo a canção pode ser utilizada no ensino contextualizado da morfossintaxe e da estilística, articulando conteúdos gramaticais e gêneros textuais próximos à realidade dos estudantes? A investigação parte da necessidade de superar práticas de ensino gramatical centradas na classificação isolada de termos, propondo uma abordagem que relacione forma linguística, construção de sentidos e práticas sociais de linguagem. O estudo fundamenta-se em discussões sobre gramática contextualizada, análise linguística, morfossintaxe, estilística e ensino de Língua Portuguesa. Nesse sentido, serão utilizados como aporte teórico autores como Antunes (2014), que defende a necessidade de compreender a gramática como instrumento de análise do funcionamento da língua em textos concretos, e não como fim em si mesma. As contribuições de Câmara Júnior (1996) e Carone (1991) reforçam que os fenômenos morfossintáticos devem ser observados em articulação com o texto e o discurso, superando práticas fragmentadas e normativas. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, aplicada e exploratória, organizada a partir de uma proposta pedagógica destinada ao 7º ano. A metodologia prevê orientações sobre escuta coletiva da canção, roda de conversa, análise morfossintática e estilística da letra, aplicação de um jogo linguístico e produção de frases. simples pelos estudantes. A canção foi selecionada por apresentar marcas de oralidade, regionalismo, expressividade e diversidade linguística, possibilitando reflexões sobre variação. Linguística e cultura popular nordestina. Embora a proposta ainda não tenha sido aplicada, espera-se que sua realização favoreça o engajamento discente, amplie a compreensão da estrutura do período simples e contribua para uma abordagem mais contextualizada da Suane da Silva Freitas: suane.freitas@uemasul.edu.br gramática. Conclui-se que a articulação entre morfossintaxe, estilística, canção popular e metodologias ativas apresentam potencial para tornar o ensino de Língua Portuguesa mais significativo e reflexivo.
Palavras-chave: Ensino de Língua Portuguesa; Morfossintaxe; Canção popular
THAINÁ DA SILVA SOUZA
[Análise do Discurso]
Rage farming: uma análise discursiva-mediológica do caso de Nikolas Ferreira e Érika Hilton
O presente estudo investiga o fenômeno do rage farming como estratégia contemporânea de produção de engajamento e efeitos de sentido no ambiente digital. O termo rage farming refere-se à prática de provocar indignação ou ódio deliberadamente para gerar interações em plataformas digitais, explorando a dinâmica algorítmica das redes sociais (WESLEY, 2023). Assim, por meio do pathos (AMOSSY, 2005), que diz respeito às emoções despertadas no público a partir de mecanismos discursivos que mobilizam afetos a fim de persuadir, essa ferramenta tem sido utilizada no campo político para ampliar visibilidade, instigar apoiadores e intensificar disputas discursivas que interferem na circulação de sentidos na esfera pública. O objetivo da pesquisa é analisar como o rage farming pode ser acionado discursivamente para a mobilização política e amplificação de conflitos no ambiente digital. O corpus de análise é constituído por publicações políticas veiculadas na rede social Instagram, com destaque para os vídeos publicados pelos deputados federais Nikolas Ferreira e Erika Hilton sobre mudanças no sistema de pagamentos PIX, anunciadas pelo Governo Federal. O vídeo de Nikolas alcançou mais de 300 milhões de visualizações, enquanto Erika obteve mais de 100 milhões de visualizações. Assim, ambos os vídeos geraram intenso debate entre apoiadores e críticos. A pesquisa adota uma abordagem teórico-metodológica tomando como base a Análise de Discurso francesa (Orlandi, 2015; Pêcheux, 1975) e os estudos mediológicos (Debray, 1993), estes contribuirão para compreender o instagram como um mídium, portanto um suporte que define como os discursos vão circular digitalmente. Enquanto aquela será utilizada para examinar as estratégias discursivas presentes nas publicações e as formas pelas quais o conteúdo mobiliza reações emocionais, compartilhamentos e disputas interpretativas entre diferentes grupos de usuários. Para tanto, conceitos de Maingueneau (2008) serão utilizadas para sustentar a aproximação entre Análise do Discurso e Mediologia, sobretudo ao considerar que as práticas discursivas não podem ser dissociadas dos dispositivos materiais e institucionais que possibilitam sua circulação. A análise considera ainda o funcionamento dos algoritmos das plataformas digitais, que tendem a ampliar a visibilidade de conteúdos que geram alto nível de interação. Além da metodologia discursiva-mediológica, estudos de Han (2018) auxiliarão na reflexão acerca da massa digital e do uso estratégico da polarização e da desinformação no debate público contemporâneo. Como contribuição, o estudo busca compreender de que modo práticas discursivas baseadas na produção de indignação podem influenciar a circulação de informações e a formação da opinião pública nas redes sociais.
Palavras-chave: Análise do discurso; mediologia; rage farming
THAINÁ DE FÁTIMA VELOSO
[Linguística Aplicada]
As ações da Comunidade Teletandem na UNESP-Araraquara: um mapeamento do percurso histórico do projeto
Um modelo de intercâmbio virtual (IV) pioneiramente promovido no Brasil por Telles e Vassallo (2006) e atualmente o modelo mais popular no país é o Teletandem, prática baseada nos princípios do tandem (Brammerts, 1996), portanto, focada no bilinguismo, reciprocidade e autonomia (Vassallo; Telles, 2006). Apesar da vasta literatura na área da telecolaboração, do crescimento de interesse nos IVs e do amplo alcance da proposta no território brasileiro, não há, até o momento, um trabalho que trilhe o percurso histórico do teletandem na Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr), câmpus da UNESP, descrevendo o desenvolvimento dos cenários pedagógicos e de aprendizagem (Aranha; Leone, 2017) e mapeando as ações da Comunidade Teletandem (CT) (Rampazzo; Aranha, 2019, 2026) que ali se desenvolve. Assim, este trabalho objetiva fazê-lo a partir da reconstituição dos cenários de aprendizagem. A presente pesquisa, que se caracteriza como secundária e qualitativa, parte da análise documental dos trabalhos disponíveis no repositório institucional da UNESP, quais sejam 16 estudos que se concentram no teletandem no contexto da FCLAr, publicados entre 2018 e 2025. Com base em Rampazzo (2025), os procedimentos de análise adotados caracterizam-se pela reconstituição dos cenários de aprendizagem para a descrição das ações da CT, identificando os elementos que descrevem a oferta do projeto na instituição ao longo dos anos, sob a premissa de que compreender os propósitos e práticas dos membros de uma comunidade não só relaciona-se ao (in)sucesso de parcerias, como permite compreender melhor as características dos contextos e implementar melhores práticas (Aranha; Telles, 2011; Bozhinova, 2024; Castro-Prieto et al., 2022; Nissen et al., no prelo; Rampazzo; Aranha, 2026). Os resultados parciais apontam que há uma constância no número e na duração das sessões orais, no uso de plataformas digitais, na modalidade e tipologia das ofertas, mas também documentam mudanças significativas em relação às sessões de mediação, à utilização dos diferentes aplicativos, além de mencionar novas parcerias em diversos idiomas. Tais resultados, além de descreverem a trajetória do projeto e da CT no campus a partir do que informam seus membros pesquisadores, têm o potencial de oferecer subsídios empíricos do modelo de telecolaboração de maior alcance no país e favoreçam a replicação, adaptação e gestão de projetos similares. (Apoio: FAPESP - Processo: 2025/23899-6)
Palavras-chave: Teletandem; Intercâmbio virtual; Comunidade teletandem
THALES MODA MARQUES
[Sociolinguística e Dialetologia]
A variação 'nós'/ 'a gente' na fala paulistana: o papel das marcas morfêmicas de concordância
Com base na Teoria da Variação e Mudança Linguísticas (Weinreich, Labov, Herzog, 1968, Labov, 1972, 1994, 2001, 2010), essa pesquisa investigou o fenômeno linguístico de alternância dos pronomes de primeira pessoa do plural nós e a gente na posição de sujeito, para observar o possível impacto de conjugações verbais que formam palavras proparoxítonas (saliência fônica esdrúxula). Trabalhamos com as seguintes hipóteses: (i) que tais formas verbais seriam evitadas com a variante conservadora nós, gerando uma construção não padrão e (ii) que o efeito de rejeição às formas esdrúxulas também poderia levar a um favorecimento da variante inovadora a gente. O pronome a gente não é alvo de avaliação negativa, pois o verbo que o acompanha traz as marcas morfêmicas de concordância. As ocorrências analisadas fazem parte das entrevistas sociolinguísticas do projeto SP2010, um banco de dados coletado para representar a comunidade de fala do português brasileiro na capital de São Paulo. Desse banco de dados, foram selecionadas 12 entrevistas a fim de formar um recorte balanceado para 3 variáveis extralinguísticas: sexo/gênero, faixa etária e nível de escolaridade. Os dados foram analisados também segundo as variáveis linguísticas saliência fônica e concordância verbal com o auxílio da plataforma R. Assim, foi possível observar que a capital paulista apresenta um quadro avançado de mudança linguística, uma vez que a variante inovadora a gente é usada de modo categórico ou quase categórico em todas as entrevistas, permeando todas as categorias sociais. A análise dos fatores linguísticos elencados revelou um favorecimento ainda maior de uso de a gente quando o pronome é sujeito de verbos dentro das categorias de saliência fônica esdrúxula e saliência fônica mínima, confirmando nossa hipótese. Poucos dados foram produzidos sem adesão às normas de concordância verbal, mas os dados de nós sem concordância foram todos ligados a verbos com saliência esdrúxula.
Palavras-chave: Pronomes de primeira pessoa do plural; Saliência Fônica; Variação Linguística
THEO KATSUO NAKAMURA
[Divulgação Científica]
“Intrusos impertinentes”: o imaginário político-cultural da classe marginal brasileira contemporânea à mercantilização das baixas culturas.
A pesquisa visa evidenciar historicamente as contradições sistêmicas no processo de marginalização de indivíduos, sintomáticas na consolidação das identidades brasileiras, a partir da urbanização e surgimento das periferias no início do século XX, juntamente à ascensão positivista e constante repressão dos corpos marginalizados; no entanto, diante da estruturação das culturas periféricas no século XXI, e o fenômeno da desterritorialização e fetichização do “favelismo” pelo centros capitalistas. A análise ocorre através de bibliografias complementares acerca do recorte temático, coleta de fontes e ou dados demográficos e desenvolvimento científico do corpo textual do projeto. Com enfoque na tônica no imaginário político-cultural dos “intrusos impertinentes” (CUNHA, 1995) – dos classificados como malandros, marginais e vagabundos (MISSES, 1999); não obstante, atualmente com a estigmatização dos “favelados”. Político, pela repressão sistemática – episódio retratado na obra de Euclides da Cunha, por exemplo – e cultural pela exportação dicotômica entre o processo civilizatório e marginalizador brasileiro, e a apropriação da cultura periférica. Sendo assim, por meio da figuração desta “classe de intrusos” através do poema-bandeira “Seja Marginal, Seja Herói” de Hélio Oiticica (1968), e a contiguidade entre arquétipos de Marginal e Herói – que refletem na desvirtuação com o maniqueísmo social e, consequentemente, suscitando na figura do “marginal-herói” contraposto ao imaginário do “trabalhador” e da precarização da liberdade; o objetivo é receptar os reflexos positivistas à mercantilização das “baixas culturas” (especificamente da cultura periférica contemporânea) e da “nova barbárie” (BENJAMIN, 1987); perpassando pela desterritorialização do imaginário cultural (MATTE, 2020) nos lugares estrangeiros ao poder nacional (HONESKO, 2008). Portanto, perante a historicidade e contemporaneidade da “dialética da marginalidade” brasileira (ROCHA, 2006), as atividades elaboradas acerca deste projeto contribuem para o entendimento histórico da repressão e exclusão histórica dos corpos periféricos, pretendendo mitigar o estigma presente no imaginário social e a precarização da liberdade destes sujeitos, através da valorização da cultura marginalizada.
Palavras-chave: Mercantilização cultural; Marginalização; Desterritorialização
THYAGO BARROS MOREIRA
[Literatura Brasileira]
A SÁTIRA NOS FOLHETINS DE EUCLIDES FARIA
O trabalho consiste na analise do folhetim "Cartas a todo mundo: 1. Ao comércio" (1884), publicado sob o pseudônimo de Compadre Lourenço, que era identidade literária de Euclides Faria, autor reconhecido por tecer sátiras contundentes às figuras e costumes da sociedade maranhense, sob a ótica da teoria de Henri Bergson em sua obra O Riso (1978). O objetivo central do estudo é identificar os mecanismos do cómico e a função social do riso presentes na crítica à elite comercial de São Luís no século XIX, partindo do pressuposto bergsoniano de que o riso atua como um "gesto social" que pune a rigidez e a falta de adaptabilidade dos indivíduos frente às exigências da vida coletiva. Com base nisso, é possível observar o viés satírico e irônico de Euclides Faria quando utiliza a estratégia narrativa de conduzir o leitor por um "passeio" crítico pelos espaços de São Luís, para evidenciar a paralisia social que Henri Bergson define como rigidez mecânica. Assim, o autor expõe uma cidade que se tornou um campo deserto, destacando a dura indiferença de uma elite que Bergson associa à "anestesia do coração", estado indispensável para que o cômico se manifeste e cumpra sua função social corretiva. Essa observação dos problemas urbanos revela o "mecânico calcado no vivo": uma classe comercial que, em vez de demonstrar a maleabilidade necessária para superar a crise, permanece presa a automatismos burocráticos, vivendo "entre a Razão e o Diário", jornais que simbolizam o enrijecimento de hábitos profissionais diante de uma realidade econômica que exige ação. Assim, ao mostrar que ninguém parece interessado em mudar o cenário de marasmo, conclui-se que esse folhetim utiliza o riso como um "trote social" corretivo, fundamentado na máxima ridendo castigat mores, visando despertar o comércio maranhense de seu estado de indiferença e restaurar a tensão vital necessária para a reintegração do indivíduo ao fluxo produtivo da sociedade.
Palavras-chave: Cômico; Euclides Faria; Sociedade
VANESSA DOMINGUES PRATA
[Análise do Discurso]
Elaboração de diretrizes para o uso pedagógico da Inteligência Artificial generativa na produção de materiais didáticos para a Educação a Distância
Este trabalho apresenta uma pesquisa em desenvolvimento que tem como objetivo elaborar diretrizes pedagógicas para o uso da Inteligência Artificial (IA) generativa na produção de materiais didáticos para a Educação a Distância (EaD), com foco na formação docente e na qualificação das práticas pedagógicas em ambientes digitais. A pesquisa parte da compreensão de que a crescente incorporação de ferramentas de IA na educação tem sido frequentemente associada a discursos de inovação, eficiência e automatização, sem que, contudo, haja processos sistemáticos de reflexão crítica sobre seus efeitos pedagógicos, éticos e discursivos. Ancorado nos pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso de orientação francesa, especialmente de Michel Pêcheux, e de Eni Orlandi no contexto brasileiro, o estudo compreende a IA generativa não como instrumento neutro, mas como dispositivo técnico-discursivo que intervém nas condições de produção do discurso pedagógico contemporâneo. A pesquisa busca analisar criticamente os efeitos da mediação algorítmica na elaboração de materiais didáticos para a Educação a Distância, considerando aspectos como autoria, responsabilização enunciativa, mediação pedagógica e circulação dos sentidos em ambientes digitais de aprendizagem. O trabalho parte da constatação de que a incorporação crescente de ferramentas de Inteligência Artificial na educação tem ocorrido, muitas vezes, sem diretrizes pedagógicas consolidadas que orientem seu uso de maneira crítica, ética e alinhada aos objetivos educacionais. Na Educação a Distância, esse cenário evidencia a necessidade de refletir sobre os usos dessas tecnologias na elaboração de atividades e recursos didáticos. Assim, a pesquisa propõe identificar potencialidades, limites e desafios associados ao uso da IA generativa na EaD, com o objetivo de sistematizar diretrizes pedagógicas e boas práticas. Metodologicamente, a pesquisa possui caráter qualitativo e será desenvolvida em três etapas principais: levantamento bibliográfico; análise de materiais didáticos digitais produzidos com e sem apoio de ferramentas de IA; e realização de testes orientados de uso dessas tecnologias na elaboração de conteúdos pedagógicos. Como resultado, espera-se sistematizar um conjunto de boas práticas e diretrizes pedagógicas voltadas à formação docente e à mediação crítica do uso da IA em contextos educacionais. Pretende-se, assim, contribuir para o debate sobre tecnologias educacionais a partir de uma perspectiva crítica, ética e discursivamente situada, fortalecendo reflexões sobre autoria, ensino e produção de conhecimento na cultura digital contemporânea. Referências NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo: como o cérebro humano esculpiu o universo como o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020. ORLANDI, Eni P. Análise do discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2015. PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes, 2014.
Palavras-chave: Inteligência artificial; educação a distância; diretrizes pedagógicas
WANDER GUILHERME DE LIMA REMIGIO
[Análise do Discurso]
A fé midiatizada como produto simbólico: uma análise discursiva-mediológica do site oficial da igreja Reino Church
A presente pesquisa, uma Iniciação Científica vinculada ao grupo de pesquisa Estudos Linguísticos (ELIN), do IFSP - Campus Cubatão, utiliza-se do aporte teórico-metodológico baseado na análise discursivo-mediológica (SALGADO, 2020), conceito que articula a Mediologia de Debray (1993, 2004), compreendendo os meios como vetores de sensibilidade e matrizes de sociabilidade responsáveis pela circulação e estabilização dos discursos. Tal metodologia será mobilizada para entender que os enunciados que circulam na internet estão veiculados aos suportes que os sustentam, como sugere Maingueneau (2008). Assim, a Análise do Discurso (ORLANDI, 2015) de tradição francesa e seus conceitos, como formação discursiva, condições de produção, além da paráfrase e da metáfora, também auxiliarão na análise de enunciados que circulam digitalmente. O corpus contemporâneo inicial são enunciados retirados, em 2024, do site oficial da Reino Church. De orientação neopentecostal, esta igreja surgiu durante a pandemia de COVID-19 e ganhou destaque por sua estética minimalista, pelo uso da língua inglesa e por se apresentar como um espaço digital contemporâneo voltado à evangelização em ambientes digitais. Nesse sentido, o ambiente digital não funciona apenas como meio de transmissão, mas como condição de existência da própria experiência religiosa contemporânea, pois passa a ser midiatizada reformulando os sentidos da evangelização. A escolha do material de análise teve como critério principal uma igreja que mobilizasse os valores da disciplina e da produtividade, da lógica de mercado e da midiatização da fé, de maneira concreta em seus enunciados. Posto isto, esta pesquisa analisa as condições de produção que possibilitaram o desenvolvimento de uma igreja virtual, mediada pela tecnologia e que se relaciona com o Capitalismo de Vigilância (ZUBOFF, 2019), operando segundo a lógica da economia do escopo e da economia da ação ao coletar dados dos fieis mediante a um cadastro para esses receberem conteúdos exclusivos, transformando a fé em produto simbólico e a experiência espiritual em mercadoria comunicacional. Diante disso, investigam-se as estratégias discursivas que contribuem para legitimar práticas sociais associadas à ética protestante da disciplina e da produtividade, conforme discutido por Weber (2004), bem como sua articulação com formas de reprodução ideológica descritas por Althusser (1985). Ainda, analisa-se a substituição de formas tradicionais de enunciação por novas cenas discursivas mediadas pela tecnologia e pela lógica de mercado (MAINGUENEAU, 2004), uma vez que, ao entender que a digitalização do espaço religioso transforma seus ritos, a análise evidencia mudanças nas experiências humanas vivenciadas na igreja ao priorizar o ambiente digital.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Mediologia; discurso religioso
WILSON BUENO DE OLIVEIRA JUNIOR
[Semiótica]
VALORES, PRÁTICAS E MODOS DE VIDA NO DISCURSO DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ
Esta pesquisa tem o objetivo de discutir como ocorre a construção do discurso do grupo religioso “Testemunhas de Jeová” a partir das publicações distribuídas no serviço proselitista, bem como aquelas destinadas ao público interno. Inicialmente, buscará compreender o estatuto dessas publicações, como sua circulação ocorre e de que maneira são encaradas pelos membros. Em seguida, aplicando o Percurso Gerativo de Sentido proposto pela semiótica discursiva, a pesquisa se verticalizará numa análise que buscará encontrar os preceitos gerais de organização interna dos textos nas publicações, de maneira que essa possibilite a construção dos valores que orientam as práticas e o modo de vida do grupo. Neste sentido, buscará compreender como se dá, inicialmente, o contrato fiduciário entre os editores e seus leitores, considerando as estratégias de veridicção ali presentes, que permitem a veiculação e adesão às axiologias defendidas pelo grupo. Para se compreender a circulação desses valores, os elementos e etapas do nível semionarrativo e suas respectivas figurativizações e tematizações no nível discursivo funcionarão como um aparato metodológico ótimo para a compreensão de como as crenças são construídas: inicialmente, a ideia de Paraíso veiculada pelo grupo assemelha-se à ideia de recompensa, descrita no esquema canônico, que pressupõe a existência de uma performance e de uma manipulação, sendo este de real interesse pela pesquisa, que buscará abordar duas diferentes perspectivas para compreensão do esquema manipulativo: as para o público em geral e aquelas para manutenção do público fiel já batizado. Por fim, por se tratar de uma religião cristã, é de se esperar que valores do patriarcado atravessem a construção das práticas e do modo de vida jeovista – assim, singularizado, dado o evidente incentivo à adesão à alteridade e assunção da identidade unívoca do grupo. Dessa forma, a pesquisa buscará analisar como são encarados (restringidos) os valores identitários, em especial àqueles que se referem ao uso dos corpos e a tensão existente entre a virtualidade dos atributos cristãos e a prática de grupos historicamente minorizados em relação ao cristianismo e ao patriarcado.
Palavras-chave: Religiosidade; Identidade; Testemunhas de Jeová
YAGO MIGUEL FERREIRA FRANÇA
[Linguística Aplicada]
Pluralidade decolonial no ensino de fonética do francês: reflexões sobre a descentralização da norma oral em FLA.
O ensino de fonética do francês em contextos de Francês como Língua Adicional (FLA) ainda é frequentemente atravessado por perspectivas normativas que privilegiam variedades eurocentradas da língua, sobretudo a pronúncia parisiense e metropolitana, tomada como modelo legítimo de oralidade. Em muitos contextos de ensino, a oralidade francesa é apresentada a partir de um ideal de pronúncia associado à França metropolitana, frequentemente desvinculado das múltiplas realidades linguísticas e culturais que compõem o espaço francófono. Tal centralização acaba por marginalizar outras variedades do francês, como as presentes em países africanos, caribenhos e americanos, contribuindo para a reprodução de imaginários linguísticos hierarquizantes e monocêntricos. Dessa forma, determinadas variantes fonéticas passam a ser percebidas como mais adequadas ou corretas do que outras, reforçando relações históricas de poder herdadas da colonialidade. Esta perspectiva contribui para a manutenção de assimetrizações linguísticas e culturais, que reforçam ideologias linguísticas coloniais (Flores; Rosa, 2015). Em diálogo com perspectivas decoloniais (Walsh, 2009) na educação linguística, torna-se relevante problematizar como determinadas hierarquizações linguísticas contribuem para a invisibilização da pluralidade fonética das francofonias no ensino de FLA. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo refletir sobre possibilidades de descentralização da norma oral no ensino de fonética do francês, considerando contribuições da decolonialidade, da linguística aplicada crítica e das discussões acerca da pluralidade linguística e cultural das comunidades francófonas, considerando sua diversidade fonética e a valorização de diferentes repertórios linguísticos (García; Wei, 2014). Além disso, busca-se refletir sobre como práticas pedagógicas voltadas à pluralidade linguística podem favorecer uma escuta mais crítica e sensível às diferentes realizações fonéticas da língua francesa, ampliando as possibilidades de representação das francofonias em sala de aula. A discussão proposta também pretende contribuir para debates acerca da formação docente em FLA, especialmente no que diz respeito à construção de abordagens menos normativas para o ensino da oralidade. Para tanto, a pesquisa de caráter bibliográfico e qualitativo fundamenta-se em perspectivas voltadas à pluralidade linguística e à ecologia das línguas (Calvet, 1999), buscando discutir como práticas pedagógicas mais plurais podem contribuir para uma educação linguística crítica e menos centrada em ideologias linguísticas coloniais.
Palavras-chave: Ensino de FLA; Fonética do Francês; Decolonialidade